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DOMINAÇÃO DE CLASSE, MODERNIDADE PERIFÉRICA E A CONSTRUÇÃO DA

"DEMOCRACIA SUBDESENVOLVIDA" NO BRASIL.
CLASS DOMINATION, PERIPHERY MODERNITY AND THE BILDING OF THE UNDERVELOPED
DEMOCRACY IN BRAZIL
newton de menezes albuquerque
Paulo Roberto Clementino Queiróz
RESUMO
Traçando um paralelo entre o nascimento da democracia nos países de capitalismo central, marcados pelos
embates sociais internos para consolidar o paradigma burguês de modernidade, e a maneira como se tem
estruturado historicamente em países de capitalismo periférico-dependente como o Brasil, o presente
trabalho procura identificar as dificuldades na assimilação dos aspectos mais elementares da existência
democrática como defendida pelo liberalismo hegemônico. A partir dessa análise comparativa, numa
perspectiva histórica crítica, pretendemos alcançar uma maior compreensão de como se deu o processo de
evolução democrática brasileira sob a inevitável influência da luta de classes no interior de uma sociedade
subdesenvolvida como a nossa ainda limitada ao estabelecimento formal dos valores democráticos para
apontarmos, ao final, a indispensável necessidade de superação da supremacia abstrata da lei para
realizarmos uma democracia substancial identificada na correspondência do povo jurídico, albergado pelo
sistema normativo, com o povo material.
PALAVRAS-CHAVES: DOMINAÇÃO, PERIFERIA, DEMOCRACIA, SUBDESENVOLVIIMENTO
ABSTRACT
Making a parallel between the birth of democracy in the countries with central capitalism, that are market by
the internal social conflicts to firm the bourgeois concept of modernity, and the way it’s historically
structured in countries with dependent capitalism, such as Brazil, this article intents to identify the
difficulties in the understanding of the most basic aspects of the democratic existence, as defended by the
hegemonic liberalism. Starting from this comparative analysis, in a historical and critical perspective, this
work was designed to reach a larger comprehension of how brazilian’s democratic process evolution
occurred, under the inevitable influence of the class conflicts in an underdeveloped society such as ours, still
limited by a formal view of the democratic values, to stand out, at the conclusion, the indispensable
necessity of overcome the abstract supremacy of the law to make real an substantial democracy, identified
by an equivalence of the people in juridical terms, as protected by the normative system, with the substantial
people.
KEYWORDS: DOMINATION, PERIPHERY, DEMOCRACY, UNDERDEVELOPMENT
1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende abordar a controversa relação entre a gênese histórica da democracia,
balizada pelo desdobramento antinômico das lutas de classe na Europa, notadamente daquelas travadas na
consolidação da modernidade burguesa nos séculos XIX e XX, incluindo aí o processo intelectivo de
refundição de diferentes tradições doutrinárias – ainda em contínuo conflito - que atribuíram legitimidade
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axiológica a democracia; e a problemática assimilação das fórmulas democráticas - mesmo quando cingidas
ao procedimentalismo liberal - em um país como o Brasil, moldado pela dominância de elementos pré-
modernos ou de uma modernidade subalterna em sua formação sócio-econômica e política. Trabalho que se
situa em um ponto de vista crítico, voltado para a compreensão do processo de desenvolvimento
“subdesenvolvido”, ou dual, que define o nosso modo de evolução democrático. A combinação de
elementos diferenciados em nossa formação sócio-cultural-política e, por que não dizer, jurídica, revela as
formas idiossincráticas de nosso desenvolvimento institucional, marcado pela sobreposição de lealdades
pré-modernas de vínculo social e econômico, combinadas à proclamação das fórmulas jurídicas e
institucionais típicas do modelo de desenvolvimento moderno dos países capitalistas centrais.

Realidade brasileira que desde cedo se viu capturada pelas malhas estreitas da divisão
internacional do trabalho que nos cingia a uma condição de inferioridade no plano internacional, preso a
uma situação de economia meramente apendicular ou complementar as determinações dos centros
industriais do capitalismo moderno. Dependência externa esta, que se traduziu no plano interno na
constituição de uma dominação política, social e ideológica fundada predominantemente em laços de
coerção sobre as maiorias populares, onde uma burguesia estamental apresentava-se como sócia minoritária
confiável dos grupos econômicos transnacionais. Não obstante os avanços inegáveis no processo de
afirmação da soberania nacional com o advento da independência e com a conseqüente ruptura com os
vínculos de sujeição prescritos pela dominação colonial portuguesa no século XIX, apesar dos sérios
empecilhos erguidos à generalização dos direitos fundamentais e à ampliação de um mercado interno de
consumo em favor das maiorias em nosso país.

Contudo, as conquistas obtidas em relação à construção do Estado-nação no Brasil, não podem ser
comparadas com as alcançadas na Europa ou nos EUA, posto que nestes, os liames dialéticos entre
desenvolvimento das forças da sociedade civil e a moldagem do Estado Nacional, propiciaram o
aparecimento de instituições fortes e autenticamente expressivas dos valores da cidadania burguesa liberal.
Liberalismo que nestes países correspondeu na esfera política e jurídica a maturação das forças de mercado,
do processo de industrialização e da delimitação dos circuitos de consumo cimentando a integração de todos
ao ideal burguês de nacionalidade.

Distintamente do que ocorreu por estas plagas, como se pode deduzir do contraste entre a categoria
weberiana da legitimidade racional própria da modernidade capitalista, em que se sobressai a ênfase na
centralidade da lei, da igualdade formal entre os indivíduos e da ordem impessoal das instituições, com o
cristalizado nos processos histórico-concretos de nossa gestação enquanto povo, pautados na manutenção de
uma cultura da personalidade, da razão-cordial e da permanência dos valores escravistas, opostos ao ideal de
trabalho-livre capitalista, o que praticamente atravancou quaisquer iniciativas de se tentar constituir um
verdadeiro Estado Democrático de Direito entre nós. Daí o caráter de adorno da adoção do liberalismo pela
burguesia brasileira, a funcionar mais como utopia inspiradora de um porvir moderno, do que como
ideologia orgânica do livre desenvolvimento de um capitalismo liberal típico.

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Pois se atualmente já é difícil acreditar nas possibilidades de compatibilização da democracia com
o capitalismo nos países desenvolvidos, em decorrência da agressividade imperialista do Capital e de sua
expansão reprodutiva ilimitada, cada vez menos harmônica com os fundamentos igualitários e republicanos
da democracia, mais difícil ainda é crer que a democracia, mesmo em sua versão liberal, possa se
desenvolver plenamente em países capitalistas periféricos como o Brasil. Afinal, em nosso país o Estado e
suas instituições - na maior parte de sua história – foram definidos a partir de uma lógica de estranhamento
mútuo com a sociedade civil, em que a efetivação da ordem burguesa-estamental requeria o uso freqüente,
cotidiano de formas autocráticas de dominação política e social, assim como de apelos reiterados ao
abastardamento cultural das maiorias alienadas para que as mesmas se submetessem passivamente às
determinações econômicas e socialmente heterônomas do mercado internacional e da vontade particularista
de nossas elites nativas. Daí a natureza ambígua de nossa vida institucional, posto que há uma evidente
contraposição entre o reconhecimento formal, entronizado pelo direito do caráter democrático de nossa
ordem social, e a prática autocrática dos “fatores reais de poder” segundo Lassale, que perfazem vínculos de
profunda subalternidade entre burguesia e setores assalariados no Brasil.

