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FOLHA 30-09-2014

HÉLIO SCHWARTSMAN

Falácias eleitorais

SÃO PAULO - Ao definir seu voto, a primeira pergunta que o eleitor tem de responder

é "estou disposto a mandar os atuais governantes para casa?". Se a resposta é afirmativa, surge a segunda questão: "a alternativa que se coloca é satisfatória?".

Até onde dá para inferir intenções, parte significativa da população flerta ou pelo menos flertou com um "sim" para a primeira pergunta. Em agosto Marina Silva abria dez pontos de diferença sobre Dilma Rousseff (50% a 40%) na simulação de segundo turno feita pelo Datafolha. De lá para cá, porém, Marina foi perdendo espaço e hoje aparece quatro pontos atrás de Dilma (43% a 47%).

A interpretação mais plausível é que os marqueteiros da presidente estão convencendo o

eleitor de que a resposta à segunda pergunta é "não". Fizeram-no explorando as reais contradições da candidatura de Marina e lhe acrescentado uma campanha negativa que

se vale de tantas falácias informais que renderia um livro sobre pensamento crítico.

Na peça do banco central, por exemplo, transformaram a ideia de Marina de dar independência formal à instituição numa versão exagerada e distorcida da proposta com

o objetivo de atacá-la mais facilmente. O nome disso é falácia do espantalho. No spot

que cita Neca Setubal, herdeira do banco Itaú, o artifício utilizado é a falácia da má companhia ou da culpa por associação, pela qual se tenta descaracterizar uma ideia ou pessoa --Marina--, ligando-a a grupos de má fama --os banqueiros.

São truques infantis, mas o fato de terem nome e constarem dos compêndios sobre argumentação crítica é um bom indício de que funcionam.

Isso significa que Marina já era? Talvez não. Num provável segundo turno, ela terá o mesmo tempo de TV que Dilma e então poderá tentar desmontar os ataques ou até lançar os seus contra a presidente. O fato de o eleitor ter passado a ver Marina mais criticamente não implica que tenha ficado satisfeito com o atual governo.

VLADIMIR SAFATLE

A piada que mata

"Então, gente, vamos ter coragem, somos maioria. Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los, não ter medo. Dizer que sou pai, mamãe, vovô. E o mais importante é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente. Bem longe, mesmo, porque aqui não dá."

Essas são frases de um candidato à Presidência da República quando indagado pela candidata do PSOL, Luciana Genro, em debate no domingo (28), sobre o que achava do Brasil liderar o número de mortes violentas contra homossexuais, travestis e transgêneros.

Bem, se ainda houver um resto de seriedade na política brasileira, o senhor que proferiu tal crime evidente de preconceito e incitação ao ódio será processado e sua candidatura cassada.

No entanto, para muitos, seu pedido de que homossexuais fiquem "bem longe" daqueles que se veem como "normais", seus chamados de enfrentamento, são apenas "derrapadas" de um candidato inexpressivo e caricato. A típica afirmação da qual é melhor rir de seu caráter patético do que realmente levar a sério.

Essa é, no entanto, a pior violência. Pois ela consiste em ignorar quão brutal é não se sentir no lugar dos que recebem as palavras mais brutais.

Melhor seria lembrar da lição dada por um professor norte-americano de filosofia, Arnold Farr, sobre o que significa realmente tolerância.

Ao ser indagado sobre como conseguia implicar seus alunos em lutas contra a discriminação, ele lembrava que nada melhor do que mostrar a eles como nós, eu, você, agimos inconscientemente para reforçar processos de exclusão. Somos agentes inconscientes e involuntários, mas nem por isto menos eficazes.

Farr contou então a história de sua relação com seu irmão homossexual.

Disse que, quando adolescente, gostava de levar suas namoradas para a casa dos pais a fim de orgulhosamente apresentá-las e ouvir depois elogios de todos.

Anos depois, em um certo dia, ele se deu conta de como seu irmão nunca pode fazer algo parecido e como ele, Arnold, nunca se importara com isso. Ele sequer sentia a tristeza de seu irmão por não poder ser reconhecido, por ter que conservar seu desejo invisível e em silêncio para seus próprios familiares.

Um dia, no entanto, ele foi capaz de sentir. Mesmo não sendo homossexual, ele pode por um momento sentir o que pode ser o sofrimento de um homossexual. Então, ele pegou o telefone e pediu-lhe desculpas. Esse telefonema foi o gesto político por excelência.

Se continuarmos a não sentir a violência que tais grupos sofrem, continuaremos a ouvir, do outro lado da linha, apenas piadas que matam.

Ministro do STF suspende ação do caso Rubens Paiva

Teori atendeu pedido dos 5 militares acusados pela morte do ex-deputado

Processo havia sido reaberto após Justiça Federal no Rio entender que crime não foi perdoado pela Anistia

SEVERINO MOTTADE BRASÍLIA

O ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki atendeu a um pedido dos cinco militares acusados de envolvimento na morte e desaparecimento do deputado Rubens

Paiva, em janeiro de 1971, e suspendeu a ação penal que tramitava contra eles na Justiça Federal no Rio.

Em sua decisão, Teori disse que o STF, em 2010, manteve válida a Lei da Anistia, e que, por isso, a abertura de ações penais relativas a fatos que ocorreram no período da ditadura (1964-1985) não são juridicamente viáveis.

O pedido dos militares para a suspensão da ação foi enviado ao STF no último dia 23.

Nela, além de dizer que a Lei da Anistia impede a abertura de processos criminais, a defesa também destacou que a eventual necessidade de depoimentos causaria "desgaste físico e emocional" nos militares, alguns, septuagenários e "com graves problemas de

saúde".

A defesa também argumentou que os militares se "veriam expostos a todo tipo de

especulação" de grupos políticos que acompanham processos relativos à ditadura, "muitos movidos por interesses inconfessáveis".

Com a decisão de Teori, os depoimentos dos militares, que estavam marcados para as próximas semanas, não irão mais acontecer. O despacho do ministro também determinou que o caso seja enviado para que o Ministério Público Federal se posicione sobre o assunto.

Após o parecer dos procuradores, o ministro poderá rever sua decisão ou levar o tema ao plenário do STF, que pode manter a suspensão do processo ou derrubá-la.

Recentemente, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se posicionou de forma favorável à revisão da Lei da Anistia. Para ele, crimes considerados contra a humanidade devem ser punidos, independentemente da lei que beneficiou quem cometeu delitos na ditadura.

Por isso, espera-se que Janot envie parecer ao STF defendendo continuidade da ação contra os militares.

A DENÚNCIA

A ação penal para apurar o desaparecimento de Paiva havia sido reaberta no dia 10.

Em decisão inédita, a Justiça Federal no Rio entendeu que os delitos praticados por militares durante a ditadura deveriam ser considerados crimes contra a humanidade. Ou seja, não poderiam ser perdoados pela Anistia.

Segundo a denúncia que levou à reabertura do caso, o general José Antônio Nogueira Belham, comandante do DOI na época, e o ex-integrante do Centro de Informações do Exército, Rubens Paim Sampaio foram acusados de homicídio triplamente qualificado.

A

pena poderia chegar a 37 anos e meio.

O

coronel reformado Raymundo Ronaldo Campos e os militares Jurandy e Jaci

Ochsendorf são acusados de ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa armada. As penas para os crimes, se somadas, podem chegar a dez anos de

prisão.

A Procuradoria pede ainda que os militares deixem de receber aposentadoria e que os

órgãos militares retirem suas medalhas e condecorações.

CLÓVIS ROSSI

O medo vencerá a mudança?

No Brasil e no Uruguai, parte do eleitorado oscila entre querer mudar o jogo e temer que seja para pior

Dois dos três países sul-americanos em que haverá eleições em outubro, Brasil e Uruguai, vivem a paradoxal situação de que uma fatia importante do eleitorado emite sinais de que quer uma mudança mas, ao mesmo tempo, tem medo de que ela de fato venha e não seja boa.

No terceiro país, a Bolívia, a combinação de excelente desempenho econômico, programas sociais bem sucedidos e empoderamento das maiorias (os chamados "povos originais") dá a Evo Morales a certeza da vitória.

No Brasil, o desejo de mudança aparece em todas as pesquisas feitas desde as manifestações de junho de 2013, elas próprias uma contundente demonstração de insatisfação.

Mas a gangorra em que se transformou a cotação de Marina Silva nas pesquisas parece indicar o medo de dar o salto para uma "nova política", mal definida e não testada em funções executivas.

No início, a ex-senadora parecia ser a encarnação do espírito de mudança gritado nas ruas. Mas a agressiva propaganda da campanha de Dilma Rousseff embaçou essa imagem e fez Marina recuar ao ponto em que estava antes de ser candidata a presidente.

De todo modo, ainda há, até agora, uma maioria que vota contra o governo no primeiro turno, se somados todos os candidatos oposicionistas.

No Uruguai, repete-se, guardadas as diferenças inevitáveis, o cenário brasileiro: a Frente Ampla e seu candidato, Tabaré Vázquez, pareciam destinados a ganhar sem grandes sustos, tal como ocorria com Dilma antes da irrupção de Marina.

Favoritismo mais facilmente explicável que o de Dilma: o Uruguai do presidente "Pepe" Mujica cresceu 4,3% em 2013, o desemprego é de apenas 5,7% e a Frente Ampla, em dois sucessivos governos, reduziu a pobreza de 34,4% a 11,5% da população.

De repente, no entanto, começou a crescer uma alternativa que se apresenta como

"mudancista", embora seja de um partido tradicional (o Nacional ou "blanco"). Chama-

se Luis Lacalle Pou e tem apenas 41 anos, contra os 74 de Tabaré, o que está se revelando um ativo eleitoral.

É verdade que a Frente Ampla ainda lidera com certa folga no primeiro turno, mas, se

não ganhar nele, pode perder na segunda votação para uma aliança entre "blancos" e

"colorados", as duas agrupações que dividiram o poder até o crescimento da Frente Ampla.

Na média de cinco pesquisas, os oposicionistas têm 45,5% das intenções de voto contra 41,5% da Frente Ampla.

Somem-se o rápido desgaste de Michelle Bachelet no Chile e as colossais dificuldades do chavismo na Venezuela e do kirchnerismo na Argentina, e parece em vias de esgotamento um modelo que funcionou bem do ponto de vista social mas, ao mesmo tempo, criou expectativas e, por extensão, demandas que já não consegue atender.

