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Práticas e Modelos de Auto-Avaliação das Bibliotecas Escolares

ANÁLISE CRÍTICA AO MODELO DE AUTO-AVALIAÇÃO


DAS BIBLIOTECAS ESCOLARES

♦ Pertinência da existência de um Modelo de Avaliação para


as bibliotecas

escolares

Num contexto global de mudança alicerçada nas novas


exigências da sociedade do século XXI, com o novo paradigma
tecnológico e educacional, estritamente relacionados com o
desenvolvimento de novas literacias, a biblioteca escolar enquanto
espaço de transversalidade dos saberes, agregador e centralizador
das aprendizagens não pode ficar à margem dessa evolução, tendo
necessariamente de se aliar, de ser parte integrante dessa mudança.
Assim sendo, torna-se imprescindível a implementação de um
sistema de auto-avaliação no âmbito da própria biblioteca escolar,
capaz de a ajudar a direccionar o seu percurso no sentido da melhoria
do seu desempenho, apresentando caminhos e traçando
possibilidades.

Por outro lado, enquanto contributo essencial para o sucesso


educativo, importa conhecer o impacto das suas actuações no
processo de ensino-aprendizagem, o grau de eficiência dos serviços
prestados e de satisfação dos utilizadores. Há que determinar até que
ponto a missão e os seus objectivos estão a ser alcançados,
identificar êxitos e fraquezas que importa melhorar.

Em última instância, a auto-avaliação enquanto princípio de boa


gestão e um instrumento indispensável ao desenvolvimento, permite
contribuir para a afirmação e reconhecimento do papel da biblioteca
escolar, apresentando um valor estratégico para a escola e sendo
indispensável à prossecução do Programa Rede de Bibliotecas
Escolares.

Daí a pertinência da existência de um modelo capaz de validar


os processos e as acções implementadas e de impulsionar os serviços
e a educação dos públicos para o papel da biblioteca escolar.

Cristina 6
Costa
Práticas e Modelos de Auto-Avaliação das Bibliotecas Escolares

♦ O Modelo enquanto instrumento pedagógico e de melhoria


de melhoria. Conceitos implicados.

Pretende-se que essa auto-avaliação funcione como um


processo regulador, com uma finalidade essencialmente formativa,
conducente à reflexão e a mudanças concretas na prática; importa
acima de tudo identificar pontos fortes que interessa manter e pontos
fracos que importa melhorar e sujeitar a uma reapreciação e reajuste.

Deverá contribuir para um novo plano de desenvolvimento,


orientando para o estabelecimento de objectivos e prioridades e
ajustado à dimensão que adquire face ao contexto da escola em que
se insere, centrando-se não somente na qualidade dos serviços
proporcionados, mas sobretudo incidindo sobre o impacto do trabalho
da biblioteca escolar “no funcionamento global da escola e nas
aprendizagens dos alunos”.

A sua tónica recai assim, não nos processos, mas nos resultados
alcançados a partir da sua implementação/aplicação.

Deve ser entendido como um instrumento “de melhoria de


melhoria”, no sentido de um aperfeiçoamento constante e adaptação
às necessidades sentidas pela escola. Contudo, citando Michael
Eisenberg, no âmbito do planeamento estratégico que considera
essencial para centrar o programa da biblioteca escolar naquilo que é
o desejado:“A rolling plan does not imply never reaching one’s goals”.

O modelo centra-se no conceito de “evidence-based practice”,


que se traduz no desenvolvimento de práticas sistemáticas de recolha
de evidências, associadas ao trabalho do dia-a-dia e em práticas de
pesquisa – acção (relação entre os processos e o impacto ou valor
que originam).

Preside à sua concepção a noção de que a avaliação deve ser


encarada como um processo de determinar valor e qualidade, sendo
que não basta por si só a biblioteca escolar estar bem apetrechada e
ser um local agradável, deve ter uma utilização adequada aos vários
domínios que caracterizam a sua missão, aferindo-se a eficácia mais
do que a eficiência dos serviços e produzindo resultados que
contribuam efectivamente para os objectivos da própria escola. É
esta a noção de valor apresentada, incidindo sobre as mais valias que
se podem adquirir com a sua utilização ao serviço da aprendizagem.

Cristina 6
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Pretende-se efectivamente um instrumento pedagógico capaz


de comprovar que a biblioteca escolar é uma parte vital da estrutura
de aprendizagem da escola que é integrante e não periférica.

♦ Organização estrutural e funcional. Adequação e


constrangimentos.

O modelo aponta para quatro áreas nucleares /domínios em que


deve incidir o trabalho da/com a biblioteca escolar, que caracterizam
a sua missão, logo considerados fundamentais. Cada um desses
domínios divide-se em subdomínios com vários indicadores; cada
indicador aponta para um conjunto diversificado de factores críticos
de sucesso correspondentes à optimização da biblioteca escolar em
cada subdomínio, sendo elementos facilitadores e orientadores para a
recolha de evidências e delineamento de estratégias, daí o seu valor
informativo e formativo, fornecendo pistas de orientação e
conduzindo a uma primeira análise crítica da realidade da biblioteca
escolar, à implementação de acções para a melhoria, à criação de
instrumentos de recolha de informação, a um plano de intervenção.
Servem de referencial para os vários momentos da análise.

