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IRBr – Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata

Manual do Candidato
Regina Célia Araújo
2ª edição
atualizada e revisada
Brasília
2000
Geografia
Presidente Álvaro da Costa Franco Filho
Diretora de Administração Geral Maria Lucy Gurgel Valente de Seixas Corrêa
Copyright  2000 Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG
A663m
Araújo, Regina Célia
Manual do candidato : geografia / Regina Célia Araújo. – 2. ed. atual. e
rev. – Brasília : FUNAG, 2000.
194p. ;
ISBN 85-87480-02-2
Inclui bibliografia.
1. Instituto Rio Branco – Concursos. 2. Serviço púplico – Brasil –
Concursos. 3. Geografia. I. Fundação Alexandre de Gusmão. II. Título.
CDD-354.81003
Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG
Ministério das Relações Exteriores
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Anexo II, Térreo
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conforme Decreto nº 1.825, de 20.12.1907
1
O IRBr considera importante ao Concurso de Admissão que os candidatos não descuidem do
aperfeiçoamento no idioma francês, uma vez que (a) será exigida proficiência de alto nível em francês
no processo de formação de diplomatas e (b) parte da bibliografia do Programa de Formação e
Aperfeiçoamento – Primeira Fase (PROFA I) é constituída de textos em francês.
APRESENTAÇÃO
A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) oferece aos candidatos ao
Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, do Instituto Rio Branco (IRBr),
do Ministério das Relações Exteriores, a série Manuais do Candidato, com nove
volumes: Português, Questões Internacionais Contemporâneas, História do Brasil,
História Geral Contemporânea, Geografia, Direito, Economia, Inglês e Francês
1
.
Os Manuais do Candidato constituem marco de referência conceitual,
analítica e bibliográfica das matérias indicadas. O Concurso de Admissão, por
ser de âmbito nacional, pode, em alguns centros de inscrição, encontrar candidatos
com dificuldade de acesso a bibliografia credenciada ou a professores
especializados. Dada a sua condição de guias, os manuais não devem ser encarados
como apostilas que por si sós habilitem o candidato à aprovação.
A FUNAG convidou representantes do meio acadêmico com reconhecido
saber para elaborarem os Manuais do Candidato. As opiniões expressas nos
textos são de responsabilidade exclusiva de seus autores.
SUMÁRIO
Unidade I – Sociedade e Espaço: o campo de reflexões da
Geografia ................................................................................................. 9
1. O Espaço Geográfico .......................................................................... 9
2. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza ...................... 11
3. Bibliografia ....................................................................................... 15
Unidade II – A Formação Territorial do Brasil ................................. 19
1. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação
do Território Brasileiro ..................................................................... 19
2. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil .............. 34
3. Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no
Brasil ................................................................................................. 56
4. O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da
Localização da Indústria no Brasil .................................................... 66
5. O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas
Tendências Atuais ............................................................................. 77
6. Exemplos de Questões ...................................................................... 90
7. Bibliografia ....................................................................................... 91
Unidade III – O Brasil no Contexto Geopolítico Mundial ................ 95
1. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações
de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências
Políticas em Escala Global ............................................................... 96
2. Herança Colonial, Condição Periférica e Industrialização Tardia:
A América Latina ........................................................................... 113
3. O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul ............... 119
4. As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônia ........................ 140
5. Exemplos de Questões .................................................................... 149
6. Bibliografia ..................................................................................... 150
Unidade IV – A Questão Ambiental no Brasil e os Desafios do
Desenvolvimento Sustentável ............................................................. 153
1. A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis
do Solo ............................................................................................ 153
2. Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua
Degradação ..................................................................................... 163
3. As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas
Cidades Brasileiras ......................................................................... 180
4. Exemplos de Questões .................................................................... 193
5. Bibliografia ..................................................................................... 194
UNIDADE I
SOCIEDADE E ESPAÇO:
O CAMPO DE REFLEXÕES
DA GEOGRAFIA
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA
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REGINA CÉLIA ARAÚJO
SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA
9
I. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE
REFLEXÕES DA GEOGRAFIA
No vasto campo de reflexões da geografia, que abarca desde a lógica
da distribuição espacial das atividades humanas e suas transformações ao
longo da história até a percepção subjetiva das realidades espaciais
vivenciadas pelas diferentes sociedades e pelos grupos que as compõem, o
conceito de espaço ocupa lugar de destaque.
Nessa primeira Unidade, pretende-se introduzir a discussão acerca
desse conceito e apresentar alguns momentos cruciais da história do
pensamento geográfico, de forma a orientar a leitura das Unidades
subseqüentes, que tratam da formação do território brasileiro, da inserção
do país no contexto internacional e dos impactos do uso predatório dos
recursos naturais sobre o patrimônio ambiental do país. Essa introdução
conceitual, porém, está longe de ser conclusiva, e não dispensa uma revisão
bibliográfica de maior fôlego acerca das grandes linhas teóricas e conceituais
que vertebram o campo de reflexões da geografia: trata-se apenas de um
quadro de referências fundamentais.
1. O Espaço Geográfico
As sociedades humanas, ao produzirem sua vida material e sua
história, modificam os ambientes naturais e produzem também espaço.
O processo de humanização da natureza e de transformação desta em recurso
produtivo resulta na produção social de formas espaciais diferenciadas, ou,
mais simplesmente, na produção do espaço geográfico. O geógrafo Milton
Santos define espaço como acumulação desigual de tempos. Nessa
perspectiva, o espaço geográfico é coagulação do trabalho social,
materialização de idéias e de ações das sociedades sobre a natureza.
O espaço geográfico materializa atributos das sociedades que os
produziram. Sendo assim, ele está em permanente mutação. O surto
industrialista vivenciado pela Europa no século XIX, por exemplo,
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REGINA CÉLIA ARAÚJO
transformou radicalmente a geografia do continente: as precárias vias de
circulação medievais e as modestas cidades – com ruelas estreitas que
obedeciam a um plano radioconcêntrico – cederam lugar às ferrovias e às
grandes aglomerações urbanas. A abertura contemporânea da economia
brasileira para os fluxos globalizados de capitais e mercadorias está mudando
a geografia das atividades produtivas do país, na medida em que os novos
investimentos estão promovendo, ao mesmo tempo, uma desconcentração
dos ramos industriais tradicionais pelo território e uma reconcentração das
indústrias de base tecnológica em alguns pólos do Centro-Sul. Do mesmo
modo, a integração crescente da economia chinesa com o mercado mundial
está mudando a paisagem urbana das cidades litorâneas, que adquirem as
feições das modernas aglomerações urbanas ocidentais. A geografia estuda
uma realidade em permanente mutação, e não um objeto fixo. Ainda de
acordo com Milton Santos, a paisagem, assim como o espaço, cristaliza em
suas formas o passado e o presente das sociedades que a produziram:
Uma região produtora de algodão, de café ou trigo. Uma
paisagem urbana ou uma cidade de tipo europeu ou de tipo
americano. Um centro urbano de negócios e as diferentes periferias
urbanas. Tudo isto são paisagens, formas mais ou menos duráveis.
O seu traço comum é ser a combinação de objetos naturais e de
objetos fabricados, isto é, objetos sociais, e ser o resultado da
acumulação da atividade de muitas gerações.
Em realidade, a paisagem compreende dois elementos:
Os objetos naturais, que não são obra do homem nem jamais
foram tocados por ele.
Os objetos sociais, testemunhas do trabalho humano, no
passado como no presente.
A paisagem não tem nada de fixo, de imóvel. Cada vez que
a sociedade passa por um processo de mudança, as relações sociais
e políticas também mudam, em ritmos e intensidade variados. A
mesma coisa acontece em relação ao espaço e a paisagem que se
transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade.
SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA
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As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais.
De um lado alguns dos seus elementos não mudam – pelo menos
em aparência – enquanto a sociedade evolui. São as testemunhas
do passado. Por outro lado, muitas mudanças sociais não provocam
necessariamente ou automaticamente modificações na paisagem.
Considerada em um ponto determinado no tempo, uma
paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de
uma sociedade. A paisagem é resultado de uma acumulação de
tempos. Para cada lugar, cada porção do espaço, essa acumulação
é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo, na
mesma velocidade ou na mesma direção.
A paisagem, assim como o espaço, altera-se continuamente
para poder acompanhar as transformações da sociedade. A forma
é alterada, renovada, suprimida, para dar lugar a uma outra forma
que atenda às necessidades novas da estrutura social. “A história é
um processo sem fim, mas os objetos mudam e dão uma geografia
diferente a cada momento da história” dizia Kant, o filósofo e
geógrafo. [SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São
Paulo: Hucitec, 1986, p. 37-38.]
2. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza
Os mais importantes pensadores da geografia criaram teorias
diferentes acerca das relações entre a natureza, a história e o espaço
geográfico. Como sempre acontece na história das ciências, essas teorias
são também uma expressão do contexto histórico no qual surgiram.
Nas obras do geógrafo alemão Friedrich Ratzel, publicadas no último
quartel do século XIX, o estudo da influência do meio – ou das condições
naturais – sobre a humanidade ocupa lugar de destaque. Ratzel distinguia
os povos naturais, aqueles que vivem submetidos às leis da natureza, dos
povos civilizados, mais independentes com relação ao meio. Assim, o
progresso consistiria na emancipação progressiva dos homens das
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REGINA CÉLIA ARAÚJO
determinações naturais, alcançado na medida em que as sociedades
dominassem de maneira progressivamente mais plena os recursos naturais
disponíveis em seu meio. O território dos povos civilizados seria a expressão
de uma ligação completa e íntima entre sociedade e natureza:
Chamamos naturais certos povos não porque eles vivem nas
mais íntimas relações imagináveis com a natureza, mas porque vivem
sob a constrição da natureza. A distinção entre povo natural e povo
civilizado não deve ser buscada no grau mas no seu modo de
dependência com a natureza. A civilização não é propriamente
independência da natureza no sentido de uma separação completa,
mas no sentido de uma união mais multíplice e mais ampla. O
camponês que acumula o trigo no seu celeiro é tão mais dependente
do seu campo quanto o é o indiano que recolhe nos pântanos o seu
arroz aquático, que não semeou; mas para o camponês esta
dependência é menos grave, é para ele uma leve cadeia, que não o
prende tão facilmente, porque ele foi bastante prudente para recolher
provisões, enquanto qualquer vento forte que lance à água as espigas
de arroz atinge o indiano de modo vital. Não nos tornamos
completamente livres da natureza pelo fato de a explorarmos e
estudarmos mais a fundo; tornamo-nos cada vez mais independentes
dos acidentes singulares do seu ser e agir na medida em que
multiplicamos as ligações. Precisamente em razão da nossa
civilização estamos unidos à natureza mais intimamente que todas
as gerações que nos precederam. [RATZEL, Friedrich. “Povos
naturais e povos civilizados.” In: MORAES, Antônio Carlos Robert
(Org.). Ratzel. São Paulo: Ática, 1990, p. 122.]
Para Ratzel, a decadência ou o progresso de uma sociedade estariam
ligados respectivamente à perda e à conquista de territórios, e o tamanho de
um Estado seria indicador do grau de civilização de seu povo. Não por
acaso, as suas teses foram associadas ao expansionismo latente da Alemanha
do século XIX. De acordo com ele:
Para a geografia política, cada povo, localizado na sua área
essencialmente delimitada, representa um corpo vivo que se estendeu
sobre uma parte da Terra e se diferenciou de outros corpos, que
SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA
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igualmente se expandiram por fronteiras ou espaços vazios. As
populações estão em contínuo movimento interno. Ele se transforma
em movimento externo, para diante ou para trás, quando se ocupa
um novo trecho de terra ou se abandona uma possessão anterior (...).
A expansão dos horizontes geográficos, produto dos esforços
físicos e intelectuais de inúmeras gerações, apresenta continuamente
novas áreas para a expansão espacial das populações. Dominar
politicamente essas áreas, amalgamá-las e mantê-las unidas requer
energia ainda maior. Tal energia só pode se desenvolver lentamente
pela e através da cultura (...).
Vemos, acima de tudo, uma íntima relação entre expansão
política e religiosa. Mas mesmo elas são ultrapassadas pela enorme
influência do comércio, que ainda hoje atua como um impulso
poderoso em todas as direções de expansão. Fornecendo apoio a
todos esses impulsos estão as pressões populacionais, que aumentam
com a cultura, e que, tendo por sua vez promovido a cultura, levam
à expansão devido às pressões espaciais (...).
Assim como a área do Estado cresce com sua cultura, vemos
também que, nos estágios inferiores de civilização, os povos estão
organizados em Estados menores. De fato, quanto mais descemos
nos níveis da civilização, menores se tornam os Estados. Logo, o
tamanho de um Estado também se torna um dos parâmetros do seu
nível cultural. [RATZEL, Friedrich. “As leis do crescimento espacial
dos Estados”. In: MORAES, Antônio Carlos Robert (Org.), Ratzel.
São Paulo: Ática, 1990, p. 176-178.]
O geógrafo francês Vidal de La Blache esteve na origem de uma
outra importante escola da geografia. Em suas obras, publicadas entre o
final do século XIX e o início do século XX, La Blache propôs que, na
relação histórica e cumulativa com a natureza – cujos recursos são
desigualmente distribuídos –, os diferentes grupos humanos criariam
“gêneros de vida” particulares. O contato entre “gêneros de vida” diferentes
explicaria o contínuo aumento das fronteiras ecúmenas da terra, pela difusão
de técnicas e hábitos ou pela complementariedade dos recursos naturais,
realizada pelo comércio.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA
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REGINA CÉLIA ARAÚJO
O progresso residiria, então, na ampliação da capacidade produtiva
e no progressivo enfrentamento das limitações impostas pela natureza,
resultante desse contato:
Observe em um mostruário de museu o espólio de vestuários,
armas e adereços do mundo melanésio: nas conchas, escamas de
tartarugas, dentes, espinhas, madeira e fibras vegetais, podemos
reconhecer as características do meio litoral e equatorial; nos
ornamentos dos índios brasileiros, encontramos as coloridas plumas
das aves da floresta, nos pastores das savanas africanas, as peles
de rinocerontes e as correias de couro de hipopótamo. Pode-se
recorrer a inúmeros exemplos de modos de vida inspirados
diretamente no meio ambiente. Excluindo-se os incêndios e os
desbravamentos temporários, esse meio foi pouco modificado, o
mundo vegetal e animal permanece no estado de natureza; quase
nada se buscou no exterior. Por outro lado, quando olhamos a nossa
volta, nas regiões de alta civilização, vemos que os nossos campos,
os nossos prados e até mesmo a nossa floresta em parte são
artificiais, que os nossos companheiros, vegetais e animais, são
aqueles que escolhemos, e que os muitos instrumentos e materiais
que usamos podem ser também utilizados em meios físicos diferentes.
De um lado, civilizações autônomas; de outro, civilizações nas quais
o meio natural não se distingue senão através das complicações de
elementos heterogêneos. Parece que há um abismo entre esses
rudimentos de cultura, expressão de meios locais, e esses resultados
de progresso acumulados de que vivem as nossas civilizações
superiores. Uns são tão exatamente decalcados aos lugares onde se
encontram, que não podemos transportá-los nem imaginá-los em
outra parte; os outros são dotados da faculdade de transmitir-se e de
se espalhar. [LA BLACHE, Paul Vidal de. Principes de Geographie
Humaine. Paris: Éditions Utz, 1990, p. 209.]
As cidades, lugar de encontro por excelência, funcionariam como
verdadeiras “oficinas de civilização”. Para muitos estudiosos, as teses de
Vidal de La Blache operaram no sentido de apresentar uma justificativa
ideológica para o colonialismo francês na África e na Ásia, já que, a partir
delas, foi possível argumentar que a difusão do “gênero de vida” europeu
pavimentaria o caminho do progresso nesses continentes.
SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA
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O pensamento geográfico sofreu grandes alterações desde o século
XIX. Os conceitos e as teorias fundamentais da disciplina foram
problematizados e novas e importantes correntes teóricas surgiram, muitas
das quais fundadas na dimensão espacial da dinâmica das contradições
sociais. Do mesmo modo que as demais ciências humanas, a geografia viveu
um processo de especialização acadêmica, e diferentes arcabouços
conceituais sustentam cada uma das suas áreas. A Geografia Econômica,
por exemplo, dedica-se à análise da espacialidade dos processos e estruturas
produtivas e à formulação das mais diversas teorias de localização. A
Geografia Histórica preocupa-se com a formação dos territórios e com a
história dos espaços e dos lugares, valendo-se de métodos investigativos
caros aos historiadores. A Geografia Cultural abrange temas como a
percepção do espaço na vida cotidiana e no universo cultural, além de estudar
a construção social de identidades baseadas em lugares. A Geografia Política
desvenda as complexas relações entre os Estados e os territórios e as
dimensões políticas dos fenômenos de configuração do espaço.
A bibliografia sugerida para essa Unidade oferece um panorama
dos muitos caminhos que vêm sendo percorridos pelos estudos geográficos,
e fornece instrumentais indispensáveis a compreensão das Unidades
subseqüentes.
3. Bibliografia
Bibliografia Básica
CASTRO, Iná Elias et alli. Geografia, Conceitos e Temas. Rio de Janeiro:
Bertrand, 1993.
GREGORY, Derek et alli. Geografia Humana. Sociedade, Espaço e Ciência
Social. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado. São Paulo: Hucitec/
Edusp, 1992.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA
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REGINA CÉLIA ARAÚJO
Bibliografia Complementar
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica. São
Paulo: Hucitec/Edusp, 1992.
MARTIM, André Roberto. Fronteiras e Nações. São Paulo: Contexto, 1992.
MORAES, Antônio Carlos R. Ideologias Geográficas. São Paulo: Hucitec,
1988.
______. A Gênese da Geografia Moderna. São Paulo: Hucitec/Edusp, 1989.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
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UNIDADE II
A FORMAÇÃO
TERRITORIAL DO BRASIL
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
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A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
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II. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
O espaço brasileiro é resultado de uma sucessão de tempos históricos.
O caráter litorâneo do povoamento e a monopolização do acesso à terra
remontam ao passado colonial. A economia cafeeira, ainda nos tempos da
República Velha, criou as condições necessárias à proliferação do fenômeno
urbano e à industrialização.
O crescimento industrial registrado após a década de 1930, por sua
vez, lançou as bases da integração econômica e geográfica do território e
gerou os “desequilíbrios” regionais. A consolidação de um pólo industrial
no Sudeste e de periferias industriais nas demais regiões redesenharam a
geografia do país.
Nas últimas décadas, a abertura econômica e o novo caráter de
inserção do Brasil nos circuitos globais de produção e consumo vêm
produzindo impactos profundos na dinâmica territorial brasileira e alterando
de forma substancial da divisão regional do trabalho no país.
Os momentos cruciais de produção e valorização do território
brasileiro, bem como os grandes eixos temáticos de análise do território
brasileiro, são problematizados nos textos que compõem essa Unidade.
1. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de
Ocupação do Território Brasileiro
Em sua gênese, o processo de formação territorial do Brasil está
associado à empresa colonizadora. As sucessivas ampliações da fronteira
produtiva da América Portuguesa, definindo focos de produção e consumo
dispersos pelo território, assim como o esforço da Coroa Portuguesa (e,
mais tarde, do Império Brasileiro) no sentido de assegurar a posse das bacias
hidrográficas e das rotas e caminhos considerados estratégicos, alimentaram
a conturbada história da ocupação do território e do traçado das atuais
fronteiras brasileiras.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
20
A implantação da empresa agrícola colonial na América Portuguesa
foi uma iniciativa inovadora e arrojada: no século XVI, nenhum produto
agrícola era objeto de comércio em grande escala na Europa. As transações
comerciais a longa distância eram restritas às mercadorias cujo valor pudesse
compensar os altos custos de transporte, tais como produtos manufaturados
e especiarias vindas do Oriente.
As ilhas atlânticas de colonização portuguesa foram o laboratório
da grande empresa agrícola que iria ter lugar na América Portuguesa. Nessas
ilhas – Madeira, São Tomé, Cabo Verde e Açores –, a monocultura canavieira
era praticada desde o século XV.
As primeiras mudas de cana foram trazidas ao Brasil por Martim
Afonso de Sousa, em 1531. Dois anos mais tarde, seria construído o primeiro
engenho de açúcar da colônia, na vila de São Vicente.
Em pouco tempo, a lavoura canavieira seria introduzida na Zona da
Mata nordestina. O clima quente e úmido da região bem como a topografia
suave e a presença de solos extremamente férteis (conhecidos como solos
de massapê) ofereciam condições ideais para o plantio da cana.
Na segunda metade do século XVI, a região nordeste da colônia –
em especial as capitanias da Bahia e de Pernambuco – havia se firmado
como o centro da empresa agrícola colonial. Vastos latifúndios canavieiros,
cultivados por mão-de-obra escrava e dotados de um engenho de produção
de açúcar, eram a unidade básica dessa empresa.
O açúcar produzido nos engenhos era transportado pelos rios ou em
carros de boi até os grandes portos exportadores: Recife e Salvador. Esses
centros urbanos funcionavam como elos de ligação entre as regiões
produtoras e os mercados consumidores de além-mar. Por isso, sediavam
as principais instituições administrativas e comerciais da colônia.
A empresa açucareira implantada pelos colonizadores no século XVI
ocupava somente uma estreita faixa costeira do imenso território luso-
americano. Porém, no século XVII, novas atividades econômicas foram
implantadas, e a fronteira produtiva do território colonial conheceu
sucessivos alargamentos.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
21
O sucesso comercial do açúcar nos mercados europeus estimulou o
aumento da área canavieira da Zona da Mata nordestina: no século XVII, as
terras de pasto dos engenhos se transformaram em canaviais. O gado foi
expulso das terras nobres da fachada litorânea e ganhou os sertões.
Partindo da Bahia e de Pernambuco (os dois maiores núcleos da
produção canavieira), a pecuária se expandiu na direção do Rio São
Francisco, que passou a ser conhecido como o “rio dos currais”, e do Rio
Parnaíba. Os índios que se opuseram a essa marcha colonizadora sobre o
sertão sofreram uma verdadeira guerra de extermínio.
No fim do século XVII, grandes fazendas de pecuária extensiva
dominavam a paisagem do sertão nordestino. Nelas, poucos homens livres
— negros libertos, índios e brancos pobres — eram suficientes para cuidar
do rebanho e transportá-lo para as feiras de gado da Zona da Mata. Nos
entroncamentos dos caminhos do rebanho, pontos de contato entre o sertão
pastoril e o litoral agrícola, surgiram inúmeros povoados, embriões das
cidades sertanejas do nordeste brasileiro.
Na Capitania de São Vicente, a prosperidade da empresa açucareira
vicentina durou muito pouco: já na segunda metade do século XVI, os sinais
de decadência eram evidentes. A estreiteza da fachada litorânea, comprimida
pela proximidade da Serra do Mar, e a predominância de solos rasos e
pantanosos desestimulavam a ampliação da agricultura canavieira na região.
As maiores distâncias em relação aos portos europeus encareciam os custos
de frete. O açúcar vicentino sucumbiu à concorrência do açúcar nordestino.
O fracasso da empresa agrícola exportadora produziu um verdadeiro
despovoamento do litoral vicentino. Os colonos paulistas galgaram a Serra
do Mar e se estabeleceram nas vilas fundadas no planalto.
São Paulo de Piratininga, fundada pelos jesuítas em 1554 e elevada
à categoria de vila seis anos depois, se tornou o maior núcleo de povoamento
da capitania ainda no século XVI. Um velho caminho indígena, o Caminho
do Mar, era a principal via de ligação entre o litoral e os campos de
Piratininga, que abrigavam a vila de São Paulo. Nos arredores da vila, os
colonos praticavam a policultura de subsistência, utilizando a mão-de-obra
dos índios escravizados.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
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O apresamento e escravização dos índios era o principal meio de
enriquecimento para os colonos da capitania. Os índios, além de serem
necessários na policultura de subsistência, eram uma mercadoria de fácil
transporte: podiam atravessar andando os difíceis caminhos do sertão e da
serra.
No século XVI, o apresamento dos índios permaneceu restrito aos
arredores dos campos de Piratininga. No século XVII, a desorganização do
tráfico negreiro, conseqüência das guerras holandesas, ampliou o mercado
de índios escravizados nas regiões produtoras de açúcar. As bandeiras de
apresamento ganharam o interior, aproveitando os cursos fluviais e abrindo
caminhos terrestres.
As reduções jesuíticas em território hispano-americano eram o
principal alvo do bandeirantismo de apresamento: nelas, os índios estavam
concentrados e domesticados. As freqüentes incursões às reduções
localizadas às margens do Rio Paranapanema (atual Estado do Paraná) foram
responsáveis pela transferência de muitos desses aldeamentos para a
província argentina de Missões, entre o alto curso do Rio Paraná e o alto
curso do Rio Uruguai.
Na segunda metade do século XVII, a principal finalidade das
expedições bandeirantes era a localização de jazidas de prata, ouro e pedras
preciosas. O empreendimento contava com o apoio da Coroa lusitana, que
contratou diversos sertanistas para organizar e comandar as bandeiras de
pesquisa.
A exportação de fumo assumiu importância nas receitas coloniais
portuguesas na metade do século XVII. Produzido principalmente no
Recôncavo Baiano e em Alagoas, o tabaco era exportado para mercados
europeus, além de servir de moeda de troca com os aparelhos negreiros da
costa africana.
Também no século XVII, intensificaram-se as expedições oficiais
pelo vale amazônico. Elas tiveram um sentido predominantemente
geopolítico: tratava-se de expulsar holandeses e ingleses, senhores de muitas
feitorias ao longo do curso dos rios, e impedir o contrabando de produtos
nativos tais como madeira e pescado.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
23
O Forte do Presépio de Belém, fundado em 1616, foi a ponta de
lança da estratégia colonizadora da Coroa Ibérica no grande norte. Situado
na foz do Rio Amazonas, esse núcleo de povoamento deveria centralizar a
exportação das mercadorias e sediar os órgãos do poder metropolitano sobre
a região. Plantas nativas, tais como o urucu, o cacau selvagem, o guaraná, a
castanha-do-pará, o gergelim, a salsaparrilha e o pau-cravo, eram as
principais mercadorias de exportação. Os aldeamentos indígenas controlados
pelas diversas ordens religiosas representadas na região amazônica
funcionavam como uma reserva de coletores dessas “drogas do sertão”. O
excedente alimentar das missões contribuía para o abastecimento de Belém
e das pequenas cidades que surgiam na região.
Após a Restauração, a Coroa lusitana intensificou a ocupação
militarizada da região. Uma rede de fortificações portuguesas foi construída
seguindo a calha central do Rio Amazonas.
Nas últimas décadas do século XVII, a confirmação da existência
de metais preciosos nas regiões planálticas de Minas Gerais, Mato Grosso
e Goiás promoveu um afluxo populacional sem precedentes na história
colonial, alargando substancialmente a faixa de ocupação do território luso-
brasileiro.
Os principais afloramentos auríferos e diamantinos estendiam-se
da Bacia do Rio Grande até as nascentes do Rio Jequitinhonha. Os mais
importantes núcleos urbanos das Minas Gerais floresceram nessa região:
Vila Rica de Ouro Preto, Mariana, Caeté, Sabará, Vila do Príncipe, Arraial
do Tijuco e outras. Em torno desses núcleos, apareceram zonas de
povoamento mais disperso, próximas às minas do Rio Verde, Itajubá, Minas
Novas e de Paracatu.
Todos os esforços produtivos da região mineradora estavam
concentrados na extração de metais e pedras preciosas. Os caminhos abertos
para a exportação desses produtos e para o abastecimento das Minas Gerais
transformaram a geografia do Centro-Sul colonial.
Desde o final do século XVII, as bandeiras paulistas rumo aos sertões
do Rio São Francisco seguiam dois caminhos principais, que ficaram
conhecidos respectivamente como Caminho Geral do Sertão e Caminho
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
24
Velho. O primeiro partia de São Paulo, rumando para Jundiaí, e seguia na
direção do Rio Grande. Transposto esse rio, buscava a Serra das Vertentes
e daí ganhava o São Francisco. O segundo, mais utilizado, seguia o curso
do Rio Paraíba do Sul, passando por Mogi das Cruzes, Laranjeiras, Jacareí,
Taubaté, Pindamonhangaba e Guaratinguetá, atravessava a Serra da
Mantiqueira na altura da passagem de Hepacaré (atual Lorena) e buscava o
sertão do Rio das Velhas. Em média, os caminhos paulistas demandavam
dois meses de viagem até a região mineira.
No início do século XVIII, tropas de mercadores ganharam os
caminhos bandeirantes. Os gêneros alimentares produzidos nos arredores
das vilas paulistas atingiam preços exorbitantes na região mineradora. Na
retaguarda da economia mineira, a agricultura paulista se expandiu
rapidamente. A criação de gado primeiro ganhou os campos de Paranaguá
e Curitiba, para logo depois atingir os distantes campos sulinos do Rio
Grande do Sul e do Uruguai, transformados em centros de criação de muares.
Centros urbanos importantes floresceram e prosperaram nos caminhos de
gado: Sorocaba (onde se realizavam as grandes feiras), Itapetininga, Faxina,
Pirapora, Cabreúva, Apiaí, Itararé, Avaré e outros.
A curva demográfica, alimentada pela constante imigração lusitana,
acompanhou esse surto produtivo: no início do século XVIII, a capitania
vicentina contava com 15.000 homens livres. Em 1777, os documentos
oficiais registram uma população livre de 116.975 habitantes.
Ainda na primeira década do século XVIII, a Coroa lusitana,
preocupada com o contrabando da produção aurífera, mandou construir um
caminho que ligasse a região mineradora e a cidade de São Sebastião do
Rio de Janeiro. O Caminho Novo tinha duas variantes: uma seguia até o
porto de Pilar e galgava a Serra do Mar; a outra contornava a Baixada
Fluminense e subia o Rio Santana. Ambas se encontravam perto da cidade
de Paraíba do Sul e daí seguiam na direção de Correias, Juiz de Fora,
Barbacena etc. Pelo Caminho Novo era possível atingir a região das Minas
Gerais em apenas dezessete dias.
A abertura do Caminho Novo canalizou para o Rio de Janeiro a
maior parte dos lucros do comércio com o hinterland mineiro. O porto do
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
25
Rio de Janeiro – transformado em boca das minas – se tornou o mais
importante porto da colônia em volume de comércio exterior, escoando a
maior parte da produção aurífera e diamantina e centralizando as importações
necessárias ao funcionamento da empresa mineira. Além disso, tornou-se
ponto de passagem obrigatória das levas de imigrantes portugueses atraídos
pelo ouro e dos lotes de mão-de-obra negra destinados ao trabalho nas minas.
A prosperidade econômica, tributária dessa relação privilegiada com os
mercados das Minas Gerais, iria transformar o Rio de Janeiro em sede
administrativa do Vice-Reino do Brasil no ano de 1763.
A pecuária do sertão nordestino também conheceu um período de
prosperidade no século XVIII: os currais do Rio São Francisco despejavam
boiadas inteiras na região das Minas Gerais. A topografia da região favorecia
a condução das boiadas até as zonas mineradoras. Além do gado, os
Caminhos Baianos sediavam um intenso – apesar de rigorosamente proibido
– comércio de negros, uma mercadoria muito mais valiosa nas Minas Gerais
do que nas tradicionais regiões açucareiras da Zona da Mata.
Na metade do século XVIII, os limites traçados no Tratado de
Tordesilhas estavam definitivamente ultrapassados: a assinatura do Tratado
de Madri, no ano de 1750, oficializou a incorporação de vastas possessões
espanholas ao território colonial português.
Textos Complementares
Os textos selecionados abordam aspectos da formação territorial do
Brasil e da definição dos limites territoriais do país. No primeiro, os
geógrafos Berta Becker e Claúdio Egler traçam em grandes linhas a ocupação
colonial do território, destacando as diferentes estratégias geopolíticas lusas
que asseguraram o rompimento da linha de Tordesilhas e culminaram no
Tratado de Madri. No segundo, o geógrafo Demétrio Magnoli, sustentando
a tese de que a fronteira nasce em uma etapa intermediária entre as definições
abstratas dos tratados e a sua efetiva demarcação, ressalta a importância da
geopolítica imperial na horogênese das fronteiras brasileiras.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
26
Texto 1 – O Período Colonial
A ocupação e o povoamento do território que constituiria o Brasil
não é senão um episódio do amplo processo de expansão marítima resultante
do desenvolvimento das empresas comerciais européias. Como decorrência
da busca de novas rotas para o Oriente pelos países ibéricos – a Espanha
através do Ocidente e Portugal contornando a África – o território que
constitui hoje o Brasil precedeu a criação da própria colônia. O Tratado de
Tordesilhas, firmado entre os dois países em 1494, dividia todo o mundo a
ser descoberto entre as coroas de Portugal e Espanha, e estabelecia que
todas as terras a leste do Meridiano de 50 graus oeste pertenceriam a Portugal.
Definia-se, assim, a priori, a colônia por um território correspondente
a apenas 40% da sua área atual e, ainda assim, imenso. A defesa do território
e sua expansão não decorreu de conquista militar. Foi um processo de posse
lento e complexo em que pesou a estratégia portuguesa, favorecida pela
luta pelo poder hegemônico entre holandeses, franceses e ingleses, e pela
união com a Espanha entre 1580 e 1640.
Empreendimento mercantil e defesa da costa atlântica
Inicialmente os portugueses comerciaram madeiras corantes – o pau-
brasil, por exemplo, que posteriormente daria o nome à nova colônia – e
peles com os índios em modestas feitorias ao longo do litoral.
A colonização do Brasil se apresentou aos monarcas portugueses a
posteriori, devido à pressão da Holanda, Grã-Bretanha e França sobre o
território, logo depois da perda para os holandeses da maioria dos postos
comerciais que Portugal tinha na Ásia e na África; ao contrário do que
acontecia nos territórios espanhóis, a população nativa era relativamente
escassa. Os portugueses não podiam, portanto, se basear no trabalho nativo,
e no início também não acharam metais. Foi então necessário organizar a
produção, e as plantations de cana-de-açúcar tornaram-se a base da economia
e defesa coloniais. Esse empreendimento, até então inédito, deveu-se à
experiência prévia de Portugal nas ilhas de São Tomé e Madeira, que
fomentou uma indústria de equipamentos para engenhos açucareiros, bem
como a organização comercial dos flamengos que controlavam um mercado
expressivo na Europa Continental.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
27
O Brasil colonial foi, assim, organizado como uma empresa
comercial resultante da aliança entre a burguesia mercantil (inclusive
holandesa) e a nobreza. No início da colonização a legislação relativa à
propriedade da terra estava baseada na política rural de Portugal. A terra
era vista como parte do patrimônio pessoal do rei, como domínio da Coroa,
e sua aquisição decorria de uma doação pessoal, segundo os méritos dos
pretendentes e os serviços por eles prestados à Coroa.
Uma estratégia de distribuição controlada da terra envolveu
empreendedores privados na colonização do território sem ônus para a Coroa,
assegurando a ocupação e o controle da fachada costeira oriental. Através
da divisão geométrica da costa atlântica em Capitanias Hereditárias (1530),
a colonização foi iniciada simultaneamente em vários pontos do território.
A terra foi doada a donatários com o objetivo de promover a agricultura,
sobretudo a da cana-de-açúcar. Eles tinham direitos soberanos e podiam
repartir as terras a moradores capazes de explorá-las (sesmarias). A divisão
respeitou a linha do Tratado de Tordesilhas, embora os limites entre as
capitanias fossem desconhecidos.
Colocou-se, então, o problema da mão-de-obra e do índio, foco de
uma política ambígua face ao conflito entre a postura da Coroa, de
cristianização dos índios para integrá-los no povoamento, e os interesses
dos colonos em escravizá-los. A Carta Régia de 1570 estabeleceu então
que os índios só podiam ser aprisionados por “guerra justa”, e face à
dificuldade de mão-de-obra recorreu-se ao tráfico de escravos africanos,
financiado em grande parte pelos holandeses.
Pelo fato de a terra não ser toda utilizada para fins comerciais, os
proprietários podiam manter um certo número de arrendatários e meeiros
que moravam nas áreas menos férteis de suas propriedades dedicando-se à
economia de subsistência e eventualmente trabalhando na plantation. Assim,
apesar de ser o lucro o motivo principal da economia, o controle sobre os
escravos e homens livres e sobre a terra era mais importante para definir o
status social do proletário do que a acumulação de riqueza
1
.
1
Ver Viotti da Costa, E. 1977. Da Monarquia a República: Momentos Decisivos. São Paulo: Grijaldo.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
28
O desenvolvimento de outros setores da economia não implicou a
modificação da política agrária e do trabalho, típica das áreas canavieiras.
Os pressupostos que guiaram essa política no século XVI sobreviveram até
o século XIX. Se essa estratégia não trouxe a prosperidade econômica
almejada, em contrapartida ela lançou as bases da estrutura econômica,
social e política da colônia, da ocupação efetiva do território contra ameaças
externas, e da interiorização do povoamento.
As plantations litorâneas eram as células fundamentais da estrutura
econômica e social da colônia. Daí partiu a expansão gradativa das fazendas
de gado pelo sertão para abastecer em couro e animais de trabalho as zonas
canavieiras. No litoral norte, o Rio Amazonas foi estratégico, por sua
extensão e ampla navegabilidade, até 2.000 km no interior em meio à floresta
equatorial. Durante a união das Coroas de Portugal e Espanha (1580-1640),
holandeses, franceses e ingleses trataram de ocupar militarmente esta área
(1580-1640). Para defender a Bacia Amazônica, as formas iniciais de
ocupação foram pequenos fortes, sendo o primeiro deles na foz do
Amazonas, em Belém (1616).
Para assegurar a ocupação a longo prazo, bem como a pacificação e
lealdade das tribos aborígenes contra os holandeses, ingleses e franceses,
os portugueses resolveram dividir a bacia entre ordens religiosas católicas.
Seguiram assim os jesuítas espanhóis, que já haviam estabelecido um
verdadeiro cordão estratégico ininterrupto de missões jesuíticas no coração
do continente, do Prata ao Alto Amazonas, no século XVI e primeira metade
do XVII
2
(...).
Expansão territorial para além de Tordesilhas
Após a separação das duas Coroas (1640), a colonização portuguesa
em pouco mais de um século invadiu áreas que pertenciam à Espanha e
ocupou o território que é hoje o Brasil. O rompimento da linha de Tordesilhas
tornou-se, para a metrópole, um objetivo, e não apenas uma conseqüência
da defesa do território.
2
Ver Prado Jr. C. 1945. Formação do Brasil Contemporânea. 2 ed. São Paulo: Brasiliense.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
29
A expulsão dos holandeses do nordeste, onde permaneceram de
1630-1654, levou à quebra do monopólio português na produção de cana-
de-açúcar, na medida em que os holandeses desenvolveram a lavoura nas
Antilhas. Arruinado e desfalcado nas suas colônias no Oriente e de sua
marinha, Portugal tornou-se potência secundária, largamente dependente
da Inglaterra que se afirmava no contexto internacional. O Brasil passou a
ser sua última possessão ultramarina valiosa, e a extensão e o controle
territorial da colônia tornaram-se decisivos para a recuperação econômica
e a afirmação do Estado português centralizado.
A ocupação da terra como base do direito sobre sua posse, isto é, o
direito de facto, foi a estratégia básica na apropriação do território para
além dos limites jurídicos do Tratado de Tordesilhas, sendo posteriormente
reconhecida como um princípio legal. Essa prática se fez sob várias formas,
sobretudo no interior e nas bacias do Amazonas e do Prata, estratégicas
pela navegação e por sua posição nos extremos da colônia.
O maior impulso para a expansão territorial decorreu sobretudo da
descoberta do ouro (1690) no planalto do Brasil Central. O ouro se tornou
a base econômica da colônia até meados do século XVIII, à medida que a
economia açucareira decaía face à concorrência das Antilhas. A descoberta
do ouro provocou um afluxo de imigrantes da metrópole, grande mobilidade
interna e um rush gigantesco em alguns decênios, cobrindo uma área imensa
no centro e oeste do atual território brasileiro (Minas Gerais, Goiás e Mato
Grosso). Caminhos de gado e tropas de mulas estabeleceram-se para
abastecer os primeiros centros mineradores, constituindo-se nos primeiros
eixos da integração interna da colônia.
Em conseqüência da mineração, deslocou-se o eixo econômico para
o centro-sul e com ele se transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro
(1763). Entretanto, o ciclo do ouro e diamantes, embora intenso, foi breve.
Esgotou-se no último quartel do século XVIII, inclusive pela pressão dos
impostos cobrados pela Coroa, que resultou no primeiro, mas fracassado,
movimento pela independência: a Inconfidência de Minas Gerais em 1792.
No vale do Amazonas, a Coroa estimulou a ação das missões que se
tornaram as maiores exportadoras das “drogas” (canela, cravo, salsaparrilha,
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
30
cacau nativo), além de produzirem alimentos para a subsistência e deterem
o monopólio sobre a mão-de-obra indígena. Fortes e missionários penetraram
profundamente no território amazônico assegurando a futura soberania de
Portugal numa área imensa, ainda que com fraca base econômica e
esparsamente povoada.
No extremo sul, em fins do século XVII, um grande vácuo de poder
existia entre os espanhóis sediados em Buenos Aires, na embocadura do
Rio da Prata, e a ocupação portuguesa que se estendia até o paralelo de
26ºS. A estratégia lusa teve dupla face. A face agressiva, correspondente à
implantação de uma guarnição militar na margem norte do Rio da Prata,
bem defronte do porto de Buenos Aires, criando a Colônia do Sacramento,
em 1689, que foi causa de mais de um século de guerra. Tratava-se de
interesses sobretudo ingleses com vistas ao controle do comércio de prata,
couro e gado na Bacia do Prata. A face pacífica correspondeu à colonização
dirigida pela metrópole que transferiu excedentes populacionais pobres dos
Açores, instalando cerca de 4.000 casais em torno de Porto Alegre e em
Santa Catarina (1747). Após a paz (1777), a terra foi distribuída em larga
escala a militares e cavaleiros no atual Rio Grande do Sul como forma de
consolidar a posse portuguesa dando origem a grandes latifúndios pastoris:
as instâncias. Firmou-se, assim, simultaneamente, a soberania portuguesa e
a base econômica da região que, já em 1780, exportava charque para o Rio
de Janeiro e para Havana.
O rápido movimento da mineração e a lenta expansão das fazendas
e dos caminhos de gado, e a posse de facto ao longo das bacias consolidaram
e expandiram a ocupação do território muito além dos limites de jure fixados
pelo Tratado de Tordesilhas. A geopolítica da metrópole mostrou-se, assim,
acertada. Em 1750, o Tratado de Madri estabelecendo pela primeira vez as
linhas divisórias entre os domínios de Portugal e Espanha, adotando como
critério o utis possidetis, isto é, o reconhecimento do direito de posse a
partir do efetivo povoamento e exploração da terra. Legitimou-se, assim, a
apropriação do território cujos limites permanecem grosseiramente os
mesmos de hoje.
[BECKER, Bertha K. e EGLER, Claudio A. G. Brasil uma nova potência
regional na economia mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994,
p. 40-46.]
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
31
Texto 2 – Horogênese e Origem das Fronteiras Nacionais
Qual é a origem das fronteiras brasileiras? (...) o discurso nacional
virtualmente rejeita essa indagação, isentando o corpo da pátria de qualquer
condicionamento histórico e fazendo-o emanar da natureza. Esta noção,
não importa o quão absurda pareça quando assim posta, encontra-se
profundamente enraizada no imaginário geográfico nacional. Ela se
manifesta em obras acadêmicas, livros de divulgação histórica e geográfica
e nos atlas escolares. Recentemente – e este não é um caso singular, mas a
expressão de uma prática – compareceu nos pressupostos implícitos de uma
questão do prestigiado exame vestibular da Universidade de Campinas
1
.
Abordando as etapas teóricas de produção da fronteira, Raffestin
assinala a distinção entre três momentos:
O mapa é o instrumento ideal para definir, delimitar e
demarcar a fronteira. A passagem de uma etapa à outra se traduz
por um acréscimo de informação, mas também por um custo de
energia. No fundo, trata-se da passagem de uma representação
“vaga” para uma representação “clara”, inscrita no território.
A linha fronteiriça só é de fato estabelecida quando a demarcação
se processa. “De fato estabelecida” significa não estar mais sujeita
à contestação por parte de um dos Estados que tivessem essa
fronteira em comum. Pela demarcação, elimina-se não um conflito
geral, mas um conflito do qual a fronteira pudesse ser o pretexto.
[RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática,
1993, p. 167.]
A demarcação da fronteira sobre o terreno, etapa final do processo,
confere uma materialidade sensível à linha divisória. Esta tarefa, que
1
Trata-se da questão n.º 2 da 1ª Fase da primeira prova de 1995-1996, que exibia dois mapas
temáticos de ocupação do território do Brasil colonial, referentes aos séculos XVI e XVII. Esses
mapas apresentavam, além da linha do Meridiano de Tordesilhas, a linha das fronteiras atuais do
Brasil. O traçado das fronteiras atuais não continha qualquer indício que pudesse distingui-lo daquele
do Meridiano, produzindo a sensação da convivência de dois limites distintos no mesmo tempo
histórico. O mais notável é que a questão enfocava precisamente o processo de ocupação do espaço
geográfico: a ideologia subjacente faz crer que as manchas de povoamento a ocidente de Tordesilhas
buscavam já, no século XVII, alcançar o perímetro da pátria preexistente.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
32
continuou a demandar o trabalho de comissões de demarcadores brasileiros
por nove décadas depois do estabelecimento do último importante tratado
de limites, já não concerne à origem das fronteiras. No outro extremo, a
mera definição abstrata de um traçado – como no caso de Tordesilhas, ou
em grande parte das decisões do Tratado de Madri de 1750 – não gera uma
fronteira, pois freqüentemente opera pela intuição, na ignorância da
localização verdadeira dos acidentes geográficos mencionados.
2
A linha
de fronteira nasce na etapa intermediária, a da delimitação, que consiste
num ato de apreensão intelectual do espaço geográfico em questão,
possibilitado pelo acúmulo de um vasto conjunto de informações e refletido
nos documentos cartográficos sobre os quais é traçada a linha divisória.
Se é verdade, como quer Raffestin, que apenas a colocação de marcos
sobre o terreno suprime a possibilidade de conflitos que tomam o traçado
divisório como pretexto, o verdadeiro debate entre os Estados relativo às
fronteiras se processa na etapa anterior, quando são elaborados os tratados
de limites
3
.
