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Cognitivismo

O cognitivismo é uma das três principais correntes em psicologia da aprendizagem,


distinguindo-se do empirismo que postula que o conhecimento se dá a partir de estímulos do
meio ambiente, e do humanismo em que o conhecimento se dá como atualização daquilo que
o homem traz dentro de si.

O modelo cognitivista ocupa-se dos processos centrais internos que se dão em relação ao
conhecimento, levando em conta, portanto, o sujeito, o interno, bem como a interação com o
meio ambiente. Considera a ação do indivíduo dirigida a um fim, isto é, leva em conta a
intencionalidade do sujeito. É a consciência que atribui significado aos objetos e situações.

Interessa ao modelo cognitivista os processos de pensamento como, por exemplo, as formas


de que as pessoas se utilizam para selecionar, arquivar, relacionar, organizar, processar,
transferir e aplicar informações, estilos de aprendizagem e processos de tomada de decisão
entre outros.

O modelo cognitivista considera que o sujeito organiza estas informações em estruturas


conceituais, que se relacionam uma com as outras, em constante transformação, levando em
conta as emoções. Entre os principais cognitivistas encontramos Jerome Bruner, David
Ausubel e Jean Piaget.

Jerome Bruner

J. Bruner ( 1915 - ) criou o Centro de Estudos Cognitivos em 1960 na Universidade de


Harvard sendo conhecido como defensor do método de aprendizagem pela descoberta e da
teoria da instrução a qual prescreve como determinado assunto deve ser ensinado. A teoria
da instrução foi elaborada a partir de seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo do ser
humano. Para Bruner a instrução é um estado provisório, sendo que o objetivo do ensino é
tornar o aluno auto-suficiente, sendo que o próprio aluno assume uma função auto-corretiva.

Bruner divulgou o método de aprendizagem por descoberta após observar muitos educadores
trabalhando. Concluiu que a aula expositiva, em que o professor traz tudo pronto não é tão
eficaz como aquela em que o professor lança problemas ou questões para o aluno resolver,
discutindo com ele as alternativas apresentadas. Para o professor esta abordagem exige
conhecimento profundo de sua matéria, além de competência, flexibilidade para caminhar
com seus alunos.

David Ausubel (1918- 2008 )

Para Ausubel a cognição é o processo através do qual o mundo de significados tem origem. À
medida que o ser se situa no mundo, estabelece relações de significação; os significados são
pontos de partida para a atribuição de outros significados. Tem origem, então, a estrutura
cognitiva ( os primeiros significados), constituindo-se nos “pontos básicos de ancoragem” dos
quais derivam outros significados.

Ausubel encara a aprendizagem como “um processo de armazenamento da informação,


condensação em classes mais genéricas de conhecimentos, que são incorporados a uma
estrutura no cérebro do indivíduo, de modo que esta possa ser manipulada e utilizada no
futuro”. É a habilidade de organizar informações que deve ser desenvolvida.

Aprendizagem significa organização e integração do material na estrutura cognitiva e será


significativa quando o material novo interage com conceitos relevantes e inclusivos, claros e
disponíveis na estrutura cognitiva, sendo por eles assimilados, contribuindo para a sua
diferenciação, elaboração e estabilidade. A essa estrutura que o sujeito já tem, Ausubel
chamou de conceitos subsunçores. Estes vão funcionar como pontos de ancoragem para as
novas idéias e conceitos que assim poderão ser aprendidas e retidas. Por sua vez estas
novas idéias poderão modificar atributos importantes da estrutura cognitiva.

Ausubel vê o armazenamento de informações no cérebro como sendo altamente organizado,


formando uma hierarquia conceitual na qual elementos mais específicos de conhecimento
são ligados a conceitos gerais mais inclusivos.