Portanto, o que propomos ao longo de nosso trabalho é problematizar sob um ponto de vista
histórico-crítico a formação do Estado brasileiro, especialmente a partir dos referenciais teóricos aportados
por Florestan Fernandes, Werneck Vianna entre outros. Abordagem que intenta revelar as intrínsecas
fragilidades dos fundamentos democráticos do Estado no Brasil, dado o caráter perversamente excludente
das relações econômicas e sociais hegemônicas sob o qual o mesmo se estrutura. Quando muito, a burguesia
nativa anui em fazer concessões discursivas à democracia, exibindo seu pretenso sentido civilizatório, sua
vinculação abstrata aos grandes ideais do liberalismo iluminista a despeito de sua inconseqüência prática
com estes mesmos valores. Afinal, como bem menciona Roberto Schwarz em seu Ao vencedor as batatas
em que examina a recepção problemática dos valores literários e políticos da Europa no Brasil:

Sem descanso, a reprodução do sistema econômico internacional prendia os olhos e desejos da elite
brasileira a coisas e idéias sem qualquer continuidade com nossas relações de base, que ficavam
relativamente emudecidas, sem coroamento na civilização material e ideológica. Incongruência de
efeitos enormes, difíceis de medir, que era um fato cotidiano de nossa vida, um símbolo apropriado de
nossa posição na divisão internacional do trabalho, e o insolúvel problema ideológico dos beneficiados
da ordem brasileira, que naquele tempo como hoje procuravam gozar das vantagens combinadas do
atraso social e do progresso material.[1]

A bem da verdade, como diria Sérgio Buarque de Holanda, a democracia entre nós nunca passou
de um “mal-entendido”[2], pois resume-se a uma fórmula nominal, retórica, circunscrita a epiderme de uma
concepção formalista, inepta para a absorção dos socialmente e economicamente “excluídos” no plano da
cidadania proclamado pelo direito e pela Constituição. Consumação nominal do Estado de Direito, da
democracia política que sequer consegue generalizar eficazmente os direitos civis, decodificados da
afirmação da condição individual da cidadania liberal pela modernidade no século XX.

Determinações coercitivas frente aos valores democráticos que reverberam na mitigação do
processo de construção das políticas públicas no Brasil, pois o Estado em toda sua complexidade
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tecnológica de gestão do poder administrativo, termina por obstruir o acesso das maiorias populares não
somente às decisões, mas também ao benefício material de que deveriam ser caudatárias

Para superar as enormes resistências que ainda são opostas a viabilização da democracia no Brasil,
far-se-ia indispensável, como tentaremos mostrar ao longo do trabalho, a superação da postura autista de
boa parte dos juristas e dos crentes na supremacia abstrata da lei, independente das forças materiais que
detém o poder em nosso país. Haja vista que a democracia só deixará de ser um grande “mal-entendido”
entre nós quando conseguirmos aproximar o povo jurídico, constitucionalmente formalizado do povo
material, sociológico, politicamente ativo, tornando-o de fato o principal fautor da democracia e da
interpretação cristalizadora de suas prerrogativas e interesses.

2 Teoria da Democracia: constituição da modernidade e o processo histórico de universalização de
seus fundamentos ético-políticos

A modernidade re-introduz no léxico político e institucional a palavra democracia, banida da
reflexão engendrada no fim da antiguidade e por toda idade média por outros ideais civilizatórios como a
república e/ ou a monarquia, vigentes nas Cidades-Estado e/ou impérios de então[3]. Conceito de
democracia que ficou tisnado pelo juízo negativo exarado sobre ele por pensadores do porte de Platão,
Aristóteles, etc, acusando-a de se constituir como ordem política fundada no particularismo dos interesses
da maioria e na conspurcação da ética do justo. Democracia que se viu também condenada pela sorte de
Sócrates no período helênico, presumidamente eliminado da vida social pela intolerância à crítica por parte
do povo, bem como, por aqueles que argumentavam que a emergência de ordens políticas, territorial e
populacionalmente mais vastas, eram antinômicas com o sentido comunitarista próprio à democracia dos
antigos.

Ademais, no mundo “magificado” pelas convicções teológicas da idade média, não havia espaço
para a legitimação mundana da democracia, pois o povo torna-se “Povo de Deus”, cingido aos proclamos e
leis bíblicas e à “vida contemplativa”, genuflexando diante de toda autoridade dada, sem nenhum senso de
protagonismo ou de autonomia individual e social. A política só era acatada na condição de adminículo da
religião, conformando-se como instrumento de “salvação dos homens” e/ou de “Remmedium Pecati” por
seus atos indevidos. Só com o aparecimento dos elementos propriamente modernos da reflexão política,
esboça-se em bases incipientes o reconhecimento do espaço autônomo da política como construto humano.

Período moderno que se teceu no âmbito teórico e das mentalidades, a partir da entronização de
elementos antropomórficos na justificação do Estado e de suas instituições, iniciado com os humanistas
cívicos italianos e completada com Maquiavel, ao deslindar os vínculos entre Estado e normatividade ético-
teológica. Pois foi a partir da reflexão praxeológica encetada pelo pensador florentino que se apreenderam
as possibilidades virtuosas e ainda inexploradas da criação política, superando assim, as determinações do
“destino” inscritas nos escritos políticos na antiguidade e idade média. Desmascaramento do véu de
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hipocrisia promovida por Maquiavel, que se traduziu em uma confrontação com a igreja e as representações
do discurso religioso, desvelando com objetividade anatômica as linhas gerais da “gramática do poder”
vigente. Sublinhe-se ainda, o mérito de Maquiavel de tratar e enxergar com naturalidade os conflitos sociais,
enfatizando o papel destes no coibimento da estagnação política própria dos regimes despóticos.

Somente com as luzes do progresso sintetizados pelo Iluminismo e pela crença na centralidade do
homem e dos processos autônomos de construção política e jurídica é que o projeto democrático é retomado
explicitamente. Primeiramente ainda sob o guante de um discurso espontaneísta, de explícitos apelos
teológicos por maior justiça neste mundo, como fruto de reivindicações camponesas na Europa do século
XV contra o despotismo das classes feudais e da monarquia centralista. E em seguida pela assunção da
racionalidade individualista-liberal, onde o reconhecimento dos pressupostos de cidadania a ser conferido ao
“povo” requeria previamente no plano material que àqueles homens fossem considerados proprietários, sob
pena, em caso contrário, de serem marginalizados do direito a qualquer deliberação sobre os rumos do
governo e do Estado.

Entretanto, com o advento da concepção democrática de Rousseau e juntamente com ele a cisão
operada no seio do Terceiro Estado um pouco depois, a partir dos acontecimentos relacionados à
radicalização jacobina da Revolução Francesa, inicia-se o processo de delimitação teórica e prática entre o
projeto democrático e o liberalismo. Afinal, a democracia e o liberalismo consubstanciam valores diversos,
sobre muitos aspectos mais do que distintos, diríamos mesmo antagônicos, em face do que predicam como
competência do Estado e dos liames entretidos entre suas instituições e a sociedade civil. Pois se é verdade
que ambas as doutrinas opõem-se ao absolutismo e ao sentido teológico, metafísico da política e do direito,
também o é, que no mais divergem em dimensões fundamentais da maneira de compreender os vínculos
entre o homem e o poder.