O invólucro fronteiriço do Brasil estende-se por 23.086 km, que
estão subdivididos numa secção marítima de 7.367 km, e numa terrestre de
15.719 km. A secção marítima, definida em razão da fachada oceânica do
Atlântico, ainda que, por razões óbvias, tenha constituído uma linha de
fronteira dos territórios portugueses na América, só foi plenamente
incorporada como limite da projeção oriental brasileira após a extinção do
tráfico negreiro e a conseqüente supressão dos múltiplos liames entre o
Império e a África ocidental. A secção terrestre se decompõe em dez díades
2
O Meridiano de Tordesilhas não foi delimitado, e nem poderia ser, nos termos vagos do tratado e na
base dos conhecimentos da época. Tentativas de delimitação foram feitas pelos mapas do catalão
Jaime Ferrer (1495), de Cantino (1502), de Enciso (1518), dos peritos de Badajós (1524), de Diogo
Ribeiro (1529) e de Oviedo (1545), com traçados bastante distantes entre si. Apenas muito mais
tarde, no século XVIII, através dos padres Diogo Soares e Domingos Capassi, a arte cartográfica
conseguiria fixar com razoável precisão as longitudes e determinar o traçado aproximado da linha
divisória.
3
Há um problema suplementar na formulação de Raffestin. Ao insistir exclusivamente na temática
da quantidade de informação presente em cada etapa, acaba sendo obscurecida a diferença de
qualidade entre elas (a menos que, num jogo de palavras pretensamente profundo, se invoque a
transubstanciação da quantidade em qualidade...). Historicamente, a demarcação de fronteiras
pertence, como regra, ao domínio dos séculos XIX e XX, e reflete um grau de controle sobre o
espaço de que só dispõem os Estados contemporâneos. A delimitação, como vimos, constitui processo
característico de uma fase anterior, de transição, quando se forjam os Estados nacionais.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
33
– do termo dyade, cunhado por M. Foucher
4
para designar “uma fronteira
comum a dos Estados contíguos” – de extensões muito diversas.
5
Um exame da configuração histórica das díades fronteiriças
brasileiras revela, quanto às condições de origem, o papel significativo,
embora longe de predominante, desempenhado pelas guerras. Quanto ao
momento da sua delimitação, o exame derruba facilmente o mito da
antigüidade das linhas limítrofes do país: o Império é o grande período de
horogênese – para empregar outro termo cunhado por Foucher
6
.
Evidentemente, a classificação da horogênese implica uma dose razoável
de subjetivismo, pois cada díade ou segmento condensa uma história
complexa que envolve, às vezes, sucessivos tratados contraditórios, novos
litígios, episódios de conflito militar ou arbitragem. Tomou-se por base
classificatória o momento da delimitação estrutural de uma linha de fronteira,
que pode ser eventualmente anterior ao tratado definitivo mas que o
condicionou decisivamente.
O Império delimitou 7.948 km de fronteiras, ou pouco mais que a
metade da secção terrestre do invólucro total. O período colonial, tido e
havido como momento por excelência da configuração dos limites, é
responsável efetivamente por apenas 2.709 km, ou cerca de 17% da secção
terrestre. A “era de Rio Branco”, classificada aqui como período nacional,
respondeu por quase o dobro: 5.062 km, ou 32% (...).
Não deixa de ser interessante sublinhar um contraste: perto de 30%
da extensão dos limites de horogênese imperial originaram-se de guerras,
enquanto mais de metade da extensão dos limites de horogênese nacional
originaram-se de arbitramento. Isso justifica, até certo ponto, as percepções
hispano-americanas relativas à agressividade expansionista imperial, ainda
que a caracterização não seja historicamente apropriada. Ao mesmo tempo,
4
Foucher, Michel. Fronts et Frontères, Fayard, Paris, 1991, pg. 15.
5
No seu sentido filosófico, em francês, dyade designa a reunião de dois princípios que se completam
e antagonizam reciprocamente. Em Biologia, o termo se aplica a um par de cromossomos, um
masculino e outro feminino. Em português, díade remete também ao grupo de dois, caracterizado
pela complementaridade e antagonismo.
6
Op. Cit, pg. 49. O termo foi cunhado a partir da raiz grega horoi – da qual se originou “horizonte”
em línguas latinas –, que servia para designar os limites políticos do território da cidade.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
34
fica evidenciada a “divisão do trabalho” entre o Império, que traçou a maior
parte da extensão de fronteiras platinas, e a “era de Rio Branco”, que
concentrou a sua obra de limites predominantemente na área amazônica.
[MAGNOLI, Demétrio. O corpo da pátria: imaginação geográfica e
política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: Moderna/Edusp, 1997,
p. 239-243.]
2. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil
Nas primeiras décadas do século XX, a economia brasileira
encontrava-se fragmentada regionalmente. “Ilhas” econômicas voltadas para
o mercado externo desenvolviam-se no Sudeste, no Nordeste e na Amazônia.
As ligações internas desse “arquipélago exportador” eram frágeis: os
mercados regionais tinham importância muito maior que o embrionário
mercado nacional. A territorialidade colonial sobreviveu à independência
1
.
No Sudeste, o complexo cafeeiro exportador era o núcleo do principal
mercado regional do país. Nas primeiras décadas do século XX, o café já
tinha deixado a fase escravista e ingressado na fase capitalista, promovendo
um desenvolvimento sem precedentes da infra-estrutura de transportes e
urbanização
2
. O complexo cafeeiro gerava economias complementares na
1
A expressão “arquipélago econômico” foi utilizada por Lea Goldestein e Manuel Seabra para
caraterizar o período agrário-exportador da economia brasileira. Segundo eles, nesse período “não
existia, de fato, uma divisão regional interna do trabalho em dimensão nacional. As diversas regiões
se ligavam diretamente a centros do capitalismo mundial. Tinham em comum a valorização do setor
externo, realizando um ‘crescimento para fora’.” In: Lea Goldesntein e Manuel Seabra, “Divisão
Territorial do Brasil e Nova Regionalização”, Revista do Departamento de Geografia (1), São Paulo,
FFLCH-USP, 1982.
2
O geógrafo Demétrio Magnoli atribui a dinâmica urbanizadora característica do complexo cafeeiro
paulista à existência de um circuito local de reprodução do capital, que se desenvolveria à sombra
do circuito internacionalizado: “O circuito cafeeiro local – a sua magnitude e o seu desenvolvimento
– está em função das características do mercado local gerado pela crescente diferenciação interna da
sociedade cafeeira e pela monetização de parte dos rendimentos dos trabalhadores rurais. Contudo,
a existência desse circuito local dinamiza novas relações sociais, originadas pelo efeito multiplicador
da constituição de atividades urbanas comerciais, industriais e de serviços. Assim, a pequena cidade
cafeeira não apenas responde a necessidades objetivas do complexo capitalista (sendo, por isso, um
elemento constitutivo desse complexo) como responde ainda às necessidades próprias da vida urbana”.
IN: Demétrio Magnoli, Agroindústria e Urbanização: o Caso de Guariba, Dissertação de Mestrado,
Departamento de Geografia da USP, 1990, pg. 13-19.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
35
sua periferia. As áreas não-cafeeiras de Minas Gerais, as áreas coloniais do
Sul e as áreas de pecuária do Centro-Oeste ligavam-se cada vez mais ao
território cafeeiro paulista.
No Sul, a imigração alemã, italiana e eslava tinha promovido o
aparecimento de importantes centros agrícolas no Vale do Itajaí, nos
arredores de Curitiba e na região serrana gaúcha. Essas áreas aumentavam
as suas exportações agrícolas para São Paulo. Em Minas Gerais, as
decadentes regiões mineradoras tinham regredido para a pequena produção
agrícola. Além de alimentos, essas áreas forneciam mão-de-obra para a
economia paulista. Nos cerrados do Centro-Oeste, uma pecuária ultra-
extensiva sustentava o povoamento rarefeito e já fornecia carne bovina para
o pólo cafeeiro.
O Nordeste constituía outro pólo exportador, organizado em torno
da cana e do algodão. A produção canavieira, após uma prolongada
decadência, vivia um surto de prosperidade ligado às transformações
tecnológicas que culminaram com a substituição do engenho pela usina.
A produção algodoeira, ao contrário, tinha conhecido sua época de ouro
algumas décadas antes, em função da desorganização das exportações
americanas provocadas pela Guerra de Secessão. A volta do algodão
americano aos mercados internacionais atingira a produção nordestina,
ocasionando grande depressão.
A Amazônia sediava o pólo exportador de borracha, cuja importância
se restringiu ao período 1870-1920. As grandes exportações de borracha
natural para a Europa e os Estados Unidos tinham atraído levas de migrantes
nordestinos para a Amazônia Ocidental. O sistema de produção, baseado
no controle das matas e dos seringais pelas companhias exportadoras,
impediu qualquer acumulação interna da riqueza gerada pelas exportações.
Ao contrário do ciclo cafeeiro, o surto da borracha não criou as bases para
o desenvolvimento regional e sequer dinamizou um importante mercado
regional.
A industrialização acelerada dos anos 1930-1960 rompeu o
isolamento dos mercados regionais, criando um mercado interno nacional.
Os manufaturados do Sudeste, produzidos com tecnologia superior e em
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
36
escala industrial, invadiram todo o país. A competição desigual com as
mercadorias fabricadas nas outras regiões resultou na forte concentração
de capitais e infra-estrutura no Sudeste. O processo de unificação econômica
do espaço brasileiro teve como contrapartida a emergência de uma divisão
territorial do trabalho, que fundamentou a ótica dos “desequilíbrios
regionais”. Este contexto ilumina a criação do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), em 1934, e o forte impacto que a “questão
regional” iria ter daí em diante na vida política e na geografia do país:
(...) Torna-se difícil desvincular a definição oficial das
“grandes regiões” do Brasil de 1945, e de suas subdivisões, do
novo papel que o Estado assumia na vida do país. Queremos com
isso dizer que a origem dessa problemática regional, a de decompor
o território nacional em blocos regionais oficiais, está vinculada
às novas realidades nacionais, que se acentuaram com a década de
30, determinadas, em última instância, pela expansão do capitalismo
industrial no Brasil. Por um lado, a expansão do capitalismo no
Brasil implicou a crescente integração da economia e do território
nacionais, e a conseqüente dissolução das “economias regionais”,
ou seja, das “regiões econômico-sociais” vinculadas ao período
primário exportador da economia brasileira dominante até fins do
século XIX. Essa integração se deu a partir do desenvolvimento de
certas áreas industriais, cujo dinamismo gerou uma redivisão
territorial do trabalho, com base na internalização de nossa
economia e, consequentemente, na elaboração de um mercado
interno unificado. O “esfacelamento” da estrutura espacial em
“arquipélago” significou, em outras palavras, não só o fim de uma
fase em que a economia nacional era constituída por várias
economias regionais, mas também o “desaparecimento” das regiões
enquanto regiões “econômico-sociais”.
Por outro lado, a expansão do capitalismo no Brasil implicou
o centralismo político-administrativo que se processou no nível do
governo federal, no crescente papel do Estado na dinâmica da
economia nacional, e o conseqüente enfraquecimento dos poderes
locais e/ou regionais representados, por exemplo, através da
“política dos governadores” ou das oligarquias nacionais. (...) Foi
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
37
através desse crescente papel do Estado, cujos interesses se
confundiam muitas vezes com os da burguesia industrial, que foram
sendo criadas condições para uma crescente integração econômica
do espaço nacional. Foi o caso da (...) remoção da barreira
alfandegária que existia até então entre os estados que não mais
poderiam cobrar impostos estaduais sobre mercadorias provenientes
de outras unidades da federação, o que facilitou o incremento do
comércio regional. Os poderes dos estados foram ainda mais
restringidos, em favor do poder central, com a perda dos direitos
que eles tinham de legislar sobre o comércio exterior. Outro exemplo
do papel do Estado na integração econômica do espaço nacional:
os grandes investimentos por ele feito em obras de infra-estrutura
de alcance nacional, tais como nos transportes, facilitando e
possibilitando a integração acima referida que se deu a partir da
“região” hegemônica industrial do Sudeste. [PERIDES, Pedro
Paulo. “A Divisão Regional do Brasil de 1945 – Realidade e
Método”. In: Revista Orientação, Departamento de Geografia – USP,
n.9, 1992.]
O IBGE apresentou a primeira regionalização oficial do território
brasileiro em 1946. A partir do conceito de região natural, emprestado da
geografia regional francesa, seis grandes macrorregiões foram identificadas
através do estudo das influências recíprocas entre os diferentes fatores
naturais, principalmente clima, vegetação e relevo. As bases naturais do
território, consideradas mais estáveis e permanentes, fundamentaram essa
primeira regionalização.
3
Em 1969, o governo brasileiro tornou pública uma outra proposta
de regionalização, também saída dos quadros do IBGE. Desta vez, as regiões
eram definidas segundo uma combinação de características físicas,
3
“As regiões naturais constituem a melhor base para uma divisão regional prática, sobretudo para
fins estatísticos e especialmente para uma divisão permanente que permita a comparação de dados
de diferentes épocas. As regiões humanas, particularmente as econômicas, pela sua instabilidade,
não fornecem base conveniente para tal comparação no tempo; constituem, porém, uma boa divisão
para estudo do país numa dada época, quando mais importar a comparação no espaço, de umas
partes com as outras. No caso de uma divisão para fins didáticos deve ser sempre considerada como
básica a divisão em regiões naturais”. Fábio M.S. Guimarães, “Divisão Regional do Brasil”. In:
Revista Brasileira de Geografia – IBGE. Abril-Junho de 1941.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
38
demográficas e econômicas. As regiões homogêneas foram delimitadas a
partir de estudos setoriais envolvendo os domínios ecológicos, o
comportamento demográfico, a estrutura industrial, a agricultura, a rede de
transportes e de fluxos. O resultado desses estudos foi a divisão do Brasil
em 360 microrregiões homogêneas, agrupadas em cinco grandes unidades
macrorregionais. Assim como na Divisão Regional de 1946, os limites
interestaduais foram considerados no traçado das Grandes Regiões.
Na Divisão Regional do Brasil de 1969, os estados da Bahia e de
Sergipe foram incluídos na Região Nordeste. A Região Sudeste foi criada
em substituição à antiga Região Leste; São Paulo, antes pertencente à Região
Sul, passou a integrar a Região Sudeste.
Essas modificações foram justificadas com base no processo de
industrialização e de crescimento econômico do país. A concentração da
indústria nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais serviu de
base à delimitação de uma região “central” do ponto de vista da economia.
O núcleo triangular São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte surgia como
ímã dessa região “central”. Juntos, os três estados detinham 80,3% do valor
da transformação industrial do país e 70,1% dos empregos do setor. Por
outro lado, a nova Região Nordeste despontava como região-problema,
marcada pela pobreza e pela repulsão demográfica.
O critério de regionalização oficializado pelo governo militar em
1969 considera as atividades econômicas como fundamentais na diferenciação
dos espaços: são elas que vão determinar as políticas de investimentos
públicos e de valorização de áreas consideradas “deprimidas”. Influenciada
pela new geography norte-americana, a tecnoburocracia ligada ao regime
militar acreditava que o estudo estatístico integrado dos fenômenos naturais
e sócioeconômicos forneceria subsídios à ação planejadora do Estado.
A Divisão Regional proposta em 1969 ainda hoje é utilizada como
base estatística e para fins didáticos, com apenas uma modificação: o Estado
do Tocantins, criado pela Constituição de 1988, passou a fazer parte da
Região Norte.
Nas últimas décadas, uma outra proposta de regionalização,
elaborada pelo geógrafo Pedro Pinchas Geiger em 1967, vem ganhando
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
39
espaço nas publicações geográficas e na imprensa em geral. Trata-se da
divisão do país em três grandes complexos regionais, individualizados
segundo critérios geoeconômicos. Essa delimitação não leva em conta as
fronteiras entre os estados: o norte semi-árido de Minas Gerais, por exemplo,
integra o Complexo Regional Nordestino; metade do território do Maranhão
integra o Complexo Amazônico, a outra metade pertence ao Complexo
Nordestino.
O Centro-Sul se destaca como o centro econômico do Brasil,
concentrando 70% da população nacional e a maior parte da produção
industrial e agropecuária do país. O Nordeste se individualiza pela
estagnação econômica, pela repulsão populacional e pela disseminação da
pobreza, expressa nos altos índices de mortalidade infantil, subnutrição e
analfabetismo. O Complexo Amazônico se caracteriza pela presença da
floresta equatorial, pelas baixas densidades populacionais e ainda pelo
altamente predatório processo de ocupação recente, ligado aos grandes
projetos agropecuários e minerais.
Região e Políticas Públicas
A Sudene, criada em 1959, foi o primeiro organismo permanente de
planejamento regional brasileiro. Sua área de atuação ultrapassa os limites
da Região Nordeste, incluindo a região semi-árida do norte de Minas Gerais.
O Nordeste da Sudene, região de planejamento, é diferente do Nordeste do
IBGE, base territorial para levantamentos estatísticos.
A estratégia de planejamento regional se intensificou na segunda
metade da década de 60. Em 1966, foi a vez da Superintendência para o
Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). A criação da SUDAM definiu
uma nova região de planejamento, a Amazônia Legal, que atualmente
engloba os estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá, Mato
Grosso, Tocantins e Roraima, além do oeste do Estado do Maranhão. O
incentivo a grandes projetos agropecuários, principalmente no oeste do Mato
Grosso e ao longo da calha do Rio Amazonas, integrou as estratégias da
SUDAM para o desenvolvimento da região. No ano seguinte, foi a vez da
Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e da
Superintendência para o Desenvolvimento do Sul (Sudesul). Essa estratégia
revela a forte centralização do poder político característica desse período, já
que todos esses órgãos de planejamento são subordinados ao governo federal.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
40
1
SUDAM/PNUD – 1990. Avaliação da política de investimentos do FINAM, Belém, mimeo.
Textos Complementares
Os textos selecionados foram extraídos dos ensaios que integram a
obra Desigualdades regionais e desenvolvimento, originada das pesquisas
desenvolvidas na Fundação de Desenvolvimento Administrativo (Fundap)
sobre o Federalismo no Brasil. Eles iluminam aspectos importantes da
problemática das regiões e da divisão regional do trabalho no Brasil
contemporâneo. O primeiro deles, de autoria dos pesquisadores Sergio C.
Buarque, Antéro Duarte Lopes e Teresa Cativo Rosa apresenta uma
caracterização da Região Norte, definida enquanto uma das últimas fronteiras
de recursos do mundo. No segundo, Tânia Bacelar de Araújo assinala a
complexidade e a heterogeneidade que caracterizam o nordeste brasileiro.
Finalmente, Osmil Galindo e Valdeci Monteiro dos Santos investigam os
diferentes aspectos da expansão da fronteira agrícola na Região Centro-Oeste.
Texto 1 – Caracterização da Região Norte
A região Norte caracteriza-se por um macroespaço de 3,9 milhões
de km
2
, predominantemente dominado pela floresta tropical úmida e pelo
complexo hidrológico da bacia do rio Solimões-Amazonas. Essa unidade
socioeconômica e ambiental, de uma perspectiva agregada, esconde uma
grande diversidade interna, formada por vários ecossistemas naturais com
características distintas e condições específicas para a presença humana e a
atividade econômica. Na realidade, ao contrário dos estereótipos difundidos
sobre a região, a diversidade – ambiental, socioeconômica, tecnológica e
cultural – é a principal característica desse amplo espaço regional brasileiro.
Dominada em grande parte (84%) por floresta densa de mata alta,
a região registra vastas extensões de mata de cipó, mata aberta de
bambu, matas serranas e mata seca, além de florestas de várzea, igapó e
manguezais. Possui ainda áreas de savana, campinas e cerca de 700 mil
km
2
de cerrado. No geral, esses ecossistemas têm em comum, além da
diversidade e extensão territorial, a fragilidade e a delicadeza de seu
equilíbrio. “No ambiente terrestre – afirma a SUDAM/PNUD
1
– o ciclo de
nutrientes é essencialmente baseado na cadeia trófica com pequena
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
41
participação do substrato inorgânico, fazendo com que a modificação da
cobertura vegetal possa ser, portanto, desastrosa: e o ambiente aquático,
essencialmente lótico, embora com as águas correndo em baixas velocidades,
se modificado pela implantação de barramentos artificiais, pode também
sofrer irremediáveis degradações.”
Como espaço geográfico de caráter político-administrativo, a região
Norte engloba sete estados da Federação: Pará, Amapá, Amazonas, Roraima,
Rondônia, Acre e Tocantins.
2
Constitui a região de maior extensão territorial
do Brasil, equivalente a mais de 45% do total nacional.
A região Norte concentra uma das maiores reservas de recursos
naturais do planeta, representada especialmente pela grande riqueza florestal,
pela massa de ecossistemas aquáticos e pela biodiversidade. Concentra cerca
de um terço das florestas tropicais úmidas da Terra, calculado em mais de
300 milhões de hectares de floresta densa e mais de 100 milhões de hectares
de floresta aberta, o que abriga um total de madeiras comercializáveis da
ordem de 45 bilhões de m
3
de madeira em pé (SUDAM/SDR
3
). Com uma
bacia hidrográfica de quase seis milhões km
2
, reúne um grande potencial
hidrelétrico e de recursos pesqueiros, além de vastas áreas de várzea, com
potencial agrícola ainda inexplorado. Além disso, tem grandes reservas de
minérios tradicionais (ferro, bauxita, ouro e cassiterita) e de minérios com
novas aplicações tecnológicas (nióbio, manganês, titânio) (SUDAM/SDR).
Entretanto, a mais importante riqueza da região Norte neste final de
século, dominado pela revolução científica e tecnológica, reside na
diversidade dos seus ecossistemas, representada pelo material biológico de
espécies vegetais, animais e microorganismos (plantas medicinais,
aromáticas, alimentícias, toxinas, tanantes, oleaginosas, fibrosas, fungos,
bactérias etc.). Essas espécies tornam a região uma grande usina de vida: o
maior banco genético do planeta, contendo provavelmente cerca de 30%
2
Essa delimitação espacial não corresponde à regionalização utilizada no processo de planejamento,
que utiliza o conceito de Amazônia Legal, à qual correspondem as instituições de planejamento e
instrumentos fiscais-financeiros regionais. A Amazônia Legal acrescenta, aos sete estados referidos,
parte do Estado do Maranhão, correspondente à Pré-Amazônia maranhense, o Estado do Mato Grosso,
em grande parte dominado pela Hiléia, e o recém-criado Estado do Tocantins (incluído, antes de
1988, como parte do Estado de Goiás).
3
SUDAM/SDR – 1992. Sustainable development of the Amazon – development strategy and
investiment alternatives, Belém.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
42
do estoque genético mundial. É uma valiosa biblioteca viva para pesquisa
no terreno da genética e microbiologia e para o desenvolvimento da
biotecnologia
4
.
A grande concentração de riquezas em recursos naturais torna a
região Norte uma das últimas fronteiras de recursos do mundo e,
especialmente, do Brasil. Com o esgotamento de fontes internacionais e a
implantação de vias de penetração econômica, a região Norte ganhou
destaque nas últimas décadas e se transformou numa região de fronteira.
Essa característica vai determinar e explicar as frentes de ocupação e as
diversas iniciativas políticas orientadas para a integração da região Norte
na expansão econômica e modernização brasileira.
Por outro lado, sua amplitude, localização e acumulação de
biodiversidade tornam a região Norte uma base de interesses e disputas
geopolíticas. Constituindo um complexo ecológico transnacional integral e
articulado pela continuidade e contigüidade da floresta, juntamente com
seu amplo sistema fluvial, a região Norte une vários subsistemas ecológicos
da América Latina. A dimensão territorial da Amazônia brasileira lhe confere
um estatuto de quase-continente, com a floresta amazônica compondo um
grande maciço natural concentrado no território brasileiro (SUDAM/MIR)
5
.
A ampliação recente da consciência internacional dos problemas
globais de conservação ambiental realimenta o debate e os interesses sobre
as florestas tropicais úmidas, de modo que a região Norte (Amazônia, num
sentido mais amplo) volta a ser objeto de pressões e disputas geopolíticas,
que giram em torno das formas de apropriação de sua riqueza – especialmente
a biodiversidade – e da sua posição no controle das condições climáticas.
Todos esses fatores devem ter importante peso na definição de políticas e
iniciativas voltadas à região Norte, à sua ocupação econômica, à utilização
de suas riquezas e ao controle político, econômico e estratégico da fronteira
norte do Brasil.
[BUARQUE, Sergio C.; DUARTE, Antéro Lopes e ROSA, Teresa Cativo.
“Integração Fragmentada e Crescimento da Fronteira Norte”. In: AFFONSO,
4
Ver Becker, Bertha K. – 1989. Estudo geopolítico contemporanêo da Amazônia, SUDAM/BASA/
SUFRAMA/PNUD Macrocenários da Amazônia, mimeo.
5
SUDAM/MIR – 1993. Plano de desenvolvimento da Amazônia: 1994/97. Belém, mimeo.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
43
Rui de Britto Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.). Desigualdades
regionais e desenvolvimento. São Paulo: FUNDAP/UNESP, 1995,
p. 94-96.]
Texto 2 – Heterogeneidade Econômica Intra-regional
Nas últimas décadas, mudanças importantes remodelaram a realidade
econômica nordestina, questionando inclusive visões tradicionalmente
consagradas sobre a região. Nordeste região problema, Nordeste da seca
e da miséria. Nordeste sempre ávido por verbas públicas, verdadeiro
“poço sem fundo” em que as tradicionais políticas compensatórias, de
caráter assistencialista, só contribuem para consolidar velhas estruturas
socioeconômicas e políticas, perpetuadoras da miséria. Essas são apenas
visões parciais sobre a região nos dias presentes. Revelam parte da verdade
sobre a realidade econômica e social nordestina, mas não apreendem os
fatos novos dos anos mais recentes. Não revelam a atual e crescente
complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar
uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande
diversidade, a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas.
Embora traços gerais possam ser identificados, a percepção da
realidade econômica nordestina exige uma análise mais detalhada. Nesse
sentido, é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional
que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris
da região: uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos
diversos estados nordestinos e, mesmo, seu diferenciado desenvolvimento
urbano e até as especificidades de suas economias metropolitanas. É o que
se tentará nesta parte do trabalho.
Áreas de modernização intensa
Nos anos recentes, movimentos importantes da economia brasileira
tiveram repercussões fortes na região Nordeste. Tendências da acumulação
privada reforçadas pela ação estatal, quando não comandadas pelo Estado
brasileiro, fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços
dotados de estruturas econômicas modernas e ativas, focos de dinamismo
em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
44
apresentado pelas atividades econômicas na região. Tais estruturas são
tratadas na literatura especializada ora como “frentes de expansão”, ora
como “pólos dinâmicos”, ora como “manchas ou focos” de dinamismo e
até como “enclaves”. Dentre eles, cabe destaque para o complexo
petroquímico de Camaçari, o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza, o
complexo minero-metalúrgico de Carajás, no que se refere a atividades
industriais, além do pólo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro (com base na
agricultura irrigada do sub-médio São Francisco), das áreas de moderna
agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos, mais
recentemente, ao sul dos Estados do Maranhão e Piauí), do moderno pólo
de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do
Vale do Açu), do pólo de pecuária intensiva do agreste de Pernambuco, e
dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas
do Nordeste.
Pesquisa recente dos professores Policarpo Lima e Fred Katz, da
Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, tentou identificar melhor
essas áreas, caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas
perspectivas de expansão
1
. Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de
desenvolverem modernas atividades de base tecnológica, merecem
referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e Recife (PE).
O pólo petroquímico de Camaçari, como mostram Lima e Katz
constitui-se num dos principais pilares da crescente importância da produção
de bens intermediários no Nordeste. Implementado ao longo dos anos 70,
importou num investimento total de cerca de US$ 4,5 bilhões e com o
programa de ampliação previsto chegará a US$ 6 bilhões. Esse complexo
industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais
e multinacionais e com o suporte estatal (PETROBRÁS), contando com
fontes de financiamento diversas.
Quanto aos seus impactos, vale registrar que, em 1990, o pólo
petroquímico de Camaçari, sozinho, contribuiu com 13,6% da receita
tributária do Estado da Bahia, sendo de 32,8% o seu peso na receita do
ICMS gerado pela indústria de transformação.
1
Lima, Policarpo; Katz, Fred. 1993. Economia do Nordeste: tendências recentes das áreas dinâmicas.
mimeo.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
45
O pólo de Camaçari concorreu para alterar estruturalmente a
economia baiana, aumentando o peso do setor secundário de 12% em 1960
para quase 30% do PIB estadual em 1990.
Em 1989, os empregos diretos (25 mil), mais os ligados às
prestadoras de serviços (31 mil), representavam 19,6% do emprego gerado
na indústria de transformação do Estado.
O pólo de Camaçari contribuiu também para a elevação das
exportações baianas. Embora as repercussões esperadas fossem maiores, o
pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada
verticalização da matriz industrial da petroquímica regional.
O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza, por sua vez, desponta
como um dos importantes centros do setor, tanto em âmbito regional como
nacional. Entre 1970 e 1985, o número de estabelecimentos têxteis do Ceará
cresceu de 155 para 358, enquanto os ligados ao vestuário passavam de 152
para 850. Em 1991, segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do
Ceará, o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas, gerava 60 mil
empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima e
Katz, 1993).
O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo
nacionalmente e, no caso da fiação, internacionalmente, em virtude de sua
atualização tecnológica.
As perspectivas da expansão do setor evidentemente dependem da
retomada do crescimento e da melhor distribuição de renda na economia
brasileira. Por outro lado, a abertura comercial pode ter implicações negativas
sobre a tecelagem e as confecções, dado que nesses segmentos existe uma
defasagem tecnológica a ser superada.
O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é
reduzido, devido à devastação promovida pelo bicudo na produção de
algodão no Nordeste. Contudo, nos efeitos “para frente” conta-se com a
perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se
beneficiariam das fiações já existentes, o que já vem sendo estimulado por
empresários ligados às fiações.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
46
No que se refere ao segmento das confecções, há espaços para um
reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do
Estado), bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de
aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima e
Katz, 1993).
O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos
desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital
multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-
primas. Para a montagem desse pólo, a Companhia Vale do Rio Doce –
CVRD desempenhou um dos papéis principais, implantando a infra-estrutura
para exploração/exportação de minério de ferro.
Em função desses investimentos, impactos importantes já se notam
nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980
para US$ 3 bilhões em 1987, tendo o produto da indústria ampliado sua
participação no total estadual de 14,3% para 21,8%.
Cortando regiões anteriormente isoladas, a Estrada de Ferro Carajás
(EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para
dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão, onde a produção de soja se
expande.
Outro projeto em implantação, o projeto CELMAR, que tem a CVRD
como sócia, vai produzir celulose, em Imperatriz. Para esse projeto, estão
previstos investimentos de US$ 1,2 bilhão, com produção estimada de 420
mil toneladas/ano, gerando diretamente 800 empregos, e mais três mil no
reflorestamento, além de cerca de 3.200 empregos indiretos (Lima e Katz,
1993).
Além disso, a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a
instalação de usinas de ferro-gusa e de ferroliga ao longo de sua extensão.
O projeto da ALUMAR também tem grande peso, hoje, na indústria
maranhense. Trata-se de uma associação das empresas ALCOA, ALCAN
e BILLINGTON, que resultou em projeto de investimento da ordem de
US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina
e 500 mil de alumínio, estando atualmente sendo geradas um milhão de
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
47
toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. De forma semelhante ao caso
da CVRD, a ALUMAR é responsável por um fluxo mensal de rendimentos
significativo, pelo menos para os padrões locais, na economia de São Luiz.
O projeto criou 4.100 empregos diretos, estimando-se em 1.200 os empregos
indiretos, tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do
Rio Trombetas, de cal do Ceará, de soda cáustica de Alagoas, da energia
elétrica de Tucuruí, além dos serviços de manutenção refletidos nos
empregos indiretos. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas, já
que são exportados 95% do produto (Lima e Katz, 1993).
O complexo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro surgiu nos anos
70, com base na implantação de grandes projetos de irrigação. Também
nesse caso, a presença do Estado foi fundamental, uma vez que montou a
maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água. Constatou-
se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial,
destinados tanto à venda “in natura” para os mercados de maior poder
aquisitivo, externo inclusive, quanto ao processamento local em plantas
industriais. Ao longo dos anos 80, os projetos elevaram a intensidade de
uso de capital. Ao mesmo tempo se deu a implantação de grandes projetos
de médias empresas nacionais e, mesmo, internacionais. Nessa época,
instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados:
processamento de alimentos, bens de capital, embalagens, equipamentos
de irrigação, materiais de construção, fertilizantes e rações (Lima e Katz,
1993). Nesse período, foram incorporados à agricultura cerca de 56 mil
hectares, enquanto o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos
2
.
As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos
cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e Piauí.
A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução
e à rápida expansão da soja, implantada na área por agricultores do sul do
País, após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos
cerrados. Tiveram papel importante os subsídios governamentais
3
e os
investimentos públicos em infra-estrutura.
2
Ver Galvo, Olímpio. 1990. Impactos da irrigação sobre os setores urbanos nas regiões de Juazeiro
e Petrolina. Texto para discussão n. 226. Recife. CME/PIMES/UFPE, mimeo.
3
Ver Santos Filho, Milton. 1989. O processo de urbanização do oeste baiano. Recife, Sudene.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
48
Com a soja, implanta-se na região todo um conjunto de atividades e
práticas ligadas à agricultura moderna. Entre 1980/81 e 1985/86, a área
plantada com soja expandiu 143 vezes e a produção em 848 vezes, enquanto
crescia também a produção de arroz. Na safra de 1991/92, foram produzidas
800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia (soja, milho, arroz e feijão,
sendo 460 mil toneladas de soja). Foram instaladas no Município de Barreiras
duas plantas industriais de processamento de soja.
Estima-se que 230 mil toneladas de soja sejam absorvidas no próprio
Nordeste, na forma de óleo e de farelo, sendo exportadas cerca de 140 mil
toneladas de farelo (Lima e Katz, 1993).
Nos anos mais recentes, no Estado do Piauí, a produção de grãos
vem crescendo bastante (em 1992, produziu-se no Piauí e Tocantins cerca
de um milhão de toneladas). A produção também se estende para o sul do
Maranhão.
Essas áreas não conhecem crise e recessão. Aí despontam atividades
como avicultura, suinocultura, frigorificação de carnes. Começam a
desenvolver-se também atividades de produção de insumos (fertilizantes,
calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura.
O pólo de fruticultura do Vale Açu cresce comandado por grandes
empresas (com destaque para a Maísa), que se especializam na exportação.
Esses, como foi visto, são pontos de intenso dinamismo econômico
implantados no território nordestino. As potencialidades agrícolas e minerais
aí se revelam com grande evidência, constituindo um Nordeste que não
existia há poucas décadas.
Permanência de velhas estruturas
Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste
desenvolvem atividades modernas, em outras áreas a resistência à mudança
permanece sendo a marca principal do ambiente socioeconômico: as zonas
cacaueiras, canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas
áreas desse tipo. Quando ocorre, a modernização é restrita, seletiva, o que
ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. As zonas canavieiras
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
49
expandiram-se muito, impulsionadas nos anos 70 pelo PROÁLCOOL, que
traz consigo a alternativa da produção de um energético para o mercado
interno (o álcool). Mas o crescimento se faz com base na incorporação de
terras (a área cultivada rapidamente duplica), mais do que na elevação dos
padrões de produtividade.
No caso do semi-árido, a crise do algodão (com a presença do bicudo
e as alterações na demanda, no padrão tecnológico e empresarial da indústria
têxtil modernizada na região) contribui para tornar ainda mais difícil e frágil
a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços
dominados pelo complexo pecuária/agricultura de sequeiro. No “arranjo”
organizacional local, o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de
renda monetária dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses
espaços nordestinos. Na ausência do produto, esses pequenos produtores
são obrigados a levar ao mercado o pequeno excedente da agricultura
alimentar tradicional de sequeiro (milho, feijão e mandioca), uma vez que a
pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais.
Não é sem razão que, nos momentos de irregularidade de chuvas,
ocorridos nos anos recentes, as tradicionais “frentes de emergência” (como
são chamados os programas assistenciais do Governo) alistam número
enorme de agricultores (2,1 milhões de pessoas em 1993). Nessas áreas,
nos anos de chuva regular, os pequenos produtores, rendeiros e parceiros
produzem, mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada
ciclo produtivo, são incapazes de dispor de meios para enfrentar um ano
seco. Nesse quadro, portanto, não houve mudanças significativas, e as que
aconteceram, em geral, tiveram impactos negativos, como o desaparecimento
da cultura do algodão. De positivo, a extensão da ação previdenciária,
cobrindo parte da população idosa e assegurando uma renda mínima, mas
permanente, a muitas famílias sertanejas.
Nas áreas cacaueiras, a resistência à mudança convive na fase mais
recente com importante queda nos preços internacionais do cacau,
aprofundando a crise nessa sub-região.
Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas
econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da
região, há traços comuns importantes. Primeiro, cabe destacar que são áreas
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
50
de ocupação antiga, nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos
mecanismos de preservação. A questão fundiária é mais dramática e vem-
se agravando. Na Zona da Mata, por exemplo, o processo de concentração
fundiária tem aumentado nos anos recentes, e o monopólio da cana sobre as
áreas cultiváveis se ampliou. No semi-árido, das secas também resulta o
agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos
produtores: “na seca, pequenos produtores inviabilizados vendem suas terras
a baixos preços e os latifúndios crescem”, como bem explica Andrade
4
.
Simultaneamente, os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram
essa que sempre foi a atividade principal da unidade produtiva típica do
sertão e do agreste nordestino. A hegemonia crescente da pecuária nos
moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste, além
de provocar outros efeitos importantes, como a redução da produção de
alimentos e a intensificação da emigração rural. Na sábia afirmação do
geógrafo Melo
5
, “o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o
homem”. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no
semi-árido, a “modernização” foi conservadora, inclusive na estrutura
fundiária. A base técnica modernizou-se, a questão fundiária agravou-se
6
.
Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a
expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste),
no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e
agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e Piauí; portanto, em
áreas da antiga “fronteira agrícola” da região. Nos anos 60 e seguintes, a
proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos
governos militares e civis, e apresentada ao País como desnecessária em
muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no “sucesso” da
ocupação de novas terras. As oligarquias nordestinas, proprietárias das áreas
de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder,
continuavam a beneficiar-se dessa macroopção.
E, após tantos anos de dinamismo econômico, a questão fundiária
permanece praticamente intocada, apesar da miséria alarmante dominante
4
Andrade. Manuel Correia. 1986. A Terra e o homem no Nordeste, São Paulo, Atlas.
5
Melo, Mário Lacerda de. 1980. Os Agrestes. In: Estudos Regionais. Recife, SUDENE, n.3.
6
Ver Graziano da Silva, José (coord.) 1989. A irrigação e a problemática fundiária do Nordeste.
Campinas, Instituto de Economia, PRONI.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
51
nas áreas rurais do Nordeste. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente
pelo IPEA, dois terços dos indigentes rurais do País estão no Nordeste.
A concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas.
Em 1970, os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total)
ocupavam quase 30% da área; em 1985, essa participação caiu para 28%.
Ao mesmo tempo, os estabelecimentos de mais de mil hectares (0,4% do
total) aumentaram sua participação na área total, passando de 27% em 1970
para 32% em 1985. Nesse período, a área total ampliou-se de 74 milhões de
hectares para 92 milhões de hectares, de acordo com os censos agropecuários
realizados pela Fundação IBGE.
Estudo da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP destaca
ainda, para o mesmo período, que “a desigualdade da posse da terra é maior
que a da produtividade, tanto no Nordeste como no Brasil, sendo a diferença
relativa maior no Nordeste. Esse fato reforça a hipótese de que as formas
peculiares de exploração da terra no Nordeste conferem-lhe uma estrutura
de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil, no sentido
de elevar a desigualdade da distribuição. Nesse contexto, um caso ilustrativo
é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes
escrituras, muitas vezes registradas como imóveis distintos, para evitar seu
enquadramento como latifúndio por dimensão” (Graziano da Silva, 1989).
Na zona semi-árida, onde se reproduz a estrutura desigual do resto
do Nordeste, a situação é agravada pela presença de “latifúndios maiores”:
lá a área média do 1% dos maiores estabelecimentos (1.914 hectares, em
1985) é superior ao tamanho médio desses estabelecimentos no resto do
Nordeste (1.002 hectares). No semi-árido, o acesso à terra é feito por formas
precárias (parceria, por exemplo), caracterizando maior instabilidade, e se
registra maior presença de grandes posseiros em comparação com o resto
do Nordeste (Graziano da Silva, 1989).
Nesses espaços, como foi visto, as velhas estruturas socioeconômicas
e políticas têm na base fundiária um de seus principais pilares de sustentação.
[ARAÚJO, Tânia Bacelar de. “Nordeste, Nordestes: Que Nordeste?” In:
AFFONSO, Rui de Britto Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.).
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
52
1
Mueller, Charles Curt. 1992. O Centro-Oeste: evolução, situação atual e perspectivas de
desenvolvimento sustentável. In: Velloso, João Paulo dos (org.). A ecologia e o novo padrão de
desenvolvimento no Brasil. São Paulo, Nobel.
2
A idéia de fronteira é utilizada em sentido amplo, aproximando-se da definição estabelecida por
Sawyer, como sendo uma área potencial que oferece condições para a expansão da atividade
agropecuária (funcionamento de mercados específicos, sistemas de transportes adequados e
disponibilidade de terras a serem ocupadas). Ver: Sawyer, Donald. Ocupación y desocupación de la
frontera agrícola em el Brasil: um ensayo de interpretación estructural y espacial. Naciones Unidas/
CIFCA-CEPAL-PNUMA, Madrid, 1983.
Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo: FUNDAP, Ed.
Universidade Estadual Paulista, 1995, p. 132-138.]
Texto 3 – A Dinâmica Econômica
Desde o fim do século XVII até as primeiras décadas deste século, o
processo de ocupação do Centro-Oeste foi descontínuo, “nucleado” e
espacialmente desarticulado. A região era considerada até recentemente,
da mesma forma que o Norte, um dos grandes “vazios nacionais”.
As primeiras ocupações ocorreram por iniciativa privada e de
forma espontânea. A mobilização populacional foi motivada basicamente
pela apropriação de recursos naturais disponíveis e não pela ação
governamental.
Foi a partir da década dos 40 que o Estado passou a intervir
decisivamente no processo de ocupação da região. Essa participação não
ocorreu evidentemente por acaso. A industrialização por substituição de
importações passou a requerer da agricultura dupla atribuição: “produzir
excedentes de alimentos a custos razoáveis” e “fornecer recursos para
financiar o desenvolvimento urbano-industrial do centro dinâmico da
economia nacional”
1
. E, como sabemos, a agricultura brasileira apresentou
um desempenho aceitável, apoiado, essencialmente, na expansão das
fronteiras agrícolas
2
.
As conseqüências mais significativas deste novo enfoque de
intervenção do Estado na região foram sentidas no sul do Mato Grosso do
Sul e centro-sul de Goiás.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
53
De fato, nos anos 50 e 60, estes dois subespaços regionais
experimentaram um processo de elevado crescimento econômico e
populacional, baseado em decisivos estímulos governamentais. Verificou-
se, de um lado, um acelerado processo de colonização na área de influência
das cidades de Dourados e Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, com a
presença de grandes propriedades agrícolas, e de outro, a consolidação
econômica do sul e centro de Goiás, tanto pelas possibilidades abertas pela
agropecuária e agroindústria, quanto pela consolidação das cidades de
Brasília (DF) e Goiânia (GO), como importantes núcleos urbanos, e de
Anápolis (GO), como entreposto agrícola.
Em que pese já se encontrar em funcionamento uma estrutura
comercial em plena atividade nas áreas mais acessíveis do sul de Goiás e de
Mato Grosso do Sul, o avanço para os outros espaços regionais, como a sua
parte central, com destaque para a sub-região dos cerrados e do imenso
norte do atual Estado do Mato Grosso, encontrava-se então limitado.
O impulso verificado na expansão e modernização agropecuária do
Centro-Oeste, a partir da década dos 70 e nos anos 80 – inclusive com a
viabilização dos cerrados e da área norte da região –, se dá num novo
contexto: a agricultura passa a adquirir importância central na expansão e
diversificação das exportações, para garantir uma oferta adequada de divisas,
e a se inserir em um processo de verticalização, como fornecedora de
matérias-primas para a indústria.
Kageyama
3
(1986) caracteriza essa nova fase da ocupação do Centro-
Oeste como: “presença maciça de grandes empreendimentos capitalistas,
largamente subsidiados pelo sistema de crédito e benefícios fiscais, voltados
fundamentalmente para a atividade de pecuária extensiva e de algumas
culturas de exportação (soja, café, arroz, algodão e milho)”.
Durante os anos 70, a denominada modernização conservadora no
campo no sul do País, principalmente no Paraná, acabou expulsando um
bom contingente de pequenos agricultores, provocando um inesperado fluxo
3
Kageyama. Ângela. 1986. Modernização, produtividade e emprego na agricultura – uma análise
regional. Campinas, mimeo.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
54
migrante que se estende do Mato Grosso do Sul à fronteira com Rondônia,
provocando o surgimento de várias cidades, do dia para a noite, a exemplo
de Jateí, Glória de Dourados, Nova Andradina e Angélica.
Com relação à área dos cerrados, a falta de maior conhecimento técnico
que possibilitasse a sua viabilização comercial fez com que, num primeiro
momento, se estimulasse o avanço da fronteira agrícola na Amazônia
4
. Mas
no fim dos anos 70, com certo arrefecimento da expansão amazônica e com a
resolução dos problemas de fertilidade dos solos (viabilizada pelos avanços
tecnológicos da EMBRAPA), as atenções voltaram-se para aquelas áreas que
foram gradativamente incorporadas e passaram a ter uma articulação mais
estreita com os mercados do Centro-Sul.
Na viabilização econômica dos cerrados, foram decisivos os
estímulos do PÓLOCENTRO, com seu sistema de crédito, investimentos
em infra-estrutura e apoio técnico. Além do PÓLOCENTRO, também devem
ser destacados outros programas, como o PRODECER, o PROVÁRZEA e
o PROFIR.
