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2011© daniela bastos dos santos

Coordenação Geral

Dani Bastos

Coordenação de Pesquisa

Dani Bastos

Produção Executiva

Dani Bastos

Registro Fotográfico e Assistente de Pesquisa

Tenily Sales

Registro Fotográfico e Audiovisual

Alcides Ferraz

Projeto Gráfico

Zé Ricardo

Edição/Revisão de Texto

Aroma Bandeira

Assistente de Produção

Mônica Santana

Bastos, Dani.

Coco de Umbigada: cultura popular como ferramenta de transformação social / Dani Bastos; Recife: Editora Daniela Bastos dos Santos, 2011.

244p.:il.

Acompanha CD em bolso. ISBN 978-85-912743-0-7

1. Culturas Populares e Tradicionais. l. Bastos, Dani. ll. Título.

CDD-B980.03

Direitos reservados Daniela Bastos dos Santos

danibastos30@gmail.com

Agradecimentos

Em primeiro lugar ao nosso grandioso Olorum que, na sua generosidade, nos concede a benção de alcançar nossos objetivos; Aos orixás - nosso caminho, situação e destino; À minha mãe Edna Gomes Bastos, pelo eterno incentivo; À Maria de Fátima Diniz Costa - Mãe Fátima de Oxum Nin Nin, pela doce e acolhedora orientação espiritual; Aos amigos-irmãos e fotógrafos Alcides Ferraz e Tenily Sales, meus companheiros de todas as horas durante este trabalho; À Zé Ricardo, por acreditar na proposta; À Beth de Oxum, Quinho Caetés, Oxaguiam, Ialodê, Mayra e Ynaê, a Daniel Luís, a Cristiano - o Tkralzy, a Luciano Lima, a Armandinho do Reggae, Robinho e a todos integrantes do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, moradores da comunidade do Guadalupe e frequentadores da Sambada de Coco do Guadalupe; Aos Mestres Griôs Mãe Lúcia de Oyá e a comunidade do Terreiro Ilê Axé Oyá Togun,

Mestre Zeca do Rolete e toda sua família, Mestre Pombo Roxo

e Mestra Aurinha do Coco; À Professora Glauciane Maciel e

todo corpo docente da Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula; A Kennedy Piau - por me guiar pelo árduo

caminho acadêmico; A Afonso Oliveira - pela credibilidade no meu trabalho como produtora cultural das culturas populares

e tradicionais; À Aroma Bandeira; por me ajudar a trilhar os

caminhos da literatura; Á Mônica Santana, a Marcelo Renan e equipe do Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural

- Casa do Carnaval; À Funarte; A todos aqueles que dieta ou indiretamente contribuíram para que este livro saísse da esfera do sonho e se tornasse uma realidade.

Índice

Capítulo 1

O

Coco e a Sambada - Manifestações Culturais Nordestinas

25

Capítulo 2

Sambada de Coco do Guadalupe - Resistência e Protagonismo Cultural Histórico da Sambada de Coco

47

A Pré-produção da Sambada de Coco

79

A produção da Sambada de Coco do Guadalupe

95

Problemas Enfrentados: Descaso do Poder Público,

Intolerância Religiosa e Perseguição Policial

99

Capítulo 3 Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada

119

Mãe Lúcia de Oyá

133

Mestre Zeca do Rolete

147

Mestra Aurinha do Coco

161

Mestre Pombo Roxo

175

Capítulo 4

A

parceria do Ponto de Cultura Coco de Umbigada

com a Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula

187

Capítulo 5

Considerações

203

Capítulo 6 Pernambuco se Envergonha com ação da Polícia Militar

217

Repertório e Ficha Técnica do CD Demo do Coco de Umbigada

227

Capítulo 7 Referências Bibliográficas

233

Um relato com alma, ritmo e espírito

Afonso Oliveira João Pessoa, 09 de setembro de 2011

Dani Bastos nos brinda com um daqueles livros que nos recolhemos em um canto para não sermos incomodados. Uma

rede embaixo de uma palmeira em praia deserta é o ideal. E aí mergulhamos por inteiro até sentirmos nosso corpo sambar,

a alma se revoltar e o espírito ficar mais esperançoso.

Esse pequeno e precioso relato em forma de livro nos

ensina o que é uma rede cultural; como nasce uma tradição

e como ela se relaciona com seu tempo; como os cantos aos

ancestrais trazem energias para as culturas de matrizes africanas e brasileiras; de onde surge a liderança nas horas de horror impostas pelo Estado; como se constrói uma sociedade mais coletiva a partir do quase nada, ao redor de apenas um tambor; como o programa Cultura Viva transformou várias sociedades brasileiras; como crianças

bem orientadas e educadas podem construir ideais, sonhos

e encher os homens de esperança.

Nossa pesquisadora e produtora cultural fala da força

da mulher para quebrar regras, enfrentar a polícia e bater o tambor. Essa sua identificação com a luta de Beth de Oxum

é para mim a maior motivação desse livro. Outra motivação

também se faz latente: o respeito aos mestres e suas histórias de vida e ensinamento. E quanto ensinamento se encontra na mãe preta Lúcia de Oyá, outra mulher forte, e Dani se entrega de corpo e alma ao redigir suas palavras!

O capítulo que me tomou com força é o que enumera toda

a pré-produção e produção da Sambada de Coco. Ele traduz a

certeza de que as comunidades devem se apoderar dos meios de produção de sua própria cultura. Dani Bastos sabe da importância desse trabalho, porque é também uma produtora cultural, e sempre trabalhou com projetos para uma camada pobre da sociedade, e nos resultados desses projetos coloca sempre em destaque o trabalho da comunidade.

Ela fortalece a memória do povo brasileiro a partir desta história em que mergulhou profundamente. É quase um depoimento, onde a pesquisa é um complemento e não a essência. Uma forma necessária para a compreensão da produção cultural coletiva e comunitária, cujos atores escrevem suas histórias e estas histórias serão impressas neste livro de uma tradição que não morrerá tão cedo. E Dani

nos mostra isso ao contar a violência policial que sofreu o Ponto de Cultura Coco de Umbigada naquele fatídico sete de fevereiro.

O bairro do Guadalupe já viveu muitas histórias ao longo de sua organização. Nesse momento, quem lá faz a história

são todos que estão envolvidos direta e indiretamente com o

O Ponto de Cultura Coco de Umbigada. O Ponto é inspirador,

é pulsante, é democrático e o mais importante é produção

cultural comunitária e responsável.

Agora, leitores e admiradores da cultura popular, só restam a vocês procurarem um cantinho e mergulharem nessa

história que vem de Pernambuco, esse Estado de contradições

e maravilhas. Maravilhas como a história de Quinho Caetés,

Beth de Oxum, seus filhos e uma comunidade que se apoderou

e que tem uma rádio chamada Amnésia. Uma comunidade

que soube valorizar o trabalho dessa incansável produtora cultural e pesquisadora.

Prefacio

Kennedy Piau

Darcy Ribeiro afirma, em seu livro O povo brasileiro, que

o processo de mestiçagem no Brasil criou um homem novo.

Ao longo do tempo as etnias indígena, portuguesa e africana serviram para a formação de esse novo grupo, esse outro que já não é mais o índio autóctone, ou o negro africano, ou o português.

Neste novo país de dimensão continental e de nova gente

– marcado pela desigualdade –, a formação cultural, fruto da

transmissão oral, gerou processos de hibridização (troca, mistura) que formataram a diversidade cultural brasileira. Há comunidades que preservam os valores tradicionais, advindas de setores historicamente marginalizados, que produzem manifestações culturais de caráter popular e dinâmicas, exercendo uma função no contexto em que estão inseridas. Muitas destas manifestações agregam e difundem valores como a solidariedade, a humildade, o espírito coletivo, o

respeito aos mais velhos e à natureza, próprios deste tipo de organização social. Estas manifestações contêm formas de experiência estética que não se especializaram, não se restringiram aos aspectos formais, não se transformaram em algo cujo único sentido é o de ser produzido para uma contemplação esnobe ou para o mercado, como acontece nos campos das artes chamadas eruditas.

Com a arte tradicional – como é o caso do Coco de Umbigada – é diferente. Como nos diz Roberto Da Mata, ela satisfaz uma função social, compõe o imaginário popular, se relaciona com os demais aspectos da vida social das comunidades. Nesse tipo de manifestação artística (ou cultural), a forte relação entre a natureza e cultura cria uma lógica própria diferente da lógica racionalista, na qual predominam os interesses econômicos. Segundo este autor, a relação com as lendas e os mitos seria uma das maiores características da cultura e da arte tradicional, demonstrando uma visão mais holística (mais global e integrada) do mundo, no qual a natureza e a cultura, os mortos e os vivos, o mundo do real e o mundo do imaginário se relacionam de forma intensa. As festas e as manifestações artísticas das comunidades tradicionais reafirmam um mundo mágico, opondo-se, desta forma, à lógica racionalista da sociedade capitalista – onde predomina o interesse do mercado e a busca pelo lucro. Assim, para o autor, o popular reintroduziria no mundo individualizado

capitalista a velha generosidade da troca, na qual os seres

humanos dentro das relações interpessoais, como filhos, amigos

e parentes, têm a obrigação de dar e receber.

No entanto, a imposição do modelo de desenvolvimento

baseado nos valores dominantes da cultura ocidental, na ideologia do progresso, na busca de lucros imediatos e na imposição da indústria cultural tem alterado radicalmente a produção material

e simbólica destas comunidades e suas manifestações artísticas.

Cada vez mais, a lógica do capital, na sua imposição pelo lucro financeiro, se intensifica impulsionada pela recente etapa do processo de globalização. Esta globalização, falsamente apresentada como um intercâmbio econômico e cultural equilibrado entre todos os países do mundo, na realidade seria uma tentativa de mundialização da cultura do consumo, como afirma Renato Ortiz. Ao tornar-se impositiva, a globalização levaria a um desmantelamento dos modos de vida que ainda trazem em si elementos que não formam parte da lógica capitalista. Este desmantelamento se daria principalmente através da indústria cultural e dos meios de comunicação de massas.

Maria Nazareth Ferreira afirma que a cultura hegemônica, identificada como a cultura das elites dos países ricos, se impõe cada dia mais, mundializando a cultura do consumo e do modo

de vida capitalista. Há, neste sentido, um desmantelamento dos

modos de vida tradicionais e a desintegração de valores culturais que trazem em si formas de explicação, compreensão e vivência diferentes daquelas defendidas pela cultura dos países centrais, mais poderosos econômico política e militarmente. Enquanto na cultura hegemônica dos países centrais está presente o individualismo, a concorrência e a depredação da natureza, nas culturas tradicionais encontraram valores como a reciprocidade,

o respeito ao outro e à biodiversidade, que podem nos ajudar na busca por um novo parâmetro de construção social.

Neste sentido é importante a iniciativa do Ministério da Cultura, através da Funarte, de incentivar pesquisas que tenham como objeto de estudo as artes tradicionais no Brasil. E é, por outro lado, louvável que este incentivo não tenha ficado restrito ao âmbito meramente acadêmico e possa ter chegado à gente como Dani Bastos.

Pessoalmente, sinto-me satisfeito pelo convite para escrever este pequeno texto. Primeiro porque conheci Dani

durante uma pesquisa de campo em que tive o prazer de conhecer

o trabalho do Ponto de Cultura Núcleo de Memória e Produção

Cultural Coco de Umbigada e pude constatar o importante e diversificado trabalho que estas pessoas desenvolvem com tanto empenho, seriedade e leveza. Senti-me satisfeito por poder

contribuir minimamente quando da elaboração do projeto, e entusiasmado ao perceber agora que uma pessoa que, em um determinado momento, fez parte do “meu objeto de estudo” é simultaneamente sujeito na produção de novos conhecimentos. Neste sentido, este livro expressa um olhar de dentro, um olhar engajado de quem se encontra no olho do furação. A crítica, própria do mundo da universidade, se encontra com a necessidade de um texto que possa ser compreendido por um

conjunto amplo e diversificado de leitores. Além de se propor

a compreender as implicações sociais do trabalho relacionado

ao Ponto de Cultura, a autora afirma –ou reafirma – seu compromisso em socializar tal compreensão, possibilitando aos

mestres da cultura popular e aos brincantes em geral o acesso

a suas próprias memórias e às reflexões que podem ser usadas

como instrumento de luta contra a histórica opressão à qual estas comunidades foram e são submetidas.

Segundo porque posso perceber no texto o apoderamento de uma lutadora que consegue navegar com determinação nos mares da academia e nos mares da cultura tradicional sem negar neste trânsito o que há de melhor nos dois campos: a crítica e a paixão.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Capítulo 1 Sambada: Manifestação Cultural Nordestina

O Coco é uma manifestação da cultura popular que possui múltiplas vertentes que se proliferam pela região nordeste brasileira: Coco de roda, Coco de praia, Coco de embolada, Coco de rojão, Coco de zambê, Coco de umbigada, entre muitos outros.

Muitos pesquisadores e estudiosos concordam que

a origem do folguedo vem da troca de experiências

entre indígenas e africanos, provinda provavelmente dos cantos de trabalho da atividade “coqueira”. Para

suavizar a intensa jornada de trabalho, os “quebradores” de coco versavam e rimavam sobre o seu dia a dia. Para quebrar a casca do fruto, colocavam-no em uma pedra

e batiam-no com outra até a rachadura. Acredita-se surgir daí o ritmo da manifestação.

Dani Bastos

Há um consenso entre os Mestres e brincantes entrevistados por nós e a bibliografia consultada para esta pesquisa. Segundo ambas as fontes, o Coco era uma brincadeira mais recorrente no período junino, presença constante nos festejos para São João, São Pedro e Santana. Ocasionalmente, fazia-se o Coco em festividades familiares ou em momentos de folga. Nas últimas duas décadas, com a criação e implementação das políticas culturais que reconheceram e incluíram as expressões artísticas das manifestações de culturas populares e tradicionais nas programações culturais, passamos a ver também o Coco em outros ciclos festivos, como por exemplo, durante o carnaval.

Não encontramos na literatura o conceito ou a

definição da expressão Sambada de Coco. Os Mestres

e brincantes entrevistados neste trabalho definem a

Sambada como a festa, a reunião, o encontro, o espaço

para cantar, dançar, tocar, celebrar, ou seja, Sambada é

o espaço para brincar, sambar o Coco.

Também são poucas as referências ao significado de Sambada de Maracatu de Baque Solto, uma manifestação da cultura popular encontrada na Zona da Mata do Estado de Pernambuco, cujos brincantes

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

são em sua maioria trabalhadores do corte da cana de açúcar. Fazendo uma analogia, o conceito de Sambada de Maracatu de Baque Solto assemelha-se ao da Sambada de Coco. “A Sambada se constitui o espaço onde os trabalhadores rurais se congregam, cantam, dançam, conversam, bebem, fumam bastante. Além de ensaio é diversão, é o lazer das classes subalternas da Zona da Mata”. (Medeiros, 2005, p. 102).