Democracia que como já foi dito acima, exsurge das lutas concretas, efetivas do povo, das
maiorias enquanto potência politizadora do mundo e de todas as decisões relativas ao bem–comum;
enquanto o liberalismo nasce e se identifica com a positivação dos direitos individuais da burguesia e da
preocupação recorrente desta de prever mecanismos técnico-processuais de contenção da política –
notadamente quanto ao expansionismo “decisional” democrático – junto à autonomia do mercado.

Perspectivas distintas entre democracia e liberalismo que ficam muito claras quando examinamos
pensadores modernos que funcionam como pólos sintéticos de tais compreensões de mundo como:
Rousseau e Locke nos séculos XVII e XVIII, ou mesmo, Marx e Weber nos séculos XIX e XX. Posto que o
elo que une Rousseau e Marx, ou então Locke e Weber, não obstante suas disparidades históricas e
problemáticas - separadas por décadas de desenvolvimento do capitalismo - decorrem da convergência de
fundamentos comuns, democráticos e liberais, respectivamente, que lhes conferem uma relativa unidade de
meios categoriais e de propósitos. Inevitável, contudo, a verificação de uma verdadeira tensão, em
variegados momentos, entre o ideal político e o ideal econômico do liberalismo, em prejuízo da democracia
e do Estado liberais. Na verificação de Emir Sader, o impasse entre essas concepções resultante de seu
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agigantamento seria fatal à sua própria existência, “Como se sua máxima extensão fosse a condição de sua
realização e, esta, ao mesmo tempo, de sua crise e de seu esgotamento histórico”[4].

De fato, o mundo pós-guerras mundiais apresentou-se sem alternativas ao modelo liberal de
Estado, reconciliando suas duas metades (política e econômica), que foram confrontadas pelas ameaças do
keynesianismo (Wellfare State), do fascismo e do socialismo de Estado. Em sua nova versão, o liberalismo,
ou neoliberalismo, encontrou na defesa do Estado mínimo e na expansão dos mercados sem barreiras ou
entraves por todo o planeta (globalização) o paradigma da nova ordem mundial.

No clássico “A insustentável leveza do ser”[5], o tcheco Milan Kundera toma da filosofia pré-
socrática de Parmênides a questão da dualidade do ser. Para o pensador de Eléia, a ontologia dual do ser
identificado como o não ser ou a ausência de seu oposto (por exemplo, o frio é o não calor), encontra-se
invertida na dualidade peso/leveza: ao contrário do que se poderia supor, não é a leveza, mas o peso que se
caracterizaria pela ausência, ou seja, o peso seria a não leveza ou a ausência de leveza. A genialidade de
Kundera pode ser verificada na adaptação do raciocínio de Parmênides à problemática da liberdade numa
perspectiva existencialista. O peso tomado como força opressora não seria necessariamente ruim, na medida
em que importaria um ancoramento à realidade. A leveza, pelo contrário, identificada como uma liberdade
sem compromisso, irresponsável, retiraria o sentido da existência, por subtrair-lhe o referencial axiológico.

O modelo liberal, reduzindo o Estado ao mínimo e expandindo o mercado ao inimaginável tomou
as feições dessa liberdade irresponsável, sem qualquer compromisso, nem mesmo com a própria
sustentabilidade, como destacado por Sader:

... o chão econômico em que se assentam os sistemas políticos de democracia liberal – a extensão sem
precedentes da mercantilização – foi universalizado com a hegemonia neoliberal no mundo. A
desmoralização da política, o desinteresse por tudo o que é público, a privatização exacerbada das
relações sociais e do próprio Estado – tudo leva a uma crise da política, induzida pela corrosão da
estrutura social e da cultura pelas relações mercantis sem contrapeso da ação até um certo momento
reguladora do Estado.[6]

Essa nova conformação do liberalismo assume nuances ainda mais cruéis nos países da periferia do
capitalismo, cuja concentração de renda assume proporções desumanas e incompatíveis com o permanente
estímulo ao consumo. Evidente esse paradoxo no caso brasileiro: mesmo figurando entre as maiores
economias mundiais, o Brasil ocupa há anos o posto de maior desigualdade social, pior distribuição de
renda, com os meios de produção controlados por menos de 10%da população.

Percebe-se que ao reduzir as relações humanas a relações mercantis, toda a complexidade humana,
e por conseqüência também a democrática, foi ofuscada, o ser humano reduzido a consumidor e o ideal da
existência humana limitou-se a consumir, notadamente na periferia do capitalismo: no Brasil, por exemplo,
as escolas não primam pela aquisição do saber, mas na reprodução acrítica de conceitos visando tão somente
a aprovação no vestibular, lógica também assimilada pelo ensino superior, principalmente o jurídico (que
concentra a imensa maioria dos discentes) cujo objetivo amesquinhou-se ao exame de admissão à Ordem
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dos Advogados e à aprovação em concursos públicos; o trabalho não é tomado como dignificante ou
transformador, mas como um estorvo, um mal necessário ao qual todos se submetem apenas para obter o
necessário ao consumo.

As reverberações da lógica de produção alcançam o campo político ao eleger a eficácia ou
eficiência como critério de perfeição democrática, reduzindo a democracia, para tanto, ao seu aspecto formal
(processo eleitoral); esvaziando o sentido da ação política mais ampla, na medida em que essa ação deve ser
restrita aos políticos profissionais, aos representantes eleitos. A técnica desses profissionais traria a fórmula
mágica do sucesso. Como a empresa tornou-se o parâmetro do mundo e a eficiência significando o sucesso
da produção, indispensável a reprodução desse raciocínio para garantir o sucesso do Estado-empresa. Como
bem diagnosticou Gustave Le Bon, o “ser, a idéia ou a coisa que possui prestígio é, por via de contágio,
imediatamente imitado e impõe a toda uma geração certos modos de sentir e de traduzir pensamentos.”[7].
O prestígio empresarial-mercadológico contagiou e se impôs ao fazer político.

Verdadeira demofilia, o poder é exercido em nome do povo, que apenas legitima a ação de seus
agentes em eleições periódicas, verdadeira transferência mútua de responsabilidades: os eleitores transferem
aos representantes a responsabilidade pelas mudanças; os representantes atribuem à apatia popular a causa
da impossibilidade de uma materialização democrática.

Retomando a idéia do brasileiro como homem cordial restaria resolvida essa transferência de
responsabilidades:

No “homemcordial”, a vida emsociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele
sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência.
Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social,
periférica, que no brasileiro – como bom americano – tende a ser a que mais importa. Ela é antes um
viver nos outros.[8].

Pois bem, é esse viver nos outros que se adéqua perfeitamente à democracia formal, como uma
transferência de responsabilidades. Comentando a visão comum que Estado Liberal e Estado Social têm da
democracia, Marilena Chauí elenca aspectos essenciais que reduzem o ideal democrático; a cidadania,
nesses parâmetros, se dá pela organização em partidos políticos e se expressa pelas escolhas periódicas de
representantes, alternância no poder (mais propriamente verificada na alternância do chefe do executivo) e,
principalmente, atribuindo a solução dos problemas sociais a decisões técnicas, sem qualquer viés político.
Nesse sentido, a apatia política, fruto da despolitização, não pode ser encarada como uma deformidade do
sistema, que levaria à sua ruína, mas, pelo contrário, como peça essencial para a sua existência tal como
estruturado:

... defendem a democracia porque lhes parece um regime favorável à apatia política – a política seria
assunto dos representantes, que são políticos profissionais –, que, por seu turno, favorece a formação de
uma elite de técnicos competentes aos quais cabe a direção do Estado, evitando, dessa maneira, uma
participação política que traria à cena os “extremistas” e “radicais” da sociedade.[9].

