2011© daniela bastos dos santos

Coordenação Geral
Dani Bastos
Coordenação de Pesquisa
Dani Bastos
Produção Executiva
Dani Bastos
Registro Fotográfco e Assistente de Pesquisa
Tenily Sales
Registro Fotográfco e Audiovisual
Alcides Ferraz
Projeto Gráfco
Zé Ricardo
Edição/Revisão de Texto
Aroma Bandeira
Assistente de Produção
Mônica Santana
________________________________________________________

Bastos, Dani.
Coco de Umbigada: cultura popular como
ferramenta de transformação social / Dani Bastos;
Recife: Editora Daniela Bastos dos Santos, 2011.
244p.:il.

Acompanha CD em bolso.
ISBN 978-85-912743-0-7

1. Culturas Populares e Tradicionais.
l. Bastos, Dani. ll. Título.

CDD-B980.03
________________________________________________________
Direitos reservados Daniela Bastos dos Santos
danibastos30@gmail.com
Em primeiro lugar ao nosso grandioso Olorum que, na
sua generosidade, nos concede a benção de alcançar nossos
objetivos; Aos orixás - nosso caminho, situação e destino; À
minha mãe Edna Gomes Bastos, pelo eterno incentivo; À Maria
de Fátima Diniz Costa - Mãe Fátima de Oxum Nin Nin, pela
doce e acolhedora orientação espiritual; Aos amigos-irmãos e
fotógrafos Alcides Ferraz e Tenily Sales, meus companheiros
de todas as horas durante este trabalho; À Zé Ricardo, por
acreditar na proposta; À Beth de Oxum, Quinho Caetés,
Oxaguiam, Ialodê, Mayra e Ynaê, a Daniel Luís, a Cristiano - o
Tkralzy, a Luciano Lima, a Armandinho do Reggae, Robinho
e a todos integrantes do Ponto de Cultura Coco de Umbigada,
moradores da comunidade do Guadalupe e frequentadores
da Sambada de Coco do Guadalupe; Aos Mestres Griôs Mãe
Lúcia de Oyá e a comunidade do Terreiro Ilê Axé Oyá Togun,
Agradecimentos
Mestre Zeca do Rolete e toda sua família, Mestre Pombo Roxo
e Mestra Aurinha do Coco; À Professora Glauciane Maciel e
todo corpo docente da Escola Pública Municipal Maria da
Glória Advíncula; A Kennedy Piau - por me guiar pelo árduo
caminho acadêmico; A Afonso Oliveira - pela credibilidade no
meu trabalho como produtora cultural das culturas populares
e tradicionais; À Aroma Bandeira; por me ajudar a trilhar os
caminhos da literatura; Á Mônica Santana, a Marcelo Renan e
equipe do Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural
- Casa do Carnaval; À Funarte; A todos aqueles que dieta ou
indiretamente contribuíram para que este livro saísse da
esfera do sonho e se tornasse uma realidade.
Capítulo 1
O Coco e a Sambada - Manifestações Culturais Nordestinas ................................ 25
Capítulo 2
Sambada de Coco do Guadalupe - Resistência e Protagonismo Cultural
Histórico da Sambada de Coco ............................................................................... 47
A Pré-produção da Sambada de Coco ..................................................................... 79
A produção da Sambada de Coco do Guadalupe .................................................... 95
Problemas Enfrentados: Descaso do Poder Público,
Intolerância Religiosa e Perseguição Policial ......................................................... 99
Capítulo 3
Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada .............................................................. 119
Mãe Lúcia de Oyá .................................................................................................. 133
Mestre Zeca do Rolete .......................................................................................... 147
Mestra Aurinha do Coco ....................................................................................... 161
Mestre Pombo Roxo .............................................................................................. 175
Capítulo 4
A parceria do Ponto de Cultura Coco de Umbigada
com a Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula ................................ 187
Capítulo 5
Considerações ....................................................................................................... 203
Capítulo 6
Pernambuco se Envergonha com ação da Polícia Militar ..................................... 217
Repertório e Ficha Técnica do CD Demo do Coco de Umbigada .......................... 227
Capítulo 7
Referências Bibliográfcas .................................................................................... 233
Índice
Um relato com alma, ritmo e espírito
Afonso Oliveira
João Pessoa, 09 de setembro de 2011
Dani Bastos nos brinda com um daqueles livros que nos
recolhemos em um canto para não sermos incomodados. Uma
rede embaixo de uma palmeira em praia deserta é o ideal. E aí
mergulhamos por inteiro até sentirmos nosso corpo sambar,
a alma se revoltar e o espírito fcar mais esperançoso.
Esse pequeno e precioso relato em forma de livro nos
ensina o que é uma rede cultural; como nasce uma tradição
e como ela se relaciona com seu tempo; como os cantos aos
ancestrais trazem energias para as culturas de matrizes
africanas e brasileiras; de onde surge a liderança nas horas
de horror impostas pelo Estado; como se constrói uma
sociedade mais coletiva a partir do quase nada, ao redor
de apenas um tambor; como o programa Cultura Viva
transformou várias sociedades brasileiras; como crianças
bem orientadas e educadas podem construir ideais, sonhos
e encher os homens de esperança.
Nossa pesquisadora e produtora cultural fala da força
da mulher para quebrar regras, enfrentar a polícia e bater o
tambor. Essa sua identifcação com a luta de Beth de Oxum
é para mim a maior motivação desse livro. Outra motivação
também se faz latente: o respeito aos mestres e suas histórias
de vida e ensinamento. E quanto ensinamento se encontra
na mãe preta Lúcia de Oyá, outra mulher forte, e Dani se
entrega de corpo e alma ao redigir suas palavras!
O capítulo que me tomou com força é o que enumera toda
a pré-produção e produção da Sambada de Coco. Ele traduz a
certeza de que as comunidades devem se apoderar dos meios
de produção de sua própria cultura. Dani Bastos sabe da
importância desse trabalho, porque é também uma produtora
cultural, e sempre trabalhou com projetos para uma camada
pobre da sociedade, e nos resultados desses projetos coloca
sempre em destaque o trabalho da comunidade.
Ela fortalece a memória do povo brasileiro a partir
desta história em que mergulhou profundamente. É quase
um depoimento, onde a pesquisa é um complemento e
não a essência. Uma forma necessária para a compreensão
da produção cultural coletiva e comunitária, cujos atores
escrevem suas histórias e estas histórias serão impressas
neste livro de uma tradição que não morrerá tão cedo. E Dani
nos mostra isso ao contar a violência policial que sofreu o
Ponto de Cultura Coco de Umbigada naquele fatídico sete de
fevereiro.
O bairro do Guadalupe já viveu muitas histórias ao longo
de sua organização. Nesse momento, quem lá faz a história
são todos que estão envolvidos direta e indiretamente com o
O Ponto de Cultura Coco de Umbigada. O Ponto é inspirador,
é pulsante, é democrático e o mais importante é produção
cultural comunitária e responsável.
Agora, leitores e admiradores da cultura popular, só
restam a vocês procurarem um cantinho e mergulharem nessa
história que vem de Pernambuco, esse Estado de contradições
e maravilhas. Maravilhas como a história de Quinho Caetés,
Beth de Oxum, seus flhos e uma comunidade que se apoderou
e que tem uma rádio chamada Amnésia. Uma comunidade
que soube valorizar o trabalho dessa incansável produtora
cultural e pesquisadora.
Prefacio
Kennedy Piau
Darcy Ribeiro afrma, em seu livro O povo brasileiro, que
o processo de mestiçagem no Brasil criou um homem novo.
Ao longo do tempo as etnias indígena, portuguesa e africana
serviram para a formação de esse novo grupo, esse outro que
já não é mais o índio autóctone, ou o negro africano, ou o
português.
Neste novo país de dimensão continental e de nova gente
– marcado pela desigualdade –, a formação cultural, fruto da
transmissão oral, gerou processos de hibridização (troca,
mistura) que formataram a diversidade cultural brasileira. Há
comunidades que preservam os valores tradicionais, advindas
de setores historicamente marginalizados, que produzem
manifestações culturais de caráter popular e dinâmicas,
exercendo uma função no contexto em que estão inseridas.
Muitas destas manifestações agregam e difundem valores
como a solidariedade, a humildade, o espírito coletivo, o
respeito aos mais velhos e à natureza, próprios deste tipo
de organização social. Estas manifestações contêm formas
de experiência estética que não se especializaram, não se
restringiram aos aspectos formais, não se transformaram
em algo cujo único sentido é o de ser produzido para uma
contemplação esnobe ou para o mercado, como acontece nos
campos das artes chamadas eruditas.
Com a arte tradicional – como é o caso do Coco de Umbigada
– é diferente. Como nos diz Roberto Da Mata, ela satisfaz uma
função social, compõe o imaginário popular, se relaciona com
os demais aspectos da vida social das comunidades. Nesse tipo
de manifestação artística (ou cultural), a forte relação entre a
natureza e cultura cria uma lógica própria diferente da lógica
racionalista, na qual predominam os interesses econômicos.
Segundo este autor, a relação com as lendas e os mitos seria
uma das maiores características da cultura e da arte tradicional,
demonstrando uma visão mais holística (mais global e integrada)
do mundo, no qual a natureza e a cultura, os mortos e os vivos, o
mundo do real e o mundo do imaginário se relacionam de forma
intensa. As festas e as manifestações artísticas das comunidades
tradicionais reafrmam um mundo mágico, opondo-se, desta
forma, à lógica racionalista da sociedade capitalista – onde
predomina o interesse do mercado e a busca pelo lucro. Assim,
para o autor, o popular reintroduziria no mundo individualizado
capitalista a velha generosidade da troca, na qual os seres
humanos dentro das relações interpessoais, como flhos, amigos
e parentes, têm a obrigação de dar e receber.
No entanto, a imposição do modelo de desenvolvimento
baseado nos valores dominantes da cultura ocidental, na ideologia
do progresso, na busca de lucros imediatos e na imposição da
indústria cultural tem alterado radicalmente a produção material
e simbólica destas comunidades e suas manifestações artísticas.
Cada vez mais, a lógica do capital, na sua imposição pelo
lucro fnanceiro, se intensifca impulsionada pela recente etapa
do processo de globalização. Esta globalização, falsamente
apresentada como um intercâmbio econômico e cultural
equilibrado entre todos os países do mundo, na realidade seria uma
tentativa de mundialização da cultura do consumo, como afrma
Renato Ortiz. Ao tornar-se impositiva, a globalização levaria a
um desmantelamento dos modos de vida que ainda trazem em
si elementos que não formam parte da lógica capitalista. Este
desmantelamento se daria principalmente através da indústria
cultural e dos meios de comunicação de massas.
Maria Nazareth Ferreira afrma que a cultura hegemônica,
identifcada como a cultura das elites dos países ricos, se impõe
cada dia mais, mundializando a cultura do consumo e do modo
de vida capitalista. Há, neste sentido, um desmantelamento dos
modos de vida tradicionais e a desintegração de valores culturais
que trazem em si formas de explicação, compreensão e vivência
diferentes daquelas defendidas pela cultura dos países centrais,
mais poderosos econômico política e militarmente. Enquanto
na cultura hegemônica dos países centrais está presente o
individualismo, a concorrência e a depredação da natureza, nas
culturas tradicionais encontraram valores como a reciprocidade,
o respeito ao outro e à biodiversidade, que podem nos ajudar na
busca por um novo parâmetro de construção social.
Neste sentido é importante a iniciativa do Ministério
da Cultura, através da Funarte, de incentivar pesquisas que
tenham como objeto de estudo as artes tradicionais no Brasil. E
é, por outro lado, louvável que este incentivo não tenha fcado
restrito ao âmbito meramente acadêmico e possa ter chegado à
gente como Dani Bastos.
Pessoalmente, sinto-me satisfeito pelo convite para
escrever este pequeno texto. Primeiro porque conheci Dani
durante uma pesquisa de campo em que tive o prazer de conhecer
o trabalho do Ponto de Cultura Núcleo de Memória e Produção
Cultural Coco de Umbigada e pude constatar o importante e
diversifcado trabalho que estas pessoas desenvolvem com tanto
empenho, seriedade e leveza. Senti-me satisfeito por poder
contribuir minimamente quando da elaboração do projeto, e
entusiasmado ao perceber agora que uma pessoa que, em um
determinado momento, fez parte do “meu objeto de estudo” é
simultaneamente sujeito na produção de novos conhecimentos.
Neste sentido, este livro expressa um olhar de dentro, um
olhar engajado de quem se encontra no olho do furação. A
crítica, própria do mundo da universidade, se encontra com a
necessidade de um texto que possa ser compreendido por um
conjunto amplo e diversifcado de leitores. Além de se propor
a compreender as implicações sociais do trabalho relacionado
ao Ponto de Cultura, a autora afrma –ou reafrma – seu
compromisso em socializar tal compreensão, possibilitando aos
mestres da cultura popular e aos brincantes em geral o acesso
a suas próprias memórias e às refexões que podem ser usadas
como instrumento de luta contra a histórica opressão à qual
estas comunidades foram e são submetidas.
Segundo porque posso perceber no texto o
apoderamento de uma lutadora que consegue navegar com
determinação nos mares da academia e nos mares da cultura
tradicional sem negar neste trânsito o que há de melhor nos
dois campos: a crítica e a paixão.
O Coco é uma manifestação da cultura popular
que possui múltiplas vertentes que se proliferam pela
região nordeste brasileira: Coco de roda, Coco de praia,
Coco de embolada, Coco de rojão, Coco de zambê, Coco
de umbigada, entre muitos outros.
Muitos pesquisadores e estudiosos concordam que
a origem do folguedo vem da troca de experiências
entre indígenas e africanos, provinda provavelmente
dos cantos de trabalho da atividade “coqueira”. Para
suavizar a intensa jornada de trabalho, os “quebradores”
de coco versavam e rimavam sobre o seu dia a dia. Para
quebrar a casca do fruto, colocavam-no em uma pedra
e batiam-no com outra até a rachadura. Acredita-se
surgir daí o ritmo da manifestação.
Capítulo 1
Sambada: Manifestação Cultural Nordestina
25
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Há um consenso entre os Mestres e brincantes
entrevistados por nós e a bibliografia consultada para
esta pesquisa. Segundo ambas as fontes, o Coco era
uma brincadeira mais recorrente no período junino,
presença constante nos festejos para São João, São
Pedro e Santana. Ocasionalmente, fazia-se o Coco em
festividades familiares ou em momentos de folga. Nas
últimas duas décadas, com a criação e implementação
das políticas culturais que reconheceram e incluíram
as expressões artísticas das manifestações de culturas
populares e tradicionais nas programações culturais,
passamos a ver também o Coco em outros ciclos
festivos, como por exemplo, durante o carnaval.
Não encontramos na literatura o conceito ou a
definição da expressão Sambada de Coco. Os Mestres
e brincantes entrevistados neste trabalho definem a
Sambada como a festa, a reunião, o encontro, o espaço
para cantar, dançar, tocar, celebrar, ou seja, Sambada é
o espaço para brincar, sambar o Coco.
Também são poucas as referências ao significado
de Sambada de Maracatu de Baque Solto, uma
manifestação da cultura popular encontrada na Zona
da Mata do Estado de Pernambuco, cujos brincantes
26
Dani Bastos
são em sua maioria trabalhadores do corte da cana de
açúcar. Fazendo uma analogia, o conceito de Sambada
de Maracatu de Baque Solto assemelha-se ao da
Sambada de Coco. “A Sambada se constitui o espaço
onde os trabalhadores rurais se congregam, cantam,
dançam, conversam, bebem, fumam bastante. Além de
ensaio é diversão, é o lazer das classes subalternas da
Zona da Mata”. (Medeiros, 2005, p. 102).