Demandas principalmente por serviços públicos de qualidade minimamente aceitável.

É sintomático que, no Brasil, a disputa esteja mais acirrada na fatia da classe média que deixou o inferno da pobreza, mas não atingiu o paraíso da classe média.

Teme voltar atrás e não consegue se decidir qual das candidatas pode protegê-la melhor.

Invasor da Casa Branca entrou em vários cômodos

Homem que entrou na residência oficial de Obama no dia 19 chegou a se desvencilhar de agente, diz jornal

Omar J. Gonzalez, 42, subiu escadaria que leva aos aposentos da família presidencial e entrou no East Room

DE SÃO PAULO

Omar J. Gonzalez, texano de 42 anos que conseguiu escalar a cerca da Casa Branca e atravessar a porta principal do local na noite de 19 de setembro, foi capaz de invadir mais profundamente a residência oficial do presidente dos EUA do que previamente anunciado, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (29) pelo jornal "Washington Post".

Ele chegou a se desvencilhar de um oficial do Serviço Secreto e correu por boa parte do andar principal, diz o jornal, que cita como fontes três pessoas com informações sobre o incidente.

Sob condição de anonimato, um oficial do Serviço Secreto afirmou ao jornal que o alarme instalado na entrada principal para avisar sobre eventuais invasões estava desligado, supostamente a pedido da portaria.

Além disso, o segurança na porta aparentemente demorou para perceber que Gonzalez estava perto de invadir o prédio.

Depois de passar pelo guarda por volta de 19h20 (20h20 no Brasil) do dia 19, Gonzalez, que segurava uma faca de 6,5 cm, subiu correndo a escadaria que leva aos aposentos da família do presidente Barack Obama.

Ele então se dirigiu ao East Room, salão frequentemente usado para recepções ou discursos presidenciais, onde um agente tentou contê-lo. O invasor, porém, conseguiu chegar até a porta do Salão Verde, que tem vista para o gramado da Casa Branca.

Inicialmente, oficiais do Serviço Secreto haviam afirmado que Gonzalez foi rapidamente detido na entrada principal. Após pedidos de esclarecimentos do jornal, o porta-voz da agência, Edwin Donovan, rejeitou fazer comentários sob a justificativa de que a investigação ainda está em andamento.

Apesar de terem se tornado mais comuns os registros de violação da cerca da Casa Branca, a maioria dos indivíduos é contida pelos guardas antes mesmo de percorrer um terço do gramado. Gonzalez, que pulou a cerca voltada para a Pensilvania Avenue (um dos pontos mais visitados por turistas) e correu aproximadamente 65 metros até o pórtico norte, é a primeira pessoa que conseguiu entrar na mansão em Washington.

Obama e suas filhas tinham deixado, havia 10 minutos, a Casa Branca de helicóptero rumo à residência de Camp David.

O texano tinha 800 cartuchos de munição, duas machadinhas e uma machete em um

carro estacionado a algumas quadras da Casa Branca.

Segundo parentes, Gonzalez teria servido no Iraque como atirador de elite.

Ele havia sido detido em julho com 11 armas e um mapa de Washington, com uma linha apontando para a Casa Branca.

A diretora do Serviço Secreto, Julia Pierson, caracterizou a falha de segurança de

"inaceitável" e, no dia 26, detalhou a Obama seus planos para evitar novos incidentes.

A Justiça ordenou que o invasor fique detido até 1º de outubro, quando ocorre uma nova

audiência.

Com bomba falsa, homem mobiliza Brasília por 7 horas

Mensageiro de hotel foi feito refém por ex-secretário de cidade do Tocantins

Uma das reivindicações era a aplicação da Lei da Ficha Limpa, já em vigor nesta eleição; sequestrador foi preso

FLÁVIA FOREQUEMATHEUS LEITÃODE BRASÍLIA

Um homem com uma arma mão, um refém e um colete que parecia explosivo mobilizou por cerca sete horas 150 homens das polícias civil, militar e federal nesta segunda (30) em um hotel de Brasília.

A vítima foi o mensageiro José Ailton de Sousa, 55, que trabalha no local. Menos de

duas horas após entrar no trabalho, tornou-se o único funcionário no edifício de cerca de 420 quartos, próximo à Esplanada dos Ministérios.

Foi selecionado ao acaso como refém por Jac Souza dos Santos, 30, que havia se hospedado de manhã e passou a fazer ameaças da sacada de um quarto no 13º andar.

O hotel escolhido foi o Saint Peter, o mesmo em que o ex-ministro José Dirceu (PT),

condenado no processo do mensalão, tentou trabalhar como gerente no final do ano passado, com um salário de R$ 20 mil. Diante da repercussão na imprensa, o petista desistiu da função.

AMEAÇAS

Ex-secretário municipal de agricultura em Combinado (TO), candidato a vereador na mesma cidade em 2008 e filiado ao PP, Jac encaminhou uma "pauta genérica" à polícia, disse o diretor de comunicação da Polícia Civil, Paulo Henrique Almeida.

As reivindicações incluíam a aplicação imediata da Lei da Ficha Limpa, sancionada em 2010 e já em vigor nesta eleição, e a extradição de Cesare Battisti, condenado por homicídio na Itália. Há quatro anos, o Brasil decidiu não extraditar o italiano.

Com uma arma na mão, Santos ameaçava se matar e explodir um colete com supostas bananas de dinamite, vestida pelo funcionário

A polícia inicialmente informou que os explosivos tinham grande chance de serem

verdadeiros. A área do hotel foi isolada e uma agência dos Correios próxima chegou a

ser desocupada.

Pouco depois das 16h, após cerca de sete horas de negociação, Jac decidiu se entregar. Apareceu na varanda algemado ao lado da vítima, que estava sem colete. Quando a polícia entrou no quarto, descobriu que a arma usada por Jac era de brinquedo e o colete não tinha explosivos.

O sequestrador foi encaminhado a uma delegacia. Responderá por sequestro e cárcere

privado, mais ameaça, o que pode levar a até nove anos de prisão. O mensageiro passou mal e foi encaminhado a um hospital.

José Alves de Souza, tio de Jac, acompanhou o sequestro pela televisão, em Combinado, e disse estar chocado.

"Ele sempre foi um menino tranquilo, nunca deu trabalho", disse, quando a ação ainda não tinha terminado.

POLÍTICA

Jac contou à polícia que a escolha do andar foi uma referência ao número do PT.

Na última sexta, escreveu cartas à mãe e aos tios, expressando desejo de "mudar o panorama do país", segundo relato da polícia.

Anotações apreendidas pela polícia indicam ainda que Santos acreditava estar prestes a morrer. O texto, escrito em 2012, contava que ele teria prazo de vida de dois anos. A polícia não confirma a veracidade do diagnóstico.

SEGURANÇA

Ladrão é preso após esquecer celular em BMW que roubou

DE RIBEIRÃO PRETO - O celular esquecido no interior de um carro roubado fez com que a polícia chegasse a um adolescente que supostamente roubou uma BMW 320i, por volta das 23h deste domingo (28), na Vila Ipiranga, em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo).

Segundo o boletim de ocorrência, o rapaz de 17 anos teria usado uma arma de brinquedo para obrigar o dono do carro a descer do veículo. Em seguida, o adolescente fugiu com a BMW, bateu em um caminhão, abandonou o carro e fugiu.

Ao chegar ao local, a polícia encontrou um celular esquecido no carro. De acordo com a polícia, o adolescente ligou para o aparelho e um policial atendeu sem se identificar.

O rapaz teria dito que "era um bandido muito conhecido e que precisava de seu celular

de volta". O policial se prontificou a entregar o aparelho e pediu o endereço do rapaz, que informou na sequência.

A polícia foi até a casa do suspeito e o apreendeu. Ele foi encaminhado ao NAI (Núcleo

de Atendimento Integrado).

'CARNE FRESCA'

PM é suspeito de debochar de morte de jovem em rede social

DO RIO - Um soldado da Polícia Militar do Rio identificado como Jeferson Baquer é suspeito de ironizar, no Facebook, a morte de um jovem de 17 anos no sábado (27), no Alemão.

Em meio a declarações que lamentavam o ocorrido na página do adolescente, uma mensagem publicada por meio do perfil do policial afirmava: "Acorda diabo, carne fresca chegou. Kkkkkkkk".

O jovem foi morto a tiros no complexo de favelas. Segundo a assessoria da

Coordenadoria de Polícia Pacificadora, policiais faziam ronda na região quando foram surpreendidos a tiros por criminosos e reagiram, atingindo a vítima.

Em nota, a assessoria da Polícia Militar informou que o soldado Jeferson dos Santos Baquer de Souza negou ser o autor da publicação. Ele diz que sua conta foi invadida, o que já ocorreu outras duas vezes.

Servente de pedreiro é absolvido após quase 10 anos preso

Hoje com 29 anos, o homem foi acusado de participar de morte durante assalto em 2004 e condenado a 23 anos

A defensora pública Carolina Magalhães disse que provas eram depoimento de outro réu e denúncia anônima

LÉO ARCOVERDEDO "AGORA"

Um homem de 29 anos foi absolvido e libertado após passar nove anos e dez meses preso, respondendo à acusação de ter participado de uma morte durante assalto (latrocínio) a uma loja de roupas esportivas na zona leste, ocorrida em 2004.

A decisão, do Tribunal de Justiça de São Paulo, foi dada em resposta a um pedido feito

pela Defensoria Pública do Estado.

O homem trabalhava como servente de pedreiro e ajudante de entregas ao ser preso, em

agosto de 2004, aos 19 anos. Ele deixou a penitenciária de Flórida Paulista (592 km de São Paulo) em junho.

Segundo a defensora Maria Carolina Pereira Magalhães, o rapaz foi preso preventivamente e condenado em primeira e segunda instâncias "com base em meros indícios alegados durante a fase de inquérito policial e não comprovados judicialmente".

Em outubro de 2006, o mesmo tribunal que agora o absolveu havia determinado o trânsito em julgado da condenação do servente a 23 anos e 4 meses de prisão. Isso significa dizer que não havia mais a possibilidade de recorrer da pena.

Ao analisar o caso, porém, a defensora entrou com novo processo, chamado revisão criminal, em favor dele.