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Nem se tente, portanto, atribuir a despolitização a nossos problemas educacionais, que não são
poucos, mas por isso não podem ser condenados. Se a educação formal fosse a resposta para a inércia
política das massas, esse mesmo efeito não seria verificado nos países do capitalismo central que apontam
os mais altos padrões educacionais.

A apatia política consolida o modelo liberal de Estado e de democracia, cristalizando como ideal a
ser alcançado apenas o consumo. Participar politicamente das decisões que afetam a todos passa a ser
encarado como desnecessária perda de tempo. A ilusão da inevitabilidade das coisas é praticamente
inconteste entre as maiorias na contemporaneidade. O império da reificação e conseqüente alienação do
homem tornam a apatia desejável, agradável para as massas e conveniente aos representantes e partidos
políticos, como bem aponta Bobbio:

... a apatia política não é de forma alguma um sintoma de crise de um sistema democrático, mas como
habitualmente se observa, um sinal de sua perfeita saúde: basta interpretar a apatia política não como
recusa ao sistema, mas como benévola indiferença. Além do mais, para partidos que vivem e
prosperam num sistema político caracterizado por grande abstenção, como por exemplo os partidos
norte-americanos, pouco importa que as pessoas deixem de votar. Ao contrário: menos gente vota,
menos pressões recebem.[10].

Curioso que, contando com essa apatia, os imperativos do liberalismo econômico avançam
exatamente sob o Estado de Direito, reflexo do liberalismo político, na medida em que seu desenvolvimento
depende da redução dos direitos e garantias individuais e coletivas. Do antagonismo entre os liberalismos
político e econômico vislumbra-se a ruína do Estado e da democracia liberais, posto tornarem-se
antagônicos. Na proporção que tomou, o liberalismo econômico tornou-se o não ser liberalismo político. A
ilusão da perfeição identificada como eficiência, do liberismo, nos mostra como de fato é insustentável a
leveza do ser democrático liberal.

Desafio a ordem democrática que parece consistir do núcleo central de seus valores e dos óbices
que se apresentam a sua plena efetivação, e que decorrem do ceticismo difundido pelas estruturas
representativo-burocráticas do Estado Capitalista sobre a possibilidade de viabilização dos fundamentos
autônomos do poder na contemporaneidade.

3 Modernidade periférica e democracia “subdesenvolvida” no Brasil

As características centrais que assinalam a transição para modernidade política, empreendida
especialmente pelas sociedades européias no século XVIII e XIX, assim como pelos EUA um pouco depois,
ao contrário do mencionado por alguns teóricos, não foram “transplantados” para todos os povos do mundo.
O desenvolvimento pronunciadamente assimétrico dos Estados nacionais, resultado das distintas inserções
destes no capitalismo internacional, assim como, a maior ou menor integração interna de suas classes ao
processo de construção institucional e econômica, definiram o grau de autonomia da política e do direito na
conformação da cidadania e do avanço em direção aos valores democráticos. Países como o Brasil que a
despeito da proclamação da independência nacional, mantiveram-se relativamente presos ao estatuto
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colonial de dependência externa, terminaram por sofrer sérios constrangimentos na dinamização de um
mercado interno viabilizador de um consumo de massas, e no azeitamento das bases de um sistema jurídico
sociologicamente compatível com os fundamentos clássicos do Estado de Direito[11].

Dependência externa que encontra suas raízes originárias na época da colônia, sendo preservada
sob novas vestes ao longo de nossa evolução histórica de subordinação a divisão internacional do trabalho
imposta pelo capitalismo. Subordinações aos ditames das necessidades e exigências econômicas exteriores
as demandas da população que aqui vivia que foi flagrado por Caio Prado Júnior em seu Formação do
Brasil Contemporâneo quando trata do sentido da colonização brasileira, mencionando que:

Aquele “sentido” é o de uma colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros
tropicais ou minerais de grande importância: o açúcar, o algodão, o ouro....Vê-los-emos todos, com
pormenores mais adiante. A nossa economia se subordina inteiramente a este fim, isto é, se organizará
e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. Tudo mais que nela existe, e que é aliás de
pouca monta, será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele
fimessencial[12].

Principalmente após a configuração imperialista do capitalismo no século XX, baseada em uma
divisão internacional do trabalho mais rígida e hierárquica, onde os Estados Capitalistas Periféricos se
cingiam à mera produção de produtos complementares às economias dos países centrais, constrangendo
ainda mais os espaços políticos, culturais e jurídicos para a afirmação de uma identidade nacional própria.
Particularmente no que se refere a constituição de um Estado calcado em um dinamismo político e social
manifestadamente autônomo/soberano do ponto de vista nacional em face da ordem internacional, e
democrático sob o ângulo da resolução dos litígios de interesse inerentes a uma sociedade repartida entre
classes opostas, pois, infelizmente, o que vemos em relação ao Estado brasileiro é o contrário, conforme
enfatiza Florestan Fernandes:

De acordo com a descrição apresentada, a versão final dessa forma de Estado, a que se está
constituindo e consolidando com a irradiação do capitalismo monopolista pelas áreas da periferia do
mundo capitalista que comportam semelhante desenvolvimento, é a de um Estado nacional sincrético.
Sob certos aspectos, ele lembra o modelo ideal nuclear, como se fosse um Estado representativo,
democrático e pluralista; sob outros aspectos , ele constitui a expressão acabada de uma oligarquia
perfeita, que se objetiva tanto em termos paternalistas-tradicionais quanto em termos autoritários e
modernos; por fim, vários aspectos traem a existência de formas de coação, de repressão e de opressão
ou de institucionalização da violência e do terror, que são indisfarçavelmente fascistas[13].

O que confere à construção do Estado-Nação brasileiro uma debilidade ingênita, particularmente
no que se refere à dificuldade na articulação de um processo de instauração de um dinamismo social calcado
na supremacia da vontade popular, bem como na estruturação de procedimentos decisórios institucionais
abertos, dialógicos que valorizem a representação política, os conflitos e o poder legislativo como expressão
mais lídima no âmbito do Estado da razão democrática. Pois aqui, como dizia Werneck Vianna:
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(...) o Estado-nação, inspirado no liberalismo, nascia sem uma economia que se apresentasse em
homologia ele. Se, na sociedade civil, o liberalismo atuava como “fermento revolucionário”, induzindo
rupturas moleculares na ordem senhorial-escravocrata, ele não poderia se comportar como princípio de
sua organização, sem acarretar com isso o desmonte da estrutura econômica, fundada no trabalho
escravo e no exclusivo agrário e que assegurava ao Estado uma forma de inscrição no mercado
mundial e presença internacional. Ademais, o patriciado rural se comportava como um coadjuvante
insubstituível, da perspectiva das elites políticas, para o controle de variáveis-chave como território e
população. O liberalismo devia consistir em uma teoria confinada nas elites políticas, que saberiam
administrá-lo como conta-gotas, sob o registro de um tempo de longa duração, a uma sociedade que
ainda não estaria preparada para ele, sob pena da balcanização do território, a exposição ao
caudilhismo e a barbárie.[14]

