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PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DA DISCIPLINA AUDIOVISUAL DA ESCOLA POLITÉCNICA DE SAÚDE JOAQUIM VENÂNCIO 1. A
PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DA DISCIPLINA AUDIOVISUAL DA ESCOLA POLITÉCNICA DE SAÚDE JOAQUIM VENÂNCIO 1. A

PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DA DISCIPLINA AUDIOVISUAL DA ESCOLA POLITÉCNICA DE SAÚDE JOAQUIM VENÂNCIO

1. AUDIOVISUAL NO ENSINO MÉDIO

O audiovisual tem como finalidade realizar-se como crítica da cultura, como instrumento de diálogo com a linguagem textual, sem, no entanto, negar a sua especificidade oriunda da linguagem cinematográfica. Em tempos de semiformação mitificada pela sociedade espetacular, o audiovisual cumpre um papel importante na formação dos alunos como elemento intelectual e artístico capaz de forjar leituras de mundo autênticas, unindo elaboração crítica sobre a realidade e sensibilidade. Portanto, o audiovisual na educação além de se realizar como crítica da sociedade produtora de mercadorias, incide sobre o processo de formação humana a partir de um horizonte de criação e liberdade, permitindo aos jovens problematizar o existente e imaginar novas formas de sociabilidade humana, características presentes no projeto de uma educação politécnica. Neste sentido, o audiovisual na educação se articula com diversos campos de conhecimento, em especial com a história, a filosofia, a literatura e as artes de modo geral, dando conta de um conteúdo inovador para a formação de nível técnico em saúde. A educação audiovisual do aluno implica diretamente uma educação do olhar como crítica da imagem, bem como um aprendizado da linguagem audiovisual através de um processo coletivo de produção que inclui construção do argumento e roteiro através de pesquisa, filmagem, produção e edição. Cabe ressaltar que a linguagem audiovisual proporciona ao aluno um conhecimento acerca das interfaces entre comunicação, informação e saúde, a partir de uma educação baseada na técnica, no olhar e na crítica,além de estimular novas formas de comunicação: mais crítica e criativa, e que faça sentido e se articule com os princípios e diretrizes do SUS. Portanto, a realização de uma produção audiovisual com os jovens do Ensino Médio, tendo como referência a educação politécnica, não passa apenas pelo domínio das tecnologias de produção, reprodução e difusão das imagens, mas fundamentalmente pela compreensão do papel da proliferação das imagens no mundo real. O como estou produzindo não se separa do que estou produzindo, ou seja, a forma como produzo não se separa do conteúdo da produção. Assim, a produção audiovisual das turmas do Ensino Médio da EPSJV não separa o domínio das câmeras, das ilhas de edição de um

processo de formulação onde a crítica da imagem é o eixo central, tendo como referência a dinâmica real do cotidiano destes jovens e da realidade contemporânea.

2. O CURSO DE AUDIOVISUAL

2.1 JUSTIFICATIVA E OBJETIVO GERAL

Idealizado e coordenado pelo NUTED, esse curso tem como objetivo geral familiarizar os alunos com as possibilidades da linguagem audiovisual dentro de uma dinâmica que reúna teoria e prática, para propor a leitura crítica da sociedade de imagens. Além do estudo da linguagem cinematográfica como expressão artística, interessa-nos refletir sobre o uso da imagem como instrumento político, através de sua desconstrução e da construção de uma imagem crítica. Cientes de que já existe, em diversos cursos oferecidos pela escola, um farto uso de material audiovisual (fotografias, filmes, documentários, etc), esse curso busca complementar essa relação, dando ao aluno instrumentos para trabalhar de forma crítica essas imagens. Reforçamos ainda que se trata de uma estratégia educacional que permite seu uso de forma teórica e prática na formação dos nossos alunos como trabalhadores da saúde. O curso atravessa os 3 anos letivos do ensino médio.

2.2 METODOLOGIA

O curso audiovisual foi pensado a partir de um conjunto de metodologias que se diferenciam e se combinam ao longo dos três anos, dentre elas estão: cineclubismo, história dos movimentos artísticos de vanguarda, estudo crítico da estrutura da narrativa cinematográfica, cartas audiovisuais e produção audiovisual. A realização de cineclubes têm como objetivo a desconstrução de um olhar naturalizado sobre o cinema comercial, bem como uma aproximação do conteúdo da experiência social que é o cinema. O cineclubismo possibilita a criação de um incômodo nos alunos através de exibições de filmes que possuem uma linguagem cinematográfica diferenciada dos Blockbusters. Com a história crítica dos movimentos artísticos de vanguarda, nosso objetivo primeiro é provocar o estranhamento. Nossa referência aqui é o método do estranhamento desenvolvido por Bertold Brecht na fase do teatro dialético, em especial a intencionalidade de combinar divertimento e aprendizado através da não