Nas expressões e manifestações das culturas populares e tradicionais é difícil demarcar com precisão o início e o término do que é trabalho e do que é lazer, em qual momento o som que ecoa dos tambores é direcionado para os humanos ou para as divindades; os limites são tênues, interligados. Assim é a Sambada de Coco, uma amálgama, mistura heterogênea, tudo ao mesmo tempo, agora.

Partindo dessa breve explanação sobre as origens da manifestação do Coco e de um dos espaços onde é realizada, iremos mergulhar no universo da Sambada de Coco do Guadalupe, realizada há treze anos pelo Ponto de Cultura Coco de Umbigada, de Olinda, Pernambuco. Abordaremos um pouco da sua origem, dos seus protagonistas, do seu processo de produção,

Dani Bastos

dos seus mecanismos de difusão, da sua interface com as ferramentas da tecnologia, dos problemas enfrentados, das suas parcerias, dos seus Mestres, do seu cotidiano.

Vamos conhecer a história do casal rastafári Beth de Oxum e Quinho Caetés, dos seus quatro filhos – Oxaguiam, Ialodê, Mayra e Ynaê – e de todos que integram o Ponto de Cultura Coco de Umbigada que, guiados pela musicalidade ancestral evocada pelo toque da secular zabumba, tomaram nas mãos as rédeas de seus destinos, empoderaram sua comunidade e fizeram da cultura popular a ferramenta para a transformação social, experiência que virou modelo replicado hoje por vários Pontos de Cultura em todo o Brasil.

1. Beth de Oxum | Foto: Alcides Ferraz

2. Quinho Caetés | Foto: Tenily Sales

3. Daniel Luís | Foto: Alcides Ferraz

4. Ponto de Cultura Coco de Umbigada Guadalupe - Olinda - PE | Foto: Alcides Ferraz

5. Crianças | Foto: Tenily Sales

6. DJ NK Cumbia | Foto: Alcides Ferraz

7. Cristiano Lopes, o Tkralzy | Foto: Alcides Ferraz

8. Armandinho do Reggae Coordenador da Rádio Amnésia FM | Foto: Tenily Sales

9. Luciano Lima | Foto: Alcides Ferraz

10. Detalhe do quadro de avisos do Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales

11. No Guadalupe a umbigada não perde pra ninguém | Foto: Tenily Sales

12. Beth de Oxum e a pequena Ynaê | Foto: Tenily Sales

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Capítulo 2 Sambada de Coco do Guadalupe:

Resistência e Protagonismo Cultural

Histórico da Sambada de Coco

A Sambada de Coco do Guadalupe é uma brincadeira

de herança familiar de origens entre os séculos XVIII e XIX.

A família Barbosa, residentes na Aldeia de Paratibe, no

município de Paulista, Estado de Pernambuco, tinha a prática

de realizar a Sambada de Coco com seus familiares e com a

comunidade, tendo como protagonistas dessa atividade os Mestres de Coco João Amâncio e Zé da Hora.

Com as mortes dos Mestres, a Sambada de Coco se calou por quase 40 anos. Em junho de 1998, a musicista, mobilizadora e articuladora social Maria Elizabeth Santiago de Oliveira, a Beth de Oxum, retomou a luta pela tradição ancestral da Sambada de Coco junto com seu marido, o músico percussionista José Carlos Barbosa, de nome artístico Quinho Caetés, e os filhos, Oxaguiam, Ialodê, Mayra e Ynaê – herdeiros

Dani Bastos

familiares da brincadeira, respectivamente neto e bisnetos dos referidos Mestres de Coco. Beth de Oxum recuperou a secular zabumba ancestral usada pelos antigos Mestres para animar

a roda de Coco. Com muito empenho e autoestima o grupo

voltou a realizar a Sambada, todo primeiro sábado de cada mês. O intuito era promover o pertencimento e consolidar a brincadeira do Coco na comunidade do Guadalupe, situada no entorno do Sítio Histórico da cidade de Olinda, Pernambuco. Atualmente a Sambada de Coco se realiza todo primeiro sábado de cada mês na Rua João de Lima, o popular Beco da Macaíba, em frente ao n°. 42, (onde se localiza o Ilê Axé Oxum Karê ou Terreiro da Umbigada), Guadalupe, Olinda – PE. Tem caráter lúdico, amplo e gratuito garantindo à população o direito de fruição aos bens de natureza imaterial.

Com a realização sistemática da Sambada de Coco com periodicidade mensal, podemos dizer que “retomou-se um costume”. Hobsbawn nos alerta para a importância da

distinção entre costume e tradição. Segundo o autor, costume

é o termo mais adequado para denominar as práticas dos

povos ou grupos das culturas populares ou tradicionais, pois o costume incorpora gradativamente alterações e mudanças, assim como a própria vida. Já a tradição é regida pela continuidade artificial, pela referência ao passado com formas quase que obrigatórias.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

O ‘costume’, nas sociedades tradicionais, tem a dupla função de motor e volante. Não impede as inovações e pode mudar até certo ponto, embora evidentemente seja tolhido pela exigência de que deve parecer compatível ou idêntico ao precedente. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção do precedente, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. O ‘costume’ não pode se dar ao luxo de ser invariável, porque a vida não é assim nem mesmo nas sociedades tradicionais.” (Hobsbawn e Ranger, 1997, p. 10).

Encontramos a reflexão de Hobsbaw no seguinte exemplo.

Até meados da década de 60, a grande maioria dos brincantes de Maracatu de Baque Virado(1) , era constituída por praticantes do candomblé, considerando que a brincadeira foi criada pelos negros africanos vindos para o Estado de Pernambuco na condição de escravos e possuía fortes vínculos com a religião.

(1) Também conhecido como Maracatu de Nação Africana, folguedo típico do carnaval do Recife, criado pelos africanos que vieram para o Estado de Pernambuco na condição de escravos. É considerado uma das manifestações lúdicas mais próximas das raízes africanas do folclore brasileiro. Acredita-se que sua origem é a festividade católica de reis-negros, celebrada na Festa do Rosário. Nos arquivos da Irmandade do Rosário dos Pretos, do bairro de Santo Antonio (Recife) há documentos sobre a celebração da coroação de reis negros desde os tempos coloniais. Nos grupos mais tradicionais, há ainda memória daquela festa e seus integrantes continuam a realizar reverencias com cânticos em honra de Nossa Senhora do rosário, na porta de suas igrejas. A marca da cultura africana está na música e na dança, como também na organização social dos grupos e na sua ligação com os cultos afro-brasileiros. Esta ligação é tão forte que o maracatu é tomado como uma expressão religiosa. Na verdade o maracatu tem sido manifestação lúdica dos grupos religiosos jeje-nagô do Recife.

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Nessa época, o Maracatu de Baque Virado era considerado uma brincadeira de negros, de xangozeiros(2), de vagabundos ou de pobres e estes eram alguns dos motivos pelos quais a brincadeira não era muito apreciada pelas classes mais favorecidas. Mas na década de 90, por influência do movimento mangue-beat, ocorre uma valorização das manifestações culturais populares pernambucanas e em especial, do Maracatu de Baque Virado e esse olhar das elites sobre o Maracatu transforma-se ou inverte-se. Muitos jovens pertencentes às classes sociais médias e altas se interessam pelo brinquedo e começam a freqüentar os bairros da periferia do Recife, a ingressar e participar ativamente das Nações de maracatu, sem necessariamente ter laços com o candomblé. Hoje esses grupos são compostos de um perfil bastante heterogêneo de pessoas e isso se atribui a essa maravilhosa característica de serem ao mesmo tempo os mesmos e outros. São simultaneamente os mesmos Maracatus de Baque Virado de séculos atrás e outros, pois também são Maracatus de Baque Virado contemporâneos.

Hoje o folguedo se resume ao cortejo – o desfile de uma corte real negra, obedecendo ao estilo das procissões católicas. Conta com uma orquestra exclusivamente de percussão, chamada de “baque-virado”, constituída de bombos, tarol, caixa-de-guerra, gonguê e mineiro, em numero variado, de acordo com a organização do grupo.O canto – denominado de “toada”– é tirado por um dos dirigentes do grupo e respondido em coro pelos demais desfilantes.

(2) No Estado de Pernambuco, os cultos de matriz africana também eram conhecidos por ‘Xangôs’, conseqüentemente seus praticantes eram denominados xangozeiros.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Seguindo a linha de raciocínio colocada por Hobsbawn, entendemos que se os grupos de Maracatu de Baque Virado fossem seguir a tradição à risca, provavelmente já estariam extintos ou seriam pouquíssimos ainda em atuação, pois o mundo e a sociedade mudaram. Mas na busca constante pela continuidade, os grupos se adaptaram, absorveram as mudanças históricas, sociais e culturais que o tempo traz impreterivelmente, se reinventaram. Mantiveram o costume e com isso trazem o ressignificado de sua própria existência.

A brincadeira se fortalece no Guadalupe, onde Beth de Oxum já exercia uma mobilização sociocultural popular através do seu Terreiro Cultural – o Terreiro da Umbigada (3). E assim se iniciou o projeto No Guadalupe o Coco é de Umbigada. A atividade começou no quintal do Terreiro e logo em seguida ganhou a rua, transformando-se ao longo de treze anos ininterruptos na tradicional Sambada de Coco do Guadalupe, que mobiliza atualmente um público rotativo aproximado de 2.000 mil pessoas que engloba os moradores da comunidade do Guadalupe e localidades do entorno (Amaro Branco, Bonsucesso, Barreira do Rosário, Monte, V8 e Cohab), coquistas(4), brincantes, Mestres Griôs(5), comunidade dos terreiros de Candomblé e da Jurema Sagrada, artistas, produtores culturais, gestores públicos, turistas, imprensa, professores e estudantes universitários, comerciantes

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informais, entre outros. Na perspectiva de manutenção, salvaguarda e continuidade, a Sambada valoriza a diversidade cultural da manifestação do Coco e suas vertentes e promove a difusão desta brincadeira.

“É a autoestima de uma comunidade!”, brada Beth de Oxum repetidas vezes durante a Sambada de Coco.

Em 2004, o Coco de Umbigada torna-se um Ponto de Cultura, através do I Edital Público dos Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, na gestão do Ministro Gilberto Gil. Este Programa promove a diversidade cultural brasileira, através da cultura, da educação e da cidadania. Os Pontos são uma parceria entre o Governo Federal e a sociedade civil, e contemplam iniciativas culturais que desenvolvam atividades de arte, cultura, cidadania e economia solidária em suas comunidades.

(3) Atualmente é o Terreiro de Matriz Africana Ilê Axé Oxum Karê. (4) Coquista é o todo aquele que pratica cotidianamente através da música e da dança o Coco – manifestação e ritmo popular nordestino de origem afro-indígena que possui várias vertentes pelo Nordeste brasileiro afora. Alguns exemplos: Coco de roda, Coco de embolada, Coco de rojão, Coco de Umbigada, entre outros. (5) Abrasileiramento de griot, palavra francesa (Turino, 2009, p. 97). São considerados Griôs, todos aqueles que detêm um saber adquirido ao longo de suas vidas, pela experiência prática ou pela intuição. O Griô é um guardião da memória e da história oral de um povo ou comunidade, são lideres que têm a missão ancestral de receber e transmitir os ensinamentos das e nas comunidades. (www.cultura.gov.br) Alguns exemplos: Yalorixás, Babalorixás, Parteiras, Rezadores, Contadores de História, Mestres de percussão popular, Pajés, entre outros.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Os Pontos recebiam na época recursos do Governo Federal (185 mil reais, divididos em cinco parcelas semestrais) para potencializarem seus trabalhos, podendo ser com compras de instrumentos musicais, figurinos, equipamentos multimídias, contratação de profissionais, produção de espetáculos, eventos, entre outros. “Ponto de Cultura é um conceito. Um conceito de autonomia e protagonismo sociocultural” (Turino, 2009, p. 15).

O Ponto de Cultura Coco de Umbigada tem sede na Rua do Guadalupe, No. 380, Guadalupe, Olinda – PE, e tem como missão a preservação da memória e a difusão da cultura popular, com ênfase na manifestação do Coco e suas vertentes. Nessa região concentram-se um número expressivo de artistas populares, grupos culturais e agremiações carnavalescas da cidade de Olinda, município outorgado como 1ª Capital Brasileira da Cultura, sendo, portanto uma das regiões mais importantes culturalmente dentro do Estado de Pernambuco, apesar de, em contraponto, a localidade apresentar uma das maiores densidades demográficas, o que gera problemas sociais como escassez de empregos, transporte insuficiente, dificuldade no acesso à educação, habitações precárias, aumento da poluição, o que consequentemente acarreta danos ambientais e agrava a questão da saúde, acarretando

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numa diminuição da qualidade de vida. É um dos mais baixos IDH(6) da cidade.

Com o reconhecimento, a legitimação e o incentivo do Governo Federal, o Coco de Umbigada fortalece e amplia suas ações e atividades iniciando um processo de transformação social irreversível.

Tão ou mais importante que o recurso é o processo de transformação que o Ponto de Cultura desencadeia:

respeito e valorização das pessoas da própria comunidade, novas formas de pactuação entre Estado e sociedade, fortalecimento da autonomia, conexão em rede, intensificação da troca de saberes e fazeres, liberação de sonhos e energias criativas. Os valores que o Ponto de Cultura agrega vão além dos monetários (Turino, 2009, p. 43).

Algumas destas ações e atividades desenvolvidas são as oficinas contínuas de inclusão sociocultural. Às terças acontecem a Oficina de Ritmos, Cantos e Danças de Umbigada do Brasil. Seus participantes são crianças, adolescentes, jovens músicos e simpatizantes da arte percussiva.

(6) IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é um índice que serve de comparação entre os países, com objetivo de medir o grau de desenvolvimento econômico e a qualidade de vida oferecida à população. Este índice é calculado com base em dados econômicos e sociais. No cálculo do IDH são computados os seguintes fatores: educação (anos médios de estudo), longevidade (expectativa de vida da população) e Renda Nacional Bruta.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

É ministrada por Beth de Oxum e Quinho Caetés,

e os conteúdos trabalhados são os ritmos e a dança de

manifestações populares brasileiras de raiz afro-indígena,

a exemplo do Coco, Jongo, Tambor de Crioula e Samba

de Roda; já as quartas é a vez da Oficina de Inclusão Digital/Tecnologia da Informação e Comunicação, que

é direcionada para o público adolescente e adulto jovem.