APELIDO

De acordo com a defensora, as provas contra o servente de pedreiro se resumiam ao depoimento de outro réu e a uma denúncia anônima, em que ele era mencionado por um apelido.

Nenhuma das quatro testemunhas do caso, afirma Carolina, o reconheceu como autor do crime.

A absolvição do servente de pedreiro não tem mais como ser revertida pela Justiça.

A Defensoria não divulgou nenhum dado pessoal do homem absolvido.

Enferrujou

Com desempenho fraco nas últimas cinco rodadas, o Trio de Ferro do futebol paulista vive má fase e cai na classificação do Brasileiro

DIEGO IWATA LIMADE SÃO PAULO

Juntos, Corinthians, São Paulo e Palmeiras conquistaram, nas últimas cinco rodadas do Brasileiro, a mesma quantidade de pontos obtida pelo Atlético-MG, quarto colocado:

12, quatro cada.

Não é por acaso que os componentes do tradicional Trio de Ferro, alcunha que denomina os três clubes de maior torcida em São Paulo desde os anos 1930, veem seus objetivos no torneio cada vez mais distantes.

Nesta temporada, pela primeira vez desde 1998, o Estado não teve um representante na Copa Libertadores.

À medida que as rodadas do campeonato nacional transcorrem, aumenta o risco de o

fenômeno se repetir.

Estaria, portanto, o futebol paulista passando por um declínio técnico?

O técnico interino do São Paulo, Milton Cruz, reconhece o baixo rendimento, mas ainda

não descarta a conquista do título por parte do seu time, atual terceiro colocado.

"Sabemos que estamos aquém do que deveríamos, mas não desistimos", afirma.

O goleiro Fernando Prass, do Palmeiras, concorda quando o assunto é má campanha.

Porém, faz ponderações.

"Trata-se de uma oscilação natural no campeonato. Nenhum time, além do Cruzeiro, deixou de oscilar", afirma o jogador, que está em reta final de recuperação, após cirurgia no cotovelo direito.

Fábio Santos, lateral esquerdo do Corinthians, vê o acaso como motivo para o declínio simultâneo dos rivais.

"[O mau momento do trio de ferro] é uma coincidência. A situação do Palmeiras é um pouco mais complicada, mas o São Paulo está no G4, onde ficamos por 16, 17 rodadas", analisa o corintiano, cujo time vem de duas derrotas consecutivas no Brasileiro.

DIFERENÇAS

Tostão, colunista da Folha, também atribui a má fase do Trio de Ferro a coincidências. "Uma tabela complicada, às vezes, afeta o rendimento dos times", diz.

O campeão mundial em 1970, pela seleção, também não vê os momentos ruins do trio

como relativos ao futebol do Estado. E diferencia as situações dos três clubes.

"A situação do Palmeiras é diferente. O time está muito abaixo dos seus rivais", afirma o colunista.

O Corinthians, cuja última vitória foi justamente sobre o São Paulo, há três rodadas (por

3 a 2), se afastou do líder Cruzeiro e se distanciou do grupo que briga por vaga na Libertadores. Neste momento, está em sétimo, sua pior colocação neste Nacional.

O São Paulo, que ficou a quatro pontos da liderança, não vence há quatro rodadas,

perdeu a segunda posição para o Inter e agora está dez pontos atrás do Cruzeiro.

O Palmeiras tem 25 pontos --um a menos que o Botafogo, primeiro fora da degola.

Como vovó fazia

Novo selo de literatura erótica da editora Hedra apresenta clássicos e uma estreia sobre a carne e seus desejos

BARBARA GANCIACOLUNISTA DA FOLHA

O novo selo Sexo, lançamento da editora Hedra, não pretende desvendar tudo o que

você sempre quis saber sobre literatura erótica, mas teve receio de perguntar depois de

"50 Tons de Cinza".

Com a promessa de lançar nove obras sobre a carne e os desejos que ela enseja, em oito clássicos e uma obra de estreia, a Hedra chega com três títulos que prometem chamar a atenção de uma geração pré-comatosa em matéria de sexo, cujo contato se dá intermediado por drogas estimulantes, energéticos ou uma tela de computador.

Não me queira mal. Na minha época não era muito melhor.

"Nunca se falou tanto no assunto e se fez tão pouco", foi o bordão do meu tempo. Veio depois --logo depois-- de os personagens do filme "Bob, Carol, Ted e Alice" (1969) despertarem de uma ressaca moral de uma suruba mal sucedida.

Pessoal empapuçou do excesso, perdeu a vontade.

Estes são os tempos da medicalização, do entorpecimento. Alteradores de humor amenizam a dor e, na rebarba, inibem o apetite sexual.

O

desejo anda flácido.

E

dá-lhe reproduzir rave de Ibiza todo sábado para despertar o gigante adormecido. Haja

imaginação

Salve, rainha Vitória! Os dois primeiros livros da lista da Hedra nos ensinam que não há nada com uma boa repressão vitoriana (entre 1837 e 1901) para cutucar a libido.

O que há em comum entre os três livros da primeira leva é que cada um quebra um tabu

à sua maneira.

Penso que a escolha do texto do poeta e escritor vitoriano Algernon Charles Swinburne (1837-1909), cuja obra pende para a pornografia, o sadomasoquismo, a necrofilia e a autoflagelação deve ter sido feita em razão de ele ter criado, 60 anos antes, uma "Lolita" tão picante quanto a de Nabokov.

"Flossie, a Vênus de Quinze Anos" é uma órfã virginal presenteada a um certo capitão Archer para que ele faça dela o que quiser.

O livro é de 1897, quando a literatura erótica nem existia como possibilidade comercial.

Aliás, só seria concebido no âmbito policial.

Nossa heroína cabia direitinho no espartilho da dupla moralidade vigente da época. Nem sequer nos "swinging sixties" Londres viu tantos bordéis, prostitutas circulando pelo East End e índices de doenças venéreas quanto no reinado da rainha Vitória.

Eva Latchford, a personagem que oferece Flossie ao capitão, faz uma recomendação:

"Pode ficar à vontade, ela acaba de vir de Paris. Lembre-se, ela tem apenas 15 anos. Trate-a com muito carinho e conseguirá dela tudo o que quiser. Existem meios."

Ou seja, só não chegue aos finalmentes. De resto, vale tudo. E Flossie seguia todos os conselhos de Tim Maia, desconsiderando as ressalvas sobre "homem com homem" e "mulher com mulher".

BACANAL

O segundo livro, "O Outro Lado da Moeda", ou "Teleny", já chocou tanto quanto "O

Amante de Lady Chatterley", de D.H. Lawrence (1885-1930). Mas é bem mais inócuo do que "120 Dias de Sodoma", em que o Marquês de Sade (1740-1814) peita sozinho Igreja, Estado, família e patriarcado.

Estamos falando da obra, de início atribuída a Oscar Wilde (1854-1900), mas que, depois verificou-se, teria sido escrita a várias mãos, bocas, coxas e pernas, num bacanal de ideias reunidas por amigos do autor irlandês e regidas sob sua batuta. Que mau gosto, Barbara, sinceramente.

Um dos primeiros textos a desafiar o sistema falando abertamente de um amor homossexual com uma dose intensa de romantismo entre homens da casta superior, situação análoga à que Wilde vivia, fez história.

Se, por um lado, acabou sendo o estopim que levou o escritor à prisão, por outro, foi o motor que causou a mudança das leis sobre sodomia no Reino Unido.

IRRACIONAL

"Tudo que Eu Pensei mas Não Falei na Noite Passada", o terceiro livro, não esconde o ato sexual atrás de descrições veladas. Não estamos falando de sentimentos. Afinal, sexo é a antítese da razão, descrevê-lo seria negar sua natureza irracional.

A autora, de quem nada sabemos, apenas que é novata e contemporânea e escolheu o

"nom de plume" Anna P., usa de um recurso interessante para cativar uma plateia acostumada a ver tudo explicitado na internet, em jogos macabros do Playstation, nas decapitações do noticiário, nas crianças dilaceradas por bombas no Oriente Médio.

Esta é a sua linguagem, meu chapa? Você só consegue ler notícias com títulos que

apresentem x número de exemplos, tipo: "10 ilhas que você não pode deixar de

"?

Então esta é a história que Anna P. tem a lhe contar. Seca, realista, ora super tesuda, ora triste com uma ponta de arrependimento. Pega aqui, põe ali e, opa, vamos gozar. Simples assim. SQN?

Ela parece dizer que sexo não é feito para ser tratado no plano racional. Mas, já que vocês querem, e eu tenho necessidade de desabafar, lá vai. Tome aqui um murro na sua cara. E tome e tome.

Como leitora, aceitei o desafio. A coleção é editada com visível carinho por professores da USP que evidentemente se interessam mais por conhecimento do que por mazelas da burocracia acadêmica.

Há resumos sobre os autores, introdução para situar historicamente, prefácio e posfácio, bibliografia, tudo tratado com o devido esmero, uma fineza de dar gosto.

É o tipo de livro que dá vontade de morder. Objeto maneiro. Tanto trabalho por que,

para quem?

A intenção dos acadêmicos envolvidos no projeto está resumida na frase do posfácio de

um dos livros, escrito pelo tradutor Guilherme da Silva Braga: "Por que ler hoje um romance pornográfico do século 19? A resposta pode ser mais simples do que parece: é que o sexo, como a boa literatura, não envelhece nunca".

Diretor filma sua batalha para tratar HIV e hepatite

Longa de Joaquim Pinto é candidato português em disputa por vaga no Oscar

'E Agora? Lembra-Me', que retrata périplo por clínicas clandestinas, será exibido amanhã durante Festival do Rio

GUILHERME GENESTRETIENVIADO ESPECIAL AO RIO

"Há dois anos comecei a anotar os dias bons e os dias maus. Desisti no final do mês:

eram quase todos maus."

No filme "E Agora? Lembra-Me", o diretor português Joaquim Pinto, 57, aponta a câmera a si ao documentar uma experiência de um ano com drogas não aprovadas para o tratamento de sua doença debilitante, resultado da combinação de HIV e hepatite C.

O longa será exibido na quarta (1º), no Centro Cultural Banco do Brasil, r. Primeiro de

Março, 66, tel. (21) 3808-2020, durante o Festival do Rio.

A produção, que levou três prêmios na mostra de Locarno em 2013, é a candidata

portuguesa a disputar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro.