No norte e noroeste de Mato Grosso deu-se forte expansão baseada
em grandes projetos de colonização pública e privada e numa política de
expressivos estímulos governamentais, com destaque para os incentivos
fiscais e financeiros de SUDAM e BASA. Partes das microrregiões de
Rondonópolis e Garças experimentaram um crescimento vigoroso da
agricultura voltada para os grandes mercados nacionais (Aguiar, 1988).
No caso de Goiás, durante muito tempo inexplorado, passou a ocorrer
presença maciça de grandes fazendas, principalmente em torno da rodovia
Belém-Brasília. Também nessa área, verifica-se uma importante participação
de grandes projetos incentivados pelo governo.
O fator fundamental para a acentuação do processo de ocupação
fundiária verificada em algumas partes do Centro-Oeste, notadamente na área
sob a influência da Amazônia Legal – que tem um fortíssimo componente
4
Ver Aguiar, Maria de Nazaré (org.). 1988. A Questão da produção e do abastecimento alimentar
no Brasil: um diagnóstico macro com cortes regionais. Brasília, IPEA/IPLAN; PNUD.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
55
especulativo –, foi o conjunto de estímulos fiscais e a política de crédito. Os
instrumentos de incentivos fiscais, administrados pela SUDAM, foram criados
no fim da década dos 60 com objetivos claros de favorecer a inserção de
grandes investimentos, que dariam origem a fornecedores importantes de
produtos agropecuários para o mercado nacional.
Na decisão de investimento dos projetos incentivados, pesava
bastante a futura valorização das terras onde seria implantada a empresa.
Para se ter uma idéia da magnitude do impacto das empresas incentivadas
sobre a concentração fundiária na região, basta dizer que, até 1985, foram
aprovados 626 projetos, 215 no Estado do Mato Grosso e 53 em Goiás,
cujo tamanho médio das propriedades era de cerca de 21 mil hectares, em
alguns casos ultrapassando o exorbitante tamanho de 100 mil hectares
(SUDAM/PNUD, 1989).
Tais projetos apresentaram grau muito reduzido de operacionalização.
Dos 626 aprovados, apenas 249 se encontravam em operação em 1985.
Além disso, tiveram reduzido impacto no volume de produção e vendas, e
na rentabilidade dos empreendimentos, assim como foram diminutos os
benefícios via geração de ICM e de criação de empregos para a região.
Pode-se afirmar que, de certa forma, foram mais eficientes em “gerar a
concentração fundiária e de renda” (Aguiar, 1988).
A especulação com a terra e o financiamento estatal facilitado
definiram estreita associação entre o capital fundiário e o financeiro,
provocando o “fechamento” da fronteira e, ao mesmo tempo, o acirramento
dos conflitos de terra.
Por outro lado, tais incentivos governamentais e o caráter
especulativo da apropriação de terra nessas áreas refletiram-se indiretamente
nas outras regiões. Estudo recente
5
detectou que, nos últimos anos, ocorreu
a instalação de importantes grupos empresariais oriundos do Nordeste e do
Sudeste no Mato Grosso e Goiás, notadamente em projetos de usinas de
açúcar e de reflorestamento.
5
Andrade. Manuel Correia de. 1994. Modernização e pobreza. Recife, no prelo.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
56
Em suma, pode-se caracterizar a expansão da fronteira agrícola no
Centro-Oeste em sua parte mais ao sul – Mato Grosso do Sul e parte sul de
Goiás – como vigorosas frentes de agricultura comercial, marcadamente
capitalistas e tecnificadas; e na porção norte – que compreende o Mato
Grosso e o norte de Goiás – como sendo um locus privilegiado das frentes
especulativas, com suas grandes empresas agropecuárias.
[GALINDO, Osmil e MONTEIRO DOS SANTOS, Valdeci. “Centro-Oeste:
Evolução recente da economia regional”. In: AFFONSO, Rui de Britto
Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.), Desigualdades regionais e
desenvolvimento. São Paulo: FUNDAP/UNESP, 1995, p. 158-161.]
3. Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades
no Brasil
O processo de urbanização conheceu uma aceleração notável
no país desde a década de 1950. A população urbana, que não chegava a
20 milhões em 1950, ultrapassou a marca dos 110 milhões em 1991.
A população rural, por sua vez, registrou um crescimento extremamente
fraco no período, passando de cerca de 33 milhões em 1950 para pouco
menos de 38 milhões em 1991.
A constituição de uma economia de mercado de âmbito nacional,
polarizada pelas indústrias implantadas no Sudeste, foi o pano de fundo
desse movimento urbanizador, que se manifesta em todo o país.
O processo de urbanização brasileiro apoiou-se essencialmente no
êxodo rural, incentivado pela modernização técnica do trabalho rural e pela
concentração crescente da propriedade fundiária.
A urbanização do Brasil, apesar de geral, não é uniforme. As
diferentes regiões e estados do país apresentam uma urbanização desigual
e contrastes marcantes na distribuição da população entre o meio rural e o
meio urbano. As desigualdades no ritmo do processo de urbanização refletem
as disparidades econômicas regionais e a própria inserção diferenciada de
cada região na economia nacional.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
57
A elevada participação da população urbana no conjunto da
população do Sudeste expressa um estágio avançado de modernização
econômica, com profunda transformação da economia rural e subordinação
da agropecuária à indústria. Expressa também o peso decisivo da economia
urbana na produção regional da riqueza. Todos os estados da região
apresentam participação da população urbana superior à média nacional.
A urbanização do Centro-Oeste foi impulsionada pela fundação de
Brasília e pelas rodovias de integração nacional que interligaram a nova
capital com o Sudeste, de um lado, e a Amazônia, de outro. A ocupação do
espaço rural por grandes propriedades (fazendas de gado, de soja ou cereais)
acentuou a tendência urbanizadora. O Estado do Mato Grosso do Sul
apresenta um nível de urbanização similar ao dos estados do Sudeste.
A Região Sul viveu um processo de urbanização lento e limitado
até a década de 70: a estrutura agrária familiar e policultora, ancorada no
parcelamento da propriedade da terra nas áreas de planaltos, restringia o
êxodo rural. Depois, a mecanização acelerada da agricultura e a concentração
da propriedade da terra impulsionaram a transferência acelerada da
população rural para o meio urbano. Simultaneamente, camponeses expulsos
do meio rural formaram fluxos migratórios que se dirigiram para as novas
frentes pioneiras do Centro-Oeste e da Amazônia.
No Nordeste, o movimento urbanizador foi menos intenso, em função
das particularidades do setor agrícola regional. A persistência de uma elevada
participação da população rural decorre da estrutura minifundiária e familiar
tradicional da faixa do Agreste, que retém a força de trabalho no campo e
controla o ritmo do êxodo rural. A baixa capitalização e produtividade do
setor agrícola limita a repulsão da população rural; o desenvolvimento
insuficiente do mercado regional limita a atração exercida pelas cidades.
Contudo, pelo menos até a década de 1980, houve um intenso êxodo rural no
Nordeste que não transparece nas estatísticas regionais: trata-se do movimento
migratório para o Sudeste, que transferia populações do campo nordestino
para as cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Na Região Norte, o crescimento relativo da população urbana tem
sido mais lento, pois o afluxo de populações para a região nas últimas
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
58
1
Lúcio Kowarick e Milton Campanário analisam o crescimento e a importância industrial da Região
Metropolitana de São Paulo a partir deste prisma: “Os investimentos diretos das empresas
multinacionais feitos, via de regra, com grande apoio no capital doméstico, particularmente de origem
estatal, na forma de financiamento direto, provisão de infra-estrutura, incentivos fiscais, e outras
medidas altamente atrativas. Essa associação provou ser bastante custosa em termos de gastos públicos
e pressão inflacionária. De fato, ao criar condições gerais e infra-estrutura necessárias para o pleno
funcionamento do capital industrial no setor transnacionalizado de consumo durável, o Estado investiu
pesado em energia, transportes e insumos básicos, concentrando estes recursos, especialmente, na
região liderada pela cidade de São Paulo. Cresce, assim, o peso relativo deste núcleo urbano não só
enquanto espaço receptor de investimentos diretos estrangeiros, mas também como espaço construído
capaz de fazer circular o valor ali criado.” São Paulo, Metrópole do Subdesenvolvimento
Industrializado. IN: Lucio Kowarick (org.) As Lutas Sociais e a Cidade, Paz e Terra, Rio de Janeiro,
1988.
décadas, como conseqüência da abertura de novas frentes pioneiras, orientou-
se para áreas rurais. São esses fluxos que explicam a significativa parcela
de população rural em estados como Pará, Tocantins e Rondônia.
O processo de urbanização brasileira foi, essencialmente,
concentrador: gerou cidades grandes e metrópoles. Em 1940, só existiam
duas cidades com mais de 500 mil habitantes, em 1991, elas já eram 25.
Atualmente, mais de 40 milhões de pessoas vivem nas metrópoles do país.
A tendência à metropolização foi um reflexo das condições em que
ocorreu a modernização da economia do país. A industrialização do país
percorreu caminhos muito diferentes daqueles da Revolução Industrial
européia. Baseou-se em investimentos volumosos de capital, provenientes
do Estado, de empresas transnacionais ou de grandes grupos privados
nacionais.
A implantação de uma economia de tipo monopolista refletiu-se na
concentração da produção, da força de trabalho e do mercado em
determinados pontos selecionados do território. Um número reduzido de
cidades tornou-se pólos de atração populacional, crescendo e diversificando
a sua economia. A concentração econômica determinou a aglomeração
espacial, gerando a metropolização
1
.
A região metropolitana representa um produto característico desse
tipo de urbanização concentradora que o país experimentou. A Grande São
Paulo e a Grande Rio de Janeiro constituem os exemplos mais importantes
do processo metropolizador brasileiro.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
59
O processo de metropolização, que continua a se desenvolver, está
conduzindo ao aparecimento da primeira megalópole do país, no espaço
geográfico de expansão destas duas principais aglomerações urbanas
brasileiras. Através do Vale do Paraíba, adensa-se o espaço urbanizado
vinculado diretamente às cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Importantes centros industriais como São José dos Campos, Taubaté,
Guaratinguetá, Barra Mansa e Volta Redonda configuram um espaço de
fluxos cada vez mais intensos, estimulados pelos mercados consumidores
materializados nas metrópoles. A presença de barreiras físicas muito nítidas
– a Serra do Mar, a leste, e a Serra da Mantiqueira, a oeste – aprofunda a
tendência à formação de uma verdadeira megalópole.
A rede de cidades no Brasil
A importância das cidades na organização do espaço deriva da sua
capacidade de oferecer mercadorias e serviços para um mercado consumidor
amplo, maior que o do próprio núcleo urbano. O grau de importância de
cada cidade depende da extensão do mercado atingido pelas mercadorias e
serviços que ela distribui, de acordo com o geógrafo Roberto Lobato Corrêa:
O papel mais importante de uma cidade é o de distribuir
produtos industriais e serviços para as empresas agrárias,
industriais e comerciais, e para a população de uma área externa à
cidade – a sua região de influência. Assim, cada cidade tem,
portanto, um mercado consumidor externo a si mesmo, em função
do qual vai adquirir um equipamento funcional – estabelecimentos
comerciais e industriais, bancos, hospitais e escolas – tornando-se
assim o centro de atração para esse área externa. Os produtos
industriais e os serviços, no entanto, apresentam entre si diferenças,
não só quanto à natureza, mas também à freqüência de consumo.
Assim, vai se recorrer mais freqüentemente à banca de jornais do
que a uma livraria, do mesmo modo que se procura com maior
freqüência um médico de clínica geral do que um especialista em
doenças do coração. Em função dessa diferença na freqüência de
consumo dos diversos produtos industriais e dos serviços, verifica-
se uma diferença na respectiva localização: aqueles produtos
industriais e serviços de consumo muito freqüente são encontrados
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
60
em pequenas cidades, enquanto aqueles outros de consumo menos
freqüentes são encontrados em cidades médias, e os de consumo
raro apenas nas grandes cidades, de fácil acesso a uma grande
população pelas vias de circulação que para lá convergem. Assim,
passa-se a noção de hierarquia urbana, caracterizada pela
dependência de cidades que distribuem produtos industriais e
serviços cada vez de menor freqüência de consumo. [In: CORRÊA,
Roberto Lobato. “Regiões de Influência Urbana”. In: Revista
Brasileira de Geografia, Abril-Junho de 1941.]
O Brasil possui duas metrópoles nacionais, São Paulo e Rio de
Janeiro, aglomerações cuja influência se manifesta em todo o território.
Essas cidades estão no topo da hierarquia urbana, servindo a todo o mercado
consumidor do país. Essa posição ajuda a compreender seu crescimento
populacional, extremamente expressivo.
As metrópoles regionais são aglomerações que exercem uma
influência vasta, mais ampla que o território dos seus estados, e estão
subordinadas economicamente apenas às metrópoles nacionais. Belo
Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém são
as cidades que funcionam como metrópoles regionais. Juntamente com São
Paulo e Rio de Janeiro, elas estruturam o espaço nacional, polarizando
regiões de influência e redistribuindo bens e serviços para um mercado
imenso e diversificado.
A trajetória histórica da ocupação do território – marcada pela
concentração populacional numa faixa próxima ao litoral – determinou a
localização da maior parte das metrópoles. No Nordeste, as metrópoles
regionais (Salvador, Recife e Fortaleza). No Norte, Belém – a metrópole
que influencia quase todo o vasto espaço amazônico – é um porto marítimo
situado na foz do Rio Tocantins, enquanto Manaus é um porto fluvial
interligado ao oceano. No Sudeste e no Sul, apenas Belo Horizonte é,
claramente, uma metrópole interior. No Centro-Oeste, só uma cidade,
Goiânia, funciona como metrópole regional.
Brasília, a capital política e administrativa do país, não chegou a se
tornar sequer uma metrópole regional completa. A cidade não desenvolveu
um setor de serviços voltado para o mercado regional. Ao contrário, seu
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
61
aparato de distribuição de bens e serviços conheceu um crescimento
endógeno, direcionado basicamente para o próprio mercado urbano. Em
conseqüência, a capacidade de polarização externa da cidade foi, desde o
início, muito precária.
Texto Complementar
No texto abaixo, o geógrafo Milton Santos analisa os impactos da
revolução técnico-científica na problemática urbana e discute a transfiguração
de São Paulo de metrópole industrial em metrópole informacional,
destacando as múltiplas relações que ela estabelece com o território nacional.
Texto 1 – A “Dissolução” da Metrópole
Houve, ao longo da história brasileira, quatro momentos do ponto
de vista do papel e da significação das metrópoles. Quando o Brasil urbano
era um arquipélago, com ausência de comunicações fáceis entre as
metrópoles, estas apenas comandavam uma fração do território, sua chamada
zona de influência. Num segundo momento, há reforços pela formação de
um mercado único, mas a integração territorial é, praticamente, limitada ao
Sudeste e ao Sul. Um terceiro momento é quando um mercado único nacional
se constitui. E o quarto momento é quando conhece um ajustamento:
primeiro à expansão e, depois, à crise desse mercado, que é um mercado
único, mas segmentado; único e diferenciado; um mercado hierarquizado e
articulado pelas firmas hegemônicas, nacionais e estrangeiras, que
comandam o território com apoio do Estado. Não é demais lembrar que
mercado e espaço, ou ainda melhor, mercado e território, são sinônimos.
Um não se entende sem o outro.
O movimento de concentração-dispersão, próprio da dinâmica
territorial em todos os tempos, ganha, todavia, expressões particulares
segundo os períodos históricos. Pode-se dizer, no caso do Brasil, que, ao
longo de sua história territorial, as tendências concentradoras atingiam
número maior de variáveis, presentes somente em poucos pontos do espaço.
Recentemente, as tendências à dispersão começam a se impor e atingem
parcela cada vez mais importante dos fatores, distribuídos em áreas mais
vastas e lugares mais numerosos. Com o fim da segunda guerra mundial, a
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
62
integração do espaço brasileiro e a modernização capitalista ensejam, em
primeiro lugar, uma difusão social e geográfica do consumo em suas diversas
modalidades e, posteriormente, a desconcentração da produção moderna,
tanto agrícola quanto industrial.
Em outro sentido, todavia, há um movimento de concentração das
formas de intercâmbio, no nível nacional e estadual ou regional, tanto no
âmbito material quanto no intelectual. A comercialização tende a se
concentrar, economicamente e geograficamente, ainda que a pobreza
persistente da população assegure a permanência de pequenos comércios e
serviços, com estabelecimentos dispersos. As novas formas de um trabalho
intelectual mais sofisticado, de que dependem a concepção e o controle da
produção, são, também, concentradas, ainda que outras formas de trabalho
intelectual, cada vez mais numerosas, ligadas ao processo direto da produção
mas também à sua circulação, sejam objeto de dispersão geográfica,
atribuindo novas funções às cidades de todos os tamanhos.
A nova divisão do trabalho territorial atinge, também, a própria
região concentrada, privilegiando a cidade de São Paulo, a respectiva Região
Metropolitana e seu entorno, onde a acumulação de atividades intelectuais
ligadas à nova modernidade assegura a possibilidade de criação de
numerosas atividades produtivas de ponta, ambos esses fatos garantindo-
lhe preeminência em relação às demais áreas e lhe atribuindo, por isso
mesmo, novas condições de polarização. Atividades modernas presentes
em diversos pontos do País necessitam de se apoiar em São Paulo para um
número crescente de tarefas. São Paulo fica presente em todo o território
brasileiro, graças a esses novos nexos, geradores de fluxos de informação
indispensáveis ao trabalho produtivo. Se muitas variáveis modernas se
difundem amplamente sobre o território, parte considerável de sua operação
depende de outras variáveis geograficamente concentradas. Dispersão e
concentração dão-se, uma vez mais, de modo dialético, de modo
complementar e contraditório. É desse modo que São Paulo se impõe como
metrópole onipresente e, por isso mesmo, e ao mesmo tempo, como
metrópole irrecusável para todo o território brasileiro.
Agora, a metrópole está presente em toda parte, e no mesmo
momento. A definição do lugar é, cada vez mais no período atual, a de um
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
63
lugar funcional à sociedade como um todo. E, paralelamente, através das
metrópoles, todas as localizações tornam-se funcionalmente centrais. Os
lugares seriam, mesmo, lugares funcionais da metrópole.
Antes, sem dúvida, a metrópole estava presente em diversas partes
do País. Digamos que o núcleo migrava, para o campo e para a periferia,
mas o fazia com defasagens e perdas, com dispersão das mensagens e ordens.
Se, ao longo do tempo, o espaço se tornava mais e mais unificado e mais
fluido, todavia faltavam as condições de instantaneidade e de simultaneidade
que somente hoje se verificam.
Mas, ao contrário do que muitos foram levados a imaginar e a
escrever, na sociedade informatizada atual nem o espaço se dissolve, abrindo
lugar apenas para o tempo, nem este se apaga. O que há é uma verdadeira
multiplicação do tempo, por causa de uma hierarquização do tempo social,
graças a uma seletividade ainda maior no uso das novas condições de
realização da vida social.
A simultaneidade entre os lugares não é mais apenas a do tempo
físico, tempo do relógio, mas do tempo social, dos momentos da vida social.
Mas o tempo que está em todos os lugares é o tempo do Estado e o tempo
das multinacionais e das grandes empresas. Em cada outro ponto, nodal ou
não, da rede urbana ou do espaço, temos tempos subalternos e diferenciados,
marcados por dominâncias específicas. Com isso, nova hierarquia se impõe
entre lugares, hierarquia com nova qualidade, com base em diferenciação
muitas vezes maior do que ontem, entre os diversos pontos do território.
Nenhuma cidade, além da metrópole, “chega” a outra cidade com a
mesma celeridade. Nenhuma dispõe da mesma quantidade e qualidade de
informações que a metrópole. Informações virtualmente de igual valor em
toda a rede urbana não estão igualmente disponíveis em termos de tempo.
Sua inserção no sistema mais global de informações de que depende seu
próprio significado depende da metrópole, na maior parte das vezes. Está aí
o novo princípio da hierarquia, pela hierarquia das informações... e um
novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa entre aglomerações do
mesmo nível, e, pois, uma nova realidade do sistema urbano.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
64
1
Cordeiro. Helena K. Os principais pontos de controle da economia transacional no espaço brasileiro,
Boletim de Geografia Teorética, anos 16-17, n. 31-34, p. 153-196, Rio Claro, 1987.
2
Ainda que o peso da atividade industrial seja muito expressivo na aglomeração paulistana, se a
compararmos com o resto do País, não é essa função metropolitana que atualmente assegura a São
Paulo papel diretor na dinâmica espacial brasileira. Esse papel é, por causa de suas atividades
quaternárias de criação e controle, praticamente sem competidor no País, pois agora são os fluxos de
informação que hierarquizam o sistema urbano. O papel de comando é devido a essas forças superiores
de produção não-material, elas próprias sendo conseqüência da integração crescente do País a novas
condições da vida internacional. O locus dessas atividades privilegiadas, tão diferentes da produção
industrial, tem, todavia, muito que ver com o fato de que essa mesma aglomeração paulistana era e
continua sendo um centro importante de uma atividade fabril complexa. Foi a partir dessa base que
a capital industrial se transformou em capital informacional acumulando em períodos consecutivos
papel metropolitano crescente.
Os momentos que, no mesmo tempo do relógio, são vividos por
cada lugar, sofrem defasagens e se submetem a hierarquias (em relação ao
emissor e controlador dos fluxos diversos). Porque há defasagens, cada qual
desses lugares é hierarquicamente subordinado. Porque as defasagens são
diferentes para os diversos variáveis ou fatores é que os lugares são diversos.
As questões de centro-periferia, como precedentemente colocadas, e
a das regiões polarizadas, ficam, assim, ultrapassadas. Hoje, a metrópole está
presente em toda parte, no mesmo momento, instantaneamente. Antes, a
metrópole não apenas não chegava ao mesmo tempo em todos os lugares,
como a descentralização era diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente
sincrônica. Trata-se, assim, de verdadeira “dissolução da metrópole”, condição,
aliás, do funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política.
Temos, agora, diante de nós, o fenômeno da “metrópole transacional”
de que fala Helena K. Cordeiro
1
. Esta é a grande cidade cuja força essencial
deriva do poder de controle, sobre a economia e o território, de atividades
hegemônicas, nela sediadas, capazes de manipulação da informação, da qual
necessitam para o exercício do processo produtivo, em suas diversas etapas.
Trata-se de fato novo, completamente diferente da metrópole industrial.
O dado organizacional é o espaço de fluxos estruturadores do
território e não mais, como na fase anterior, espaço onde os fluxos de matéria
desenhavam o esqueleto do sistema urbano
2
.
No caso brasileiro, vale a pena insistir sobre essa diferença pois em
ambos os momentos a metrópole é a mesma: São Paulo. Nas condições de
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
65
passagem de uma fase a outra, somente a metrópole industrial tem condições
para instalar novas condições de comando, beneficiando-se dessas
precondições para mudar qualitativamente. A metrópole informacional assenta
sobre a metrópole industrial, mas já não é a mesma metrópole. Prova de que
sua força não depende da indústria é que aumenta seu poder organizador ao
mesmo tempo em que se nota uma desconcentração da atividade fabril. O
fato é que estamos diante do fenômeno de uma metrópole onipresente, capaz,
ao mesmo tempo, pelos seus vetores hegemônicos, de desorganizar e
reorganizar, ao seu talento e em seu proveito, as atividades periféricas e
impondo novas questões para o processo de desenvolvimento regional.
Retomemos o exemplo, de modo figurativo. No passado, São Paulo
sempre esteve presente no País todo: presente no Rio um dia depois, em
Salvador três dias depois, em Belém dez dias depois, em Manaus trinta dias
depois... São Paulo hoje está presente em todos os pontos do território
informatizado brasileiro
3
, ao mesmo tempo e imediatamente, o que traz
como conseqüência, entre outras coisas, uma espécie de segmentação do
mercado enquanto território e uma segmentação vertical do território
enquanto mercado, uma vez que os diversos agentes sociais e econômicos
não utilizam o território de forma igual. Isso representa um desafio às
planificações regionais, uma vez que as grandes firmas que controlam a
informação e a redistribuem ao seu talante têm papel entrópico em relação
às demais áreas, e somente elas podem realizar a negentropia. O espaço é
assim desorganizado e reorganizado a partir dos mesmos pólos dinâmicos.
O fato de que a força nova das grandes firmas, neste período científico-
técnico, traga como conseqüência uma segmentação vertical do território
supõe que se redescubram mecanismos capazes de levar a uma nova
horizontalização das relações, que esteja não apenas a serviço do econômico,
mas também do social.
[SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. 2ª ed. São Paulo: HUCITEC,
1994, p. 89-93.]
3
Ver Gertel, Sérgio, A informatização e o processo urbano no Brasil. Relatório de pesquisa para a
FINEP, 1986 e O Computador no território brasileiro. Comunicação ao Colóquio de Geografia
Brasil-Argentina-Uruguai, Universidade de São Paulo, set. 1988 (mimeo).
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
66
4. O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais
da Localização da Indústria no Brasil
O processo de industrialização brasileira gerou uma profunda
concentração espacial. A indústria da Região Sudeste é responsável por
quase dois terços da força de trabalho e mais de dois terços do valor da
produção. As regiões Sul e Nordeste aparecem muito atrás, enquanto as
regiões Norte e Centro-Oeste apresentam uma participação apenas marginal
no Setor Secundário do país.
Entretanto, nas últimas décadas, observa-se uma tendência incipiente
de desconcentração industrial, manifesta no intenso crescimento da produção
em estados como Paraná, Santa Catarina, Bahia, Amazonas e Ceará. A
isenção fiscal oferecida pelos governos estaduais assim como as diferenças
regionais de custos da mão-de-obra – significativamente menores nos estados
do Nordeste – ajudam a entender esta tendência recente.
Apesar dela, o predomínio paulista no Setor Secundário nacional –
cujas raízes encontram-se na etapa inicial da industrialização, ocorrida no
interior da economia cafeeira exportadora – ainda é marcante. O Estado de
São Paulo concentra pouco menos que a metade do valor total da produção
industrial do país.
A participação do Rio de Janeiro na indústria brasileira apresenta
uma redução mais intensa e também mais antiga. Em 1920, a antiga
Guanabara, somada ao Rio de Janeiro, tinha quase 30% do valor da produção.
Em 1960, quando a capital foi transferida para Brasília, a participação
fluminense já tinha caído para 16%, e hoje ela não chega a 10%.
A redução da participação de São Paulo e do Rio de Janeiro explica
a diminuição da participação geral do Sudeste. Mas, nessa região, ocorre
significativo crescimento da participação de Minas Gerais no Setor
Secundário nacional. Esse crescimento deve-se, em grande parte, à
concentração de siderúrgicas de grande porte no Vale do Aço e à formação
de importantes distritos industriais nos arredores de Belo Horizonte.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
67
O espaço industrial da Região Sudeste
O triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte é o grande pólo industrial
do país, abrangendo o leste do Estado de São Paulo, o sul de Minas Gerais,
o Rio de Janeiro e avançando por todo o sul do Espírito Santo, até Vitória.
No interior dessa área, encontra-se um complexo heterogêneo de atividades
secundárias que envolve indústrias modernas e tradicionais, fabricação de
bens de consumo e de bens de produção.
A cidade de São Paulo transformou-se no principal pólo industrial
do país já nas primeiras décadas do século. A economia cafeeira de
exportação gerou as condições para o arranque industrial da cidade.
São Paulo encontrava-se em situação geográfica estratégica, no nó de
ligação entre o leque de ferrovias que se abria para o oeste cafeeiro e o porto
de Santos. A capital tornou-se, desde logo, o centro dos negócios de exportação
e importação e das atividades bancárias, atraindo capitais e empresários.
O fluxo imigratório orientado inicialmente para o café gerou uma classe
operária numerosa, constituída por trabalhadores italianos e espanhóis.
O crescimento econômico do interior abria vastos mercados consumidores
para os manufaturados que começavam a ser fabricados na capital.
Nesse primeiro surto industrialista, predominaram as fábricas de
bens de consumo não-duráveis (têxteis, vestuário, calçados, bebidas e
alimentos), além das pequenas metalúrgicas e químicas.
As primeiras áreas industriais situaram-se junto aos eixos ferroviários
que ligavam a cidade ao Rio de Janeiro (E. F. Central do Brasil), ao longo
dos bairros do Belenzinho, Brás e Moóca, e junto aos trilhos da Sorocabana,
na Lapa. No pós-guerra, a indústria transbordou os limites do município da
capital e surgiram centros industriais de grande porte nos municípios
vizinhos. Os eixos rodoviários substituíram as linhas de trem, atraindo as
novas fábricas que se implantavam.
Ao longo do eixo da Via Anchieta, na direção da Baixada Santista,
os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
68
Sul e Diadema passaram a abrigar as grandes montadoras automobilísticas
implantadas no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Com elas,
instalaram-se as fábricas de autopeças e as metalúrgicas e, mais tarde, as
indústrias químicas. O chamado ABCD transformou-se na maior
aglomeração industrial da América Latina e no berço do principal pólo do
movimento sindical brasileiro.
No eixo da Via Dutra, na direção do Rio de Janeiro, uma significativa
aglomeração industrial foi criada no município de Guarulhos. Entre os eixos
das vias Raposo Tavares e Castelo Branco, também surgiu uma região fabril,
envolvendo particularmente os municípios de Osasco e Carapicuíba.
Nas últimas décadas, o espaço paulista vem conhecendo um processo
de dispersão industrial. O interior do estado apresenta um crescimento
industrial muito maior que a metrópole, tanto quanto à absorção da força de
trabalho como quanto ao valor da produção.
Esse processo é conseqüência da expansão econômica do interior
paulista, que por muito tempo se fundamentou na agricultura e na agroindústria.
O crescimento dos núcleos urbanos regionais – como Campinas, São José
dos Campos, Sorocaba, Ribeirão Preto, Santos e Cubatão – gerou mercados
consumidores e reuniu força de trabalho para o deslanche da industrialização.
A implantação de infra-estruturas energéticas e vias de transporte modernas
criou novas localizações favoráveis para as indústrias.
A desconcentração industrial no Estado de São Paulo reflete também
a tendência ao deslocamento de novas empresas para fora das localizações
metropolitanas. O caráter terciário da metrópole é cada vez mais evidente.
No Rio de Janeiro, o crescimento industrial foi impulsionado por
fatores históricos diferentes. No início do século, a cidade era a capital do
país e abrigava o maior porto marítimo nacional. Contava com mais de
1 milhão de habitantes, enquanto São Paulo não ultrapassava os 100 mil.
Mas não polarizava uma economia de exportação com o dinamismo das
plantações cafeeiras paulistas, o que determinou um crescimento industrial
muito menos vigoroso.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
69
A industrialização do Rio de Janeiro apoiou-se na dimensão do
mercado consumidor formado pela aglomeração urbana e nos atrativos
oferecidos pela presença dos órgãos de governo e empresas estatais.
O processo de expansão espacial da indústria seguiu uma trajetória
similar à de São Paulo. As linhas férreas definiram regiões industriais na
zona norte da cidade, enquanto a zona sul, na orla litorânea, abrigava os
bairros residenciais de alta renda.
Mais tarde, os municípios da Baixada Fluminense, na Grande Rio –
como Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João do Meriti e Nilópolis –,
transformaram-se em importantes distritos industriais. Nova Iguaçu, com
mais de 1 milhão de habitantes, situada no eixo da Via Dutra e da E. F.
Central do Brasil, é a maior aglomeração industrial da periferia do Rio.
Duque de Caxias, com cerca de 700 mil habitantes, é um pólo químico
organizado em torno da REDUC.
Outra destacada concentração industrial fluminense localiza-se na
Zona Serrana, em cidades como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo.
Essa região desenvolveu-se como um tradicional centro têxtil, que
conquistou parcelas expressivas do mercado nacional.
A formação das metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro
estimulou a expansão industrial no Vale do Paraíba, que tinha sido em
meados do século XIX o foco das plantações cafeeiras escravistas e vivera
depois uma profunda decadência.
O sinal pioneiro da industrialização do Vale foi a implantação da
primeira siderúrgica estatal, a CSN, iniciada em 1941. Em Volta Redonda e
Barra Mansa, na parte fluminense do Vale, a CSN impulsionou o aparecimento
de estabelecimentos metalúrgicos. No Vale do Paraíba paulista, durante as
décadas de 60 e 70, inúmeras cidades polarizadas por São José dos Campos
e Taubaté transformaram-se em núcleos industriais. Situados no caminho que
liga os principais mercados consumidores do país, junto à rodovia e à ferrovia,
e contando com farto abastecimento de água, os municípios da região tornaram-
se localizações privilegiadas para estabelecimentos ligados à produção de
bens intermediários e bens de consumo duráveis.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
70
Belo Horizonte nasceu em 1897, como cidade planejada. Sua origem
está ligada a um projeto estratégico das elites mineiras, destinado a reverter
o processo de decadência econômica de Minas Gerais.
Após a Revolução de 30, as elites mineiras direcionaram a sua
atenção para o desenvolvimento industrial do estado. Essa nova orientação
materializou-se por meio da concessão de incentivos diversos para a atração
de investimentos industriais privados e também por uma pressão permanente
sobre o governo central, destinada a garantir a instalação de um vasto parque
siderúrgico estatal no estado.
As políticas de concessão de incentivos para o capital privado
resultaram na vigorosa industrialização dos arredores de Belo Horizonte,
com a formação de núcleos fabris modernos e diversificados nos municípios
da Região Metropolitana. Contagem, com cerca de 400 mil habitantes, é o
principal desses núcleos, abrigando um importante parque metalúrgico e
químico. Em Betim, instalou-se no final da década de 70 a Fiat Automóveis,
única montadora transnacional situada fora do Estado de São Paulo.
A luta pela implantação da siderurgia de grande porte envolveu a
valorização das vastas reservas de minérios de ferro e manganês do chamado
Quadrilátero Central. Antes da Segunda Guerra, a implantação da Cia.
Siderúrgica Belgo-Mineira, transnacional, abriu a via de industrialização das
cidades do Alto Vale do Rio Doce. Décadas depois, vultosos investimentos
estatais resultaram na criação de outras usinas gigantescas e na transformação
do “Vale do Aço” na maior concentração siderúrgica do país.
Outras concentrações industriais
Na Região Sul, de Porto Alegre a Curitiba, estende-se uma
importante região industrial, marcada pela predominância de ramos
tradicionais. A produção industrial do Nordeste concentra-se em torno das
metrópoles regionais (Salvador, Recife e Fortaleza). No Norte, a mais
expressiva concentração industrial corresponde à Zona Franca de Manaus.
A expansão industrial do Sul apoiou-se fortemente em fatores
regionais. O fluxo imigratório que formou zonas de colonização alemãs,
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
71
italianas e eslavas trouxe artífices e elementos qualificados. Um
empresariado regional apareceu nas áreas coloniais.
O Vale do Itajaí ilustra esse modelo de industrialização. Lá, em
cidades como Joinville, Blumenau e Brusque, desenvolveram-se fábricas
têxteis, de louças e brinquedos. O complexo têxtil dessa área, inicialmente
rudimentar, cresceu e conquistou o mercado nacional. Outro exemplo de
expansão de uma indústria local é oferecido pelos estabelecimentos vinícolas
da Serra Gaúcha, implantados nas cidades de Caxias do Sul e Bento
Gonçalves. Nas cidades gaúchas de colonização alemã próximas a Porto
Alegre, como Novo Hamburgo e São Leopoldo, estabeleceram-se fabricantes
de artigos de couro e calçados.
Uma característica do modelo industrial do Sul é o predomínio das
indústrias dependentes de matérias-primas vegetais e agropecuárias. É o
que ocorre não só com a fabricação de vinhos, artigos de couro e calçados,
como também com a agroindústria de óleos vegetais disseminada pelas
principais cidades do interior da região e, ainda, com os frigoríficos e
indústrias de fumo do Rio Grande do Sul. O importante ramo de madeira e
mobiliário do Paraná, estabelecido em Curitiba e Ponta Grossa, é outra
ilustração desse processo.
Entretanto, a principal concentração industrial complexa e
diversificada do Sul localiza-se na Grande Porto Alegre, onde o município
de Canoas se destaca como pólo metalúrgico, químico e de material elétrico.
Na Região Nordeste, a indústria moderna é produto do planejamento
governamental, cujos alicerces repousam sobre os incentivos fiscais
fornecidos pela Sudene e na implantação de um setor hidrelétrico de porte
na Bacia do São Francisco. A presença de mão-de-obra abundante e barata
representa incentivo suplementar.
Em Salvador, essa estratégia industrializante se manifestou com o
surgimento do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de
Aratu. O primeiro gira em torno da Refinaria Landulfo Alves que gera
matérias-primas para empresas petroquímicas e químicas estatais, privadas
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
72
e transnacionais. O segundo caracteriza-se pelo predomínio de fábricas de
bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos da Sudene.
Na Grande Recife, os incentivos fiscais geraram os distritos de
Jaboatão, Cabo e Paulista, também marcados pelo predomínio das indústrias
de bens de consumo duráveis e dos capitais oriundos do Centro-Sul.
A estratégia de modernização industrial do Nordeste apoiou-se na
idéia de transferência de capitais externos à região. A ênfase nas indústrias
de alta capitalização – de bens intermediários e de bens de consumo duráveis
– resultou numa absorção de mão-de-obra relativamente baixa, pouco
contribuindo para elevar os níveis de vida e emprego da população das
metrópoles regionais.
Na última década, no contexto da abertura econômica, o processo
de industrialização vem ganhando novos contornos. A modernização da
infra-estrutura regional e mecanismos de isenção fiscal estão na base do
novo ciclo industrializante que caracteriza a região. O crescimento do setor
têxtil no Rio Grande do Norte e no Ceará, e, em menor escala, em Sergipe
e Pernambuco, por exemplo, é tributário da conjunção dos mecanismos de
incentivos fiscais e do custo da mão-de-obra, significativamente menor do
que nas regiões industriais do Centro-Sul. Ao contrário do que ocorreu com
grande parte das indústrias de tecelagem e confecção que operam no Centro-
Sul, as filiais nordestinas de empresas tais como a Vicunha e a Alpargatas
continuaram ampliando as suas vendas depois da abertura das importações.
Verifica-se uma tendência similar no setor calçadista.
No Ceará, estado nordestino que experimentou os maiores índices
de crescimento econômico na primeira metade da década de 90, o apoio do
governo estadual, através da isenção fiscal e dos mais diversos investimentos
em infra-estrutura de transportes tem sido decisivo. Nesse caso, as estratégias
industriais não se restringem ao setor de bens de consumo, como indica a
recente formação de um consórcio entre a CVRD, a CSN e o Grupo Vicunha
– já solidamente implantado no estado – para a implantação da Companhia
Siderúrgica do Ceará, em Pecém, e os projetos de transformar a futura
siderúrgica em fator de atração para montadoras de automóveis e indústrias
de autopeças.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
73
A Zona Franca de Manaus nasceu em 1967, sob a supervisão da
Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), vinculada ao
Ministério do Interior. A isenção total de impostos sobre importação de
máquinas, matérias-primas e componentes e sobre exportação de
mercadorias, aliada ao baixo custo da mão-de-obra local, deveria atrair
grandes empresas transnacionais e nacionais para a fabricação de bens de
consumo duráveis na região.
Devido à Zona Franca, o Estado do Amazonas saltou de 145
indústrias em 1967 para 800 em 1977, sendo 549 localizadas em Manaus.
A participação do estado na produção industrial brasileira saltou de 0,3%
em 1970 para 1,8% em 1985. Em 1987, a Zona Franca representava 75%
do PIB de todo o estado e gerava mais de 120 mil empregos diretos e
indiretos. Grande parte da produção de eletrodomésticos do país
concentrava-se na capital do Amazonas.
As empresas eletroeletrônicas dominam o parque industrial da Zona
Franca, vindo em seguida as mecânicas e as de material de transporte. Os
mercados consumidores são extra-regionais: a produção destina-se ao consumo
nacional e internacional. Os capitais dominantes são transnacionais;
praticamente não se utiliza matérias-primas regionais.
Assim, o processo de industrialização da área é nitidamente artificial.
A política recente de abertura da economia nacional e redução das tarifas
de importação coloca em risco a continuidade de seu desenvolvimento.
Texto Complementar
No texto abaixo, extraído dos ensaios que integram a obra
Desigualdades regionais e desenvolvimento, Clélio Campolina Diniz e
Fabiana Borges Teixeira dos Santos analisam o impacto da emergência de
novas tecnologias produtivas na geografia industrial da Região Sudeste no
Brasil, destacando as estratégias locacionais das indústrias modernas e
apresentando os principais pólos tecnológicos do Estado de São Paulo.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
74
Texto 1 – Reestruturação Produtiva e Mudanças Tecnológicas
O crescimento industrial ocorrido na fase conhecida como “milagre
econômico”, a partir do final da década dos 60 e durante a dos 70, baseou-
se fundamentalmente no padrão industrial e tecnológico anterior, com grande
ênfase em indústria de bens intermediários, altamente intensivas em recursos
naturais, e de bens duráveis de consumo.
A existência de variados mecanismos de incentivos estaduais e
regionais e uma ampla fronteira de recursos naturais, apoiada no avanço da
infra-estrutura, propiciaram um processo de desconcentração para várias
regiões e estados brasileiros.
O crescimento agropecuário, ao contrário, se fez com grandes
transformações estruturais e tecnológicas, especialmente com a incorporação
produtiva dos cerrados. Assim, ao lado do grande crescimento da produção
de grãos nos estados do Sul do Brasil, ocorreu também o movimento da
fronteira em sentido ao Centro-Oeste.
O movimento migratório e os serviços tenderam a acompanhar o
crescimento industrial e agropecuário.
As transformações estruturais em curso alterarão, seguramente, o
sentido regional do desenvolvimento econômico brasileiro.
O processo de reestruturação industrial no contexto internacional e
a abertura da economia pressionam a indústria brasileira a realizar mudanças
tecnológicas e organizacionais que permitam ganhos de produtividade
capazes de prepará-las para enfrentar a competição internacional. Nesse
sentido, as mudanças tecnológicas em curso induzem à expansão os setores
que estão fortemente sustentados na ciência e na técnica, reduzindo a
demanda por recursos naturais. A localização dessas atividades, como
demonstra a experiência mundial, é fortemente influenciada pela existência
de centros de pesquisa e ensino, mercado de trabalho profissional, relações
interindustriais articuladas geograficamente e facilidade de acesso
1
. Por outro
1
Ver Markusen, Ann et alli. 1986. High Tech America: the what, how, where and why of the sunrises
industries. Boston; Allen & Unwin.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
75
lado, essas atividades tendem a reforçar os processos aglomerativos, recriando
os distritos industriais, embora não necessariamente nas velhas e tradicionais
áreas industriais
2
.
No caso do Brasil, acredita-se que a reestruturação produtiva teria
um efeito reconcentrador das atividades industriais, porque as novas
indústrias tenderiam a se localizar na área mais desenvolvida do País,
especialmente no grande eixo que vai da região central de Minas Gerais até
o nordeste do Rio Grande do Sul, embora mantendo-se a desconcentração
relativa da área metropolitana de São Paulo
3
.
Assim, vem ganhando importância a experiência dos novos distritos
industriais, com ênfase em indústrias baseadas em modernas tecnologias.
Levantamentos realizados por Medeiros et alii
4
indicam a existência de
15 cidades com alguma experiência em pólos tecnológicos, embora mais
recentemente tenham sido feitas avaliações pessimistas com relação a esses
casos (Tapia, 1993
5
; Negri e Pacheco, 1993).
Dessas experiências, as mais bem-sucedidas são as localizadas no
Estado de São Paulo, especialmente em Campinas, São Carlos e São José
dos Campos, onde estariam sendo aglomeradas indústrias modernas.
O caso de Campinas é singular. Além da história de pesquisa na
cidade – em virtude do Instituo Agronômico de Campinas, criado em 1887,
do Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal, criado em 1927, do
Instituto de Tecnologia de Alimentos, criado em 1969 – a criação da
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP veio reforçar e redefinir
a posição da cidade como centro de ensino e pesquisa. O papel da UNICAMP
como uma universidade especializada em pós-graduação foi vital para
2
Ver Scott, Aj; Storper, M. (ed.). 1986. Production, work, territory: the geographical anatomy of
industrial capitalism. Boston; Allen & Unwin.
3
Negri e Pacheco questionam esse argumento, alegando que o processo de desconcentração atinge
a maioria das regiões brasileiras. Ver Negri, Barjas e Pacheco, Carlos Américo. 1993. Mudança
tecnológica e desenvolvimento regional nos anos 90. Campinas; Unicamp, mimeo.
4
Medeiros, José Avelino et alli. 1992. Pólos, parques e incubadoras: a busca da modernização e da
competitividade. Brasília; CNPq; IBICT, SENAI.
5
Tapia, Jorge Ruben Biton. 1993. Os pólos tecnológicos no Estado de São Paulo: uma avaliação
crítica. Campinas; [s.n.].
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
76
que a TELEBRÁS decidisse pela instalação do Centro de Pesquisa e
Desenvolvimento (CPqD) naquela cidade, em 1976. Posteriormente, foram
criados o Centro Tecnológico para Informática – CTI, em 1984, a Companhia
de Desenvolvimento Tecnológico – CODETEC, em 1976, o Laboratório
Nacional de Luz Sincroton – LNLS, em 1987, transformando Campinas,
talvez, no mais importante centro de ensino e pesquisa do País.
Baseada nessas condições, e no parque industrial já existente, além
da proximidade geográfica com a área metropolitana de São Paulo, a região
de Campinas vem-se transformando na mais importante nova região industrial
do País. Constituída por uma rede de cidades de porte médio, estabeleceu-se
um corredor industrial entre Campinas e Araraquara, incluindo as cidades de
Campinas e seus satélites, Americana, Limeira, Piracicaba, Rio Claro, São
Carlos e Araraquara, cujo conjunto já alcançava, em 1985, mais de 200 mil
empregos industriais. Além de um parque industrial diversificado e com a
presença de um grande número de filiais de empresas multinacionais, parte
das novas indústrias, especialmente em Campinas e São Carlos, pode ser
considerada de tecnologia moderna, articulada com as instituições de pesquisa
e ensino da região, algumas surgidas como “spin-off” daquelas instituições.
