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Resenha do livro "O que é Adolescência" do autor Daniel Becker.


BECKER, Daniel. O que é Adolescência. São Paulo: Brasiliense, 2003. - (Coleção
primeiros passos ; 159). 96 p.

Daniel Becker graduou-se em Medicina e fez residência em Pediatria pela Universidade
Federal de Rio de Janeiro (1982). A partir de seus estudos na França, e trabalho em
campo de refugiados na Tailândia, iniciou em favela do Rio de Janeiro uma experiência
inovadora na assistência a população de baixa renda em áreas urbanas que levou a à
criação do CEDAPS, em 1993. Participou da criação do Programa de Saúde da Família.
E atualmente é Médico Pediatra do Ministério da Saúde, funcionário do Instituto de
Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, Coord. América Latina e Caribe da Dreyfus
Health Foundation, Diretor-Presidente do Centro de Promoção da Saúde e da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Daniel Becker escreve em 1985 a primeira edição do livro “O que é Adolescência”,
nessa obra ele explica as várias adolescência, e a conceitualiza como um fenômeno
sócio-cultural recente. Discuti mudanças e conflitos biológicos psicológicos e sociais,
vivenciados nessa etapa da vida. E explica a lógica pela qual a sociedade se relaciona e
compreende seus adolescentes, buscando uma perspectiva mais ampla que as
tradicionais. Utiliza como base autores psicanalistas. E desmistifica alguns mitos
relacionados a adolescência como a famosa crise normal na adolescência e o uso da
maconha.
O autorinicia a obra com a unidade denominada com o subtítulo “Na tua idade eu
também queria mudar o mundo” em que começa a questiona o rótulo de que os
adolescentes são seres conflituosos, e a existência de uma “crise psicológica normal”.
Capaz de instigar todos os adolescentes a criticar, protestar, e querer transformar a
estrutura social que lhe foi herdada.
O autor critica a posição da sociedade em defini que o sentimento de inconformismo ao
sistema sócio político cultural, é comum e passageiro a todos que estão vivendo essa
etapa. E que esse inconformismo desapareça no momento em que a crise é superada e o
adolescente passe para a etapa seguinte , ou seja, um adulto adaptado as regras e
também aos padrões aparentemente imutáveis, aceitando as exigências que lhe são
impostas e a ausência de liberdade.
Na segunda unidade Daniel Becker utiliza o subtítulo “A metamorfose”, para dá ênfase
as transformações vivenciadas pelo adolescente, que o levará a se transforma em um ser
adulto. O autor esclarece que as mudanças físicas são universais e que as mudanças do
nível psicológico são variáveis em diversos contextos. As transformações físicas são
desencadeadas pelo fenômeno da puberdade conceitualizado como “o período da vida
em que o indivíduo se torna apto para a procriação, isto é, adquire a capacidade física de
exercer a função sexual madura”(Becker, 2003, p.18). Paralelamente a eventos como
o“estirão da adolescência” o aparecimento dos “caracteres sexuais”, primeira menarca,
aumento do pênis e produção de espermatozoides. E principalmente as formas como o
adolescente lida com essas mutações que ocorrem em seu corpo.
E como uma das transformações, e nessa fase que ocorre uma mudança qualitativa na
atividade cognitiva do adolescente. Piaget e citado por Becker (2003) para explicar o
surgimento da capacidade de “raciocinar sobre o raciocínio” que representa o
surgimento do raciocínio abstrato na adolescência.
E ao falar dos aspectos emocionais e da sexualidade o autor utiliza basicamente as
teorias psicanalistas, de autores como Sigmund Freud para explicar “o conflito de
gerações”. Anna Freud que a partir de sua teoria pode se compreender a adolescência
como um fenômeno bio-psicológico-sexual, e a utilização de mecanismos como a
“intelectualização” para repressão dos instintos sexuais. E Erik Erikson a quem se deve
a expressão “crise na adolescência”. Daniel Becker descreve os conflitos em direção ao
estabelecimento da sexualidade como, valores morais que restringem a atividade sexual,
masturbação, homossexualidade, conceito de sexualidade vendido pela mídia, falta de
orientação sexual. E as consequências desses conflitos quando não são resolvidos, que
se manisfestam na gravidez na adolescência, e no aborto.
O autor ainda nos aspectos emocionais crítica a generalização de termosdestinados aos
adolescentes como agressividade e “depressão normal”. E destaca que a depressão é
importante para que o adolescente possa refletir sobre as vivências interiores, e viver os
“lutos” que são reações a um série de “perdas” que ele sofreu durante seu
desenvolvimento. Becker, cita Erik Erikson para explicar a busca do adolescente por sua
identidade, os conflitos de valores e as identificações dos adolescentes.
E ao falar das drogas, o autor diferencia os quatro grupos de drogas psicoativas. E
destaca que essas drogas podem levar a dois tipos de dependência: a psicológica e a
física. Sendo que a “síndrome de abstinência” esta relacionada a dependência física. Em
sua obra Daniel Becker crítica a marginalização do usuário da maconha, e defende a
posição de que “a grande maioria dos adolescentes que a usam são os “usuários
recreacionais”, isto é, não viciados, não consomem de forma compulsiva e sistemática”
(Becker, 2003, p. 46, 47). Enfatiza que a preocupação da sociedade com a maconha em
detrimento do álcool, e pelo fato do alcoolismo dá lucro ao sistema, ao contrário da
maconha.