Trabalha a inclusão digital utilizando o software livre(7) e explora o uso inteligente das ferramentas da tecnologia. Outras ações e atividades que merecem destaque são: O Tele Centro Umbigada, que disponibiliza diariamente, em média dez computadores para acesso gratuito à internet; o Cine Clube Macaíba, que aproxima a comunidade da sétima arte, lazer considerado elitista e muitas vezes inacessível no aspecto financeiro a moradores das periferias; a Rádio Amnésia FM, que entra no ar todos os dias levando sua rica e diversa programação para cerca de 700 ouvintes; a Ação Griô(8) , que promove encontros intergeracionais e, usando a prática da oralidade, integra o Ponto, a escola e os Mestres de tradição oral, símbolos da ancestralidade do povo brasileiro; os grupos musicais Coco de Umbigada, Coco de Umbigadinha, Ciranda de Acalanto e Afoxé Filhos

da Oxum que fazem apresentações artísticas em festivais, congressos, mostras culturais e eventos afins pelo Brasil afora. Essas são as ações desenvolvidas pelo Ponto de

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Cultura, que ainda tem fôlego e incentiva e estimula a geração de trabalho e renda com os moradores locais sob a proposta da economia justa e solidária.

O Ponto de Cultura Coco de Umbigada é uma referência da região nordeste do Brasil dentro do Programa Cultura Viva, tendo conquistado diversos prêmios: Prêmio Culturas Populares – 2007; Prêmio Escola Viva – 2007; Prêmio Pontinhos de Cultura/Ludicidade – 2008; Prêmio Cultura e Saúde – 2008; Prêmio Mídias Livres – 2009; Ação Griô 2007/2008 e 2008/2009; Prêmio Asas, entre outros.

Podemos afirmar que a Sambada de Coco do Guadalupe

é o cerne, o eixo central, a mola mestra do Ponto de Cultura

Coco de Umbigada. É nesta ocasião que os participantes das

oficinas, os locutores da Rádio Livre Amnésia FM, os Mestres de tradição oral, brincantes e colaboradores do Ponto de Cultura de diversas áreas do conhecimento exercitam a troca dos saberes e fazeres adquiridos e praticados durante o dia

a dia da instituição.

(7) Conforme a definição de software livre criada pela Free Software Foundation, Software Livre, ou Free Software, é o software que pode ser usado, copiado, estudado, modificado e redistribuído sem restrição. A forma usual de um software ser distribuído livremente é sendo acompanhado por uma licença de software livre (como a GPL ou a BSD), e com a disponibilização do seu código-fonte. (http://br-linux.org/faq-softwarelivre/). (8) A Ação Griô Nacional é uma ação compartilhada no âmbito do Ministério da Cultura através da Secretaria de Cidadania Cultural, SCC-MinC e o Ponto de Cultura Grãos de Luz/ Lençóis-BA, visa a preservação das tradições orais das comunidades e a valorização dos Griôs, Mestres e Aprendizes enquanto patrimônio cultural brasileiro (www.cultura.gov.br).

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

A realização da Sambada de Coco do Guadalupe é um modelo no que diz respeito à produção cultural independente dentro do Estado de Pernambuco que apesar da vasta diversidade cultural ainda apresenta poucos espaços culturais gratuitos fora dos grandes ciclos festivos – carnavalesco, junino e natalino.

Grande parte de nossa diversidade cultural está à margem dos mercados de produção cultural, consequência de políticas públicas de cultura baseadas no lucro, nos eventos de qualidade duvidosa, nas formas equivocadas de incentivos culturais e nas desigualdades econômicas (Oliveira, 2010, p. 22).

O Coco de Umbigada se empoderou, e não aceita a condição de refém que muitas vezes o poder público e a iniciativa privada insistem em impor aos artistas e grupos das culturas populares e tradicionais. “O empoderamento devolve poder e dignidade a quem desejar o estatuto de cidadania, e principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio destino com responsabilidade e respeito ao outro” (Pereira, 2006). O Ponto de Cultura Coco de Umbigada subverte, resiste, se auto-organiza, protagoniza, cria e recria seu próprio palco e suas próprias formas de realização, difusão e fruição de sua produção cultural.

Dentro deste contexto, a Sambada de Coco do Guadalupe, como uma das atividades realizadas pelo Ponto de Cultura, é

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uma prova viva, concreta e real de que é possível realizar uma gestão cultural apesar das adversidades, da insuficiência de recursos financeiros e de apoios institucionais. É uma proposta de organização e mobilização social e popular que poderia ser adaptado e inserido nas políticas públicas de cultura e replicado em outras comunidades do Estado.

“Acho que a Sambada do Guadalupe é uma resistência cultural, um encontro, uma celebração das pessoas que querem ver o Coco sobreviver”, diz a professora de inglês Joana de Farias Melo, frequentadora da Sambada há 7 anos.

A Sambada de Coco do Guadalupe engloba várias atividades

que dialogam entre si durante sua realização.

A primeira delas é o Cine Clube Macaíba, que se inicia por

volta das 19h e exibe em um telão montado em frente ao Ilê Axé Oxum Karê filmes escolhidos pela equipe do Ponto de Cultura. Essa escolha geralmente é norteada pelo mesmo critério da criação do projeto gráfico, que é o tema da Sambada de Coco daquelemês,maspodeexibirtambémumlançamentodealguma produção de um cineasta local, por exemplo. Essa atividade reúne uma plateia de 500 pessoas em média, formada em sua maioria por crianças e jovens acompanhados geralmente pelos pais ou responsáveis, moradores da comunidade e entorno,

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pelos comerciantes ambulantes e seus familiares, cineclubistas

e apreciadores do audiovisual em geral. O objetivo do Cine

Clube Macaíba é democratizar o acesso à produção audiovisual pernambucana e nacional – filmes, documentários, animações e vídeos focados nas culturas populares e tradicionais de matriz africana e indígena –, promover a autoestima e o pertencimento do público morador da comunidade e seu entorno e demais frequentadores da brincadeira em relação à identidade social, étnica e cultural.

Em seguida, o DJ NK Cumbia inicia as atrações musicais da noite, esquentando a plateia. Emanuel Albuquerque, que toda rapaziada conhece também como Nekinho, é morador da efervescente comunidade de Peixinhos, em Olinda, a qual ganhou notoriedade nos anos 90 por ser o berço de grandes artistas do movimento mangue beat, como o saudoso Chico Science, ex-integrante da banda Nação Zumbi. O estilo do discotecário, como se auto-define NK Cumbia, percorre pelos diversos ritmos da musicalidade latina, como a salsa,

merengue, bolero, cumbia e guaracha, lapidado por um extenso

e intenso trabalho de pesquisa com antigos guaracheiros de seu bairro e arredores.

Depois, é a vez do Coco de Umbigadinha. O grupo é fruto das oficinas Ritmos, Cantos e Danças de Umbigada do Brasil e

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O Coco e suas vertentes, ministradas no Ponto de Cultura

Coco de Umbigada por Beth de Oxum e Quinho Caetés com a comunidade infanto-juvenil. Não existem o que os grupos artísticos e culturais compreendem como ensaios, a

brincadeira do Coco se incorporou ao dia a dia das crianças do Guadalupe, é uma prática cotidiana, espontânea, como

ir à escola ou assistir desenho animado na televisão. É

também um dos grupos de difusão musical do Ponto e

o exercício prático da continuidade da brincadeira e da

formação de futuros Mestres e brincantes. Sem destoar da maioria das casas regida pela orixá Oxum, a emanação da alegria da presença vivaz das muitas crianças é uma das características marcantes do Ponto de Cultura Coco de Umbigada. É um momento lúdico, pueril da Sambada, muito apreciado e aplaudido pelo público.

A última atração da noite tem início por volta das 22 horas, quando o Grupo Coco de Umbigada – principal representante da musicalidade do Ponto de Cultura – começa a pisada. Sob a liderança de Beth de Oxum, vários coquistas e os Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada, apresentam um repertório que inclui composições autorais e do cancioneiro popular, estabelecendo a troca de saberes e fazeres das matrizes africanas e indígenas até alta madrugada em Olinda.

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Pra onde tu vai, menina? Vou pra Olinda brincar Pra onde tu vai, rapaz? Vou pra Olinda brincar Vou dançar Coco de Umbigada Até o sol raiar No Guadalupe a umbigada não perde pra ninguém, de Beth de Oxum.

A música é a linguagem guia, é o vínculo, o elo com

a continuidade ancestral da Sambada de Coco. Durante toda a noite loas tradicionais, de domínio público

e também composições autorais são entoadas pela

musicista Beth de Oxum, pelos Mestres Griôs e por vários outros coquistas anônimos do grande público. As músicas autorais do grupo Coco de Umbigada reforçam

a autoestima, o sentimento de pertencimento, a

identidade étnica, cultural e religiosa, pois contam a trajetória e história do grupo, apresentam seus atores sociais, louvam suas divindades e entidades espirituais, falam sobre o cotidiano da comunidade do Guadalupe,

entre outros temas. Uma pequena mostra pode ser conferida no CD com três faixas autorais do grupo Coco de Umbigada que integra este livro.

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Para os povos de matriz africana a música e a dança, a festa em si é um presente dos orixás, como conta a lenda:

Dizem que certa vez Orunmilá veio à Terra Acompanhando os orixás em visita

a seus filhos humanos,

Que já povoavam este mundo, já trabalhavam e se reproduziam. Foi quando ele humildemente pediu a Olorum-Olodumare Que lhe permitisse trazer aos homens

algo novo, belo e ainda não imaginado, Que mostrasse aos homens a grandeza

e o poder do Ser Supremo.

E que também mostrasse o quanto Olorum Se apraz com a humanidade. Olodumare achou justo o pedido

E mandou trazer a festa aos humanos.

Olodumare mandou trazer aos homens

a música, o ritmo, a dança.

Olodumare mandou Orunmilá trazer

para o Aiê os instrumentos, os tambores que os homens chamam de ilu e batá, os atabaques que eles denominam de rum, rumpi e lé,

o xequerê, o gã e o agogô e

outras pequenas maravilhas musicais. Para tocar os instrumentos, Olodumare ensinou os alabês, Que sabem soar os instrumentos que são a voz de Olodumare.

E os enviou, instrumentos e músicos, pela mão de Orunmilá.

Quando ele chegou à Terra, acompanhando os orixás

E trazendo os presentes de Olodumare,

A alegria dos humanos foi imensa.

E, agradecidos, realizaram então

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A primeira e grande festa neste mundo,

Com toda a música que chegara do Orum

como uma dádiva,

Homens e orixás confraternizando-se com

a música e a dança recebidas.

Desde então a música e a dança estão presentes na vida dos humanos

E são uma exigência dos orixás quando eles visitam nosso mundo.

(Prandi, 2001, p. 446, 447)

Nesse contexto, os tambores exercem um papel sagrado, são veículos de comunicação. No passado, transmitiam as

mensagens entre as tribos, pois estas se situavam a distâncias consideráveis umas das outras e possuem também a propriedade de estabelecer o elo entre as dimensões, ligando, fazendo a comunicação entre o Orum (Céu, mundo dos orixás)

e o Aiê (Terra, mundo dos homens).

A zambumba ancestral centenária da família Barbosa, quando resgatada por Quinho Caetés na casa de um tio, teve o couro e as cordas renovadas, mas conserva ainda o mesmo bojo de macaíba, o mesmo aro de jenipapo e carrega

a imantação da energia das várias mãos que a percutiram e a

repercutiram ao longo de mais de um século. Quinho Caetés expressa o simbolismo desse tambor que alinhava a trajetória dessa herança cultural.

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Aquele tambor tá ali como celebração, tem vez que eu faço ritual, eu boto fogo, uma coisa bem indígena, um símbolo, pra nós é uma coisa muito rica, é como se

tá todo mundo, vamos dizer assim: em um minuto

de silêncio, tá? Veja só como eu faço a sensibilidade, então, aquele tambor pra tocar é como se fosse um símbolo mesmo que você levanta ele e diz: tá aqui

o troféu do teu povo, tá aqui o troféu da minha

nação que até hoje existe, né? Que tá vivo até hoje mostrando pro mundo todo esse ritmo, que onde eles

cantavam, onde eles se abraçavam, brincavam

fogo, onde eles brincavam com aqueles instrumentos, era brincadeira, mas a brincadeira hoje pra nós é responsabilidade, carregamos um símbolo de um povo, de uma nação, dentro de um ritmo, de uma cultura muito grande que é o nosso Brasil(9).

aí tá o

Em forma de rodízio, todos os Mestres Griôs e coquistas recebem a chance de mostrar seu estilo e seu trabalho. A oportunidade é garantida, tanto na exposição quanto na fruição da produção cultural, pois a organização da noite é feita à luz do compartilhamento. Nesse contexto, é possível encontrar semelhanças com o período carnavalesco, pois simultaneamente todos são palco e plateia.

“Na verdade, o carnaval ignora toda distinção entre

atores e espectadores. [

assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo” (Bakhtin, 1987, p. 06).

Os espectadores não

]

(9) Depoimento prestado por Quinho Caetés a esta pesquisa, coletado no dia 05 de abril de 2011.

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Durante a Sambada, é no mínimo interessante observar as belas e exímias performances de dança tanto dos coquistas quanto do público. É uma dança permeada de expressões

corporais peculiares, características, espontâneas, intuitivas. Não há coreografias, técnicas ou regras pré-estabelecidas, como nas modalidades e estilos ensinados nas academias

e escolas de dança. O processo de aprendizagem se dá na

vivência, na participação das rodas de Coco. Mas alguns

brincantes demonstram, que além das habilidades artísticas

e corporais, ainda possuem o dom de se conectar com a

dimensão ancestral/espiritual da qual é oriunda a brincadeira do Coco – a Jurema Sagrada.

Não podemos deixar de ressaltar aqui as referências ancestrais/religiosas da manifestação do Coco que são o Candomblé e o culto da Jurema Sagrada. Essa ancestralidade/ religiosidade é o fio condutor e mantenedor das diversas manifestações populares e tradicionais presentes no nosso Estado. A ancestralidade/religiosidade é o alicerce, é o motivo pelo qual essas manifestações resistiram historicamente à repressão, à violência, à intolerância e ao preconceito até os dias atuais.

Desde a infância, Beth de Oxum frequentava os Terreiros de Candomblé e de Jurema da periferia de Olinda, sua cidade natal. Ainda conserva a memória viva das lembranças das festividades

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para os santos Cosme e Damião, santos católicos que no sincretismo religioso são relacionados aos Ibejis, orixás gêmeos protetores das crianças muito cultuados no nordeste do Brasil.

Em sua juventude quando militava no Movimento Negro

Unificado e integrava o Afoxé Alafin Oyó, do qual chegou

a ser presidente, Beth achava que era filha da orixá Oyá,

pois identificava-se com o arquétipo da mulher guerreira, independente, destemida, características dessa deusa africana.

Mas quando de frente para o jogo de búzios, oráculo das religiões de matriz africana pelo qual se conhece o orixá regente da pessoa, quem falou foi Oxum. No início Beth ficou um pouco inconformada, mas aos poucos, conhecendo melhor as nuances

da

deusa, veio o encantamento.