Nas expressões e manifestações das culturas
populares e tradicionais é difícil demarcar com precisão
o início e o término do que é trabalho e do que é lazer,
em qual momento o som que ecoa dos tambores é
direcionado para os humanos ou para as divindades;
os limites são tênues, interligados. Assim é a Sambada
de Coco, uma amálgama, mistura heterogênea, tudo ao
mesmo tempo, agora.
Partindo dessa breve explanação sobre as origens
da manifestação do Coco e de um dos espaços onde é
realizada, iremos mergulhar no universo da Sambada
de Coco do Guadalupe, realizada há treze anos pelo
Ponto de Cultura Coco de Umbigada, de Olinda,
Pernambuco. Abordaremos um pouco da sua origem,
dos seus protagonistas, do seu processo de produção,
27
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
dos seus mecanismos de difusão, da sua interface com as
ferramentas da tecnologia, dos problemas enfrentados,
das suas parcerias, dos seus Mestres, do seu cotidiano.
Vamos conhecer a história do casal rastafári Beth
de Oxum e Quinho Caetés, dos seus quatro filhos
– Oxaguiam, Ialodê, Mayra e Ynaê – e de todos que
integram o Ponto de Cultura Coco de Umbigada que,
guiados pela musicalidade ancestral evocada pelo toque
da secular zabumba, tomaram nas mãos as rédeas de
seus destinos, empoderaram sua comunidade e fizeram
da cultura popular a ferramenta para a transformação
social, experiência que virou modelo replicado hoje por
vários Pontos de Cultura em todo o Brasil.
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Dani Bastos
1. Beth de Oxum | Foto: Alcides Ferraz
2. Quinho Caetés | Foto: Tenily Sales
3. Daniel Luís | Foto: Alcides Ferraz
4. Ponto de Cultura Coco de Umbigada
Guadalupe - Olinda - PE | Foto: Alcides Ferraz
5. Crianças | Foto: Tenily Sales
6. DJ NK Cumbia | Foto: Alcides Ferraz
7. Cristiano Lopes, o Tkralzy | Foto: Alcides Ferraz
8. Armandinho do Reggae
Coordenador da Rádio Amnésia FM | Foto: Tenily Sales
9. Luciano Lima | Foto: Alcides Ferraz
10. Detalhe do quadro de avisos do Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales
11. No Guadalupe a umbigada não perde pra ninguém | Foto: Tenily Sales
12. Beth de Oxum e a pequena Ynaê | Foto: Tenily Sales
13. Beth de Oxum e o tambor | Foto: Tenily Sales
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
A Sambada de Coco do Guadalupe é uma brincadeira
de herança familiar de origens entre os séculos XVIII e XIX.
A família Barbosa, residentes na Aldeia de Paratibe, no
município de Paulista, Estado de Pernambuco, tinha a prática
de realizar a Sambada de Coco com seus familiares e com a
comunidade, tendo como protagonistas dessa atividade os
Mestres de Coco João Amâncio e Zé da Hora.
Com as mortes dos Mestres, a Sambada de Coco se
calou por quase 40 anos. Em junho de 1998, a musicista,
mobilizadora e articuladora social Maria Elizabeth Santiago
de Oliveira, a Beth de Oxum, retomou a luta pela tradição
ancestral da Sambada de Coco junto com seu marido, o músico
percussionista José Carlos Barbosa, de nome artístico Quinho
Caetés, e os flhos, Oxaguiam, Ialodê, Mayra e Ynaê – herdeiros
Capítulo 2
Sambada de Coco do Guadalupe:
Resistência e Protagonismo Cultural
Histórico da Sambada de Coco
familiares da brincadeira, respectivamente neto e bisnetos dos
referidos Mestres de Coco. Beth de Oxum recuperou a secular
zabumba ancestral usada pelos antigos Mestres para animar
a roda de Coco. Com muito empenho e autoestima o grupo
voltou a realizar a Sambada, todo primeiro sábado de cada
mês. O intuito era promover o pertencimento e consolidar a
brincadeira do Coco na comunidade do Guadalupe, situada no
entorno do Sítio Histórico da cidade de Olinda, Pernambuco.
Atualmente a Sambada de Coco se realiza todo primeiro
sábado de cada mês na Rua João de Lima, o popular Beco da
Macaíba, em frente ao n°. 42, (onde se localiza o Ilê Axé Oxum
Karê ou Terreiro da Umbigada), Guadalupe, Olinda – PE. Tem
caráter lúdico, amplo e gratuito garantindo à população o
direito de fruição aos bens de natureza imaterial.
Com a realização sistemática da Sambada de Coco com
periodicidade mensal, podemos dizer que “retomou-se
um costume”. Hobsbawn nos alerta para a importância da
distinção entre costume e tradição. Segundo o autor, costume
é o termo mais adequado para denominar as práticas dos
povos ou grupos das culturas populares ou tradicionais,
pois o costume incorpora gradativamente alterações e
mudanças, assim como a própria vida. Já a tradição é regida
pela continuidade artifcial, pela referência ao passado com
formas quase que obrigatórias.
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Dani Bastos
49
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
O ‘costume’, nas sociedades tradicionais, tem a
dupla função de motor e volante. Não impede as
inovações e pode mudar até certo ponto, embora
evidentemente seja tolhido pela exigência de que
deve parecer compatível ou idêntico ao precedente.
Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou
resistência à inovação) a sanção do precedente,
continuidade histórica e direitos naturais conforme
o expresso na história. O ‘costume’ não pode se
dar ao luxo de ser invariável, porque a vida não é
assim nem mesmo nas sociedades tradicionais.”
(Hobsbawn e Ranger, 1997, p. 10).
Encontramos a refexão de Hobsbaw no seguinte exemplo.
Até meados da década de 60, a grande maioria dos
brincantes de Maracatu de Baque Virado(1) , era constituída
por praticantes do candomblé, considerando que a brincadeira
foi criada pelos negros africanos vindos para o Estado de
Pernambuco na condição de escravos e possuía fortes vínculos
com a religião.
(1) Também conhecido como Maracatu de Nação Africana, folguedo típico do carnaval
do Recife, criado pelos africanos que vieram para o Estado de Pernambuco na condição
de escravos. É considerado uma das manifestações lúdicas mais próximas das raízes
africanas do folclore brasileiro. Acredita-se que sua origem é a festividade católica de
reis-negros, celebrada na Festa do Rosário. Nos arquivos da Irmandade do Rosário
dos Pretos, do bairro de Santo Antonio (Recife) há documentos sobre a celebração da
coroação de reis negros desde os tempos coloniais. Nos grupos mais tradicionais, há
ainda memória daquela festa e seus integrantes continuam a realizar reverencias com
cânticos em honra de Nossa Senhora do rosário, na porta de suas igrejas. A marca da
cultura africana está na música e na dança, como também na organização social dos
grupos e na sua ligação com os cultos afro-brasileiros. Esta ligação é tão forte que o
maracatu é tomado como uma expressão religiosa. Na verdade o maracatu tem sido
manifestação lúdica dos grupos religiosos jeje-nagô do Recife.
Nessa época, o Maracatu de Baque Virado era
considerado uma brincadeira de negros, de xangozeiros(2),
de vagabundos ou de pobres e estes eram alguns dos motivos
pelos quais a brincadeira não era muito apreciada pelas
classes mais favorecidas. Mas na década de 90, por infuência
do movimento mangue-beat, ocorre uma valorização das
manifestações culturais populares pernambucanas e em
especial, do Maracatu de Baque Virado e esse olhar das elites
sobre o Maracatu transforma-se ou inverte-se. Muitos jovens
pertencentes às classes sociais médias e altas se interessam
pelo brinquedo e começam a freqüentar os bairros da periferia
do Recife, a ingressar e participar ativamente das Nações de
maracatu, sem necessariamente ter laços com o candomblé.
Hoje esses grupos são compostos de um perfl bastante
heterogêneo de pessoas e isso se atribui a essa maravilhosa
característica de serem ao mesmo tempo os mesmos e outros.
São simultaneamente os mesmos Maracatus de Baque Virado
de séculos atrás e outros, pois também são Maracatus de
Baque Virado contemporâneos.
Hoje o folguedo se resume ao cortejo – o desfle de uma corte real negra, obedecendo ao estilo
das procissões católicas. Conta com uma orquestra exclusivamente de percussão, chamada
de “baque-virado”, constituída de bombos, tarol, caixa-de-guerra, gonguê e mineiro, em
numero variado, de acordo com a organização do grupo.O canto – denominado de “toada”– é
tirado por um dos dirigentes do grupo e respondido em coro pelos demais desflantes.
(2) No Estado de Pernambuco, os cultos de matriz africana também eram conhecidos por
‘Xangôs’, conseqüentemente seus praticantes eram denominados xangozeiros.
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Dani Bastos
51
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Seguindo a linha de raciocínio colocada por Hobsbawn,
entendemos que se os grupos de Maracatu de Baque Virado
fossem seguir a tradição à risca, provavelmente já estariam
extintos ou seriam pouquíssimos ainda em atuação, pois
o mundo e a sociedade mudaram. Mas na busca constante
pela continuidade, os grupos se adaptaram, absorveram as
mudanças históricas, sociais e culturais que o tempo traz
impreterivelmente, se reinventaram. Mantiveram o costume
e com isso trazem o ressignifcado de sua própria existência.
A brincadeira se fortalece no Guadalupe, onde Beth
de Oxum já exercia uma mobilização sociocultural popular
através do seu Terreiro Cultural – o Terreiro da Umbigada
(3). E assim se iniciou o projeto No Guadalupe o Coco é de
Umbigada. A atividade começou no quintal do Terreiro e
logo em seguida ganhou a rua, transformando-se ao longo
de treze anos ininterruptos na tradicional Sambada de Coco
do Guadalupe, que mobiliza atualmente um público rotativo
aproximado de 2.000 mil pessoas que engloba os moradores
da comunidade do Guadalupe e localidades do entorno
(Amaro Branco, Bonsucesso, Barreira do Rosário, Monte, V8 e
Cohab), coquistas(4), brincantes, Mestres Griôs(5), comunidade
dos terreiros de Candomblé e da Jurema Sagrada, artistas,
produtores culturais, gestores públicos, turistas, imprensa,
professores e estudantes universitários, comerciantes
informais, entre outros. Na perspectiva de manutenção,
salvaguarda e continuidade, a Sambada valoriza a diversidade
cultural da manifestação do Coco e suas vertentes e promove
a difusão desta brincadeira.
“É a autoestima de uma comunidade!”, brada Beth de
Oxum repetidas vezes durante a Sambada de Coco.
Em 2004, o Coco de Umbigada torna-se um Ponto de
Cultura, através do I Edital Público dos Pontos de Cultura
do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, na
gestão do Ministro Gilberto Gil. Este Programa promove
a diversidade cultural brasileira, através da cultura, da
educação e da cidadania. Os Pontos são uma parceria entre o
Governo Federal e a sociedade civil, e contemplam iniciativas
culturais que desenvolvam atividades de arte, cultura,
cidadania e economia solidária em suas comunidades.
(3) Atualmente é o Terreiro de Matriz Africana Ilê Axé Oxum Karê.
(4) Coquista é o todo aquele que pratica cotidianamente através da música e da dança
o Coco – manifestação e ritmo popular nordestino de origem afro-indígena que possui
várias vertentes pelo Nordeste brasileiro afora. Alguns exemplos: Coco de roda, Coco de
embolada, Coco de rojão, Coco de Umbigada, entre outros.
(5) Abrasileiramento de griot, palavra francesa (Turino, 2009, p. 97). São considerados
Griôs, todos aqueles que detêm um saber adquirido ao longo de suas vidas, pela
experiência prática ou pela intuição. O Griô é um guardião da memória e da história oral de
um povo ou comunidade, são lideres que têm a missão ancestral de receber e transmitir os
ensinamentos das e nas comunidades. (www.cultura.gov.br) Alguns exemplos: Yalorixás,
Babalorixás, Parteiras, Rezadores, Contadores de História, Mestres de percussão popular,
Pajés, entre outros.
52
Dani Bastos
Os Pontos recebiam na época recursos do Governo
Federal (185 mil reais, divididos em cinco parcelas
semestrais) para potencializarem seus trabalhos, podendo
ser com compras de instrumentos musicais, fgurinos,
equipamentos multimídias, contratação de profssionais,
produção de espetáculos, eventos, entre outros. “Ponto
de Cultura é um conceito. Um conceito de autonomia e
protagonismo sociocultural” (Turino, 2009, p. 15).
O Ponto de Cultura Coco de Umbigada tem sede na
Rua do Guadalupe, No. 380, Guadalupe, Olinda – PE, e
tem como missão a preservação da memória e a difusão
da cultura popular, com ênfase na manifestação do Coco
e suas vertentes. Nessa região concentram-se um número
expressivo de artistas populares, grupos culturais e
agremiações carnavalescas da cidade de Olinda, município
outorgado como 1ª Capital Brasileira da Cultura, sendo,
portanto uma das regiões mais importantes culturalmente
dentro do Estado de Pernambuco, apesar de, em
contraponto, a localidade apresentar uma das maiores
densidades demográficas, o que gera problemas sociais
como escassez de empregos, transporte insuficiente,
dificuldade no acesso à educação, habitações precárias,
aumento da poluição, o que consequentemente acarreta
danos ambientais e agrava a questão da saúde, acarretando
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
numa diminuição da qualidade de vida. É um dos mais
baixos IDH(6) da cidade.
Com o reconhecimento, a legitimação e o incentivo
do Governo Federal, o Coco de Umbigada fortalece e
amplia suas ações e atividades iniciando um processo de
transformação social irreversível.
Tão ou mais importante que o recurso é o processo de
transformação que o Ponto de Cultura desencadeia:
respeito e valorização das pessoas da própria
comunidade, novas formas de pactuação entre
Estado e sociedade, fortalecimento da autonomia,
conexão em rede, intensifcação da troca de saberes e
fazeres, liberação de sonhos e energias criativas. Os
valores que o Ponto de Cultura agrega vão além dos
monetários (Turino, 2009, p. 43).
Algumas destas ações e atividades desenvolvidas
são as oficinas contínuas de inclusão sociocultural. Às
terças acontecem a Oficina de Ritmos, Cantos e Danças
de Umbigada do Brasil. Seus participantes são crianças,
adolescentes, jovens músicos e simpatizantes da arte
percussiva.
(6) IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é um índice que serve de comparação
entre os países, com objetivo de medir o grau de desenvolvimento econômico e a
qualidade de vida oferecida à população. Este índice é calculado com base em dados
econômicos e sociais. No cálculo do IDH são computados os seguintes fatores: educação
(anos médios de estudo), longevidade (expectativa de vida da população) e Renda
Nacional Bruta.
54
Dani Bastos
É ministrada por Beth de Oxum e Quinho Caetés,
e os conteúdos trabalhados são os ritmos e a dança de
manifestações populares brasileiras de raiz afro-indígena,
a exemplo do Coco, Jongo, Tambor de Crioula e Samba
de Roda; já as quartas é a vez da Oficina de Inclusão
Digital/Tecnologia da Informação e Comunicação, que
é direcionada para o público adolescente e adulto jovem.
Trabalha a inclusão digital utilizando o software livre(7) e
explora o uso inteligente das ferramentas da tecnologia.