"Eu não tinha nada a perder com a exposição da minha intimidade. Há quem prefira esconder as coisas. Eu não tenho nenhum condicionante", diz o diretor.

Além de descrever seu périplo por clínicas clandestinas espanholas ou os efeitos do tratamento --a dificuldade em mover os dedos, a queda dos dentes--, o filme cavouca as memórias do cineasta: os amigos que morreram pela Aids nos anos 1980 e os filmes que dirigiu, como "Uma Pedra no Bolso" (1988).

"Não tinha uma estrutura definida para o filme, mas não havia como não mergulhar nas experiências passadas", afirma.

A câmera perambula num ritmo bem lento por bosques bucólicos de Portugal, nas

cercanias de Columbeira, povoado na região central do país, onde Joaquim mora com o marido, Nuno, companheiro desde os anos 1990. "Tivemos o primeiro casamento homossexual no cartório desta aldeia", diz.

Joaquim convive há 20 anos com o HIV, que agravou os sintomas da hepatite C. "Cada ano é como se fossem vários de uma pessoa saudável."

Sobre o Oscar, desconversa."É algo distante, envolve uma campanha dispendiosa. Não faço ideia do que irá pela cabeça dos membros da Academia. Alguns irão achar o meu filme fora da proposta. Outros vão adormecer nos primeiros minutos."

CRÍTICA - DOCUMENTÁRIO

Até boleiro sem coração verde se emociona com '12 de Junho'

PAULO VINÍCIUS COELHOCOLUNISTA DA FOLHA

O filme se chama "12 de Junho de 93 "" O Dia da Paixão Palmeirense". A primeira cena

tem Evair se aproximando da bola para cobrar o pênalti que acabou com a fila do Palmeiras naquele Dia dos Namorados. O jogo em si só volta à tela 70 minutos depois.

Alguém pode julgar esse um defeito do filme. É seu maior mérito. A demora para chegar ao ponto central da trama pode cansar corintianos, são-paulinos, santistas e até

os palmeirenses de gerações mais novas, cansados de sofrer.

Mas os 70 minutos iniciais explicam exatamente por que aquele dia e os quatro gols são tão simbólicos para uma geração inteira.

A segunda cena tem o zagueiro Aguirregaray chutando na trave no último minuto da

partida contra a Ferroviária que eliminou o Palmeiras do Paulistão de 1990.

Naquele dia, meu tio encostou-se na trave às 23h e cinco minutos depois olhou o relógio. Surpreendeu-se: 23h50! Passou 50 minutos atônito.

A direção de Mauro Beting entra primeiro na alma palmeirense para chegar depois aos

gols de Zinho, Evair, Edílson e novamente Evair, de pênalti.

Passa por Ferroviária, Bragantino, XV de Jaú, Inter de Limeira como se fosse Nick Hornby em "Febre de Bola" contando sua vida pelas derrotas do Arsenal. Muitos palmeirenses fizeram o mesmo nos anos 80.

"12 de Junho" é um documentário sobre futebol e, como tal, pode cansar os que perguntam quem é a bola. Mas apaixona os boleiros, mesmo que não tenham coração verde.

Termina com o reencontro de toda aquela geração de Edmundo, Evair, Zinho e Antônio Carlos, num churrasco com música de Simoninha e com campeões vestidos a caráter, camisa listrada dos tempos da Parmalat.

Muitos dos que estiveram ou ouviram as histórias de 1993 terão vontade de chorar.

Quando se emocionarem com as lembranças próximo jogo do Palmeiras.

ou quando ligarem a TV para assistir ao

'Miss Violence' estimula o inconformismo, diz diretor

Longa sobre família disfuncional ganhou Leão de Prata de Veneza em 2013

Grego diz que choca o espectador para que 'as pessoas façam algo' em relação a situações como a exibida no filme

PAULO GOMESDE SÃO PAULO

Vencedor do Leão de Prata do Festival de Veneza em 2013 --prêmio dedicado à melhor direção-- o grego "Miss Violence", de Alexandros Avranas, perturba o espectador do começo ao fim.

Seja pelo choque, pela claustrofobia das cenas fechadas ou pela opressão psicológica na família rígida retratada, o filme incomoda.

O título é um joguete: "É um desafio mental assistir ao filme com o pai como

personagem principal, mas procurando pela mulher do título", diz Avranas. São quatro personagens femininas na família, mais a garota cujo suicídio dá origem ao enredo.

O cineasta afirma que "está na hora de nos tornarmos mais sensíveis para reconhecer

famílias como esta e fazer algo a respeito". Segundo o diretor, a história da família disfuncional do filme é baseada em fatos ocorridos na Alemanha em 2010.

Ele diz que, durante as filmagens, se perguntava por que aquelas pessoas simplesmente não fugiram.

"É a questão que o público deve perguntar a si mesmo, e descobrir o que os fez ficar (na casa)."

A intenção, portanto, é a de estimular o inconformismo. "Enquanto as pessoas

permitirem a opressão, outros utilizarão isso como vantagem", diz, para em sequência citar o também perturbador "Saló ou os 120 Dias de Sodoma", de Pier Paolo Pasolini, como exemplo. "É um excelente filme sobre vítimas e perpetradores, e como esses papéis podem mudar."

Avranas diz que o cinema tem o poder de estimular as pessoas e mostrar a elas outras formas de pensar. "Este é o significado da arte. Espero que funcione de alguma forma."

Relações familiares ou sociais problemáticas também são o tema de outras recentes produções gregas premiadas internacionalmente, "Attenberg", de Athina Rachel Tsangari, e "Dente Canino", de Yorgos Lanthimos.

Avranas rejeita, no entanto, que haja uma escola grega de cinema. A temática, afirma o diretor, é apenas uma coincidência.

"Não somos um movimento como a nouvelle vague. Não temos a mesma abordagem estética ou filosófica, nem mesmo nos conhecemos pessoalmente." O que os três têm em comum, declara o cineasta nascido em 1977, é serem "pessoas jovens que querem dizer algo ao público independente de quanto dinheiro têm para filmar".

A crise econômica que atinge a Grécia, aliás, foi obstáculo à realização de "Miss

Violence". Avranas disse ter gasto muito tempo atrás de financiamento, sem sucesso. No fim, foi ajudado pelo produtor Christos V. Konstantakopoulos, conhecido pela

realização de diversos filmes gregos.

Agora, não deve encontrar dificuldades para as próximas produções. Flerta até com o cinema comercial, que "também pode ter qualidade". "Sempre serei honesto com meus filmes. Quero fazer longas poderosos, com uma mensagem forte."

CRÍTICA - DRAMA

Com método narrativo perverso, cineasta grego ainda é talento a ser confirmado

PEDRO BUTCHERCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Recebido com euforia no Festival de Veneza do ano passado, onde foi apontado como um promissor exemplar do novo cinema grego, "Miss Violence" engrossa o robusto conjunto de filmes contemporâneos sobre famílias disfuncionais.

Revelar aqui o que exatamente há de disfuncional nessa família comprometeria parte da experiência (nada agradável) proposta pelo filme.

O diretor Alexandros Avranas tem o prazer sádico de manipular surpresas e revelar os

mais perversos detalhes em pequenas doses.

A partir de uma atitude inesperada --o suicídio de uma criança aniversariante--, o filme

desvenda, aos poucos, os motivos que levaram a tal ato.

Com atuações fortes e uma direção marcada por enquadramentos precisos e frios, "Miss Violence" toma um rumo cada vez mais desconcertante, em que as sutilezas e elipses são substituídas por uma exposição frontal de acontecimentos bastante violentos.

Em Veneza, o retrato corrosivo de uma família de classe média proposto por Avranas foi apontado como a poderosa metáfora de um país em que a falência econômica é apenas um aspecto de uma crise moral mais ampla.

Outro aspecto evidente é que, à medida em que a trama se desenrola, o diretor sugere que a absoluta passividade de quem aceita a violência ao seu redor é tão grave quanto a violência em si.

O título ("Senhorita Violência", em tradução literal) seria uma pista nesse sentido.

A questão é que, fora de um contexto mais amplo e metafórico, o filme se embrenha no

perigoso terreno entre a perversidade que pretende denunciar e a perversidade de seus próprios métodos narrativos, marcados por uma exposição chocante, quase espetacular,

de determinado tipo de violência.

O domínio narrativo de Avranas é evidente, mas seus métodos são um tanto duvidosos.

Um talento, enfim, ainda à espera de confirmação.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Transando com estátuas

Uma paisagem saturada em sexo matou o único afrodisíaco que não se compra na farmácia

Toda a gente ri com a história clássica sobre a noite nupcial de John Ruskin (1819-

1900).

Relembro: Ruskin, um dos mais importantes críticos culturais da Inglaterra vitoriana, casou em 1848 com Effie Grey. Mas, na noite de núpcias, ao ver a mulher despida, o pobre Ruskin pulou da cama e fugiu de susto. Motivo?

O excesso de pilosidade na genitália da senhora. Ruskin nunca tinha estado com uma

mulher "au naturel". Apenas conhecia as estátuas que admirava no Museu Britânico --as ninfas gregas que eram mostradas ao público na versão "Brazilian wax".

Ninguém tinha explicado ao pobre Ruskin que, excetuando bebês e crianças, as mulheres reais tinham pelos e as estátuas, não.

Oh well: a história é provavelmente apócrifa. Mas confesso que nunca entendi por que motivo o mundo se ri alarvemente dela. Sobretudo aquela parte do mundo que, saturada em pornografia e outras idealizações sexuais, acaba por brochar e até fugir quando tem uma mulher na cama de verdade.

Tempos atrás, assisti a um documentário televisivo que ilustra bem o "fenômeno Ruskin". Intitula-se "O Império dos Sem Sexo", foi dirigido pelo Pierre Caule e era um retrato sobre os hábitos sexuais no Japão. Havia de tudo.

Para começar, um negócio pujante de bonecas artificiais para todos os gostos e bolsas. Por € 10 mil (mínimo, cerca de R$ 30 mil), o cliente podia escolher o tamanho dos seios, a forma da bunda, o desenho dos lábios e outras minudências físicas, como a cor do cabelo, dos olhos e até dos mamilos.

O produtor dessas encantadoras aberrações falava com orgulho das vantagens das

bonecas: eram obedientes; não precisavam de "despesas de manutenção" (como jantares românticos ou presentes de aniversário, por exemplo); e nunca ficavam bravas se, depois da intimidade (digamos assim), o homem optasse pelo ronco imediato.