Oxum era muito bonita, dengosa e vaidosa, ela gostava de panos vistosos, marrafas de tartaruga e tinha, sobretudo, uma grande paixão pelas joias de cobre. Antigamente, este metal era muito precioso na terra dos iorubas. Só uma mulher elegante possuía joias de cobre pesadas. Oxum era cliente dos comerciantes de cobre. Omiro wanran wanran wanran om iro! ‘A água corre fazendo o ruído dos braceletes de Oxum!’ (Verger, 1997).

Hoje, reconhecemos imediatamente Oxum em todos os cantos

do

Ponto de Cultura Coco de Umbigada – na cor amarela das paredes,

nas crianças que correm e brincam livres incansavelmente, nas portas sempre abertas para todos que chegam. Oxum está presente até no

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nome artístico e agora religioso de sua coordenadora, Beth de Oxum. Oxum é a madrinha do Coco de Umbigada.

Recentemente Beth recebeu a patente de Ebami (10) pelas mãos de Mãe Lúcia de Oyá, e inaugurou o Ilê Axé Oxum Karê – o Terreiro da Umbigada, que completou dois anos agora em julho de 2011. Para Beth, as duas mais importantes missões das casas de candomblé são o acolhimento indiscriminado de todos aqueles que por caminhos e motivos variados chegam aos Terreiros, independente da etnia, da crença religiosa, da faixa

etária, da sexualidade, da classe social, da condição econômica;

e também a consolidação da família, quer seja a família

sanguínea, como a família construída pelos laços espirituais.

O homem ocidental contemporâneo, cada vez mais urbano,

distanciou-se da natureza. Concebe-se um ser superior, à parte, individual e não um ser integrado aos ecossistemas e biomas.

O desmatamento, a poluição, a matança de animais, tudo isto

distancia o homem do universo espiritual e, na ótica da matriz africana, afasta o homem da natureza e consequentemente dos orixás, pois os orixás são a própria natureza – a água, o ar, as plantas, as pedras, a terra, por exemplo, são alguns dos elementos cultuados pelos adeptos do Candomblé.

(10) Pessoa no Candomblé que já cumpriu o período de iniciação, na feitura de santo, já tendo feito a obrigação de sete anos.

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Beth de Oxum é uma das maiores representantes atuais do protagonismo feminino dentro do universo das culturas populares e tradicionais. Durante muito tempo o papel da mulher dentro dos folguedos esteve em segundo plano, ofuscado pela predominância do machismo em nossa sociedade. Foi uma das primeiras mulheres no Estado de Pernambuco a quebrar o tabu da relação entre a mulher e o tambor, rompeu paradigmas e deu a volta nos palcos do mundo tocando os instrumentos de percussão.

Em parceria com Mãe Lúcia de Oyá e o Ilê Axé Oyá Togun, desenvolvem as atividades do Ponto de Cultura Ensinamentos de Mãe Preta, cujo intuito maior é promover encontros das mulheres que estão à frente de Terreiros de matriz africana e indígena e também que são lideranças comunitárias, articulando em rede e fortalecendo as ações do segmento de gênero.

A Sambada de Coco do Guadalupe é um encontro simultâneo de opostos complementares: passado e presente, sagrado e profano, tradição e modernidade, palco e plateia, humano e espiritual, amalgamados, mesclados, conectados e combinados em uma grandiosa celebração mágica e atemporal. Caminhando na linha tênue de delimitação dessas esferas, percebemos que a Sambada de Coco do

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Guadalupe é uma brincadeira que extrapola, que transcende

o puro entretenimento; ela é uma louvação, um chamado,

um momento de encontro atemporal com a ancestralidade.

Sem fugir à regra das brincadeiras populares de rua, no auge da Sambada temos a sensação de passar para outra dimensão. Para compreender a Sambada de Coco do

Guadalupe em sua totalidade é necessário um novo olhar,

é preciso se desprender das certezas. Deveríamos talvez

utilizar o macroscópio de Joël de Rosnay (1995, p. 15).

O macroscópio filtra os pormenores, amplia o que os liga, põe em evidência o que aproxima. Não serve para ver maior ou mais longe, mas sim para observar aquilo que é simultaneamente demasiado grande e por demais complexo para os nossos olhos.

1. Beth de Oxum e Quinho Caetés | Foto: Alcides Ferraz

2. Mayra, Lalodê e Ynaê | Foto: Tenily Sales

3. Desenho feito por Lalodê | Foto: Dedê

4. Mayra, 8 anos em frente ao Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales

5. Detalhe da parede do Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales

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A pré-produção da Sambada de Coco do Guadalupe

O processo de pré-produção da Sambada de Coco do Guadalupe tem início com o envio de ofícios com cerca de quinze dias de antecedência para os seguintes órgãos públicos municipais:

• SEPLAMA – Secretaria de Transportes, Controle

Urbano e Ambiental/Prefeitura de Olinda, solicitando autorização para realização do evento;

• SEPACCTUR – Secretaria de Patrimônio e Cultura/

Prefeitura de Olinda, solicitando o envio dos banheiros químicos;

• 1º Batalhão de Polícia Militar, solicitando policiamento

para o evento visando garantir a segurança e harmonia do mesmo.

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Em todos os ofícios constam as mesmas informações de local, data e horário: Rua João de Lima, em frente ao No. 42, Guadalupe, Olinda PE, das 19h as 01h.

O passo seguinte é a escolha do tema da Sambada de Coco, que geralmente é guiado a partir do calendário do Candomblé Nagô pernambucano ou da Jurema Sagrada, ou seja, dedica-se o tema da Sambada aos orixás e/ou às entidades reverenciadas naquele mês. São levadas em consideração também as atividades realizadas naquele determinado período no Ponto de Cultura.

Escolhido o tema, vem a criação do projeto gráfico do cartaz de divulgação da Sambada de Coco do Guadalupe, que fica sob a responsabilidade do jovem Daniel Luís Albuquerque, 20 anos, músico e monitor de tecnologia da informação do Ponto de Cultura. Já o texto que acompanha o cartaz de divulgação é elaborado ora por Ronaldo Eli, assessor de comunicação do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, ora pela Beth de Oxum, ou às vezes coletivamente pela equipe do Ponto.

Iremos dar um exemplo concreto, para facilitar a compreensão desta etapa. Durante a pesquisa de campo deste projeto, nós acompanhamos a pré-produção da

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Sambada que seria realizada no mês de abril de 2011. O tema fez referência à mostra dos resultados de três meses de atividades realizadas pelos participantes da oficina Hackeando Parangolé, desenvolvida pela artista Cinthia Mendonça (RJ), que trabalhou a construção de artefatos com materiais luminosos (LEDs). A Oficina teve o incentivo do Prêmio Interações Estéticas 2010/Residências Artísticas em Pontos de Cultura/Funarte. Já o texto, cita a presença da nossa equipe realizando a pesquisa de campo para compor este livro, resultado final do nosso projeto.

O passo seguinte é o envio do cartaz de divulgação através da mailing list composta de cerca de 5000 endereços eletrônicos, direcionada ao público alvo de Pontos de Culturas, comunidade de Terreiros de Matriz Africana e Indígena, grupos de culturas populares e tradicionais, agremiações carnavalescas, movimentos sociais, movimentos de radiolivristas, de cineclubistas, produtores culturais, entre outros segmentos. O cartaz também é postado no blog do grupo(11) e nas principais redes sociais, a exemplo do Facebook.

(11) http://sambadadecoco.blogspot.com

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A Rádio Amnésia FM 89,5 mega-hertz é uma mídia livre que chegou ao Ponto de Cultura Coco de Umbigada através de uma oficina promovida pelo Prêmio Interações Estéticas/Funarte e se consolidou com o projeto aprovado no edital de Pontos de Mídias Livres do Ministério da Cultura que possibilitou a compra dos equipamentos – antena e transmissor. “O desempenho foi tamanho que o equipamento de rádio plantou raízes no Coco” (Gutierrez, 2009, p. 59). Partindo da compreensão que a comunicação é um direito humano e social, a Rádio Amnésia possui em sua grade de programação diversos programas protagonizados por moradores da localidade. Seu Abílio, comerciante local, realiza aos sábados o programa Forrozão do Abílio, com repertório de Luiz Gonzaga, Trio Nordestino e outros baluartes do autêntico forró nordestino; Armandinho do Reggae, Coordenador da Rádio Amnésia, vai ao ar diariamente com seu programa Conexão Reggae, trazendo desde o lendário Bob Marley as recém-criadas bandas da periferia da região metropolitana; o jovem monitor de tecnologia Daniel Luís, vem com o Consciência Hip Hop, com ênfase no hip hop nordestino; o Babalorixá Ivanildo de Oxóssi é o responsável pelo programa Boa Tarde Vodunce, no qual temas referentes à matriz africana são debatidos com convidados; Beth de Oxum, seus filhos e as demais crianças da comunidade fazem o Brincar para o sonho alimentar, promovendo a importância da cultura da infância.

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Comunicadores de outras comunidades também integram a grade, como o DJ NK Cumbia que difunde a música latina à frente do Coco de la Cumbia.

Os objetivos da Rádio Amnésia são a garantia ao direito

à comunicação através da democratização dos meios de

comunicação, o acesso à informação e fazer a difusão da produção musical não contemplada pelas mídias convencionais. Em um raio de 40 km de alcance, divulga a Sambada de Coco e suas atividades. “É a rádio que esqueceu do seu dinheiro”, diz o slogan durante a toda a programação.

Por outro lado, a questão envolve um grande paradoxo, um contrassenso. O Governo Federal dá com uma mão e

tira com a outra. O equipamento foi adquirido com recursos provindos de um prêmio do Ministério da Cultura, mas

o Ministério das Comunicações não autoriza a concessão

facilmente. Este processo torna-se burocrático, moroso, levam anos. “De um lado, um ministério potencializando a polifonia; de outro, instituições da mesma república podando essas novas falas” (Turino, 2009, p. 21).

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A legislação que regulamenta as rádios comunitárias

é bastante restritiva e não se ajusta à realidade

viva das comunidades que querem se expressar legitimamente. Processos de concessão de rádios

comunitárias levam anos para a serem autorizados, gerando um descompasso entre a vontade das comunidades em romper com o monopólio da mídia

e a legislação (Turino, 2009, p.21).

A Sambada de Coco do Guadalupe já é um evento assimilado pelos brincantes, simpatizantes e frequentadores das brincadeiras e manifestações das culturas populares e tradicionais de Pernambuco, que já sabem de cor o refrão repetido há treze anos pela Mãe Beth de Oxum: “Todo primeiro sábado do mês, no Guadalupe, o Coco é de Umbigada”.

1. Igreja do Guadalupe - Olinda - PE | Foto: Alcides Ferraz

2. Beco da Macaíba Guadalupe - Olinda - PE | Foto: Alcides Ferraz

3. Rose | Foto: Alcides Ferraz

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A produção da Sambada de Coco do Guadalupe

Os primeiros preparativos da produção da Sambada de Coco – a limpeza do local, a montagem e teste dos equipamentos de som e iluminação, a fixação da faixa do evento – começam na parte da manhã, por volta das 9h30 e são realizados pelos próprios componentes do Ponto de Cultura: o Coordenador Pedagógico Quinho Caetés, o músico Luciano Lima, o locutor da Rádio Amnésia FM Armandinho do Reggae e o jovem monitor de tecnologia Daniel Luís.

Em grande parte dos grupos de culturas populares e tradicionais e principalmente nos Terreiros de Candomblé, onde a base das relações é de parentesco, as refeições tem um significado sagrado e também social. “Comer é antes de tudo se relacionar” (Beltrame, 2008, p. 245). O alimento deve ser compartilhado, o ritual da comida é intensamente simbólico:

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é acolhimento, é fartura, é troca, estabelece vínculos,

fortalece laços, une. A Mãe Beth e sua família, as crianças da comunidade, os visitantes, os oficineiros, os músicos, os pesquisadores, a equipe do Coco de Umbigada: todos almoçam no Ilê Axé Oxum Karê.

Do meio para o final da tarde já começam a chegar os comerciantes informais de alimentos e bebidas que trabalham na Sambada. Instalam-se pelo Beco da Macaíba, com seus carros de mão, carroças, isopores, engradados, fogareiros e demais utensílios. Cachorro-quente, churrasquinho, pastel, queijo assado e outras iguarias regadas a muitas e muitas cervejas geladas compõem o cardápio da noite. “Festa sem comida e bebida é porque não dá mesmo!”, diz sorrindo o músico Luciano Lima. Para a maioria dos ambulantes, a Sambada proporciona o complemento da renda familiar. “Dá pra arrumar um trocado”, diz a comerciante Alcineide Maria, de 32 anos, que negocia onde tem festa de rua na cidade de Olinda. “Infelizmente aqui em Olinda não tem nada”, lamenta.

No paradoxo do binômio tradição-modernidade, o Ponto de Cultura Coco de Umbigada é um dos grupos de cultura popular que habilidosamente incorporou com maestria

e criatividade no seu cotidiano o diálogo inteligente da

tradição com as novas ferramentas da tecnologia. A Revista

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Vida Simples (2009) traz uma matéria sobre Beth de Oxum intitulada Guardiã Cibernética, reportando-se a como Beth usou os mecanismos da modernidade para favorecer a tradição.

Integrando o Programa Digital do Ministério das

Comunicações através da Rede Mocambos, rede que articula comunidades quilombolas urbanas e rurais em todo Brasil,

o Coco de Umbigada ampliou a capacidade de atendimento

do Tele Centro Umbigada que funciona diariamente, disponibilizando gratuitamente dez computadores para a comunidade do Guadalupe e entorno, promovendo o acesso

à inclusão/alfabetização digital para pesquisas, trabalhos escolares e atividades afins, utilizando uma metodologia

própria que foca o uso inteligente dessas ferramentas, visando

à informação e a comunicação, estimulando a produção

de conteúdos. Em entrevista a Revista Ministério das Comunicações (2008), Beth de Oxum afirma que “a internet mudou o paradigma da nossa comunidade”.

Foi essa parceria com as novas tecnologias, a inserção e conexão nas redes virtuais que repercutiu o grito de socorro e o clamor por justiça perante a violência policial sofrida pelo grupo como veremos a seguir.

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Problemas Enfrentados: Descaso do Poder Público, Intolerância Religiosa e Perseguição Policial.

Em nossa pesquisa, verificamos que o Ponto de Cultura Coco de Umbigada solicita através de ofícios apoio para a realização da Sambada de Coco do Guadalupe, conforme detalhamos no capítulo anterior. Porém, no dia 02 de abril de 2011, quando chegamos a Olinda às 9h e saímos ao término da Sambada de Coco, por volta de 3h da madrugada, constatamos que nem sempre as solicitações são atendidas pelos órgãos competentes.