Outras ações e atividades que merecem destaque são: O
Tele Centro Umbigada, que disponibiliza diariamente, em
média dez computadores para acesso gratuito à internet; o
Cine Clube Macaíba, que aproxima a comunidade da sétima
arte, lazer considerado elitista e muitas vezes inacessível
no aspecto financeiro a moradores das periferias; a Rádio
Amnésia FM, que entra no ar todos os dias levando sua
rica e diversa programação para cerca de 700 ouvintes; a
Ação Griô(8) , que promove encontros intergeracionais e,
usando a prática da oralidade, integra o Ponto, a escola e
os Mestres de tradição oral, símbolos da ancestralidade
do povo brasileiro; os grupos musicais Coco de Umbigada,
Coco de Umbigadinha, Ciranda de Acalanto e Afoxé Filhos
da Oxum que fazem apresentações artísticas em festivais,
congressos, mostras culturais e eventos afins pelo Brasil
afora. Essas são as ações desenvolvidas pelo Ponto de
55
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Cultura, que ainda tem fôlego e incentiva e estimula a
geração de trabalho e renda com os moradores locais sob a
proposta da economia justa e solidária.
O Ponto de Cultura Coco de Umbigada é uma referência
da região nordeste do Brasil dentro do Programa Cultura
Viva, tendo conquistado diversos prêmios: Prêmio Culturas
Populares – 2007; Prêmio Escola Viva – 2007; Prêmio
Pontinhos de Cultura/Ludicidade – 2008; Prêmio Cultura
e Saúde – 2008; Prêmio Mídias Livres – 2009; Ação Griô
2007/2008 e 2008/2009; Prêmio Asas, entre outros.
Podemos afrmar que a Sambada de Coco do Guadalupe
é o cerne, o eixo central, a mola mestra do Ponto de Cultura
Coco de Umbigada. É nesta ocasião que os participantes das
ofcinas, os locutores da Rádio Livre Amnésia FM, os Mestres
de tradição oral, brincantes e colaboradores do Ponto de
Cultura de diversas áreas do conhecimento exercitam a troca
dos saberes e fazeres adquiridos e praticados durante o dia
a dia da instituição.
(7) Conforme a defnição de software livre criada pela Free Software Foundation, Software
Livre, ou Free Software, é o software que pode ser usado, copiado, estudado, modifcado
e redistribuído sem restrição. A forma usual de um software ser distribuído livremente é
sendo acompanhado por uma licença de software livre (como a GPL ou a BSD), e com a
disponibilização do seu código-fonte. (http://br-linux.org/faq-softwarelivre/).
(8) A Ação Griô Nacional é uma ação compartilhada no âmbito do Ministério da Cultura
através da Secretaria de Cidadania Cultural, SCC-MinC e o Ponto de Cultura Grãos de Luz/
Lençóis-BA, visa a preservação das tradições orais das comunidades e a valorização dos
Griôs, Mestres e Aprendizes enquanto patrimônio cultural brasileiro (www.cultura.gov.br).
56
Dani Bastos
A realização da Sambada de Coco do Guadalupe é um
modelo no que diz respeito à produção cultural independente
dentro do Estado de Pernambuco que apesar da vasta
diversidade cultural ainda apresenta poucos espaços culturais
gratuitos fora dos grandes ciclos festivos – carnavalesco,
junino e natalino.
Grande parte de nossa diversidade cultural está
à margem dos mercados de produção cultural,
consequência de políticas públicas de cultura baseadas
no lucro, nos eventos de qualidade duvidosa, nas
formas equivocadas de incentivos culturais e nas
desigualdades econômicas (Oliveira, 2010, p. 22).
O Coco de Umbigada se empoderou, e não aceita a
condição de refém que muitas vezes o poder público e a
iniciativa privada insistem em impor aos artistas e grupos das
culturas populares e tradicionais. “O empoderamento devolve
poder e dignidade a quem desejar o estatuto de cidadania, e
principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio
destino com responsabilidade e respeito ao outro” (Pereira,
2006). O Ponto de Cultura Coco de Umbigada subverte, resiste,
se auto-organiza, protagoniza, cria e recria seu próprio palco
e suas próprias formas de realização, difusão e fruição de sua
produção cultural.
Dentro deste contexto, a Sambada de Coco do Guadalupe,
como uma das atividades realizadas pelo Ponto de Cultura, é
57
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
uma prova viva, concreta e real de que é possível realizar uma
gestão cultural apesar das adversidades, da insufciência de
recursos fnanceiros e de apoios institucionais. É uma proposta
de organização e mobilização social e popular que poderia ser
adaptado e inserido nas políticas públicas de cultura e replicado
em outras comunidades do Estado.
“Acho que a Sambada do Guadalupe é uma resistência
cultural, um encontro, uma celebração das pessoas que querem
ver o Coco sobreviver”, diz a professora de inglês Joana de
Farias Melo, frequentadora da Sambada há 7 anos.
A Sambada de Coco do Guadalupe engloba várias atividades
que dialogam entre si durante sua realização.
A primeira delas é o Cine Clube Macaíba, que se inicia por
volta das 19h e exibe em um telão montado em frente ao Ilê Axé
Oxum Karê flmes escolhidos pela equipe do Ponto de Cultura.
Essa escolha geralmente é norteada pelo mesmo critério da
criação do projeto gráfco, que é o tema da Sambada de Coco
daquele mês, mas pode exibir também um lançamento de alguma
produção de um cineasta local, por exemplo. Essa atividade
reúne uma plateia de 500 pessoas em média, formada em sua
maioria por crianças e jovens acompanhados geralmente pelos
pais ou responsáveis, moradores da comunidade e entorno,
58
Dani Bastos
pelos comerciantes ambulantes e seus familiares, cineclubistas
e apreciadores do audiovisual em geral. O objetivo do Cine
Clube Macaíba é democratizar o acesso à produção audiovisual
pernambucana e nacional – flmes, documentários, animações
e vídeos focados nas culturas populares e tradicionais de matriz
africana e indígena –, promover a autoestima e o pertencimento
do público morador da comunidade e seu entorno e demais
frequentadores da brincadeira em relação à identidade social,
étnica e cultural.
Em seguida, o DJ NK Cumbia inicia as atrações musicais
da noite, esquentando a plateia. Emanuel Albuquerque, que
toda rapaziada conhece também como Nekinho, é morador
da efervescente comunidade de Peixinhos, em Olinda, a qual
ganhou notoriedade nos anos 90 por ser o berço de grandes
artistas do movimento mangue beat, como o saudoso Chico
Science, ex-integrante da banda Nação Zumbi. O estilo do
discotecário, como se auto-defne NK Cumbia, percorre
pelos diversos ritmos da musicalidade latina, como a salsa,
merengue, bolero, cumbia e guaracha, lapidado por um extenso
e intenso trabalho de pesquisa com antigos guaracheiros de
seu bairro e arredores.
Depois, é a vez do Coco de Umbigadinha. O grupo é fruto
das ofcinas Ritmos, Cantos e Danças de Umbigada do Brasil e
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
O Coco e suas vertentes, ministradas no Ponto de Cultura
Coco de Umbigada por Beth de Oxum e Quinho Caetés
com a comunidade infanto-juvenil. Não existem o que os
grupos artísticos e culturais compreendem como ensaios, a
brincadeira do Coco se incorporou ao dia a dia das crianças
do Guadalupe, é uma prática cotidiana, espontânea, como
ir à escola ou assistir desenho animado na televisão. É
também um dos grupos de difusão musical do Ponto e
o exercício prático da continuidade da brincadeira e da
formação de futuros Mestres e brincantes. Sem destoar
da maioria das casas regida pela orixá Oxum, a emanação
da alegria da presença vivaz das muitas crianças é uma
das características marcantes do Ponto de Cultura Coco
de Umbigada. É um momento lúdico, pueril da Sambada,
muito apreciado e aplaudido pelo público.
A última atração da noite tem início por volta das
22 horas, quando o Grupo Coco de Umbigada – principal
representante da musicalidade do Ponto de Cultura –
começa a pisada. Sob a liderança de Beth de Oxum, vários
coquistas e os Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada,
apresentam um repertório que inclui composições
autorais e do cancioneiro popular, estabelecendo a troca
de saberes e fazeres das matrizes africanas e indígenas até
alta madrugada em Olinda.
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Dani Bastos
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Pra onde tu vai, menina?
Vou pra Olinda brincar
Pra onde tu vai, rapaz?
Vou pra Olinda brincar
Vou dançar Coco de Umbigada
Até o sol raiar
No Guadalupe a umbigada não
perde pra ninguém, de Beth de Oxum.
A música é a linguagem guia, é o vínculo, o elo com
a continuidade ancestral da Sambada de Coco. Durante
toda a noite loas tradicionais, de domínio público
e também composições autorais são entoadas pela
musicista Beth de Oxum, pelos Mestres Griôs e por
vários outros coquistas anônimos do grande público. As
músicas autorais do grupo Coco de Umbigada reforçam
a autoestima, o sentimento de pertencimento, a
identidade étnica, cultural e religiosa, pois contam a
trajetória e história do grupo, apresentam seus atores
sociais, louvam suas divindades e entidades espirituais,
falam sobre o cotidiano da comunidade do Guadalupe,
entre outros temas. Uma pequena mostra pode ser
conferida no CD com três faixas autorais do grupo Coco
de Umbigada que integra este livro.
Para os povos de matriz africana a música e a dança, a
festa em si é um presente dos orixás, como conta a lenda:
Dizem que certa vez Orunmilá veio à Terra
Acompanhando os orixás em visita
a seus flhos humanos,
Que já povoavam este mundo,
já trabalhavam e se reproduziam.
Foi quando ele humildemente
pediu a Olorum-Olodumare
Que lhe permitisse trazer aos homens
algo novo, belo e ainda não imaginado,
Que mostrasse aos homens a grandeza
e o poder do Ser Supremo.
E que também mostrasse o quanto Olorum
Se apraz com a humanidade.
Olodumare achou justo o pedido
E mandou trazer a festa aos humanos.
Olodumare mandou trazer aos homens
a música, o ritmo, a dança.
Olodumare mandou Orunmilá trazer
para o Aiê os instrumentos, os tambores
que os homens chamam de ilu e batá,
os atabaques que eles denominam
de rum, rumpi e lé,
o xequerê, o gã e o agogô e
outras pequenas maravilhas musicais.
Para tocar os instrumentos,
Olodumare ensinou os alabês,
Que sabem soar os instrumentos
que são a voz de Olodumare.
E os enviou, instrumentos e músicos,
pela mão de Orunmilá.
Quando ele chegou à Terra, acompanhando os orixás
E trazendo os presentes de Olodumare,
A alegria dos humanos foi imensa.
E, agradecidos, realizaram então
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Dani Bastos
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
A primeira e grande festa neste mundo,
Com toda a música que chegara do Orum
como uma dádiva,
Homens e orixás confraternizando-se com
a música e a dança recebidas.
Desde então a música e a dança estão
presentes na vida dos humanos
E são uma exigência dos orixás quando
eles visitam nosso mundo.
(Prandi, 2001, p. 446, 447)
Nesse contexto, os tambores exercem um papel sagrado,
são veículos de comunicação. No passado, transmitiam as
mensagens entre as tribos, pois estas se situavam a distâncias
consideráveis umas das outras e possuem também a
propriedade de estabelecer o elo entre as dimensões, ligando,
fazendo a comunicação entre o Orum (Céu, mundo dos orixás)
e o Aiê (Terra, mundo dos homens).
A zambumba ancestral centenária da família Barbosa,
quando resgatada por Quinho Caetés na casa de um tio,
teve o couro e as cordas renovadas, mas conserva ainda o
mesmo bojo de macaíba, o mesmo aro de jenipapo e carrega
a imantação da energia das várias mãos que a percutiram e a
repercutiram ao longo de mais de um século. Quinho Caetés
expressa o simbolismo desse tambor que alinhava a trajetória
dessa herança cultural.
Aquele tambor tá ali como celebração, tem vez que eu
faço ritual, eu boto fogo, uma coisa bem indígena, um
símbolo, pra nós é uma coisa muito rica, é como se
tá todo mundo, vamos dizer assim: em um minuto
de silêncio, tá? Veja só como eu faço a sensibilidade,
então, aquele tambor pra tocar é como se fosse um
símbolo mesmo que você levanta ele e diz: tá aqui
o troféu do teu povo, tá aqui o troféu da minha
nação que até hoje existe, né? Que tá vivo até hoje
mostrando pro mundo todo esse ritmo, que onde eles
cantavam, onde eles se abraçavam, brincavam... aí tá o
fogo, onde eles brincavam com aqueles instrumentos,
era brincadeira, mas a brincadeira hoje pra nós é
responsabilidade, carregamos um símbolo de um
povo, de uma nação, dentro de um ritmo, de uma
cultura muito grande que é o nosso Brasil(9).
Em forma de rodízio, todos os Mestres Griôs e coquistas
recebem a chance de mostrar seu estilo e seu trabalho. A
oportunidade é garantida, tanto na exposição quanto na
fruição da produção cultural, pois a organização da noite é
feita à luz do compartilhamento. Nesse contexto, é possível
encontrar semelhanças com o período carnavalesco, pois
simultaneamente todos são palco e plateia.
“Na verdade, o carnaval ignora toda distinção entre
atores e espectadores. [...] Os espectadores não
assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o
carnaval pela sua própria natureza existe para todo o
povo” (Bakhtin, 1987, p. 06).
(9) Depoimento prestado por Quinho Caetés a esta pesquisa, coletado no dia 05 de abril de 2011.
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Dani Bastos
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Durante a Sambada, é no mínimo interessante observar
as belas e exímias performances de dança tanto dos coquistas
quanto do público. É uma dança permeada de expressões
corporais peculiares, características, espontâneas, intuitivas.
Não há coreografas, técnicas ou regras pré-estabelecidas,
como nas modalidades e estilos ensinados nas academias
e escolas de dança. O processo de aprendizagem se dá na
vivência, na participação das rodas de Coco. Mas alguns
brincantes demonstram, que além das habilidades artísticas
e corporais, ainda possuem o dom de se conectar com a
dimensão ancestral/espiritual da qual é oriunda a brincadeira
do Coco – a Jurema Sagrada.
Não podemos deixar de ressaltar aqui as referências
ancestrais/religiosas da manifestação do Coco que são o
Candomblé e o culto da Jurema Sagrada. Essa ancestralidade/
religiosidade é o fo condutor e mantenedor das diversas
manifestações populares e tradicionais presentes no nosso
Estado. A ancestralidade/religiosidade é o alicerce, é o motivo pelo
qual essas manifestações resistiram historicamente à repressão, à
violência, à intolerância e ao preconceito até os dias atuais.
Desde a infância, Beth de Oxum frequentava os Terreiros de
Candomblé e de Jurema da periferia de Olinda, sua cidade natal.
Ainda conserva a memória viva das lembranças das festividades
para os santos Cosme e Damião, santos católicos que no
sincretismo religioso são relacionados aos Ibejis, orixás gêmeos
protetores das crianças muito cultuados no nordeste do Brasil.
Em sua juventude quando militava no Movimento Negro
Unifcado e integrava o Afoxé Alafn Oyó, do qual chegou
a ser presidente, Beth achava que era flha da orixá Oyá,
pois identifcava-se com o arquétipo da mulher guerreira,
independente, destemida, características dessa deusa africana.
Mas quando de frente para o jogo de búzios, oráculo das religiões
de matriz africana pelo qual se conhece o orixá regente da
pessoa, quem falou foi Oxum. No início Beth fcou um pouco
inconformada, mas aos poucos, conhecendo melhor as nuances
da deusa, veio o encantamento.