Apesar das críticas aos resultados dessas experiências, apontando o
limite do seu crescimento (Tapia, 1993; Negri e Pacheco, 1993), novas
iniciativas deverão surgir nessas cidades. Caso o Brasil consiga retomar o
crescimento, aquela região certamente se transformará na mais atraente
alternativa locacional para vários segmentos das indústrias de alta tecnologia,
além da expansão de setores já consolidados, a exemplo da metalomecânica.
Outro caso que merece destaque é São José dos Campos, sede de
várias grandes empresas multinacionais que ali encontraram uma alternativa
locacional em razão da sua localização no eixo Rio-São Paulo, das
facilidades da região, da sua proximidade ao Porto de São Sebastião e do
clima ameno das montanhas de Campos de Jordão. A cidade possui ainda a
sede do Centro Técnico Aeroespacial – CTA, instalada na década dos 40, e
a do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA, que transformou São José
dos Campos em uma das cidades mais avançadas no ensino de engenharia
do País. As pesquisas do CTA e de seus institutos coligados desembocaram
na criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica – EMBRAER, em 1969.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
77
Além das instituições de pesquisa ligadas ao setor militar, no início da década
dos 60 foi criado o Instituto de Pesquisas Espaciais – INPE, ligado ao
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq,
que, além das pesquisas correspondentes, criou também os cursos de mestrado
e doutorado em áreas afins.
Com base nas instituições de ensino e pesquisa locais, foi instalado
na cidade um conjunto de atividades industriais, especialmente na linha de
armamentos. Esse fato permitiu que o emprego industrial em São José dos
Campos subisse de 17 mil para 48 mil entre 1970 e 1980, continuando a
crescer até 1987.
No entanto, o fim da Guerra Fria, os efeitos do fim da Guerra Irã-
Iraque e da Guerra do Golfo e as pressões políticas internacionais,
especialmente dos Estados Unidos, contra a exportação de armas pelo Brasil,
aliado à queda da demanda de aeronaves, colocaram a nova indústria de
São José dos Campos em profunda crise conjuntural e estrutural, como
indica a maioria das análises sobre a região (Diniz e Razavi, 1993
6
; Tapia,
1993) (...).
[DINIZ, Clélio Campolina e TEIXEIRA DOS SANTOS, Fabiana Borges.
“Sudeste: Heterogeneidade Estrutural e Perspectivas”. In: AFFONSO, Rui
de Britto Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.). Desigualdades regionais
e desenvolvimento. São Paulo: FUNDAP/UNESP, 1995, p. 212-215.]
5. O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e
as suas Tendências Atuais
O processo de modernização e industrialização da economia
brasileira, acelerado após o término na Segunda Guerra Mundial, subordinou
a agropecuária às necessidades do capital urbano-industrial, definindo
novas funções para a economia rural. A agricultura passou a funcionar
6
Diniz, Clélio Campolina; Razavi, Mohamadi. 1993. Emergence of a new industrial districts in
Brazil: São José dos Campos e Campinas Cases. [s.l.] mimeo.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
78
como retaguarda do crescimento do setor industrial e financeiro. Nesse
sentido, agricultura brasileira está orientada pelo binômio industrialização-
exportação.
A economia rural transformou-se, antes de tudo, em fornecedora de
matérias-primas para as indústrias. As culturas agrícolas que conheceram
um maior desenvolvimento foram aquelas voltadas para a produção de
insumos industriais. A alta lucratividade da produção de insumos
agroindustriais atraiu capitais e investimentos para culturas como as da
laranja (indústria de cítricos), soja (indústria de óleos vegetais) e cana
(indústria de açúcar e álcool combustível). Além de fornecedora de insumos
industriais, a economia rural tornou-se consumidora de mercadorias do setor
industrial. À medida que se voltava para as necessidades da economia urbana,
a agricultura modernizava a sua base técnica, incorporando tratores, arados
mecânicos, colhedeiras e semeadeiras, adubos, fertilizantes e pesticidas.
A modernização da base técnica indica um processo de capitalização
da agricultura que diferencia cada vez mais os produtores rurais empresariais
dos produtores rurais familiares, que não dispõem dos capitais necessários
para o incremento da produtividade.
Esse mesmo processo de modernização implicou a crescente
mecanização das atividades agrícolas, especialmente no Centro-Sul do país.
Em conseqüência, ocorreu intensa liberação de trabalhadores, expelidos da
agropecuária e forçados a procurar ocupação na indústria e nos serviços.
Desse modo, a economia rural comportou-se como fonte de força de trabalho
para a economia urbana.
O mercado externo absorveu uma parcela considerável do aumento
da produção agrícola de insumos industriais. Produtos como a soja, a laranja
(vendida na forma de suco), o fumo e as carnes de aves juntaram-se ao café
como itens exportados de grande peso.
No plano espacial, a ligação entre a modernização da economia e a
capitalização da agricultura se exprime através do preço da terra.
Nas áreas mais urbanizadas e industrializadas, o preço da terra
agrícola é mais elevado, pois a proximidade dos mercados consumidores
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
79
aumenta a concorrência pelo uso da terra. O alto preço da terra, por sua vez,
condiciona o desenvolvimento da produtividade das atividades
agropecuárias: um pesado investimento na aquisição de terras exige lucros
elevados para ser compensador. É por isso que a modernização agrícola se
realiza, em primeiro lugar, no Centro-Sul do país.
Em São Paulo, sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro, Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul, encontra-se um complexo econômico
agropecuário moderno, vinculado às necessidades industriais e altamente
dependente de fluxos financeiros. O Centro-Oeste e as franjas meridionais
e orientais da Amazônia são espaços de expansão da agropecuária moderna
e cada vez mais integrados aos mercados do Centro-Sul. O desenvolvimento
agrícola dessas áreas é reflexo do transbordamento da economia rural dos
estados do Sul e de São Paulo.
A faixa litorânea úmida do Nordeste constitui um espaço singular,
marcado pelo predomínio da agricultura comercial tradicional, organizada
em torno de grandes propriedades e culturas tropicais. Em Pernambuco e
Alagoas, esse sistema de produção está combinado com a agroindústria
canavieira, voltada para a produção de álcool e açúcar. Nas zonas semi-áridas
do Agreste, predomina a pequena produção camponesa de tipo familiar.
As terras distantes dos centros urbanos e industriais e, portanto, dos
mercados consumidores, apresentam preços muito menores. Esse é o
domínio da pecuária tradicional, extensiva, baseada no uso de pastagens
naturais de campos, cerrados ou caatingas e numa baixa densidade de
animais. Nos vales dos rios e junto às estradas aparecem zonas de lavouras
camponesas em pequenos estabelecimentos.
A luta pela terra
A terra é o meio de produção fundamental na economia rural.
A concentração da propriedade da terra é um dos traços marcantes da
economia rural brasileira, cujas origens remontam ao modelo de colonização
aplicado ao território lusitano na América.
De acordo com os dados do Censo Agropecuário de 1995, os
estabelecimentos rurais com menos de 10 hectares somam mais de metade
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
80
do total, mas representam cerca de 2% área agrícola cadastrada no país. No
outro extremo, os estabelecimentos rurais com 1.000 hectares ou mais
representam pouco mais de 1% do total, mas controlam cerca de 45% da
área agrícola.
O sistema das sesmarias, do século XVI, gerou esse padrão
concentrador que se reproduziria ao longo da história do país. Já naquela
época, surgiam os dois personagens básicos da economia rural do país: de
um lado, o latifundiário (sesmeiro), que detinha vasta extensão de terras e
geralmente empregava um contingente numeroso de escravos para a
produção de gêneros tropicais exportáveis; de outro, o posseiro, que ocupava
as terras devolutas, mais afastadas do litoral, dedicando-se à produção de
subsistência e também a culturas alimentares consumidas nos latifúndios.
No século XIX, a introdução do trabalho livre na economia cafeeira
assinalou um momento decisivo na evolução da estrutura fundiária brasileira.
A extinção do sistema de sesmarias, em 1822, originou uma expansão
descontrolada do apossamento de terras. Em 1850, a Lei de Terras veio
frear esse processo, determinando que a única via para o acesso à terra seria
a compra.
A modernização da economia rural teve como conseqüência a
valorização monetária da terra. A valorização da terra, por sua vez, implica
o aprofundamento da concentração da propriedade. A transformação da
produção agrícola nas áreas mais prósperas do Centro-Sul, por exemplo,
realizou-se paralelamente ao englobamento dos sítios pelas fazendas, com
a expulsão dos camponeses pobres para as cidades ou para as fronteiras
agrícolas.
Os trabalhadores rurais expulsos das áreas agrícolas mais antigas
funcionam como vanguarda de expansão das fronteiras da economia rural.
Instalam-se, como posseiros ou pequenos proprietários, em regiões distantes
onde são abertas novas estradas e existem terras devolutas em abundância.
Nessas áreas novas, a estrutura fundiária costuma exibir intensa
fragmentação e a paisagem predominante é a dos sítios e roças familiares.
Depois da instalação dos camponeses pobres, as fronteiras agrícolas
assistem à chegada dos grandes proprietários. Muitas vezes eles são
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
81
precedidos pelos grileiros que, subornando funcionários governamentais e
contratando jagunços e pistoleiros, forjam títulos de propriedade de terras e
expulsam os ocupantes. Outras vezes, grileiros e fazendeiros são um único
personagem. Os conflitos entre grileiros e posseiros são os principais
personagens da violência das regiões de fronteira.
Assim, o crescimento contínuo da área agrícola total se realiza através
de ciclos de desconcentração e reconcentração da estrutura fundiária.
Na década de 60, quando se intensificava a ocupação dos atuais
estados de Goiás e Mato Grosso do Sul, os pequenos estabelecimentos
aumentavam a sua participação na área total enquanto regredia a participação
dos estabelecimentos maiores.
Durante toda a década de 70, ocorria um movimento inverso, de
reconcentração fundiária. Naquela fase, a modernização agrícola em São
Paulo (principalmente com a expansão canavieira) e no Paraná (com a
expansão da soja) eliminava os sítios e expulsava os camponeses pobres.
Ao mesmo tempo, a ocupação das franjas amazônicas (Maranhão, Pará e
Tocantins) realizava-se através da expropriação dos posseiros e implantação
de grandes estabelecimentos pecuaristas ou madeireiros.
Nas fronteiras agrícolas amazônicas, o predomínio do pequeno
estabelecimento camponês ficou praticamente restrito a certas regiões de
Mato Grosso, Rondônia e Acre, onde se estabeleceram migrantes
provenientes da Região Sul.
O processo cíclico de expansão das fronteiras agrícolas e
concentração da estrutura fundiária gera conflitos permanentes e crescentes
pela posse da terra. Tais conflitos vêm se avolumando nas últimas décadas,
configurando um panorama de uma guerra aberta no campo brasileiro.
Texto Complementar
No texto reproduzido abaixo, publicado originalmente na revista
Ciência Hoje, o professor do Departamento de Economia da Universidade
de São Paulo analisa as especificadades do setor agrícola nas economias
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
82
contemporâneas, destacando a importância da produção familiar, traça um
diagnóstico da agricultura brasileira e defende novos rumos para a política
agrária nacional.
Texto 1 – Terra Dividida: Os Equívocos da Política Agrária
É muito comum encontrar na grande imprensa afirmações como esta:
“Claro que a distribuição de terra tem um papel a cumprir, mas sabe-se que o
caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado.” Muita
gente pensa assim. Talvez a maior parte da intelectualidade brasileira seja
vítima desse engano. No entanto, basta examinar os fatos para perceber que o
caminho seguido pelas nações mais desenvolvidas foi exatamente o inverso.
Em todas as agriculturas do Primeiro Mundo, a grande empresa e o
trabalho assalariado tornaram-se apêndices de uma massa de estabelecimentos
de médio porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar. A tal ponto
que grandes fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de
subdesenvolvimento. Na Europa, é fácil encontrar ambos em Portugal,
Espanha ou Grécia, mas é preciso paciência para achá-los na França, na
Alemanha ou na Grã-Bretanha. Na América do Norte, ainda são numerosos
nas áreas próximas ao México, mas tornam-se cada vez mais raros à medida
que se sobe em direção ao Canadá. No Japão, e em suas ex-colônias, só
com uma lupa é possível descobrir assalariados agrícolas. Assim, a crença
de que “o caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho
assalariado” só faz sentido se esse caminho for o do subdesenvolvimento.
Os que vêem a agricultura patronal como o principal agente do
desenvolvimento rural também costumam dizer que “a reforma agrária dos
anos 90 será necessariamente anacrônica, do ponto de vista econômico-
desenvolvimentista, ainda que necessária por motivos éticos e democráticos”.
É claro que o potencial impulsionador de uma reforma agrária no Brasil,
neste final de milênio (se isso fosse possível), não seria igual ao que teria
sido no fim dos anos 50 ou na primeira metade dos anos 60. Até porque
grande parte do capital humano da agricultura foi dilapidado ou destruído
nos últimos 30 ou 40 anos. Muitos dos melhores agricultores já deixaram o
campo ou foram reduzidos a simples safristas. E aos que resistiram não é
oferecida formação profissional adequada aos desafios do século 21.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
83
Ainda assim, pensar que uma verdadeira reforma agrária já não teria
importância econômica contraria a principal lição das reformas desse tipo
bem-sucedidas: nenhuma outra política governamental é tão redistributiva.
Até o Banco Mundial reconhece hoje essa vantagem especial. Foi a reforma
agrária que transferiu aos agricultores de Taiwan o equivalente a 13% do
produto interno bruto de 1952 e aumentou em 33% a renda per capita dos
agricultores da Coréia do Sul. Dizer que “a reforma agrária será anacrônica
do ponto de vista econômico-desenvolvimentista” só faz sentido para quem
supõe que o Brasil pode se desenvolver sem uma drástica desconcentração
da riqueza. O pior é que essa suposição é muito comum, inclusive entre os
que falam e escrevem a favor da redução das desigualdades.
Apesar da força do mito da superioridade da agricultura patronal, a
sociedade brasileira está aos poucos se dando conta de sua absurda
ineficiência distributiva. Não por outra razão, a política agrária ganhou tanta
importância desde 1985. No entanto, o assentamento anual de algumas
dezenas de milhares de ‘sem-terra’ valerá pouco se nada for feito para liberar
o potencial econômico de pelo menos 2 milhões de agricultores familiares
‘com-terra’.
Ações pós-democratização
Com a redemocratização, aumentou bastante a possibilidade de um
trabalhador rural ter acesso a um lote de terra que lhe garanta a subsistência
básica (casa e comida), e bem mais que isso se também tiver acesso a bens
públicos essenciais (como educação e assistência técnica) e a linhas
adequadas de crédito. Na época da ditadura, a saída encontrada pelos
‘excedentes populacionais’ que teimavam em continuar no campo era migrar
em direção à floresta amazônica para tentar formar uma posse. Quantos
conseguiram ninguém sabe.
Só é possível dizer que os programas oficiais de ‘colonização’
atingiram, nos 20 anos de ditadura, apenas 115 mil famílias (média de 5,5
mil famílias por ano). Número equivalente de famílias foi assentado só por
governos estaduais nos primeiros 10 anos de redemocratização, enquanto o
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) atendeu pouco
mais. Ou seja, entre 1985 e 1994 quadruplicou a possibilidade de uma família
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
84
sem-terra ser assentada, desempenho que dará mais um grande salto se as
metas do atual governo forem cumpridas (figura 1).
Figura 1. Agricultores sem-terra assentados pelo governo brasileiro
Período Nº de Famílias Média Anual
1964-1984 Ditadura 115.000 5.500
1985-1989 Governo Sarney 90.000 18.000
1990-1992 Governo Collor - -
1993-1994 Governo Itamar 12.600 6.300
1995-1998 Metas gov. atual 280.000 70.000
A combatividade do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e
sobretudo a simpatia que conquistou nas camadas médias urbanas tornaram
quase certo que nos anos 90 o assentamento de famílias rurais sem-terra
será fortemente acelerado. Mas o verdadeiro impacto dessa aceleração só
pode ser estimado pela comparação dos dados de assentamento com os
dados disponíveis sobre a estrutura agrária. E, antes de tudo, pela comparação
do número de famílias que está conseguindo terra com o número de famílias
expulsas da atividade agrícola.
É crescente a população rural não-agrícola, pois enquanto diminui
o êxodo rural cresce a desocupação agrícola. A estimativa do demógrafo
George Martine, de que cerca de 28,4 milhões de pessoas deixaram a área
rural entre 1960 e 1980, sugere que o êxodo envolveu, nas três últimas
décadas, algo próximo a 300 mil famílias por ano. Mas há fortes indicações
de que o processo começa a se esgotar nos anos 90. O economista José
Francisco Graziano da Silva destacou a mudança na taxa de redução da
população rural, que diminuía 0,6% ao ano na década de 1980 e passou a
diminuir apenas 0,1% ao ano entre 1992 e 1995. A população rural com 10
anos ou mais, que diminuía 0,1% ao ano nos anos 80, aumentou 0,4% ao
ano entre 1992 e 1995. Ao mesmo tempo, os ocupados em atividades
agrícolas, que cresciam 1,1% ao ano nos anos 80, passaram a diminuir 0,9%
ao ano entre 1992 e 1995.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
85
Entre 1992 e 1995, ficaram sem ocupações agrícolas assalariadas
ou por conta própria cerca de 120 mil a 150 mil famílias. Nesse período, as
estatísticas indicam que deixaram essas atividades 280 mil empregados, 12
mil agricultores por conta própria e 24 mil não-remunerados, totalizando
316 mil ocupados – ou seja, entre 126 mil e 158 mil famílias (supondo, em
estimativa otimista, 2 a 2,5 ocupados em cada família). Esse número indica
que estariam saindo da agricultura 40 a 50 mil famílias por ano.
Se o atual governo conseguir assentar 70 mil famílias por ano, estará
mais que compensando a desocupação estimada. Mas o que significa esse
saldo positivo de 20 ou 30 mil famílias por ano em um universo de mais de
6 milhões de famílias? O que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil
lotes familiares de alguns poucos hectares (ha) em uma estrutura agrária na
qual os 530 mil empregadores concentram mais de 75% das terras agrícolas?
Apesar da pobreza das estatísticas disponíveis, pode-se montar, sem grande
margem de erro, um perfil da estrutura agrária brasileira. O saldo positivo
de 20 a 30 mil lotes, com área média em torno de 7 ha, retiraria de 150 mil
a 200 mil ha por ano dos 300 milhões de ha detidos por 500 mil fazendeiros
e os acrescentaria aos 95 milhões de ha em posse das 3,5 milhões de famílias
que trabalham por conta própria. É uma gota no oceano.
A agricultura familiar
No século 20, a agricultura familiar é predominante em todo o
Primeiro Mundo. No Japão, essa situação só se consolidou com as radicais
reformas agrárias do pós-guerra. Mas nos demais países desenvolvidos as
elites dirigentes não demoraram tanto para perceber as desvantagens
econômicas e sociais da agricultura baseada no trabalho assalariado. A ilusão,
na segunda metade do século 19, de que a agricultura adotaria o modelo
‘fabril’ de organização produtiva, como ocorreu na indústria britânica desde
o final do século 18, foi passageira. Desde o início do século 20 as políticas
adotadas em tais países favoreceram a progressiva afirmação da agricultura
familiar.
Nos Estados Unidos, essa opção foi até anterior. Na primeira metade
do século 19 prevaleceu a opinião conservadora: as terras públicas eram
vendidas em grandes glebas, a preços altos e pagas à vista. Imensos domínios
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
86
foram comprados em leilões por muitos especuladores. Mas aos poucos a
atribuição de terras foi liberalizada, em processo doloroso e cheio de idas e
vindas. Durante a Guerra Civil (1861-1865), quando a rebelião dos estados
sulistas deu maioria parlamentar ao jovem Partido Republicano, surgiu a
famosa Homestead Law, que visava distribuir lotes de 160 acres a famílias
de colonos.
De 1870 a 1880 houve verdadeiro boom colonizador na linha
Minnesota-Dakota–Nebraska-Kansas. Na última década do século, os
assentamentos pioneiros já cobriam grande parte do oeste de Nebraska e do
leste do Colorado, assim como o oeste do Kansas. Na luta contra a grilagem
dos barões de gado, pipocaram conflitos entre cowboys e sodbusters,
mundialmente popularizados pelos westerns. Mas nada seguraria a multidão
de sem-terra europeus que cruzou o Atlântico. Eles fixaram-se no noroeste,
em algumas áreas do oeste do Texas e até na Califórnia, onde ficaram com
os piores solos, pois os melhores já haviam sido apropriados nos anos 1850.
O caráter essencialmente familiar da agricultura norte-americana
não parou de se afirmar. Ao contrário do que muitos pensam, as ‘corporações’
são exceção. O último censo agropecuário, de 1992, revela que a participação
destas nas vendas do setor é declinante – apenas 6% (US$ 9,8 bilhões). As
vendas das sociedades de tipo familiar aumentaram, chegando a 21% (US$
34,4 bilhões). Já a tradicional agricultura familiar foi responsável por 54%
da produção comercializada (US$ 87,9 bilhões). Os restantes 19% (US$
30,5 bilhões) vieram de formas societárias não classificadas como familiares
ou patronais. Assim, mesmo a tremenda evolução organizacional da
agricultura daquele país ocorrida neste século não alterou de modo
significativo seu caráter essencialmente familiar.
O Brasil é um dos exemplos mais chocantes da opção inversa: de
desprezo e intolerância em relação à agricultura familiar. Com a exceção
do fluxo colonizador que ocupou o extremo Sul até o sudoeste do Paraná, o
padrão agrário adotado no país teve características semelhantes às do Leste
europeu. Ao contrário da aristocracia britânica, que se livrou de seus
domínios na Primeira Guerra, os senhores do Leste preferiram impedir o
acesso de suas populações rurais à propriedade da terra.
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
87
A rigor, o sistema agrícola brasileiro começou com o complexo
cafeeiro, no final do ciclo britânico (século XIX). Antes, as atividades do
setor não formavam um sistema. O modo como as elites dirigentes aboliram
a escravidão e importaram colonos para as lavouras de café teve o mesmo
sentido histórico da ‘segunda servidão’ do Leste europeu. Houve amplo
pacto para impedir o acesso à terra dos negros e dos imigrantes europeus e
japoneses. Só após a crise de 1929 e a longa depressão dela decorrente, uma
parte dos colonos pôde comprar lotes, postos à venda por fazendeiros falidos.
Mas o imenso excedente populacional formado desde então passou a exercer
forte pressão para ter acesso à terra. No início dos anos 60, as ligas
camponesas nordestinas, junto com os movimentos de sem-terra sulistas,
quase levaram o governo de João Goulart a optar pela agricultura familiar.
A migração como opção
Durante os 20 anos de ditadura militar, a opção da população rural
excedente foi a migração, principalmente para regiões de fronteira, onde
tentavam se fixar como posseiros. No entanto, a política oficial de ocupação
favoreceu o surgimento de grandes fazendas de gado, por meio de incentivos
fiscais, reduzindo o alcance social da corrida ao Oeste. E a escolha da cana-
de-açúcar como única cultura do Proálcool também ajudou os grandes
fazendeiros a avançarem sobre as terras da jovem agricultura familiar do
Sudeste. Assim, em meados dos anos 80, no início da redemocratização,
era flagrante o contraste entre a estrutura agropecuária brasileira e a
experiência dos países que se desenvolveram durante o século 20.
Apesar de tudo, o último retrato da agricultura brasileira, tirado em
1985, revelou que a produção familiar resistiu à opção contrária das elites.
Pode-se dizer que mais da metade dos estabelecimentos agrícolas do país,
naquele ano, eram familiares.
É preciso enfatizar que esses quase 3 milhões de estabelecimentos
familiares não tinham nada a ver com a idéia muito difundida de agricultura
‘de subsistência’. Isso fica bem claro quando se estima a renda monetária
bruta dos estabelecimentos não-patronais (através da simples diferença entre
receitas e despesas agropecuárias). Os níveis médios de renda bruta das
camadas mais representativas da agricultura familiar (em valores para todo
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
88
o Brasil) estavam longe do que se poderia considerar uma agricultura ‘não-
comercial’.
É fundamental examinar também os enormes contrastes regionais.
No Nordeste, apenas um quarto dos estabelecimentos não-patronais tinha
níveis razoáveis de renda bruta e, mesmo assim, bem abaixo dos registrados
nas outras regiões. Já no Norte e no Centro-Oeste, apesar dos bons níveis
de renda bruta, a agricultura familiar ainda revelava a incipiência natural da
dinâmica da fronteira. Ou seja, o caráter ‘comercial’ da agricultura familiar
era mais evidente nas regiões Sul e Sudeste.
Para o estado de São Paulo há dados bem mais recentes. O sociólogo
Ricardo Abramovay mostrou que, em 1991, foi bem alta a participação dos
imóveis rurais ‘não-patronais’ no valor da produção de atividades sem dúvida
comerciais. Mais da metade (52%) do algodão, quase metade (43%) da
soja e 38% do café foram produzidos por imóveis ‘não-patronais’, embora
esse tipo de imóvel ocupasse apenas 34% da área agropecuária paulista e
respondesse por apenas 33% do valor total da produção estadual.
Por isso, a extinção do ICMS sobre exportações pode ter um impacto
imediato e muito efetivo na agricultura familiar. O aumento das exportações
ajudará a manter postos de trabalho, em especial nos segmentos mais
consolidados. Nos Estados Unidos, cada aumento de US$ 1 bilhão das
exportações agrícolas gerava uns 30 mil novos empregos – quase a metade
no próprio setor agrícola (dados de 1984). Pode-se supor que essa relação
seja ainda mais favorável no Brasil de hoje. Além disso, o fim do imposto
também elevou alguns preços pagos ao produtor, já que as indústrias precisam
evitar que suas matérias-primas sejam vendidas no mercado externo. Basta
dizer que até exportações de milho passam a ser competitivas, situação
antes impensável. Segundo cálculos do economista Fernando Homem de
Mello, publicados na revista Exame (11/9/96), a agricultura brasileira verá
sua renda aumentar em até R$ 2,5 bilhões ao ano até o final da década.
Sinais de uma nova agenda
Uma política agrícola específica para a agricultura familiar começou
a emergir com o Decreto 1.946, de 28 de junho de 1996, que criou o Programa
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
89
Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Não é mais
uma simples diferenciação do crédito para ‘pequenos agricultores’. Além
de nova concepção para o financiamento da produção de agricultores
familiares e suas organizações, trata-se de uma estratégia de parceria entre
eles, governos (municipais, estaduais e federal) e iniciativa privada na
aplicação dos recursos, destinados também à melhoria da qualidade de vida,
ao aprimoramento profissional, à adoção de tecnologia, à adequação e
implantação de infra-estrutura e outros objetivos. Em 1996, o programa
recebeu R$ 1 bilhão, dos quais R$ 200 milhões para custeio e R$ 800 milhões
para investimentos.
É muito cedo para avaliar o Pronaf, que mal começou a ser
implantado. Mas ele certamente pode abrir novas oportunidades de expansão
e/ou reconversão produtiva para o maior número possível de imóveis
familiares com chances de consolidação. No entanto, no âmbito das políticas
agrícolas e agrária, desenvolver a agricultura familiar exigirá que o Pronaf
seja aprofundado e ampliado em três domínios prioritários: educacional,
fundiário e creditício.
No domínio educacional, é necessário mudar o padrão tecnológico.
O padrão da ‘revolução verde’, que orientou a chamada ‘modernização
conservadora’, está sendo substituído por outro, como reação à forte pressão
pela preservação ambiental. Mas o novo padrão não poderá, como o antigo,
ser resumido a um mero ‘pacote’ acompanhado de receitas simples sobre o
uso de insumos básicos. É preciso reforçar o caráter ‘versátil’ da atividade
agrícola, tendo como principal insumo o conhecimento, e o ambiente
educacional hoje disponível para os agricultores não é capaz de acompanhar
essa mudança. Tal ambiente inclui (a) o ensino regular básico oferecido em
escolas rurais, (b) a quase inexistente formação profissional e (c) as redes
de extensão e/ou assistência técnica e suas relações com o sistema de
pesquisa agropecuária.
No domínio fundiário, é importante favorecer a aquisição de terras
por jovens agricultores familiares com boas perspectivas profissionais, e
simultaneamente permitir diversas formas de planejamento e gestão sócio-
ambiental do espaço agrário. É muito comum que terras ofertadas por
agricultores que mudam para outra região ou deixam a atividade (caso típico
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
90
dos que se aposentam sem sucessores) sejam adquiridas por agentes não-
agrícolas (comerciantes, imobiliárias, profissionais liberais e outros) ou
grandes fazendeiros, sem qualquer oportunidade de compra pelos que mais
precisam delas: os agricultores vizinhos. A sociedade ganharia mais se fosse
aumentada a chance de transferir essas terras a agricultores familiares,
principalmente aos jovens.
Para que esse tipo de ordenamento agrário seja eficaz, os governos
federal e estaduais devem ter papel estritamente normativo. As decisões
operacionais devem ser tomadas em nível intermunicipal, com participação
ativa das organizações civis locais. Ou seja, a evolução agrária de uma
microrregião deve ser controlada pela sociedade, através de organizações
locais (governamentais e não-governamentais). Mas para isso é imprescindível
que tais iniciativas tenham legitimidade e sejam realmente capazes de intervir
no mercado de terras rurais.
No domínio creditício, uma forma decisiva de apoio seria a criação
de uma linha especial de crédito de investimento dirigida ao jovem agricultor
familiar. Isso significa financiar de forma direta o ‘desenvolvimento global
integrado’ – ou seja, expansão, reorientação ou reconversão do sistema de
produção – de estabelecimentos familiares dirigidos por jovens agricultores
de reconhecida capacidade profissional.
[VEIGA, José Eli da. “Terra dividida – os equívocos da política agrária”.
In: Ciência Hoje, SBPC, agosto de 1998, p. 26-31.]
6. Exemplos de Questões
Concurso de 1997
“Há décadas, o Estado de São Paulo responde por cerca de 45% do
valor da transformação industrial gerado no Brasil, o que expressa o
grande nível de concentração da atividade no território nacional. Sabe-
se, também, que a produção de café foi a grande responsável pelo
povoamento e estruturação territorial dessa unidade da Federação.
Relacione os dois fatos.”
A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL
91
“O padrão contemporâneo de produção industrial é denominado por
vários autores de ‘pós-fordismo’. Explique o que caracteriza tal padrão,
quais são as suas inovações em relação ao anteriormente vigente e quais
suas repercussões sobre a localização das indústrias no Brasil.”
Concurso de 1998
“A soja aparece como um dos principais produtos agrícolas na pauta de
exportações brasileiras nas últimas décadas. Analise a trajetória de
difusão, pelo território brasileiro, das plantações desse produto e os
sistemas de produção predominantes em cada área produtora, e indique
seus portos de escoamento para o exterior.”
“A existência de frentes pioneiras tem sido uma constante no decorrer
da história brasileira. Os fundos territoriais sob soberania do país são,
porém, finitos. Comente essa relação, tentando fornecer prognósticos e
delinear cenários sobre a matéria nas próximas décadas.”
Concurso de 1999
“Diferencie ‘Amazônia’, ‘Região Norte’ e ‘Amazônia Legal’, e comente
a principal característica observável no padrão de ocupação dessa região.”
7. Bibliografia
Bibliografia Básica
BECKER, Berta e EGLER, Cláudio. Brasil, Uma Nova Potência Regional
na Economia Mundo. Rio de Janeiro: Bertrand, 1993.
BECKER, Berta et alli. Geografia e Meio Ambiente no Brasil. São Paulo:
Hucitec, 1995.
CASTRO, Iná E. de, GOMES COSTA, Paulo C. da e CORREA, Roberto
L. (orgs.). Questões atuais da reorganização do território. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
92
LAVINAS, Lena et alli. Reestruturação do Espaço Urbano e Regional no
Brasil. São Paulo: Hucitec/ANPUR, 1993.
SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1994.
Bibliografia Complementar
AFFONSO, Rui de Britto Álvares e SILVA, Pedro Luiz Barros (org.).
Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo: FUNDAP/
UNESP, 1995.
ANDRADE, Manuel Correa de. A Questão do Território no Brasil. São
Paulo: Ipesp/Hucitec, 1995.
CASTRO, Iná Elias de et alii (org). Redescobrindo o Brasil: 500 anos depois.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
CORREA, Roberto L. Região e Organização Espacial. São Paulo: Ática,
1987.
MAGNOLI, Demétrio. O Corpo da Pátria. São Paulo: Moderna/Edusp,
1997.
OLIVEIRA, Ariovaldo U. de. A Agricultura Camponesa no Brasil. São
Paulo: Contexto, 1992.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
93
UNIDADE III
O BRASIL NO CONTEXTO
GEOPOLÍTICO MUNDIAL
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
94
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
95
III. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO
MUNDIAL
A realidade mundial contemporânea é marcada por revolucionárias
transformações de ordem científica e tecnológica e pela crescente integração
das economias nacionais. Segundo muitos autores, a transnacionalização
da economia e a globalização das relações de produção figuram, ao mesmo
tempo, como causa e conseqüência desse conjunto de transformações.
No âmbito econômico, o processo de globalização é resultado da
intensificação dos fluxos de mercadorias, capitais e informações entre os
mercados nacionais. O crescimento do comércio internacional de
mercadorias e serviços, estimulado por políticas liberais de redução das
barreiras alfandegárias, dissemina por todo o planeta as tecnologias e os
produtos da nova revolução industrial. Os investimentos no exterior
mundializam as cadeias produtivas sob o comando de grandes corporações
transnacionais, enquanto um enorme volume de capitais circula entre os
principais mercados financeiros, conectados em escala global. A circulação
de informações define padrões mundiais de consumo e difunde as marcas
das empresas globalizadas. A configuração de blocos econômicos
transnacionais é um também um aspectos da globalização da economia
mundial: a ampliação dos mercados consolidada por meio daqueles opera
no sentido de ampliar a competitividade das empresas que concorrem no
mercado mundial.
No âmbito geopolítico, a globalização acelera-se desde meados da
década de 80, com a implosão das economias planificadas da União Soviética
e Europa Oriental e com a abertura da China Popular aos investimentos
internacionais. Esses eventos possibilitaram a extensão da economia de
mercado para novos espaços geográficos.
O processo de transnacionalização da economia alterou de forma
substancial a trajetória histórica da industrialização brasileira e as relações
do país com a economia mundial. A consolidação do Mercosul, definido
pelo embaixador Celso Lafer como “uma plataforma de inserção competitiva
numa economia que, simultaneamente, se globaliza e se regionaliza em
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
96
blocos”, gera novas dinâmicas de comércio e investimento no Cone Sul,
em um contexto marcado pelas políticas de cunho liberalizante e pela
inserção do Brasil nas cadeias produtivas globalizadas.
Para compor a presente Unidade, foram selecionados trabalhos que
conceituam e problematizam os novos paradigmas de produção e consumo
em escala mundial, e que abordam relações entre eles e a realidade brasileira.
1. Transnacionalização da Economia e Globalização das
Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as
Novas Tendências Geopolíticas em Escala Global
A economia mundial de mercado conheceu um ciclo longo de forte
crescimento nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. As
décadas de prosperidade se apoiaram na reconstrução e ampliação estruturas
produtivas baseadas em tecnologias tradicionais, principalmente
eletromecânicas. A utilização intensiva de energia e matérias-primas assim
como a absorção crescente de força de trabalho semi-qualificada em linhas
de produção sustentaram uma oferta ampliada de mercadorias destinadas a
mercados consumidores em expansão. Em grande parte, esse ciclo de
crescimento pode ser tributado à reconstrução das estruturas produtivas da
Europa Ocidental e do Japão e à abertura de filiais de empresas transnacionais
em países até então de baixa industrialização, tais como o Brasil, o México
e a Argentina.
Os Estados Unidos exerceram uma hegemonia econômica quase
absoluta durante o ciclo longo de crescimento. Os empréstimos de capital
norte-americanos, canalizados através do Plano Marshall (1948-52),
desencadearam a reconstrução européia. O mercado consumidor norte-
americano absorveu grande parte das exportações que sustentaram o
reerguimento japonês. As corporações transnacionais norte-americanas
lideraram os investimentos industriais no resto do mundo e impulsionaram
a formação de grandes parques industriais na periferia capitalista, em especial
na América Latina. O dólar funcionava como moeda mundial e, até o início
da década de 70, mantinha paridade fixa com o ouro.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
97
Esse ciclo de prosperidade só seria interrompido na década de 70.
A elevação brutal dos preços do barril de petróleo resultante dos dois
“choques” protagonizados pela Organização dos Países Exportadores de
Petróleo (OPEP) gerou recessão e desemprego, mas sinalizou mudanças
estruturais no paradigma tecnológico dos países desenvolvidos.
Os fundamentos técnicos da era industrial emergente repousam sobre
a automatização e a robotização e sobre a utilização menos intensiva de
matérias-primas e energia. A informática, as telecomunicações, a
biotecnologia, a robótica e a química fina desenvolvem mercadorias
revolucionárias, utilizando mão-de-obra altamente especializada, novas
matérias-primas e novos materiais sintetizados em laboratórios. A contínua
incorporação de tecnologias de ponta no processo produtivo implica
investimentos de alto custo em produtos que rapidamente se tornam
obsoletos, o que exige uma ampliação da escala dos mercados.
Nesse contexto, a integração do mercado mundial ameaça diluir
os limites representados pelas barreiras nacionais, configurando,
simultaneamente, um processo de globalização e de regionalização. Após
longos decênios de preparação, a União Européia se transformou em uma
união econômica e monetária, com a adoção de uma moeda única. Em junho
de 1990, o presidente norte-americano George Bush lançou a Iniciativa para
as Américas, uma proposta de unificação dos mercados do continente. Em
agosto de 1992, foi assinado o Acordo de Livre Comércio da América do
Norte (Nafta), unindo Canadá, México e Estados Unidos em um poderoso
mercado comum. Os investimentos industriais japoneses, que disseminam
as cadeias produtivas pelas economias do Sudeste Asiático, a seu turno,
ajudam a soldar a integração econômica dessa região do mundo.
Ao mesmo tempo, as inovações tecnológicas se difundem com
rapidez inusitada, através de computadores pessoais e redes de informação
conectadas por satélites e cabos de fibra óptica. O período técnico-científico
é também a era da informação e da simultaneidade dos eventos. De acordo
com o geógrafo Milton Santos:
Durante milênios, a história do homem faz-se a partir de
momentos divergentes, como uma soma de aconteceres dispersos,
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
98
disparatados, desconexos. Já a história do homem de nossa geração
é aquela em que os momentos convergiram, o acontecer de cada
lugar podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro,
graças a esse domínio do tempo e do espaço em escala planetária.
A instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares,
torna possível uma tomada de conhecimento imediata de
acontecimentos simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos
uma relação unitária à escala do mundo. Hoje, cada momento
compreende, em todos os lugares, eventos que são independentes,
incluídos em um mesmo sistema global de relações. [In: SANTOS,
Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 162.]
O espaço global da “era da informação” é polarizado pelas cidades
onde se concentram as sedes das instituições que controlam as redes mundiais:
bolsas de valores, corporações bancárias e industriais, companhias de comércio
exterior, empresas de serviços legais e financeiros, agências públicas
internacionais. As “cidades globais”, tais como Nova Iorque, Londres ou
Frankfurt, funcionam como centros de tomada de decisões capazes de afetar
a organização de territórios em escala continental ou mundial.
Revolução técnico-científica e mercado de trabalho
A revolução técnico-científica gerou impactos profundos na oferta
de empregos nos países desenvolvidos. O quadro mais dramático é, sem
dúvida, o da União Européia, onde as taxas de desemprego duplicaram
entre 1976 e 1985, saltando de 5% para 10% da população ativa, e
permanecem estagnadas nesse patamar. As elevadas taxas de desemprego
entre os jovens (15 a 24 anos) – em torno de 25% na França, 30% na Itália
e 40% na Espanha – revelam a existência de um quadro estrutural de
descompasso entre o crescimento das economias e a geração de novos postos
de trabalho.
Para muitos analistas, a explosão do desemprego na Europa é, em
parte, resultante da redução da oferta de empregos nos setores industriais
tradicionais – tais como a construção naval, a siderurgia e o têxtil – e da
rígida regulamentação do mercado de trabalho que caracteriza a maior parte
de suas economias. O caso do setor têxtil é bastante significativo. Trata-se
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
99
de um setor industrial de trabalho intensivo, pois emprega grandes
quantidades de mão-de-obra, e o peso dos salários no custo final das
mercadorias é expressivo. Essa circunstância explica a tendência mais ou
menos recente de deslocamento das indústrias têxteis e de confecções para
locais onde os salários são mais baixos. Entre 1970 e 1990, por exemplo,
enquanto na Alemanha o número de trabalhadores do setor caiu de 400 mil
para 150 mil, a China, a Índia, o Paquistão e Taiwan conheceram um grande
incremento no número de pessoas ocupadas, na produção e na capacidade
exportadora do setor.
Nos Estados Unidos, onde o mercado de trabalho é muito mais
flexível e comporta diversas formas de trabalho temporário, as taxas de
desemprego recuaram de 7,6% em 1976 para 4,7% em 1998, apesar da
introdução de tecnologias poupadoras de mão-de-obra tanto no setor
secundário quanto no setor terciário. No Japão, apesar das tradição de
empregos vitalícios, as taxas de desemprego apresentaram tendência de
crescimento durante toda a década de 1990, tendo saltado de 2,1% para
3,6% da PEA entre 1990 e 1998.
Texto Complementar
No artigo reproduzido abaixo, o embaixador Rubens Ricúpero
problematiza o próprio conceito de globalização, analisando a inserção do
Brasil na economia mundial em uma perspectiva histórica e apontando as
alternativas do país frente às transformações em curso na economia e na
política mundial.
Texto 1 – As Sereias da Globalização
Ao se aproximar dos 500 anos, o Brasil vive crise inédita, que não
só aumenta para seu povo a carga acumulada de sofrimentos herdada de
episódios anteriores, mas pela primeira vez é percebida de fora como ameaça
à estabilidade da economia-mundo.
Nada ilustra melhor como o aumento da interdependência tornou
tudo o que é nacional e local relevante para o mundo e, em grau muito
maior, tudo o que é global relevante para as comunidades nacionais e locais.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
100
Aliás, a própria essência íntima desta crise consiste precisamente
na inter-relação país-mundo. A fim de resolver problemas basicamente
nacionais – a deriva para a hiperinflação – valorizou-se a moeda como
instrumento para pôr a economia internacional a serviço da conquista de
objetivo doméstico. O barateamento das importações ajudou a segurar os
preços internos, mas ao custo de crescentes déficits comerciais e em contas
correntes, cobertos por outra contribuição internacional, os investimentos e
financiamentos estrangeiros.
No momento em que a crise iniciada na Ásia aumenta o temor do
risco dos mercados emergentes e põe fim à conjuntura de liquidez abundante,
o país é forçado a uma contração violenta para se ajustar às novas condições
mundiais. É como se, tendo tentado transferir a bomba-relógio dos nossos
problemas para o mundo, este agora nô-la tivesse devolvido no instante em
que a contagem se acerca do ponto crítico e a bomba ameaça explodir em
nossas mãos.
Traduzida assim em seus elementos fundamentais, a situação atual
não passa de manifestação a mais do “estrangulamento do setor externo”,
velho conhecido nosso que, sob formas diversas e a intervalos quase
regulares, acompanha-nos desde a Independência. Não deixa, nesse sentido,
de ser curiosa e melancólica a coincidência de que em 1898, 100 anos atrás,
aquele fim-de-século terminava como este: a assinatura por Campos Sales
do funding-loam, o acordo com os credores a fim de evitar a bancarrota,
com condições e conseqüências parecidas de aumento de impostos, violenta
deflação interna, falências em cadeia de empresas de todo o tipo. A diferença
é que então tudo se passava em Londres, com o Banco Rothschild à frente
e o Tesouro britânico discretamente atrás das cortinas, e hoje os negociadores
brasileiros partem para Washington a fim de tratar com o FMI, tendo na
retaguarda o Tesouro norte-americano em postura mais ostensiva e declarada
(contrariando o provérbio inglês segundo o qual “se você trouxe o cachorro,
não é preciso latir no lugar dele”).
Se não faltam, portanto, precedentes para o garrote que nos sufoca,
o que haveria de novo na sombra que se projeta sobre as comemorações do
V Centenário do Descobrimento?
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
101
O que mudou foi, em primeiro lugar, o tamanho da economia
brasileira e a simultaneidade de sua crise com a reação em cadeia que ameaça
até os mercados financeiros mais avançados. Muito mais do que por ocasião
do problema da dívida externa latino-americana a partir de 1982, o naufrágio
do Brasil pode agora afogar muito passageiro de Primeira Classe. É o medo
do contágio geral que explica a sensibilidade maior revelada neste episódio
pelo Fundo Monetário, o Tesouro dos EUA ou o G-7.
A outra diferença é que as condicionalidades a serem impostas no
pacote de resgate irão certamente estreitar ainda mais a margem de manobra
brasileira, já reduzida de modo substancial pelas limitações oriundas dos
acordos da Rodada Uruguai e outras iniciativas de igual inspiração a pretexto
dos imperativos da globalização, reais ou supostos.
É esse o aspecto que nos interessa explorar aqui: até que ponto a
integração do Brasil na economia globalizada condiciona, facilita ou dificulta
a integração do próprio país? É ainda possível cogitar de projeto nacional
em contexto de crescente e intrusiva interdependência? Existirá lugar hoje
para afirmar a identidade nacional diante da tendência à uniformização de
padrões?
Globalização e autonomia nacional
A questão se desdobra em dois problemas que, em termos algo
esquemáticos, podem ser definidos da seguinte forma. O primeiro, de
natureza mais econômica e social, é o da inserção ou marginalização em
relação à economia global. Há um caminho único para essa inserção, que
obriga a abdicar de veleidades de autonomia nacional em favor da aceitação
de modelos e regras de validade universal? Ou existirão caminhos e
modalidades distintas de inserção que admitem levar em conta valores e
objetivos particulares sem comprometer basicamente a meta de alcançar os
benefícios de escala da economia de dimensão planetária?
O segundo problema possui caráter sobretudo político e cultural e é
geralmente descrito como o perigo da perda de identidade cultural diante
da imposição maciça, por meio das telecomunicações e da indústria
audiovisual, de padrões e mentalidades características da cultura
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
102
hegemônica, a norte-americana e, por extensão, a ocidental. Estaremos
condenados à uniformidade da cultura popular de massa, com gostos e
preferências indiferenciados que se estenderão do fast food à música, dança
e literatura? Ou podemos esperar que o aumento da comunicação entre
povos e culturas produza o enriquecimento da inter-fertilização de estilos,
a diversidade dentro de uma unidade alargada e fecundada por aportes
diferentes?