Neste dia, os banheiros químicos não foram enviados, nem a Polícia Militar apareceu. Esse fato gera transtornos, aborrecimentos e desentendimentos com a vizinhança. Para ilustrar a situação, trazemos um exemplo concreto. Se a Secretaria de Patrimônio e Cultura/Prefeitura de Olinda não envia os banheiros químicos, em determinado momento os frequentadores da Sambada vão ter que fazer suas necessidades fisiológicas em algum lugar, mesmo que esse

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lugar seja o portão de algum morador da localidade. É óbvio que daí surgirá no mínimo um descontentamento.

A presença da polícia militar transmite a sensação de segurança e inibe um pouco os pequenos delitos. Alguns Mestres, vários brincantes e comerciantes informais queixam-se da falta de segurança na volta para casa ou a caminho da parada de ônibus ou táxi. Não são poucos os relatos de assalto. Mas é importante ressaltarmos aqui que isso não é uma situação exclusiva da comunidade do Guadalupe, Olinda ou Pernambuco. É uma situação presente em todas as periferias brasileiras. Em muitas delas a polícia é mais temida que os bandidos. Infelizmente ainda existe tratamento diferenciado da polícia para com a população, principalmente quando essa parte da população tem a cor da pele mais escura, quando o poder aquisitivo dessa população é menor e quando o conhecimento dos direitos humanos é praticamente inexistente.

No ano de 2009, a Sambada de Coco do Guadalupe sofreu com a perseguição e a violência policial. O ocorrido repercutiu nas redes virtuais de norte a sul do país. De forma geral, todos nós temos conhecimento seja através de livros e documentos históricos, de filmes e produções audiovisuais, em explanações ou palestras na escola ou na universidade ou mesmo ouvindo relatos de memória e depoimentos de antigos brincantes que, durante uma determinada época em nosso país, para os terreiros

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de Candomblé ou de Jurema Sagrada pudessem bater ou para que as agremiações carnavalescas e brinquedos populares

saíssem às ruas, por exemplo, era necessário pedir autorização

à

delegacia, deixando bem claro o dia e horário e muitas vezes

o

nome completo e documento de identificação das pessoas que

iriam estar naquele local ou participando daquela atividade. Caso contrário, a penalidade era a chegada truculenta da força armada da polícia, sem dó nem piedade disposta a espancar, apreender

e quebrar os instrumentos musicais e objetos de culto, prender,

humilhar, desmoralizar. Pois a prática do candomblé e das diversas manifestações e expressões das culturas populares e tradicionais eram consideradas contravenção, proibidas no âmbito da lei.

Mas existe uma enorme diferença entre ouvir falar

e vivenciar tal situação. Podemos pelo menos imaginar a

enormidade do desespero sentido pelos nossos antepassados, nossos avós, bisavós, tataravós, no momento em que estavam louvando os orixás ou estavam com suas agremiações ou seus brinquedos na rua e a polícia chegava destruindo os objetos do folguedo. Eles não tinham a quem recorrer, a quem pedir socorro, a quem denunciar, a quem pedir justiça. As opções eram correr para escapar, ou resistir e apanhar, ser preso, constrangido e algumas vezes se deparar com a morte e, apesar disso, conservar a fé e a esperança de que um dia, no futuro, as coisas pudessem ser diferentes.

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Tivemos, sim, muitas conquistas, inclusive no âmbito da legislação, pois a constituição brasileira garante a liberdade de credo e diz ainda que o Estado protegerá as manifestações oriundas das culturas populares e tradicionais, assim como qualquer dano ou ameaça a esse patrimônio serão punidos. A lei existe, mas nem sempre é cumprida, e em pleno século XXI ainda nos deparamos com a intolerância, com o preconceito, com a perseguição e com a violência, como veremos na descrição a seguir, elaborada a partir do que foi coletado por nossa equipe em entrevistas realizadas com os participantes do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, brincantes e freqüentadores da Sambada e moradores da comunidade do Guadalupe durante a etapa da pesquisa de campo deste projeto.

Dia 07 de fevereiro do ano de 2009. Dia de Sambada de Coco na comunidade do Guadalupe, o Coco de Umbigadinha, já fazia a passagem de som, para iniciar sua apresentação, que neste dia tinha um sabor especial, sabor de bolo confeitado, feito especialmente para comemorar a aprovação do projeto Uma brincadeira chamada Coco de Umbigadinha no Edital Pontinhos de Cultura/Ludicidade (12) , do Ministério da Cultura.

(12) Ação constituída através de edital do prêmio Pontinho de Cultura instituído pelo Ministério da Cultura através da Secretaria da Cidadania Cultural e da Secretaria de Articulação Institucional do Programa Mais Cultura. Os Pontinhos de Cultura visam mobilizar, sensibilizar e desenvolver conjuntamente com instituições públicas e entidades sem fins lucrativos a elaboração de atividades para a implementação e difusão dos direitos da criança e do adolescente, principalmente no que tange o direito de brincar enquanto patrimônio cultural

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A aura de comemoração e alegria que circundava os primeiros

momentos da Sambada de Coco foi substituída por um sentimento

de constrangimento e medo. O motivo foi a chegada de várias viaturas

das Polícias Civil e Militar do Estado de Pernambuco das quais desembarcaram cerca de 40 policiais usando coletes a prova de bala e pesados armamentos. Indagaram pela responsável pelo evento, Beth de Oxum, que se apresentou. Os policiais falaram que receberam uma denúncia e estão com ordem de cancelar a brincadeira, baseados na Lei do Sono ou Silêncio. Beth de Oxum argumentou que tinha autorização dos órgãos municipais competentes para realizar a celebração mensal e mostrou ao policial os ofícios enviados pelo Ponto de Cultura com a autorização conseguida e também os ofícios recebidos com as respectivas respostas, todas positivas. Apontou para o banner do evento, para as logomarcas dos apoiadores – Prefeitura de Olinda, Fundarpe (13) – Governo do Estado de Pernambuco e Ministério da Cultura. Mas nada disso foi suficiente. Em entrevista, Beth de Oxum declarou:

OCapitãoDanielPereiradissequeeramentiraquetínhamos esse apoio, que forjamos um banner, pois o Ministério da

Cultura não apoiaria projeto ‘de um povo com estes cabelos’.

Tudo a mando do Major Marcos Pereira e do seu irmão

Capitão Daniel Pereira, moradores da nossa comunidade do Guadalupe. A mãe é evangélica e eles não aceitam, não toleram e não respeitam o nosso trabalho e a religiosidade

de matriz afro (Gutierrez, 2009, p. 62).

] [

(13) Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – www.fundarpe.pe.gov.br

Dani Bastos

Os equipamentos de som começaram a ser recolhidos e

colocados nas caminhonetes da Policia. Alguém na plateia instigou:

“Vamos fazer como faziam nossos avós, na voz e na palma da mão”.

E as crianças do Coco de Umbigadinha, fazem ecoar a centenária

zabumba, acompanhada pelos pandeiros e ganzás. A polícia arrancou os instrumentos das mãos das crianças. A comunidade vaiou os policiais. “Vão prender ladrão!” – gritaram indignados os moradores.

O comandante da operação insistiu para que Beth de Oxum o acompanhasse até a delegacia, para, segundo ele,

dar explicações da “infração” que estaria cometendo contra

a Lei do Sono. Ela recusou-se. Falou que fazer Coco não era

mais crime. Beth de Oxum telefonou para Márcia Souto, na época Secretária de Cultura de Olinda e relatou o que estava acontecendo e pediu explicações, pois no dia anterior, sexta feira dia 06 de fevereiro tudo foi combinado em uma reunião na qual estavam presentes os representantes do município de Olinda e da própria Polícia Militar para acerto de normas para a realização da Sambada, Márcia Souto tranquilizou Beth, disse que iria enviar o Secretário de Controle Urbano, o Sr. João Luiz para acompanhar Beth à delegacia para reaver a aparelhagem de som e os instrumentos musicais. Quando o Secretário João

Luiz, Beth de Oxum e Mãe Lúcia de Oyá chegam à delegacia

de Casa Caiada – Olinda defrontaram com o Capitão Daniel,

o Major Marcos e o Tenente responsável pela operação que

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

poucos momentos atrás queria prender a Beth de Oxum.

O

delegado alegou ao Secretário João Luiz que o som da

Sambada excedia o percentual de decibéis permitidos por lei. O Secretário respondeu que a competência de medir o percentual

de

decibéis em festividades de rua era da sua Secretaria e não

da

Polícia Militar de Pernambuco. Os instrumentos voltaram

para casa no mesmo dia. O equipamento de som chegou no dia seguinte, pelas mãos de uma delegada que tinha recebido um telefonema do Prefeito de Olinda, o Sr. Renildo Calheiros solicitando a devolução do material do Coco de Umbigada, um dos Pontos de Cultura mais importantes de Olinda e do Brasil.

No outro dia Beth redige um relato, um desabafo detalhado

sobre toda a situação ocorrida e dispara para as redes virtuais de comunicação compartilhada.(14) O clamor do Coco de Umbigada e seu pedido de ajuda ecoam, repercutem os quatro cantos do país. O resultado foi uma cobrança nacional do ponto

de vista político ao Governo do Estado de Pernambuco e ao

Ministério da Cultura. Em seguida, o grupo lança a campanha:

Diga não à violência, diga sim à Sambada de Coco, que rendeu ao grupo participação em documentários, entrevistas, palestras e eventos afins para relatar o abuso sofrido e relatar a experiência

de enfrentamento da situação.

(14) O e-mail de Beth de Oxum pode ser conferido nos anexos deste livro.

Dani Bastos

Alguns exemplos foram: promoveu a reflexão sobre o ocorrido numa roda diálogo coletivo realizado em Olinda pelo Pontão de Cultura e Convivência e Cultura e Paz, de São Paulo; gravou um programa de rádio efetivado pela Escola Municipal Maria da Glória Advíncula, com os locutores da Rádio Amnésia, os frequentadores da Sambada, os moradores e os comerciantes da comunidade; participou no documentário Um rosto no espelho, do cineasta paraense Renato Tapajós; compartilhou a dorida experiência no evento Observa e Toca Malakoff, projeto que mesclava debates e apresentações artísticas, promovido pela Fundarpe; entre outros.

A violência sofrida nesse dia foi marcante, deixou uma cicatriz que não tem como ser removida do corpo, da alma, da memória, da vida de todos aqueles participantes do Coco de Umbigada, sejam brincantes ou frequentadores da Sambada de Coco do Guadalupe. É decepcionante a constatação do ainda longo e árduo caminho para a erradicação da intolerância, da perseguição, do descaso e da discriminação contra as manifestações oriundas das culturas populares e tradicionais. Essa é uma ferida aberta e inflamada que lateja em nossa sociedade. Uma doença social que não pode mais ser ignorada, que tem que ser tratada com eficiência, curada.

Os danos causados por este trágico dia nos aspectos morais e psicossociais são imensuráveis. A pequena Mayra Karê, de apenas 8 anos de idade, terceira filha de Beth de Oxum e Quinho Caetés,

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

após o acontecido passou um período com medo de brincar o Coco. Ela perguntava: “Mãe, a polícia veio prender a gente porque

a gente canta coco ou porque temos o cabelo rasta?”. Para nós, fica

a seguinte reflexão: Quem se responsabiliza pela reparação de um trauma dessa natureza?

A violência atinge de várias maneiras os grupos de culturas populares e tradicionais. No Estado de Pernambuco, as apresentações artísticas, nas ocasiões de grandes ciclos culturais como o carnaval e os festejos juninos, ou em festivais culturais, é difícil vermos artistas das culturas populares e tradicionais serem a principal atração da programação. De forma geral, esses grupos são lotados nos palcos de apoio, com menor visibilidade, infraestrutura precária, equipamento de som de qualidade inferior, muitas vezes sem camarim, outras tantas vezes sem alimentação, sem uma boa divulgação nas mídias, em um horário que não favorece o comparecimento do público. Existe também um enorme abismo se compararmos os cachês dos grupos e artistas das culturas populares e tradicionais com os cachês dos artistas que estão em evidência através das mídias convencionais aliadas de uma indústria cultural que impõe um modelo único, padronizando a cultura, a identidade e a diversidade brasileira, encobrindo-as com um manto de invisibilidade.

As produções culturais das culturas populares e tradicionais ainda são consideradas, pela maioria dos gestores públicos e pelos

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agentes do mercado cultural, como uma produção menor ou inferior. Temos raríssimos negros e índios no poder. Obviamente, isso se reflete nas políticas públicas. É muito difícil contemplar algo que se desconhece. O programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, na gestão de Gilberto Gil foi um marco divisor na história das políticas públicas de cultura desse país. Houve muitas falhas, lacunas, questões que ficaram em aberto, mas também houve avanços indiscutíveis no reconhecimento, valorização e na democratização dos recursos públicos para a cultura com segmentos da sociedade praticamente ignorados em gestões anteriores como as crianças, idosos, povos tradicionais(quilombolas,indígenas,ciganos),expressõesdasculturas populares e comunidade LGBT.

Existem aqueles que como Beth de Oxum e Quinho Caetés que não se entregam e que não desistem; persistem, insistem e perseveram na busca dos seus ideais, fazendo das ferramentas da tecnologia suas aliadas; das mídias livres sua assessoria de comunicação; inteirando- se sobre as formas burocráticas de funcionamento do poder público; apropriando-se dos editais e chamadas públicas; munindo-se com as armas propostas pelo sistema vigente para poder lutar, se não de igual pra igual, pois a distância e as barreiras são enormes; mas para poder se contrapor com dignidade e propor outros modelos de produção, mostrando alternativas mais horizontais, justas, colaborativas, compartilhadas, múltiplas e diversas, fazendo seus próprios palcos, mostrando que todos tem direito a um lugar sob o sol.

1. Detalhe da parede do Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales

2. Crianças da comunidade do Guadalupe assistindo ao Cine Clube Macaíba | Foto: Tenily Sales

3. Exibição do Cine Clube Macaíba | Foto: Tenily Sales

4. Matéria com Beth de Oxum na Revista Vidas Simples | ano 2009.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Capítulo 3 Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada

Este capítulo (15) dedica-se aos guardiões dos saberes e fazeres das culturas populares e tradicionais oriundos das matrizes africanas e indígenas, alicerce dos brinquedos e manifestações culturais brasileiros: os Mestres de Tradição Oral, ou Griôs, como são denominados mais recentemente por influência do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura através da Ação Griô. “Essa é uma ação que faz refletir sobre a dimensão sagrada da vida e da lógica da convivência econômica baseada na partilha, dois aspectos tão preservados pelas culturas tradicionais brasileiras” (Turino, 2009, p. 95).

Os Mestres Griôs tem uma função imprescindível dentro da organização dos povos de culturas populares e tradicionais cuja forma de transmissão dos saberes e fazeres é feita através da oralidade. Os Griôs viram, ouviram e vivenciaram

Dani Bastos

os acontecimentos no decorrer de suas vidas, enquanto eram crianças, jovens e adultos, e agora que estão velhos, eles costuram o passado, o presente e o futuro com a linha mágica da memória.