Oxum era muito bonita, dengosa e vaidosa, ela
gostava de panos vistosos, marrafas de tartaruga e
tinha, sobretudo, uma grande paixão pelas joias de
cobre. Antigamente, este metal era muito precioso
na terra dos iorubas. Só uma mulher elegante
possuía joias de cobre pesadas. Oxum era cliente
dos comerciantes de cobre. Omiro wanran wanran
wanran om iro! ‘A água corre fazendo o ruído dos
braceletes de Oxum!’ (Verger, 1997).
Hoje, reconhecemos imediatamente Oxum em todos os cantos
do Ponto de Cultura Coco de Umbigada – na cor amarela das paredes,
nas crianças que correm e brincam livres incansavelmente, nas portas
sempre abertas para todos que chegam. Oxum está presente até no
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Dani Bastos
67
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
nome artístico e agora religioso de sua coordenadora, Beth de Oxum.
Oxum é a madrinha do Coco de Umbigada.
Recentemente Beth recebeu a patente de Ebami (10) pelas
mãos de Mãe Lúcia de Oyá, e inaugurou o Ilê Axé Oxum Karê
– o Terreiro da Umbigada, que completou dois anos agora em
julho de 2011. Para Beth, as duas mais importantes missões
das casas de candomblé são o acolhimento indiscriminado de
todos aqueles que por caminhos e motivos variados chegam aos
Terreiros, independente da etnia, da crença religiosa, da faixa
etária, da sexualidade, da classe social, da condição econômica;
e também a consolidação da família, quer seja a família
sanguínea, como a família construída pelos laços espirituais.
O homem ocidental contemporâneo, cada vez mais urbano,
distanciou-se da natureza. Concebe-se um ser superior, à parte,
individual e não um ser integrado aos ecossistemas e biomas.
O desmatamento, a poluição, a matança de animais, tudo isto
distancia o homem do universo espiritual e, na ótica da matriz
africana, afasta o homem da natureza e consequentemente
dos orixás, pois os orixás são a própria natureza – a água, o
ar, as plantas, as pedras, a terra, por exemplo, são alguns dos
elementos cultuados pelos adeptos do Candomblé.
(10) Pessoa no Candomblé que já cumpriu o período de iniciação, na feitura de santo, já
tendo feito a obrigação de sete anos.
Beth de Oxum é uma das maiores representantes
atuais do protagonismo feminino dentro do universo das
culturas populares e tradicionais. Durante muito tempo o
papel da mulher dentro dos folguedos esteve em segundo
plano, ofuscado pela predominância do machismo em nossa
sociedade. Foi uma das primeiras mulheres no Estado de
Pernambuco a quebrar o tabu da relação entre a mulher e
o tambor, rompeu paradigmas e deu a volta nos palcos do
mundo tocando os instrumentos de percussão.
Em parceria com Mãe Lúcia de Oyá e o Ilê Axé Oyá
Togun, desenvolvem as atividades do Ponto de Cultura
Ensinamentos de Mãe Preta, cujo intuito maior é promover
encontros das mulheres que estão à frente de Terreiros de
matriz africana e indígena e também que são lideranças
comunitárias, articulando em rede e fortalecendo as ações
do segmento de gênero.
A Sambada de Coco do Guadalupe é um encontro
simultâneo de opostos complementares: passado e presente,
sagrado e profano, tradição e modernidade, palco e plateia,
humano e espiritual, amalgamados, mesclados, conectados
e combinados em uma grandiosa celebração mágica e
atemporal. Caminhando na linha tênue de delimitação
dessas esferas, percebemos que a Sambada de Coco do
68
Dani Bastos
Guadalupe é uma brincadeira que extrapola, que transcende
o puro entretenimento; ela é uma louvação, um chamado,
um momento de encontro atemporal com a ancestralidade.
Sem fugir à regra das brincadeiras populares de rua,
no auge da Sambada temos a sensação de passar para
outra dimensão. Para compreender a Sambada de Coco do
Guadalupe em sua totalidade é necessário um novo olhar,
é preciso se desprender das certezas. Deveríamos talvez
utilizar o macroscópio de Joël de Rosnay (1995, p. 15).
O macroscópio fltra os pormenores, amplia o que
os liga, põe em evidência o que aproxima. Não
serve para ver maior ou mais longe, mas sim para
observar aquilo que é simultaneamente demasiado
grande e por demais complexo para os nossos olhos.
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
1. Beth de Oxum e Quinho Caetés | Foto: Alcides Ferraz
2. Mayra, Lalodê e Ynaê | Foto: Tenily Sales
3. Desenho feito por Lalodê | Foto: Dedê
4. Mayra, 8 anos em frente ao
Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales
5. Detalhe da parede do Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales
6. Ilê Axé Oxum Karê | Foto: Tenily Sales
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
O processo de pré-produção da Sambada de Coco do
Guadalupe tem início com o envio de ofícios com cerca de
quinze dias de antecedência para os seguintes órgãos públicos
municipais:
• SEPLAMA – Secretaria de Transportes, Controle
Urbano e Ambiental/Prefeitura de Olinda, solicitando
autorização para realização do evento;
• SEPACCTUR – Secretaria de Patrimônio e Cultura/
Prefeitura de Olinda, solicitando o envio dos banheiros
químicos;
• 1º Batalhão de Polícia Militar, solicitando policiamento
para o evento visando garantir a segurança e harmonia do mesmo.
A pré-produção da Sambada de Coco do Guadalupe
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Dani Bastos
Em todos os ofícios constam as mesmas informações de
local, data e horário: Rua João de Lima, em frente ao No. 42,
Guadalupe, Olinda PE, das 19h as 01h.
O passo seguinte é a escolha do tema da Sambada de
Coco, que geralmente é guiado a partir do calendário do
Candomblé Nagô pernambucano ou da Jurema Sagrada,
ou seja, dedica-se o tema da Sambada aos orixás e/ou às
entidades reverenciadas naquele mês. São levadas em
consideração também as atividades realizadas naquele
determinado período no Ponto de Cultura.
Escolhido o tema, vem a criação do projeto gráfico do
cartaz de divulgação da Sambada de Coco do Guadalupe,
que fica sob a responsabilidade do jovem Daniel Luís
Albuquerque, 20 anos, músico e monitor de tecnologia
da informação do Ponto de Cultura. Já o texto que
acompanha o cartaz de divulgação é elaborado ora por
Ronaldo Eli, assessor de comunicação do Ponto de Cultura
Coco de Umbigada, ora pela Beth de Oxum, ou às vezes
coletivamente pela equipe do Ponto.
Iremos dar um exemplo concreto, para facilitar a
compreensão desta etapa. Durante a pesquisa de campo
deste projeto, nós acompanhamos a pré-produção da
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Sambada que seria realizada no mês de abril de 2011. O
tema fez referência à mostra dos resultados de três meses
de atividades realizadas pelos participantes da ofcina
Hackeando Parangolé, desenvolvida pela artista Cinthia
Mendonça (RJ), que trabalhou a construção de artefatos
com materiais luminosos (LEDs). A Ofcina teve o incentivo
do Prêmio Interações Estéticas 2010/Residências Artísticas
em Pontos de Cultura/Funarte. Já o texto, cita a presença da
nossa equipe realizando a pesquisa de campo para compor
este livro, resultado fnal do nosso projeto.
O passo seguinte é o envio do cartaz de divulgação
através da mailing list composta de cerca de 5000 endereços
eletrônicos, direcionada ao público alvo de Pontos de
Culturas, comunidade de Terreiros de Matriz Africana
e Indígena, grupos de culturas populares e tradicionais,
agremiações carnavalescas, movimentos sociais,
movimentos de radiolivristas, de cineclubistas, produtores
culturais, entre outros segmentos. O cartaz também é
postado no blog do grupo(11) e nas principais redes sociais,
a exemplo do Facebook.
(11) http://sambadadecoco.blogspot.com
A Rádio Amnésia FM 89,5 mega-hertz é uma mídia
livre que chegou ao Ponto de Cultura Coco de Umbigada
através de uma ofcina promovida pelo Prêmio Interações
Estéticas/Funarte e se consolidou com o projeto aprovado no
edital de Pontos de Mídias Livres do Ministério da Cultura
que possibilitou a compra dos equipamentos – antena e
transmissor. “O desempenho foi tamanho que o equipamento
de rádio plantou raízes no Coco” (Gutierrez, 2009, p. 59).
Partindo da compreensão que a comunicação é um direito
humano e social, a Rádio Amnésia possui em sua grade
de programação diversos programas protagonizados por
moradores da localidade. Seu Abílio, comerciante local, realiza
aos sábados o programa Forrozão do Abílio, com repertório de
Luiz Gonzaga, Trio Nordestino e outros baluartes do autêntico
forró nordestino; Armandinho do Reggae, Coordenador da
Rádio Amnésia, vai ao ar diariamente com seu programa
Conexão Reggae, trazendo desde o lendário Bob Marley as
recém-criadas bandas da periferia da região metropolitana;
o jovem monitor de tecnologia Daniel Luís, vem com o
Consciência Hip Hop, com ênfase no hip hop nordestino; o
Babalorixá Ivanildo de Oxóssi é o responsável pelo programa
Boa Tarde Vodunce, no qual temas referentes à matriz africana
são debatidos com convidados; Beth de Oxum, seus flhos e as
demais crianças da comunidade fazem o Brincar para o sonho
alimentar, promovendo a importância da cultura da infância.
82
Dani Bastos
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Comunicadores de outras comunidades também integram a
grade, como o DJ NK Cumbia que difunde a música latina à
frente do Coco de la Cumbia.
Os objetivos da Rádio Amnésia são a garantia ao direito
à comunicação através da democratização dos meios de
comunicação, o acesso à informação e fazer a difusão da
produção musical não contemplada pelas mídias convencionais.
Em um raio de 40 km de alcance, divulga a Sambada de Coco e
suas atividades. “É a rádio que esqueceu do seu dinheiro”, diz o
slogan durante a toda a programação.
Por outro lado, a questão envolve um grande paradoxo,
um contrassenso. O Governo Federal dá com uma mão e
tira com a outra. O equipamento foi adquirido com recursos
provindos de um prêmio do Ministério da Cultura, mas
o Ministério das Comunicações não autoriza a concessão
facilmente. Este processo torna-se burocrático, moroso,
levam anos. “De um lado, um ministério potencializando a
polifonia; de outro, instituições da mesma república podando
essas novas falas” (Turino, 2009, p. 21).
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Dani Bastos
A legislação que regulamenta as rádios comunitárias
é bastante restritiva e não se ajusta à realidade
viva das comunidades que querem se expressar
legitimamente. Processos de concessão de rádios
comunitárias levam anos para a serem autorizados,
gerando um descompasso entre a vontade das
comunidades em romper com o monopólio da mídia
e a legislação (Turino, 2009, p.21).
A Sambada de Coco do Guadalupe já é um evento
assimilado pelos brincantes, simpatizantes e frequentadores
das brincadeiras e manifestações das culturas populares e
tradicionais de Pernambuco, que já sabem de cor o refrão
repetido há treze anos pela Mãe Beth de Oxum: “Todo primeiro
sábado do mês, no Guadalupe, o Coco é de Umbigada”.
1. Igreja do Guadalupe - Olinda - PE | Foto: Alcides Ferraz
2. Beco da Macaíba Guadalupe - Olinda - PE | Foto: Alcides Ferraz
3. Rose | Foto: Alcides Ferraz
4. Beth de Oxum no Ilê Axé Oxum Karê | Foto: Alcides Ferraz
Os primeiros preparativos da produção da Sambada
de Coco – a limpeza do local, a montagem e teste dos
equipamentos de som e iluminação, a fxação da faixa do
evento – começam na parte da manhã, por volta das 9h30
e são realizados pelos próprios componentes do Ponto de
Cultura: o Coordenador Pedagógico Quinho Caetés, o músico
Luciano Lima, o locutor da Rádio Amnésia FM Armandinho
do Reggae e o jovem monitor de tecnologia Daniel Luís.
Em grande parte dos grupos de culturas populares e
tradicionais e principalmente nos Terreiros de Candomblé,
onde a base das relações é de parentesco, as refeições tem um
signifcado sagrado e também social. “Comer é antes de tudo
se relacionar” (Beltrame, 2008, p. 245). O alimento deve ser
compartilhado, o ritual da comida é intensamente simbólico:
A produção da Sambada de Coco do Guadalupe
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
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Dani Bastos
é acolhimento, é fartura, é troca, estabelece vínculos,
fortalece laços, une. A Mãe Beth e sua família, as crianças
da comunidade, os visitantes, os ofcineiros, os músicos, os
pesquisadores, a equipe do Coco de Umbigada: todos almoçam
no Ilê Axé Oxum Karê.
Do meio para o fnal da tarde já começam a chegar os
comerciantes informais de alimentos e bebidas que trabalham
na Sambada. Instalam-se pelo Beco da Macaíba, com seus
carros de mão, carroças, isopores, engradados, fogareiros e
demais utensílios. Cachorro-quente, churrasquinho, pastel,
queijo assado e outras iguarias regadas a muitas e muitas
cervejas geladas compõem o cardápio da noite. “Festa sem
comida e bebida é porque não dá mesmo!”, diz sorrindo o
músico Luciano Lima. Para a maioria dos ambulantes, a
Sambada proporciona o complemento da renda familiar. “Dá
pra arrumar um trocado”, diz a comerciante Alcineide Maria,
de 32 anos, que negocia onde tem festa de rua na cidade de
Olinda. “Infelizmente aqui em Olinda não tem nada”, lamenta.
No paradoxo do binômio tradição-modernidade, o Ponto
de Cultura Coco de Umbigada é um dos grupos de cultura
popular que habilidosamente incorporou com maestria
e criatividade no seu cotidiano o diálogo inteligente da
tradição com as novas ferramentas da tecnologia. A Revista
97
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Vida Simples (2009) traz uma matéria sobre Beth de Oxum
intitulada Guardiã Cibernética, reportando-se a como Beth
usou os mecanismos da modernidade para favorecer a
tradição.
Integrando o Programa Digital do Ministério das
Comunicações através da Rede Mocambos, rede que articula
comunidades quilombolas urbanas e rurais em todo Brasil,
o Coco de Umbigada ampliou a capacidade de atendimento
do Tele Centro Umbigada que funciona diariamente,
disponibilizando gratuitamente dez computadores para a
comunidade do Guadalupe e entorno, promovendo o acesso
à inclusão/alfabetização digital para pesquisas, trabalhos
escolares e atividades afns, utilizando uma metodologia
própria que foca o uso inteligente dessas ferramentas, visando
à informação e a comunicação, estimulando a produção
de conteúdos. Em entrevista a Revista Ministério das
Comunicações (2008), Beth de Oxum afrma que “a internet
mudou o paradigma da nossa comunidade”.
Foi essa parceria com as novas tecnologias, a inserção e
conexão nas redes virtuais que repercutiu o grito de socorro
e o clamor por justiça perante a violência policial sofrida pelo
grupo como veremos a seguir.
99
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Em nossa pesquisa, verifcamos que o Ponto de Cultura Coco
de Umbigada solicita através de ofícios apoio para a realização da
Sambada de Coco do Guadalupe, conforme detalhamos no capítulo
anterior. Porém, no dia 02 de abril de 2011, quando chegamos a
Olinda às 9h e saímos ao término da Sambada de Coco, por volta de
3h da madrugada, constatamos que nem sempre as solicitações são
atendidas pelos órgãos competentes.
Neste dia, os banheiros químicos não foram enviados, nem a
Polícia Militar apareceu. Esse fato gera transtornos, aborrecimentos
e desentendimentos com a vizinhança. Para ilustrar a situação,
trazemos um exemplo concreto. Se a Secretaria de Patrimônio e
Cultura/Prefeitura de Olinda não envia os banheiros químicos, em
determinado momento os frequentadores da Sambada vão ter que
fazer suas necessidades fsiológicas em algum lugar, mesmo que esse
Problemas Enfrentados: Descaso do Poder Público,
Intolerância Religiosa e Perseguição Policial.