Daí o sentido profundamente heteronômico dos fluxos decisórios nos Estados Dependentes, pois
apesar de serem dotados de uma relativa autonomia política, com ordenamentos jurídicos e políticos
próprios, entretanto, padecem de constrangimentos irrefutáveis no exercício do poder político. Tanto no que
refere a possibilidade de encetar iniciativas autócnes de desenvolvimento, lastreado em nossas próprias
possibilidades econômicas, quanto no que atine aos limites quase intangíveis de nossas estruturas
democráticas, geralmente vistas pelo Grande Capital como antifuncionais a estabilização da lógica do
mercado. Dado que nossa profunda dependência estrutural às determinações do capital mundializado,
sempre nos legaram uma condição de evidente subalternidade política, econômica e cultural, em que pese às
intensas resistências a este processo manifestadas por setores populares. Até porque como capta
magnificamente Atílio Bóron:

A democracia não convive pacificamente com os extremos: a generalização da extrema pobreza e sua
contrapartida, o fortalecimento da plutocracia, são incompatíveis com seu efetivo funcionamento,
Quando os pobres se transformam em indigentes e os ricos em magnatas, sucumbem à liberdade e a
democracia. A primeira não pode sobreviver ali onde uns estejam dispostos a vendê-la ”por um prato
de lentilhas” e outros disponham de riqueza suficiente para comprá-la a seu bel-prazer; a segunda se
converte em um rito farsesco privado de todo conteúdo, abrindo caminho à reconciliação entre
economia, sociedade e política pela via da restauração plebiscitária da ditadura.[15]

Análise do processo de modernização periférica que define concretamente os termos de nosso
desenvolvimento “subdesenvolvido” da democracia, decorrente da não-realização dos pressupostos
materiais de uma ordem econômica competitiva, dinâmica e de uma sociedade civil articulada, fincada no
ímpeto de uma burguesia empreendedora. Portanto, o Estado Nacional no Brasil, se conforma mais da
predominância dos influxos externos, emanados dos centros do capitalismo internacional do que as
necessidades internas de uma burguesia nativa compromissada com um projeto nacional. A bem da verdade,
as classes dominantes nativas reproduziam-se através do Estado, e não por meio dos processos de
competividade articulados no mercado, o que conferia ao capitalismo brasileiro uma dimensão estamental,
cartorial. Pois como bem menciona Florestan Fernandes[16]:

A influência modernizadora externa se ampliara e se aprofundara; mas ela morria dentro das fronteiras
da difusão de valores, técnicas e instituições instrumentais para a criação de uma economia capitalista
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competitiva satélite. Ir além representaria um risco: o de acordar o homem nativo para sonhos de
independência e de revolução nacional, que entrariamemchoque coma dominação externa. O impulso
modernizador, que vinha de fora e era inegavelmente considerável, anulava-se, assim, antes de tornar-
se um fermento verdadeiramente revolucionário, capaz de converter a modernização econômica na
base de um salto histórico de maior vulto. A convergência de interesses burgueses internos e externos
fazia da dominação burguesa uma fonte de estabilidade econômica e política, sendo esta vista como
um componente essencial para o tipo de crescimento econômico, que ambos pretendiam , e para o
estilo de vida política posto em prática pelas elites ( e que servia de suporte ao padrão vigente de
estabilidade econômica e política). Portanto, a dominação burguesa se associava a procedimentos
autocráticos, herdados do passado ou improvisados no presente, e era quase neutra para formação e
difusão de procedimentos democráticos alternativos, que deveriam ser instituídos (na verdade, eles
tinhamexistência legal ou formal, mas eramsocialmente inoperantes).

O que revela a dualidade estrutural da nossa sociabilidade, onde o código formal do direito, da
Constituição e do Estado de Direito não eram miscíveis à contingência que delimitava os conflitos entre a
burguesia e a maior parte da sociedade civil no Brasil. Burguesia esta, que através da construção nacional do
Estado preferiu afirmar-se politicamente como sócia-menor do Capital internacional, do que alavancar
processos dinâmicos do ponto de vista econômico que expandisse a autonomia da sociedade civil e as
possibilidades da edificação de um mercado consumidor interno.

Neste sentido, precisamos abordar não somente as determinações externas que nos reservavam as
condições de meros exportadores de matérias-primas, mas também o papel “ativo” das decisões políticas e
das estruturas que se lhe correspondiam para a moldagem de nosso precário Estado de Direito e/ou Estado
Democrático. No máximo a idéia de Constituição foi utilizada como ícone de legitimação retórica do poder
constituído como enfoca Marcelo Neves[17] ao constatar, em nosso país, a inexistência dos pressupostos
políticos e jurídicos da formação de uma sociedade moderna, calcado na “autopoéisis” dos diferentes
sistemas normativos de regulação da vida social moderna. Afinal compreendemos que a economia e o
direito não devem ser vistos como estruturas normativas auto-referentes como sustentam pensadores
mecanicistas, adeptos de concepções estruturalistas da realidade, mas sim, como resultado de opções
políticas e ideológicas determinadas por uma sociedade, tomadas em certa situação e em uma dada
correlação de forças entre as classes. Como sintetiza Francisco de Oliveira[18]:

Ao enfatizar o aspecto da dependência – a conhecida relação centro-periferia – os teóricos do “modo
de produção subdesenvolvido” quase deixaram de tratar os aspectos internos das estruturas de
dominação que conformaram as estruturas de acumulação próprias de países como o Brasil: toda a
questão do desenvolvimento foi visto pelo ângulo das relações externas, e o problema transformou-se
assim em uma oposição entre nações, passando despercebido o fato de que, antes de oposição entre
nações, o desenvolvimento ou o crescimento é um problema que diz respeito à oposição entre classes
sociais internas. O conjunto da teorização sobre o “modo de produção subdesenvolvido” continua a
não responder quemtema predominância: se são as leis internas de ligação que geramo todo ou se são
as leis de ligação como resto do sistema que comandama estrutura de relações.

A combinação das relações econômicas avançadas em alguns nichos do processo produtivo com a
preservação de formas de dominação político-jurídico arcaicos, reprodutores de vínculos extremos de
subordinação/alienação entre os homens, agudiza as contradições sociais no interior do Estado e dificulta
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consideravelmente a formação da cidadania. E no Brasil encontra entraves ainda mais profundos devido às
enormes resistências impostas pelos estamentos dirigentes a um efetivo processo de extirpação dos
fundamentos anti-igualitários e anti-republicanos de nossa formação econômica, política e institucional
remanescente dos elementos escravistas e senhoriais inscritos em nossa mentalidade cultural. O que é
perfeitamente sintetizado por Florestan Fernandes quando menciona que:

Aqui, pois, é evidente que o consenso burguês concilia a ”tradição brasileira”, de democracia restrita
– a democracia entre iguais. Isto é, entre os poderosos, que dominam a representam a sociedade civil –
com a “orientação modernizadora”, de Governo forte. A ordem legal e política se mantém “aberta”,
“democrática” e “universal”, preservando os valores que consagram o Estado de Direito; e este Estado
se concretiza, historicamente, por sua vez, na medida em que tudo isso é necessário à monopolização
do poder real, da autoridade e do controle das fontes de legitimidade pelas classes burguesas e suas
elites. No entanto, a validade formal ou positiva e a fruição ou participação da ordem legal e política
são coisas distintas: a eficácia dos direitos civis e das garantias políticas se regula, na prática, através
de critérios extrajudiciários e extrapolíticos[19].