Mas o melhor do documentário nem sequer passava por esses casos extremos. Bastava os banais. Como a história de um infeliz que, todos os dias, depois do trabalho, optava por frequentar "sex shops" e ver uma filmografia apimentada só para não ter que voltar demasiado cedo para a mulher.

Verdade: o documentário não mostrava a mulher. Mas desconfio que nem uma Scarlett

Johansson animaria o infeliz: um filme e um pacote de lenços de papel eram preferíveis

a qualquer Johansson deste mundo.

Confrontados com o cenário, a atitude imediata seria imaginar que essa forma de tédio ainda não chegou às fronteiras do Ocidente.

Seria um erro. Aliás, uma pesquisa recente do jornal "The Observer" chega e sobra para ilustrar esse erro com a libido dos ingleses. Sim, eu sei: falamos de ingleses. E, na cabeça dos eruditos, existe sempre a conhecida frase "sex, no, we're English".

O problema é que nem sempre foi assim. Antes de 2008, ou seja, antes da falência do Lehman Brothers e da crise financeira internacional, os nativos tinham uma média de sete relações sexuais por mês.

Hoje, desceu para quatro --qualquer coisa como uma relação por semana. Isso, claro, para falarmos dos "ativos". Porque uma parcela razoável (" dos inquiridos) nem sequer chega a uma relação por ano. Como explicar o deserto?

Os especialistas na matéria puxaram pelas respectivas cabeças e falaram de tudo: a crise econômica chegou aos lençóis; a pressão sobre os homens para serem mais "femininos"

e ajudarem nas tarefas domésticas arruinou a testosterona dos machos; e o consumo

alarmante de pornografia transformou o ato, a naturalidade do ato, em algo que não possui a mesma grandeza insana --e a mesma dureza peniana-- da ficção.

Admito que tudo isso seja verdade. Mas existe uma verdade mais básica que tornou possível todas essas possibilidades: uma cultura que fez da "dessacralização" do sexo a sua obsessão, acabou com todas as obsessões. Acabou, no fundo, com o tipo de "tabus" que os nossos avós reservavam para o quarto.

Resultado?

Uma paisagem saturada em sexo foi matando o único afrodisíaco que não se compra na farmácia: o desejo.

Ou, em linguagem mais prosaica, a vontade simples de estar, descobrir e transgredir com uma pessoa real. Não com uma boneca japonesa. Muito menos com uma estátua pelada. E depilada.

ENTREVISTA - LUCIANA GENRO

Não vejo nenhuma crise na esquerda coerente

PRESIDENCIÁVEL DO PSOL NEGA CONFLITOS NO LANÇAMENTO DE SUA CAMPANHA E DIZ QUE O DESAFIO É CRESCER EM 'CONDIÇÕES DESIGUAIS'

JOSÉ MARQUESDE SÃO PAULO

Lançada pelo PSOL à disputa presidencial após divergências internas --que resultaram na desistência do senador Randolfe Rodrigues (AP) em concorrer--, a candidata Luciana Genro nega haver uma crise na esquerda e diz que, embora separados, PSOL, PSTU e PCB "trabalham no mesmo sentido".

Ela culpa "condições desiguais" na cobertura jornalística, estrutura de campanha e horário eleitoral por só ter 1% nas pesquisas de intenção de voto e afirma que "cresceria muito mais" se tivesse divulgação semelhante à dos três principais colocados.

divulgação semelhante à dos três principais colocados. Folha - Ao desistir, o senador Randolfe disse que

Folha - Ao desistir, o senador Randolfe disse que a esquerda vive "crise". A sra. concorda? Luciana Genro - Eu acho que há pessoas da esquerda que entram em crise quando os seus projetos eleitorais parecem mais distantes. Eu não vejo que haja uma crise na esquerda coerente, mas crises pessoais. O PSOL está muito unido e a minha candidatura foi escolhida por unanimidade na convenção do partido.

Vocês tentaram articular com o PSTU e não conseguiram. Eu trabalhei muito pela aliança da esquerda entre o PSOL e o PSTU, inclusive quando estava de [pré-candidata a] vice do Randolfe. Cheguei a fazer uma carta aberta ao PSOL, PSTU e PCB abrindo mão de ser candidata a vice. Mas o PSTU, o único que respondeu oficialmente ao pedido, disse que não havia viabilidade por divergências programáticas. Eu não sei exatamente quais divergências são essas porque a gente nunca sentou para debater o programa, mas acredito que é uma necessidade unir a esquerda toda. Embora a gente esteja com candidaturas separadas, estamos trabalhando no mesmo sentido, não estamos digladiando entre nós.

As intenções de voto na esquerda autodeclarada não chegam a 2%. Esses candidatos têm representatividade?

É um desafio muito grande para uma candidatura crescer em condições tão desiguais,

não só no horário eleitoral gratuito, mas também nas estruturas de campanha. O PSOL é

o único partido com representação parlamentar que tem por estatuto não receber

dinheiro de empreiteiras, bancos e multinacionais, que são os maiores doadores. Também pela cobertura desigual da mídia. Te asseguro que, se a grande imprensa desse para o PSOL a mesma cobertura --ou pelo menos uma cobertura semelhante-- que dá aos três [principais], nós cresceríamos muito mais.

Apesar das restrições, sua candidatura recebeu dinheiro de um supermercado e de um escritório de advocacia. Por que essa seleção? [As restrições] são os segmentos que mais estabelecem relações promíscuas com os partidos. Por isso, o PSOL proibiu esses três segmentos no seu estatuto, mas não proibiu totalmente o financiamento privado, muito embora a gente defenda as doações de

pessoas físicas, que podem estimular a população a participar mais ativamente da política.

Como governar tendo minoria absoluta no Congresso? Nenhum presidente esteve em um partido com maioria. Todos tiveram verdadeiros balcões de negócios no Congresso, sejam ilícitos ou não. Nós não vamos fazer isso, porque vamos apresentar medidas que vão ter respaldo popular, ao contrário dos governos anteriores. Eu presenciei isso várias vezes como deputada na Câmara. Em junho de 2013, toda a população brasileira presenciou como os políticos tremeram diante do povo nas ruas, mas nem são necessárias mobilizações tão grandiosas. Basta lotar as galerias da Câmara que se consegue aprovar medidas que provavelmente não teriam nenhuma chance de ser aprovadas.

Nem sempre medidas de um presidente têm apoio popular. As minhas vão ter.

MAURICIO PULS

Os proprietários do poder

Desalojados da Presidência pela Revolução de 1930, os donos de terras hoje se concentram no Congresso

De uns tempos para cá o PMDB se tornou o grande vilão da política brasileira. É acusado de se oferecer a qualquer governo, trocando votos no Legislativo por um punhado de cargos no Executivo. Além de corromper a administração pública, seu fisiologismo atrelaria o país a uma agenda mesquinha, impedindo transformações estruturais.

De onde vem esse poder maligno? Das urnas. É o partido que mais elegeu governadores, prefeitos e parlamentares desde a redemocratização do país. Ele espelha a vontade do eleitorado nacional --mas mostra o que esse eleitorado realmente é, não o que ele gostaria de ser.

Talvez por isso o PMDB tenha sido tão amaldiçoado nas manifestações de junho: a mão que vota é a mesma que apedreja. Tanto é assim que hoje a legenda lidera as eleições para governador em oito Estados, inclusive no Rio de Janeiro. O que explica esse ressentimento?

Bem ou mal, o PMDB entrega ao eleitor o prato de lentilhas que promete: leva prefeitos aos ministérios, propõe emendas destinando verbas aos municípios, inaugura escolas, postos de saúde, quadras esportivas.

Para entregar as lentilhas, precisa ter acesso ao Executivo --tanto para dirigir as ações governamentais como para liberar recursos para seus redutos. E tem acesso fácil ao Executivo porque está no centro do espectro político, o que lhe dá flexibilidade suficiente para fechar alianças à direita e à esquerda.

A esquerda quer promover a igualdade, e por isso aprova leis em defesa dos

trabalhadores. A direita quer preservar as diferenças, logo adota medidas para beneficiar os empresários. Um partido de centro aceita conceder benefícios aos trabalhadores e

incentivos aos empresários, desde que tudo fique como está.

No Brasil, o primeiro grande partido de centro foi o antigo PSD (1945-1965), "a voz do Brasil unido". E do PSD saíram os principais dirigentes do moderno PMDB, Ulysses Guimarães (SP) e Tancredo Neves (MG).

Qual é o substrato social de um partido de centro? A propriedade fundiária. Os proprietários fundiários não se identificam nem com os empregadores nem com os empregados, mas formam uma classe à parte. Suas fontes de renda não são impactadas diretamente por variações nos lucros e nos salários, daí sua plasticidade política.

Desalojados da Presidência pela Revolução de 1930, os proprietários fundiários se concentraram no Congresso --hoje os ruralistas representam mais da metade da bancada do PMDB. Como não têm mais força para comandar o país --há quanto tempo o partido não lança um candidato a presidente?--, eles procuram barrar, no Legislativo, todas as iniciativas que possam prejudicá-los.

Em geral conseguem. O PSD impediu a aprovação da reforma agrária no governo João Goulart, e o mesmo fez o PMDB na Assembleia Constituinte. Há dois anos, os ruralistas derrotaram o Planalto em todas as votações sobre o Código Florestal.

É difícil governar sem o centro: o PSD abandonou Getúlio em 1954, fez oposição a

Jânio em 1961, rompeu com Jango em 1964. Sabotado pelo PMDB, Collor caiu em

1992.

Após a eleição, o presidente só tem duas opções: ter ou não ter maioria. Quem decidiu a parada foi o eleitor. Este reclama a todo instante que deseja mudar. Mas, quando é chamado a agir, prefere pedir outro prato de lentilhas ao fazendeiro.

ELEIÇÕES 2014

Eu, robô

Análise das redes sociais durante debate mostra que perfis falsos influenciaram o que se discutiu na internet

ALEXANDRE ARAGÃODE SÃO PAULO

A conversa entre usuários no Facebook e no Twitter durante o debate presidencial no

último domingo (28) foi fortemente influenciada pela atuação de robôs.

É o que mostra levantamento do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura,

da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), feito a pedido da Folha.