Em nossa sociedade urbana contemporânea os valores predominantes estimulam o culto excessivo à juventude, como se esta etapa da vida fosse superior e melhor às outras. Ela apenas é uma das fases da existência humana. Por outro lado, em culturas populares e tradicionais, o ancião é muito respeitado. Mãe Stella de Oxóssi, Yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, de Salvador, traz em seu artigo “No outono da vida” (16) uma reflexão sobre este tema:

Na cultura yorubana, o velho é um herói, pois conseguiu vencer a morte, que nos procura e ronda todos os dias. Ele tem sempre a última palavra, a qual não deve ser contestada. Tanto que é comum em

África, a pessoa que ainda não completou 42 anos se manter calada durante as assembleias comunitárias,

a fim de exercitarem a importante arte de ouvir. No

candomblé, tentamos seguir a tradição que herdamos

e ensinamos aos iniciantes essa difícil arte. Mesmo

que o iniciante se ache com razão, ele tem o dever de ouvir o mais velho de cabeça baixa e pedir a benção, por respeito. Todavia, não lhe é negado o direito, de em momento outro, justificar-se.

(15) Este capítulo considerará as falas dos Mestres Griôs parte integrante e indissociável da redação da autora, portanto sem diferenciação de margens ou peso e corpo da fonte. (16) http://www.atarde.com.br/mundoafro/?p=4217

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

A Ação Griô por meio de editais públicos apoiou projetos socioculturais de Pontos de Cultura em parcerias com escolas, universidades e entidades do terceiro setor cujo intuito fosse a valorização das práticas da oralidade e dos conhecimentos dos Mestres Griôs. Cada projeto aprovado contemplava até seis pessoas por Ponto de Cultura, e o apoio vinha na forma de uma bolsa mensal no valor de R$ 450,00 (17) . No Ponto de Cultura Coco de Umbigada, os Mestres Griôs atuavam numa parceria com a Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula, cujo objetivo geral é a preservação e transmissão da memória e das práticas da matriz africana e da brincadeira do Coco. Numa semana os integrantes do Ponto e os Griôs iam à Escola e na semana seguinte a Escola ia ao Ponto.

Nos encontros semanais, realizados nas tardes de sexta feira, aconteciam atividades variadas, como as oficinas de Coco, onde eram trabalhados pedagogicamente os conteúdos da brincadeira do coco: a música (canto, percussão, processo de composição), a dança, a história de cada Mestre participante, os principais coquistas de Olinda. De outra vez, eram promovidas rodas de diálogo sobre determinado tema (cultura de paz, meio ambiente, quilombos urbanos e rurais, etc) com a participação de professores e alunos da Escola, da equipe do Ponto, dos Mestres Griôs, dos moradores da comunidade e convidados.

(17) Turino, 2009, p. 98.

Dani Bastos

Constatamos na fala dos quatro Mestres entrevistados – Mãe Lúcia de Oyá, Mestre Zeca do Rolete, Mestra Aurinha do Coco e Mestre Pombo Roxo – que o principal benefício trazido pela Ação Griô, além de promover os encontros intergeracionais e criar a oportunidade de transmissão dos conhecimentos, de levar os saberes não acadêmicos para o ambiente escolar e do estímulo financeiro, embora pequeno, contribuía para auxiliar o transporte e a alimentação do Mestre Griô no dia da atividade na Escola ou no Ponto de Cultura; concluímos a partir dessa pesquisa foi que a maior contribuição da Ação Griô se deu pelo reconhecimento, pela valorização, pela legitimação, pela outorga dessas pessoas à condição de Mestres, de detentores dos saberes e fazeres de uma tradição oral, ancestral, secular que durante muito tempo foi desconsiderada pela sociedade em geral, e não raras vezes até pela própria família, amigos e vizinhança desses Mestres como um conhecimento banal, inferior ou até mesmo inútil.

Tentamos enfatizar em cada entrevista apresentadas a seguir as particularidades de cada Mestre, o que caracteriza cada um deles. Com vocês, os Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada.

1. Grafitagem na parede do Ilê Axé Oxum Karê | Foto: Alcides Ferraz

2. Dani Bastos e Beth de Oxum | Foto: Tenily Sales

3. Sambada | Foto: Alcides Ferraz

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Mãe Lúcia de Oyá

O sagrado é o que me permeia.

Ao ficar frente a frente com Mãe Lúcia de Oyá, a sensação que temos é a de estar diante de uma esplendorosa majestade africana. Aos 64 anos, Lúcia Maria Crispiniano da Silva possui uma aura que resplandece o sagrado. Fundou o Ilê Axé Oyá Togum há 42 anos, localizado no bairro do Janga, município de Paulista, e esta é a sua prioridade, a sua essência, a sua missão de vida.

Candomblé é entrega e fé, ensina Mãe Lúcia. Uma fé que é testada pela manhã, à tarde e à noite: cotidianamente. A partir da iniciação religiosa você não é mais dono da sua própria vida. Seu orixá é quem rege, é quem determina, é quem tem o poder do sim e do não sobre seus caminhos. A trajetória pelo sagrado exige muita seriedade, muito respeito, muita veneração. “Porque não é uma religiosidade

Dani Bastos

só dos ‘sins’, tem muitos ‘nãos’ e tem muitos ‘porquês’”, explana Mãe Lúcia. “Isto não é para qualquer um”. Segundo a sacerdotisa, “tudo na vida tem um preço, e o preço dos saberes do sagrado é alto, altíssimo”, revela Mãe Lúcia. É o preço da caridade, é o preço da doação.

No universo das religiões de matriz africana, o conhecimento é um merecimento e a humildade é requisito imprescindível no percurso da busca por este saber. Mãe Lúcia nos conta que no seu tempo de aprendiz, o ato de perguntar não era bem visto aos olhos dos mais velhos.

“Eu ficava lá no meu cantinho, bem quietinha, vendo ela

limpar

e tirar o que era do sagrado, da obrigação, o que

era para partilhar com aquela congregação e muitas vezes eu escrevia, mas eu era incapaz de perguntar: ‘Porque a senhora está fazendo assim?’ Até pelo respeito, né? Ela

era mais velha

O aprendizado acontecia através da

observação, com a convivência junto às Yalorixás mais antigas. Mas hoje o processo de ensino-aprendizagem

tem que ser diferente, em sua opinião: “Você não deve

banalizar, popularizar quem herda a matriz

Mas tem

alguns adendos que você tem que consentir, a juventude

agora é outra

Hoje você não tem como contrapartida a

rebeldia, a vontade de viver, a vontade de conhecer, hoje você tem as drogas

”.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Defensora ferrenha e engajada do exercício do matriarcado dentro do candomblé, prática ainda tímida dentro do Estado de Pernambuco, onde predomina o poderio dos homens, provável reflexo da cultura do machismo coronelista implantada nos hábitos da sociedade pernambucana durante o ciclo da cana de açúcar. Infelizmente não é a toa que Pernambuco tem um dos mais altos índices nacionais de ocorrências relacionadas à violência contra a mulher. E isso porque só constam em algumas estatísticas a violência física extrema que leva à morte, mas as mulheres, principalmente as mulheres negras enfrentam também desde muito cedo a violência psicológica, trabalhista, econômica, sexual, entre outras. Conhecedora profunda dessa cruel realidade, Mãe Lúcia milita em prol do protagonismo feminino e da formação de novas e jovens lideranças dentro do segmento participando como palestrante de vários congressos, encontros, seminários e atividades afins.

Pedir a benção aos mais velhos, dizer para onde e com quem vão,oqueirãofazer,sãoatitudescadavezmaisrarasdosfilhospara com os pais, observa a Yalorixá. Na sua visão, o candomblé é um dos últimos espaços de manutenção, preservação e salvaguarda desses valores familiares, referências quase esquecidas pela excessiva permissividade que a contemporaneidade nos trouxe.

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Emumtestemunhoemocionantesobreagrandiosidade de sua devoção, Mãe Lúcia nos relata uma árdua provação a qual sua fé foi submetida. Em determinado período de sua vida, viu-se de repente sem emprego, sem moradia, com uma filha pequena para sustentar e não vislumbrava caminhos de saída daquela situação na qual se encontrava. Era tudo ou nada. Colou os joelhos em terra, em plena rua, ao meio dia, os transeuntes olhando para aquela cena sem nada compreender e clamou com toda a sua alma e com todo seu coração por sua mãe Oyá, invocou sua intervenção, seu auxílio, pediu à orixá a reconquista dos seus bens, do seu trabalho, de sua dignidade. Em troca, ofereceu sua dedicação exclusiva ao culto à deusa dos raios e tempestades, a partir daquela data em diante. Lendas africanas de tempos imemoriais contam que Oyá é a mulher mais poderosa da África Negra e, assim sendo, atendeu à súplica de sua filha Lúcia. Ela nos diz com orgulho que seu sacrifício valeu a pena, pois não só restabeleceu o que havia perdido como ainda desfruta hoje de fama internacional.

1 e 2. Mãe Lúcia de Oyá | Fotos: Tenily Sales

3. Quinho Caetés ainando tambor com o fogo | Foto: Tenily Sales

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Mestre Zeca do Rolete

A gente não acaba com a violência, mas o importante é a gente tá combatendo.

O nome artístico do Mestre provém do antigo ofício de vendedor de rolete de cana por quase 50 anos no Sítio Histórico de Olinda. Foi também pedreiro e trabalhador dos armazéns da estiva. Mestre Zeca do Rolete, além de compositor e cantor de Coco, é colecionador e comerciante de antiguidades, com especialidade em aparelhos de rádio e objetos de cobre. Mas o título que ostenta com mais orgulho é o de Mestre Griô do Ministério da Cultura.

Aos 65 anos, José Galdino dos Santos frequenta a Sambada de Coco do Guadalupe e demais brincadeiras populares acompanhado de toda sua família – a esposa Silvana, filhos, netos e amigos – costume adquirido desde a infância ao acompanhar o pai e o avô aos folguedos.

Dani Bastos

É o exercício prático da transmissão dos saberes e de formação dos futuros brincantes.

Para o Mestre Zeca, o exemplo é a sua principal arma para a transmissão dos saberes e para a perpetuação da

cultura brasileira, que se esvai a cada dia sob a sombra da crescente violência. “Eu sou um representante da minha comunidade. E qual é a minha comunidade? É

a favela! Eu conheço a favela mais do que a sociedade

média, entendeu? Porque eu nunca fui atacado aqui? Ah!

É porque eu sou ladrão também?! Não

fumo crack?! Não

Ah, é porque eu

Eu me comporto no meu lugar

”.

Mestre Zeca defende uma teoria de que existem duas doenças que matam mais do que a AIDS e o câncer, segundo ele são a necessidade e a dificuldade. E exemplifica em um doloroso depoimento da perda de uma filha com 23 anos causada pela negligência e omissão de socorro pelo sistema de saúde pública. A necessidade e a dificuldade da vida se apresentaram por não possuir dinheiro pra transportar e internar a filha em tempo hábil para um hospital particular.

A persistência e a criatividade são as chaves para a sobrevivência nessa realidade. Relata que em

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

determinada época de sua vida, devendo o aluguel, sem nada para comer e com a energia elétrica cortada, saiu

otimista para vender os roletes de cana. Instalou o tabuleiro, começou a vender, mas de repente o céu fechou e a chuva caiu pesada. Não desanimou. Pegou o tabuleiro e foi para

a Rua 13 de maio no Sítio Histórico de Olinda. Lá estava

acontecendo uma festa. E veio uma ideia. Mandou a mulher pegar fogareiro e o carvão, com o pouco dinheiro apurado na venda dos roletes, comprou queijo, enfiou as paletas do rolete e começou a vender queijo assado e assim conseguiu o dinheiro do aluguel e da feira.

Mestre Zeca fala que a classe média tem responsabilidade

na atual situação em que vivemos, porque estudou, conhece

e nada faz para resolver: “O ladrão quando chega com aquela

arma, ele esculhamba, faz deitar, dá coronhada na cabeça, às

vezes mata

seguinte: é a profissão! Tem ladrão que usa como profissão e

outro que usa por necessidade. Quando ele usa como profissão, ele gosta da brincadeira. Um diz: Não vou fazer nada com você não, só quero teu dinheiro, não vou lhe estuprar, não

vou fazer nada

Tem outros que não diz isso, porque ele não

Ele tira onda, e tem outros, porque ladrão é o

sabe de nada, ele tá fazendo uma coisa ali, pra ele é uma coisa

normal, mas não é. A culpa é da sociedade originalidade da cultura do Brasil”.

Tão tirando a

Dani Bastos

Animado, o Mestre se encontrava na ocasião desta entrevista às vésperas da gravação de seu primeiro CD. No álbum será comporto por dez faixas entre músicas de Zeca, Cocos de domínio público e composições de autores pernambucanos. O projeto está sendo incentivado pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura.

1 e 2. Mestre Zeca do Rolete | Fotos: Tenily Sales

3. Zabumba ancestral do Coco de Umbigada | Foto: Alcides Ferraz

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Mestra Aurinha do Coco

Com muita glória, com muito amor, com muita alegria, estou dentro da cultura.

Áurea Maria da Conceição de Assis Souza, tem 58 anos e é conhecida no cenário cultural pernambucano como Aurinha do Coco. Seu primeiro contato com a música foi através do Coral Madrigal do Recife. Após essa passagem, Aurinha vai morar em um dos mais expressivos redutos culturais do entorno do Sítio Histórico de Olinda, a comunidade do Amaro Branco – afamado berço de legendários coquistas.

Na localidade, começa a frequentar a colônia dos pescadores, faz amizade com vários Mestres, inclusive com o Mestre Pombo Roxo e se apaixona irreversivelmente pela manifestação do Coco. Em mais de 25 anos de carreira, dona de uma voz poderosa, Aurinha do Coco possui dois CDs gravados e participações em trabalhos de nomes importantes da música pernambucana, como Alceu Valença e Naná Vasconcelos.

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Uma das presenças mais aguardadas durante a noite da Sambada de Coco do Guadalupe, Mestra Aurinha diz: “Eu só não participo quando eu não posso mesmo, quando eu tenho algum outro compromisso, mas a não ser isso eu estou lá”. Indagada sobre o que mais gosta durante a Sambada, responde:

“Eu caio na dança mesmo, no samba mesmo e é bom demais!”. Ressalta que na visão dela o mais importante é o incentivo e o apoio oferecido pelo evento e a frequente oportunidade do coquista se manter na ativa, na visibilidade do público.