Arcaísmo institucional e ausência de parâmetros jurídicos modernos do Estado brasileiro periférico
que se projeta na exteriorização de formas políticas marcadas pela tibieza dos procedimentos legitimatórios
do poder do Estado, predominantemente ancoradas no recurso à coerção contra as classes trabalhadoras e
não pela instituição do consenso ativo. Natureza alienada do Estado perante à sociedade civil que permanece
inabalável, mesmo após a proclamação da República em virtude do declínio econômico das oligarquias da
cana-de-açúcar e da ascensão de um regime de trabalho assentado sobre o emigrante, mas incapaz de
instaurar uma efetiva assimilação das maiorias aos processos estatais decisórios. Pois como bem menciona
Marilena Chauí:

(.....) O Estado, tenderá por isso a ser percebido com a mesma exterioridade e anterioridade que os
outros dois, percepção que, aliás, não e descabida quando se leva em conta que essa imagem do
Estado foi construída no período colonial e que a colônia teve sua existência legal determinada por
ordenações do estado metropolitano, exterior e anterior a ela. É surpreendente, porém, que essa
imagemdo Estado se tenha conservado mesmo depois de proclamada a República. [20]

Mencionando, um pouco mais à frente, que: “Em outras palavras, seria de esperar que, com a
república, a interioridade do estado à nação se tornasse evidente, pois teria sido a nação o sujeito que
proclamou a república e instituiu o Estado brasileiro. Paradoxalmente, porém, a imagem do lugar do Estado
não se alterou”[21]. Expressão sintética da nação pelo Estado que se objetiva como uma construção
doutrinária européia, a partir da gradativa homogeneização étnica, lingüística, política e jurídica das
comunidades, que nunca encontrou plena concreção no Brasil. Afinal em nosso país a ordem normativa não
se constituiu com fulcro em uma hegemonia ideológica ativa da burguesia sobre o conjunto das classes
dominadas positivadas na lei, na Constituição e na crença nos valores de um Estado de Direito e de uma
democracia representativa. Como menciona Florestan Fernandes ao referir-se à dominação exercida pela
burguesia brasileira sobre as maiorias:

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As representações ideais da burguesia valiam para ela própria e definiam um modo de ser que se
esgotava dentro de um circuito fechado. Mais do que uma compensação e que uma consciência falsa,
eram um adorno, um objeto de ostentação, um símbolo de modernidade de civilização. Quando outros
grupos se puseram em condições de cobrar essa identificação simbólica, ela se desvaneceu. A
burguesia mostrou as verdadeiras entranhas, reagindo de maneira predominantemente reacionária e
ultraconservadora, dentro da melhor tradição do mandonismo oligárquico.[22]

Somente com a superação do estrutural dualismo político, jurídico e institucional do Estado
brasileiro, - que se opõe ao processo de modernização e secularização do Estado Nacional Capitalista
percorrido em sua via clássica -, é que poderemos configurar, de fato, uma democracia no Brasil, acabando
com a polarização arcaica e socialmente perversa, entre classes sociais sobreintegradas à ordem política,
cultural e econômica, e classes sociais subintegradas, à margem do acesso aos requisitos mínimos da
Cidadania, mesmo sob a ótica daquela ordem jurídico-política minimalista em relação a direitos
propugnados pelo Estado Liberal de Direito.

4 O povo brasileiro e a participação política na história do Brasil

Cunhada por Ribeiro Couto, mas imortalizada por Sérgio Buarque de Holanda, que a pretendia
como “a contribuição brasileira à civilização”, a expressão do brasileiro como “homem cordial” até hoje é
empregada para estimular a inação das maiorias. O sentido pejorativo em que é tomada, como sinônimo de
passividade, de não reação, de acomodação, de apatia assume ares pitorescos que reduzem o brasileiro à
personificação da parvoíce.
Essa cordialidade deturpada praticamente coroou a indolência com que sobejamente se retratou
nosso ascendente indígena. A lógica utilirista do lusitano, então a maior expressão da expansão
mercantilista colonizadora, estabeleceu o paradigma axiológico que enquadraria os indivíduos aqui
encontrados, como muito bem flagrado por minudente estudo de Darcy Ribeiro:

Aos olhos dos recém-chegados, aquela indiada louçã, de encher os olhos só pelo prazer de vê-los, aos
homens e às mulheres, com seus corpos em flor, tinha um defeito capital: eram vadios, vivendo uma
vida inútil e sem prestança. Que é que produziam? Nada. Que amealhavam? Nada. Viviam suas fúteis
vidas fartas, como se neste mundo só lhes coubesse viver.[23].

A contrapor esse artefato ideológico de inação, é importante destacar que, ao contrário do
propalado, a história brasileira contou sim com sangue, tumultos, sublevações. O próprio matiz indígena
reverberava rubro, como destacado ainda por Darcy Ribeiro, na medida em que uma tribo tupi “vivia em
guerra permanente contra as demais tribos alojadas em sua área de expansão e, até mesmo, contra seus
vizinhos da mesma matriz cultural”[24]. Desde as primeiras manifestações, pontuais e minúsculas, contra
aspectos do sistema colonial, sem qualquer pretensão de ruptura, como a revolta de Beckman (Maranhão,
1684), a guerra dos emboabas (Minas Gerais, 1709-1710), guerra dos mascates (Pernambuco, 1709-1710),
revolta de Vila Rica (Minas Gerais, 1720) até as revoltas propriamente anticoloniais como a conjuração
baiana (1798) demonstravam a condição latente da revolução no seio da embrionária burguesia colonial.

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O que tenderia a um processo de ruptura revolucionário com a metrópole, contudo, foi bruscamente
interrompido com o fato singular da chegada da família real portuguesa (1808) e toda a estrutura de Estado à
plaga tropical, representando, no dizer de Luiz Werneck Vianna, a “decapitação política do nativismo
revolucionário”[25] que cederia, daí em diante, à “lógica do conservar-mudando”[26]. Em toda a história da
humanidade, o Estado nasce e se estrutura como resultado dos embates de força entre indivíduos. No Brasil,
caso único que se tem notícia, o Estado, pronto e acabado, chegou antes do povo que a ele precisou se
adequar.

A partir deste marco, as grandes rupturas brasileiras não só não contaram com a participação
popular, como se deram mesmo com seu desconhecimento. A Independência e a República podem ser os
exemplos mais marcantes disso.

Movimentações separatistas republicanas como a Revolução Pernambucana de 1817 e notadamente
a Confederação do Equador de 1824 (unindo Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco), até o
final do 1º Reinado, são exemplos de tentativas que contaram com a participação popular.

O período regencial foi marcado por profundas e violentas agitações, como a Farroupilha (1835-
1845) no sudeste do país, a Sabinada (1837-1838) na Bahia, a Balaiada (1838-1841) no Maranhão e a
Cabanagem (1834-1840) na região norte. À exceção da primeira, que atendia interesses exclusivos das
classes dominantes gaúchas, todas as demais brotaram da insatisfação das maiorias mais humildes. A
Cabanagem pode mesmo ser apontada como a mais importante revolta do período imperial pelas proporções
que tomou, a partir de reivindicações sociais, resultando na tomada do poder e proclamação da república
pela população mais miserável da região, executando membros do governo e dois chefes do executivo.