100
Dani Bastos
lugar seja o portão de algum morador da localidade. É óbvio que daí
surgirá no mínimo um descontentamento.
A presença da polícia militar transmite a sensação de segurança e
inibe um pouco os pequenos delitos. Alguns Mestres, vários brincantes
e comerciantes informais queixam-se da falta de segurança na volta
para casa ou a caminho da parada de ônibus ou táxi. Não são poucos
os relatos de assalto. Mas é importante ressaltarmos aqui que isso
não é uma situação exclusiva da comunidade do Guadalupe, Olinda
ou Pernambuco. É uma situação presente em todas as periferias
brasileiras. Em muitas delas a polícia é mais temida que os bandidos.
Infelizmente ainda existe tratamento diferenciado da polícia para
com a população, principalmente quando essa parte da população
tem a cor da pele mais escura, quando o poder aquisitivo dessa
população é menor e quando o conhecimento dos direitos humanos é
praticamente inexistente.
No ano de 2009, a Sambada de Coco do Guadalupe sofreu
com a perseguição e a violência policial. O ocorrido repercutiu
nas redes virtuais de norte a sul do país. De forma geral, todos
nós temos conhecimento seja através de livros e documentos
históricos, de flmes e produções audiovisuais, em explanações
ou palestras na escola ou na universidade ou mesmo ouvindo
relatos de memória e depoimentos de antigos brincantes que,
durante uma determinada época em nosso país, para os terreiros
101
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
de Candomblé ou de Jurema Sagrada pudessem bater ou para
que as agremiações carnavalescas e brinquedos populares
saíssem às ruas, por exemplo, era necessário pedir autorização
à delegacia, deixando bem claro o dia e horário e muitas vezes
o nome completo e documento de identifcação das pessoas que
iriam estar naquele local ou participando daquela atividade. Caso
contrário, a penalidade era a chegada truculenta da força armada
da polícia, sem dó nem piedade disposta a espancar, apreender
e quebrar os instrumentos musicais e objetos de culto, prender,
humilhar, desmoralizar. Pois a prática do candomblé e das diversas
manifestações e expressões das culturas populares e tradicionais
eram consideradas contravenção, proibidas no âmbito da lei.
Mas existe uma enorme diferença entre ouvir falar
e vivenciar tal situação. Podemos pelo menos imaginar a
enormidade do desespero sentido pelos nossos antepassados,
nossos avós, bisavós, tataravós, no momento em que estavam
louvando os orixás ou estavam com suas agremiações ou seus
brinquedos na rua e a polícia chegava destruindo os objetos
do folguedo. Eles não tinham a quem recorrer, a quem pedir
socorro, a quem denunciar, a quem pedir justiça. As opções
eram correr para escapar, ou resistir e apanhar, ser preso,
constrangido e algumas vezes se deparar com a morte e,
apesar disso, conservar a fé e a esperança de que um dia, no
futuro, as coisas pudessem ser diferentes.
102
Dani Bastos
Tivemos, sim, muitas conquistas, inclusive no âmbito da
legislação, pois a constituição brasileira garante a liberdade
de credo e diz ainda que o Estado protegerá as manifestações
oriundas das culturas populares e tradicionais, assim como
qualquer dano ou ameaça a esse patrimônio serão punidos. A
lei existe, mas nem sempre é cumprida, e em pleno século XXI
ainda nos deparamos com a intolerância, com o preconceito,
com a perseguição e com a violência, como veremos na descrição
a seguir, elaborada a partir do que foi coletado por nossa equipe
em entrevistas realizadas com os participantes do Ponto de
Cultura Coco de Umbigada, brincantes e freqüentadores da
Sambada e moradores da comunidade do Guadalupe durante a
etapa da pesquisa de campo deste projeto.
Dia 07 de fevereiro do ano de 2009. Dia de Sambada de
Coco na comunidade do Guadalupe, o Coco de Umbigadinha,
já fazia a passagem de som, para iniciar sua apresentação, que
neste dia tinha um sabor especial, sabor de bolo confeitado,
feito especialmente para comemorar a aprovação do projeto
Uma brincadeira chamada Coco de Umbigadinha no Edital
Pontinhos de Cultura/Ludicidade (12) , do Ministério da Cultura.
(12) Ação constituída através de edital do prêmio Pontinho de Cultura instituído pelo Ministério
da Cultura através da Secretaria da Cidadania Cultural e da Secretaria de Articulação Institucional
do Programa Mais Cultura. Os Pontinhos de Cultura visam mobilizar, sensibilizar e desenvolver
conjuntamente com instituições públicas e entidades sem fns lucrativos a elaboração de atividades
para a implementação e difusão dos direitos da criança e do adolescente, principalmente no que
tange o direito de brincar enquanto patrimônio cultural
103
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
A aura de comemoração e alegria que circundava os primeiros
momentos da Sambada de Coco foi substituída por um sentimento
de constrangimento e medo. O motivo foi a chegada de várias viaturas
das Polícias Civil e Militar do Estado de Pernambuco das quais
desembarcaram cerca de 40 policiais usando coletes a prova de bala e
pesados armamentos. Indagaram pela responsável pelo evento, Beth
de Oxum, que se apresentou. Os policiais falaram que receberam
uma denúncia e estão com ordem de cancelar a brincadeira, baseados
na Lei do Sono ou Silêncio. Beth de Oxum argumentou que tinha
autorização dos órgãos municipais competentes para realizar a
celebração mensal e mostrou ao policial os ofícios enviados pelo
Ponto de Cultura com a autorização conseguida e também os ofícios
recebidos com as respectivas respostas, todas positivas. Apontou para
o banner do evento, para as logomarcas dos apoiadores – Prefeitura
de Olinda, Fundarpe (13) – Governo do Estado de Pernambuco e
Ministério da Cultura. Mas nada disso foi sufciente. Em entrevista,
Beth de Oxum declarou:
O Capitão Daniel Pereira disse que era mentira que tínhamos
esse apoio, que forjamos um banner, pois o Ministério da
Cultura não apoiaria projeto ‘de um povo com estes cabelos’.
[...] Tudo a mando do Major Marcos Pereira e do seu irmão
Capitão Daniel Pereira, moradores da nossa comunidade
do Guadalupe. A mãe é evangélica e eles não aceitam, não
toleram e não respeitam o nosso trabalho e a religiosidade
de matriz afro (Gutierrez, 2009, p. 62).
(13) Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – www.fundarpe.pe.gov.br
104
Dani Bastos
Os equipamentos de som começaram a ser recolhidos e
colocados nas caminhonetes da Policia. Alguém na plateia instigou:
“Vamos fazer como faziam nossos avós, na voz e na palma da mão”.
E as crianças do Coco de Umbigadinha, fazem ecoar a centenária
zabumba, acompanhada pelos pandeiros e ganzás. A polícia arrancou
os instrumentos das mãos das crianças. A comunidade vaiou os
policiais. “Vão prender ladrão!” – gritaram indignados os moradores.
O comandante da operação insistiu para que Beth de
Oxum o acompanhasse até a delegacia, para, segundo ele,
dar explicações da “infração” que estaria cometendo contra
a Lei do Sono. Ela recusou-se. Falou que fazer Coco não era
mais crime. Beth de Oxum telefonou para Márcia Souto, na
época Secretária de Cultura de Olinda e relatou o que estava
acontecendo e pediu explicações, pois no dia anterior, sexta
feira dia 06 de fevereiro tudo foi combinado em uma reunião
na qual estavam presentes os representantes do município de
Olinda e da própria Polícia Militar para acerto de normas para
a realização da Sambada, Márcia Souto tranquilizou Beth, disse
que iria enviar o Secretário de Controle Urbano, o Sr. João Luiz
para acompanhar Beth à delegacia para reaver a aparelhagem
de som e os instrumentos musicais. Quando o Secretário João
Luiz, Beth de Oxum e Mãe Lúcia de Oyá chegam à delegacia
de Casa Caiada – Olinda defrontaram com o Capitão Daniel,
o Major Marcos e o Tenente responsável pela operação que
105
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
há poucos momentos atrás queria prender a Beth de Oxum.
O delegado alegou ao Secretário João Luiz que o som da
Sambada excedia o percentual de decibéis permitidos por lei. O
Secretário respondeu que a competência de medir o percentual
de decibéis em festividades de rua era da sua Secretaria e não
da Polícia Militar de Pernambuco. Os instrumentos voltaram
para casa no mesmo dia. O equipamento de som chegou no
dia seguinte, pelas mãos de uma delegada que tinha recebido
um telefonema do Prefeito de Olinda, o Sr. Renildo Calheiros
solicitando a devolução do material do Coco de Umbigada, um
dos Pontos de Cultura mais importantes de Olinda e do Brasil.
No outro dia Beth redige um relato, um desabafo detalhado
sobre toda a situação ocorrida e dispara para as redes virtuais
de comunicação compartilhada.(14) O clamor do Coco de
Umbigada e seu pedido de ajuda ecoam, repercutem os quatro
cantos do país. O resultado foi uma cobrança nacional do ponto
de vista político ao Governo do Estado de Pernambuco e ao
Ministério da Cultura. Em seguida, o grupo lança a campanha:
Diga não à violência, diga sim à Sambada de Coco, que rendeu ao
grupo participação em documentários, entrevistas, palestras e
eventos afns para relatar o abuso sofrido e relatar a experiência
de enfrentamento da situação.
(14) O e-mail de Beth de Oxum pode ser conferido nos anexos deste livro.
106
Dani Bastos
Alguns exemplos foram: promoveu a refexão sobre o ocorrido
numa roda diálogo coletivo realizado em Olinda pelo Pontão de
Cultura e Convivência e Cultura e Paz, de São Paulo; gravou um
programa de rádio efetivado pela Escola Municipal Maria da Glória
Advíncula, com os locutores da Rádio Amnésia, os frequentadores da
Sambada, os moradores e os comerciantes da comunidade; participou
no documentário Um rosto no espelho, do cineasta paraense Renato
Tapajós; compartilhou a dorida experiência no evento Observa e Toca
Malakof, projeto que mesclava debates e apresentações artísticas,
promovido pela Fundarpe; entre outros.
A violência sofrida nesse dia foi marcante, deixou uma cicatriz
que não tem como ser removida do corpo, da alma, da memória,
da vida de todos aqueles participantes do Coco de Umbigada, sejam
brincantes ou frequentadores da Sambada de Coco do Guadalupe.
É decepcionante a constatação do ainda longo e árduo caminho
para a erradicação da intolerância, da perseguição, do descaso e
da discriminação contra as manifestações oriundas das culturas
populares e tradicionais. Essa é uma ferida aberta e infamada que
lateja em nossa sociedade. Uma doença social que não pode mais ser
ignorada, que tem que ser tratada com efciência, curada.
Os danos causados por este trágico dia nos aspectos morais e
psicossociais são imensuráveis. A pequena Mayra Karê, de apenas
8 anos de idade, terceira flha de Beth de Oxum e Quinho Caetés,
107
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
após o acontecido passou um período com medo de brincar o
Coco. Ela perguntava: “Mãe, a polícia veio prender a gente porque
a gente canta coco ou porque temos o cabelo rasta?”. Para nós, fca
a seguinte refexão: Quem se responsabiliza pela reparação de um
trauma dessa natureza?
A violência atinge de várias maneiras os grupos de culturas
populares e tradicionais. No Estado de Pernambuco, as apresentações
artísticas, nas ocasiões de grandes ciclos culturais como o carnaval e
os festejos juninos, ou em festivais culturais, é difícil vermos artistas
das culturas populares e tradicionais serem a principal atração da
programação. De forma geral, esses grupos são lotados nos palcos de
apoio, com menor visibilidade, infraestrutura precária, equipamento
de som de qualidade inferior, muitas vezes sem camarim, outras
tantas vezes sem alimentação, sem uma boa divulgação nas mídias,
em um horário que não favorece o comparecimento do público. Existe
também um enorme abismo se compararmos os cachês dos grupos e
artistas das culturas populares e tradicionais com os cachês dos artistas
que estão em evidência através das mídias convencionais aliadas de
uma indústria cultural que impõe um modelo único, padronizando a
cultura, a identidade e a diversidade brasileira, encobrindo-as com um
manto de invisibilidade.
As produções culturais das culturas populares e tradicionais
ainda são consideradas, pela maioria dos gestores públicos e pelos
agentes do mercado cultural, como uma produção menor ou inferior.
Temos raríssimos negros e índios no poder. Obviamente, isso se
refete nas políticas públicas. É muito difícil contemplar algo que se
desconhece. O programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, na
gestão de Gilberto Gil foi um marco divisor na história das políticas
públicas de cultura desse país. Houve muitas falhas, lacunas, questões
que fcaram em aberto, mas também houve avanços indiscutíveis
no reconhecimento, valorização e na democratização dos recursos
públicos para a cultura com segmentos da sociedade praticamente
ignorados em gestões anteriores como as crianças, idosos, povos
tradicionais (quilombolas, indígenas, ciganos), expressões das culturas
populares e comunidade LGBT.
Existem aqueles que como Beth de Oxum e Quinho Caetés que
não se entregam e que não desistem; persistem, insistem e perseveram
na busca dos seus ideais, fazendo das ferramentas da tecnologia suas
aliadas; das mídias livres sua assessoria de comunicação; inteirando-
se sobre as formas burocráticas de funcionamento do poder público;
apropriando-se dos editais e chamadas públicas; munindo-se com as
armas propostas pelo sistema vigente para poder lutar, se não de igual
pra igual, pois a distância e as barreiras são enormes; mas para poder
se contrapor com dignidade e propor outros modelos de produção,
mostrando alternativas mais horizontais, justas, colaborativas,
compartilhadas, múltiplas e diversas, fazendo seus próprios palcos,
mostrando que todos tem direito a um lugar sob o sol.
108
Dani Bastos
1. Detalhe da parede do Ponto de Cultura Coco de Umbigada | Foto: Tenily Sales
2. Crianças da comunidade do Guadalupe assistindo ao Cine Clube Macaíba | Foto: Tenily Sales
3. Exibição do Cine Clube Macaíba | Foto: Tenily Sales
4. Matéria com Beth de Oxum na Revista Vidas Simples | ano 2009.
5. Matéria do Jornal do Commércio | 04 Setembro de 2009.
Este capítulo (15) dedica-se aos guardiões dos saberes e
fazeres das culturas populares e tradicionais oriundos das
matrizes africanas e indígenas, alicerce dos brinquedos e
manifestações culturais brasileiros: os Mestres de Tradição
Oral, ou Griôs, como são denominados mais recentemente
por infuência do Programa Cultura Viva do Ministério da
Cultura através da Ação Griô. “Essa é uma ação que faz refetir
sobre a dimensão sagrada da vida e da lógica da convivência
econômica baseada na partilha, dois aspectos tão preservados
pelas culturas tradicionais brasileiras” (Turino, 2009, p. 95).
Os Mestres Griôs tem uma função imprescindível dentro
da organização dos povos de culturas populares e tradicionais
cuja forma de transmissão dos saberes e fazeres é feita
através da oralidade. Os Griôs viram, ouviram e vivenciaram
Capítulo 3
Mestres Griôs do Terreiro da Umbigada
119
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
120
Dani Bastos
os acontecimentos no decorrer de suas vidas, enquanto eram
crianças, jovens e adultos, e agora que estão velhos, eles
costuram o passado, o presente e o futuro com a linha mágica
da memória.