Quando convidada por Beth de Oxum a integrar o quadro da Ação Griô do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, ficou felicíssima porque ia semanalmente a Escola Municipal Maria da Glória Advíncula trocar informações, experiências e conhecimentos com crianças e educadores. “Nós ensinamos os alunos a participar, dançar, brincar, saber compor uma música, entendeu? E os filmes que passam escolhido pelos próprios alunos, passam levando informação né? E as crianças ficam muito, muito felizes”. Atualmente lamenta o esmorecimento da atividade ocasionada principalmente pelo encerramento do projeto que custeava a bolsa dos Mestres.(18)

(18) O referido projeto tinha vigência de um ano de duração. Na gestão atual, ainda não foi aberto nenhum edital público para inscrição de projetos relacionados à Ação Griô.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Aurinha do Coco é também compositora. Nessa entrevista,

nos relata como teve a inspiração da sua primeira música, denominada Seu Grito, também título do seu segundo CD.

Na ocasião, a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda

estava desenvolvendo um projeto no qual uma das ações era a gravação de um CD com a participação de vários coquistas da cidade de Olinda com músicas autorais que versassem sobre o combate à violência. “Quando participamos do projeto da

Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda e com o direito dos artistas comporem duas músicas, cada um fazia suas músicas chegava lá arrebentava e Aurinha nada. E eu disse: Deus me ajude. Não ia ganhar nada, mas pelo menos experiência, e esse

CD ia correr campo, né? Então

teatro, lá na última cadeira e pedindo a Deus que me desse

intuição que eu ‘tava sem nenhuma

bolsa e pego a caneta e saiu essa música que hoje eu agradeço

muito a Deus, eu faço uma capela

Um belo dia eu me sentei no

Aí de repente eu abro a

Seu grito silenciou, lá num Alto em Olinda Era uma mulher tão linda, que a natureza criou Ela foi morta no meio da madrugada, com um tiro de espingarda pela mão do seu amor

Por quê? Esse trabalho ‘tava sendo um trabalho sobre a violência dentro do Estado, dentro da cidade de Olinda, e o

Dani Bastos

intuito era esse cada um falar como era que ‘tava enxergando

a violência, o que é que deveria melhorar

clamor para que isso acabasse, que não acabou né? Continua

Foi pedir

clamor mesmo, eu me inspirei nessa pessoa, nessa mulher que foi morta, que eu não sei nem quem é, muita gente diz assim:

Ah! Foi por causa de fulana, de sicrana que o namorado, noivo

Piorou

E clamar, e pedir

Então uma das minhas intuições foi essa

matou

Não me inspirei em nada, veio na hora, chegou na

hora

Aí desci, mandei os meninos da percussão se ajeitar e o

pau cantou na hora! (risos)”.

1 e 2. Aurinha do Coco | Fotos: Tenily Sales

3. Pandeiro e Ganzá | Foto: Tenily Sales

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Mestre Pombo Roxo

Seja na praça, seja dentro do ônibus, em lotação, já trabalhei muito com o pandeiro na mão e vivo lutando.

Morador da comunidade do Amaro Branco, próximo ao farol de Olinda, para o qual tira o chapéu, Severino José da Silva, 60 anos, é conhecido nacionalmente como Mestre Pombo Roxo. O apelido vem da infância, quando, com a idade de sete para oito anos, passou a incorporar seu orixá Odé e, uma vez em terra(19), este pedia sempre o pombo roxo, uma de suas comidas prediletas. Mestre Pombo Roxo é Babalorixá, exímio Ogã (20) , compositor e cantor de Coco e, merecidamente, Mestre Griô do Ministério da Cultura.

(19) Na cultura yorubana, crê-se que os orixás moram no Orum (céu) e os humanos no Aiê (terra). São mundos separados. Os orixás para poderem vir ao Aiê, tem que ter um “cavalo”, ou seja, um filho de santo. Por isso toda vez que o orixá incorpora em seu filho diz-se que ele está em terra. (20) Ogã: Na África, alguém que ocupa um cargo superior, mestre; no Brasil, cargo sacerdotal masculino do candomblé, incluindo o tocador, o sacrificador e homens de prestígio ligados afetiva- mente aos grupos de culto. (Prandi, 2001).

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Mestre Pombo Roxo é cadeirante, mas o fato não é obstáculo para sua locomoção. “A vida não para, continua Eu vou no carro dos outros, me levam pra show, me levam crente, xangozeiro, macumbeiro, o que me encontrar por aí. ‘Pombo Roxo, tu vai pra onde?’ ‘Eu vou pra ali!’ ‘Bora!’ Me leva de todo jeito, a cadeira com a roda troncha, mas me leva de todo jeito, porque eu gosto de chegar nos cantos e trabalhar”. Um de seus maiores sonhos é adquirir uma cadeira elétrica, que as condições financeiras ainda não lhe permitiram.

O gosto pelas brincadeiras populares, assim como a prática do candomblé veio por intermédio dos seus pais, que

não sabiam ler nem escrever, mas lhe transmitiram os saberes

e fazeres de vários folguedos – cantos, danças, percussão,

conhecimentos estes que já lhe proporcionaram a gravação de CDs, DVDs e viagens pelo Brasil afora.

Agradece o encontro com Beth de Oxum, Quinho Caetés

e com o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, pois atribui a

esses o aumento da visibilidade de sua carreira artística. “Num é que eu vivia parado não, pouco, eu vivia cavando, lutando, mas nunca tinha encontrado uma pessoa como Beth de Oxum”. Diz que ela é a pioneira na volta das Sambadas de

Coco. “Ela foi a primeira a botar o cavalo na chuva, no sol,

no sereno debaixo de tapa, de polêmica, de bandido

De

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Em parceria com o Ponto de Cultura Coco de

Umbigada e com o Ilê Axé Oxum Karê, Mestre Pombo Roxo ministra às terças feiras à tarde a Oficina de Formação de Ogãs, passando para os jovens o conhecimento dos toques e toadas para os orixás.

tudo, de tudo

”.

Para o Mestre, a Sambada de Coco do Guadalupe perpetua

as práticas culturais iniciadas pelos antepassados e exalta as matrizes étnico-religiosas – a Jurema Sagrada e o Candomblé –

se contrapondo como alternativa para os modismos impostos

pela indústria cultural. Aprecia a Sambada porque é ambiente de ordem e respeito, apesar da falta de policiamento, e é naquele local que encontra com os amigos, com os demais

Mestres, com as crianças, com o público. A única coisa de que não gosta é da falta de apoio do poder público e ressalta que

o movimento cultural existente na comunidade do Amaro Branco também é realizado de forma independente.

1 e 2 Mestre Pombo Roxo | Fotos: Tenily Sales

3. Músicos | Foto: Alcides Ferraz

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Capítulo 4 A parceria do Ponto de Cultura Coco de Umbigada com a Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula

Não podemos conceber o fenômeno da transformação social dissociado da ferramenta da educação.

Glauciane Maciel trabalha na rede municipal de ensino de Olinda há cerca de vinte anos, dos quais já está há dez no cargo de Coordenadora Pedagógica da Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula, que recebe em torno de 300 alunos do ensino fundamental, aonde auxilia os demais professores a desenvolver um trabalho de qualidade. O projeto pedagógico da Escola é norteado por um projeto macro, estimulado pela Secretaria de Educação do município. No ano em pesquisa o tema foi Olinda, cidade educadora – patrimônio cultural da humanidade construindo uma cultura de paz, e a partir desse referencial a Escola define o seu próprio tema.

Dani Bastos

A parceria da Escola com o Ponto de Cultura Coco de Umbigada surgiu da observação da educadora Glauciane sobre o comportamento agressivo das crianças no horário do recreio. Isto provocou sua reflexão sobre o que poderia fazer ou quais atividades desenvolver para que houvesse uma melhor harmonia e integração entre os alunos. Lembrou que na Escola existiam alguns instrumentos percussivos e os colocou no pátio para ver qual seria o interesse das crianças. Que grata surpresa teve a docente! Três ou quatro crianças começaram a tocar habilidosamente.

– Nossa! Com quem você aprendeu a tocar?

– Eu toco aqui na Tia Beth, no beco

– Mas quem é Beth?

– Beth é a dona do Terreiro

As crianças foram as grandes articuladoras desta parceria. Agendaram um encontro entre Glauciane e Beth de Oxum. Nesse encontro, a professora Glauciane convidou Beth de Oxum para compartilhar sua vivência, sua experiência, seus saberes com a comunidade escolar. O convite foi aceito e logo em seguida alunos e professores estavam frequentando sistematicamente o Ponto de Cultura.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Nessas

visitas,

um

mundo

novo

começa

a

ser

desvendado a partir da espontaneidade das crianças:

Por que seu cabelo é assim? Por que você se veste assim? Você é Mãe de Santo? O que é o Santo?

Com a naturalidade que lhe é de praxe, Beth de Oxum foi respondendo às perguntas, contando as histórias que não constam nos livros didáticos e pedagógicos. Esse encontro da Escola com o Ponto de

Cultura trouxe à tona uma importante lição, a de que

o processo de ensino-aprendizagem não está restrito

à sala de aula, nem ao ambiente físico escolar, ele

ultrapassa os muros, vai ao cotidiano da comunidade,

penetra, interage na vida.

No que se refere ao respeito e à tolerância para alteridade e à diversidade, no a aceitação do outro, as crianças indiscutivelmente são as grandes mestras. Ao perceber que naquele local praticava-se música, dança, até mesmo uma religiosidade diferente da delas, elas interagiram, perguntaram, experimentaram, vivenciaram o Ponto de Cultura com o coração aberto,

Dani Bastos

sem tecer juízos de valor. Já algumas professoras no início se assustaram: “A gente entrou em um

terreiro?!”, questionou uma professora. “Eu acho que

responde Glauciane e complementa: “Mas acho

que nós também entramos em um espaço cultural. Como educadora, tenho que diferenciar, porque como podemos passar o conhecimento aos alunos se eu tenho preconceito com esse conhecimento?”.

sim

”,

No Guadalupe, assim como em diversas comunidades

das periferias brasileiras, algumas atitudes de grupos evangélicos botam ainda mais lenha na fogueira do imaginário da população, reforçando o preconceito e

a discriminação contra as religiões de matriz africana, associando levianamente os deuses da África com o demônio católico e sua legião. Partindo desta compreensão, alguns pais também ficaram preocupados e proibiram seus filhos de frequentarem as ações realizadas pelo Ponto de Cultura. Em contrapartida, a professora Glauciane mostrou que realmente o diálogo

é um elemento mediador para a resolução dos conflitos,

convidando a Beth de Oxum e integrantes do Ponto de Cultura para uma conversa franca com os pais. A partir desse encontro, o olhar sobre a instituição foi ampliado, e começou o processo de resgate da cidadania e do despertar

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

do autorreconhecimento para a herança étnica e cultural de origem africana presente na cultura brasileira.

Daí pra frente, a parceria cresce, se fortalece e se consolida. Beth de Oxum propõe à Escola receber as atividades da Ação Griô, promovendo encontros intergeracionais. Mestres Griôs e crianças conversando sobre Matriz Africana, por exemplo, em rodas de diálogo. O audiovisual chega à Escola, com uma ação desenvolvida semanalmente com o EJA – Educação de Jovens e Adultos, exibindo e estimulando o debate sobre temas referentes à matriz africana, indígena e das culturas populares e tradicionais com objetivo de quebrar o preconceito e construir uma nova visão nas pessoas acerca dessa cultura.

Para a professora Glauciane a transformação social só acontece verdadeiramente quando ocorre uma troca

genuína dos saberes. Primeiro a escola tem que receber

o conhecimento que a criança traz de sua casa, para dar o exemplo senão como a criança irá valorizar,

absorver o conhecimento ofertado pela escola? Para ela

o encontro com Beth de Oxum e o Coco de Umbigada

proporcionou uma evolução de ordem pessoal, proporcionou a descoberta que existem formas diversas

Dani Bastos

de visão e compreensão do mundo, fundamental para o trabalho do verdadeiro educador comprometido com o desenvolvimento contínuo do ser humano.

1. Escola Maria da Glória Advícula | Foto: Alcides Ferraz

2. Certificado de Participação Encontro Nacional Ação Escola Viva

3. Escola Maria da Glória Advíncula Festividade ciclo indígena | Foto: Tenily Sales

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Capítulo 5

Considerações

Este livro não tem pretensões de esgotar o assunto,

tampouco de apresentar fórmulas, receitas ou certezas.

O nosso intuito foi o de documentar, registrar uma

experiência cultural bem sucedida, o cotidiano de suas lideranças e de seus participantes a partir de um olhar de

dentro para fora, um olhar de quem também é brincante,

de

quem é trabalhadora da cultura, de quem é praticante

do

candomblé, de quem é mulher negra.

Diz o ditado popular que temos dois olhos, dois ouvidos e uma boca para ver e ouvir duas vezes mais do que falar. Essa foi a bússola desse trabalho. Passamos dois meses vivenciando as atividades do Ponto de Cultura Coco de Umbigada e do Ilê Axé Oxum Karê. Convivemos, conversamos, e principalmente ouvimos,

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vimos, aprendemos com as pessoas, com os agentes ativos desse processo. Por isso damos destaque à oralidade e a memória, reverberando as vozes que durante muito tempo ficaram abafadas.

Acreditamos que o Coco de Umbigada é um dos principais expoentes das novas formas de produção da cultura popular porque está em constante movimento cíclico, está aberto ao diálogo com as mudanças, se renovando, incorporando, agregando novos valores, se transformando para permanecer em sua tradição.

O Coco de Umbigada saiu da acomodação, tem sede

de novos conhecimentos, busca a interação, as parcerias

e a partir da música – sua base percorre caminhos

interdisciplinares com as outras áreas do conhecimento pouco exploradas por manifestações das culturas populares

e tradicionais – tecnologia, educação, ludicidade, gênero, comunicação – rádio e audiovisual, saúde, administração.

O Coco de Umbigada aprendeu a aprender.

Rompe paradigmas enraizados no cenário das culturas populares e tradicionais quando surge com uma liderança feminina, mulher à frente de uma tradição ancestral. E uma mulher incomum, mãe de quatro filhos, que ostenta

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orgulhosamente uma vigorosa cabeleira rasta, aliada um discurso eloquente, politizado, carregado de argumentos dificilmente contestados que vem na defesa dos menos favorecidos. E ela ambiciona cursar a faculdade de direito, para ocupar a lacuna dos defensores legalmente habilitados com conhecimento e pertencimento específicos aos assuntos relativos à matriz africana e suas adjacências.

Este grupo está realizando a transformação social porque acredita no potencial das pessoas da própria comunidadeeofereceoportunidadesparaqueessepotencial seja desenvolvido, lapidado, fortalecido. Trabalha os conceitos da autonomia, do empreendedorismo, defendem que é preferível o empoderamento que a falsa sensação de segurança social proporcionada pela assinatura do empregador na carteira de trabalho, muitas vezes, no caso da população de menor poder aquisitivo, o atestado de um trabalho semiescravo, que praticamente impossibilita a evolução plena humana e cidadã do indivíduo.