A Revolução Praieira (1847-1848), no 2º Reinado, ocorrida em Pernambuco, contou apenas com a
figuração das classes mais humildes, posto refletir a luta dos senhores de engenho por maior autonomia
política local. Por óbvio, seus líderes não foram executados e tiveram suas penas anistiadas, inaugurando-se
uma fase conciliatória da política imperial.

Somente décadas depois, já na 1ª República, explode a guerra civil federalista no Rio Grande do
Sul (1893-1895). A despeito de contar com um viés nitidamente político, alimentada ideologicamente pelo
positivismo comteano, não vislumbrava um governo das maiorias, mas apenas em seu nome. Foi uma
revolução de estancieiros iniciada como uma reação ao golpe de Estado de Deodoro da Fonseca, mas
desencadeou tamanho ódio no âmago da elite gaúcha que ao final do conflito contabilizava-se mais de doze
mil mortos.

A industrialização da década de 1910 contou com uma forte imigração de estrangeiros aos maiores
centro urbanos do país foi fundamental para a organização do movimento operário brasileiro, que já em
1917 e 1919 realizaram greves emblemáticas ao paralisar mais de cinqüenta mil trabalhadores somente na
cidade de São Paulo. Os movimentos sociais no campo, por sua vez, tiveram em Canudos (1893-1897), na
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Bahia, e Contestado (1912-1916), nos estados de Paraná e Santa Catarina, suas maiores expressões. No caso
do primeiro, pela concentração de aproximadamente trinta mil pessoas em uma comunidade campesina ter
sido exterminada por representar ameaça a ordem político-econômica estabelecida. No segundo caso, a
subversão religiosa que libertava os camponeses da influência da igreja e dos chefes locais foi suficiente
para que o governo federal deslocasse um exército com mais de sete mil soldados e armamento pesado,
incluindo a utilização de aviões de bombardeio para dizimar qualquer foco de resistência.

Todos esses episódios ilustram nosso passado de sangue e tentativas de reação à ordem imposta.
Curioso, no entanto, que os movimentos protagonizados pela participação popular não lograram suas metas.
As revoluções nacionais, caracterizadas por rupturas, como as proclamações da Independência e da
República, repita-se, foram praticamente ignoradas pelas maiorias. O elemento revolucionário burguês foi
cooptado pelo patrimonialismo e as reivindicações sociais que poderiam motivar rupturas a partir das
maiorias foram sufocadas ou mesmo cedidas pela classe dominante. Exatamente por isso Luiz Verneck
Vianna assevera que “o Brasil, mais que qualquer outro país da América Ibérica, esta vasta região do
continente americano que chega à modernização em compromisso com o seu passado, pode ser
caracterizado como o lugar por excelência da revolução passiva.”[27].

Também chama a atenção que não se possa elencar entre as manifestações acima, qualquer uma
que tivesse um viés nacional. Em verdade, todas elas eram dominadas pela visão apequenada dos próprios
lugarejos. É nesse sentido a lição de Oliveira Vianna, para o qual:
Um recuo ao passado, uma excursão retrospectiva pelos séculos da nossa história nos mostrará –
independentemente de qualquer análise sociológica ou culturológica – que o sentimento da
“comunidade Nação”, o “complexo democrático do Estado nacional”, não se formou em nosso povo-
massa, nemse poderia formar.[28].

Isso nos remete mais uma vez à chegada da Família Real no Brasil e com ela a estrutura
burocrático-administrativa de Estado lusitana. Se o conceito de nação, produto da modernidade, foi forjado
como instrumento ideológico de aglutinação de indivíduos para a formação de um Estado, aqui não haveria
semelhante necessidade porque o Estado apresentou-se consolidado. Nem mesmo conflitos pela defesa do
próprio território tivemos; o mais próximo disso que chegamos foi a Guerra do Paraguai (1864-1870), maior
conflito internacional armado da América do Sul. Evitemos o mérito da justiça desse embate para apenas
verificar como, em momento raro, pode-se falar em união, pode-se sentir o germe de uma nação.

A ausência desse elemento de ligação nos subtrai uma verdadeira identidade. Qual a imagem
poderia ser atrelada ao Brasil como elemento identificador de seu povo? A imagem vendida ao exterior
praticamente reduz o Brasil ao Rio de Janeiro, que o diga o samba e a bossa nova, os morros do Rio de
Janeiro e o futebol carioca que encontra numa agremiação futebolística como a do Flamengo a maior torcida
do país e a mais conhecida internacionalmente. Além desses traços, o que caracterizaria o povo brasileiro?
Qual ideologia política o individualiza? Oliveira Vianna bem destaca que nesse aspecto

não tem nosso povo – considerado na sua expressão de povo-massa – a consciência clara de nenhum
objetivo nacional a realizar ou a defender, de nenhuma grande tradição a manter, de nenhum ideal
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coletivo, de que o Estado seja o órgão necessário à sua realização. Essa inexistência de uma mística que
‘trabalhe’ o espírito do nosso povo-massa e de que o Estado seja um instrumento essencial de
realização é que faz com que a vida da política e dos partidos no Brasil não tenha nenhum sentido
nacional – e seja apenas o reflexo e expressão dos interesses dos localismos, dos provincialismos, dos
partidarismos regionais.[29]

Veremos adiante como, não podendo contar com o elemento revolucionário burguês num país de
capitalismo marginal, somente as pressões das massas, em sua maioria por reivindicações sociais poderão
garantir o alcance da democracia substancial em nosso país. A necessidade forja revolucionários e a
classificação do Brasil como um dos países de maior concentração de renda do planeta aponta para a
realidade desigual a ser combatida.

Luiz Verneck Vianna destacou que “a nação que vem emergindo do processo de conquista de
direitos e da cidadania por parte das grandes maiorias ainda não concebeu seu Estado.”[30], mas no
amadurecer desses desafios está a esperança não só de que nasce uma nação brasileira unida e identificada,
mas que trabalha revertendo o influxo de sua relação com o Estado para que este a ela se submeta e segunda
ela se conforme.

5 Conclusão

A verificação da insuficiência da democracia liberal, mesmo que pela pálida noção do que não deve
ser, é já um alento. Evidente que o reducionismo da democracia ao corpo de representantes eleitos não seria
suficiente para atender a explosão de demandas sociais, principalmente com o ataque promovido pelo
liberalismo econômico ao Estado de direito, como bem constatado por Marcello Baquero:

... não se pode ignorar que há um crescente questionamento das chamadas práticas democráticas
desencadeadas pelo aumento das demandas que não podem ser satisfeitas na dimensão técnico-
instrumental, levantando dúvidas quanto à capacidade da democracia em responder a tais pressões no
futuro e o impacto disto na estruturação de crenças sobre a democracia.[31].