Assim, Ausubel propõe a aprendizagem receptiva, o que não quer dizer passiva; o aluno atua
mentalmente sobre o novo material estabelecendo relações. Ao ensinar, o professor deve
trabalhar com as estruturas conceituais de sua disciplina, a que ele chama de hierarquias
conceituais, como um processamento de informações que deve ser ensinado ao aluno, seja
cognitivo, seja afetivo ou psicomotor.

Jean Piagget

Para Piaget, a educação é um todo indissociável, considerando-se dois elementos


fundamentais: o intelectual e o moral:
. . . não se pode formar personalidades autônomas no domínio moral se por outro lado o
indivíduo é submetido a um constrangimento intelectual de tal ordem que tenha de se limitar a
aprender por imposição sem descobrir por si mesmo a verdade: se é passivo
intelectualmente, não conseguiria ser livre moralmente. Reciprocamente, porém, se a sua
moral con¬siste exclusivamente em uma submissão à autoridade adulta, e se os únicos
relacionamentos sociais que constituem a vida da classe são os que ligam cada aluno
individualmente a um mes¬tre que detém todos os poderes, ele também não conseguiria ser
ativo intelectualmente. , , . o pleno desenvolvimento da per¬sonalidade, sob seus aspectos
mais intelectuais, é inseparável do conjunto de relacionamentos afetivos, sociais e morais que
constituem a vida da escola,.. (Piaget, 1973f. p. 69)

Para Piagget o objetivo da educação, portanto, não consistirá na transmissão de


verdades, informações, demonstrações, modelos etc., e sim em que o aluno aprenda, por si
próprio, a conquistar essas verdades, mesmo que tenha de realizar todos os rateios
pressupostos por qualquer atividade real.. A educação pode ser considerada igualmente como
um processo de socialização (que implica equilíbrio nas relações interindividuais e ausência
de regulador externo, ordens externas), ou seja, um processo de "democratização das
relações". Socializar,..nesse sentido, implica criar-se condições de cooperação. A aquisição
individual das operações pressupõe necessariamente a cooperação, colaboração, trocas e
intercâmbio entre as pessoas.

Considerando o fato de que a lógica não é inata, mas que se constrói, a primeira tarefa
da educação deveria consistir em formar o raciocínio. Piaget declara que:
Todo ser humano tem o direito de ser colocado, durante a sua formação, em um meio
escolar de tal ordem que lhe seja possível chegar ao ponto de elaboração, até à conclusão,
dos instrumentos indispensáveis de adaptação que são as opera¬ções da logica. (l973f, p.
38)

A educação, portanto, é condição formadora necessária ao desenvolvimento natural do


ser humano: Este, por sua vez, não iria adquirir suas estruturas mentais mais essenciais sem
a intervenção do exterior. Sem esse tipo de contribuição o indivíduo não chegará à autonomia
intelectual e moral.

O conjunto de relações de reciprocidade e de coopera¬ção ao mesmo tempo moral e


racional raramente é assegu¬rado pela autoridade do professor ou pelas lições, informações,
modelos que ele possa sugerir ou apresentar, mas pela vida social entre os próprios_ alunos
e pelo autogoverno. O respeito mútuo irá substituir a heteronomia característicade um respeito
unilateral, por uma autonomia, considerando-se a reciprocidade como coordenação dos
pontos de vista e ações entre os membros do grupo.

Uma educação assim concebida é a que procurará pro¬vocar nos alunos, constantemente,
busca de novas soluções, criar situações que exijam o máximo de exploração por parte deles
e estimular as novas estratégias de compreensão da realidade.

Segundo Piaget, a escola deveria começar ensinando a criança a observar. A verdadeira


causa dos fracassos da educação formal, diz, decorre essencialmente do fato de se principiar
pela linguagem (acompanhada de desenhos, de ações fictícias ou narradas etc.) ao invés de
o fazer pela ação real e material.