É impossível avançar muito nessa investigação se não se começar
por esclarecer o que temos em mente quando falamos em globalização,
expressão das mais ambíguas e enganadoras, significando coisas diversas
para interlocutores diferentes. Sem intenção de ser exaustivo ou
particularmente rigoroso, pode-se dizer que existem duas maneiras básicas
de encarar a globalização: como fenômeno histórico ou como ideologia.
Na primeira acepção, tenta-se apreender e descrever de modo tão objetivo
quanto possível, abstendo-se de juízos de valor, o que se passa no domínio
da realidade, dos fatos sob exame, avaliando, como em todo fenômeno
histórico, os elementos de continuidade e os de ruptura com o passado.
A segunda abordagem pretende deduzir comportamentos e normas a partir
do que julga captar da realidade. É prescritiva, normativa, tombando com
freqüência na doutrinação, na imposição de caminhos. Torna-se então
prescrição ou conselho sobre a melhor ou a única política a seguir a fim de
ter êxito, isto é, na prática concreta, a recomendação de que todos os países
adotem políticas de liberalização rápidas e radicais como meio mais seguro
de integração à economia internacional.
Esse tipo de interpretação desfigura a globalização de quatro
maneiras principais. Pelo reducionismo: reduzindo-a a um só ou a alguns
poucos dos seus diversos elementos constitutivos, quase sempre de natureza
econômica, comercial ou financeira, esquecendo ou minimizando
componentes políticos, sociais, culturais. Pelo determinismo: considerando
como mecânico, automático, irresistível, como a “tirania dos fatos”, a
imposição obrigatória de novas relações de produção geradas pela tecnologia,
que decorre na verdade mais das escolhas dos homens ou dos interesses
dos poderosos. Pelo conformismo: pretendendo que a uniformidade cultural
e a falta de alternativas nos forçam a aceitar, queiramos ou não, uma só e
invariável solução, a recomendada pelo pensamento “único”. Pelo anti ou
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
103
a-historicismo: afirmando que se trata de fenômeno inteiramente novo, sem
precedentes históricos, essencialmente “outro”, diferente em relação ao
passado.
Ao contrário dessas simplificações, a globalização é sobretudo
processo de natureza cultural e histórica, abarcando muito mais que os
componentes econômicos. Em todas as suas etapas, ela tem sido produto
de revolução no domínio cultural, que se exprime em geral pela superação
de novas fronteiras científicas e tecnológicas, tornando possíveis formas
inéditas de dominação política ou produção econômica (...).
Da perspectiva que nos interessa, a globalização se confunde em
boa medida com a expansão do Ocidente e tem seu ponto de partida nas
grandes viagens marítimas de descoberta dos séculos XV e XVI (...).
A afirmação e dominação ocidental, acompanhada de adicional
salto de intensidade, vai conhecer segunda fase no século XVIII, de
novo introduzida por revolução cultural no campo da ciência e da
tecnologia (...).
Vivemos hoje a terceira fase desse processo, como as demais
impulsionada por transformações culturais e científicas, particularmente as
conquistas em matéria de eletrônica, de computadores, de telecomunicações.
Diversamente das modificações anteriores, limitadas à energia e à matéria,
a atual é uma transformação do tempo e do espaço, a aceleração do tempo
e o encolhimento do espaço, duas mudanças que fazem os homens e as
culturas mais próximos e conscientes reciprocamente.
Mas, se ainda uma vez a revolução científica e tecnológica está na
raiz desta nova etapa, seu efeito integrador foi acelerado por uma ruptura
política decisiva. A queda do muro de Berlim, a desintegração da União
Soviética, a liquidação dos regimes comunistas na Europa Central e Oriental,
a unificação da Alemanha, são acontecimentos que põem fim à
heterogeneidade ideológica introduzida pela Revolução Bolchevista de 1917
e criam clima favorável à crescente convergência em termos de legitimidade
política e de formas de organização social e econômica.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
104
As inovações tecnológicas aceleram a velocidade e o barateamento
dos transportes e das comunicações, lançando as bases para o aparecimento
da economia globalizada. A concepção, o desenho e a fabricação dos
produtos perdem o caráter integrado dentro de uma economia puramente
nacional para se tornarem atividades que podem ser parceladas em segmentos
a serem executados geograficamente em países diferentes e depois montados
segundo a lógica dos custos. Os mercados comerciais se unificam com a
queda das barreiras. No livro “Being Digital”, Nicholas Negroponte usa a
expressão “bits versus atoms” para explicar que as transações internacionais
consistem cada vez menos em matérias (átomos) atravessando fronteiras
nacionais e cada vez mais de “bits” (de informação) que fluem de um
computador a outro, de um a outro celular ou de um satélite a uma estação
terrestre. Começa-se a utilizar a Internet não só para concluir operações
comerciais mas até para entregar um produto quando seu caráter é não-
material (programa de software, projeto de arquitetura, de cálculo, de
engenharia, parecer jurídico ou de consultoria, auditoria contábil, campanha
de publicidade, textos literários, música, arte). Isso tudo possibilitou o
aumento fantástico da circulação de recursos financeiros e a velocidade das
operações com moedas estrangeiras. É o predomínio do capitalismo
financeiro e sua desvinculação parcial do mundo real da indústria e do
comércio, a exacerbação do espírito de especulação, acarretando crises
financeiras e monetárias cada vez mais freqüentes e destrutivas. Essa
nova economia é: 1º) de alta velocidade; 2º) de alta intensidade em
conhecimento e já não mais em capital, mão-de-obra e recursos naturais;
3º) predominantemente transnacional; 4º) extremamente competitiva.
Como resultado do impacto dessas transformações, os últimos
bastiões do isolamento tombam um após o outro: Vietnã, Cambodja,
Birmânia, Mongólia. O espaço econômico se unifica em escala planetária
para o comércio, os investimentos das empresas transnacionais, os fluxos
de empréstimos, de operações monetárias. A Internet cria a possibilidade
de organizar campanhas sobre direitos humanos, meio ambiente, questões
trabalhistas de um canto ao outro da Terra. Parece que chegamos ao fim de
“5.000 anos de solidão”.
Pode-se talvez objetar que esse conceito de globalização é abrangente
demais e o dilui a ponto de confundi-lo com a evolução do capitalismo ou
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
105
da expansão do Ocidente. Penso, ao contrário, que somente essa visão
braudeliana concilia e equilibra ruptura e continuidade, o inédito de certos
eventos contemporâneos (o impacto da eletrônica, das telecomunicações, a
queda do muro de Berlim) e a continuidade do fluxo majestoso das correntes
profundas que caracterizam os ciclos seculares, de longa duração, a história
gêmea, de meio milênio, do capitalismo e do Ocidente.
A questão não é de interesse meramente acadêmico. A abordagem
de largo fôlego facilita desmascarar imposturas ideológicas que se valem
do falso argumento da absoluta excepcionalidade do momento atual.
Exemplo claro é o da tentativa interesseira de fazer aceitar a idéia de que
globalização e liberalização são termos sinônimos e intercambiáveis,
utilizando-se a eqüivalência para exigir aos países que se liberalizem sem
condições sob pena de ficarem à margem da globalização. O raciocínio cai
rapidamente por terra quando se assinala que, em outras fases da
globalização, na era vitoriana, entre 1870 e 1914, não só o nível de
liberalização igualava ou superava o atual em comércio e investimentos,
como era incomparavelmente mais acentuado em matéria de mobilidade de
mão-de-obra e de tecnologia. Foi nessa época que 50 milhões de europeus
imigraram para as Américas e a Oceania, sem contar os milhões de coolies
asiáticos. Esse era também o tempo em que se podia imitar ou copiar muito
mais facilmente invenções, livros, músicas.
Hoje, no auge da neoglobalização, exacerbou-se a liberalização
comercial, financeira, de investimentos, mas paradoxalmente registra-se
retrocesso nítido em política de imigração e tendência cada vez mais restritiva
ao reforço dos monopólios de exploração de patentes e outras formas de
restringir o acesso à propriedade intelectual. Em relação a esses dois fatores
de produção, o trabalho e a tecnologia, não existe nada que se assemelhe à
liberalização a toque-de-caixa promovida no tratamento do capital e do
comércio. No caso da tecnologia, está se tornando difícil e até impossível
comprar certas tecnologias sensíveis consideradas essenciais para assegurar
o domínio do mercado pelas empresas que as controlam. E isso ocorre
justamente quando o acesso ao conhecimento e à informação passou a ser o
fator decisivo do desenvolvimento.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
106
O Brasil, produto da globalização
Devido à democracia semi-direta, como na Grécia antiga, e à milícia
formada por todos os cidadãos, diz-se que a Suíça não tem exército, a Suíça
é um exército. Da mesma forma, pode-se afirmar que o problema do Brasil
não é a falta de integração à globalização, mas o caráter subalterno e
dependente de uma integração existente de velha data. Isto é, o problema
brasileiro não é pouca globalização, a quantidade, mas a qualidade do
fenômeno, a velha questão de ser “Cavalcanti ou cavalgado”.
De fato o que é o Brasil senão o fruto da expansão do capitalismo
mercantil do Ocidente? Sua invenção ou achamento, como então se dizia, é
episódio, intencional ou não, da segunda viagem da carreira das Índias e,
por mais de 30 anos após a descoberta, ele continuou como aguada e porto
de abastecimento de frutos e legumes frescos para os navios do Oriente.
É mesmo dos raros países batizados com o nome de um dos produtos
exóticos de que era guloso o mercantilismo, o pau-brasil. Sua população,
produto da mistura das “três raças tristes”, não teria existido sem as
migrações européias e asiáticas bem como o tráfico de africanos, elementos
integrantes da globalização. Todos os seus ciclos econômicos, do açúcar ao
café (e, pode-se acrescentar, à soja ou suco de laranja), nasceram, cresceram
e definharam à sombra do comércio global. A Independência é outro episódio
do mesmo movimento de longa duração, só que agora na fase do capitalismo
da Revolução Industrial, com seu horror ao monopólio mercantil das
metrópoles e a exigência de abertura dos portos. A guerra e o reconhecimento
da Independência foram financiados por empréstimos globais da praça de
Londres, semente da dívida externa que desde então não cessou de aumentar.
O Brasil partilha, é verdade, essa certidão de nascimento e de
maturidade com os demais “países novos” das Américas e alguns outros
(Austrália, Nova Zelândia). Ela não deixa, contudo, de ser característica
singular como genealogia e não pode ser estendida aos velhos países do
Ocidente ou do Oriente, próximo ou remoto, cuja identidade já se encontrava
definida em suas linhas mestras antes que a primeira caravela tocasse o mar
com sua quilha. Nem a China, a Índia, o Japão, a Arábia, a Pérsia cabem
nesse molde, e tampouco nele se enquadram a Rússia, a Alemanha, a
Inglaterra, a França, a Itália, a Espanha ou Portugal.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
107
Em nosso caso, como mostrou José Guilherme Merquior, a inserção
na economia mundial foi a condição mesma que tornou possível a
preservação, por período quase secular, do tipo de organização econômica
e social geradora de desequilíbrios e desigualdades que, até hoje, constituem
o obstáculo principal à realização do país como unidade coesa e integrada.
Em sua última conferência em Paris, em fins de 1990, poucas semanas
antes de morrer, José Guilherme descrevia como o projeto de Brasil de José
Bonifácio se vira suplantado pelo que chamava de modelo liberal-
oligárquico, que iria se estender de 1850 a 1930. Prolongamento da estrutura
herdada da colônia e sustentado no latifúndio (o sistema de plantation) e na
escravidão (mais tarde no assalariado rural miserável), esse modelo só podia
subsistir graças ao fornecimento de produtos tropicais de exportação (açúcar,
café, cacau) para os mercados externos junto aos quais funcionava como
apêndice e complemento perfeitamente integrado na divisão internacional
de trabalho. Seu efeito duplamente concentrador da riqueza e da renda, por
meio de propriedade da terra e do trabalho não-remunerado, moldou
perduravelmente a realidade do que Joaquim Nabuco chamava de “país
sem povo”, pois um povo verdadeiro deveria ser formado por homens livres.
O exemplo revela claramente que não é qualquer tipo de inserção
no comércio e na economia globais que contribui para metas desejáveis de
progresso social e econômico. É até paradoxal observar como certos países
latino-americanos, que estiveram um tanto à margem da economia mundial
do século XIX, devido à sua pobreza de produtos cobiçados pelos mercados
da época, emergiram dessa experiência com perfil de desenvolvimento
modesto mas menos distorcido pelas desigualdades monstruosas dos
“sucessos” de então. Pense-se, por exemplo, na Costa Rica, nação de
agricultores de classe média, comparada com a opulenta Cuba do açúcar e
do tabaco (e dos escravos). Ou o Chile remediado, confrontado ao Peru dos
oligarcas. O panorama não é diferente entre nós. Basta lembrar da província
fluminense dos barões de Vassouras, do Comendador Breves, com seus
milhares de escravos, de um lado, e de Santa Catarina das pequenas e médias
propriedades, da colonização européia, por outro. Ou mesmo no Nordeste,
Pernambuco e Alagoas do açúcar e dos senhores de engenho e das taras
políticas e sociais produzidas pelo contraste de dominação e sujeição, em
cotejo com Estados que nunca gozaram de grande prosperidade no passado,
como Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe, que hoje se mostram mais aptos
a produzir setores empresariais modernos.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
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A verdade é que o tipo de inserção de que o Brasil longamente
desfrutou, economia de exportação do setor primário, concentrou o avanço
tecnológico e a riqueza apenas nesse segmento estreito da população, com
muito pouco transbordamento e efeito multiplicador para o resto. As
Províncias e regiões, do Pará da borracha ao Rio do café, passando por
Pernambuco do açúcar e pela Bahia do cacau, estavam vinculadas às praças
estrangeiras de onde tudo importavam, mantendo entre si contatos
econômicos de pouca densidade, dificultados adicionalmente, na época da
navegação à vela, pelo problema dos ventos da contra-costa do Nordeste.
Se era raso o nível de interação econômica entre regiões, ainda menos
positiva foi a influência desse modo de inserção na integração da população,
já que a escravidão, o obstáculo mais formidável a qualquer esforço de
homogeneização, era justamente perpetuada (e justificada) pela necessidade
de manter alimentada a lavoura de exportação.
Esse panorama só começa a mudar com a industrialização, protegida
por barreiras aduaneiras ou facilitada pela escassez de divisas e dificuldades
de abastecimento devido a causas externas. É interessante notar que a
industrialização vai receber forte impulso durante os dois conflitos mundiais
e a Grande Depressão, períodos em que se teve de reduzir à força o tipo de
inserção tradicional na economia externa. É só então que se esboça aos
poucos a formação, pela primeira vez, de um mercado nacional, com a
gradual ligação das regiões por vias de transportes outras que a antiga
navegação de cabotagem. Faz sua aparição o proletariado industrial, o peso
da massa dos salários urbanos cria mercado de consumo para os produtos
da indústria paulista e, como observa Celso Furtado, até os ricos oferecem
seu quinhão de sacrifício, pois são obrigados a renunciar às importações de
luxo e consumir mofinos produtos nacionais...
As provas de que o problema continua atual tampouco faltam. Na
União Européia, o separatismo da Lega Nord, na Itália, pouco mais de um
século após a unificação do país, reflete como a segurança fornecida pelo
mercado europeu ampliado reduz a solidariedade com o empobrecido sul
da península, sugerindo que um movimento destinado a promover a
integração de um conjunto maior pode paradoxalmente pôr em risco a
unidade nacional alcançada a duras penas. Outro exemplo é o dualismo ou
“polarização geográfica” que caracteriza a integração do México com os
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
109
EUA no âmbito do Nafta, favorecendo, até agora, muito mais os Estados da
fronteira (a média de salários de Nuevo León é 3 vezes maior que a de
Chiapas, a expectativa de vida no norte é de 20 anos mais que no sul, o
consumo per capita na Baja Califórnia é 5 vezes superior ao de Oaxaca) do
que os do sul, em boa parte excluídos desses benefícios.
Eu mesmo ouvi muitas vezes em Manaus e Belém expressões de
dúvida sobre as possíveis vantagens que a Amazônia poderia retirar do
Mercosul, para meus interlocutores realidade remota, em comparação com
os ganhos mais tangíveis que derivariam do intercâmbio com vizinhos
próximos como a Venezuela, a Colômbia, as Guianas, os países caribenhos.
O que se pode reter desses exemplos é que variam muito, segundo
os países, o grau de essencialidade e as implicações da inserção na economia
global. Cidades-Estado como Hong Kong ou Cingapura, para as quais o
comércio exterior representa 150 por cento ou mais do PIB, pequenos países
abertos e tradicionalmente especializados na intermediação comercial como
a Holanda e a Bélgica, não têm outra opção. Ninguém, contudo, pretenderia
que idêntica prioridade fosse válida para os “países-monstros” da
classificação de George Kennan (ver “Around the Cragged Hill”), isto é,
os Estados que somam a um território continental uma população gigante.
A rigor, são apenas cinco, EUA, China, Índia, Rússia, Brasil, aos quais
tenciona juntar-se a União Européia à medida que estende sua unificação a
domínios essenciais como a política exterior e a de defesa. A característica
comum de todas essas economias é que elas haurem sua força basicamente
de poderoso mercado interno, as exportações para terceiros raramente
representando mais de 12 a 15 por cento do PIB (isso é válido até para
União Européia se considerarmos o comércio intra-europeu como doméstico,
o que ele é, pois não mais enfrenta barreiras) (...).
Em texto incluído no livro sugestivamente intitulado “A Construção
Interrompida”, Celso Furtado já indagava: “...como desconhecer que o
esvaziamento dos sistemas decisórios nacionais será de conseqüências
imprevisíveis para a ordenação política de vastas áreas do mundo, em
particular para os países subdesenvolvidos de grande área territorial e
profundas disparidades regionais de renda, como o Brasil?”
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
110
Observava em seguida: “...a partir do momento em que o motor do
crescimento deixa de ser a formação do mercado interno para ser a integração
com a economia internacional, os efeitos de sinergia gerados pela
interdependência das distintas regiões do país desaparecem, enfraquecendo
consideravelmente os vínculos de solidariedade entre elas”. E concluía: “Em
um país ainda em formação, como é o Brasil, a predominância da lógica das
empresas transnacionais na ordenação das atividades econômicas conduzirá
quase necessariamente a tensões inter-regionais, à exacerbação de rivalidades
corporativas e à formação de bolsões de miséria, tudo apontando para a
inviabilização do país como projeto nacional”. Quando se lembra o que ocorre
na guerra de subsídios aos investimentos entre Estados da Federação e o
verdadeiro leilão promovido pelas transnacionais para instigar a concessão
desses subsídios, vê-se que Celso Furtado não foi um mau profeta.
Mas, como ele mesmo admite: “Um sistema econômico nacional
não é outra coisa senão a prevalência de critérios políticos que permitem
superar a rigidez da lógica econômica na busca do bem-estar coletivo”.
É aqui precisamente que reside a vantagem comparativa dos Estados
gigantes, verdadeiros micro-universos, mais capazes que outros países
menores de fazer prevalecer sua vontade política sobre a lógica de custos
das transnacionais, utilizando para isso o poder dos seus imensos mercados
internos. Desde, é claro, que exista essa vontade política a serviço de um
projeto de nação.
É essa mesma vontade a serviço de um projeto nacional completo,
inclusive com autonomia de decisões em política exterior e de defesa, que
destingue a China e a Índia. São exemplos que refutam convincentemente
o mito da irresistibilidade da globalização e comprovam, de lambugem,
que a autonomia das decisões, a escolha de ritmo prudente, gradual,
controlado, de liberalização, sobretudo financeira, não só não prejudica como
é o melhor meio de proteger-se do contágio de crises devastadoras como a
que assola a Ásia e o mundo (...).
É certo que já não se dispõe hoje da amplíssima margem de escolha
da época dos extremos ideológicos, quando se ia do totalitarismo estalinista
ou maoísta, numa ponta do espectro, ao mais radical liberalismo do mercado,
na outra. Em lugar de branco ou negro, só nos resta a escolha de variedade
infinita de gradações de cinzento, com mais Estado ou mais mercado, mais
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
111
ou menos flexibilidade ou segurança de emprego, mais ênfase na estabilidade
de preços ou na expansão econômica. Essa administração dos matizes, essa
busca do difícil equilíbrio entre o realismo dos fatos e o idealismo dos
valores e aspirações, deixa espaço mais do que suficiente para cada sociedade
construir modelo harmonizador da eficácia decorrente dos requisitos de
validade universal com as especificidades particulares e as preferências
próprias a povos de história e problemas diferentes (...).
Em conclusão, o Brasil pode e deve retomar a construção
interrompida da cidadania e do mercado interno. Longe de se contradizerem,
esses termos são interdependentes. A fim de ser cidadão, isto é, de participar
plenamente da vida da comunidade, não basta ter abolido a escravidão, ser
livre e ter o direito de voto. Foi essa a ilusão do passado, quando se pensava
que a reforma eleitoral, o voto livre, secreto, universal, removeria nossas
mazelas. Hoje sabemos que uma democracia de massas pobres, sem
educação e saúde, sem acesso à informação ou vítima da informação controlada
por impérios privados, pode ser melhor que o passado mas não é satisfatória.
A verdadeira cidadania só se alcança quando se resolvem os problemas básicos
do emprego, do salário digno, da possibilidade de se instruir e de se curar. Em
outras palavras, quando as pessoas se inserem na sociedade como produtores,
por meio do emprego, e como consumidores, graças à remuneração justa,
quando elas se transformam em agentes, atores do mercado. A integração ao
mercado de produção e consumo dos milhões de brasileiros que subsistem
precariamente à margem dele, sem emprego ou com trabalho de baixa
produtividade, é processo capaz de liberar altíssima carga de energia e de
fornecer o dinamismo para o crescimento da economia por muitas e muitas
décadas, tal é o atraso a recuperar nos padrões de consumo. O país e a economia
têm de crescer de dentro para fora e não de fora para dentro.
É claro que necessitamos, como a China, da contribuição da
economia global, do acesso de nossas exportações aos mercados externos a
fim de aumentarmos a capacidade de importar, da competição que traz
eficiência, de investimentos produtivos, de financiamento, de tecnologia.
Mas esse deve ser aporte complementar ao esforço próprio, não seu
substituto. Daí o imperativo de elevar a poupança doméstica para não voltar
a agravar a excessiva dependência em relação a recursos estrangeiros. Para
isso temos de completar reformas internas só possíveis com um mínimo de
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
112
consenso social e político. É o que dizia em 25 de outubro de 1963, San
Tiago Dantas, ao receber poucos meses antes de sua morte o título de
“homem de visão” daquele ano dramático: “Terá de ser uma reforma
incorporada às aspirações do povo, que suba das próprias bases sociais, e
não uma reforma outorgada pela classe dominante, expressiva apenas de
uma concessão sem conciliação, que fira de frente o problema vital da
segurança econômica do indivíduo na sociedade; terá de produzir, a curto
prazo e sem violência, com respeito dos direitos, uma redistribuição de
renda social, de modo que atinja a sociedade no seu todo, eleve o padrão da
vida e crie número crescente de ocupações e atividades...”
Esta é a única resposta aceitável humanamente à pergunta que abria
meu artigo. Dela decorre também a chave de outro dilema, o da antinomia
uniformização versus identidade cultural. Em “Situação de Macunaíma”,
Alfredo Bosi ensina que uma das principais motivações da obra foi “o desejo
(...) imperioso de pensar o povo brasileiro, nossa gente, percorrendo as trilhas
cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem, colonial e moderna,
à procura de uma identidade que, de tão plural que é, beira a surpresa e a
indeterminação: daí ser o herói sem nenhum caráter” (grifado por mim).
Voltamos, com Macunaíma, ao ponto de partida desta nossa viagem
de 500 anos de crise e crescimento, do esforço de criar condições para que
se afirme finalmente a identidade brasileira, que só pode nascer da plena
realização do potencial de nossa gente. Não é casual que as raras áreas em
que o Brasil se projeta internacionalmente, o futebol e a música popular,
sejam as únicas onde as pessoas não necessitam de acesso à educação formal
para se distinguir. Por isso só elas apresentam ao mundo o rosto mestiço,
sofrido e criativo do nosso povo. Na véspera de completar meio milênio de
vida, encerro este artigo com outra citação de San Tiago, retirada do artigo
amarelecido de Visão, que se intitulava profeticamente “San Tiago Aponta
Caminhos”: “...Nenhuma reforma poderá ser implantada hoje ... se não
conseguirmos, em primeiro lugar, obter de nós mesmos, da classe dirigente
como das classes produtoras e trabalhadoras, um nível mínimo de confiança
na viabilidade de um projeto brasileiro”.
[RICÚPERO, Rubens. “As sereias da globalização”. In: Rumos, os caminhos
do Brasil em debate, nº 2, mar/abr 99, p. 75-84.]
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
113
2. Herança Colonial, Condição Periférica e Industrialização
Tardia: A América Latina
As estruturas econômicas herdadas do período colonial e as
modalidades de integração ao mercado internacional produziram realidades
econômicas bastante diversificadas nos países latino-americanos. Ao longo
do século, um conjunto de países do subcontinente – a Argentina, o México,
o Chile e o Brasil – viveu um acelerado processo de industrialização,
enquanto os demais permaneciam dependentes de estruturas econômicas
primárias.
Esse processo – ligado tanto a fluxos internacionais de investimento
quanto a esforços industrializantes internos – remodelou as formas de
integração desses países à economia mundial e fez surgir estruturas
econômicas complexas, apoiadas na cidade e na indústria.
Na Argentina, as condições iniciais para a industrialização foram
estabelecidas pelo complexo rural exportador: os capitais britânicos, a força
de trabalho imigrante, a malha ferroviária e o porto de Buenos Aires. Sobre
essas bases, desenvolveu-se, desde o início do século XX, a indústria de
processamento de alimentos (óleos vegetais, carne, couro), voltada desde o
início para a exportação.
A Primeira Guerra Mundial e a depressão internacional da década
de 1930 provocaram o surto inicial de substituição de importações, com o
desenvolvimento das indústrias de bens de consumo não-alimentícios,
voltadas para o mercado interno. Esse processo apoiou-se essencialmente
nas pequenas e médias empresas de capitais nacionais. O ingresso de capitais
norte-americanos, que disputavam posições com os investimentos britânicos,
também contribuiu para essa etapa de decolagem industrial. Ainda na década
de 1930, o Estado inaugurou a sua participação como empreendedor
industrial, através da criação da companhia de exploração do petróleo da
região de Comodoro Rivadávia, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF).
A moderna Argentina industrial, porém, nasceu após a Segunda
Guerra Mundial. As eleições de 1946 conduziram Juan Domingos Perón à
presidência, cargo que conservaria até o golpe militar de 1955. A “década
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
114
de Perón” foi marcada pelo crescimento industrial do país. Os capitais
nacionais inseriram-se predominantemente no setor alimentício e exportador
e no de bens de consumo não-duráveis. O Estado encampou os serviços
públicos e ferroviários surgidos dos antigos investimentos britânicos e
desenvolveu a indústria de base. Os capitais internacionais desenvolveram
o setor de bens duráveis, com destaque para as indústrias mecânicas. O
peso da influência européia no país reflete-se ainda hoje na distribuição da
produção automobilística: as fábricas italianas e francesas lideram o ramo,
com larga vantagem sobre as montadoras norte-americanas.
A Argentina transformou-se em um país urbano e industrial, mas o
lastro da sua economia continua a repousar, paradoxalmente, no complexo
rural. A estrutura industrial depende, em grande medida, do vasto e
diferenciado ramo do processamento de alimentos. O comércio exterior do
país, direcionado principalmente para Europa Ocidental e América Latina,
exibe forte predominância dos produtos de origem primária.
No México, a modernização industrial baseou-se em investimentos
estatais e transnacionais e em uma vasta oferta de recursos minerais. Na
década de 1930, no governo Lazaro Cárdenas, foram criadas as duas grandes
empresas estatais voltadas para o projeto de industrialização: Petróleo de
México (PEMEX) e a Nacional Financiera. A PEMEX estabeleceu o
monopólio estatal da exploração das imensas reservas de petróleo da região
do Golfo do México e criou as bases para o desenvolvimento da indústria
petroquímica. A Nacional Financiera, um banco de investimentos, financiou
o desenvolvimento da indústria privada nos mais diversos setores.
O subsolo mexicano é rico em recursos minerais. As áreas das
sierras, na região central do país, apresentam jazidas de prata, zinco, chumbo
e cobre. Até hoje, a mineração e a indústria de transformação mineral
representam parcela significativa das exportações nacionais.
A exploração do petróleo ganhou impulso na década de 1970, quando
o óleo se tornou o produto principal na exportação nacional. Dispondo do
vasto mercado consumidor norte-americano, o México optou por não
ingressar na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a
fim de determinar livremente os seus níveis de produção e não subordinar
suas exportações ao sistema de cotas do cartel petrolífero.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
115
O modelo econômico protecionista adotado por sucessivos governos
mexicanos – baseado na multiplicação das taxas alfandegárias no estímulo
à produção nacional – atraiu para dentro das fronteiras do país os
investimentos de empresas transnacionais. O baixo custo da força de trabalho
e a presença de uma base industrial erguida pelo Estado também contribuíram
para o fluxo de investimentos externos. Desde a Segunda Guerra, a instalação
de filiais de conglomerados estrangeiros – especialmente norte-americanos
– renovou a paisagem industrial mexicana.
No Chile, a economia mineradora, marginal durante a colonização,
se transformou no centro da vida nacional após a independência. Em meados
do século XIX, a implantação de poderosas companhias européias de
extração de cobre e salitre criou vínculos estreitos entre o país e os mercados
e capitais estrangeiros. Na sombra da economia exportadora, cresciam as
atividades urbanas e ampliavam-se os investimentos estatais em infra-
estrutura. Um incipiente surto de industrialização teve lugar neste período.
O Chile conheceu uma urbanização rápida e precoce, fortemente polarizada
pela capital, Santiago.
A crise de 1929 incidiu devastadoramente sobre a economia chilena.
O estrangulamento dos mercados internacionais lançou o país ao caos
econômico, traduzido por um período de desemprego em massa, fortes
convulsões sociais e instabilidade política. Este quadro turbulento se arrastou
até a Segunda Guerra Mundial.
O cobre, essencial para a indústria bélica, conheceu então uma
valorização acentuada, ao mesmo tempo que o conflito restringia as
importações de manufaturas. Iniciava-se um segundo surto de industrialização,
fortemente apoiado pelas políticas públicas. No pós-guerra, empresas
transnacionais, principalmente norte-americanas, multiplicaram seus
investimentos tanto na mineração como no parque industrial. Porém, a
emergência de um importante setor urbano industrial não eliminou a elevada
concentração fundiária e de renda, herdada dos períodos anteriores.
O governo democrata-cristão de Eduardo Frei, eleito em 1964,
implementou um programa de reformas cujos principais alvos eram o
combate à estrutura agrária fundada nos velhos latifúndios e o domínio
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
116
exercido pelos capitais estrangeiros sobre o setor mineral. Assim, realizou
uma reforma agrária e iniciou um programa de nacionalização gradual das
empresas mineradoras.
Seu sucessor, Salvador Allende, eleito em 1970 por uma coligação
de partidos de centro-esquerda, iria muito mais longe. Durante o governo
da Unidade Popular, as minas norte-americanas de cobre, o sistema bancário
e muitas das grandes empresas industriais privadas foram nacionalizados.
O programa de reforma agrária foi acelerado e aprofundado.
Em de setembro de 1973, um golpe militar encabeçado pelo general
Augusto Pinochet encerrou o governo da Unidade Popular. O novo governo
pôs em prática um amplo programa de privatizações e de abertura da
economia para o capital estrangeiro, que prosseguiria com a democratização,
ocorrida em 1989. A competitividade externa passou a ser o fundamento da
economia nacional.
Atualmente, a forte integração ao mercado mundial é a principal
característica da economia chilena, e a distingue do conjunto dos países
industrializados do subcontinente. O cobre responde por cerca de 40% do
total das vendas. O Chile é o maior exportador de cobre do mundo e a
estatal Codelco, responsável por grande parte das minas do país, é a maior
empresa chilena em volume de comércio exterior.
Os países que ficaram alijados da decolagem industrial seguem
dependendo de exportações de produtos agrícolas e minerais. Em muitos
casos, eles se tornaram bases importantes das rotas internacionais de
narcotráfico e de capitais clandestinos. A Venezuela representa um caso
particular: sua industrialização, relativamente significativa, assenta-se na
base econômica propiciada pela extração, comercialização e exportação do
petróleo.
Texto Complementar
No artigo parcialmente reproduzido abaixo, o geógrafo Armen
Mamigonian apresenta as diferentes correntes interpretativas acerca da
industrialização brasileira e latino-americana.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
117
Texto 1 – Teorias Sobre a Industrialização Brasileira e Latino-
Americana
A industrialização brasileira é tema de debate da nossa intelectualidade
desde as décadas de 20 e 30. O. Brandão publicou Agrarismo e
Industrialismo em 1926
1
e R. Simonsen divulgou em 1939 a primeira
história da industrialização brasileira
2
. Nos dois casos trataram-se de
intelectuais engajados, o primeiro, dirigente comunista e o segundo, líder
industrial, ambos defensores da industrialização, numa época em que se
considerava o Brasil como “país essencialmente agrícola” e cuja
industrialização sofria grandes resistências dos setores ligados à divisão
internacional do trabalho, interna e externamente. Assim, precocemente as
esquerdas brasileiras tornaram-se, junto com a burguesia industrial,
defensoras do processo de industrialização.
A industrialização brasileira recebeu um capítulo na História
Econômica do Brasil, de C. Prado Jr., publicado em 1945
3
e mais tarde
mereceu interpretações mais aprofundadas nos escritos de dois economistas
ligados aos órgãos de planejamento governamentais, I. Rangel e C. Furtado
4
,
publicados na década de 50. Paradoxalmente, o tema da industrialização só
despertou o interesse dos professores universitários após a publicação de
Formação Econômica do Brasil, de C. Furtado, quando o Departamento de
Sociologia da USP entrou no debate, sobretudo F. H. Cardoso e O. Ianni
5
.
No fundo, até então, a universidade não julgava a temática relevante, pois
1
Mayer, F. (1926). Agrarismo e Industrialismo. Buenos Aires. Fritz Mayer foi o pseudônimo de
Octávio Brandão, de tradição anarquista, que contribuiu desde 1922 para a implantação e crescimento
do PCB e apontava a presença esmagadora de latifundiários no aparelho de Estado brasileiro na
década de 1920 e a necessidade de reforma agrária para a industrialização.
2
Simonsen, R. (1973) Evolução industrial do Brasil e outros estudos. São Paulo, Cia Ed. Nacional,
Edusp, edição organizada por E. Carone. Simonsen foi fundador da CIESP (1928) e da FIESP e o
líder imdustrial de maior prestígio no Brasil nas décadas de 30 e 40.
3
Prado Jr., C. (1945) História do Brasil, São Paulo: Brasiliense, escrita originalmente para o Fondo
de Cultura Económica (México).
4
Rangel, I. (1957) Dualidade Básica da Economia Brasileira. Rio de Janeiro: ISEB, cujas idéias
foram aplicadas no G. Paim (1957) Industrialização e Economia Natural. Rio de Janeiro: ISEB.
Furtado, C. (1959) Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fundo Cultura. Rangel e
Furtado publicaram vários outros textos.
5
Cardoso, F. H. (1960) “Condições sociais da industrialização em São Paulo” (Ver Brasiliense
n. 38) e Ianni, O. (1960) “Fatores humanos da industrialização no Brasil” (Ver Brasiliense n. 30)
procuraram apontar os fatores sociais da emersão do mercado interno e dos capitais para a
industrialização, pouco abordados por C. Furtado.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
118
não percebia as dimensões econômico-sociais e políticas que o processo de
industrialização já alcançava. O debate que se seguiu, com a participação
de numerosos pesquisadores universitários brasileiros e estrangeiros, iria
demonstrar o caráter controvertido das interpretações, tais como: 1) as
conjunturas de crise das exportações (guerras mundiais, crise de 1929 etc.)
tinham sido favoráveis ou desfavoráveis ao avanço industrial?, 2) a condição
de periferia do sistema mundial capitalista bloqueava ou não a
industrialização?, 3) a que classes sociais couberam as primeiras iniciativas
industriais: aos fazendeiros, aos comerciantes de export-import, à pequena
burguesia e outros setores populares? Etc. Paralelamente, a questão da
industrialização havia chegado na época ao próprio âmbito popular, onde
também se veiculavam opiniões divergentes: a industrialização havia
começado com Volta Redonda ou com a implantação das usinas hidrelétricas
da Light? A indústria brasileira era multinacional? Etc. Desde então o avanço
industrial brasileiro foi considerável, assim como se fez um longo percurso
intelectual, que provocou alguns esclarecimentos, mas ainda hoje as
interpretações continuam contrastantes, pois refletem as vinculações entre
elas e as classes sociais interessadas no processo.
Nas esquerdas brasileiras três teorias referentes à economia brasileira
em geral e à industrialização em particular, tiveram papel hegemônico na
luta intelectual, sucessivamente: 1) a teoria da CEPAL, que popularizou a
expressão “industrialização por substituição de importação”, dominou o
ambiente cultural de 1955 a 1964, 2) a teoria da dependência, que teve
grande aceitação no período seguinte ao golpe militar, enfatizou a
subordinação da industrialização aos interesses do centro do sistema
capitalista, 3) a teoria dos ciclos econômicos, com grande aceitação recente,
reconhece o enorme dinamismo do processo de acumulação capitalista
brasileiro (...).
[MARMIGONIAN, Armen. “Teorias sobre a industrialização Brasileira e
Latino Americana”. In: BECKER, Berta K. et alli (org.). Geografia e meio
ambiente no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1995, p. 65-66.]
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
119
3. O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul
O conceito de integração econômica latino-americana surgiu no
ambiente da Guerra Fria, refletindo uma reação à hegemonia geopolítica
dos Estados Unidos. O processo da descolonização afro-asiática, que se
desenrolou entre o final dos anos quarenta e o início dos anos sessenta,
influenciou na emergência desse novo conceito. Outra fonte de influência
foi o movimento de integração européia, expresso pela fundação da CEE,
em 1957.
A ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio)
foi criada pelo Tratado de Montevidéu de 1960. O Tratado previa o
estabelecimento gradual de um mercado comum, preparado pela constituição
de uma zona de livre comércio. Inicialmente, contou com sete integrantes:
Argentina, Brasil, Chile, Peru, Paraguai, México e Uruguai. Mais tarde,
recebeu a adesão de Colômbia, Equador, Venezuela e Bolívia, envolvendo
quase toda a América do Sul, além do México.
Os ambiciosos objetivos da Associação, realçados pela vastidão dos
espaços geográficos que recobria, chocaram-se desde o início com as
desigualdades econômicas internas. As divergências entre o Brasil, o México
e a Argentina e os demais integrantes sabotaram as metas de integração. Ao
mesmo tempo, a ênfase generalizada dos países latino-americanos nos
mercados internos limitou o potencial de crescimento do comércio na área
da ALALC.
O fracasso da ALALC foi reconhecido tacitamente pelo Tratado de
Montevidéu de 1980, que a substituiu pela ALADI (Associação Latino-
Americana de Integração). A nova organização recebeu a adesão de todos
os integrantes de sua predecessora. O novo Tratado tem metas menos
pretensiosas e mais flexíveis. Mesmo conservando como objetivo de largo
prazo a criação de um mercado comum, estimula a realização de acordos
comerciais limitados e uniões aduaneiras entre países-membro.
O Mercosul nasceu da aproximação brasileiro-argentina e dos
acordos prévios de integração bilateral firmados entre os dois países.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
120
A condição prévia para essa aproximação foi a redemocratização política,
ocorrida em meados da década de 1980 nos dois países.
O passo inicial da aproximação foi a assinatura do Programa de
Integração e Cooperação Econômica Brasil-Argentina, em julho de 1986.
Em novembro de 1988, desenhou-se a meta de um mercado comum, no
prazo de dez anos, fixada pelo Tratado de Integração, Cooperação e
Desenvolvimento. Em julho de 1990, os governos dos dois países decidiram
acelerar o processo de integração, antecipando para 31 de dezembro de
1994 o estabelecimento do mercado comum bilateral. Em seguida, entrou
em vigor o Acordo de Complementação Econômica (ACE-14), prevendo a
redução gradual das tarifas alfandegárias, até a sua completa eliminação.
A adesão do Uruguai e do Paraguai ao projeto comunitário ocorreu
em março de 1991, quando o Tratado de Assunção definiu os contornos do
Mercosul.
O Mercosul estende-se por um vasto espaço geográfico, que vai das
áreas frias e secas das altas latitudes patagônicas ao domínio equatorial
amazônico. Agrupa quatro parceiros extremamente díspares, sob os pontos
de vista demográfico e econômico: o Brasil e a Argentina são potências
latino-americanas, enquanto o Uruguai e o Paraguai são economias
fortemente dependentes dos seus vizinhos.
O núcleo geoeconômico do Mercosul é a região platina. A Bacia do
Prata – vertebrada pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai – abrange o Centro-
Sul do Brasil, o Pampa argentino, o Uruguai e a porção oriental do Paraguai.
Nessa área, encontram-se as principais metrópoles e zonas industriais dos
países-membro, além das grandes concentrações demográficas. Aí estão as
duas metrópoles nacionais brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro), a grande
metrópole argentina (Buenos Aires) e importantes cidades que organizam
o espaço regional: Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, no Brasil,
Rosário e Córdoba, na Argentina, Montevidéu, no Uruguai, Assunção, no
Paraguai.
A industrialização do Brasil, desde as primeiras décadas do século,
valorizou a Região Sudeste e, em especial, o Estado de São Paulo. No final
do governo de Juscelino Kubitschek (1956-61), quando a indústria já se
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
121
havia tornado o núcleo dinâmico da economia nacional, o Sudeste industrial
estava firmemente soldado às áreas complementares de agricultura e pecuária
no Sul e nas regiões meridionais do Centro-Oeste. A inauguração de Brasília,
em 1960, seguida da abertura de rodovias de integração, refletia a
transformação de Goiás e do atual Mato Grosso do Sul em espaços de
expansão da economia do Sudeste. O Centro-Sul surgia como expressão da
integração econômica dessa parte do território nacional.
A estruturação do território da Argentina realizou-se, desde o início,
sob a hegemonia do porto de Buenos Aires. Ao redor da área portenha,
desenvolveu-se a valorização do Pampa agrícola e pecuarista. A soldagem
do Pampa à Europa, na segunda metade do século XIX, realizou-se através
do livre-cambismo e sob a influência dominante da Inglaterra. A troca entre
os produtos agropecuários do interior estancieiro (o trigo, a carne e a lã) e
os manufaturados europeus beneficiava essencialmente a elite portenha e
os grandes estancieiros exportadores.
A organização do espaço regional argentino segue um nítido esquema
de tipo centro-periferia. O Pampa concentra a maior parte da riqueza e da
população do país. Ao seu redor, estendem-se as periferias regionais: a
Patagônia, ao sul, os Andes, a oeste, o Chaco e a Mesopotâmia, ao norte.
No Pampa, encontra-se o cinturão industrial do país, que se estende em
arco aberto de Buenos Aires a Córdoba, passando por Rosário. A
aglomeração metropolitana de Buenos Aires, com mais de 10 milhões de
habitantes (cerca de um terço da população do país) concentra os serviços
financeiros, as sedes das corporações e a maior parte da produção industrial.
Córdoba destaca-se como pólo de indústrias dinâmicas: lá se encontram as
principais montadoras automobilísticas de capital europeu. Rosário é um
importante centro siderúrgico.
O Uruguai forma uma faixa de transição entre o Centro-Sul brasileiro
e o Pampa argentino. Apesar da sua economia estar fundamentada nas
atividades primárias, a taxa de urbanização é bastante elevada, atingindo
cerca de 85%. Esta concentração urbana da população é conseqüência da
estrutura fundiária baseada no domínio da grande propriedade e das
modalidades predominantes de uso do solo – a pecuária extensiva e as
culturas mecanizadas – poupadoras de mão-de-obra.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
122
O padrão agroexportador da economia do país condicionou a
hegemonia da capital portuária sobre o interior pampeano. A aglomeração
metropolitana de Montevidéu agrupa cerca de 1,6 milhão de habitantes, o
que representa a metade da população nacional. A função portuária continua
a representar a principal atividade da capital. As companhias de navegação,
de exportação e importação, os armazéns, as empresas de transportes
dinamizam a vida econômica da capital. Ao lado das funções administrativas
e comerciais, a cidade desenvolveu um forte centro financeiro, que logo
alcançou dimensões internacionais, passando a receber investimentos
especulativos provenientes da Argentina e do Brasil.
O Paraguai é atravessado, de norte a sul, pelo rio de mesmo nome.
O rio, que corta Assunção, define duas áreas distintas: o oeste, que
corresponde ao despovoado Chaco; no leste, onde, sob forte influência
brasileira, encontram-se as zonas dinâmicas e a usina de Itaipu.
Entre o Rio Paraguai e a fronteira oriental, estendem-se as grandes
regiões agropecuárias. Nas áreas menos férteis, a paisagem monótona das
grandes propriedades de pecuária ultra-extensiva – onde escasseiam homens
e animais – é pontuada por regiões minifundistas, onde se pratica uma
agricultura de subsistência de baixa produtividade. Próximo à fronteira
nordeste, junto ao Brasil, aparecem áreas de agricultura comercial, em
especial soja e café. Em grande parte, a agricultura da fronteira é controlada
por empresários rurais brasileiros.
O processo de integração deflagrado pelos acordos entre o Brasil e
a Argentina e aprofundado pelo Tratado de Assunção tende a interferir nas
dinâmicas territoriais dos países-membro. A configuração de uma zona de
livre comércio, primeiro passo do Tratado, amplia a escala dos mercados
para as empresas envolvidas e reorganiza a divisão regional do trabalho.
Essas mudanças seriam aprofundadas com a evolução rumo ao mercado
comum, no qual todos os fatores de produção passariam a dispor de liberdade
de alocação.