Robôs são programas capazes de publicar mensagens de maneira coordenada, o que impacta os assuntos mais comentados na rede --no caso do Twitter, os "trending topics", no do Facebook, os chamados "itens populares".

O objetivo desse tipo de ferramenta é fazer com que a discussão na web seja

manipulada de maneira positiva para a campanha que faz uso dela. Há diversos modos de fazer com que isso aconteça, como promover hashtags ("etiquetas", em tradução

livre) oficiais e rebater adversários automaticamente.

Na análise feita durante o debate de domingo, o Labic --sigla do laboratório da Ufes-- identificou indícios de que a campanha do candidato Aécio Neves (PSDB) fez uso intenso dos robôs, tanto no Facebook como no Twitter.

A partir de rastreamentos com a hashtag oficial do debate (#debatenarecord) e com a do

candidato (#SouAecio Voto45), o coordenador do laboratório, professor Fábio Malini,

percebeu que em um período de 15 minutos as menções a Aécio no Facebook triplicaram --um forte indício de uso de robôs (veja o gráfico no topo da página).

A partir daquele momento, as curvas de citações a Aécio e à presidente Dilma Rousseff

são praticamente idênticas. Os responsáveis pelo Labic afirmam que o comportamento indica que há robôs programados a favor do tucano para retrucar qualquer menção à petista.

No caso do Twitter, há dois tipos de robôs: os que tuítam muitas mensagens diferentes e os que trabalham em grupo retuitando todos um mesmo usuário ou mensagem.

Em abril, o então candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos --morto em agosto- -, teve um tuíte replicado cerca de 5.000 vezes, enquanto sua média por postagem era cem vezes menor.

Na época, o partido negou utilizar robôs; Malini, entretanto, diz que a discrepância é um dos principais indícios do uso, já que o conteúdo da mensagem não tinha nada que justificasse essa replicação tão acima da média.

O pesquisador diz que o mesmo padrão pôde ser observado durante o debate entre perfis

que publicavam mensagens a favor de Aécio, quando sua hashtag entrou nas mais comentadas.

Ele explica que a maioria dos perfis falsos está ligada à conta do publicitário Eduardo Trevisan, dono de uma empresa de monitoramento de redes sociais que trabalha na campanha do tucano.

OUTRO LADO

Trevisan nega que administre robôs e se diz vítima deles. "Alguém criou uma estrutura colossal que dá retuítes em dois perfis meus, o pessoal e um outro", afirma. A empresa dele, Face Comunicação On Line Ltda., recebeu R$ 130 mil da campanha tucana até o início do mês.

O publicitário diz que os serviços prestados à campanha são de monitoramento de redes

sociais e de "análise de sentimento" --termo que designa a divisão de postagens entre positivas, negativas ou neutras. "Minha equipe virou a madrugada fazendo análise do que foi publicado no Twitter e no Facebook durante o debate", diz.

A campanha de Aécio disse já ter notado "comportamento anormal" em seus perfis no

Twitter. Em nota à Folha, informou ter "a preocupação de identificar perfis que poderiam eventualmente prejudicar a campanha e denunciá-los ao Twitter".

Diz, ainda, que não usa robôs e não contratou empresas para isso. "Se for comprovada a

atuação irregular deste ou de outro fornecedor ( conclui a nota.

)

tomaremos as medidas cabíveis",

Adeus, Orkut

Rede sai do ar hoje após dez anos e dá lugar a museu digital; recluso, criador do serviço adota o silêncio e não comenta fim da plataforma

ALEXANDRE ORRICOEDITOR-ASSISTENTE DE "TEC"BRUNO ROMANICOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O que falar dessa rede social que tanto conhecemos e "consideramos pacas"?

Como adiantou a Folha em julho, o Orkut, parte importante da história da internet brasileira, deixa de existir hoje. Às 6h, o serviço dará lugar a um museu digital com os arquivos e discussões de todas as comunidades públicas --51 milhões ao todo.

Batizado de Arquivo de Comunidades, o museu poderá ser acessado pelo mesmo endereço que abrigou a rede até hoje, orkut.com.

O acervo reunirá todas as mensagens trocadas dentro destes grupos desde quando o

Orkut foi criado, há pouco mais de uma década. São 120 milhões de tópicos e mais de 1 bilhão de interações.

Usuários podem exportar as informações do seu perfil, mensagens de comunidades e fotos usando o Takeout (google.com/settings/takeout) até setembro de 2016.

Depois de setembro, nem mesmo o endereço orkut.com deverá ser mantido pela empresa, visto que Orkut Büyükkökten, engenheiro turco criador da rede, deixou o Google há quatro meses e pretende manter controle sobre o domínio.

ABANDONADO PELO PAI

Desde que o Google anunciou que desativaria a rede, Orkut Buyukkokten, criador da rede social, teve seu perfil no Facebook (!) inundado por mensagens de usuários brasileiros furiosos.

Os apelos --alguns mais educados do que outros-- eram para que o programador turco evitasse o fim do site. Buyukkokten, porém, não respondeu aos indignados.

De fato, a antiga rede social mais popular do Brasil sai hoje da vida de seus usuários parar entrar na história da internet do país sem as palavras finais de seu criador.

Orkut adotou o silêncio desde a confirmação do fim. Não concedeu entrevistas ou fez comentários em redes sociais. A Folha tentou contato, mas não teve resposta.

No Facebook, sua atividade mais recente é de agosto --três novas amizades. Em outro perfil na rede de Mark Zuckerberg, seu último post público é de março deste ano. No Twitter, as postagens cessaram em 2012.

Teoricamente, o programador está livre da vigilância do Google para falar. Ele deixou a companhia no começo do ano e fundou a nova start-up Hello, outro projeto de rede social. Porém, podem existir laços entre as partes.

O domínio "hello.com" pertencia ao Google, que usava o endereço para um serviço de fotos fechado em 2008.

No último mês de abril, a gigante transferiu o hello.com para a nova companhia de Orkut. Além disso, os investidores da Hello são desconhecidos --até maio deste ano, a companhia havia levantado US$ 10,5 milhões.

Procurado pela reportagem, o Google não quis comentar qual seria a ligação entre a companhia e o pai do Orkut. Mas não é só na internet que o programador adotou um comportamento mais discreto. Figura comum em coluna sociais da região de San Francisco (EUA), Orkut não aparece em sites do tipo desde setembro de 2013.

DEPOIMENTO

Ao deixar minha comunidade, só peço: "Libertem o inhame"

MARCOS BARBARÁCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Há tempos eu evitava esse momento. Desde o fim de junho, quando o Google divulgou que em setembro desativaria o Orkut, nunca mais o acessei. Não que eu fosse um usuário frequente nos últimos tempos, mas era confortante saber que ele estava lá.

Eu fui uma celebridade no Orkut. Do tipo que é reconhecido no metrô (duas vezes). Minha fama virtual tinha uma razão: criei uma das comunidades mais enigmáticas daquele mundo, a Anão Vestido de Palhaço Mata 8.

Ela era um espaço onde as notícias mais esquisitas, insólitas e absurdas eram postadas, catalogadas e comentadas por milhares de pessoas diariamente. No seu auge, em 2007, chegou a ter 159 mil usuários ativos, que é um número maior que a população de São Caetano do Sul --sendo eu o prefeito-ditador.

Quando o Orkut começou seu declínio, naquela enxurrada de gifs animados e vírus, deixei de conectar a todo tempo como de costume e passei a fazer acessos semanais, mensais, e por fim, semestrais. Ao criar coragem e entrar, me sinto como em uma cidade em ruínas, uma Tebas, uma Constantinopla, com muita história em meio aos destroços. Nenhum tópico é criado há tempos, não há novas mensagens. A Anão ainda mantém exatos 81.492 membros, mas nenhum ativo. São como espectros, meras testemunhas do adeus.

Está tudo lá, intocado, e assim vai ficar --o Google comunicou que manterá uma espécie de arquivo digital das comunidades públicas.

E será muito bom assim, pois o Orkut foi parte importante da nossa formação cultural

virtual, e fonte riquíssima de consulta para aqueles que, no futuro, quiserem entender como era a sociedade no início do milênio.

Prefiro encerrar rapidamente minha visita sem passar pelas minhas outras 19 comunidades, deixando apenas na Anão Vestido de Palhaço uma mensagem enigmática como registro derradeiro da rede: "Libertem o inhame".

MARCOS BARBARÁ, 35, é escritor e criou as seguintes comunidades do Orkut:

Anão Vestido de Palhaço Mata 8', Lenin, de Três', Porque rolamos atrás do queijo', Joquempô, o esporte do futuro', Pepper mordido por um golfinho', Mallandro entrevista Greenspan', dentre outras.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL

Estou sonhando

Pesquisadores alemães descobriram como provocar sonhos lúcidos por meio de estimulação transcraniana

Como você sabe se está acordado ou apenas sonhando que está lendo o jornal? Dizem alguns livros de filosofia que não há como saber: sua vida toda poderia ser um sonho. Mas, com um pouquinho de conhecimento de neurociência, a resposta é quase trivial.

É

somente no estado acordado que a memória dura mais do que uns poucos segundos e

o

mundo tem continuidade minutos e horas a fio --diferentemente dos sonhos, nos quais

você começa em um aeroporto, atravessa a porta e está na praia, e, no instante seguinte, escalando uma montanha. Se você permanece horas em um mesmo lugar, abre a porta e continua no mesmo prédio, e tem acesso a memórias antigas, você está acordado.

Além do mais, normalmente não temos ciência de estarmos sonhando; dos sonhos, em

geral nos lembramos apenas de alguns trechos --os últimos, logo antes de acordarmos.

A não ser no fenômeno chamado de "sonho lúcido", quando a consciência se intromete

no sonho.

Grupos independentes de pesquisadores mostraram recentemente que o sonho lúcido é um estado misto de sono e consciência, nem lá mas nem ainda cá, no qual o cérebro consegue, ainda adormecido, acessar memórias, saber-se sonhando e até interferir na direção do que sonha.

Isso acontece de maneira espontânea quando o cérebro, em vez de acordar de todo, muda apenas parcialmente de estado e produz atividade elétrica de alta frequência, com cerca de 40 oscilações por segundo, características do estado acordado --mas sem sair do sonho.

Um grupo na Alemanha, contudo, foi além e descobriu como provocar sonhos lúcidos.