Daniel Becker destaca também que é juntamente nesse momento da vida, com todas
essas transformações, mudanças, conflitos e “crises” que o adolescente se vê
pressionado a escolha uma profissão. Escolha que depende de vários fatores, e que na
maioria das vezes e feita sem a devida reflexão podendo levar aoerro e a frustração do
indivíduo. Mas o principal fator que influencia na escolha profissional é a classe sócio-
econômica a qual o adolescente pertence, pois as opções para as classes desfavorecidas
são diferentes das possibilidades de jovens com um bom nível de renda. O autor não
acredita na mobilidade social desses jovens de baixa renda. E defende que a sociedade
deve a eles direitos básicos como saúde, educação, e igualdade.
Na terceira unidade da obra que possui o subtítulo “Radiografia de uma visão: O lado
avesso”, a questão levantada e a de que as ideias e teorias sobre a adolescência não
devem ser generalizadas à ideologia, porque chegam aos jovens como verdades e eles
tenderam a desqualificar a sua própria emoção e seus pensamentos. A unidade discuti a
assimilação da ideologia pelo adolescente, na construção de sua identidade. E a
formulação dessa ideologia pelo poder social dominante buscando o controle do
indivíduo, através da submissão e da alienação, para que ele possa reproduzir os padrões
de vida vigentes. O autor destaca que é fundamental que os jovens utilizem da
criatividade, da conscientização e do questionamento crítico para trazer resoluções para
as contradições. Rompendo com a ideologia vigente em busca de transformação e
renovação.
Na quarta unidade “Adolescência: quando, como e onde” Daniel Becker traz uma visão
histórica do fenômeno da adolescência, destacando que oconceito é bastante recente e
que esse é um fenômeno sócio-cultural. Tanto que jovens de classes sociais
desfavorecidas vivem sua adolescência com grandes desvantagens. E também com o
intuito de demonstrar as diferenças sociais e culturais entre a forma como a civilização
ocidental vive e percebe a adolescência, o autor compara a cultura ocidental com a
sociedade de Samoa. Destacando que em Samoa “o adolescente parece não enfrentar
conflitos morais, ideológicos, psicológicos. Não existe lá o que chamamos de crise da
adolescência” (Becker, 2003 p. 630).
No subtítulo “Mudando o referencial” o autor fala sobre a dificuldade que é para o
adolescente achar a sua identidade, em meio a esse mundo turbulento em que valores
ultrapassados, convivem com novos valores. Cabe a ele a escolha consciente, ou não, de
seguir a ideologia social dominante e reproduzir os padrões sócias que lhe foram
impostos; ou assumir uma atitude de protesto, ou ainda posições originais, e desviantes.
Sendo os últimos pioneiros de um novo modo de vida. Por fim o autor discuti qual é o
critério para determinar o fim da adolescência, é crítica a definição de que um indivíduo
se torna adulto quando alcança o seu perfeito ajustamento à sociedade.
Na unidade denominada “Adolescência-aqui e agora”, Daniel Becker discuti a
necessidade constante que a sociedade apresenta de estereotipar o adolescente. E
defende que o universo daadolescência é bem mais amplo, e não é limitado a esses
estereótipos.
E ao falar dos dados estatísticos referente a grande quantidade de adolescente no Brasil,
o autor dividi os adolescente em dois grandes grupos: os das camadas médias e altas
urbanas e o “resto” que segundo ele é constituído pelos jovens que são marginalizados
na sociedade. Em seguida o autor fala dos movimentos sociais da juventude no mundo e
no Brasil, e compara as manifestações de protesto contra o sistema de décadas atrás as
manifestações da atualidade. O autor apresenta também uma estatística americana
relacionada ao aumento de suicídios em adolescente, e defende que a culpa não é do
adolescente, mas sim do sistema.
E termina a unidade por demonstrar através de dados estatísticos que no Brasil a maioria
dos adolescente vive em condições precárias ou mesmo subumanas. Sobrevivem sem
lar, sem comida, sem saúde, e sem escola, passam a adolescência sem condições
mínimas para se desenvolver plenamente, e Becker ainda afirma que “Milhões de
adolescentes brasileiros são deficientes físicos e mentais, não por doenças genéticas,
mas simplesmente por miséria” (Becker, 2003, p.88). Defende que a sociedade
brasileira precisa se dar conta do sofrimento dessas crianças, e passar a respeitá-las e
assisti-las, não adianta se preocupar somente com uma “massa de marginais no futuro” e
preciso reformas que realmente transforme as suascondições de vida. O autor termina
por fazer um chamado aos adolescentes de boa condição econômica, para que de
alguma forma defendam os jovens menos favorecidos de sua própria geração.
Na sua Conclusão Daniel Becker justifica a escolha do tema de seu livro com o
subtítulo “Por que Adolescência” nesse momento levanta questões referente as
constantes transformações do mundo contemporâneo, e afirma que a nossa cultura esta
vivendo uma “crise adolescente”. Enfatiza a participação do adolescente nessa
transformação através da crítica do questionamento e de novas propostas. E destaca que
“O conflito e a dúvida costumam trazer muito sofrimento. Mas o valor positivo deles
pode ser muito maior” (Becker, 2003, p.95). Becker conclui a sua obra dando ênfase ao
privilégio que os adolescentes possuem de poder escolher livremente, e de voltar caso
necessário, porque o importante é participar das escolhas, e viver para o presente.
O livro possui linguagem acessível, e abrangente de forma plena o tema proposto. O
autor possui várias opiniões controvérsias à sociedade, e que por mais que os leitores
não compartilhem da mesma visão a obra não perde a sua riqueza de detalhes e a
qualidade de suas discussões. É recomendável que todos os sujeitos que estão passando
por essa fase, ou os estudiosos do assunto, leiam o livro O que é Adolescência.