No caso do Brasil, o Mercosul tende a reforçar as modalidades
históricas de regionalização. A soldagem entre o Sudeste, o Sul e a parte
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
123
meridional do Centro-Oeste – sob o comando dos capitais industriais e
financeiros baseados em São Paulo – ganha novo impulso com a abertura
do mercado argentino.
No caso da Argentina, o Mercosul acentua a urgência de integração
das regiões setentrionais – a Mesopotâmia e o Chaco – ao núcleo portenho-
pampeano. Situadas nas faixas de fronteira, essas regiões se ressentem de
fraco dinamismo econômico e, principalmente no caso do Chaco, da carência
de investimentos e infra-estruturas.
Muito além do núcleo geográfico platino, encontram-se as duas
frentes de expansão do povoamento da área do Mercosul: a Amazônia
brasileira e a Patagônia argentina. Esses dois ecossistemas inteiramente
diferentes exibem uma semelhança socioeconômica e territorial – tanto a
Amazônia equatorial como a Patagônia fria e seca são vastos espaços de
baixas densidades demográficas e elevada potencialidade econômica.
O advento do Mercosul e das novas estratégias comerciais e
empresariais abre amplas perspectivas de integração territorial na sub-região.
A infra-estrutura disponível às empresas do Mercosul aparece como um
dos elementos fundamentais na definição de sua competitividade e eficiência.
Nesse contexto, as iniciativas no campo dos transportes ganham uma especial
relevância.
No plano do transporte fluvial, a hidrovia do Mercosul é o projeto
de maior envergadura. A entrada em operação da hidrovia Tietê-Paraná,
viabilizada pelas eclusas de Jupiá e Três Irmãos, no trecho brasileiro do
Alto Paraná, interligou o Centro-Sul do Brasil aos mercados de Argentina,
Paraguai e Uruguai. Essa hidrovia tem como único obstáculo de porte o
desnível de Itaipu, que não é servido por eclusas e exige o transbordo
rodoviário de cargas.
No campo dos transportes terrestres, um projeto de forte impacto é
o da auto-estrada São Paulo-Buenos Aires. O traçado desta estrada, já
conhecida com Rodovia Sul-Americana, é objeto de intensos debates
envolvendo lideranças industriais e rurais dos três estados da região Sul do
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
124
Brasil. O traçado litorâneo, proposto pelas lideranças industriais, integraria
o leste dos territórios argentino, uruguaio e brasileiro. Assim, favoreceria o
complexo industrial instalado nas capitais dos estados da região Sul do
Brasil. O projeto seria complementado com a cosntrução de uma ponte de
50 km sobre o Rio da Prata, unindo Buenos Aires a Colônia. Os empresários
e políticos do interior do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina
propõem a interiorização da estrada, de forma a beneficiar os produtores
rurais dos três estados, diminuir o êxodo rural e ampliar a oferta de empregos
na região. Segundo estudos realizados na Universidade de Passo Fundo, a
rodovia interior poderia servir de “corredor” para 26% da economia gaúcha,
48% da catarinense e 53% da paranaense.
Além da auto-estrada, planeja-se uma ligação rodoviária entre o porto
de Rio Grande e o porto de Antofagasta, no norte do Chile. Uma ligação
ferroviária entre o porto de Santos e esse mesmo porto chileno também está
em projeto. Estas ligações uniriam, pela primeira vez, o Atlântico ao Pacífico
na América do Sul e abririam novas perspectivas de integração do Cone
Sul com a Bacia do Pacífico.
Textos Complementares
Os textos selecionados para introduzir a discussão sobre a origem e
o significado do Mercosul abordam dois aspectos cruciais no processo de
integração. O primeiro deles, de autoria dos embaixadores Sérgio Abreu e
Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo, destaca os objetivos e as
características básicas do Mercosul. O segundo, escrito pela geógrafa Mônica
Arroyo, situa o bloco sub-regional no contexto das tendências simultâneas
de globalização e regionalização que presidem a economia mundial
contemporânea.
Texto 1 – Os Objetivos do Mercosul
O MERCOSUL é um processo de integração que tem como meta a
construção de um Mercado Comum. Essa meta pode ser decomposta nos
seguintes elementos básicos:
a) eliminação das barreiras tarifárias e não-tarifárias no comércio
entre os países membros;
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
125
b) adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC);
c) coordenação de políticas macroeconômicas;
d) livre comércio de serviços;
e) livre circulação de mão-de-obra;
f) livre circulação de capitais.
Examinemos um a um esses objetivos.
a) Eliminação de barreiras tarifárias e não-tarifárias
O primeiro objetivo do MERCOSUL, a eliminação das tarifas e das
restrições não-tarifárias entre os seus parceiros, foi atingido em 31 de
dezembro de 1994, com algumas exceções, que serão gradativamente
eliminadas, e das quais falaremos mais adiante. Ou seja, desde aquela data,
um país pode importar produtos de outro integrante da Zona sem pagar
tarifas. Ora, como continua a haver tarifas para os países fora do grupo,
conclui-se que os integrantes do grupo têm uma vantagem. A esta vantagem
chamamos Preferência Tarifária ou Margem em Preferência.
A desgravação tarifária maior para o comércio intrazonal (i.e., entre
os países envolvidos no MERCOSUL) é uma característica essencial dos
processos de integração: as alíquotas aplicadas ao comércio dentro da zona
são sempre diferentes (e menores) do que aquelas praticadas com países
fora da zona.
Esta diferença, chamada de Margem de Preferência, é um dos grandes
estímulos que os países têm para integrarem-se.
b) Tarifa Externa Comum
O segundo objetivo do MERCOSUL, o estabelecimento de uma
Tarifa Externa Comum, foi concretizado também em 31 de dezembro de
1994 – igualmente prevendo-se algumas exceções, que desaparecerão com
o tempo. Hoje, a importação de um produto proveniente de um mercado
fora do MERCOSUL está sujeita à mesma alíquota tarifária nos quatro
países.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
126
Cumpridos esses dois objetivos básicos, o MERCOSUL já preenche
os requisitos para ser considerado uma União Aduaneira. Entretanto, o
Tratado de Assunção estabelece ainda outros objetivos, que deverão ser
trabalhados ao longo dos próximos anos para que o MERCOSUL se torne
um Mercado Comum. Trata-se da coordenação de políticas macroeconômicas,
a liberalização do comércio de serviços, a livre circulação de trabalhadores
e a livre circulação de capitais.
c) Coordenação de políticas macroeconômicas
O objetivo seguinte é a coordenação de políticas macroeconômicas.
A política macroeconômica de um país se divide em três esferas principais:
política cambial (taxa de câmbio da moeda nacional em relação ao dólar ou
a um padrão de referência externo), política monetária (taxa de juros e
quantidade de moeda a ser emitida) e política fiscal (controle dos recursos
a serem arrecadados e gastos pelo Estado).
A importância de coordenação macroeconômica entre países em
processo de integração fica bastante clara quando se considera a questão do
câmbio. Num ambiente onde não exista coordenação, um país pode, a
qualquer momento, decretar uma maxidesvalorização de sua moeda, o que
estimulará intensamente suas exportações e reduzirá suas importações,
causando desequilíbrio na balança comercial em desfavor dos parceiros.
Estes últimos terão duas opções: ou absorverão as conseqüências da
medida e as distorções decorrentes da diferença cambial, ou promoverão
eles também desvalorizações de suas moedas. Criar-se-ia, neste caso, um
circuito de “desvalorizações competitivas”, que poderia prejudicar a todos.
A coordenação de políticas cambiais implica que cada país aceita limites
nas modificações que pode introduzir em sua taxa de câmbio, de modo a
evitar desequilíbrios comerciais.
Quanto mais avance o processe de integração no MERCOSUL, e
quanto mais se desenvolva a interdependência entre as economias dos países
membros, mais necessária se fará a coordenação de políticas macroeconômicas
– tanto por seus efeitos comerciais já apontados acima, como por seu impacto
nos fluxos de investimento (um país com juros mais elevados pode atrair
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
127
mais capitais externos) e nas condições de concorrência (um país que cobra
menos impostos incentiva os seus produtores locais, em detrimento dos
concorrentes do outros países membros).
Apesar de necessária, a coordenação de políticas macroeconômicas
será certamente um processo lento, já que implicará uma limitação na
autonomia de cada país para conduzir sua política econômica, mudança de
grande envergadura, que não se pode pretender implementar em um período
muito curto. É preciso compreender, no entanto, que a autolimitação
decorrente do processo de coordenação macroeconômica será benéfica para
cada país. Benéfica porque constituirá um fator de disciplina na condução
das políticas econômicas, e porque contribuirá para um ambiente de
previsibilidade e de regras do jogo estáveis. É bom para qualquer país, por
exemplo, ter uma política cambial estável, não importando que isso seja
uma decisão absolutamente individual ou a decorrência de compromissos
assumidos num processo de integração.
d) Liberalização do comércio de serviços
Os negociadores do MERCOSUL terão que enfrentar, ainda, a
questão da circulação de trabalhadores. A crescente interpenetração das
economias resultará, como já está ocorrendo, no interesse dos trabalhadores
de cada país pelo mercado de trabalho dos vizinhos. Somente o acesso
desimpedido a esses mercados permitirá que o trabalhador aproveite os
frutos da integração na sua totalidade. Até aqui, com efeito, o trabalhador
pode beneficiar-se apenas – embora já seja muito – dos empregos que o
MERCOSUL cria em seu próprio país de cidadania. Mas, no futuro, o
trabalhador deverá ter acesso também aos empregos que o MERCOSUL
cria no país vizinho. Para que isso seja possível, no entanto, é necessário
um enorme esforço de harmonização das legislações trabalhistas e
previdenciária, que já está sendo desenvolvido.
A participação direta de representantes dos trabalhadores no processo
de discussão desses temas, que já ocorre e que provavelmente será reforçada
no quadro do Foro Consultivo Econômico e Social – do qual falaremos –,
tende a criar uma pressão crescente pelo desenvolvimento de ações
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
128
facilitadoras da circulação de mão-de-obra. Por outra parte, quando se
considera também a situação dos profissionais de nível superior – igualmente
interessados no mercado dos outros países do MERCOSUL –, é necessária,
além da harmonização de legislações, a facilitação do reconhecimento mútuo
de títulos e diplomas. Atividades nesse sentido já estão em andamento, e a
crescente demanda da sociedade civil provavelmente forçará sua aceleração
no curto e médio prazo.
e) Livre circulação de capitais
Por fim, temos o objetivo da livre circulação de capitais. Os
investidores dos países do MERCOSUL já contam com certas facilidades e
garantias para suas aplicações no mercado dos parceiros, mas ainda há boa
distância a percorrer até a livre circulação de capitais. Além disso, a crise
financeira mundial no início de 1995, com seu impacto traumático, parece
contribuir antes para critérios de maior controle sobre os fluxos de capital
do que para uma facilitação desses movimentos. A liberalização dos fluxos
de capital no MERCOSUL será, provavelmente, uma liberalização bastante
qualificada: a tendência aponta para um maior controle dos movimentos de
capitais especulativos, ao lado de uma facilitação dos fluxos de capitais
produtivos.
Percebe-se, assim, que para alcançar o estágio de Mercado Comum
o MERCOSUL ainda terá de concretizar objetivos de grande envergadura:
a coordenação de políticas macroeconômicas, a liberalização do comércio
de serviços e a livre circulação de mão-de-obra e capitais. Essa perspectiva
não deve, contudo, apequenar o que já foi conseguido. Na verdade, a União
Aduaneira vigente desde 1º de janeiro representa uma massa crítica de tal
ordem que por si só, pelo próprio desdobramento de sua lógica interna,
exigirá, mais cedo ou mais tarde, a consecução desses outros objetivos, por
mais complexos que sejam. Não podemos nos esquecer de todas as
implicações da palavra “processo” quando descrevemos o MERCOSUL
como um processo de integração. Sendo um processo, o MERCOSUL está
sempre acontecendo. Sempre uma nova idéia, um novo tema, um novo
projeto de acordo está fermentando em alguma parte. E as idéias geram
idéias, os avanços geram novos avanços, num sistema dotado de
organicidade e dinamismo.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
129
Examinando os diversos modelos de processos de integração e a
situação que o MERCOSUL ocupa nesse quadro, é lícito concluir que o
MERCOSUL já alcançou patamares bem avançados de integração, só
atingidos, até agora, pela União Européia.
A União Européia surge, naturalmente, como um paradigma, sempre
que se fala de processos de integração. Trata-se do sistema de integração
mais profundo, mais complexo, mais ambicioso e economicamente mais
pujante já implementado, e seu sucesso é absolutamente inegável, apesar
das dúvidas dos “euro-céticos”. Entretanto, a União Européia não é uma
matriz a ser fotocopiada. Não é o modelo arquetípico com o qual os demais
processos de integração têm que se parecer ao máximo.
O equívoco dessa visão de uma União Européia arquetípica fica
muito evidente quando se vêem certos comentários sobre os prazos para a
construção do MERCOSUL: “os prazos são irrealistas”, dizem. “Não
podemos querer atingir em poucos anos o que a Europa levou quatro décadas
para alcançar”.
A comparação dos tempos da União Européia e do MERCOSUL,
muitas vezes se faz de forma superficial. O estágio que o MERCOSUL
alcançou em 1º de janeiro de 1995, após três anos e meio de negociações –
o de União Aduaneira –, foi atingido pelos membros originários da União
Européia, não em quarenta, mas em cerca de onze anos a partir da assinatura
do Tratado de Roma. Com efeito, os seis países signatários do Tratado de
Roma, de 1957, já haviam, em 1968, eliminado as barreiras ao seu comércio
recíproco e adotado uma Tarifa Externa Comum – em ambos os casos com
algumas exceções, como também ocorre no MERCOSUL.
Por outra parte, não se pode pensar que o MERCOSUL surgiu do
nada. Na verdade, como veremos, o MERCOSUL está alicerçado sobre um
longo processo de integração latino-americana, iniciado em 1960, e sobre
as iniciativas de integração bilateral Brasil-Argentina, inauguradas nos
anos 80.
[FLORÊNCIO, Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO, Ernesto Henrique Fraga.
Mercosul hoje. São Paulo: Ed. Alfa Omega, 1996, p. 28-33.]
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
130
Texto 2 – Mercosul: Novo Território ou Ampliação de Velhas
Tendências?
O contexto internacional
Duas tendências concomitantes no sistema internacional
contemporâneo têm se acentuado na última década: a globalização e a
regionalização da economia. Elas se opõem quanto à direção do movimento
que em cada uma está implícita. A globalização remete à idéia de um
movimento que tem como “campo de ação” todo o planeta, um movimento
que opera na escala mundial. A regionalização, por outro lado, mostra uma
tendência a atuar em uma área limitada do planeta, em uma escala mais
reduzida. Porém, na realidade, essa oposição é só aparente já que essas
tendências complementam-se para dar respostas às mudanças estruturais
que estão transformando paulatinamente o cenário mundial.
A complexidade crescente no processo produtivo é um dos eixos
dessas mudanças. A incorporação do conhecimento tecnológico aparece
como a condição necessária para o aumento da produtividade e do
crescimento econômico. A concorrência mediante preços já não é tão
decisiva quanto a que se traduz na qualidade e na diferenciação dos produtos.
Isso é possível pela conformação de um novo padrão industrial, que
baseando-se inicialmente no complexo metal-mecânico passou também –
e fundamentalmente – a fazê-lo no complexo eletroeletrônico. As novas
tecnologias, sobretudo no campo da microeletrônica, imprimem um salto
qualitativo no processo de produção, de gestão e de organização do trabalho
1
.
É assim que, neste processo, a qualidade da informação tem se convertido
em fator estratégico para a competitividade das empresas, das regiões e
dos países
2
.
1
Na produção, com inovações aplicadas na concepção, projeção e desenhos de novos produtos; em
equipamentos e sistemas flexíveis de produção de manufaturados; na utilização de robôs e em formas
de energia. Na gestão, com métodos administrativos mais eficientes, como a aplicação do princípio
just in time (gestão por fluxos). E na organização do trabalho, com novas técnicas gerenciais e de
alocação e treinamento dos recursos humanos, em que a ênfase é dada à qualificação da mão-de-
obra e à maior integração entre a administração e a produção, com a diminuição relativa na estrutura
ocupacional dos operários (Cacciamali, 1991).
2
Ver Castells, Manuel. La economia informacional, la nueva división internacional del trabajo y el
proyeto socialista. El socialismo futuro, 4, Madri, 1991.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
131
Esse salto, por implicar, de um lado, investimentos de alto custo e,
de outro, uma rápida obsolescência dos produtos e processos, cria a
necessidade de ampliar a dimensão dos mercados. Dessa maneira, as novas
tecnologias exigem escala planetária, acentuando a tendência à globalização
da economia. Produtos mais complexos, mais intensivos em tecnologia,
exigem mercados mais sofisticados e segmentados na economia mundial.
Outra mudança estrutural a considerar nesta análise é a crescente
transnacionalização da economia, a qual, embora não seja novidade,
assentou-se nas últimas décadas
3
. O avanço nas tecnologias de informação
facilita significativamente essa tendência ao permitir que as etapas de
produção se localizem em países diferentes mantendo o monitoramento
centralizado sobre elas. Assim, a expansão das grandes firmas oligopólicas
nos setores produtivo e financeiro modifica substantivamente a geografia
mundial, cuja manifestação cada vez mais acentuada é a consolidação de
um espaço integrado da empresa, além das fronteiras nacionais. Esse
aprofundamento do processo de concentração e centralização do capital
tem permitido aumentar o controle dos conglomerados sobre as relações
econômicas internacionais.
Dessa forma, os espaços nacionais deixam de ser o locus privilegiado
para o processo de acumulação, tanto para as grandes empresas quanto para
os próprios países. Os governos nacionais buscam ampliar o espaço de
realização das mercadorias com maior abertura da economia. A ampliação
dos mercados, através da criação de zonas de livre comércio, uniões
aduaneiras ou mercados comuns, se transforma assim em uma saída para
enfrentar as novas condições da competitividade internacional
4
.
O interesse associativo destas iniciativas visando o fortalecimento
da base regional não é contraditório ou excludente, com a tendência à
globalização, já que ambas decorrem da necessidade cada vez mais presente
da criação de mercados ampliados. Pelo contrário, são complementares ao
3
Neste sentido, Ominami (1986) destaca o rápido aumento do número de países em desenvolvimento
que dispõem de empresas com investimentos diretos no estrangeiro. Embora seu tamanho seja
consideravelmente mais reduzido que o das empresas dos países industrializados, esta tendência
incrementou-se desde os anos 70.
4
Os projetos mais avançados neste sentido são o Mercado Único Europeu e a Área de Livre Comércio
entre Estados Unidos, Canadá e México (NAFTA – North American Free Trade Agreement).
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
132
coincidir na busca de uma inserção em um contexto mais amplo, tanto
regional quanto mundial.
Nessa reordenação, observa-se uma simultaneidade de movimentos
diferentes que influem um no outro: o das empresas transnacionais, os dos
Estados-nação e os dos novos conjuntos ou agrupamentos de Estados. Essa
superposição é muitas vezes conflitiva pela tensão existente entre esses
agentes, conforme tentam acomodar seus interesses específicos. É bom
ressaltar, no entanto, que os agrupamentos entre países têm preferentemente
caráter intergovernamental, com peso ainda significativo das políticas
conduzidas pelos Estados
5
.
Algumas particularidades latino-americanas
A formação de um mercado comum no Cone Sul (Mercosul) é uma
das iniciativas intra-regionais de caráter minilateral que se têm registrado
na América Latina no início da década de 90. Podem-se mencionar
também o Pacto Andino e o Mercado Comum Centro-Americano, acordos
preexistentes que receberam novo impulso a partir de renovados programas
de negociações regionais
6
.
Esses acordos sub-regionais de comércio reativados nos anos 90
são precedidos pela adoção de políticas unilaterais de liberalização em um
contexto de políticas de abertura das economias nacionais. O modelo
substitutivo de importações, que facilitou o desenvolvimento industrial a
partir da presença tutelar do Estado e com diferentes mecanismos de proteção
econômica, começa a dar sinais de esgotamento nos anos 80.
Efetivamente, a crise estrutural que tem afetado secularmente o
continente se aprofunda com uma gravidade sem precedentes na década
5
Mesmo na Comunidade Européia, processo de integração que tem alcançado o maior grau de
aprofundamento, existem permanentes divergências para decidir se se prioriza a solução dos problemas
“domésticos” ou os relativos à Comunidade.
6
Em novembro de 1990, com a assinatura da Ata de La Paz, o Pacto Andino anunciou que o prazo
para a formação de uma Zona de Livre Comércio seria o dia 31 de dezembro de 1991 e antecipou
para 1995 a adoção de uma tarifa externa comum. Por seu lado, em julho de 1991 os governos dos
países da América Central comprometeram-se a: reduzir até 31 de dezembro de 1992 o arancel
externo; liberalizar completamente o comércio intrazonal de produtos agropecuários a partir de 30
de junho de 1992; e suprimir os obstáculos ao comércio intra-regional de manufaturas (Hirst, 1991).
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
133
passada. É no âmbito financeiro que se percebe, com maior profundidade,
seu desenvolvimento. Isso se expressa claramente a partir de 1982, quando
sucessivamente diferentes países latino-americanos declaram a moratória.
A posterior aplicação de políticas de ajuste permite explicar o predomínio
da estagnação, recessão e descapitalização que caracteriza a chamada
“década perdida”.
Esta denominação refere-se basicamente ao fato de que a América
Latina está em um período de retardamento de seu processo de
industrialização. “O modelo de crescimento com endividamento, após o
choque dos juros, implicou, no início da década de 80, programas de
estabilização que foram administrados por meio de contenção de demanda
interna sem uma definição prévia de política industrial e sem priorizar
setores, ou mesmo as áreas sociais, o que acabou por provocar uma
desorganização econômica”
7
. É conveniente lembrar que tais receitas
recessivas são tuteladas ou controladas pelo Fundo Monetário Internacional,
que desde 1982 monitoriza o pagamento da dívida externa.
Diante desse contexto particular para o continente latino-americano
e das mudanças estruturais do sistema econômico internacional, procuram-
se conformar, como uma das formas de reativação econômica, associações
minilaterais que dinamizem o comércio intrazonal
8
.
Salienta-se que esses fatos têm seu correlato no plano político, pois
a renovação dos numerosos governos no começo da década
9
, indício da
consolidação nos processos de transição democrática que vivem vários países
da região, vem acompanhada por um desenho mais pragmático da política
externa. Tentam-se transformar os processos de integração já em curso em
um instrumento para dinamizar as relações econômicas exteriores.
7
Cacciamali, Maria Cristina. Mudanças Recentes no produto e no emprego: uma comparação entre
os países industrializados e aqueles em desenvolvimento, Revista Brasileira de Economia. Rio de
Janeiro, 45(2), abr-jun. 1991, pg. 226.
8
De acordo com Quijano (1991), este tipo de acordos mais restringidos parece “reconhecer a
inviabilidade dos acordos múltiplos, como o Tratado de Montevidéu, que reúne na ALADI os 11
países da região. Acordar entre onze, quando se trata de países heterogêneos, com diversos graus de
desenvolvimento, com políticas econômicas nem sempre compatíveis e governos instáveis, que a
cada renovação mudam a ponderação ao projeto regional, parece uma tarefa inviável” (p. 50).
9
Em 1989, aconteceram processos eleitorais na Argentina, na Bolívia, no Chile, em El Salvador,
Honduras, no Paraguai e na Venezuela. Em 1990, no Brasil, na Colômbia, Costa Rica, Nicarágua,
no Panamá, Peru e Uruguai.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
134
Neste contexto situa-se o Mercosul, proposta de integração entre
Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, que surge com a assinatura do Tratado
de Assunção em março de 1991. De acordo com o Artigo n.º 1 desse Tratado,
os Estados Parte decidem constituir um mercado comum, que deverá estar
estabelecido a 31 de dezembro de 1994 e que implica as seguintes metas:
(a) livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países,
(b) o estabelecimento de uma política comercial comum em relação a
terceiros países, (c) a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais
entre os Estados-membros, e (d) o compromisso de harmonizar as legislações
nacionais nas áreas pertinentes.
Optou-se por uma proposta que implica um importante
aprofundamento no processo de integração econômica. Outras modalidades,
como uma área de livre comércio e uma união aduaneira, exigem um grau
menos avançado de integração. Limitam-se ao tratamento da questão das
barreiras ao comércio (dos membros da comunidade entre si e no seu
relacionamento com o resto do mundo). O mercado comum, por sua parte,
inclui a livre mobilidade da mão-de-obra e de capital, o qual exige um
importante esforço na coordenação das políticas internas dos países
envolvidos. Sem dúvida, trata-se de proposta ambiciosa para cumprir em
quatro anos.
Agora, para entender o Mercosul, a análise deve remontar a seu
antecedente mais recente, o Programa de Integração e Cooperação
Econômica (PICE) entre Argentina e Brasil, que foi assinado em 1986.
Os momentos da integração econômica no Cone Sul
O processo de integração no Cone Sul começa em 1985 com um
encontro entre os presidentes Raúl Alfonsin (Argentina) e José Sarney
(Brasil) em Foz do Iguaçu. Este fato é significativo já que se situa no processo
de reabertura democrática iniciado nos dois países depois de traumáticos
regimes militares, nos quais predominava uma relação de mútua
desconfiança.
Como afirma Almeida Mello “com o fim do autoritarismo e do
Estado de Segurança Nacional nos dois países platinos, o retorno à
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
135
democracia e ao Estado de Direito contribuiu para que a dinâmica da
cooperação-integração subordinasse a lógica da rivalidade-competição, que
havia predominado nas relações brasileiro-argentinas até o fim da década
de setenta”
10
.
Assim sendo, começa-se a assinar uma série de acordos e protocolos
bilaterais visando aprofundar um programa de negociações. Um dos
objetivos mais significativos do PICE é promover uma especialização
intrasetorial, na qual se prioriza o intercâmbio de bens análogos com certo
grau de diferenciação. Isto implica uma divisão do trabalho por produtos
mais que por ramos de produção, estimulando uma diversificação das
estruturas produtivas e o aproveitamento das economias de escala.
Esta opção é uma tentativa de reverter o esquema predominante no
comércio bilateral, que se baseia fundamentalmente na exportação de
produtos primários com pouco grau de processamento por parte da Argentina
diante das exportações brasileiras de manufaturas. Esquema clássico de
especialização intersetorial, que, em uma situação de mercado ampliado,
pode até provocar a desaparição de algum setor em um dos parceiros
comerciais. Pelo contrário, o comércio intra-ramos promovido pelo PICE
busca a criação de vantagens comparativas dinâmicas que incrementem a
competitividade de alguns setores. Daí a preferência que se outorga as
indústrias de bens de capital, alimentar e automobilística.
Os protocolos setoriais são os instrumentos básicos deste Programa.
Facilitam uma abertura negociada por setor e por produto, procurando atingir
dois objetivos: a curto prazo, recuperar o nível de transações e corrigir
desequilíbrios sistemáticos nos fluxos de comércio e, a longo prazo, criar
um novo padrão de relacionamento entre as duas economias, que consolide
seu papel de indutores do crescimento regional
11
.
10
Mello, Leonel Itassu Alemeida. Brasil, Argentina e a balança de poder regional: equilíbrio,
preponderância ou hegemonia? (1969-1986). Tese de doutoramento, Departamento de Ciência
Política, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991, pg. 271.
11
Araújo Jr, José Tavares de. A opção por soberanias compartidas na América Latina: o papel da
economia brasileira. Texto para discussão, 256, Rio de Janeiro, Instituto de Economia Industrial,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1991.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
136
Além de estabelecer mecanismos progressivos de eliminação
tarifária e de remoção de barreiras não-tarifárias, propõem-se medidas como
a formação de empresas binacionais e a criação de um fundo de
investimentos, visando estimular a complementaridade produtiva.
Cabe destacar o caráter gradual que se pretende impor ao processo
com a finalidade de, conforme o PICE, “dar tempo para que os setores
produtivos nos dois países se ajustem às contingências criadas pela abertura
parcial e seletiva dos mercados”. Isso é importante na medida em que existem
fortes disparidades entre vários segmentos dos setores envolvidos e, portanto,
precisam-se desenhar linhas de reconversão industrial para acompanhar o
processo. Ao mesmo tempo, deve-se ressaltar a preocupação por uma
abertura seletiva que implica não incluir, no início, os bens dos setores
mais sensíveis, como certas produções agrícolas.
A renovação dos governos democráticos na Argentina e Brasil nos
anos 90 promove uma reformulação ampla do PICE, a qual ocorre nem
tanto por uma avaliação estrita de seus resultados mas como uma das
respostas ao quadro de asfixia econômica e financeira em que se encontravam
ambos os países
12
. Efetivamente, com os governos dos presidentes Menem
e Collor, que produzem uma modificação radical nas políticas econômicas
sustentadas basicamente em um conjunto de princípios neoliberais, o processo
de integração, embora se reafirme, deixa de corresponder com uma política
de abertura gradual e seletiva dos mercados para adquirir um sentido funcional
em um contexto generalizado de exposição competitiva à economia mundial
13
.
Como foi indicado no item precedente, o processo de integração
aprofunda-se no sentido de aspirar à constituição de um mercado comum e
também alcança uma nova dinâmica
14
. Estabelece uma redução tarifária
12
Ver Halperín, Marcelo. La cuestión nacional y los dilemas jurídicos e institucionales en el processo
de integración entre Argentina y Brasil. Documento, Buenos Aires, Universidad de Belgrano, julio,
1991.
13
Ver Hirst, Mônica. Avances y desafíos en la formación del Mercosur, Documentos e informes de
investigación. Faculdad Latino Americana de Ciencias Sociales, 130, Buenos Aires, 1992.
14
O marco formal desta nova proposta instala-se com a Ata de Buenos Aires assinada em julho de
1990 entre Argentina e Brasil, e mais tarde se atualiza com o Tratado de Assunção e a incorporação
do Uruguai e do Paraguai ao processo. Para estes dois países o Tratado estende o prazo do programa
de liberalização até 31 de dezembro de 1995.
Araújo Jr, José Tavares de. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integração do Cone Sul.
Texto para discussão interna, 33, Rio de Janeiro, Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior,
set. 1990.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
137
generalizada, linear e automática, a partir de 20% de redução tarifária anual,
junto a uma eliminação de barreiras não-tarifárias, que significa uma
liberalização comercial de caráter universal (todos os produtos são
submetidos automaticamente à redução tarifária), regida por prazos de
cumprimento estrito. Define-se assim uma mudança radical nas condições
de concorrência já que se suprime a possibilidade de uma adaptação gradual
de cada item ou matéria negociada a suas particularidades.
Esta decisão de acelerar o processo de formação de um mercado
comum com o estabelecimento de calendários extremamente apertados
é também uma forma de desconhecer as assimetrias entre os países
envolvidos e, em conseqüência, das relações econômicas preexistentes.
Dificilmente podem-se atender a essas dificuldades em um ritmo tão
peremptório. A propósito, é bom lembrar que na Europa, sem crise de
inflação e dívida externa, esse processo levou mais de quatro décadas.
No entender de Araújo (1990), “a decisão de encurtar os prazos do
programa foi uma temeridade, posto que nenhum dos dois governos está
preparado para enfrentar, nos próximos dois ou três anos, as dificuldades
inerentes ao complicado exercício de harmonizar políticas. Essa atitude
representa um esforço inútil de criar fatos novos com o objetivo de manter
a credibilidade do programa, e é idêntica a inúmeras outras que, no passado,
ajudaram a desgastar a idéia de integração latino-americana, há décadas
submetida a retóricas governamentais inconseqüentes” (p. 10). Em outro
de seus trabalhos acrescenta que “a fim de evitar que o Mercosul se torne
mais um exemplo da longa lista de fracassos latino-americanos, seria
conveniente, enquanto há tempo, reduzir transitoriamente seu escopo para
um Tratado de Livre Comércio, e estabelecer prazos mais sensatos para a
formação do mercado comum”
15
.
Um dilema ainda não resolvido
Um processo de integração econômica entre vários países responde,
sem dúvida, a uma decisão de tipo político que imprime determinado
conteúdo ao projeto. Este último depende principalmente dos processos
15
Araújo Jr, José Tavares de. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integração do Cone Sul.
Texto para discussão interna, 33, Rio de Janeiro, Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior,
set. 1990, pg. 18.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
138
políticos internos de cada país, da condução de seus governos e da participação
dos diferentes segmentos da sociedade civil. Daí que vários autores falam
dos possíveis cenários ou opções que o processo de integração pode enfrentar.
Ao respeito, Halperín (1991) aponta duas opções para os governos
do Cone Sul: uma negociação de abertura maciça para o aproveitamento
planificado dos mercados; ou uma abertura irrestrita com condições impostas
pelas “forças do mercado”.
A primeira opção exige uma regulação estatal mediante unificação
e harmonização das políticas econômicas, incluindo previsões para os
diferentes setores e ramos de produção e uma política externa comum. Pode-
se assimilar este caminho ao cenário “industrialista” definido por Chudnosky
e Porta
16
os quais supõem uma liberalização comercial dentro de um projeto
global de reestruturação industrial. Para isso, precisa-se de políticas industriais
e tecnológicas ativas em cada país, e um esforço deliberado de harmonização
das políticas econômicas além do plano cambial.
A segunda opção, ao contrário, implica uma elevada desregulação
das atividades econômicas. Seria suficiente, neste caso, compatibilizar os
regimes de promoção setorial e fixar algum mecanismo de paridade ou
equivalência cambial de caráter permanente. Esta concepção assemelha-se
à “comercialista” que apontam Chudnosky e Porta, na qual a coordenação
das políticas econômicas centra-se basicamente no tipo de câmbio. A partir
daí a reestruturação passa a ser orientada estritamente pelos mecanismos
do mercado.
A diferença no grau de intervenção estatal que subjaz a cada uma
das opções implica, também, resultados diferenciados. Uma implementação
de políticas industriais e tecnológicas ativas, associada a uma liberalização
comercial progressiva, permitiria orientar o processo de industrialização
em face de um aumento de sua competitividade a partir de economia de
escala e especialização. Ao contrário, uma abertura rápida e uma desregulação
da economia podem conduzir a uma reconversão com um alto custo social e
a um aprofundamento do esquema de especialização intersetorial.
16
Chudnovsk, Daniel y Porta, Fernando. La trayectoria del processo de integración argentino-
brasileño. Tendencias e incertidumbres. Documento de Trabajo, Uruguay, Centro de Estudios e
Investigación de Posgrado (CEIPOS), Universidad de la República, 1990.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
139
Neste sentido, deseja-se destacar que a possibilidade de atingir níveis
crescentes de competitividade não depende exclusivamente dos esforços
individuais dos agentes econômicos. Cada vez mais na experiência
internacional torna-se central a idéia de “competitividade sistêmica” como
base sólida para o desenvolvimento econômico. Segundo Kosakoff, esta
noção “substitui e, por sua vez, se superpõe aos esforços individuais, que,
embora sejam condição necessária para atingir esse objetivo, devem estar
acompanhados, necessariamente, por inumeráveis aspectos que conformam
o entorno das firmas (desde a infra-estrutura física, o aparato científico-
tecnológico, a rede de provedores e subcontratistas, o sistema de distribuição
e comercialização até os valores culturais, as instituições, o marco jurídico
etc.)”
17
.
Sem dúvida, as condições que conformam tal entorno dependem
em grande medida da presença ativa do Estado, o único que pode facilitar a
participação de todos os agentes econômicos no processo, fundamentalmente
das pequenas e médias empresas.
Conforme observado, pode-se concluir que o enfoque do avanço
gradual por setores, que predominou no primeiro momento do processo de
integração entre Argentina e Brasil, corresponderia basicamente à via de
tipo “industrialista”. Pelo contrário, a inflexão produzida a partir de 1990
mostra que o novo esquema parece estar mais próximo da opção
“comercialista”, na qual o Estado aparece subordinado à lógica do mercado.
A partir desse suposto, pode-se inferir que em um cenário
“comercialista” predominam as velhas tendências, isto é, um esquema de
intercâmbio no qual só se beneficiam os setores mais concentrados, os que
já detêm um importante grau de controle da economia.
[ARROYO, Monica. “Mercosul: Novas territorialidades ou ampliação
de velhas tendências”. In: SCARLATO, Francisco Capuano e outros (org.).
Globalização e espaço latino-americano. São Paulo: Hucitec, 1994,
p. 122-130.]
17
Kosacoff, Bernardo. Industrialización, competitividad e inserción externa, Documento de trabajo,
Seminário “Las ventajas competitivas de la nación”, Presidência de la Nación, Buenos Aires,
septiembre, 1991.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
140
4. As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônica
A Amazônia Internacional, constituída em sua maior parte por
terras baixas florestadas equatoriais drenadas pelo sistema fluvial comandado
pelo Rio Amazonas, ocupa cerca de 35% da superfície da América do Sul,
estendendo-se pelos territórios do Brasil (cerca de 69% da área total), da
Bolívia, do Peru, do Equador, da Venezuela e das Guianas. Trata-se,
provavelmente, da maior “fronteira de recursos” do planeta, devido ao seu
imenso potencial energético e mineral e à sua incalculável riqueza biológica.
Além disso, é uma área tornada estratégica pela sua importância crescente
na rota de produção e distribuição mundial de narcóticos.
Submetida a diferentes soberanias, a Amazônia Internacional vem
sendo objeto de diferentes estratégias nacionais de desenvolvimento e
integração, em especial a partir da década de 1960. No caso brasileiro, por
exemplo, essas estratégias envolveram a criação de orgãos de planejamento,
tais como a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM),
criada em 1966 para coordenar e supervisionar programas e planos
destinados a dinamizar a economia da região e a Superintendência da Zona
Franca de Manaus (Suframa), nascida no ano seguinte com o objetivo de
estimular o processo de industrialização da cidade de Manaus. Envolveram
também a construção de grandes eixos viários de integração, tais como as
rodovias Belém-Brasilía, a Cuiabá-Porto Velho, a Cuiabá-Santarém e a
Transamazônica. A abertura de uma rota viária amazônica para o Pacífico
através da complementação da BR-364, de forma a ligar Rio Branco (no
Acre) até Pucallpa (Peru), é um projeto tão antigo quanto polêmico, que
não chegou a se concretizar.
Mais recentemente, as estratégias nacionais parecem apontar
no sentido de garantir o controle sobre as permeáveis fronteiras da região.
O Projeto Calha Norte, por exemplo, criado em 1985, prevê a instalação
de uma rede integrada de bases militares do Exército e da Marinha
acompanhando as fronteiras setentrionais do Brasil com a Colômbia, a
Venezuela, a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa. Já o Sistema de
Vigilância da Amazônia (SIVAM), concebido no início da década de 1990,
consiste em uma rede integrada de telecomunicações baseadas no
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
141
sensoriamento remoto, que processará imagens obtidas por satélites, por
sensores instalados em aviões e por radares fixos. Através dele, o governo
pretende controlar o tráfego áereo e as atividades ilegais – tais como
contrabando de minérios e narcotráfico – na região.
Ao mesmo tempo, a Amazônia brasileira é alvo de uma imensa
pressão ecológica internacional devido ao valor de seu patrimônio genético.
A aprovação de uma projeto de macrozoneamento econômico e ecológico
para a Amazônia Legal, ocorrida no início da década de 1990, é em parte
resultado dessa pressão.
Entretanto, ao lado das estratégias nacionais, emergem esforços no
sentido de viabilizar o estabelecimento de políticas de desenvolvimento e
de sustentabilidade ambiental para o conjunto da Amazônia Internacional.
Entre esses esforços, destaca-se o Tratado de Cooperação Amazônico (TCA),
assinado por todos os países da região em 1978. A substância e a viablidade
de um pacto Pan-Amazônico são discutidos pela geógrafa Berta Becker, no
texto complementar que encerra essa Unidade.
Texto Complementar
No fragmento de texto abaixo, a geógrafa Berta Becker problematiza
a organização territorial da Amazônia, apresenta as problemáticas comuns
às localidades fronteiriças e analisa as perspectivas de cooperação entre os
países da região.
Texto 1 – Em Busca de um Projeto Pan-Amazônico
O equacionamento da problemática amazônica nacional requer
igualmente a compreensão e a compatibilização de interesses atuantes no
conjunto dos países amazônicos. A formação de um pacto amazônico seria
vantajosa econômica e politicamente, mormente quando a nova ordem
mundial se reorganiza em grandes mercados supranacionais. Em face da
crise das economias e dos Estados nacionais, a cooperação entre países
com herança histórica e condições naturais similares e contigüidade física
significa, por um lado, minimizar investimentos para o desenvolvimento
regional e para assegurar as fronteiras, e, por outro, criar importante
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
142
instrumento de barganha para negociar com os credores, enfrentar as pressões
internacionais e definir a forma de inserção dos países sul-americanos na
ordem mundial.
A maior dificuldade para soldar um pacto supranacional reside na
ausência de projetos nacionais para a Amazônia capazes de compatibilizar
os projetos internacional e regional. E a integração continental pode se
constituir como projeto nacional para os países amazônicos.
Há, sem dúvida, problemas comuns a esses países e que exigem
tratamento conjunto. Mas há também problemáticas específicas e conflitos
a neutralizar: como abrir a economia e, simultaneamente, manter os
privilégios regionais consolidados? Como participar de um pacto
supranacional sem a consolidação plena da nação, essencial para a
formulação do projeto nacional democrático?
Uma estratégia para a Amazônia sul-americana há que considerar
problemáticas comuns e diversas desses países e as possibilidades que
oferecem à cooperação.
Elementos comuns e diferenciados na problemática amazônica continental
Todos os países amazônicos convergem para uma problemática
básica: a virtualidade e a vulnerabilidade históricas da Amazônia sul-
americana. Seu valor econômico e estratégico é patente na tese de sua
internacionalização, que surge ciclicamente com diferentes projetos, mas
condições históricas e naturais garantiram a sua permanência como
patrimônio das sociedades sul-americanas. Por esse valor econômico e
estratégico tornou-se central sob a óptica mundial e nacional, mas é
geograficamente periférica do ponto de vista nacional.
À semelhança do Brasil, só recentemente se desencadeou a
rápida ocupação das amazônias sul-americanas. Entre 1930 e 1960, a
industrialização por substituição das importações e o forte crescimento
demográfico valorizaram as amazônias como fronteiras agrícolas nacionais
e os Estados cooptaram o movimento relativamente espontâneo da população
em nome da unidade nacional. Datam da década de 40 as primeiras práticas
estatais para a ocupação das respectivas amazônias, bem como para a
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
143
cooperação fronteiriça, que permaneceram, contudo, muito aquém do
discurso. Dentre essas práticas destaca-se o Estatuto Fronteiriço de 1942,
estabelecido entre Venezuela e Colômbia (intensificado com os estudos
elaborados pela Missão do BID em 1964).
A partir da década de 60, e principalmente de 1970, as amazônias
passam a se valorizar como fronteira de recursos mundial e nacional e
fronteira geopolítica nacional. Empresas estrangeiras mineradoras e governos
autoritários, que passam a dirigir a ocupação segundo a filosofia do
desenvolvimento e segurança, estimulam a migração, os conflitos e o tráfico
fronteiriço, intensificando-se as práticas bilaterais. Alguns elementos comuns
dessa problemática e das políticas podem ser identificados:
1. Uma lógica comum acompanhada de estratégias semelhantes no
tocante ao chamado processo de desenvolvimento regional. Essa lógica
comum encontra sua raiz mais profunda na visão latino-americana que
alia desenvolvimento à segurança nacional – isto é, na geopolítica de
caráter militar. Em todos os discursos oficiais, a Amazônia foi vista como
“espaço vazio”, território a ser conquistado. E os programas para seu
desenvolvimento, tanto nacionais como de cooperação intergovernamental,
patrocinados diretamente pelos Estados, se legitimaram através de ações
que privilegiaram o capital externo à região com apoio militar.
2. Práticas governamentais inadequadas, que se resumem a projetos
de colonização e redes viárias precárias, instaladas com desconhecimento
das condições locais, e que têm como efeito perverso provocar conflitos
ambientais, de terra e sociais. Os projetos foram parte de uma estratégia
para desviar o fluxo demográfico das áreas densamente povoadas para as
respectivas amazônias; no entanto, o afluxo migratório foi muito superior
ao esperado e não consegue ser absorvido pelos escassos e precários projetos
estabelecidos, criando tensões com as populações indígenas e escapando
ao controle governamental.
3. O fortalecimento das elites regionais.
4. Um problema de soberania decorrente de conflitos externos e
internos, inerente ao modelo de ocupação adotado e que acentua a sua
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
144
posição dicotômica central/periférica. No plano interno, a soberania é
contestada pela ocupação conflitiva e descontrolada numa área de difícil
acesso. No plano externo, é contestada não tanto pela imbricação crescente
de empresas e organismos internacionais no processo de ocupação –
fenômeno hoje de âmbito universal – nem apenas pela pressão ecológica e
financeira internacional, mas também pelo narcotráfico. O mercado norte-
americano de drogas consome por ano cerca de 150 bilhões de dólares (mais
que a dívida externa brasileira), e tal poder de compra vem arrastando todos
os países amazônicos para a economia de um produto cujo preço rivaliza
com o do ouro.
Se tal comunalidade aponta para a necessidade e a possibilidade de
cooperação, problemáticas específicas tornam essa cooperação difícil. Os
países da Amazônia sul-americana são bem mais heterogêneos do que
aparentam, devido, pelo menos, aos seguintes fatores:
1. O nível de desenvolvimento econômico e social, referente ao
dinamismo e à diversificação das economias nacionais, à distribuição da
renda e à pobreza. Neste contexto, cumpre assinalar a dificuldade vinculada
ao desnível entre o Brasil e os demais países em termos de maior dinamismo
econômico e extensão territorial, que é concebido como ameaçador pelos
demais países. Essa concepção foi justificada com a política externa
agressiva do regime militar brasileiro entre 1964 e 1974.
2. O nível cultural e organizacional das populações indígenas, que é
variado mas superior ao brasileiro.
3. A diversidade de condições geológicas, de revestimento florestal
e de extensão das diversas amazônias, extensão que repercute no seu maior
ou menor distanciamento em relação aos centros vitais dos respectivos países.
4. O grau de ingovernabilidade, decorrente da ineficácia da ação
governamental, da magnitude dos conflitos e do megapoder dos traficantes
de drogas, que, em alguns países, constituem um Estado paralelo.