A situação de miséria mais perceptível na periferia do capitalismo e as ondas de desemprego nos
países do capitalismo central são incontestavelmente fortes sinais de um sistema combalido. A descrença
nos meios institucionais para a solução dos problemas mais graves tem levado, individualmente, à fuga das
urnas e ao aumento desproporcional da demandas ao judiciário na busca por soluções técnicas e rápidas (não
significa que o trâmite processual seja célere, mas é visto como mais prático que o apelo à dimensão
política). Mesmo eventualmente atendidas pelo ativismo judicial, tais questões, por serem essencialmente
políticas, não encontrarão no Judiciário sua solução definitiva. As proporções tomadas pelas falências do
sistema denotam a necessidade de alterações radicais em seus alicerces rumo a uma materialização
democrática, na medida em que,

Num cenário onde aproximadamente 40% da população não consegue ter o mínimo necessário para
levar uma vida com dignidade, torna-se relevante refletir sobre a necessidade de ampliar o debate a
respeito da construção democrática alémdos procedimentos técnicos.[32].
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A iniciativa deste debate partiu naturalmente dos mais necessitados, dos explorados que subsistem
na miséria da periferia capitalista, unidos exatamente pela falta do mínimo à sua existência digna.
Perceberam que seus problemas eram enormes demais para serem combatidos individualmente e
aglutinaram-se em organizações na busca do que lhes falta. Na tentativa de suprir as lacunas do sistema, não
buscam o embate direto com as instituições estabelecidas, mas um aperfeiçoamento que os inclua no
compartilhamento do poder para a solução de seus problemas. Nada mais razoável. Afinal, como apontou
José Murilo de Carvalho,

Se há algo importante a fazer em termos de consolidação democrática, é reforçar a organização da
sociedade para dar embasamento social ao político, isto é, para democratizar o poder. A organização
da sociedade não precisa e não deve ser feita contra o Estado em si. Ela deve ser feita contra o Estado
clientelista, corporativo, colonizado.[33].

O combate, portanto, não propõe uma opção anarquista, com o fim do Estado, mas um combate aos
vícios nele espargidos pela hegemonia liberal. Inevitável, nesse sentido, uma ruptura com valores que
caracterizam o Estado e a democracia liberais, sem a qual não será possível qualquer avanço na resolução da
problemática social. Essa ruptura inicia-se na tomada ou ocupação dos centros de decisões.

Chamada de democracia participativa, essa movimentação nem mesmo busca o fim do sistema
representativo, apenas o fim de sua exclusividade. Não há a pretensão de uma democracia direta porque não
se questiona a necessidade de representantes. O que se pretende é a mitigação da atuação desses
intermediários, simultaneamente a sua existência, complementando-lhes a ação pela participação direta. O
melhor exemplo dessa possibilidade são as experiências de orçamento participativo de Porto Alegre, Belo
Horizonte e, mais recentemente, de Fortaleza.

A participação política das maiorias, afrontando a hegemonia liberal estabelecida, desperta
naturalmente uma resposta reacionária para a manutenção do sistema, mesmo a despeito de suas
deficiências. Nessa contraposição de interesses expõem-se a vulnerabilidade da participação, conforme
detectado por Santos e Avritzer, “Por combaterem interesses e concepções hegemônicos, esses processos
são muitas vezes combatidos frontalmente ou descaracterizados por via da cooptação ou da integração.
Nisto reside a vulnerabilidade e ambigüidade da participação”[34].

A partir do momento em que movimentos populares e/ou seu líderes são absorvidos pela estrutura
do Estado, institucionalizando-se, perdem seu poder de se contrapor ao sistema, limitando-se a legitimá-lo.
Como impedir que a semente de transformação seja destruída pelo aceno de reformas, quando
imprescindível a ruptura? O tempo é essencial para que essa questão se resolva a contento. Mesmo porque a
hegemonia liberal dispôs de séculos para se tornar o que é.

Evidente, portanto, que as alternativas à falência desse sistema carecem de maior maturação.
Contudo, assim como era comum na primeira década após a proclamação da República brasileira o
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comentário de que não era essa a República dos sonhos, é crescente o coral dos que afirmam não ser essa a
democracia dos sonhos das maiorias. O confronto com o controle hegemônico nos mostra que a maior
dificuldade não reside na tentativa de alterar os fatos, mas na de desmascarar a ideologia que perpetua a
impossibilidade de um Estado que não seja liberal, de uma democracia que não seja apenas representativa e
não-inclusiva.

REFERÊNCIAS

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[1] SCHWARTZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Editora 34/Livraria Duas Cidades, 2000, p. 106.
[2] HOLLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, 220 p.
[3] Sobre esse assunto, ver: SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno. Tradução de Renato Janine
Ribeiro e Laura Teixeira Mota. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, 724p.

[4] SADER, Emir. Para outras democracias. In: Democratizar de democracia: os caminhos da democracia participativa. SANTOS,
Boaventura de Sousa (org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 651.
[5] KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. 63ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985, 290 p.
[6]Ibid., p. 653-654.
[7] LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p 129.
[8] HOLANDA, op. cit., p.108.
[9] CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 12ª ed. São Paulo: Ática, 2001, p.430.
[10] BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. 7ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p.
82-83.

[11] Neste sentido, a concepção lógico-normativista de Kelsen do Direito, ao buscar construir um fundamento auto-referente para
este, deve ser compreendida como a realização plena dos pressupostos weberianos da modernidade burguesa decorrentes do
“Desencantamento do Mundo”, onde os conteúdos metafísicos, éticos e utópicos da pré-modernidade, cedem lugar ao espaço
reificado do mercado como espaço natural da sociabilidade.
[12] PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Editora Brasiliense, 2009, p.117.
[13] FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987, p.350.
[14] VIANNA, Luiz Werneck. Caminhos e Descaminhos da Revolução Passiva à Brasileira, In: AGGIO, Alberto (org.). Gramsci: A
Vitalidade de umPensamento. São Paulo: Unesp, 1998. p.187-188.
[15] BÓRON, Atílio. Estado e Capitalismo na América Latina. São Paulo: Paz e Terra, 1994, p. 13.
[16] Ibid., p. 206.
[17] Neves, Marcelo. A Constituição simbólica. São Paulo: Editora Acadêmica, 1994, 191 p.
[18] OLIVEIRA, Francisco. Crítica á razão dualista/Oornitorrinco. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, p.33.
[19] Ibid., p.347.
[20] CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2000,
p.42.
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* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010
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[21] Id., Ibid, p. 42-43.
[22] Ibid., p. 351.
[23] RIBEIRO, Darcy. Opovo brasileiro. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 45.
[24] Ibid., p. 34.
[25] Ibid., p.187.
[26] Ibid., p.186.
[27] Ibid., p. 186.
[28] VIANNA, Oliveira. Instituições políticas brasileiras. Vol.1. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1987, p. 284.
[29] Ibid., p. 286.
[30] Ibid., p. 201.
[31] BAQUERO, Marcello. Democracia, cultura e comportamento político: uma análise da situação brasileira. In: PERISSINOTTO,
Renato Monseff e FUKS, Mario. Democracia – Teoria e prática. 1ª ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002, p. 105-106.
[32] BAQUERO, op. cit., p. 117.
[33] CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 227.

[34] SANTOS, Boaventura de Sousa e AVRITZER, Leonardo. Para ampliar o cânone democrático. In: Democratizar de
democracia: os caminhos da democracia participativa. SANTOS, Boaventura de Sousa (org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2002, p 60.
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* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010
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FONTE: ALBUQUERQUE, Newton M.A.; QUEIRÓZ, Paulo R. C. Dominação de classe,
modernidade periférica e a construção da "Democracia subdesenvolvida" no Brasil.
Disponível em: <http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/fortaleza/3576.pdf>.
Acesso em: 3 setembro 2014.