A avaliação articula-se com os perfis de desempenho que se


traduzem numa escala de quatro níveis que correspondem aos
propósitos da auto-avaliação (expectativas da biblioteca escolar face
ao domínio avaliado). Esses descritores estão em articulação com
cada indicador e permitem ser elementos referenciadores, ajudando a
situar o desempenho da biblioteca escolar e a verificar os pontos
fracos – onde é necessário actuar para melhorar de nível.

Tratando-se de um modelo que assenta num quadro referencial


que aponta a definição de factores críticos de sucesso para as áreas e
que apresenta acções para a melhoria, que indica uma metodologia a
seguir revela-se logo à partida um instrumento orientador e
facilitador.

Por se centrar na prática baseada em evidências, a essa


orientação acresce uma perspectiva realista face à biblioteca escolar
e ao contexto da escola em que se insere, conferindo fiabilidade ao
processo.

Cristina 6
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Fornece igualmente instrumentos para recolha dos dados,


procurando garantir uma uniformidade de critérios.

Aponta para uma utilização flexível, facilmente integrável nas


práticas habituais da equipa da biblioteca escolar.

Permite o direccionar a acção da biblioteca escolar, apostar no


desenvolvimento de um domínio, concentrando esforços e
concorrendo no sentido de uma optimização dos resultados.

Contudo, alguns constrangimentos se antevêem sobretudo


ligados à definição demasiado ambiciosa de alguns dos factores
críticos, bem como aos níveis de colaboração e utilização dos serviços
apontados nos perfis de desempenho que se situam muito além da
realidade das bibliotecas escolares portuguesas.

Por outro lado, a aplicação por um período de quatro anos, um


ano para cada domínio afigura-se à partida insuficiente, pelo menos
nesta primeira fase da aplicação do modelo com todas as novidades e
exigências que se evidenciam.

O facto dos domínios não serem estanques pode revelar-se, à


partida, como uma mais valia ao nível da recolha da informação
podendo o mesmo instrumento servir vários fins, contudo, pode
também traduzir-se num constrangimento inicial relativamente ao
processo de integração e análise dos dados, exigindo grande
competência ao nível da construção dos instrumentos de avaliação
que deverão atender às especificidades apresentadas nos
subdomínios.

Um outro constrangimento é a falta de formação adequada para


poder corresponder à multiplicidade e complexidade de competências
actualmente requeridas ao professor bibliotecário e implícitas no
próprio modelo.

Finalmente, o maior constrangimento coloca-se ao nível da


distribuição da carga horária pelos elementos da equipa que se prevê
funcionar como um bom suporte a todas as funções do professor
bibliotecário porque a aplicação do modelo exige libertação das
tarefas de rotina e uma grande disponibilidade.

♦ Integração/Aplicação à realidade da escola.

Cristina 6
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Práticas e Modelos de Auto-Avaliação das Bibliotecas Escolares

A proposta de auto-regulação/avaliação da biblioteca escolar é


essencial para a valorização e reconhecimento da sua missão,
permitindo-lhe tornar-se no eixo central da aprendizagem.

Assim, como um caminho necessário a percorrer, o modelo


deve ter o reconhecimento e a apropriação por parte das escolas e
das equipas e ser entendido como um instrumento agregador,
devendo ser esta avaliação incorporada no processo de auto-
avaliação da escola e articular-se com os objectivos do Projecto
Educativo.

O excesso de burocratização/institucionalização, principais


entraves à aceitação da mudança, não se compadecem com as
melhores das intenções. De facto existe uma receptividade geral ,
aliada, porém, a alguma preocupação e ansiedade iniciais já que a
palavra mudança está conotada com adjectivos menos valorativos,
sobretudo ao nível do ensino, em que as mudanças são
constantemente mudadas, raramente chegando a produzir os efeitos
desejados e resultam numa sobrecarga de preocupações e tarefas,
desfocando, não raras vezes, o ponto de incidência de actuação dos
agentes educativos e dos professores. Contudo a mudança que aqui
se prevê vai em sentido contrário, os pressupostos inerentes à
criação deste modelo apontam no sentido de uma optimização de
recursos, numa convergência de esforços e de actuações para uma
melhoria do desempenho dos alunos e para uma formação adequada.

Pelos constrangimentos já apresentados e porque prevê uma


mudança de mentalidades, a criação de novas percepções, o
despoletar de novas dinâmicas, porque mexe com questões de fundo
afigura-se como um processo complexo e moroso, daí que deva ser
encarado com o bom senso e moderação necessários por forma a não
pressionar actuações e a não falsear os resultados que se pretendem
alcançar com a sua implementação.

♦ Competências do professor bibliotecário e estratégias


implicadas na sua aplicação.

Cristina 6
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Práticas e Modelos de Auto-Avaliação das Bibliotecas Escolares

O professor bibliotecário é o principal responsável pela aplicação


do modelo, pelo seu reajuste às necessidades da escola sendo o
mentor de todo o processo.