Tais diferenças parecem explicar a prática de acordos bilaterais,
adotada na cooperação entre países. Indicam também que, na perspectiva
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
145
de uma estratégia comum, é útil identificar os espaços onde se devem
concentrar esforços de cooperação.
Possibilidades de cooperação no contexto local: a questão fronteiriça
Nas fronteiras políticas dos países amazônicos se materializa parcela
importante da teia de relações que se pretende cada vez mais densa na região.
A partir da década de 70, as fronteiras vêm experimentando um processo
de vivificação desordenada, como decorrência da ação governamental
perversa, de sua crise e de movimentos espontâneos. Aí se torna mais
transparente o papel das atividades ilegais, sobretudo ouro e droga, como
novos fatores da organização territorial na Amazônia. Movimentos
migratórios tendem a se aproximar e mesmo ultrapassar os limites políticos
de cada país, fluindo para um ou outro segundo as oportunidades econômicas
que apresentem. Em outras palavras, nas fronteiras políticas, vários processos
conflitivos se superpõem: a ingerência externa e a soberania nacional; a
marginalidade e a vida econômica e política oficial; a ocupação desordenada
e a emergência de economias transfronteiriças, fruto do desnível
socioeconômico entre países vizinhos e do ritmo de sua recuperação.
Algumas dessas situações podem ser exemplificadas em localidades
fronteiriças, constituindo embriões de novas territorialidades (...).
Fluxo de mão-de-obra brasileira para a Guiana Francesa
É o que ocorre entre Oiapoque (AP) e Saint Georges. A Guiana
Francesa é tida como terra prometida para muitos brasileiros que lá vivem,
a maioria na clandestinidade, devido a um imenso desnível entre as duas
cidades em termos de habitação, infra-estrutura e serviço médico e oferta
de trabalho, que tende a crescer devido aos investimentos franceses em
infra-estrutura e hidreletricidade.
Comércio legal e ilegal em torno de Boa Vista (RR)
Três situações se identificam:
a) Bonfim (RR)/Lethem (Guiana). O movimento nessa fronteira se
caracteriza como uma trilha de comerciantes, principalmente guianeses,
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
146
que compram mercadorias em Boa Vista e revendem em Lethem, mais bem
aparelhada do que Bonfim.
b) BV-8 (RR)/Santa Elena do Uiaren (Venezuela). A localidade de
BV-8, marco fronteiriço, é hoje a pequena Vila Pacaraima, que contrasta
fortemente com a mais bem desenvolvida cidade venezuelana de Santa Elena
(ligada por asfalto até Caracas). A maior parte dos brasileiros da região
vive do lado venezuelano, revendendo dólares e combustível adquiridos na
Venezuela, em Boa Vista.
c) Rio Catrimani – divisa entre Roraima (Brasil) e Estado Bolívar
(Venezuela). O movimento aqui é oposto. Essa área Yanomami é a porta de
entrada clandestina dos garimpeiros brasileiros em território venezuelano,
e os garimpeiros exercem poder na região, uns organizados em torno da
União dos Sindicatos e Associações de Garimpeiros da Amazônia Legal
(Usagal). Embora pouco permaneça no Brasil, ou permaneça de forma ilegal,
o ouro responde em grande parte pelo crescimento de Boa Vista.
Narcotráfico na fronteira ocidental
a) Tabatinga (AM)/Letícia (Colômbia). Esse ponto de fronteira se
tornou a preocupação mais urgente do comando militar da Amazônia devido
à guerra do narcotráfico na Colômbia e a conseqüente fuga de colombianos
e de peruanos para Tabatinga e Vila Bittencourt, que carecem de infra-
estrutura e vivem em função de Letícia, muito maior e mais desenvolvida.
A repressão ao tráfico, principalmente no Brasil, gerou ainda uma queda
substancial no comércio local, agravada pelas restrições que Peru e Colômbia
fazem à entrada de produtos brasileiros.
b) Brasiléia – Guajará-Mirim – Costa Marques (RO)/Peru e Bolívia,
tríade que constitui a grande porta de entrada do narcotráfico no Brasil,
redistribuindo o produto para o exterior através das rotas norte, via Manaus,
e sudeste, via São Paulo e Rio de Janeiro, passando por vários núcleos
intermediários.
c) Palmarito (MT)/Bolívia, pequena vila próxima a Cáceres, que
participa da rota sudeste, onde os traficantes operam livremente, sendo muito
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
147
mais bem equipados em termos de veículos motorizados e armas do que o
exército.
Extravasamento da exploração da borracha brasileira
É o que caracteriza a área de Plácido de Castro (AC)/Vila Montevideo
(Bolívia). A situação neste caso é oposta. O lado brasileiro apresenta
condições de vida bem superiores em relação ao lado boliviano, mas o grande
problema da área é o fluxo de seringueiros brasileiros para as matas
bolivianas, onde vivem isolados num regime semi-escravagista nas colônias
bolivianas ou em seringais de próprios brasileiros.
Tal permeabilidade das fronteiras amazônicas, que no Brasil se
estendem por 11 mil quilômetros, aponta para a necessidade não só de
vigilância das atividades ilegais e de suporte ao povoamento, como também
para uma nova política de desenvolvimento integrado que reconheça as
economias transfronteiriças.
Fronteiras não devem ser confundidas com limites, que são as linhas
divisórias entre soberanias. Fronteiras são áreas, faixas, com uma realidade
socioeconômica e psicológica diferente da do restante de cada território
nacional, que lhes imprime uma identidade própria, comum aos dois lados
da linha divisória.
Em termos de estratégia para a região, cumpre reconhecer uma dupla
realidade amazônica que tem sido negligenciada: a) a Amazônia é uma
selva urbanizada
1
, na medida em que a maior parte da população e suas
atividades regionais se concentram nos núcleos urbanos, que são o lugar
dos problemas, mas também o lugar da sua solução; b) as novas
territorialidades fronteiriças, centradas em núcleos urbanos, configuram-se
como os espaços privilegiados para uma ação conjunta. Para tanto, é
necessário ultrapassar as experiências e iniciativas internas de cada governo,
que não contemplam o outro lado da fronteira nem a dinâmica fronteiriça,
fortalecendo a nova tendência, a chamada “fronteira institucional de
1
Cf. Becker, Bertha K. (1992) – Desfazendo mitos: Amazônia uma selva urbanizada. Projeto Pró-
Amazônia, Unesco (mimeo).
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
148
integração”, onde os limites jurisdicionais dos Estados se interpenetram
através de pólos de desenvolvimento fronteiriço
2
.
Os Planos de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas
na Fronteira, praticados assistematicamente por Colômbia, Peru e Equador,
foram iniciados pelo Brasil em 1987 com a Colômbia, através do Plano-
Modelo de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas do Eixo
Tabatinga-Apaporis (PAT), envolvendo a fronteira Tabatinga-Letícia, ao sul,
e Vila Bittencourt-La Pedrea, ao norte. A partir dessa iniciativa, criou-se o
Grupo Técnico Interministerial de Alto Nível para, sob a responsabilidade
do Ministério do Interior, coordenar tecnicamente a execução dos planos-
modelo a serem constituídos justamente nas áreas de economia transfronteiriça
assinadas (decreto publicado no D.O. de 14 de dezembro de 1987).
O reconhecimento e a admissão pelas políticas nacionais desse
espaço comum não é uma tarefa fácil. Requer mudança de doutrina
geopolítica que privilegie não apenas o fortalecimento dos centros de poder
dominantes do país, através de grandes projetos, mas também o
desenvolvimento da própria fronteira, entendida não mais como linha
divisória, mas como área composta por subáreas de cada país, através de
programas mútuos de cunho social e de escala limitada, localizados em
pontos nodais. Caso contrário, corre-se o risco de que os programas sejam
meras tentativas frustradas de afirmação numa conjuntura de crise das
economias e dos Estados nacionais.
Em que pesem as críticas à estrutura institucional do TCA, ele
constitui um marco genérico de princípios norteadores da cooperação.
Justamente porque seu arcabouço jurídico-institucional flexível permite
construções dinâmicas e inovadoras que podem ser nesse momento ativadas.
[BECKER, Berta K. “Significado geopolítico da Amazônia: elementos para
uma estratégia”. In: PAVAN, Crodowaldo (coord.). Uma estratégia latino-
americana para a Amazônia. São Paulo: Memorial/Editora Unesp, 1996,
p. 195-201.]
2
Cf. Coelho, P.P. 1990. A cooperação fronteiriça na Amazônia. Planos modelos de desenvolvimento
integrado de comunidades vizinhas na fronteira: uma proposta. Brasília: Ministério das Relações
Exteriores (mimeo).
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
149
5. Exemplos de Questões
Concurso de 1997
“A circulação financeira é marcada por acentuada extraterritorialidade.
Tal condição propicia que, atualmente, uma mercadoria circule pelo
mundo sem sair do lugar. Comente essa afirmação.”
Concurso de 1998
“Analise os mecanismos dos processos de circulação que explicam por
que a crise na economia dos chamados ‘Tigres Asiáticos’ tem
repercussões internacionais, apontando seus possíveis desdobramentos
na economia brasileira.”
Concurso de 1999
“Existem duas propostas de traçado potencial para o eixo básico que
estruturará o sistema de transportes do Mercosul, ligando São Paulo a
Buenos Aires. Identifique as duas possibilidades e discorra sobre os
previsíveis efeitos de cada alternativa na organização do espaço
meridional-oriental sul-americano.”
“A questão do desemprego aparece, na atualidade, como um problema
internacional. Comente as causas estruturais de tal situação e compare
sua manifestação nas três maiores economias do mundo na última
década.”
“A articulação da malha viária brasileira com algum ponto no oceano
Pacífico é um projeto antigo que ainda não se pode concretizar. Comente
os argumentos favoráveis a esse projeto, apontando os interesses
subjacentes a cada argumentação.”
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
150
6. Bibliografia
Bibliografia Básica
BENKO, Georges. Economia, Espaço e Globalização. São Paulo: Hucitec,
1996.
SANTOS, Milton et alli. Fim de século e Globalização. São Paulo: Hucitec/
ANPUR, 1994.
SCARLATO, Francisco C. et alli. Globalização e Espaço Latino-Americano.
São Paulo: Hucitec/ANPUR, 1994.
SOUZA, Maria Adélia A. et alli. Território: Globalização e Fragmentação.
São Paulo: Hucitec/ANPUR,1995.
Bibliografia Complementar
FLORÊNCIO, Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO, Ernesto Henrique Fraga.
Mercosul hoje. São Paulo: Alfa Omega, 1996.
PAVAN, Crodowaldo (coord.). Uma estratégia latino-americana para a
Amazônia. São Paulo: Memorial/Editora Unesp, 1996, p. 195-201.
O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL
151
UNIDADE IV
A QUESTÃO AMBIENTAL
NO BRASIL E OS DESAFIOS
DO DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
152
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
153
IV. A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS
DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Nas últimas décadas, o debate ambiental tornou-se tema político
prioritário, envolvendo tanto os Estados quanto parcelas expressivas da
sociedade, no mundo inteiro. Ainda que coexistam as mais diferentes
opiniões sobre as causas e os modos de enfrentamento do problema, já é
corrente a noção de que o uso intensivo e predatório dos recursos naturais
pode trazer conseqüências dramáticas para a qualidade de vida das
populações, tanto no presente quanto no futuro.
Os textos desta Unidade discutem alguns dos conceitos norteadores
do debate ambiental, com destaque para a idéia de desenvolvimento
sustentável. Para situar a problemática ambiental no Brasil, traçamos um
síntese do quadro físico do país e das principais causas de degradação de
seus grandes domínios paisagísticos.
Nas cidades, os problemas ambientais freqüentemente se
transformam em questões de saúde pública. Além da poluição atmosférica,
questões ligadas ao saneamento básico e à destinação do lixo interferem no
cotidiano de um número crescente de brasileiros. A relação entre qualidade
de vida e ambiente urbano é tematizada nos textos que finalizam a Unidade.
1. A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos
Sustentáveis do Solo
O conceito de desenvolvimento econômico da civilização industrial
valorizou acima de tudo a multiplicação quantitativa da produção e do
consumo. Nas economias capitalistas, o progresso foi identificado com o
lucro empresarial. Nas economias estatizadas, ele era sinônimo de rápida
industrialização, com ênfase nos setores de base. O lucro capitalista e o
produtivismo socialista excluíram o meio ambiente das preocupações
econômicas e políticas.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
154
Pelo menos em parte, a crescente preocupação com o meio ambiente
é uma manifestação da crise da idéia de progresso que fundou a civilização
industrial. A pressão sobre os ecossistemas frágeis do planeta assim como
o grau e a irreversibilidade das alterações antrópicas no ambiente global
ganharam um estatuto inédito nas últimas décadas e freqüentam um número
cada vez maior de fóruns internacionais de discussão. O avanço dos desertos,
o desmatamento e o conseqüente empobrecimento do patrimônio genético
do planeta, assim como os resultados da emissão dos gases de estufa na
atmosfera, figuram entre os principais temas de debate.
Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente,
realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972, a crise ambiental do planeta foi
associada, fundamentalmente, à explosão demográfica dos países pobres.
Nela, prevaleceu a idéia de que o planeta é um sistema finito de recursos,
submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da
produção econômica. As suas conclusões apontavam o horizonte do colapso
do sistema, caso não se tomassem severas medidas restritivas ao crescimento
demográfico e da produção nos países pobres.
Entretanto, grande parte da crise ambiental contemporânea é
resultante de padrões de produção e consumo adotados por parcela
relativamente pequena da população mundial. A ONU estima que 90% do
consumo individual do mundo seja realizado por apenas 20% da população
do planeta. O caso do consumo energético é particularmente ilustrativo a
esse respeito.
A Revolução Industrial, que inaugurou a era dos grandes impactos
ambientais, foi, em muitos sentidos, uma revolução energética. Nas
sociedades urbano-industriais que então despontavam, a habilidade manual
e a força muscular foram progressivamente substituídas pelos processos
mecânicos. O ferro das máquinas e ferrovias era obtido nos altos-fornos da
siderurgia, que consumiam grandes quantidades de carvão. O vapor obtido
pela queima do carvão movia navios, ferrovias e indústrias.
Em meados do século XIX, a invenção do dínamo e a do alternador
abriram o caminho para a produção de eletricidade. A primeira usina de
eletricidade do mundo surgiu em Londres, em 1881, e a segunda em Nova
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
155
Iorque, no mesmo ano. Ambas forneciam energia para a iluminação. Mais
tarde, a eletricidade iria operar profundas transformações nos processos
produtivos, com a introdução dos motores elétricos, e na vida cotidiana das
sociedades industrializadas, na qual foram incorporados dezenas de
eletrodomésticos.
A difusão dos motores a combustão interna explica a importância
crescente do petróleo na estrutura energética dos países industrializados.
Além de servir de combustível para automóveis, aviões e tratores, ele
também é utilizado como fonte de energia nas usinas termelétricas e, ainda,
é matéria-prima para muitas indústrias químicas. Desde a década de 1970,
registra-se também um aumento significativo na produção e consumo de
energia nuclear nos países desenvolvidos.
Nas sociedades pré-industriais, entretanto, os níveis de consumo
energético pouco se alteraram nos últimos séculos, e as fontes energéticas
tradicionais, com destaque para a lenha, ainda são predominantes. Estima-
se que o consumo de energia comercial per capita no mundo seja de
aproximadamente 1,7 tonelada equivalente de petróleo (TEP) por ano, mas
esse número significa muito pouco: um norte-americano consome anualmente,
em média, 8 TEPs, contra apenas 0,197 consumidas por habitante em
Banglagesh e 0,268 no Haiti. Apenas quatro países – Estados Unidos, Rússia,
Japão e Alemanha – são responsáveis por aproximadamente 40% do
consumo energético mundial, apesar de abrigarem pouco mais de 10% da
população do planeta.
Esse contraste, além de revelar o verdadeiro fosso que separa os
padrões de consumo vigentes entre os países do mundo, está no centro das
discussões acerca dos problemas ambientais do planeta.
Atualmente, os recursos energéticos mais utilizados no mundo são
o carvão, o petróleo e o gás natural, a água e os minerais radioativos: juntos,
eles correspondem a perto de 90% da oferta mundial de energia. A utilização
de qualquer um deles acarreta impactos ambientais. As fontes de energias
limpas e renováveis, tais como a energia solar, a eólica e a geotérmica,
ainda constituem parcelas desprezíveis no balanço energético mundial, em
que pese os grandes investimentos em pesquisa realizados para torná-las
mais eficientes e menos caras.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
156
De acordo com as recomendações da Conferência de Estocolmo,
enfrentar a crise ambiental implica diminuir a utilização dos principais
recursos energéticos, ou, pelo menos, mantê-la em níveis próximos aos
atuais. Entretanto, os níveis atuais excluem grande parte da humanidade do
consumo de bens e serviços considerados essenciais, que precisam de energia
para serem produzidos e distribuídos.
O conceito de desenvolvimento sustentável, amplamente divulgado
pelo documento “Nosso Futuro Comum”, produzido pela Comissão Mundial
de Meio Ambiente e Desenvolvimento, se contrapõe em muitos sentidos às
concepções predominantes na reunião de Estocolmo. Essa comissão,
presidida pela líder do partido trabalhista norueguês Gro Harlem Brundtland,
foi criada pela ONU em 1983 com a missão de elaborar um amplo
diagnóstico acerca da problemática ambiental em âmbito planetário e de
propor estratégicas de desenvolvimento ecologicamente sustentáveis.
Publicado em 1987, o Relatório Brundtland (como ficaria conhecido)
aborda de maneira integrada as questões ambientais, demográficas e sociais.
De acordo com ele, o uso intensivo de recursos naturais e a manutenção de
padrões de consumo acima das possibilidades ecológicas em certas regiões
do planeta, assim como a disseminação da pobreza em outras, são fatores
de risco para o ambiente global, e precisam ser combatidos em nome de um
futuro mais justo e ambientalmente mais saudável. Nessa perspectiva, o
desenvolvimento sustentável só existe quando se cumprem os requisitos
ambientais para a continuidade histórica dos padrões de produção e consumo
desejados, e quando estes são passíveis de se estender ao conjunto da
humanidade. Portanto, o relatório preconiza a adoção de agendas ambientais
que, ao mesmo tempo, possam elevar os padrões de vida dos países pobres
e garantir as condições ambientais futuras do planeta:
O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às
necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as
gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. Ele
contém dois conceitos-chave:
– o conceito de “necessidades”, sobretudo as necessidades
essenciais dos pobres do mundo, que devem receber a máxima
prioridade;
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
157
– a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da
organização social impõe ao meio ambiente, impedindo-o de atender
às necessidades presentes e futuras (...).
Satisfazer as necessidades e as aspirações humanas é
o principal objetivo do desenvolvimento. Nos países em
desenvolvimento, as necessidades básicas de grande número de
pessoas – alimento, roupas, habitação, emprego – não estão sendo
atendidas. Além dessas necessidades básicas, as pessoas também
aspiram legitimamente a uma melhor qualidade de vida. Num mundo
onde a pobreza e a injustiça são endêmicas, sempre poderão
ocorrer crises ecológicas e de outros tipos. Para que haja um
desenvolvimento sustentável é preciso que todos tenham atendidas
as suas necessidades básicas e lhes sejam proporcionadas
oportunidades de concretizar suas aspirações e uma vida melhor.
Padrões de vida que estejam além do mínimo básico só são
sustentáveis se os padrões gerais de consumo tiverem por objetivo
alcançar o desenvolvimento sustentável a longo prazo. Mesmo
assim, muitos de nós vivemos acima dos meios ecológicos do mundo,
como demonstra, por exemplo, o uso da energia. As necessidades
são determinadas social e culturalmente, e o desenvolvimento
sustentável requer a promoção de valores que mantenham os
padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecológicas
a que todos podem, de um modo razoável, aspirar.
As satisfações das necessidades essenciais depende em parte
de que se consiga o crescimento potencial pleno, e o desenvolvimento
sustentável exige claramente que haja crescimento econômico em
regiões onde tais necessidades não estão sendo atendidas. Onde já
são atendidas, ele é compatível com o crescimento econômico, desde
que esse crescimento reflita os princípios amplos da sustentabilidade
e da não-exploração dos outros. Mas o simples crescimento não
basta. Uma grande atividade produtiva pode coexistir com a
pobreza disseminada, e isto constitui um risco para o meio
ambiente. Por isso o desenvolvimento sustentável exige que as
sociedades atendam às necessidades humanas, tanto aumentando
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
158
o potencial de produção quanto assegurando a todos as mesmas
oportunidades (...).
Obviamente, o crescimento e o desenvolvimento econômicos
produzem mudanças no ecossistema físico. Nenhum ecossistema,
seja onde for, pode ficar intacto. Uma floresta pode ser desmatada
em uma parte de uma bacia fluvial e ampliada em outro lugar – e
isso pode não ser mau, se a exploração tiver sido planejada e se se
levarem em conta os níveis de erosão do solo, os regimes hídricos e
as perdas genéticas. Em geral, não é preciso esgotar os recursos
renováveis, como florestas e peixes, desde que sejam usados dentro
dos limites de regeneração e crescimento natural. Mas a maioria
dos recursos renováveis é parte de um ecossistema complexo e
interligado, e, uma vez levados em conta os efeitos da exploração
sobre todo o sistema, é preciso definir a produtividade máxima
sustentável.
No tocante a recursos não-renováveis, como minerais e
combustíveis fósseis, o uso reduz a quantidade de que disporão as
futuras gerações. Isso não quer dizer que esses recursos não devam
ser usados. Mas os níveis de uso devem levar em conta a
disponibilidade do recurso, de tecnologias que minimizem seu
esgotamento, e a probabilidade de se obterem substitutos para ele.
Portanto a terra não deve ser deteriorada além de um limite razoável
de recuperação. No caso dos minerais e dos combustíveis fósseis, é
preciso dosar o índice de esgotamento e a ênfase na reciclagem e
no uso econômico, para garantir que o recurso não se esgote antes
de haver bons substitutos para ele. O desenvolvimento sustentável
exige que o índice de destruição dos recursos não-renováveis
mantenha o máximo de opções futuras possíveis.
O desenvolvimento tende a simplificar os ecossistemas e a
reduzir a diversidade das espécies que neles vivem. E as espécies,
uma vez extintas, não se renovam. A extinção de espécies vegetais e
animais pode limitar muito as opções das gerações futuras; por
isso o desenvolvimento sustentável requer a conservação das
espécies vegetais e animais.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
159
Os chamados bens livres, como o ar e a água, são também
recursos. As matérias-primas e a energia usadas nos processos de
produção só em parte se convertem em produtos úteis. O resto se
transforma em rejeitos. Para haver um desenvolvimento sustentável
é preciso minimizar os impactos adversos sobre a qualidade do ar,
da água e de outros elementos naturais, a fim de manter a
integridade global do ecossistema.
Em essência, o desenvolvimento sustentável, é um processo
de transformação no qual a exploração de recursos, a direção dos
investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a
mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial
presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações
humanas. [COMISSÃO Mundial de Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro: FGV, 1991,
p. 46-49.]
O conceito de desenvolvimento sustentável foi um dos fios
condutores dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, e é
um dos pilares da Agenda XXI, um vasto programa de ações de curto, médio
e longo prazos aprovado pela Conferência no sentido de garantir a
sustentabilidade ambiental dos novos investimentos produtivos e recuperar
áreas já degradadas pelo uso predatório dos recursos naturais.
Texto Complementar
No ensaio parcialmente reproduzido abaixo, o geógrafo francês Paul
Claval apresenta e problematiza o conceito de desenvolvimento sustentável,
enfatizando suas repercussões no contexto brasileiro.
Texto 1 – A Geopolítica do Desenvolvimento Sustentável
A geopolítica do desenvolvimento sustentável envolve ampla gama
de tópicos, que no caso brasileiro são fascinantes e provocantes. Neste texto,
discutem-se questões referentes a alguns destes tópicos.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
160
A experiência brasileira e o desenvolvimento sustentável
A experiência brasileira é particularmente interessante, já que
mostrou como a concepção de desenvolvimento sustentável foi forjada na
Conferência do Rio de Janeiro em 1992, e como foi interpretada no Brasil
e nos demais países da América Latina. A Conferência de Estocolmo, em
1972, havia privilegiado os aspectos biológicos e ecológicos; já no Rio de
Janeiro, ainda que o interesse na ecologia tenha sido grande, para os
participantes sul-americanos foi igualmente importante a necessidade
de pensar o desenvolvimento. Ao falar em desenvolvimento sustentável,
os participantes da América do Sul deram um peso igual aos imperativos
ecológicos (“sustentabilidade”) e aos econômicos e humanos
(“desenvolvimento”).
No Brasil, o desenvolvimento sustentável geralmente vem sendo
abordado com ênfase em pequenas comunidades. Uma geração atrás, tais
grupos ainda possuíam todas as características das sociedades tradicionais.
Com um melhor sistema de comunicações, porém, descobriram as
possibilidades de uma vida melhor, e o desenvolvimento se tornou uma
aspiração fundamental; tais comunidades passaram a considerar-se com
direito à educação, serviços de saúde etc. A modernização da sociedade,
numa era da comunicação de massa, é considerada uma necessidade e um
direito, mesmo pelos mais baixos e remotos componentes da sociedade
global. Até os grupos indígenas aspiram ao desenvolvimento. A população
local deseja ser reconhecida como agente responsável e dinâmico da
sociedade global, sem mudar suas identidades.
Nesse contexto, o problema do desenvolvimento é ao mesmo tempo
sociocultural e ecológico. É importante impedir que ambientes frágeis sejam
explorados brutalmente, como geralmente o fazem grandes empresas, e
permitir às pequenas comunidades a elevação de seus padrões de vida sem
romper o equilíbrio local. Ressalta a diversidade dos grupos, associações e
organizações governamentais e não-governamentais envolvidas no processo
de desenvolvimento sustentável brasileiro.
O sistema de propriedade da terra no Brasil faz com que o
desenvolvimento seja visto como uma questão de acesso das pequenas
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
161
comunidades à terra. Mesmo se as condições econômicas que justificam
essas atitudes pertencem ao passado, a terra aparece como uma variável
estratégica. Atualmente esta é, simultaneamente, um elemento de status
social, um bem de consumo e um fator de produção. Semelhante evolução
certamente facilitará, numa perspectiva de longo prazo, o cumprimento dos
objetivos conservacionistas encapsulados no desenvolvimento sustentável,
mas, hoje em dia, explica a intensa luta pela terra na fronteira e a atmosfera
ardente na qual ocorre o desenvolvimento.
A Amazônia é uma espécie de laboratório para as pessoas que
desejam entender as possibilidades de desenvolvimento sustentável no
futuro. A política de abertura da floresta tropical aplicada durante os anos
sessenta e setenta teve conseqüências catastróficas sob os aspectos social e
ecológico. Já nos anos noventa verificou-se uma rápida mudança de enfoque.
A sociedade civil se organizou e a política de brutal exploração dos recursos
naturais, dominante até quinze anos atrás, foi substituída por ações que
restringiram o desgaste do solo e favoreceram as pequenas comunidades de
índios e seringueiros. Essa mudança foi possível, em parte graças ao conflito/
cooperação de instituições internacionais, do Estado brasileiro e das
Organizações Não-Governamentais (ONGs). Uma nova logística do
desenvolvimento está sendo experimentada. Seu propósito é respeitar a
biodiversidade e aproveitar as novas tecnologias, sempre que estas permitam
o acesso a padrões mais eficazes para o crescimento e o reforço das
comunidades locais.
A nova política para a Amazônia conta com um instrumento
privilegiado, a definição de zonas de proteção. Os riscos inerentes ao
desenvolvimento são avaliados para cada área homogênea, permitindo a
proteção das áreas mais frágeis em termos de desenvolvimento e/ou vida
social. Alguns consideraram essa iniciativa muito positiva. Outros
permaneceram céticos a respeito, considerando que a eficiência das zonas
de proteção será duvidosa caso seu papel continue sendo somente indicativo.
A formulação geral do problema do desenvolvimento sustentável
A idéia do crescimento sustentável resultou do desenvolvimento de
uma nova consciência ecológica, expressa ao nível da política internacional,
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
162
pela primeira vez, na Conferência de Estocolmo, em 1972. Esteve também
ligada à compreensão do fato de que os países do Sul desejavam desenvolver-
se, mas não a qualquer preço. Com o fim da Guerra Fria, as relações Norte-
Sul ganharam mais importância, o que explica a realização da Conferência
em 1992 no Rio de Janeiro.
O papel do Brasil no desenvolvimento da idéia do crescimento
sustentável foi, conseqüentemente, da maior importância, sendo difícil
entender o que os países do Sul esperam do crescimento sustentável sem
referência a este país.
O desenvolvimento sustentável recebeu o apoio da opinião pública
no bojo da crise das filosofias da história ocidentais, e ao conseqüente
declínio das instituições provedoras de serviços de bem-estar social ligadas
a tais ideologias. Daí a necessidade de descobrir novos instrumentos capazes
de promover esse nova forma de crescimento.
A definição de Roberto Guimarães sobre desenvolvimento
sustentável, neste livro, é simples: o desenvolvimento é sustentável
enquanto a produção não excede as taxas normais de produção dos recursos
renováveis e de substituição dos recursos não-renováveis. O problema da
sustentabilidade é tão velho quanto a humanidade, mas tomou novas formas
com o advento de tecnologias modernas, baseadas no uso generalizado de
formas concentradas de energia. Essa característica gerou a diminuição dos
custos de transporte e o aumento da urbanização. Como resultado, o
problema do desenvolvimento sustentável deixou de ser somente um
problema de oferta de recursos, estando cada vez mais ligado à capacidade
de reciclagem dos ambientes onde a população e as atividades se concentram.
O problema da reciclagem, portanto, transformou-se na questão prioritária,
nos níveis global e local.
A solução do problema do desenvolvimento sustentável ficou mais
difícil do que no passado por causa do aumento do consumo de energia,
mas, para alguns, também se tornou mais fácil graças às novas tecnologias
de informação e comunicação. Assim, é possível antever novas formas de
retroalimentação, capazes de impulsionar processos auto-reguladores e de
desenvolver sistemas de produção que usem menos matérias-primas e
energia. As telecomunicações permitem a difusão maior e mais rápida de
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
163
informações a respeito das áreas problemáticas, especialmente no Sul,
favorecendo uma consciência mais clara da sustentabilidade.
[CLAVAL, Paul. “A Geopolítica e o Desenvolvimento Sustentável”. In:
BECKER, Bertha K. e MIRANDA, Mariana. A geografia política do
desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997, p. 457-461.]
2. Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua
Degradação
Ecossistema é um termo originário da ecologia, que se refere à idéia
de que os sistemas naturais são comandados por fluxos de matéria e energia,
que atuam tanto entre o meio físico e os organismos vivos como no interior
da comunidade biótica. Os ecossistemas são sistemas abertos, pois estão
conectados a ambientes de entrada – fonte de energia, materiais e organismos
– e de saída – para onde fluem materiais processados, e também organismos
e energia. A abrangência de um ecossistema é definida pelas necessidades
do observador. Uma lagoa pode ser tratada como ecossistema, assim como
uma vasta floresta.
No caso brasileiro, costuma-se denominar ecossistemas grandes
domínios paisagísticos, para a definição dos quais considera-se aspectos do
relevo e dos climas. As formações vegetais são o elemento-síntese dos
domínios, pois alterações pequenas nos outros elementos provocam
mudanças bruscas na cobertura vegetal.
O relevo brasileiro
O relevo brasileiro é resultado da ação da erosão e do intemperismo,
que desgasta e aplaina os escudos cristalinos, sobre uma base geológica
muito antiga, e da lenta configuração das bacias sedimentares, através dos
processos de acumulação. Isso explica a baixa altimetria que o caracteriza
e o predomínio de um modelado de formas suaves e arredondadas. Os
principais agentes da morfologia do relevo, também chamados de agentes
do modelado, são os rios, as chuvas e as temperaturas.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
164
No Brasil, a presença de uma rede hidrográfica muito rica, na qual
predomina o regime tropical (chuvas abundantes no verão), alia-se às
temperaturas médias elevadas características da maior parte do território na
formação de três unidades de relevo: os planaltos, as depressões e as
planícies.
Os planaltos resultam da ação destrutiva dos agentes do modelado:
são áreas onde o processo de erosão predomina sobre o processo de
deposição de sedimentos. Ao contrário do que sugere o nome, os planaltos
apresentam superfícies irregulares, formadas por serras, chapadas e morros.
Por definição, os planaltos situam-se em cotas altimétricas superiores a
300 metros.
Os planaltos brasileiros situam-se tanto em áreas cristalinas do Escudo
Brasileiro (por exemplo: os Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste)
ou do Escudo das Guianas (os Planaltos Residuais Norte-Amazônicos) como
em áreas sedimentares das bacias do Paraná e do Meio-Norte.
Ao norte das depressões amazônicas, junto às fronteiras com as
Guianas e a Venezuela, encontram-se alguns dos pontos mais elevados do
Brasil, como o Pico da Neblina, com 3.014 metros e o Pico 31 de Março, com
2.992 metros. Trata-se da linha de serras dos Planaltos Residuais Norte-
Amazônicos, constituída por cadeias de morros pontiagudos (cristas). Essas
áreas abrigam as nascentes de inúmeros afluentes e subafluentes da margem
esquerda do Rio Amazonas, como os rios Negro e Branco, Trombetas e Jari,
cujos cursos seguem a declividade natural do relevo, dirigindo-se para o sul.
O Brasil do Sudeste também exibe cadeias de morros como as
serras do Espinhaço (que abriga as grandes jazidas minerais do
Quadrilátero Ferrífero) e da Mantiqueira. Nos vales encaixados entre as
linhas de serras, abrigam-se importantes rios, como o Jequitinhonha, o
Doce e o Paraíba do Sul.
A elevada umidade do ar, acentuando o intemperismo, e o trabalho
de erosão das chuvas modelaram paisagens características. Os mares de
morros, típicos da Serra da Mantiqueira, são formados por elevações
suavemente arredondadas que se sucedem ininterruptamente até o horizonte.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
165
Nessa área, aparecem os morros em meia laranja, que atestam o longo
processo de desgaste próprio dos climas tropicais úmidos. As escarpas
aparecem na transição entre áreas rebaixadas e planaltos, funcionando como
imensos “degraus” que demarcam altimetrias muito diferentes.
Freqüentemente, as escarpas têm denominações tecnicamente inadequadas,
como é o caso da Serra do Mar, que separa a baixada litorânea dos planaltos
no Sudeste e Sul do país.
Os Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná exibem terrenos
sedimentares areníticos, onde ocorreram derrames vulcânicos datados da
Era Mesozóica. A decomposição do basalto deu origem à famosa terra
roxa, o solo de maior fertilidade natural do país.
Nesses planaltos, como também no dos Parecis, no Centro-Oeste,
as paisagens apresentam-se completamente diferentes. As altitudes médias
situam-se entre 200 e 500 metros, configurando uma paisagem
extensivamente aplainada, apenas interrompida pelas chapadas e chapadões.
Tais formações, elevadas e aplainadas, são delimitadas por taludes abruptos
e funcionam como divisores de águas. Brasília foi erguida sobre uma dessas
elevações, a quase 1200 metros de altitude.
No Centro-Oeste, tais planaltos comportam-se como divisores entre
bacias hidrográficas. Rios como o Tapajós e o Guaporé têm as suas nascentes
na Chapada dos Parecis e dirigem-se para o norte, rumo à calha amazônica.
O Rio Paraguai tem suas nascentes na Chapada dos Parecis, antes de rumar
para o sul e receber as águas de dezenas de afluentes, formando o eixo
fluvial do Pantanal Mato-grossense. A chapada funciona como divisor entre
as águas da Bacia do Paraguai e as da Bacia do Amazonas.
No Nordeste ocidental, os planaltos e chapadas da Bacia do Parnaíba
exibem terrenos sedimentares e altitudes geralmente modestas. As chapadas
separam vales de rios perenes – como o próprio Parnaíba, o Mearim e o
Pindaré – ou rios temporários, típicos do sertão do Piauí.
A elevação mais importante é a do Espigão Mestre, entre a Bahia e
os estados de Tocantins e Goiás, que separa os afluentes do Rio São Francisco
dos afluentes do Rio Tocantins.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
166
As depressões também exibem predomínio de processos erosivos.
A longa duração desses processos gerou superfícies suavemente inclinadas
e bastante aplainadas. As depressões brasileiras situam-se em cotas
altimétricas entre os 100 e os 500 metros.
São depressões tipicamente caracterizadas os altos e médios vales
dos rios Tocantins e Araguaia, cujas nascentes situam-se no Centro-Oeste.
O Tocantins e o Araguaia se dirigem para o norte, acompanhando os degraus
do relevo e originando quedas d’água. Nesse trajeto, o Araguaia forma a
Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do país.
A Depressão Sertaneja e do São Francisco configura, na sua porção
meridional, um longo corredor encaixado entre áreas planálticas,
acompanhando o curso do Rio São Francisco através de Minas Gerais e da
Bahia. No passado, esse foi um importante caminho de interiorização seguido
pelos vaqueiros e criadores nordestinos.
Na sua porção setentrional, dominada pelo clima semi-árido, a
depressão abriga inúmeros rios temporários que, na curta estação chuvosa,
percorrem o sertão de Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Nessa área, o grande Planalto da Borborema interrompe a depressão,
assinalando a transição para o litoral úmido. A face oeste da Borborema,
voltada para o interior, está sujeita a longas secas. A face leste recebe os
ventos úmidos do litoral que, em contato com o ar mais frio da escarpa,
provocam chuvas freqüentes e propiciam condições ideais para o cultivo
de frutas tropicais.
No Sul e Sudeste, as depressões desenham um imenso S que se
prolonga de São Paulo ao Rio Grande do Sul, separando os terrenos
cristalinos do oriente dos derrames vulcânicos da Bacia do Paraná. Na zona
de contato entre os terrenos vulcânicos da Bacia do Paraná e os terrenos
sedimentares (menos resistentes) das depressões, a erosão diferencial
originou uma linha de cuestas. As cuestas, conhecidas localmente como
serras, apresentam uma vertente de declínio suave, em direção à calha do
Rio Paraná, e outra de inclinação abrupta, no contato com os terrenos
sedimentares. No Estado de São Paulo, as cuestas formam paisagens
características.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
167
As planícies, ao contrário dos planaltos e depressões, são áreas onde
o processo de sedimentação se sobrepõe ao processo de erosão. A acumulação
de sedimentos realiza-se pela ação das águas dos rios, do mar ou de lagos. As
planícies situam-se em cotas altimétricas inferiores a 100 metros.
Há algumas décadas, vastas áreas da Amazônia eram consideradas
uma imensa planície. Essa crença, fundada na ignorância das altimetrias
escondidas sob a floresta equatorial e dos processos geomorfológicos
atuantes na área, foi desfeita pelo levantamento aerofotogramétrico da região.
Atualmente, sabe-se que a verdadeira planície restringe-se a uma estreita
faixa que acompanha o vale do Rio Amazonas e o baixo curso de alguns
dos seus afluentes. Essa planície é rodeada por depressões e planaltos
sedimentares, que estão, por sua vez, encaixados entre os planaltos residuais
norte e sul-amazônicos, cristalinos e mais elevados.
Na planície verdadeira – o vale inundável dos grandes rios – onde
ocorre intenso trabalho de sedimentação quaternária, predominam os
processos de deposição. Nas depressões e planaltos sedimentares circundantes
(chamados, na denominação regional, terra firme), a sedimentação é terciária
e predominam os processos erosivos.
A Planície e Pantanal Mato-grossense, por outro lado, é a mais típica
planície brasileira. Assentada sobre terrenos sedimentares da Era
Quaternária, constitui parte de uma vasta depressão relativa encaixada entre
a Cordilheira dos Andes e os planaltos do Escudo Brasileiro, denominada
Chaco. O Chaco abrange terras brasileiras, paraguaias, argentinas e bolivianas,
funcionando como bacia de captação de cursos fluviais provenientes das
áreas circundantes.
O eixo dessa bacia de captação é formado pelo Rio Paraguai. Durante
a época das chuvas, no verão, o Rio Paraguai e os seus afluentes – como,
em terras brasileiras, o Cuiabá, o Taquari, o Negro e o Miranda – inundam
grande parte das terras deprimidas e as transformam em uma enorme área
de deposição de sedimentos.
As Planícies e Tabuleiros Litorâneos estendem-se do Maranhão ao
Rio Grande do Sul. De norte para sul, as planícies litorâneas tornam-se mais
estreitas, chegando quase a desaparecer em trechos da costa Sul e Sudeste.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
168
Tanto no Nordeste como no Sul, as planícies são interrompidas por
tabuleiros: superfícies de baixa altitude, com topo bastante aplainado e
acentuados declives na face voltada para o mar. Tais declives são chamados
falésias, quando constituídos por rochas cristalinas, ou barreiras, quando
constituídos por rochas sedimentares.
No trecho nordestino, onde se alargam, as planícies litorâneas exibem
uma grande variedade de paisagens, como os cordões arenosos e dunas do
Ceará e as lagoas e brejos de Alagoas. No Sudeste, as planícies, freqüentemente
interrompidas pelas majestosas escarpas da Serra do Mar, descortinam as
restingas e lagunas do Rio de Janeiro e as praias e baixadas de São Paulo.
O relevo brasileiro é constituído, predominantemente, por planaltos
e depressões. Isto significa que os processos erosivos predominam sobre os
processos de sedimentação na maior parte do território. As planícies ocupam
uma porção relativamente pequena do território, correspondendo aos vales
de importantes rios e à maior parte da extensa faixa costeira.
Os grandes tipos climáticos
A dinâmica das massas de ar é responsável pela sucessão habitual
dos tipos de tempo que caracterizam o clima; é, portanto, responsável pela
maior parte dos fenômenos climáticos.
Na América do Sul, apenas duas regiões funcionam como fontes de
massa de ar: a Amazônia ocidental, sobre a qual se forma a massa Equatorial
continental (mEc), quente e úmida, e a Planície do Chaco, centro de origem
da massa Tropical continental (mTc), quente e seca.
As outras massas de ar que atuam no continente são marítimas. Três
delas são importantes para os climas brasileiros: a massa Equatorial atlântica
(mEa), quente e úmida, que atua principalmente no Meio-Norte e no litoral
amazônico; a massa Tropical atlântica (mTa), também quente e úmida, que
influencia diretamente o clima da costa oriental brasileira e a massa Polar
atlântica (mPa), fria e úmida, que atua principalmente no Brasil meridional,
mas penetra até a Amazônia no inverno, ocasionando o fenômeno conhecido
localmente como “friagem”.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
169
Com base na dinâmica das massas de ar, pode-se individualizar cinco
tipos climáticos no Brasil.
O Clima Equatorial Úmido, quente e chuvoso, domina a Região
Norte do país e é resultado da atuação da massa Equatorial continental
durante todo o ano. As chuvas são resultado da convecção (ascensão vertical
e conseqüente condensação) da umidade, e as médias anuais de precipitação
giram em torno de 2.000 milímetros.
O Clima Litorâneo Úmido, que caracteriza o litoral das regiões
Sudeste e Nordeste do país, dominado principalmente pela atuação da massa
Tropical atlântica, também apresenta elevadas médias térmicas e
pluviométricas. A pluviosidade média anual varia entre 1.500 milímetros e
2.000 milímetros.
O Clima Tropical, que domina boa parte do Centro-Oeste e do Meio-
Norte brasileiros, caracteriza-se por apresentar invernos secos e verões
chuvosos. A pluviosidade média anual situa-se em torno dos 1.500
milímetros.
O Clima Tropical Semi-Árido abrange a área do Sertão nordestino.
Essa área funciona como um centro dispersor de massas de ar, apresentando
menores médias pluviométricas que as vigentes no resto do país. As chuvas
não ultrapassam a barreira dos 750 milímetros ao ano e apresentam-se
irregularmente distribuídas. De acordo com o geógrafo Aziz Ab’Saber, o
semi-árido brasileiro, onde se localiza o famoso Polígono das Secas
1
, se
caracteriza por “Invernos secos e quase sem chuvas, com duração de cinco
a oito meses, e verão chuvoso, com quatro a sete meses de precipitações
pluviais, irregulares no tempo e no espaço, de forma que os índices que
buscam medir médias de precipitações guardam uma alta dose de irrealidade,
servindo como mera referência genérica para efeito de comparação com as
regiões úmidas e subúmidas do país”
2
.
1
Essa expressão, criada no início do século XX pelos técnicos da antiga Inspetoria Nacional de
Obras contra as Secas, designa uma ampla área na qual o balanço da evapotranspiração é negativo
durante a maior parte do ano, e que se estende pelo norte de Minas Gerais, por parte dos territórios
da Bahia, de Sergipe, de Alagoas, de Pernambuco, e pela totalidade dos estados do Rio Grande do
Norte, Ceará e Piauí.
2
Ver Os Sertões: a originalidade da terra, Revista Ciência Hoje, especial ECO-Brasil, maio de 1992,
pg. 6.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
170
O Clima Subtropical Úmido é dominado pela massa Tropical
atlântica, mas está sujeito à penetração da massa Polar atlântica,
principalmente no inverno. Apresenta as maiores amplitudes térmicas entre
os climas brasileiros: os verões são quentes e os invernos são frios. A média
pluviométrica anual é elevada (cerca de 1.500 milímetros), não existindo
uma estação seca.
Os domínios paisagísticos
Seis grandes domínios macroecológicos foram identificados no
Brasil: três deles (o Domínio Amazônico, o Domínio dos Mares de Morros
Florestados e o Domínio das Araucárias) abrangem áreas originariamente
florestadas e os restantes (Domínios dos Cerrados, da Caatinga e das
Pradarias) correspondem a áreas com predomínio de espécies vegetais
herbáceas e arbustivas. Entretanto, existem vastas extensões territoriais não
incluídas em nenhum dos domínios. São as faixas de transição, que
constituem unidades paisagísticas nas quais se mesclam características dos
domínios vizinhos, ou, ainda, áreas onde a instabilidade das condições
ecológicas deu origem a uma interação entre os elementos naturais que
nada têm a ver com as características dos domínios circundantes.
No Meio-Norte do território brasileiro, por exemplo, uma grande
faixa de transição conhecida como Mata dos Cocais separa o Domínio
Amazônico do Domínio da Caatinga.