Em nossa sociedade urbana contemporânea os valores
predominantes estimulam o culto excessivo à juventude,
como se esta etapa da vida fosse superior e melhor às outras.
Ela apenas é uma das fases da existência humana. Por outro
lado, em culturas populares e tradicionais, o ancião é muito
respeitado. Mãe Stella de Oxóssi, Yalorixá do Ilê Axé Opô
Afonjá, de Salvador, traz em seu artigo “No outono da vida”
(16) uma refexão sobre este tema:
Na cultura yorubana, o velho é um herói, pois
conseguiu vencer a morte, que nos procura e ronda
todos os dias. Ele tem sempre a última palavra, a
qual não deve ser contestada. Tanto que é comum em
África, a pessoa que ainda não completou 42 anos se
manter calada durante as assembleias comunitárias,
a fm de exercitarem a importante arte de ouvir. No
candomblé, tentamos seguir a tradição que herdamos
e ensinamos aos iniciantes essa difícil arte. Mesmo
que o iniciante se ache com razão, ele tem o dever de
ouvir o mais velho de cabeça baixa e pedir a benção,
por respeito. Todavia, não lhe é negado o direito, de
em momento outro, justifcar-se.
(15) Este capítulo considerará as falas dos Mestres Griôs parte integrante e indissociável da
redação da autora, portanto sem diferenciação de margens ou peso e corpo da fonte.
(16) http://www.atarde.com.br/mundoafro/?p=4217
121
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
A Ação Griô por meio de editais públicos apoiou projetos
socioculturais de Pontos de Cultura em parcerias com escolas,
universidades e entidades do terceiro setor cujo intuito fosse a
valorização das práticas da oralidade e dos conhecimentos dos
Mestres Griôs. Cada projeto aprovado contemplava até seis
pessoas por Ponto de Cultura, e o apoio vinha na forma de uma
bolsa mensal no valor de R$ 450,00 (17) . No Ponto de Cultura
Coco de Umbigada, os Mestres Griôs atuavam numa parceria
com a Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula, cujo
objetivo geral é a preservação e transmissão da memória e das
práticas da matriz africana e da brincadeira do Coco. Numa
semana os integrantes do Ponto e os Griôs iam à Escola e na
semana seguinte a Escola ia ao Ponto.
Nos encontros semanais, realizados nas tardes de sexta feira,
aconteciam atividades variadas, como as ofcinas de Coco, onde
eram trabalhados pedagogicamente os conteúdos da brincadeira do
coco: a música (canto, percussão, processo de composição), a dança,
a história de cada Mestre participante, os principais coquistas de
Olinda. De outra vez, eram promovidas rodas de diálogo sobre
determinado tema (cultura de paz, meio ambiente, quilombos
urbanos e rurais, etc) com a participação de professores e alunos da
Escola, da equipe do Ponto, dos Mestres Griôs, dos moradores da
comunidade e convidados.
(17) Turino, 2009, p. 98.
122
Dani Bastos
Constatamos na fala dos quatro Mestres entrevistados
– Mãe Lúcia de Oyá, Mestre Zeca do Rolete, Mestra Aurinha
do Coco e Mestre Pombo Roxo – que o principal benefício
trazido pela Ação Griô, além de promover os encontros
intergeracionais e criar a oportunidade de transmissão dos
conhecimentos, de levar os saberes não acadêmicos para o
ambiente escolar e do estímulo fnanceiro, embora pequeno,
contribuía para auxiliar o transporte e a alimentação do
Mestre Griô no dia da atividade na Escola ou no Ponto de
Cultura; concluímos a partir dessa pesquisa foi que a maior
contribuição da Ação Griô se deu pelo reconhecimento, pela
valorização, pela legitimação, pela outorga dessas pessoas à
condição de Mestres, de detentores dos saberes e fazeres de
uma tradição oral, ancestral, secular que durante muito tempo
foi desconsiderada pela sociedade em geral, e não raras vezes
até pela própria família, amigos e vizinhança desses Mestres
como um conhecimento banal, inferior ou até mesmo inútil.
Tentamos enfatizar em cada entrevista apresentadas a
seguir as particularidades de cada Mestre, o que caracteriza
cada um deles. Com vocês, os Mestres Griôs do Terreiro da
Umbigada.
1. Graftagem na parede do Ilê Axé Oxum Karê | Foto: Alcides Ferraz
2. Dani Bastos e Beth de Oxum | Foto: Tenily Sales
3. Sambada | Foto: Alcides Ferraz
4. Oxaguiam | Foto: Tenily Sales
133
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Ao ficar frente a frente com Mãe Lúcia de Oyá, a
sensação que temos é a de estar diante de uma esplendorosa
majestade africana. Aos 64 anos, Lúcia Maria Crispiniano
da Silva possui uma aura que resplandece o sagrado.
Fundou o Ilê Axé Oyá Togum há 42 anos, localizado no
bairro do Janga, município de Paulista, e esta é a sua
prioridade, a sua essência, a sua missão de vida.
Candomblé é entrega e fé, ensina Mãe Lúcia. Uma fé
que é testada pela manhã, à tarde e à noite: cotidianamente.
A partir da iniciação religiosa você não é mais dono da sua
própria vida. Seu orixá é quem rege, é quem determina, é
quem tem o poder do sim e do não sobre seus caminhos.
A trajetória pelo sagrado exige muita seriedade, muito
respeito, muita veneração. “Porque não é uma religiosidade
Mãe Lúcia de Oyá
O sagrado é o que me permeia.
134
Dani Bastos
só dos ‘sins’, tem muitos ‘nãos’ e tem muitos ‘porquês’”,
explana Mãe Lúcia. “Isto não é para qualquer um”. Segundo
a sacerdotisa, “tudo na vida tem um preço, e o preço dos
saberes do sagrado é alto, altíssimo”, revela Mãe Lúcia. É o
preço da caridade, é o preço da doação.
No universo das religiões de matriz africana, o
conhecimento é um merecimento e a humildade é requisito
imprescindível no percurso da busca por este saber. Mãe
Lúcia nos conta que no seu tempo de aprendiz, o ato de
perguntar não era bem visto aos olhos dos mais velhos.
“Eu ficava lá no meu cantinho, bem quietinha, vendo ela
limpar... e tirar o que era do sagrado, da obrigação, o que
era para partilhar com aquela congregação e muitas vezes
eu escrevia, mas eu era incapaz de perguntar: ‘Porque a
senhora está fazendo assim?’ Até pelo respeito, né? Ela
era mais velha...”. O aprendizado acontecia através da
observação, com a convivência junto às Yalorixás mais
antigas. Mas hoje o processo de ensino-aprendizagem
tem que ser diferente, em sua opinião: “Você não deve
banalizar, popularizar quem herda a matriz... Mas tem
alguns adendos que você tem que consentir, a juventude
agora é outra... Hoje você não tem como contrapartida a
rebeldia, a vontade de viver, a vontade de conhecer, hoje
você tem as drogas...”.
135
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Defensora ferrenha e engajada do exercício do
matriarcado dentro do candomblé, prática ainda tímida
dentro do Estado de Pernambuco, onde predomina
o poderio dos homens, provável reflexo da cultura
do machismo coronelista implantada nos hábitos da
sociedade pernambucana durante o ciclo da cana de açúcar.
Infelizmente não é a toa que Pernambuco tem um dos
mais altos índices nacionais de ocorrências relacionadas
à violência contra a mulher. E isso porque só constam em
algumas estatísticas a violência física extrema que leva
à morte, mas as mulheres, principalmente as mulheres
negras enfrentam também desde muito cedo a violência
psicológica, trabalhista, econômica, sexual, entre outras.
Conhecedora profunda dessa cruel realidade, Mãe Lúcia
milita em prol do protagonismo feminino e da formação
de novas e jovens lideranças dentro do segmento
participando como palestrante de vários congressos,
encontros, seminários e atividades afins.
Pedir a benção aos mais velhos, dizer para onde e com quem
vão, o que irão fazer, são atitudes cada vez mais raras dos flhos para
com os pais, observa a Yalorixá. Na sua visão, o candomblé é um
dos últimos espaços de manutenção, preservação e salvaguarda
desses valores familiares, referências quase esquecidas pela
excessiva permissividade que a contemporaneidade nos trouxe.
136
Dani Bastos
Em um testemunho emocionante sobre a grandiosidade
de sua devoção, Mãe Lúcia nos relata uma árdua provação
a qual sua fé foi submetida. Em determinado período de
sua vida, viu-se de repente sem emprego, sem moradia,
com uma filha pequena para sustentar e não vislumbrava
caminhos de saída daquela situação na qual se encontrava.
Era tudo ou nada. Colou os joelhos em terra, em plena
rua, ao meio dia, os transeuntes olhando para aquela
cena sem nada compreender e clamou com toda a sua
alma e com todo seu coração por sua mãe Oyá, invocou
sua intervenção, seu auxílio, pediu à orixá a reconquista
dos seus bens, do seu trabalho, de sua dignidade. Em
troca, ofereceu sua dedicação exclusiva ao culto à deusa
dos raios e tempestades, a partir daquela data em diante.
Lendas africanas de tempos imemoriais contam que
Oyá é a mulher mais poderosa da África Negra e, assim
sendo, atendeu à súplica de sua filha Lúcia. Ela nos diz
com orgulho que seu sacrifício valeu a pena, pois não só
restabeleceu o que havia perdido como ainda desfruta hoje
de fama internacional.
1 e 2. Mãe Lúcia de Oyá | Fotos: Tenily Sales
3. Quinho Caetés ainando tambor com o fogo | Foto: Tenily Sales
4. Beco da Macaíba | Foto: Tenily Sales
147
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
O nome artístico do Mestre provém do antigo ofício
de vendedor de rolete de cana por quase 50 anos no Sítio
Histórico de Olinda. Foi também pedreiro e trabalhador
dos armazéns da estiva. Mestre Zeca do Rolete, além
de compositor e cantor de Coco, é colecionador e
comerciante de antiguidades, com especialidade em
aparelhos de rádio e objetos de cobre. Mas o título
que ostenta com mais orgulho é o de Mestre Griô do
Ministério da Cultura.
Aos 65 anos, José Galdino dos Santos frequenta a
Sambada de Coco do Guadalupe e demais brincadeiras
populares acompanhado de toda sua família – a esposa
Silvana, filhos, netos e amigos – costume adquirido desde
a infância ao acompanhar o pai e o avô aos folguedos.
Mestre Zeca do Rolete
A gente não acaba com a violência,
mas o importante é a gente tá combatendo.
148
Dani Bastos
É o exercício prático da transmissão dos saberes e de
formação dos futuros brincantes.
Para o Mestre Zeca, o exemplo é a sua principal arma
para a transmissão dos saberes e para a perpetuação da
cultura brasileira, que se esvai a cada dia sob a sombra
da crescente violência. “Eu sou um representante da
minha comunidade. E qual é a minha comunidade? É
a favela! Eu conheço a favela mais do que a sociedade
média, entendeu? Porque eu nunca fui atacado aqui? Ah!
É porque eu sou ladrão também?! Não... Ah, é porque eu
fumo crack?! Não... Eu me comporto no meu lugar...”.
Mestre Zeca defende uma teoria de que existem
duas doenças que matam mais do que a AIDS e o
câncer, segundo ele são a necessidade e a dificuldade.
E exemplifica em um doloroso depoimento da perda
de uma filha com 23 anos causada pela negligência e
omissão de socorro pelo sistema de saúde pública. A
necessidade e a dificuldade da vida se apresentaram por
não possuir dinheiro pra transportar e internar a filha
em tempo hábil para um hospital particular.
A persistência e a criatividade são as chaves
para a sobrevivência nessa realidade. Relata que em
149
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
determinada época de sua vida, devendo o aluguel, sem
nada para comer e com a energia elétrica cortada, saiu
otimista para vender os roletes de cana. Instalou o tabuleiro,
começou a vender, mas de repente o céu fechou e a chuva
caiu pesada. Não desanimou. Pegou o tabuleiro e foi para
a Rua 13 de maio no Sítio Histórico de Olinda. Lá estava
acontecendo uma festa. E veio uma ideia. Mandou a mulher
pegar fogareiro e o carvão, com o pouco dinheiro apurado
na venda dos roletes, comprou queijo, enfou as paletas do
rolete e começou a vender queijo assado e assim conseguiu o
dinheiro do aluguel e da feira.
Mestre Zeca fala que a classe média tem responsabilidade
na atual situação em que vivemos, porque estudou, conhece
e nada faz para resolver: “O ladrão quando chega com aquela
arma, ele esculhamba, faz deitar, dá coronhada na cabeça, às
vezes mata... Ele tira onda, e tem outros, porque ladrão é o
seguinte: é a profssão! Tem ladrão que usa como profssão e
outro que usa por necessidade. Quando ele usa como profssão,
ele gosta da brincadeira. Um diz: Não vou fazer nada com
você não, só quero teu dinheiro, não vou lhe estuprar, não
vou fazer nada... Tem outros que não diz isso, porque ele não
sabe de nada, ele tá fazendo uma coisa ali, pra ele é uma coisa
normal, mas não é. A culpa é da sociedade... Tão tirando a
originalidade da cultura do Brasil”.
150
Dani Bastos
Animado, o Mestre se encontrava na ocasião desta
entrevista às vésperas da gravação de seu primeiro CD.
No álbum será comporto por dez faixas entre músicas de
Zeca, Cocos de domínio público e composições de autores
pernambucanos. O projeto está sendo incentivado pelo Fundo
Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura.
1 e 2. Mestre Zeca do Rolete | Fotos: Tenily Sales
3. Zabumba ancestral do Coco de Umbigada | Foto: Alcides Ferraz
4. Congas | Foto: Tenily Sales
161
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Áurea Maria da Conceição de Assis Souza, tem 58 anos e é
conhecida no cenário cultural pernambucano como Aurinha do
Coco. Seu primeiro contato com a música foi através do Coral
Madrigal do Recife. Após essa passagem, Aurinha vai morar
em um dos mais expressivos redutos culturais do entorno do
Sítio Histórico de Olinda, a comunidade do Amaro Branco –
afamado berço de legendários coquistas.
Na localidade, começa a frequentar a colônia dos
pescadores, faz amizade com vários Mestres, inclusive com
o Mestre Pombo Roxo e se apaixona irreversivelmente pela
manifestação do Coco. Em mais de 25 anos de carreira, dona de
uma voz poderosa, Aurinha do Coco possui dois CDs gravados
e participações em trabalhos de nomes importantes da música
pernambucana, como Alceu Valença e Naná Vasconcelos.
Mestra Aurinha do Coco
Com muita glória, com muito amor,
com muita alegria, estou dentro da cultura.
162
Dani Bastos
Uma das presenças mais aguardadas durante a noite da
Sambada de Coco do Guadalupe, Mestra Aurinha diz: “Eu só
não participo quando eu não posso mesmo, quando eu tenho
algum outro compromisso, mas a não ser isso eu estou lá”.
Indagada sobre o que mais gosta durante a Sambada, responde:
“Eu caio na dança mesmo, no samba mesmo e é bom demais!”.
Ressalta que na visão dela o mais importante é o incentivo e
o apoio oferecido pelo evento e a frequente oportunidade do
coquista se manter na ativa, na visibilidade do público.