Para tal ao leque vastíssimo das competências inerentes ao papel


que desempenhara até então, outras novas e não menos exigentes se
lhe acrescentam.

Cabe-lhe sensibilizar para a necessidade de implementação do


processo avaliativo, enfatizando a missão da biblioteca escolar
enquanto centro das aprendizagens o que pressupõe um trabalho
in/formativo junto da comunidade escolar, pondo à prova os seus
dotes comunicativos.

Para garantir a centralidade da biblioteca escolar com os


objectivos educativos da escola, as suas capacidades de gestão e
visão estratégica terão de ser necessariamente alargadas, há que ter
a noção do todo “the big Picture”. Tem de mobilizar desenvolvendo a
sua capacidade de liderança, devendo ser gestor, promotor e
avaliador não apenas ao nível dos recursos, mas essencialmente de
serviços de aprendizagem, sendo, segundo Ross Todd, um professor
pelo papel central nos processos de aprendizagem dos alunos e em
relação aos resultados escolares e um profissional na prestação da
informação. Ao afirmar “The provision of information does not
necessarily mean that our learners become informed” vai mais além e
transmite a ideia de que não basta desenvolver um conjunto de
competências da literacia da informação, mas contribuir para a
formação de um ser capaz de interagir efectivamente com um mundo
rico e complexo de informações e capaz de desenvolver novas
compreensões, percepções e ideias (construir o seu conhecimento)
que é o objectivo do ensino e corresponde ao papel fundamental do
professor bibliotecário. Assim sendo, este deverá oferecer as
oportunidades para a auto-construção do conhecimento, contribuindo
para a formação de cidadãos independentes.

O grau de exigência com que se vê confrontado requer uma


elevada predisposição para uma aprendizagem constante e uma
indispensável e eficiente articulação com os restantes professores.

É, de facto, bastante arrojada esta missão já que o sucesso da


biblioteca escolar tem subjacente uma mudança de mentalidades e
uma alteração de práticas. O professor bibliotecário ao trazer a
mudança tem efectivamente de se revelar inovador e proactivo –
provavelmente será este o primeiro passo para o êxito.

Cristina 6
Costa
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Com efeito, a aplicação do modelo implica uma sensibilização


para a pertinência da avaliação que passa pela mobilização da
equipa, pela sua formação, pelo diálogo aberto e regular com a
direcção, os órgãos de gestão pedagógica da escola e os docentes,
seguido de um processo de formação/acção, de discussão, de criação
e difusão de informação sobre o processo e sobre o contributo de
cada um no processo, a calendarização e a divulgação dos resultados.
Tais resultados devem ser considerados na planificação e na gestão,
enquanto processo continuo direccionado para a melhoria que é.

A sua aplicação impõe indiscutivelmente, uma gestão


participada das mudanças, com vários níveis de participação da
escola revelando-se os níveis de colaboração entre o professor
bibliotecário e os restantes professores na identificação de recursos e
no desenvolvimento de actividades conjuntas orientadas para o
sucesso do aluno como sendo imprescindíveis.

O modelo pressupõe a integração da biblioteca escolar no


processo educativo e fundamenta-se nas crenças fundamentais do
Manifesto da Unesco de que a prestação de informação é
fundamental para o êxito na sociedade actual, para tal é necessária a
intervenção de um profissional e que os alunos atingem índices mais
elevados de literacia e competências em TIC quando existe
cooperação entre o professor bibliotecário e os restantes professores.

Integrar as competências da literacia da informação no currículo


e nos objectivos de aprendizagem da escola, contribuindo para uma
escola inclusiva e interactiva são metas prioritárias, segundo a
existência de estudos que provam o impacto sobre a aprendizagem
após o desenvolvimento sistemático e explícito dessas competências.

Michael Eisenberg sugere mesmo a criação e gestão de um


programa da biblioteca escolar capaz de mudar mentalidades assente
na premissa “students are effective users of ideas and information” e
conducente ao reconhecimento da sua importância fundamental no
incentivo à aprendizagem

Há que fazer sentir que o objectivo do professor bibliotecário é


o de todos os professores e caminhar no sentido de uma pedagogia
centrada na construção do conhecimento e na investigação da
aprendizagem, onde através do acesso a múltiplas fontes e formatos
de informação e tecnologia os alunos adquiram as capacidades, os
“andaimes intelectuais” para poderem construir o seu próprio
conhecimento. Há que mostrar o que os alunos podem fazer e ser e o

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impacto das iniciativas da biblioteca escolar nos resultados da


aprendizagem. Há que fazer a diferença, só assim a escola
compreende o seu contributo essencial para uma aprendizagem com
sucesso.

Cabe-nos a nós professores bibliotecários aceitar este desafio,


socorrendo-nos deste instrumento que mais do que um modelo de
auto-avaliação, apresenta-se indiscutivelmente, como um guia de
acção.

Bibliografia: Eisenberg, Michael & Miller, Danielle (2002) “This Man Wants to Change
Your Job”, School Library Journal, 9/1/2002
Todd, Ross (2002) “School librarian as teachers: learning outcomes and evidence-
based practice”. 68th IFLA Council and General Conference August

Cristina 6
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