O truque tem a ver com esperar os voluntários começarem a sonhar, o que pode ser

verificado pelo eletroencefalograma e pela perda de tônus muscular, e então produzir à

força 40 ondas por segundo na região frontal do cérebro dos voluntários adormecidos, usando um equipamento de estimulação transcraniana.

Em quase 80% das tentativas, a manobra induz sonhos lúcidos, com insight e capacidade de mudar o conteúdo do sonho --sem acordar os voluntários.

Para quem acha que não sonha (o que não é verdade; todos sonhamos, e várias vezes por noite), o brinquedo oferece uma janela para o próprio inconsciente. Mas o grupo vê utilidades mais nobres: por exemplo, oferecer a quem sofre de distúrbio de estresse pós- traumático com pesadelos frequentes uma oportunidade de interferir conscientemente em seus próprios sonhos. Parece ficção científica, mas é só ciência.

O preço de nunca negociar

Após radicais matarem reféns, EUA e britânicos são criticados por rejeitar diálogo

Rejeição a negociar contrasta com Europa

Por RUKMINI CALLIMACHI

O e-mail apareceu na caixa de correio de Michael Foley um ano depois de seu irmão

James desaparecer numa viagem de trabalho como repórter ao norte da Síria. Ficou

claro que as pessoas que o retinham queriam uma coisa acima de tudo: dinheiro.

Quando Michael Foley e seus pais, John e Diane, entregaram o e-mail ao FBI (polícia federal dos EUA), um agente deu orientações gerais, mas também algumas severas advertências: os EUA nunca iriam trocar presos por reféns, nem pagariam resgate. Acima de tudo, disseram a eles que era crime recompensar terroristas.

Mais importante, em retrospecto, foi o que o FBI não disse à família: Foley estava no cativeiro em companhia de 12 europeus cujos países têm um histórico de pagar resgates.

A disposição de pagar aos sequestradores é motivo de debate e crescente tensão entre os

Estados Unidos e o Reino Unido, por um lado, e seus aliados europeus, de outro. Do ponto de vista das famílias, há outra linha divisória entre as duas abordagens: muitas nações europeias, a partir do momento que seus cidadãos são capturados, iniciam com vigor uma negociação.

França, Espanha, Suíça e Itália responderam aos sequestradores ativando uma célula de crise em seus ministérios de Relações Exteriores, disse um funcionário europeu de uma agência antiterrorismo.

Em fevereiro deste ano, os europeus já haviam procurado obter provas de vida para fazer uma contraoferta de pagamento de resgate, de acordo com uma pessoa envolvida de perto com a crise. Segundo essa fonte, a quantia média negociada por pessoa estava em torno de € 2 milhões (R$ 6,1 milhões).

Já nos EUA, parentes de reféns se disseram desorientados em meio à crise, e na maior

parte do tempo o governo os deixou por conta própria.

De modo geral, o governo ofereceu solidariedade, mas pouca ajuda prática, disseram a família Foley e seus assessores, o que os deixou sobrecarregados e inseguros sobre o que fazer. "O FBI não nos ajudou muito, temos de admitir", disse Diane Foley.

Autoridades do governo defenderam sua reação à crise dos reféns, dizendo que o governo preparou uma investida arriscada em julho, usando soldados americanos para tentar libertar os prisioneiros na Síria.

Uma autoridade graduada disse que agentes do FBI falavam com a família de Foley "todos os dias", e que três funcionários do birô foram destacados para atendê-los. "Depois desse fato horroroso, é difícil explicar essa política", disse John Allen, ex-chefe militar americano no Afeganistão. "Mas o fato de haver na região americanos que nunca foram resgatados, porque eles sabiam que não havia nenhuma vantagem nisso, tem de ser considerado."

Após o primeiro e-mail, em novembro, os captores voltaram a fazer contato pedindo € 100 milhões (R$ 307 milhões) e a libertação de um número não especificado de prisioneiros muçulmanos. E então, o silêncio.

A mãe de Foley só voltaria a ver o filho oito meses depois, em um vídeo no qual

aparecia ajoelhado na areia, com a faca do executor no pescoço.

Os EUA e o Reino Unido estão entre os poucos países que adotam a concessão zero, argumentando que ao ceder incentivam mais sequestros. Em contraste, países europeus têm repetidamente pagado para libertar seus cidadãos, apesar de declarações em que prometem não fazer isso.

O que a família de Foley desconhecia é que os e-mails eram parte de uma leva enviada

durante quatro meses pelo Estado Islâmico a parentes de 23 reféns ocidentais, incluindo

três americanos.

A publicação on-line Global Post, ex-empregadora de Foley, gastou milhões de dólares

com uma empresa de segurança à procura do jornalista, disse seu presidente, Philip Balboni.

Em maio, as quatro famílias americanas se encontraram, começaram a comparar as exigências de resgate e perceberam que os americanos haviam sido capturados pelas mesmas pessoas.

Semanas depois, enquanto cada vez mais europeus eram libertados, os Foleys souberam de um pagamento de US$ 4,5 milhões (R$ 10,7 milhões) para libertar um refém, segundo Balboni.

"A captação de fundos começou para valer quando já era relativamente tarde", disse Balboni. "Nosso objetivo era obter US$ 5 milhões (R$ 11,9 milhões)."

Apesar de a família ter sido alertada de que poderia ser processada por pagar resgate, mais tarde ela foi informada de que dificilmente seria incriminada, segundo uma fonte oficial graduada.

Mas o FBI os instruiu a não prosseguir, segundo um consultor que acompanha a crise dos reféns.

"Perguntei: 'Por que queremos fazer isso?'", disse. "O que eles disseram foi: 'É assim que você reduz as cifras para uma quantia realista'. A certa altura, eu disse: 'Tem certeza? Acho que só estamos deixando-os com raiva'."

Dinheiro não era a única coisa que os sequestradores queriam. Em outro e-mail, segundo Balboni, eles propuseram a troca dele pela neurocientista paquistanesa Aafia Siddiqui, acusada de tentar matar americanos no Afeganistão.

Foram informados de que a troca era impossível, devido à política de não fazer concessões. Ainda assim, em maio, o sargento Bowe Bergdahl foi libertado pelo Taleban depois de ser trocado por cinco detentos da prisão de Guantánamo. Foi uma mudança significativa na forma como os EUA lidam com esse tipo de situação.

As famílias dos reféns capturados pelo Estado Islâmico ficaram horrorizadas, mas o governo Obama alegou que o caso de Bergdahl não constituía uma exceção, porque ele era prisioneiro de guerra.

Entre abril e maio, um dos reféns libertados descreveu ao FBI como era a instalação petrolífera em Raqqa, na Síria, cativeiro de 23 estrangeiros. Uma tentativa de resgate, afinal frustrada, levou mais de dois meses para ser montada, segundo uma autoridade. Consultores das famílias dizem que esse atraso mostra que o governo não fazia vigilância e por isso posicionou às pressas um avião de observação sobre a área.

Não sabendo da operação de resgate de 3 de julho, a família Foley se empenhou em tentar arrecadar dinheiro para o resgate.

Em 8 de agosto, Obama autorizou os ataques aéreos contra posições do Estado Islâmico no Iraque. Em 12 de agosto, a família Foley recebeu o último e-mail dos sequestradores de James:

"Vocês tiveram muitas chances de negociar a libertação do seu pessoal via transações em dinheiro, como outros governos aceitaram. Também oferecemos a troca de prisioneiros para libertar muçulmanos atualmente detidos, como nossa irmã, a dra. Aafia Siddiqui, mas vocês nos mostraram rapidamente que NÃO é nisso que vocês estão interessados. Vocês e seus cidadãos pagarão o preço por esses bombardeios."

Uma semana depois, um vídeo publicado no YouTube mostrou a decapitação de Foley. Duas semanas após o ocorrido, um vídeo exibia a morte de outro jornalista americano, Steven Sotloff. Mais recentemente, o britânico David Cawthorne Haines, um profissional humanitário, foi decapitado.

Dois outros americanos e dois britânicos permanecem presos. Pelo menos 15 reféns que estavam com Foley, sendo 14 deles europeus, conseguiram ser libertados.

Para garantir que a morte de Foley provoque uma mudança, seus pais querem criar uma organização para famílias de outras vítimas. "Foi uma situação muito, muito assustadora", disse Diane.

"E outros países conduzem isso melhor. Espero que nosso governo e a comunidade internacional analisem o assunto profundamente, e rezamos para que, ao fazer isso, a morte de Jim não tenha sido em vão."

ENSAIO - ERIN MEYER

Olhando uma cultura nos olhos

Sou professora de gerenciamento intercultural na escola internacional de administração Insead, perto de Paris. Há 15 anos estudo como os habitantes de diferentes partes do mundo adquirem confiança, se comunicam, tomam decisões e percebem as situações de modo diferente, especialmente no local de trabalho.

Quando estive em Tóquio recentemente, com um colega japonês, dei uma palestra rápida para 20 gerentes. No final, perguntei se havia algum questionamento ou algum comentário. Ninguém levantou a mão. Meu colega perguntou novamente ao grupo:

"Algum comentário ou perguntas?"

Novamente, ninguém se manifestou, mas ele olhou para cada pessoa na plateia. Acenando para uma delas, disse: "A senhora tem algo a acrescentar?"

Para minha surpresa, ela respondeu: "Sim, obrigada", e fez uma pergunta muito interessante. Meu colega repetiu isso várias vezes. Mais tarde, ele não sabia como explicar o fenômeno.

Então ele disse: "Tem a ver com o brilho nos olhos das pessoas. No Japão, não fazemos muito contato visual direto, como vocês fazem no Ocidente", continuou a explicar.

"Por isso, quando você perguntou se havia algum comentário, a maioria das pessoas não olhava diretamente para você. Mas algumas no grupo estavam olhando diretamente para você, e seus olhos brilhavam. É um indício de que gostariam que você as chamasse."

Isso não é algo que aprendi em minha educação em Minnesota, ou durante os anos em que morei na Europa e na África.

Depois da viagem, voltei à minha sala de aula, onde tenho alunos de todo o mundo. Senti-me embaraçada e incomodada ao perceber que deixei de notar muitos olhares brilhantes.

No Japão existe uma expressão, "kuuki yomenai", que se refere a alguém que não consegue entender o clima. Na minha viagem, percebi que, com um pouco de curiosidade e de ajuda, pude melhorar minha habilidade para ler a atmosfera japonesa.