identificação com o mundo, potencializando na alienação artística a força do negativo. O efeito do estranhamento sistematizado pelo dramaturgo projeta a realização de um conhecimento posto na subversão do positivo, uma tentativa de salvar a racionalidade do negativo através da distância e da reflexão. É preciso impulsionar uma educação do olhar com base numa ruptura com o cinema comercial que institui a naturalização do filme como dimensão da realidade. Aqui apresenta-se uma discussão clássica do cinema como identidade entre a imagem em movimento e a realidade. A ideologia burguesa elaborou uma estética onde as obras de arte se apresentam como expressão do real, mantendo oculto os aspectos artificiais do cinema a fim de sustentar a impressão de realidade. Neste sentido, o cinema de vanguarda se configura como um espaço social e político de descortinar o fetiche da linguagem cinematográfica como realidade. Além das aulas de história do cinema e das aulas sobre a linguagem cinematográfica, são realizados pequenos experimentos, além de um processo coletivo de produção audiovisual. Um destes experimentos é a elaboração da metodologia das cartas audiovisuais, que alia a questão da comunicação audiovisual com a educação do olhar, criando um diálogo e uma reflexão cinematográfica entre os alunos. Cada grupo de alunos interpreta a carta do outro unindo a mensagem à linguagem cinematográfica, exercitando assim o seu olhar diante de uma obra cinematográfica, bem como sua potencialidade criativa. Por fim, os alunos em grupos são desafiados a elaborar/realizar um processo de produção audiovisual como momento final do curso.

2.3 PROGRAMA

2.3.1 - Primeiro Ano

Aulas durante 6 sábados, no formato de cineclube, sempre com a exibição de um filme seguido de discussão, abordando aspectos importantes da produção cinematográfica. Como módulo introdutório, busca apresentar aos alunos o universo do cinema, suas possibilidades expressivas, variedade de linguagens, possibilidades, etc. Nesse momento, pretendemos travar conhecimento com a bagagem cultural trazida por esses jovens, apresentando novos horizontes e lançando os elementos fundamentais com os quais trabalharemos, mais extensivamente, nos anos seguintes.

2.3.2 - Segundo Ano

As aulas contabilizam 60 hs articulando quatro eixos principais:

1. Fundamentos teóricos;

2. História das vanguardas artísticas (Brasil e Mundo);

3. Linguagem cinematográfica;

4. Imagem no mundo contemporâneo

Nos Fundamentos teóricos nossa intenção é apresentar as principais teorias da imagem (fotografia, cinema), bem como as modificações trazidas pelo surgimento da imagem fotográfica, cinematográfica e seus meios de difusão. Os conceitos de realismo e formalismo também estão presentes e são articulados com exibição de trechos de filmes. Com o eixo História das vanguardas artísticas (Brasil e Mundo), apresentamos os movimentos/escolas mais importantes do cinema (neo-realismo, surrealismo, expressionismo; cinemas-novos, underground, etc). Aprofundamos aspectos da construção do discurso cinematográfico hegemônico (narrativo, gênero, norte-americano) e suas alternativas, bem como uma reflexão sobre o imaginário construído pelo cinema e suas implicações políticas. No eixo Linguagem cinematográfica, apresentamos os elementos básicos da linguagem cinematográfica (noções de plano, montagem, mise-en-scène, utilização da música, fotografia, etc). Um outro aspecto deste eixo tem como base o cinema documentário, princípios e matrizes (documentarismo inglês; cinema-verdade; cinema-direto; o documentário brasileiro). No eixo Imagem no mundo contemporâneo provocamos uma discussão sobre a imagem na sociedade atual, em especial a proliferação de imagens substituindo a experiência real (sociedade do espetáculo) e a construção da contra-imagem. Como uma das referências temos o cinema contemporâneo com seus principais autores e escolas, bem como a reflexão sobre a era da reprodutibilidade técnica com base no dvd, tv digital, internet, web 2.0, etc.

2.3.3 Terceiro Ano

As aulas contabilizam 60 hs, que são divididas em oficinas de duração variável, enquadrando os principais aspectos da produção audiovisual. São elas:

Roteiro – estudo do drama, suas origens e as especificidades do texto cinematográfico. Análise de roteiros de curtas-metragens e produção de um exercício de roteiro a partir de temáticas de interesse do grupo. Fotografia – Estudo dos fundamentos técnicos da fotografia para cinema e vídeo, tais como enquadramento, iluminação, movimentos de câmera, etc. Produção de pequenos exercícios filmados pelos alunos. Direção – Estudo dos princípios teóricos e práticos da direção de cinema, tais como:

decupagem, mise-em-scene, etc. Realização de pequenos exercícios filmados pelos alunos. Edição – Estudo de fundamentos da montagem cinematográfica, de suas principais vertentes. Produção de pequenos exercícios de edição a partir do material filmado nas oficinas passadas. Crítica de cinema – Laboratório de crítica cinematográfica, abordando aspectos levantados nas oficinas anteriores, além de questões relativas à história e à linguagem cinematográfica, temas centrais no segundo ano do curso. Novas tecnologias e mídias – Espaço para discussão do conceito de tecnologia, tentando vê- lo não como fetiche, mas como instrumento na construção de autonomia. Discutir as possibilidades e limites apontados pela nova realidade tecnológica da produção e difusão do audiovisual.

2.3.4 - Avaliação

A avaliação tem como referência o processo de ensino-aprendizagem em sua totalidade. Conta a participação do aluno nos debates teóricos, assim como sua expressividade na recepção dos filmes apresentados. O envolvimento dos alunos nos experimentos audiovisuais e no processo de produção audiovisual. Fortalecemos aqui a avaliação do aluno a partir de um processo coletivo de produção do conhecimento, que alia linguagem audiovisual e crítica da cultura.