Quando convidada por Beth de Oxum a integrar o quadro
da Ação Griô do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, fcou
felicíssima porque ia semanalmente a Escola Municipal
Maria da Glória Advíncula trocar informações, experiências e
conhecimentos com crianças e educadores. “Nós ensinamos os
alunos a participar, dançar, brincar, saber compor uma música,
entendeu? E os flmes que passam escolhido pelos próprios
alunos, passam levando informação né? E as crianças fcam
muito, muito felizes”. Atualmente lamenta o esmorecimento
da atividade ocasionada principalmente pelo encerramento do
projeto que custeava a bolsa dos Mestres.(18)
(18) O referido projeto tinha vigência de um ano de duração. Na gestão atual, ainda não foi
aberto nenhum edital público para inscrição de projetos relacionados à Ação Griô.
163
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Aurinha do Coco é também compositora. Nessa entrevista,
nos relata como teve a inspiração da sua primeira música,
denominada Seu Grito, também título do seu segundo CD.
Na ocasião, a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda
estava desenvolvendo um projeto no qual uma das ações era a
gravação de um CD com a participação de vários coquistas da
cidade de Olinda com músicas autorais que versassem sobre
o combate à violência. “Quando participamos do projeto da
Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda e com o direito dos
artistas comporem duas músicas, cada um fazia suas músicas
chegava lá arrebentava e Aurinha nada. E eu disse: Deus me
ajude. Não ia ganhar nada, mas pelo menos experiência, e esse
CD ia correr campo, né? Então... Um belo dia eu me sentei no
teatro, lá na última cadeira e pedindo a Deus que me desse
intuição que eu ‘tava sem nenhuma... Aí de repente eu abro a
bolsa e pego a caneta e saiu essa música que hoje eu agradeço
muito a Deus, eu faço uma capela...
Seu grito silenciou, lá num Alto em Olinda
Era uma mulher tão linda, que a natureza criou
Ela foi morta no meio da madrugada,
com um tiro de espingarda pela mão do seu amor...
Por quê? Esse trabalho ‘tava sendo um trabalho sobre a
violência dentro do Estado, dentro da cidade de Olinda, e o
164
Dani Bastos
intuito era esse cada um falar como era que ‘tava enxergando
a violência, o que é que deveria melhorar... E clamar, e pedir
clamor para que isso acabasse, que não acabou né? Continua...
Piorou... Então uma das minhas intuições foi essa... Foi pedir
clamor mesmo, eu me inspirei nessa pessoa, nessa mulher que
foi morta, que eu não sei nem quem é, muita gente diz assim:
Ah! Foi por causa de fulana, de sicrana que o namorado, noivo
matou... Não me inspirei em nada, veio na hora, chegou na
hora... Aí desci, mandei os meninos da percussão se ajeitar e o
pau cantou na hora! (risos)”.
1 e 2. Aurinha do Coco | Fotos: Tenily Sales
3. Pandeiro e Ganzá | Foto: Tenily Sales
4. Palco da Sambada de Coco do Guadalupe | Foto: Alcides Ferraz
175
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Morador da comunidade do Amaro Branco, próximo
ao farol de Olinda, para o qual tira o chapéu, Severino José
da Silva, 60 anos, é conhecido nacionalmente como Mestre
Pombo Roxo. O apelido vem da infância, quando, com a
idade de sete para oito anos, passou a incorporar seu orixá
Odé e, uma vez em terra(19), este pedia sempre o pombo
roxo, uma de suas comidas prediletas. Mestre Pombo Roxo
é Babalorixá, exímio Ogã (20) , compositor e cantor de Coco e,
merecidamente, Mestre Griô do Ministério da Cultura.
(19) Na cultura yorubana, crê-se que os orixás moram no Orum (céu) e os humanos no Aiê (terra).
São mundos separados. Os orixás para poderem vir ao Aiê, tem que ter um “cavalo”, ou seja, um
flho de santo. Por isso toda vez que o orixá incorpora em seu flho diz-se que ele está em terra.
(20) Ogã: Na África, alguém que ocupa um cargo superior, mestre; no Brasil, cargo sacerdotal
masculino do candomblé, incluindo o tocador, o sacrifcador e homens de prestígio ligados afetiva-
mente aos grupos de culto. (Prandi, 2001).
Mestre Pombo Roxo
Seja na praça, seja dentro do ônibus,
em lotação, já trabalhei muito com
o pandeiro na mão e vivo lutando.
176
Dani Bastos
Mestre Pombo Roxo é cadeirante, mas o fato não é
obstáculo para sua locomoção. “A vida não para, continua...
Eu vou no carro dos outros, me levam pra show, me levam
crente, xangozeiro, macumbeiro, o que me encontrar por aí.
‘Pombo Roxo, tu vai pra onde?’ ‘Eu vou pra ali!’ ‘Bora!’ Me leva
de todo jeito, a cadeira com a roda troncha, mas me leva de
todo jeito, porque eu gosto de chegar nos cantos e trabalhar”.
Um de seus maiores sonhos é adquirir uma cadeira elétrica,
que as condições fnanceiras ainda não lhe permitiram.
O gosto pelas brincadeiras populares, assim como a
prática do candomblé veio por intermédio dos seus pais, que
não sabiam ler nem escrever, mas lhe transmitiram os saberes
e fazeres de vários folguedos – cantos, danças, percussão,
conhecimentos estes que já lhe proporcionaram a gravação de
CDs, DVDs e viagens pelo Brasil afora.
Agradece o encontro com Beth de Oxum, Quinho Caetés
e com o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, pois atribui a
esses o aumento da visibilidade de sua carreira artística.
“Num é que eu vivia parado não, pouco, eu vivia cavando,
lutando, mas nunca tinha encontrado uma pessoa como Beth
de Oxum”. Diz que ela é a pioneira na volta das Sambadas de
Coco. “Ela foi a primeira a botar o cavalo na chuva, no sol,
no sereno debaixo de tapa, de polêmica, de bandido... De
177
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
tudo, de tudo...”. Em parceria com o Ponto de Cultura Coco de
Umbigada e com o Ilê Axé Oxum Karê, Mestre Pombo Roxo
ministra às terças feiras à tarde a Ofcina de Formação de
Ogãs, passando para os jovens o conhecimento dos toques e
toadas para os orixás.
Para o Mestre, a Sambada de Coco do Guadalupe perpetua
as práticas culturais iniciadas pelos antepassados e exalta as
matrizes étnico-religiosas – a Jurema Sagrada e o Candomblé –
se contrapondo como alternativa para os modismos impostos
pela indústria cultural. Aprecia a Sambada porque é ambiente
de ordem e respeito, apesar da falta de policiamento, e é
naquele local que encontra com os amigos, com os demais
Mestres, com as crianças, com o público. A única coisa de que
não gosta é da falta de apoio do poder público e ressalta que
o movimento cultural existente na comunidade do Amaro
Branco também é realizado de forma independente.
1 e 2 Mestre Pombo Roxo | Fotos: Tenily Sales
3. Músicos | Foto: Alcides Ferraz
4 e 5. Comércio informal de alimentos e bebidas | Foto: Alcides Ferraz
187
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Não podemos conceber o fenômeno da transformação
social dissociado da ferramenta da educação.
Glauciane Maciel trabalha na rede municipal de
ensino de Olinda há cerca de vinte anos, dos quais já está
há dez no cargo de Coordenadora Pedagógica da Escola
Pública Municipal Maria da Glória Advíncula, que recebe
em torno de 300 alunos do ensino fundamental, aonde
auxilia os demais professores a desenvolver um trabalho de
qualidade. O projeto pedagógico da Escola é norteado por
um projeto macro, estimulado pela Secretaria de Educação
do município. No ano em pesquisa o tema foi Olinda, cidade
educadora – patrimônio cultural da humanidade construindo
uma cultura de paz, e a partir desse referencial a Escola
define o seu próprio tema.
Capítulo 4
A parceria do Ponto de Cultura Coco de Umbigada
com a Escola Pública Municipal Maria da Glória Advíncula
188
Dani Bastos
A parceria da Escola com o Ponto de Cultura Coco
de Umbigada surgiu da observação da educadora
Glauciane sobre o comportamento agressivo das
crianças no horário do recreio. Isto provocou sua
reflexão sobre o que poderia fazer ou quais atividades
desenvolver para que houvesse uma melhor harmonia
e integração entre os alunos. Lembrou que na Escola
existiam alguns instrumentos percussivos e os colocou
no pátio para ver qual seria o interesse das crianças.
Que grata surpresa teve a docente! Três ou quatro
crianças começaram a tocar habilidosamente.
– Nossa! Com quem você aprendeu a tocar?
– Eu toco aqui na Tia Beth, no beco...
– Mas quem é Beth?
– Beth é a dona do Terreiro...
As crianças foram as grandes articuladoras desta
parceria. Agendaram um encontro entre Glauciane e
Beth de Oxum. Nesse encontro, a professora Glauciane
convidou Beth de Oxum para compartilhar sua vivência,
sua experiência, seus saberes com a comunidade
escolar. O convite foi aceito e logo em seguida alunos e
professores estavam frequentando sistematicamente o
Ponto de Cultura.
189
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Nessas visitas, um mundo novo começa a ser
desvendado a partir da espontaneidade das crianças:
Por que seu cabelo é assim?
Por que você se veste assim?
Você é Mãe de Santo?
O que é o Santo?
Com a naturalidade que lhe é de praxe, Beth
de Oxum foi respondendo às perguntas, contando
as histórias que não constam nos livros didáticos e
pedagógicos. Esse encontro da Escola com o Ponto de
Cultura trouxe à tona uma importante lição, a de que
o processo de ensino-aprendizagem não está restrito
à sala de aula, nem ao ambiente físico escolar, ele
ultrapassa os muros, vai ao cotidiano da comunidade,
penetra, interage na vida.
No que se refere ao respeito e à tolerância para
alteridade e à diversidade, no a aceitação do outro, as
crianças indiscutivelmente são as grandes mestras.
Ao perceber que naquele local praticava-se música,
dança, até mesmo uma religiosidade diferente da delas,
elas interagiram, perguntaram, experimentaram,
vivenciaram o Ponto de Cultura com o coração aberto,
190
Dani Bastos
sem tecer juízos de valor. Já algumas professoras
no início se assustaram: “A gente entrou em um
terreiro?!”, questionou uma professora. “Eu acho que
sim...”, responde Glauciane e complementa: “Mas acho
que nós também entramos em um espaço cultural.
Como educadora, tenho que diferenciar, porque como
podemos passar o conhecimento aos alunos se eu tenho
preconceito com esse conhecimento?”.
No Guadalupe, assim como em diversas comunidades
das periferias brasileiras, algumas atitudes de grupos
evangélicos botam ainda mais lenha na fogueira do
imaginário da população, reforçando o preconceito e
a discriminação contra as religiões de matriz africana,
associando levianamente os deuses da África com
o demônio católico e sua legião. Partindo desta
compreensão, alguns pais também ficaram preocupados
e proibiram seus filhos de frequentarem as ações
realizadas pelo Ponto de Cultura. Em contrapartida, a
professora Glauciane mostrou que realmente o diálogo
é um elemento mediador para a resolução dos conflitos,
convidando a Beth de Oxum e integrantes do Ponto de
Cultura para uma conversa franca com os pais. A partir
desse encontro, o olhar sobre a instituição foi ampliado, e
começou o processo de resgate da cidadania e do despertar
191
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
do autorreconhecimento para a herança étnica e cultural
de origem africana presente na cultura brasileira.
Daí pra frente, a parceria cresce, se fortalece e
se consolida. Beth de Oxum propõe à Escola receber
as atividades da Ação Griô, promovendo encontros
intergeracionais. Mestres Griôs e crianças conversando
sobre Matriz Africana, por exemplo, em rodas de
diálogo. O audiovisual chega à Escola, com uma ação
desenvolvida semanalmente com o EJA – Educação
de Jovens e Adultos, exibindo e estimulando o debate
sobre temas referentes à matriz africana, indígena e
das culturas populares e tradicionais com objetivo de
quebrar o preconceito e construir uma nova visão nas
pessoas acerca dessa cultura.
Para a professora Glauciane a transformação social
só acontece verdadeiramente quando ocorre uma troca
genuína dos saberes. Primeiro a escola tem que receber
o conhecimento que a criança traz de sua casa, para
dar o exemplo senão como a criança irá valorizar,
absorver o conhecimento ofertado pela escola? Para ela
o encontro com Beth de Oxum e o Coco de Umbigada
proporcionou uma evolução de ordem pessoal,
proporcionou a descoberta que existem formas diversas
192
Dani Bastos
de visão e compreensão do mundo, fundamental para o
trabalho do verdadeiro educador comprometido com o
desenvolvimento contínuo do ser humano.
1. Escola Maria da Glória Advícula | Foto: Alcides Ferraz
2. Certifcado de Participação Encontro Nacional Ação Escola Viva
3. Escola Maria da Glória Advíncula
Festividade ciclo indígena | Foto: Tenily Sales
4. Escola Maria da Glória Advícula
Corpo Docente e Dani Bastos | Foto: Tenily Sales
203
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Este livro não tem pretensões de esgotar o assunto,
tampouco de apresentar fórmulas, receitas ou certezas.
O nosso intuito foi o de documentar, registrar uma
experiência cultural bem sucedida, o cotidiano de suas
lideranças e de seus participantes a partir de um olhar de
dentro para fora, um olhar de quem também é brincante,
de quem é trabalhadora da cultura, de quem é praticante
do candomblé, de quem é mulher negra.
Diz o ditado popular que temos dois olhos, dois
ouvidos e uma boca para ver e ouvir duas vezes mais do
que falar. Essa foi a bússola desse trabalho. Passamos
dois meses vivenciando as atividades do Ponto de
Cultura Coco de Umbigada e do Ilê Axé Oxum Karê.
Convivemos, conversamos, e principalmente ouvimos,
Capítulo 5
Considerações
204
Dani Bastos
vimos, aprendemos com as pessoas, com os agentes ativos
desse processo. Por isso damos destaque à oralidade e a
memória, reverberando as vozes que durante muito tempo
ficaram abafadas.
Acreditamos que o Coco de Umbigada é um dos
principais expoentes das novas formas de produção da
cultura popular porque está em constante movimento
cíclico, está aberto ao diálogo com as mudanças, se
renovando, incorporando, agregando novos valores, se
transformando para permanecer em sua tradição.
O Coco de Umbigada saiu da acomodação, tem sede
de novos conhecimentos, busca a interação, as parcerias
e a partir da música – sua base percorre caminhos
interdisciplinares com as outras áreas do conhecimento
pouco exploradas por manifestações das culturas populares
e tradicionais – tecnologia, educação, ludicidade, gênero,
comunicação – rádio e audiovisual, saúde, administração.
O Coco de Umbigada aprendeu a aprender.
Rompe paradigmas enraizados no cenário das culturas
populares e tradicionais quando surge com uma liderança
feminina, mulher à frente de uma tradição ancestral. E
uma mulher incomum, mãe de quatro filhos, que ostenta
205
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
orgulhosamente uma vigorosa cabeleira rasta, aliada um
discurso eloquente, politizado, carregado de argumentos
dificilmente contestados que vem na defesa dos menos
favorecidos. E ela ambiciona cursar a faculdade de direito,
para ocupar a lacuna dos defensores legalmente habilitados
com conhecimento e pertencimento específicos aos
assuntos relativos à matriz africana e suas adjacências.
Este grupo está realizando a transformação social
porque acredita no potencial das pessoas da própria
comunidade e oferece oportunidades para que esse potencial
seja desenvolvido, lapidado, fortalecido. Trabalha os
conceitos da autonomia, do empreendedorismo, defendem
que é preferível o empoderamento que a falsa sensação
de segurança social proporcionada pela assinatura do
empregador na carteira de trabalho, muitas vezes, no caso
da população de menor poder aquisitivo, o atestado de um
trabalho semiescravo, que praticamente impossibilita a
evolução plena humana e cidadã do indivíduo.