Na economia de hoje, um italiano pode negociar um acordo na Nigéria ou um alemão pode dirigir um time de brasileiros.

Na França, fiquei surpresa ao ouvir americanos se queixarem de que seus colegas franceses eram desorganizados e estavam sempre atrasados. Mas alguns colegas indianos estavam frustrados porque aqueles mesmos franceses eram rígidos e inadaptáveis.

Enquanto muitos americanos consideram o sistema francês hierárquico, um gerente chinês me disse recentemente: "Trabalhar com franceses é incrível, porque eles realmente acreditam que todo mundo é igual, da secretária ao presidente".

Mapeio as culturas em dimensões de comportamento: comunicação, avaliação, persuasão, liderança, decisão, confiança, divergência e organização.

Por exemplo, a cultura francesa fica entre as culturas americana e indiana na dimensão organização -daí as impressões opostas de caos contra rigidez.

Se você chefia uma equipe multicultural, precisa encontrar flexibilidade para entender melhor essas dimensões: observe o que torna os gerentes locais bem sucedidos, explique o seu próprio estilo e talvez aprenda a rir de si mesmo. Afinal, isso significa aprender a chefiar de maneiras diferentes.

Concentre-se em compreender o comportamento em outras culturas e continue localizando os olhares brilhantes na sala.

A complexa psicologia da violência doméstica

Por JODI KANTOR

Até pouco tempo Janay Palmer Rice, 26, era pouco conhecida. Era a parceira de Ray Rice, jogador do time de futebol americano Baltimore Ravens.

Mas, depois de o contrato de Rice ter sido encerrado pelo time, Janay tornou-se a esposa agredida mais famosa dos Estados Unidos, defensora ferrenha de seu marido e, para sobreviventes e especialistas em violência doméstica, um exemplo público extraordinário da complexa psicologia das mulheres maltratadas por homens.

"Saibam que vamos continuar a crescer e mostrar ao mundo o que é o amor verdadeiro", disse Janay no Instagram. "Tirar do homem que eu amo alguma coisa pela qual ele trabalhou a vida inteira seria horrendo. Nação Raven, amamos você!"

O post deixou implícito que a agressão que ela sofreu foi tirada de contexto, e não está

claro se ela se vê como vítima.

Mas milhares de outras pessoas, incluindo sobreviventes de violência doméstica e terapeutas que as atendem, procuraram insights em sua própria experiência para tentar responder a uma pergunta: um homem bate em uma mulher com tanta força que ela cai ao chão, desmaiada.

Ele parece cuspir sobre o corpo dela. Por que ainda ela se casaria com ele e ficaria ao seu lado após essa cena ter sido mostrada em todo o mundo?

A gerente de recursos humanos Beverly Gooden foi ao Twitter para explicar. "Tentei

sair de casa uma vez, depois de uma agressão, e ele me impediu", ela escreveu a respeito de seu ex-parceiro, acrescentando o hashtag #whyistayed (#porquefiquei). "Achei que o amor superaria tudo", ela acrescentou em mensagem subsequente.

Outras sobreviventes de violência doméstica levaram o hashtag adiante e contaram as razões que as levaram a ficar com homens que as faziam sofrer. "Eu achava que era a única capaz de amar e curar esse homem", diz um post de Chicago.

Depois de divulgar seu post, Janay Rice afastou-se das redes sociais, fugindo do que descreveu como "negatividade". Mas sua história de vida pode ajudar a explicar suas ações: em aparições públicas e entrevistas, Janay pareceu ser apegadíssima a seu marido, que tem 27 anos, financeiramente dependente dele e totalmente investida nele.

Os dois se conheceram na adolescência, em Westchester, em Nova York. Começaram a namorar na primeira temporada de Rice com o Ravens, em 2008, e ela se mudou com ele para Baltimore, matriculando-se na Universidade Towsown, da região.

Antes de completar a faculdade ela engravidou. Os dois batizaram sua filha de Rayven, nome que sugere até que ponto ambos estavam totalmente envolvidos com a carreira de Rice.

Janay voltou às aulas e formou-se em comunicações, mas não se sabe se ela teve uma vida profissional independente. Em 2012, Rice assinou um contrato de US$ 35 milhões (R$ 84 milhões) com Ravens até 2017.

Vários especialistas em violência doméstica fizeram a ressalva de que há muito que não é sabido no caso dos Rice; para começar, não se sabe se o jogador de futebol bateu em sua mulher em mais de uma ocasião.

Mas disseram que a dependência econômica é um dos principais elementos que permitem prever se uma mulher vai deixar um parceiro que a agride.

"É incrivelmente difícil sair de uma relação quando você depende financeiramente do parceiro", disse Jacquelyn Campbell, professora da Universidade Johns Hopkins.

Em fevereiro, um ano após Ravens conquistar o Super Bowl, Ray Rice deixou Janay inconsciente num elevador em Atlantic City, em Nova Jersey (o vídeo parece mostrar Janay batendo nele ou o empurrando também, algo que, segundo especialistas, não é incomum em casos de violência doméstica).

Em março o jogador foi indiciado por agressão física, acusação passível de ser punida com três a cinco anos de prisão.

Testemunhar contra o jogador teria significado o fim de sua carreira no futebol americano, causando constrangimento ao time e possivelmente levando o pai de sua filha a parar na cadeia. Em vez disso, Janay Palmer casou-se com ele no dia seguinte ao indiciamento.

"Muitas vezes uma vítima fica tão dependente do parceiro para tudo que não consegue se imaginar sem ele", disse Ramani Durvasula, professora de psicologia na Universidade California State, em Los Angeles. "Não sei se alguma de nós teria força e coragem para resistir a uma organização de bilhões de dólares e ao homem que a gente ama."

Mas, agora que o vídeo da agressão circulou, Ray Rice foi afastado, sua carreira está em risco e o salário acabou.

Karma Cottman, diretora-executiva da Coalizão Contra a Violência Doméstica em Washington, teme que o questionamento público sobre o relacionamento possa prejudicar Janay.

Quando uma nova vítima chega procurando ajuda, contou Cottman, "a primeira coisa que queremos dizer é 'por que você não o larga, por que não cai fora?'". Mas é a abordagem errada, "porque o isolamento faz parte do ciclo da violência.

Geralmente temos cinco a sete encontros com a pessoa até ela deixar o parceiro que a agride, de uma vez por todas."

Pesquisa sobre Eichmann desmente banalidade do mal

Por JENNIFER SCHUESSLER

Mais de 50 anos após ser lançado, "Eichmann em Jerusalém", de Hannah Arendt, ainda provoca polêmica, tendo acumulado um rol de críticos que continuam a desconstruir o retrato traçado pela filósofa do nazista Adolf Eichmann como exemplo da "banalidade do mal" -um burocrata frio, que agiu quase sem pensar e "nunca percebeu o que fazia".

Bettina Stangneth é autora de "Eichmann Before Jerusalem: The Unexamined Life of a Mass Murderer" (Eichmann antes de Jerusalém: a vida não estudada de um assassino em massa), publicado recentemente em tradução inglesa pela Alfred A. Knopf. Ela não começou querendo se somar aos críticos. Filósofa de Hamburgo, estava interessada na natureza das mentiras.

Em 2000, ela se propôs a escrever um estudo de Eichmann, chefe de Assuntos Judaicos do Terceiro Reich, julgado em Israel em 1961, à luz de dados que apareceram nas últimas décadas.

Então, enquanto lia as memórias e outros depoimentos produzidos por Eichmann enquanto viveu escondido na Argentina após a guerra, Stangneth encontrou uma anotação longa que ele escreveu descartando a filosofia moral de Immanuel Kant. O texto pareceu contradizer a ideia de Arendt sobre a "incapacidade de pensar" de Eichmann. "Fiquei totalmente chocada", Stangneth comentou. "Não conseguia acreditar que ele fosse capaz de escrever algo assim."

O livro de Stangneth cita vários documentos para oferecer o que, segundo estudiosos, seria o argumento mais definitivo já apresentado em favor da ideia de que Eichmann, enforcado em 1962, não foi o simples cumpridor de ordens que afirmava ser, mas sim um nacional-socialista fanaticamente dedicado à causa.

Se pesquisadores anteriores prejudicaram os argumentos de Hannah Arendt, Stangneth os "pulverizou", disse a historiadora Deborah E. Lipstadt, da Universidade Emory em Atlanta.

"Eichmann não foi um sujeito encarregado por acaso de fazer um trabalho sujo. Exerceu um papel crucial e o fez com engajamento total", disse Lipstadt.

O cerne de "Eichmann Before Jerusalem" é um retrato detalhado de Eichmann e do

círculo de ex-nazistas e simpatizantes que o cercava na Argentina. O estudo é baseado em grande parte em materiais que nunca tinham sido examinados, disse Stangneth.

Partindo do trabalho de outros, ela montou o quebra-cabeça dos chamados "Argentina Papers" (Documentos da Argentina), mais de 1.300 páginas de memórias e entrevistas com Eichmann feitas em 1957 pelo holandês Willem Sassen, ex-nazista que morava em Buenos Aires.

Stangneth também descobriu transcrições desconhecidas e encontrou provas de que o círculo de Sassen incluiu mais pessoas do que estudiosos reconheceram.

O círculo de Sassen se reunia quase toda a semana para fornecer materiais para um livro

que exporia o Holocausto como um exagero judaico. Mas Eichmann tinha um objetivo contraditório: reivindicar seu lugar na história.

Os fatos que confirmavam a escala do massacre se acumularam à medida que Eichmann relatou os rigores do que descreveu (sem ironia, como Stangneth observa) seu "trabalho arrasador".

Stangneth cita uma longa diatribe de Eichmann sobre seu "dever ao nosso sangue": "Se 10,3 milhões de inimigos tivessem sido mortos", declarou, aludindo aos judeus, "cumpriríamos nosso dever", assustando seus ouvintes. "Não posso lhes dizer outra coisa, pois é a verdade! Porque a negaria?"

Ouvindo Eichmann antes de Jerusalém, Stangneth vê um mestre manipulador, hábil em fazer a razão voltar-se contra ela própria. "Como filósofa, você quer proteger o pensamento como algo belo. Não quer pensar que alguém é capaz de pensar não ama o pensamento."