A escola, dessa forma, deveria dar a qualquer aluno a possibilidade de aprender por
si próprio, oportunidades de investigação individual, possibilitando-lhe todas as tentati¬vas,
todos os tateios, ensaios que uma atividade real pres¬supõe. Isso implica diretamente que a
motivação não ve¬nha de fora, mas lhe seja intrínseca, ou seja, da própria capacidade de
aprender, para que se torne possível a cons¬trução de estruturas do ponto de vista endógeno.

Na teoria piagetiana pode-se constatar o estabelecimento de relações entre a


cooperação e a formação/desenvolvimento intelectual. Assim, não seria possível existir na
escola uma verdadeira atividade intelectual baseada em ações, investigações e pesquisas
espontâneas, sem que houvesse uma livre cooperação dos alunos entre si e não apenas
entre professor e alunos.

Para Piagget o professor deve conviver com os alunos, observando seus


comportamentos, conversando com eles, perguntando, sendo interrogado por eles, e realizar,
também com eles, suas experiências, para que possa auxiliar sua aprendizagem e
desenvolvimento.
O aluno deve ser tratado de acordo com as caracterís¬ticas estruturais próprias de sua
fase evolutiva e o ensino precisa, consequentemente, ser adaptado ao desenvolvimen¬to
mental e social. Cabe ao aluno um papel essencialmente ativo (a atividade é uma forma de
funcionamento do índivíduo) e suas atividades básicas, entre outras, deverão consis¬tir em:
observar, experimentar, comparar, relacionar, ana¬lisar, justapor, compor, encaixar, levantar
hipóteses, argu¬mentar etc.

E ao professor caberá a orientação necessária para que os objetos sejam explorados


pelos alunos, sem jamais ofe¬recer-lhes a solução pronta. É indispensável, no entanto, que o
professor conheça igualmente o conteúdo de sua discipli¬na, a estrutura da mesma, caso
contrário não lhe será possível propor situações realmente desequilibradoras aos alunos.

Teoria Rogeriana na Educação

Carl Rogers nasceu em Chicago em 1902. Formado em História e Psicologia, aplicou


à Educação princípios da Psicologia Clínica, foi psicoterapeuta por mais de 30 anos.

No Brasil suas idéias tiveram difusão na década de 70, em confronto direto com as
idéias Comportamentalistas (behaviorismo), que teve em Skinner um de seus principais
representantes. Rogers é considerado um representante da corrente humanista, não diretiva,
em educação. Rogers concebe o ser humano como fundamentalmente bom e curioso, que,
porém, precisa de ajuda para poder evoluir. Eis a razão da necessidade de técnicas de
intervenção facilitadoras.
O rogerianismo na educação, aparece como um movimento complexo que implica
uma filosofia da educação, uma teoria da aprendizagem, uma prática baseada em pesquisas,
uma tecnologia educacional e uma ação política. Ação política, no sentido de que, para
desenvolver-se uma educação centrada na pessoa, é preciso que as estruturas da instituição
escola mudem.

Aprendizagem significativa em Psicoterapia

" Por aprendizagem significativa entendo uma aprendizagem que é mais do que uma
acumulação de fatos. É uma aprendizagem que provoca uma modificação, quer seja no
comportamento do indivíduo, na orientação futura que escolhe ou nas suas atitudes e
personalidade. É uma aprendizagem penetrante, que não se limita a um aumento de
conhecimentos, mas que penetra profundamente todas as parcelas da sua existência."
Rogers, in Tornar-se Pessoa, 1988, editora Martins Fontes.

As condições de aprendizagem em Psicoterapia:


• enfrentando um problema;
• o terapeuta precisa possuir um considerável grau de congruência na relação;
• consideração positiva incondicional;
• compreensão empática;
• necessidade que o terapeuta consiga comunicar ao cliente as condições
anteriores.