O Coco de Umbigada apresenta infinitas possibilidades de reflexão. Aqui estão apenas alguns aspectos que se relacionam com a Sambada de Coco do Guadalupe que é por demasiado complexa. Apresentamos aqui nossos respeitos e nossas saudações aos ancestrais do Coco de Umbigada e

Dani Bastos

esperamos sinceramente termos contribuído para reflexão sobre uma das formas contemporâneas independente de produção, manutenção, preservação, salvaguarda e difusão das culturas populares deste país.

1. Certificado Ação Giô Nacional

2. Certificado de Participação no 7º Encontro Pernambucano de Coco - 2005

3. Programação do São João de Olinda em 2010

4. Solicitação a SEPACCTUR Sra Clarice Andrade

5. Solicitação ao 1o Batalhão de Polícia Militar Sr Ten Cel Marinaldo

6. Solicitação ao Secretário José Alves

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Capítulo 6 Pernambuco se envergonha com ação da Policia Militar

A Polícia Militar invade o Ponto de Cultura Coco de Umbigada em Olinda. Um e-mail que esta circulando por vários em-grupos, a Beth de Oxum, detalha como foi ação dos policiais, no Ponto de Cultura.

“DE NOVO, parece mentira ou quem sabe pesadelo, mas uma vez a policia Militar de Pernambuco, atacou o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, articulou uma operação de Guerra com mais de 40 policiais, civil e militar, tinha pra mais de 10 carros de policia, tinha Sargento, tinha Tenente, tinha Major, Capitão, até um delegado da Polícia Civil arrumaram, TUDO A MANDO DO MAJOR MARCOS PEREIRA E DO SEU IRMÃO CAPITÃO DANIEL PEREIRA, são moradores da nossa comunidade do Guadalupe, a mãe é evangélica e eles não aceitam, não toleram nem respeitam o nosso Trabalho.

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Enquanto o coco estava no beco da Macaíba, onde a quase 15 anos moramos e temos nosso Terreiro da Umbigada, eles não gostavam, mas, tava distante, a partir do momento que o coco veio pra Rua principal, Rua do Guadalupe, próximo a Casa dos irmãos oficiais, a coisa mudou.

Alugamos em outubro passado uma nova casa, na Rua do

Guadalupe, bem próximo da casa dos oficiais, ao lado da Escola Municipal Maria da Glória Advíncula, onde desenvolvemos a Ação Griô, para acolher melhor as atividades do nosso Ponto de Cultura, a partir daí a perseguição foi reforçada, quando os 40 policiais nos abordaram, querendo nos levar presos, eu

e Quinho, o rasta meu marido, na última Sambada, eu disse

que tínhamos o apoio da Prefeitura de Olinda, do Ministério da Cultura e do Governo do Estado (FUNDARPE), falamos do papel de um Ponto de Cultura na comunidade, o Capitão Daniel, disse que era mentira que tínhamos esse apoio, que forjamos um banner, pois o Ministério da Cultura não apoiaria projeto “de um povo com estes cabelos”, sic.

O Tenente que comandava a operação, disse que eu tinha

que ir pra delegacia, pois tinha uma denuncia contra agente,

e nós tínhamos infringindo a lei do sono. Eu disse que não

iria acompanha-los à delegacia, pois não sou criminosa, eles disseram que eu iria de qualquer jeito, vai, não vai, vai não vai,

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

até que eu disse que pra eu ir, a comunidade iria também, pois a

festaéumamanifestaçãoculturalcompartilhada,nesteinstante,

o tenente que estava no comando da operação, perguntou se

eu era a prefeita de Olinda, pra falar com a comunidade, eu disse que este é o papel das lideranças comunitárias e pra eu ir, todos iriam comigo, a comunidade neste momento deu uma vaia grandiosa na policia e disse vamos todos nos pneus se preciso for, nesta hora eles recuam um pouco e eu corro pra dentro do Ponto, onde eles sem mandato, talvez não me arrastassem, como havia argumentado. Ou seja, é perseguição,

é intolerância, a mãe dos dois oficiais é evangélica, e eles têm intolerância com nossa religiosidade e com nossa brincadeira.

Graças a Márcia Souto, Secretária de Cultura de Olinda, que

na hora do desespero resolvi ligar, e dizer que porra é essa, pois na sexta-feira anterior, tive uma reunião com esta secretaria,

o controle urbano e a própria policia militar e ficou tudo certo,

o Coco tem autorização da Prefeitura de Olinda pra realizar a Sambada, graças a Deus Márcia ligou para o prefeito Renildo Calheiros e este pediu ao Secretário de Controle Urbano, Sr. João Luiz, que não o conhecia, para ir na Sambada de Coco do Guadalupe, amenizar os ânimos.

Quando este Secretário chegou ao nosso Ponto, compreendeu de imediato o que estava acontecendo, através

Dani Bastos

da revolta da comunidade e do choro das crianças, chamou

a mim e a minha mãe, Mãe Lúcia e fomos para delegacia de

Casa Caiada em Olinda, resgatar os instrumentos. Quando

lá chegamos, estava o Capitão Daniel, o Major Marcos e o

Tenente que em momentos anteriores queria me prender, recebeu muito mal o Secretário, dizendo que o Secretário do Controle Urbano de Olinda ele conhecia, e que ele era secretário desde quando, e disse você é advogado delas, você sabia que esse coco superou o decibéis permitido por lei. Então esse Secretário que nos acompanhava, disse que exercia esta função desde o dia primeiro de janeiro e que era de competência de sua secretaria medir decibéis e não

da Policia Militar de Pernambuco, e a autorização pra esta brincadeira ele mesmo trouxe em mãos, neste momento eles viram que tínhamos autorização e articulação c om

o poder municipal, levaram o secretário lá pra dentro e liberarão os instrumentos.

No domingo, acordo com a mesma delegada que se mostrou surpresa na noite anterior, em relação a esta operação, entregando nossa aparelhagem de som, dizendo não saber, nem compreender porque daquela operação toda contra o coco, tinha recebido ligação do Secretário

João Luiz, e a pedido do Prefeito de Olinda, tinha solicitado

a devolução do som do coco.

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Nós fazemos o coco a mais de 10 anos e afirmamos que esta brincadeira vem da matriz afro-indígena, tem uma origem ancestral, não se origina dos palcos, nem das produtoras, promovemos pertencimento com a cultura do coco na comunidade.

Fazemos parte da Rede de Pontos de Cultura da Ação Griô Nacional. Fazemos partes da Rede Nacional Escola Viva. Temos o assento no GT de Matriz Africana na Comissão Nacional dos Pontos d ia de Policia e na Corregedoria de Policia de Pernambuco, nº do protocolo 5682/08.

Minha mãe, Mãe Lúcia de Oyá, Iyalorixá com 63 anos, fez um trabalho de pertencimento grandioso com a matriz africana, aqui na comunidade do Guadalupe em Olinda, trazendo uma oficina de nome Contos de Ifá, ocorrida semanalmente aqui nos 4 primeiros anos do nosso ponto de cultura, pertencimento e auto-estima nos jóvens em ser de matriz africana, com certeza isso incomodou muito estes oficiais.

Temos que fortalecer nossa rede mocambos, pois as outras, Pernambuco por exemplo tem uma rede de pontos de cultura que é uma vergonha, só serve pra falar de editais, questionar a FUNDARPE disso ou daquilo, e a essência que é

Dani Bastos

a resistência dos pontos, nem pra lá, que rede é essa, é papel da rede falar da perseguição ao nosso povo, principalmente nesta hora, na hora que a policia aparece.

Peço que o Conselho dos Pontos de Cultura de Pernambuco se posicione por favor sobre este contexto, embora sabemos que tem muito ponto de cultura que nunca vai ter a policia batendo em sua porta.

Temos que botar nossa dor de sermos perseguidos pra fora, QUE ESTADO É ESSE, QUE POLICIA É ESSA, que mata, que extermina, que agredi as pessoas e as crianças, com muita violência tomaram dos meus filhos a zabumba de mais de cem anos e que ensinamos ter respeito.

Minhas crianças estão traumatizadas, pense, mais de 40 policiais arrancando de suas mãos os instrumentos, em pleno ano de 2009, onde o Estado contraditoriamente, fomenta recursos para os Pontos de Cultura, onde tem um MAIS CULTURA pra diminuir a violência urbana, que estado contraditório é este, pois não é a policia o braço armado do estado.

O Capitão Daniel, o Major Marcos e um motorista da TV Universitária de nome Edson, estiveram 15 dias antes da

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

sambada de fevereiro, no ponto de cultura e me disseram que ela não poderia mas ser realizada nesta rua, que tínhamos de voltar pro beco, donde viemos, expliquei pra ele que o beco já não mais cabe, são mais de 2 mil pessoas, e eu aluguei uma casa, pago 600,00 reais por mês pra ter direito a usá-la como base do Ponto de Cultura.

O Capitão Daniel me disse que ele era uma pessoa

muito influente e que inclusive fazia o Comando Geral da segurança oficial do Estado para do Bloco Galo da Madrugada, esse bloco que entrou pro Guiness Book e recebe um milhão de pessoas, este que é o maior bloco

, indignação dos maestros pernambucanos, pois anuncia que traram em seus carros alegóricos as bandas de brega e o João do Morro.

este ano inclusive, provocando

do mundo e coisa e tal

Me lembrei de Brasília, no Encontro Sulamericano de Culturas Populares, era quase meia noite e estávamos voltando pra casa da amiga Elaine, onde estávamos hospedados, eu, TC e Mestre Afonso do Maracatu Leão Coroado quando do nada, apareceu 2 carros de polícia e trancaram agente, perguntaram e QUESTIONARAM de quem era aquele carro, pois não podia ser de nenhum de nós três, eles afirmaram como sempre fazem, que

Dani Bastos

estavam procurando uma galera que tinha roubado um carrão por aquelas bandas, TC dirigia o carrão do Vince que na época trabalhava na Presidência da República, resultado, se a gente não se impõe, tu já viu

Vamos fazer barulho, QUANTOS DE NÓS TEMOS QUE MORRER PRA TER AUTO-ESTIMA EM FAZER AS BRINCADEIRAS DOS TERREIROS. FAZER COCO NÃO É CRIME !!!

Martin Luter King, Chico Mendes, Peter Tosh, Cacique Chicão, previram suas mortes. Nós estamos prevendo a nossa. Apesar de estarmos por um fio a POLICIA É PARA QUEM PRECISA DE POLICIA”.

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Repertório e Ficha Técnica do CD Demo do Coco de Umbigada

1. Vamos Abrir a Roda de Coco (Beth de Oxum)

Boa noite a meu povo todo Do meu terreiro eu venho trazendo essa sambada Vamo’ abrir a roda de coco e dar muita umbigada

Meu terreiro É o Terreiro da umbigada Dona Oxum lá tem morada Pois no dia da Sambada Meu Guadalupe fica lotado Menino, é coquista pra todo lado Minha mãe preta vem chegando, Pombo Roxo vem cantando, Zeca do Rolete vem sambando, Beth de Oxum vem no comando

Boa noite a meu povo todo Do meu terreiro eu venho trazendo essa sambada Vamo abrir a roda de coco e dar muita umbigada

Dani Bastos

2. É o Coco de Umbigada (Beth de Oxum)

No Guadalupe tem um terreiro, É terreiro da umbigada Dona Beth de Oxum, Vem trazendo essa sambada

Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de Umbigada! Oi, diga lá que coco é esse? É o Coco de Umbigada!

No Terreiro da Umbigada, Tem Coco de Umbigadinha Vem trazendo Ialodê, Oxaguiam, Mayra, Ynaiê

Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de umbigada!

Oi, diga o nome desse coco, Oi, diga o nome desse coco

É o Coco de Umbigada!

No Guadalupe também tem, A Boneca de Mãe Preta

O Cariri e o Chorão, O Pereirão e o Barão

Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de umbigada!

Oi, diga o nome desse coco, Oi, diga o nome desse coco

É o Coco de Umbigada!

No Terreiro da umbigada, Tem a Escola de Mãe Preta Mãe Preta vem chegando, O samba vem raiando

A umbigada vadiando, A Jurema consagrando

Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de umbigada!

Oi, diga o nome desse coco, Oi, diga o nome desse coco

É o Coco de Umbigada!

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3. O Coco Traz Consciência (Beth de Oxum)

No dia 19 de março Planta o milho que ele vem Na tenda de Oxossi tem Mané Quebra-Pedra também

Na casa de Oyá Togum Seu Corisco vem chegando Por debaixo do chapéu Daquele jeito vem olhando

Zé Pretinho também vem Querendo a mazurca dançar Pois o mestre quando chega No coco vai vadiar

Eu venho aqui anunciar

Que o Coco tem ciência Na jurema no terreiro

O

Coco traz consciência

O

Coco vem da jurema

Pois o Mestre assim mostrou quando desce no seu corpo a mazurca vadiou

Eu venho aqui anunciar

Que o Coco tem ciência Na Jurema no terreiro

O Coco traz consciência

Dani Bastos

Ficha Técnica

Vocal Principal: Beth de Oxum Congas e Efeitos: Quinho Caetés Zabumba: Marconi Black Ilús: Daniel Luís Albuquerque Ganzá e Back Vocal: Luciano Lima Back Vocal: Dani Bastos

Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social

Capítulo 7 Referências Bibliográficas

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Texto sobre a autora: A autora Dani Bastos tem dedicação pelo estudo da sua cultura

Texto sobre a autora:

A autora Dani Bastos tem dedicação pelo

estudo da sua cultura na origem de sua

família residentes na cidade do Recife, em Pernambuco. Do candomblé, filha da orixá Oyá, Daniela Bastos dos Santos, nome de nascimento, formou-se em Educação Física

e Desportos pela Universidade Federal de

Pernambuco. Sua paixão pela arte popu- lar a fez por muitos anos de brincante nos grupos cultura popular do Estado, como o Caboclinho, o Maracatu de Baque Virado, Pastoril Profano, Afoxé, Coco. Desde 2003, dentro da brincadeira, tornou-se produ- tora cultural, particularmente em cultura popular e tradicional, realizando a Especia- lização em Etnomusicologia, e desenvol- vendo vários trabalhos sob a coordenação do Núcleo de Música do Ponto de Cultura Coco de Umbigada. Em literatura, produ- ziu Linguaraz, de Pedro Américo de Farias, livro de poemas musicais. Mas esta é a sua primeira incursão na autoria de um livro, mantendo com preocupação apresentar a música gerada pelas culturas populares e tradicionais. Pretende escrever outros li- vros adaptando as histórias das culturas populares e tradicionais para a forma escri- ta com a intenção da preservação e difusão da memória do povo brasileiro.

Tipologia - Chaparral Pro e Helvetica Neue Papel - Pólen Bold 90g Impressão - Brascolor Tiragem - 500 Novembro - 2011