O Pantanal Mato-grossense é um outro bom exemplo de região de
transição. Ele funciona como enorme delta interno: devido à pouca
declividade do terreno, os rios que drenam a região demoram a vazar,
inundando grande parte da planície e trazendo um grande fluxo de nutrientes,
responsável pela grande densidade e diversidade da fauna da região.
Os solos, alagadiços, são de baixa fertilidade natural. A vegetação
pantaneira é extremamente heterogênea, mesclando características de todos
os domínios macroecológicos brasileiros.
Grandes propriedades de pecuária extensiva ocupam as terras baixas
alagadiças do Pantanal, adaptando-se às condições ambientais da região.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
171
A caça predatória e ilegal, porém, representa uma grande ameaça à fauna
pantaneira.
Além da caça, o desmatamento das margens dos principais rios que
atravessam o Pantanal e o extrativismo mineral figuram como grandes
geradores de impcatos ambientais na região. No Rio Taquari, por exemplo,
a retirada da cobertura vegetal se associa a um processo crescente de
assoreamento do leito fluvial, ampliando a área de inundação do rio e
ameaçando a fauna silvestre.
– O Domínio Amazônico
A Floresta Amazônica, que prevalece na paisagem desse domínio,
é uma floresta latifoliada marcadamente heterogênea. A vegetação de
terrenos inundáveis (matas de várzea e igapós) ocupa aproximadamente
10% do ecossistema florestal; a vegetação de terra firme (a chamada hiléia)
se espalha em cerca de 80% da área. Além disso, o Domínio Amazônico
apresenta múltiplos enclaves de campos e cerrados.
Estima-se que o ecossistema florestal abrigue aproximadamente 80
mil espécies vegetais e 30 milhões de animais, compondo uma das maiores
reservas biológicas do planeta. A riqueza e a exuberância do ecossistema
florestal, porém, contrastam com a pobreza de grande parte dos solos da
região. Mais de 70% do Domínio Amazônico são constituídos por solos
ácidos e intemperizados, de baixa fertilidade. Apenas algumas planícies
aluviais, inundadas pelo Rio Amazonas, apresentam solos ricos em
nutrientes.
Esse contraste revela a fragilidade do ecossistema amazônico.
A reciclagem dos nutrientes orgânicos e minerais necessários à manutenção
dos ecossistemas regionais não é feita pelos solos, mas pela própria floresta.
As toneladas de folhas, frutos e flores que caem anualmente sobre o
solo se transformam em material orgânico e mineral consumido pela
vegetação. Isto é: a vegetação nutre-se dela mesma. Além disso, a floresta
protege os solos, impedindo que os poucos nutrientes sejam carreados pelas
águas da chuva.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
172
A agricultura tradicional dos povos da floresta – índios, caboclos,
seringueiros – representava uma adaptação especial a esse ecossistema frágil.
A baixa densidade demográfica possibilitou o desenvolvimento de cultivos
de subsistência – como a mandioca, o milho, a batata-doce e o inhame – em
sistema de roça itinerante, que utiliza a coivara. Depois de abandonadas, as
clareiras conhecem uma recolonização biológica pela mata. Mas a ocupação
empresarial da Amazônia provoca interferências profundas e permanentes
no meio natural. As madeireiras abrem brechas enormes na vegetação,
espaços de pastagens homogêneas substituem a mata, culturas agrícolas de
mercado se espalham extensivamente sobre as velhas áreas florestadas.
A vegetação original não se regenera e a erosão pluvial age destruidoramente,
empobrecendo ainda mais os solos descobertos. O desmatamento está
trazendo danos irreparáveis ao ecossistema florestal.
Não existem dados precisos sobre o tamanho e a velocidade do
desmatamento na Amazônia. Segundo cálculos aproximados, o desmatamento
atinge algo entre 8% e 20% da Amazônia. Os estados mais afetados foram
os do Pará (34%), Mato Grosso (23%) e Maranhão (19%).
– O Domínio dos “Mares de Morros” Florestados
Este domínio macroecológico caracteriza-se pela morfologia e pela
cobertura vegetal. A ação dos agentes do modelado sobre a estrutura
geológica, predominantemente cristalina, produziu um relevo típico de
morros arredondados, em forma de “meias-laranjas”. Além dos “Mares de
Morros”, compõem a morfologia da região as escarpas planálticas que
separam o planalto cristalino da planície costeira.
Originalmente, a floresta tropical úmida conhecida como Mata
Atlântica recobria cerca de 95% do Domínio dos “Mares de Morros”. Trata-
se de uma formação florestal densa e heterogênea.
A introdução do cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste e, mais tarde,
do café nas serras do Sudeste foram os grandes responsáveis pelo início da
devastação da mata original. Hoje, restam menos de 4% da cobertura vegetal
primária, verdadeiras ilhas florestais em alguns trechos montanhosos das
escarpas planálticas.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
173
A devastação da Mata Atlântica tem agravado os processos erosivos
que atingem a região. Sujeita a chuvas intensas, concentradas nos meses do
verão, a área encontra-se exposta a desmoronamentos e transporte de
material, especialmente nas escarpas mais íngremes.
– O Domínio dos Planaltos de Araucárias
O Domínio das Araucárias ocupa os planaltos sedimentares-
basálticos da porção oriental da Bacia do Rio Paraná, nos quais a altitude
média varia entre 850 metros e 1.300 metros. Originalmente, esse domínio
era revestido por uma floresta subtropical conhecida como Mata das
Araucárias e por manchas de vegetação herbácea e arbustiva.
A devastação da Mata das Araucárias se iniciou com a colonização
alemã e italiana. Nas primeiras décadas do século, os colonos utilizavam a
madeira para a construção de casas, móveis e artefatos domésticos. Também
desmatavam pequenos trechos para a prática da policultura de alimentos.
No início do século XX, mais de 80% do território dos estados de Santa
Catarina e Paraná ainda estavam recobertos pela vegetação nativa.
Mais tarde, com a expansão da agricultura, extensas áreas florestais
foram queimadas e se transformaram em áreas de cultivo de milho, trigo,
videiras e árvores frutíferas. Em 1950, mais de metade da vegetação original
já estava devastada. Atualmente, restam apenas algumas manchas dos
bosques de araucária originais.
– O Domínio dos Cerrados
O Domínio dos Cerrados abrange as chapadas e chapadões do Brasil
Central. Trata-se de uma região tropical, de verões chuvosos e invernos
secos.
As características climáticas são, em parte, responsáveis pela baixa
fertilidade dos solos desse domínio. No verão, as chuvas abundantes “lavam”
o solo, retirando seus nutrientes; no inverno, a seca prolongada tem como
conseqüência altas taxas de evaporação, o que provoca acúmulo do ferro e
do alumínio responsáveis pela toxidez e acidez dos solos.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
174
O Cerrado, vegetação dominante, é composto principalmente por
dois estratos, o arbóreo-arbustivo, de caráter lenhoso, e o herbáceo-
subarbustivo, formado pelas gramíneas e outras ervas. A combinação desses
estratos produz uma cobertura vegetal em forma de um grande mosaico,
constituído por trechos de campos limpos (predominância de gramíneas),
de campos sujos (gramíneas e arbustos), de campos cerrados (predominância
de arbustos, com espécies de 3 a 5 metros) e cerradões (florestas cujas
copas se tocam e criam sombra, nas quais o estrato herbáceo-arbustivo é
muito pobre e rarefeito).
O Cerrado compõe um ecossistema bastante peculiar, radicalmente
distinto das florestas tropicais úmidas. O ecossistema florestal, quando
desmatado através de queimadas, não se regenera. O Cerrado, ao contrário,
abriga espécies que sobrevivem após as queimadas. Durante o incêndio, a
camada superficial dos solos do Cerrado funciona como um isolante térmico,
protegendo o sistema subterrâneo das plantas. Assim, muitas espécies
conseguem rebrotar poucos dias após a passagem do fogo.
As cinzas resultantes, cerca de 400 quilos por hectare em um campo
cerrado, funcionam como uma preciosa fonte de nutrientes minerais,
absorvidos principalmente pelas plantas do estrato herbáceo-subarbustivo.
Nas áreas recobertas por campos limpos, campos sujos e campos cerrados,
o fogo ajuda na reciclagem de nutrientes. Já os cerradões são menos
adaptados às queimadas, e, quando essas são reincidentes, podem se
transformar em campos limpos.
Entretanto, o impacto positivo das queimadas sobre o ecossistema
dos cerrados parece depender da freqüência com que são realizadas.
As pesquisas indicam que incêndios anuais podem tornar os solos ainda
mais pobres.
– O Domínio da Caatinga
O Domínio da Caatinga apresenta relevo em forma de colinas com
vertentes suaves, as colinas sertanejas. A semi-aridez é responsável pela
pouca decomposição química das rochas, o que resulta em solos pouco
profundos intercalados por terrenos pedregosos e afloramentos rochosos.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
175
A Caatinga, vegetação dominante, é uma formação vegetal adaptada
ao calor e à aridez. Suas principais espécies possuem folhas pequenas e
hastes espinhentas. Nas áreas de maior altitude, que recebem chuvas de
relevo, encontram-se alguns trechos de matas úmidas, conhecidas
regionalmente como brejos.
O excesso de calor e a predominância de solos pouco profundos,
incapazes de reter a água, tornam o balanço da evapotranspiração negativo
durante a maior parte do ano, quando a perda de umidade é maior do que a
precipitação.
A rede hidrográfica da Caatinga caracteriza-se pela predominância
de rios intermitentes e sazonais: os rios autóctones permanecem secos por
cinco a sete meses durante o ano.
A irregularidade das precipitações e a natureza dos solos e da
cobertura vegetal fazem do domínio macroecológico da Caatinga uma área
naturalmente susceptível aos processos de desertificação e, portanto, bastante
vulnerável a ocupação humana. A irrigação, o sobrepastoreio, o cultivo
excessivo e a mineração figuram entre as principais causas dos processos
de desertificação já iniciados.
– O Domínio das Pradarias
Esse domínio paisagístico abrange a região conhecida como
Campanha Gaúcha. Nele, destaca-se a presença de um relevo suavemente
ondulado, na forma de colinas conhecidas como “coxilhas”. As colinas são
recobertas por vegetação campestre. Nos topos mais planos, forma-se um
tapete herbáceo ralo e pobre em espécies; nas encostas, a vegetação se torna
mais densa e diversificada.
A pecuária extensiva é a principal atividade econômica da região.
Devido ao pisoteio excessivo do gado, registra-se uma sensível diminuição
das espécies forrageiras nativas dos campos gaúchos. O uso recorrente da
queimada como técnica de limpeza das pastagens contribui para o
empobrecimento dos solos.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
176
A pecuária e a monocultura de trigo e soja, em expansão nas áreas
originalmente recobertas pelos campos, têm provocado a diminuição da
fertilidade dos solos, o aumento dos processos erosivos e até, em algumas
áreas, o início de um processo de desertificação. Há cinqüenta anos, o
“deserto de São João”, no município de Alegrete (RS), atingia 12 hectares;
hoje ultrapassa os 185 hectares.
Texto Complementar
No fragmento de texto reproduzido abaixo, os geógrafos José Bueno
Conti e Sueli Angelo Furlan apresentam e comentam os esforços realizados
pelo governo brasileiro no sentido de preservar o patrimônio ambiental
do país.
Texto 1 – Tentativas de Conservação e Preservação Ambiental à
Brasileira
Influenciado pela crítica à sua controvertida participação na
Conferência de Estocolmo em 1972 e pela polêmica gerada em torno da
proposta brasileira de desenvolvimento a qualquer custo, o governo
brasileiro, em 1973, criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA),
cuja função era a de atuar nos campos da pesquisa, do planejamento, da
coordenação e do assessoramento no combate à poluição e na preservação
da qualidade dos recursos hídricos.
Vinculada ao Ministério do Interior, essas funções foram desdobradas
e, com a devida autonomia e poder jurídico outorgado pelo Estado, à SEMA
coube, posteriormente:
• acompanhar as transformações do ambiente por meio de técnicas
de aferição direta e sensoriamento remoto, identificando as
ocorrências adversas e atuando no sentido de sua correção;
• assessorar órgãos e entidades incumbidos da conservação do
meio ambiente, tendo em vista o uso racional dos recursos
naturais;
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
177
• promover a elaboração e o estabelecimento de normas e padrões
relativos à preservação do meio ambiente, principalmente os
recursos hídricos;
• realizar diretamente ou colaborar com órgãos especializados no
controle e na fiscalização das normas e padrões estabelecidos;
• promover, em todos os níveis, a formação e o treinamento de
técnicos e especialistas em assuntos relativos à preservação do
meio ambiente;
• atuar junto aos agentes financeiros para a concessão de
financiamentos a entidades públicas e privadas com vistas à
recuperação dos recursos naturais afetados por processos
predatórios ou poluidores;
• cooperar com os órgãos especializados na preservação de espécies
animais e vegetais ameaçadas de extinção e na manutenção de
estoques de material genético;
• manter atualizada a relação dos agentes poluidores e substâncias
nocivas no que se refere ao interesse do país;
• educar o povo a respeito do uso adequado dos recursos naturais.
Esses itens sofreram pequenas modificações em 1981, quando o
governo federal decidiu descentralizar a atuação da SEMA, criando órgãos
e entidades da União, dos Estados, Distrito Federal, Territórios e Municípios.
Novas modificações ocorreram com a fusão do antigo IBDF e Sudepe com
a SEMA, quando foi criado o IBAMA. Abordar item por item dessa política
hoje seria escrever um tratado. Para os objetivos deste livro, bastam os
resultados da política criada por essas instituições governamentais. O
IBAMA é responsável, entre outras funções, pela política nacional de
unidades de conservação. Uma unidade de conservação é uma amostra
representativa de ecossistemas brasileiros que deverá ser regida por regras
especiais de uso do solo. Foram criadas diversas modalidades de unidades
de conservação, cada uma com seu estatuto próprio. Umas são bastante
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
178
restritivas quanto à exploração, outras se assemelham a unidades de
planejamento nas quais as atividades têm de obedecer a regras estabelecidas
pelo poder público.
Como são os critérios para a seleção de áreas a serem preservadas?
O que são parques, reservas biológicas, estações ecológicas e áreas de
proteção ambiental?
Vários são os fatores a serem considerados quando se decide sobre
a localização das áreas protegidas. A primeira prioridade é dada a áreas
onde estudos independentes de duas ou mais autoridades indicam a
existência de “refúgios do Pleistoceno”, podendo ou não representar as áreas
atuais de maior diversidade de plantas e animais. Essas áreas são
consideradas como sendo de dispersão evolutiva. A segunda prioridade é
para áreas que representam tanto formações vegetais típicas como também
refúgios do Pleistoceno. A terceira prioridade é para áreas protegidas
recomendadas pelo RADAMBRASIL, pela antiga SEMA, pelo IBGE e
outras agências.
O tamanho mínimo efetivo para as unidades de conservação não
está ainda bem definido. Sob as leis brasileiras, além das unidades de
conservação, metade da terra incluída em qualquer projeto econômico deve
ser mantida como floresta (onde houver essa formação, é claro). O Fundo
Mundial para a Vida Silvestre (WWF) e o Instituto Brasileiro de Pesquisa
da Amazônia (INPA) estão se baseando nessa lei para a execução de um
projeto que visa determinar se “ilhas” ou “manchas” isoladas de floresta
podem suportar tantas espécies quanto uma mesma área incluída numa
floresta contínua e maior. As espécies de plantas e animais da área a ser
estudada são registradas antes que a “ilha” de floresta seja isolada (como
parte do processo de desenvolvimento) e estudos posteriores são programados
para determinar as mudanças no período de alguns anos. O projeto deve
também mostrar modos de induzir “manchas” de floresta a suportar mais
espécies do que elas naturalmente suportariam.
Na Amazônia, foi decidido basear o tamanho de áreas protegidas
nas espécies de aves neotropicais de florestas úmidas de planície; essas
aves necessitam de uma área mínima de aproximadamente 250 mil ha para
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
179
manter as taxas de extinção abaixo de 1% da totalidade inicial de espécies
por século. Mas esses dados não podem ser generalizados para outros grupos
de animais.
Outros fatores foram também considerados, entretanto os critérios
para selecioná-los têm variado ao longo do tempo.
Parques nacionais e reservas biológicas
O sistema de parques nacionais brasileiros começou em 1937,
quando foi estabelecido o Parque Nacional de Itatiaia, no Sudeste do Brasil.
Desde então novos parques nacionais e reservas biológicas têm sido criados.
Em 1972 havia dezesseis parques nacionais e quatro reservas biológicas no
país, ocupando 1,4 milhão de ha. Não havia nenhuma unidade de
conservação na região amazônica, embora houvesse oito reservas florestais
e uma categoria transitória que confere pouca ou nenhuma proteção, além
de algumas reservas indígenas.
Atualmente o Brasil tem 53 parques e 18 reservas, totalizando
aproximadamente 12 milhões de ha.
Estações ecológicas e áreas de proteção ambiental
A política de preservação de recursos ambientais no Brasil consiste,
basicamente, na proteção de amostras representativas dos principais
ecossistemas brasileiros. Uma estação ecológica é uma extensão de área
natural, de valor ecológico, destinada à pesquisa e experimentação científica.
A maior parte da área de cada estação – cerca de 90% – é considerada área
de reserva integral. Nela somente podem ser realizadas pesquisas que não
impliquem alteração do ecossistema natural. Os 10% restantes podem ser
utilizados para experimentações, como queimadas, por exemplo, que tenham
como finalidade o estudo dos efeitos de certas atividades sobre o ecossistema.
Com o advento da Lei nº 6.902 (27/04/81), foi estabelecida uma
nova modalidade de preservação ambiental, denominada área de proteção
ambiental. As áreas de proteção ambiental compreendem determinadas
porções do território nacional de relevante interesse para a proteção
ambiental, com vistas a assegurar as condições ecológicas locais.
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
180
Parques urbanos
Em nível municipal foram estabelecidos parques cujo objetivo
principal é preservar áreas verdes, que diminuem cada vez mais nos grandes
centros, proporcionando assim locais de lazer à população. Alguns dos
parques estabelecidos pelas prefeituras municipais contam com uma reserva
de vegetação bastante densa que também é aberta ao público. Os parques
urbanos cumprem um importante papel no lazer da população urbana e
representam em muitos casos as manchas mais significativas de áreas verdes
das cidades.
Do ponto de vista do planejamento, pode-se dizer que são poucos
os trabalhos que visam ao conhecimento e monitoramento das áreas citadas.
De forma geral a pesquisa ainda é incipiente quando comparada à velocidade
com que se dá a degradação ambiental neste país.
[CONTI, José Bueno e FURLAN, Sueli Angelo. “Geocologia: o clima, os
solos e a biota”. In: ROSS, Jurandyr I. Sanches (org.). Geografia do Brasil.
São Paulo: EDUSP, 1995, p. 202-207.]
3. As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida
nas Cidades Brasileiras
Atualmente, quase 3 bilhões de pessoas, o que equivale à cerca de
metade da população mundial, vivem em cidades. Entretanto, a urbanização
acelerada da população mundial é um fenômeno recente. Em 1800, só 3%
da humanidade habitava no meio urbano e, ainda em 1850, a própria Europa
era um continente predominantemente rural, no qual apenas duas cidades
ultrapassavam a marca de um milhão de habitantes: Londres e Paris.
A Revolução Industrial mudou esse quadro. Na Europa e nos Estados
Unidos, a segunda metade do século XIX foi um período de rápida
urbanização. Uma quantidade crescente de energia e alimentos passou a ser
importada de lugares cada vez mais distantes para suprir as demandas
urbanas. Foi o início do processo de metropolização que deu origem a
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
181
imensas aglomerações urbanas como Londres, Paris, Nova Iorque, Chicago.
No início do século XX, 14% da população mundial já viviam nas cidades.
Na maior parte dos casos, as metrópoles dos países industriais
centrais viveram o apogeu de seu crescimento populacional entre 1850 e
1950. A partir da década de 1970, elas apresentaram crescimento fraco ou
até mesmo estagnação e regressão populacional. Londres, por exemplo,
perdeu 2% de sua população entre 1980 e 1990. A população de Nova
Iorque continua a crescer, mas muito lentamente: a cidade, que em 1950 era
a maior do mundo, atualmente figura na quarta posição e, de acordo com os
cálculos da ONU, deverá ocupar um modesto nono lugar em 2015.
Tóquio figura como a principal exceção: em 1942, a metrópole
contava com 7,4 milhões de habitantes, mas os bombardeios da Segunda
Guerra Mundial foram responsáveis por uma significativa retração
populacional. Mesmo assim, a região metropolitana de Tóquio já possuia
mais de 15 milhões de habitantes em 1970 e ultrapassou a marca dos 26
milhões em 1996. A explosão populacional que acompanhou estrondoso
crescimento econômico vivenciado pelo Japão nas décadas do pós-guerra
transformou a região metropolitana de Tóquio no centro da mais populosa
área urbanizada do mundo.
Também algumas metrópoles da costa oeste e do sul dos Estados
Unidos fugiram ao padrão do mundo desenvolvido e conheceram uma
verdadeira explosão demográfica entre 1950 e 1990: nesse período, São
Francisco passou de 2,2 milhões para 6,2 milhões de habitantes; Houston,
de 1 milhão para 3,7 milhões, Dallas de 1 para 5 milhões. Los Angeles foi
o caso mais espetacular: no início do século XX, contava com apenas 100
mil habitantes, atingiu 6 milhões em 1940 e, em 1996, figurava como a
sétima metrópole do mundo, com mais de 13 milhões de pessoas.
Entretanto, e apesar dessas exceções, nas últimas décadas o ritmo
frenético da urbanização e o aparecimento de novas megacidades, isto é,
grandes aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes, têm
sido um fenômeno característico do mundo subdesenvolvido. No conjunto
do mundo desenvolvido, o crescimento anual da população urbana gira em
torno de 0,7%; nos países subdesenvolvidos, a taxa de urbanização anual
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
182
gira em torno de 5%. Das 21 megacidades que existem hoje no mundo, 17
estão localizadas em países subdesenvolvidos. Entre elas, figuram duas
cidades brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro.
Como vimos na Unidade II, no Brasil o processo de urbanização foi
notadamente acelerado a partir da década de 1950. Atualmente, pouco mais
de três quartos da população brasileira vivem nas cidades. Assim, os graves
problemas ambientais urbanos afetam a qualidade de vida de parcelas
crescentes na população.
O êxodo rural acelerado e o processo de metropolização do pós-guerra
geraram a expansão da “cidade clandestina”, principalmente sob a forma de
loteamentos na periferia da mancha urbana. A expansão das grandes cidades
se realizou de forma predominantemente horizontal, através da ocupação de
áreas suburbanas carentes de serviços públicos. As terras agregadas à cidade,
glebas de especuladores imobiliários arruadas irregularmente e subdivididas
em lotes diminutos, desafiavam a legislação municipal. Esses loteamentos
clandestinos, vendidos em prestações à população de baixa renda, constituíram
bairros imensos que se encontram atualmente consolidados e legalizados.
A produção da moradia, nessas áreas periféricas, realizou-se basicamente
pela autoconstrução. Sucessivas anistias do poder público regularizaram as
vias e loteamentos, de forma que a cidade real, atualmente legalizada, formou-
se, em grande parte, de modo clandestino e ilegal.
O predomínio do crescimento horizontal que marcou, pelo menos até
a década de 70, a expansão da mancha urbana das metrópoles brasileiras não
impediu o aparecimento de “ilhas de verticalização”. Os principais centros
comerciais e de escritórios, como o “centro velho” e a região da Avenida
Paulista, em São Paulo, são exemplos de espaços intensamente verticalizados.
Nas metrópoles e grandes cidades litorâneas, como Rio de Janeiro
ou Santos, a transferência de parcelas expressivas da classe média para a
orla oceânica deflagrou o erguimento de torres residenciais, formando
muralhas de prédios em frente ao mar. Entretanto, as “ilhas de verticalização”
conviveram, por várias décadas, com um modelo predominantemente
horizontal de expansão da área edificada.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
183
Essa tendência à horizontalização foi determinada pelo atraso na
implantação de um esqueleto de vias férreas e de metrô para o transporte
urbano de massa. Ainda hoje, os trens suburbanos e as linhas de metrô nas
metrópoles brasileiras cobrem uma parcela relativamente pequena dos fluxos
de passageiros. A ausência dessa “armadura ferroviária” condicionou uma
expansão da área urbanizada ao longo do eixo das avenidas radiais.
O transporte automotivo comandou a ampliação territorial das cidades.
Os custos mais baixos de abertura de ruas e avenidas estimularam o
prolongamento dos eixos de transporte ao longo de traçados lineares,
devorando terras cada vez mais distantes do centro. Ao mesmo tempo,
espaços com baixa densidade de ocupação surgiam no intervalo entre as
grandes vias radiais. As metrópoles brasileiras assumiram uma feição
espalhada e disforme, alongando-se sobre alguns eixos principais de
tráfego, geralmente direcionados para os vetores com menores obstáculos
naturais.
A expansão desordenada, horizontalizada e espalhada da metrópole
gera uma pressão crescente de demanda por serviços públicos de água,
esgotos, iluminação e transportes, bem como por infra-estruturas viárias,
escolas e postos de saúde. O alastramento espacial das periferias – mais
rápido que o crescimento da população e muito superior ao incremento da
arrecadação de impostos – acarreta carência crônica dos serviços públicos
e de infra-estruturas urbanas, além de intensificar o estrangulamento
financeiro das administrações municipais.
As conseqüências ambientais da ocupação desordenada dos espaços
periféricos são de gravidade semelhante. Na Grande São Paulo, o
desmatamento das várzeas e cabeceiras dos córregos e rios para expansão
dos loteamentos agravou o problema das enchentes. As águas pluviais
correm diretamente para os cursos d’água, em vez de serem barradas por
áreas verdes e superfícies permeáveis. Por outro lado, o alastramento da
mancha urbana na direção sul do município e sudeste da Região
Metropolitana provocou a invasão das áreas de proteção de mananciais.
As áreas das bacias hidrográficas tributárias das represas Billings e
Guarapiranga, protegidas legalmente de ocupação desde 1975, conheceram
desvalorização imobiliária. Em conseqüência, proliferaram os loteamentos
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
184
clandestinos nas proximidades dos córregos e das represas, ameaçando poluir
as águas e inviabilizar a utilização dessas fontes de abastecimento da cidade.
Nas metrópoles litorâneas, como o Rio de Janeiro, os morros
próximos à orla oceânica são de propriedade pública ou da Marinha.
Localizadas junto aos bairros residenciais de classe média da Zona Sul, que
constituem importante fonte de empregos no comércio e nos serviços, as
encostas desses morros abrigam algumas das principais favelas da cidade.
O modelo de expansão periférica e horizontalizada das metrópoles
brasileiras entrou em crise na última década, em função da incapacidade
crescente das camadas populares de adquirirem terrenos e materiais de
construção. A redução do movimento migratório em direção às cidades
maiores e a desaceleração do crescimento vegetativo contribuem também
para o encerramento dessa etapa de descontrolada expansão horizontal das
metrópoles.
Como conseqüência do esgotamento desse modelo, aumenta a
favelização e o encortiçamento nas áreas mais antigas e estabilizadas das
cidades. Do ponto de vista espacial, ocorre uma aproximação entre as
localizações residenciais populares e as localizações residenciais das classes
médias. De acordo com um estudo realizado pela Prefeitura de São Paulo
no início dos anos 90, “sem dúvida, essa é uma dinâmica nova na ocupação
do espaço de São Paulo, caracterizada por visível empobrecimento das áreas
centrais, sem que com isso se diga que as periferias deixaram de abrigar
predominantemente os contingentes de baixo poder aquisitivo. Contudo, o
importante reside no surgimento de relativa dispersão dessas camadas por
outros espaços da cidade: maior parcela de pobres tomou o rumo das zonas
centrais. Esse processo de deslocamento dos grupos pauperizados aponta –
senão para o esgotamento – para a rápida queda do padrão periférico do
crescimento urbano de São Paulo, baseado na autoconstrução em terrenos
desprovidos de benfeitorias públicas. (...) Diante desses fenômenos, que se
acentuaram durante os anos 80, a alternativa para muitas famílias é a moradia
em favelas ou cortiços”
1
.
1
Prefeitura de São Paulo; São Paulo Crise e Mudança; Prefeitura de São Paulo/Brasiliense,
s/d, pg. 53.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
185
Texto Complementar
No fragmento de texto reproduzido abaixo, o arquiteto Nabil
Bonduki discorre sobre os principais problemas ambientais que afetam as
cidades brasileiras, e apresenta indicadores importantes acerca da qualidade
de vida de suas populações.
Texto 1 – Meio Ambiente, Saneamento e Transporte
A intensidade e as características da urbanização em todo o mundo
geraram dois grandes problemas nesse final de século: a questão urbana e a
questão ambiental. A deterioração ambiental, seja da cidade ou do campo, é
problema antigo e sempre existiu na história da humanidade. O que é novo,
neste final de século, é a intensidade dos processos de degradação ambiental
que acompanham a urbanização, resultando em crescente vulnerabilidade
das cidades, problema agravado pela intensidade da concentração urbana.
A partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento (Rio, 1992), reforçaram-se as iniciativas visando associar
as duas questões. A Conferência Habitat II dá ênfase à questão urbana
ambiental ao definir a sustentabilidade como princípio e assentamentos
humanos sustentáveis como objetivo a ser perseguido.
Os mais graves problemas ambientais são principalmente um efeito
da urbanização sobre os ecossistemas, provocando uma crescente
contaminação dos recursos naturais, principalmente o ar e a água.
No Brasil urbano a realidade socioambiental de uma grande parcela
da população está marcada pelas dimensões da exclusão, do agravo, do
risco, da falta de informação e de educação sanitária e ambiental. Esse quadro
é ainda agravado pelos sérios danos à qualidade de vida decorrentes de
verdadeiras cirurgias urbanas realizadas a título de resolver problemas de
circulação que resultam na perda de identidade, legibilidade e rigidez dos
espaços urbanos.
As causas dessa carência de serviços públicos, essenciais à
manutenção da saúde e à proteção do meio ambiente, podem ser assim
resumidas:
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
186
• A crise institucional e financeira que afetou a capacidade de
investimento do setor público, em geral, e particularmente a dos
setores de saneamento e transportes públicos;
• O envelhecimento das redes e dos sistemas de infra-estrutura
que demandam substituição, ampliação e modernização;
• A diversificação e o aumento quantitativo das necessidades de
saneamento da população urbana e da demanda por serviços;
• O aumento da demanda por transportes públicos derivados da
retomada do crescimento econômico;
• As necessidades de ajustamento político-institucionais dos modos
de regulação das relações sociais entre os produtores de serviços
e usuários.
Embora a ação governamental de proteção ao meio ambiente e à
conservação dos recursos naturais tenha se intensificado no campo da gestão
ambiental na última década, a preocupação com os problemas ambientais
urbanos (brown agenda) ainda não recebeu a mesma atenção da agenda
verde. É muito recente a explicitação do componente ambiental nas políticas
urbanas e de saneamento.
Assim, a crise ambiental urbana brasileira representa um tema muito
propício para colocar em debate a necessidade de novos compromissos com
o desenvolvimento de assentamentos humanos – urbanos ou rurais –
sustentáveis.
Situação ambiental urbana
Nas últimas décadas, a urbanização acelerada e desordenada, a
concentração da população e das atividades econômicas no espaço e os
padrões tecnológicos da produção industrial têm reforçado um quadro
ambiental altamente degradado em conseqüência de um estilo de
desenvolvimento que leva ao uso predatório dos recursos naturais. As
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
187
cidades estão no cerne dessa questão: enquanto centros de produção e
consumo são grande exploradores de recursos naturais como água,
combustíveis fósseis e terra agriculturável, concentrando os problemas mais
sérios de degradação ambiental.
O quadro urbano brasileiro está marcado pela existência de
assentamentos humanos precários, onde vivem os pobres, e um
comprometimento ambiental que provocam graus crescentes de deterioração
da qualidade de vida. Enchentes, erosões, deslizamentos, poluição das águas
e do ar, bem como a diminuição da cobertura vegetal, atingem o cotidiano
da população, afetando diferencialmente os setores mais pobres. A falta de
alternativas de moradia popular e de lotes urbanos a preços acessíveis,
particularmente nas grandes cidades, forçou os grupos mais pobres da
população a ocupar ilegalmente espaços impróprios para assentamentos
como encostas íngremes, várzeas inundáveis, beiras de rio e cursos d’água,
áreas de proteção de mananciais, áreas de risco para o tipo de moradia
precária dessa população, risco agravado pela ausência de infra-estrutura.
O atendimento na área do saneamento
O acesso aos serviços de água teve uma considerável expansão nas
duas últimas décadas, em conseqüência da prioridade concedida ao serviço
pelo Plano Nacional de Saneamento – Planasa executado sob comando do
BNH. Em 1991, de acordo com o Censo Demográfico, 65% do total de
domicílios permanentes tinham canalização interna abastecida por rede geral
de água, sendo que este índice atinge 85,87% nas áreas urbanas e 6,8% nas
rurais. As diferenças de atendimento entre população urbana e rural
igualmente refletem a estratégia da política de saneamento do BNH, uma
vez que os dados mostram que se considerarmos os domicílios que não
possuem canalização interna, mas são servidos por rede geral, o índice de
domicílios servidos era de 70,71%, sendo 87,81% nas áreas urbanas e 9,84%
nas áreas rurais.
Com relação à cobertura de rede de esgotos, tem-se um quadro
extremamente precário, uma vez que apenas 35,29% do total da população
são servidos. As variações entre regiões dão uma dimensão das desigualdades
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
188
existentes, conforme os dados a seguir. Enquanto na região Norte apenas
1,33% dos domicílios está ligado à rede geral, no Nordeste esse número
representa 8,88%, na região Sudeste, que é melhor servida, o total de
domicílios servidos representa 63,46%, na região Sul, apenas 13,65%, e na
Centro-Oeste 27,24%. Estes indicadores mostram o nível de precariedade
existente, onde 17,11% dos domicílios brasileiros têm fossa séptica, 32%
possuem fossas rudimentares e 14,68% não possuem qualquer tipo de
escoadouro.
Em 1989, 47,25% dos municípios possuíam alguma forma de serviço
público de esgotamento sanitário, sendo que apenas 12,2% utilizavam
emissário para lançamento do esgoto coletado em corpos d’água e 7,79%
realizavam algum tipo de tratamento, na maioria dos casos, lagoa de
estabilização. Assim, constata-se que, além dos 52,75% dos municípios
que não dispõem de serviço de coleta, a maior parte dos que dispõem realiza
a coleta mas não trata do esgoto coletado. As disparidades regionais são
flagrantes: na região Sudeste apenas 15% dos municípios tratam o esgoto
coletado, na região Sul 7%, na Centro-Oeste 3,69%, no Nordeste 3,63% e
na região Norte 7,7% (IBGE, Pesquisa Nacional de Saneamento Básico,
1989).
Ainda utilizando dados do Censo Demográfico de 1991, constata-
se que 80% dos domicílios urbanos brasileiros têm coleta de lixo,
representando cerca de 22 milhões de domicílios com cobertura desses
serviços. Verifica-se portanto que uma parte considerável dos domicílios
urbanos dá destinação inadequada para o lixo produzido. Do total dos
domicílios urbanos 8,51% queimam ou enterram o lixo, 11,55% jogam em
terrenos baldios e outros locais e 0,72% dá outra destinação para o lixo.
Esses dados indicam que ainda perdura uma quantidade significativa do
lixo produzido que não recebe tratamento adequado.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE,
em 1989, em todas as regiões do país o problema que se coloca é muito
sério, uma vez que a maior parte é despejada em vazadouros a céu aberto
(lixões). A maioria dos municípios brasileiros joga o lixo em vazadouros a
céu aberto, totalizando 72% do lixo coletado e somente 47,14% do lixo
coletado recebe tratamento adequado: 24,66% em aterro controlado, 16,72%
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
189
em aterro sanitário e 5,73% em usinas de compostagem, incineração e
reciclagem. Somente 52,55% dos municípios brasileiros declararam ter
recolhimento de lixo hospitalar, sendo que, entre esses, 74,63% despejam o
lixo hospitalar em vazadouros a céu aberto e nos demais municípios o lixo
hospitalar é incinerado ou disposto em aterros especiais.
A adoção de vazadouro a céu aberto como solução para disposição
final dos resíduos representa um sério risco que não se circunscreve apenas
à área onde se localiza. Pelo fato de não receberem qualquer tipo de
tratamento e controle, os lixões liberam gases e substâncias líquidas de
elevadas toxicidades que poluem o ar, o solo, os rios e aqüíferos subterrâneos
e superficiais. Além de provocarem problemas ambientais, contribuem para
a degradação da paisagem urbana, afetando direta e indiretamente a
população que mora em suas vizinhanças. Esses problemas concentram-se
nos bairros periféricos, onde vivem as camadas mais pobres da população.
O atendimento às necessidades de transporte urbano
A situação precária dos transportes públicos urbanos, particularmente
nas grandes cidades brasileiras, decorre da prevalência dos deslocamentos
por transporte particular individual em detrimento da priorização do
transporte coletivo. O custo da implantação e manutenção da infra-estrutura
viária, da sinalização e da operação do tráfego próprias para o automóvel,
em face do atual quadro de incapacidade de investimento do Estado, tem
impedido o atendimento adequado das necessidades de transporte para a
maioria da população.
A produção da indústria automobilística saltou de 914 mil
automóveis/ano em 1990 para quase 1,8 milhões em 1995. O enorme
contingente de veículos particulares resultante dessa expansão circula hoje
nas cidades sem que tenha havido, por um lado, preparo, aparelhamento e
incremento nas atividades de gerenciamento dos transportes nem, por outro
lado, incremento nos investimentos públicos necessários.
Os sistemas metroviários, de responsabilidade dos Estados, e os
trens metropolitanos, operados pelos Estados e pela União, responsáveis
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
190
por 8% do total das viagens metropolitanas, não têm conseguido ampliar o
atendimento da demanda devido à descontinuidade dos investimentos
necessários e aos cortes substanciais nos seus orçamentos. À exceção do
Metrô de São Paulo, que tem se beneficiado por fluxos regulares de recursos,
os demais sistemas de alta capacidade, implantados no Brasil na década de
70, não puderam ser expandidos ou concluídos, deixando de cumprir seu
papel de principal meio de transporte das áreas onde foram implantados.
A poluição do ar e da água
Dentre as questões ambientais urbanas mais importantes no caso
brasileiro alinha-se a poluição atmosférica. Os problemas ambientais gerados
pela poluição do ar nas grandes cidades brasileiras têm duas fontes: as fontes
industriais e as fontes veiculares. Mas a principal fonte de poluição atmosférica
ainda é o monóxido de carbono produzido pela frota de veículos, cujo
crescimento resultou do desenvolvimento da indústria automobilística, do
baixo preço do petróleo e da expansão das malhas rodoviária e urbana. Tais
fatores levaram a opções equivocadas que priorizaram o transporte individual
em detrimento do transporte coletivo e os sistemas rodoviários em detrimento
dos transportes ferroviários e hidroviários nas grandes cidades.
A inexistência de sistemas adequados de tratamento de resíduos
líquidos e sólidos, resultantes tanto das atividades econômicas (agrícola,
industrial e mineradora) quanto das atividades domésticas, tem provocado
também altos índices de poluição hídrica. Em relação ao setor industrial,
destaca-se que a maior parte dos estabelecimentos com alto potencial
poluidor da água localiza-se na região Sudeste, representando 52% do
total, sendo que 21% estão no Nordeste e 19% no Sul. A concentração de
estabelecimentos se dá nos Estados de São Paulo e Minas Gerais,
representando respectivamente 31% e 12% do país. Tal como no caso da
poluição do ar, a grande concentração industrial e urbana apresenta elevadas
cargas orgânicas e inorgânicas em relação à capacidade assimilativa dos
corpos receptores e torna suas águas impróprias para a maioria dos usos.
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
191
Estratégias de intervenção do Estado e da Sociedade
Persiste a desvinculação entre as políticas públicas de saneamento
e meio ambiente, questão amplamente tratada na Consulta Nacional sobre
a Gestão do Saneamento e do Meio Ambiente Urbano, realizada em 1994
pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal com o apoio do
Programa de Gestão Urbana (PNUD/Habitat/Banco Mundial), envolvendo
representantes do governo e da sociedade, em todas as regiões do país.
As conclusões dessa Consulta Nacional apontam, entre outras, para
uma tendência de criação de novos formatos institucionais capazes de
propiciar uma gestão ambiental urbana integrada, mais eficiente, efetiva e
democrática.
Não obstante, cabe lembrar uma ação governamental, em nível
federal, que vem progressivamente agindo para a superação da mencionada
desvinculação das políticas ambientais e urbanas. Trata-se do Programa de
Zoneamento Ecológico Econômico do Território Nacional – ZEE,
coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da
República e executado pelos Estados, de acordo com as diretrizes de
descentralização.
Quanto às ações de saneamento, reiniciam-se as operações de
financiamento à expansão e à melhoria dos serviços, com recursos do FGTS,
através do Programa Pró-Saneamento, cujas prioridades são o atendimento
à população mais carente e a conclusão das obras já contratadas em todo o
país. Coerente com as propostas de descentralização da execução das
políticas públicas, o Programa transfere a colegiados estaduais, formados
por representantes de governo (Estado e Municípios) e da sociedade, o poder
decisório sobre as prioridades na alocação de recursos. Os empréstimos
poderão ser concedidos, através da Caixa Econômica Federal, a órgãos e
entidades estaduais ou municipais.
A reformulação da política de saneamento e a modernização do setor
são objeto do Projeto de Modernização do Setor de Saneamento – PMSS,
conduzido pela Secretaria de Política Urbana do Ministério de Planejamento
e Orçamento e financiado com recursos do Banco Mundial. O PMSS é o
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
192
trabalho mais abrangente, completo e ambicioso sobre saneamento já
enfrentado pelo país, o qual procura explorar novo ordenamento
institucional, novos mecanismos de regulação e financiamento, inclusive o
princípio poluidor-pagador, e novas alternativas de prestação de serviços.
Algumas alternativas de mobilização de capitais privados para o
setor têm sido ensaiadas, mas não são passíveis de generalização uma vez
que não se pode pretender substituir por completo o investimento público
pela privatização.
A preocupação com os problemas ambientais gerados pelos
transportes levou ao desenvolvimento de tecnologias que utilizam fontes
de energia renováveis e aquelas de menor impacto no meio ambiente.
Experiências de resultados animadores com a utilização de gás natural
automotivo em frotas de ônibus urbanos, frotas de táxis e veículos do serviço
público têm sido realizadas em vários Municípios.
O uso de tecnologias adequadas
A escassez de recursos para investimentos em face dos déficits de
infra-estrutura levou a se prestar maior atenção às tecnologias de baixo
custo, chamadas de “alternativas” ou “adequadas”. Isso porque a tecnologia
tradicionalmente usada para a execução desse tipo de obra tem altos custos
de implantação dos serviços, custos que a grande maioria da população não
pode pagar.
A dimensão dos problemas de esgotamento sanitário, onde se
concentram os maiores déficits de cobertura em todo o país e cuja resolução
por tecnologia convencional é extremamente onerosa, tem sido um campo
fértil para a experimentação com tecnologias de baixo custo. Exemplo mais
conhecido e estudado é o saneamento condominal. A tendência observada
é de extensão de seu uso, onde as condições técnicas o permitam, para
todas as áreas urbanas do país.
[BONDUKI, Nabil. “Habitat e Qualidade de Vida: as práticas bem sucedidas
em cidades brasileiras”. In: BONDUKI, Nabil (org.). Habitat. As práticas
A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
193
bem-sucedidas em habitação, meio ambiente e gestão urbana nas cidades
brasileiras. São Paulo: Studio Nobel, 1997, 2ª ed., p. 28-32.]
4. Exemplos de Questões
Concurso de 1997
“Segundo vários autores, a globalização e a questão ambiental seriam
projetos associados. Quanto ao primeiro, comenta o Professor Milton
Santos, ‘há que se tomar cada lugar na Terra como uma fração do espaço
mundial’. Por outro lado, é uma máxima do movimento ambientalista
internacional a afirmação ‘pensar globalmente, agir localmente’. Faça
uma reflexão sobre a relação entre essas escalas no mundo
contemporâneo, levando em conta seus possíveis reflexos sobre as
soberanias nacionais.”
Concurso de 1998
“A percepção internacional acerca da questão ambiental foi se
fortalecendo ao longo das últimas décadas, num percurso que vem
registrando significativas mudanças de concepção quanto ao
equacionamento do tema. Tais mudanças ficam bem mais evidentes
nos documentos gerados por comissões e conferências internacionais.
Aponte os principais documentos elaborados sobre a matéria a partir da
década de 1970 e comente as modificações observadas nos seus enfoques
sobre a ‘questão ambiental’.”
Concurso de 1999
“A expressão ‘polígono das secas’ é de uso corrente na geografia regional
brasileira. Localize com precisão tal área no território nacional e descreva
os mecanismos atmosféricos que determinam, estrutural e sazonalmente,
sua situação climática.”
MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO
194
5. Bibliografia
Bibliografia Básica
BECKER, Bertha K. e MIRANDA, Mariana (orgs.). A Geografia Política
do Desenvolvimento Sustentável. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.
CAVALCANTI, Clóvis et alli. Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável
e Políticas Públicas. São Paulo: Cortez, 1997.
DIEGUES, Antônio Carlos. O Mito Moderno da Natureza Intocada. São
Paulo: Hucitec, 1996.
Bibliografia Complementar
MORAES, Antônio Carlos R. Meio Ambiente e Ciências Humanas. São
Paulo: Hucitec, 1993.
———. Contribuições para a Gestão da Zona Costeira do Brasil: elementos
para uma geografia do litoral brasileiro. São Paulo: EDUSP/
Hucitec, 1999.
SOUZA, Maria Adélia A. et alli. Natureza e Sociedade de Hoje: uma Leitura
Geográfica. São Paulo: Hucitec/ANPUR, 1994.
SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA
195
Título Manual do Candidato Geografia
Autora Regina Célia Araújo
Capa
Editoração Eletrônica Samuel Tabosa de Castro
Revisão de Texto José Romero Pereira Júnior
Formato 21 x 29,7 cm
Mancha Gráfica 12,5 x 25,9 cm
Tipologia Times New Roman 12/17,8
Papel Cartão Supremo 240 gm
2
(capa)
Ap 75 gm
2
(miolo)
Número de Páginas 196
Tiragem 1500 exemplares
Impressão e Acabamento