O Coco de Umbigada apresenta infinitas possibilidades
de reflexão. Aqui estão apenas alguns aspectos que se
relacionam com a Sambada de Coco do Guadalupe que é por
demasiado complexa. Apresentamos aqui nossos respeitos
e nossas saudações aos ancestrais do Coco de Umbigada e
206
Dani Bastos
esperamos sinceramente termos contribuído para reflexão
sobre uma das formas contemporâneas independente
de produção, manutenção, preservação, salvaguarda e
difusão das culturas populares deste país.
1. Certifcado Ação Giô Nacional
2. Certifcado de Participação no 7º Encontro Pernambucano de Coco - 2005
3. Programação do São João de Olinda em 2010
4. Solicitação a SEPACCTUR Sra Clarice Andrade
5. Solicitação ao 1o Batalhão de Polícia Militar Sr Ten Cel Marinaldo
6. Solicitação ao Secretário José Alves
7. Beth com suas flhas no Coco
217
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
A Polícia Militar invade o Ponto de Cultura Coco de
Umbigada em Olinda. Um e-mail que esta circulando por
vários em-grupos, a Beth de Oxum, detalha como foi ação dos
policiais, no Ponto de Cultura.
“DE NOVO, parece mentira ou quem sabe pesadelo, mas
uma vez a policia Militar de Pernambuco, atacou o Ponto de
Cultura Coco de Umbigada, articulou uma operação de Guerra
com mais de 40 policiais, civil e militar, tinha pra mais de
10 carros de policia, tinha Sargento, tinha Tenente, tinha
Major, Capitão, até um delegado da Polícia Civil arrumaram,
TUDO A MANDO DO MAJOR MARCOS PEREIRA E DO
SEU IRMÃO CAPITÃO DANIEL PEREIRA, são moradores da
nossa comunidade do Guadalupe, a mãe é evangélica e eles não
aceitam, não toleram nem respeitam o nosso Trabalho.
Capítulo 6
Pernambuco se envergonha com ação da Policia Militar
218
Dani Bastos
Enquanto o coco estava no beco da Macaíba, onde a quase
15 anos moramos e temos nosso Terreiro da Umbigada, eles
não gostavam, mas, tava distante, a partir do momento que o
coco veio pra Rua principal, Rua do Guadalupe, próximo a Casa
dos irmãos ofciais, a coisa mudou.
Alugamos em outubro passado uma nova casa, na Rua do
Guadalupe, bem próximo da casa dos ofciais, ao lado da Escola
Municipal Maria da Glória Advíncula, onde desenvolvemos a
Ação Griô, para acolher melhor as atividades do nosso Ponto
de Cultura, a partir daí a perseguição foi reforçada, quando
os 40 policiais nos abordaram, querendo nos levar presos, eu
e Quinho, o rasta meu marido, na última Sambada, eu disse
que tínhamos o apoio da Prefeitura de Olinda, do Ministério
da Cultura e do Governo do Estado (FUNDARPE), falamos
do papel de um Ponto de Cultura na comunidade, o Capitão
Daniel, disse que era mentira que tínhamos esse apoio, que
forjamos um banner, pois o Ministério da Cultura não apoiaria
projeto “de um povo com estes cabelos”, sic.
O Tenente que comandava a operação, disse que eu tinha
que ir pra delegacia, pois tinha uma denuncia contra agente,
e nós tínhamos infringindo a lei do sono. Eu disse que não
iria acompanha-los à delegacia, pois não sou criminosa, eles
disseram que eu iria de qualquer jeito, vai, não vai, vai não vai,
219
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
até que eu disse que pra eu ir, a comunidade iria também, pois a
festa é uma manifestação cultural compartilhada, neste instante,
o tenente que estava no comando da operação, perguntou se
eu era a prefeita de Olinda, pra falar com a comunidade, eu
disse que este é o papel das lideranças comunitárias e pra eu
ir, todos iriam comigo, a comunidade neste momento deu
uma vaia grandiosa na policia e disse vamos todos nos pneus
se preciso for, nesta hora eles recuam um pouco e eu corro
pra dentro do Ponto, onde eles sem mandato, talvez não me
arrastassem, como havia argumentado. Ou seja, é perseguição,
é intolerância, a mãe dos dois ofciais é evangélica, e eles têm
intolerância com nossa religiosidade e com nossa brincadeira.
Graças a Márcia Souto, Secretária de Cultura de Olinda, que
na hora do desespero resolvi ligar, e dizer que porra é essa, pois
na sexta-feira anterior, tive uma reunião com esta secretaria,
o controle urbano e a própria policia militar e fcou tudo certo,
o Coco tem autorização da Prefeitura de Olinda pra realizar a
Sambada, graças a Deus Márcia ligou para o prefeito Renildo
Calheiros e este pediu ao Secretário de Controle Urbano, Sr.
João Luiz, que não o conhecia, para ir na Sambada de Coco do
Guadalupe, amenizar os ânimos.
Quando este Secretário chegou ao nosso Ponto,
compreendeu de imediato o que estava acontecendo, através
220
Dani Bastos
da revolta da comunidade e do choro das crianças, chamou
a mim e a minha mãe, Mãe Lúcia e fomos para delegacia de
Casa Caiada em Olinda, resgatar os instrumentos. Quando
lá chegamos, estava o Capitão Daniel, o Major Marcos e o
Tenente que em momentos anteriores queria me prender,
recebeu muito mal o Secretário, dizendo que o Secretário
do Controle Urbano de Olinda ele conhecia, e que ele era
secretário desde quando, e disse você é advogado delas,
você sabia que esse coco superou o decibéis permitido por
lei. Então esse Secretário que nos acompanhava, disse que
exercia esta função desde o dia primeiro de janeiro e que
era de competência de sua secretaria medir decibéis e não
da Policia Militar de Pernambuco, e a autorização pra esta
brincadeira ele mesmo trouxe em mãos, neste momento
eles viram que tínhamos autorização e articulação c om
o poder municipal, levaram o secretário lá pra dentro e
liberarão os instrumentos.
No domingo, acordo com a mesma delegada que se
mostrou surpresa na noite anterior, em relação a esta
operação, entregando nossa aparelhagem de som, dizendo
não saber, nem compreender porque daquela operação
toda contra o coco, tinha recebido ligação do Secretário
João Luiz, e a pedido do Prefeito de Olinda, tinha solicitado
a devolução do som do coco.
221
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Nós fazemos o coco a mais de 10 anos e afrmamos
que esta brincadeira vem da matriz afro-indígena, tem
uma origem ancestral, não se origina dos palcos, nem das
produtoras, promovemos pertencimento com a cultura do
coco na comunidade.
Fazemos parte da Rede de Pontos de Cultura da Ação
Griô Nacional. Fazemos partes da Rede Nacional Escola Viva.
Temos o assento no GT de Matriz Africana na Comissão
Nacional dos Pontos d ia de Policia e na Corregedoria de
Policia de Pernambuco, nº do protocolo 5682/08.
Minha mãe, Mãe Lúcia de Oyá, Iyalorixá com 63
anos, fez um trabalho de pertencimento grandioso com
a matriz africana, aqui na comunidade do Guadalupe em
Olinda, trazendo uma oficina de nome Contos de Ifá,
ocorrida semanalmente aqui nos 4 primeiros anos do
nosso ponto de cultura, pertencimento e auto-estima
nos jóvens em ser de matriz africana, com certeza isso
incomodou muito estes oficiais.
Temos que fortalecer nossa rede mocambos, pois as
outras, Pernambuco por exemplo tem uma rede de pontos
de cultura que é uma vergonha, só serve pra falar de editais,
questionar a FUNDARPE disso ou daquilo, e a essência que é
222
Dani Bastos
a resistência dos pontos, nem pra lá, que rede é essa, é papel
da rede falar da perseguição ao nosso povo, principalmente
nesta hora, na hora que a policia aparece.
Peço que o Conselho dos Pontos de Cultura de
Pernambuco se posicione por favor sobre este contexto,
embora sabemos que tem muito ponto de cultura que nunca
vai ter a policia batendo em sua porta.
Temos que botar nossa dor de sermos perseguidos pra
fora, QUE ESTADO É ESSE, QUE POLICIA É ESSA, que mata,
que extermina, que agredi as pessoas e as crianças, com muita
violência tomaram dos meus flhos a zabumba de mais de cem
anos e que ensinamos ter respeito.
Minhas crianças estão traumatizadas, pense, mais de
40 policiais arrancando de suas mãos os instrumentos,
em pleno ano de 2009, onde o Estado contraditoriamente,
fomenta recursos para os Pontos de Cultura, onde tem
um MAIS CULTURA pra diminuir a violência urbana, que
estado contraditório é este, pois não é a policia o braço
armado do estado.
O Capitão Daniel, o Major Marcos e um motorista da
TV Universitária de nome Edson, estiveram 15 dias antes da
223
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
sambada de fevereiro, no ponto de cultura e me disseram que
ela não poderia mas ser realizada nesta rua, que tínhamos de
voltar pro beco, donde viemos, expliquei pra ele que o beco já
não mais cabe, são mais de 2 mil pessoas, e eu aluguei uma
casa, pago 600,00 reais por mês pra ter direito a usá-la como
base do Ponto de Cultura.
O Capitão Daniel me disse que ele era uma pessoa
muito influente e que inclusive fazia o Comando Geral
da segurança oficial do Estado para do Bloco Galo da
Madrugada, esse bloco que entrou pro Guiness Book e
recebe um milhão de pessoas, este que é o maior bloco
do mundo e coisa e tal..., este ano inclusive, provocando
indignação dos maestros pernambucanos, pois anuncia
que traram em seus carros alegóricos as bandas de brega
e o João do Morro.
Me lembrei de Brasília, no Encontro Sulamericano
de Culturas Populares, era quase meia noite e estávamos
voltando pra casa da amiga Elaine, onde estávamos
hospedados, eu, TC e Mestre Afonso do Maracatu Leão
Coroado quando do nada, apareceu 2 carros de polícia e
trancaram agente, perguntaram e QUESTIONARAM de
quem era aquele carro, pois não podia ser de nenhum
de nós três, eles afirmaram como sempre fazem, que
224
Dani Bastos
estavam procurando uma galera que tinha roubado um
carrão por aquelas bandas, TC dirigia o carrão do Vince
que na época trabalhava na Presidência da República,
resultado, se a gente não se impõe, tu já viu...
Vamos fazer barulho, QUANTOS DE NÓS TEMOS
QUE MORRER PRA TER AUTO-ESTIMA EM FAZER AS
BRINCADEIRAS DOS TERREIROS. FAZER COCO NÃO
É CRIME !!!
Martin Luter King, Chico Mendes, Peter Tosh,
Cacique Chicão, previram suas mortes. Nós estamos
prevendo a nossa. Apesar de estarmos por um fio a
POLICIA É PARA QUEM PRECISA DE POLICIA”.
Repertório e Ficha Técnica
do CD Demo do Coco de Umbigada
1. Vamos Abrir a Roda de Coco (Beth de Oxum)
Boa noite a meu povo todo
Do meu terreiro eu venho trazendo essa sambada
Vamo’ abrir a roda de coco e dar muita umbigada
Meu terreiro
É o Terreiro da umbigada
Dona Oxum lá tem morada
Pois no dia da Sambada
Meu Guadalupe fca lotado
Menino, é coquista pra todo lado
Minha mãe preta vem chegando,
Pombo Roxo vem cantando,
Zeca do Rolete vem sambando,
Beth de Oxum vem no comando
Boa noite a meu povo todo
Do meu terreiro eu venho trazendo essa sambada
Vamo abrir a roda de coco e dar muita umbigada
227
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
2. É o Coco de Umbigada (Beth de Oxum)
No Guadalupe tem um terreiro, É terreiro da umbigada
Dona Beth de Oxum, Vem trazendo essa sambada
Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de Umbigada!
Oi, diga lá que coco é esse? É o Coco de Umbigada!
No Terreiro da Umbigada, Tem Coco de Umbigadinha
Vem trazendo Ialodê, Oxaguiam, Mayra, Ynaiê
Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de umbigada!
Oi, diga o nome desse coco, Oi, diga o nome desse coco
É o Coco de Umbigada!
No Guadalupe também tem, A Boneca de Mãe Preta
O Cariri e o Chorão, O Pereirão e o Barão
Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de umbigada!
Oi, diga o nome desse coco, Oi, diga o nome desse coco
É o Coco de Umbigada!
No Terreiro da umbigada, Tem a Escola de Mãe Preta
Mãe Preta vem chegando, O samba vem raiando
A umbigada vadiando, A Jurema consagrando
Oi, diga lá, que coco é esse? É o Coco de umbigada!
Oi, diga o nome desse coco, Oi, diga o nome desse coco
É o Coco de Umbigada!
228
Dani Bastos
3. O Coco Traz Consciência (Beth de Oxum)
No dia 19 de março
Planta o milho que ele vem
Na tenda de Oxossi tem
Mané Quebra-Pedra também
Na casa de Oyá Togum
Seu Corisco vem chegando
Por debaixo do chapéu
Daquele jeito vem olhando
Zé Pretinho também vem
Querendo a mazurca dançar
Pois o mestre quando chega
No coco vai vadiar
Eu venho aqui anunciar
Que o Coco tem ciência
Na jurema no terreiro
O Coco traz consciência
O Coco vem da jurema
Pois o Mestre assim mostrou
quando desce no seu corpo
a mazurca vadiou
Eu venho aqui anunciar
Que o Coco tem ciência
Na Jurema no terreiro
O Coco traz consciência
229
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Ficha Técnica
Vocal Principal: Beth de Oxum
Congas e Efeitos: Quinho Caetés
Zabumba: Marconi Black
Ilús: Daniel Luís Albuquerque
Ganzá e Back Vocal: Luciano Lima
Back Vocal: Dani Bastos
230
Dani Bastos
BAKHTIN, Mikhail M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais.
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Capítulo 7
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Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
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[s.l s.n.] http://convivenciaepaz.org.br/rodas/coco-de-umbigada-%E2%80%93-olinda-pe/
Acesso em: maio-julho/2011.
235
Coco de Umbigada: Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social
Texto sobre a autora:
A autora Dani Bastos tem dedicação pelo
estudo da sua cultura na origem de sua
família residentes na cidade do Recife, em
Pernambuco. Do candomblé, flha da orixá
Oyá, Daniela Bastos dos Santos, nome de
nascimento, formou-se em Educação Física
e Desportos pela Universidade Federal de
Pernambuco. Sua paixão pela arte popu-
lar a fez por muitos anos de brincante nos
grupos cultura popular do Estado, como o
Caboclinho, o Maracatu de Baque Virado,
Pastoril Profano, Afoxé, Coco. Desde 2003,
dentro da brincadeira, tornou-se produ-
tora cultural, particularmente em cultura
popular e tradicional, realizando a Especia-
lização em Etnomusicologia, e desenvol-
vendo vários trabalhos sob a coordenação
do Núcleo de Música do Ponto de Cultura
Coco de Umbigada. Em literatura, produ-
ziu Linguaraz, de Pedro Américo de Farias,
livro de poemas musicais. Mas esta é a sua
primeira incursão na autoria de um livro,
mantendo com preocupação apresentar a
música gerada pelas culturas populares e
tradicionais. Pretende escrever outros li-
vros adaptando as histórias das culturas
populares e tradicionais para a forma escri-
ta com a intenção da preservação e difusão
da memória do povo brasileiro.
Tipologia - Chaparral Pro e Helvetica Neue
Papel - Pólen Bold 90g
Impressão - Brascolor
Tiragem - 500
Novembro - 2011

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