Implicações no domínio da Educação

• necessidade da aprendizagem ser significativa, o que acontece mais facilmente


quando as situações são percebidas como problemáticas, portanto pode-se dizer que
só se aprende aquilo que é necessário, não se pode ensinar diretamente a nenhuma
pessoa;
• autenticidade do professor, isto é, a aprendizagem pode ser facilitada se ele for
congruente. Isso implica que o professor tenha uma consciência plena das atitudes que
assume, sentindo-se receptivo perante seus sentimentos reais, tornando-se uma
pessoa real na relação com seus alunos;
• aceitação e compreensão: a aprendizagem significativa é possível se o
professor for capaz de aceitar o aluno tal como ele é, compreendendo os sentimentos
que este manifesta, pois a aprendizagem autêntica é baseada na aceitação
incondicional do outro;
• tendência dos alunos para se afirmarem, isto é , os estudantes que estão em
contato real com os problemas da vida, procuram aprender, desejam crescer e
descobrir, querem criar, o que, pressupõe uma confiança básica na pessoa, no seu
próprio crescimento
• a função do professor consistiria no desenvolvimento de uma relação pessoal
com seus alunos e de o estabelecimento de um clima nas aulas que possibilitasse a
realização natural dessas tendências; portanto o professor é um facilitador da
aprendizagem significativa, fazendo parte do grupo e não estando colocado acima dele;
este também é um dos pressupostos básicos da teoria de Rogers, ou seja, o aspecto
interacional da situação de aprendizagem, visando às relações interpessoais e
intergrupais;
• o professor e o aluno são co-responsáveis pela aprendizagem, não havendo
avaliação externa, a auto-avaliação deve ser incentivada; implica em uma filosofia
democrática;
• organização pedagógica flexível;
• é por meio de atos que se adquire aprendizagens mais significativas;
• a aprendizagem mais socialmente útil, no mundo moderno, é a do próprio
processo de aprendizagem, uma contínua abertura à experiência e à incorporação,
dentro de si mesmo, do processo de mudança.

Como metodologia, a não-diretividade é característica. É um método não estruturante


de processo de aprendizagem, pelo qual o professor não interfere diretamente no campo
cognitivo e afetivo do aluno. Na verdade, Rogers pressupõe que o professor dirija o estudante
às suas próprias experiências, para que, a partir delas, o aluno se autodirija. Rogers propõe a
sensibilização, a afetividade e a motivação como fatores atuantes na construção do
conhecimento.
Uma das idéias mais importantes na obra de Rogers é a de que a pessoa é capaz
de controlar seu próprio desenvolvimento e isso ninguém pode fazer para ela.
Na obra acima citada, páginas 271, 272, Rogers coloca:
"Algumas questões para concluir"
" ...Mesmo que tentemos esse método para facilitar a aprendizagem, levantam-se
muitas questões difíceis. Podemos permitir aos estudantes que entrem em contato com os
problemas reais? Toda a nossa cultura-procura insistentemente manter os jovens afastados
de qualquer contato com os problemas reais. Os jovens não tem que trabalhar, assumir
responsabilidades, intervir nos problemas cívicos ou políticos, não tem lugar nos debates das
questões internacionais. ...Será possível inverter essa tendência?
...Uma outra questão é a de saber se podemos permitir que o conhecimento se
organize no e pelo indivíduo, em vez de ser organizado para o indivíduo. Sob esse aspecto,
os professores e os educadores se alinham com os pais e com os dirigentes nacionais para
insistirem que os alunos devem ser guiados....Espero que, ao levantar essas questões, tenha
mostrado claramente que o duplo problema que é a aprendizagem significativa e forma de
como realizá-la nos coloca perante problemas profundos e graves. ...Tentei apontar algumas
dessas implicações das condições facilitadoras da aprendizagem no domínio da educação, e
propus, uma resposta a essas questões..."
Bibliografia:

Falcão, G.M. Psicologia da Aprendizagem, SP: Ed Ática, 1989


Mizukami, M.G.N. Ensino: as abordagens do processo; SP:EPU, 1986
Moreira, M.A. Teorias de Aprendizagem; SP:EPU, 1999.