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INTRODUÇÃO

1. Histórico da pesquisa

Esta tese tem uma história um pouco diferente dos tradicionais trabalhos académicos. As reflexões sobre a cerâmica marajoara aqui apresentadas não foram geradas em um laboratório de análises de material arqueológico proveniente de escavações, como costumeiro, mas sim em empreitadas curatoriais de diferentes naturezas; visitas a coleções museológicas, seleção de peças para exposições, orientações para restauro e expografias; produção de

imagens e textos para catálogos, além das observações sempre surpreendentes

sobre o impacto visual causado pelas peças sobre o público em geral.

Este contato íntimo com as peças mais exuberantes e bem preservadas

da arqueologia amazônica, aos poucos foi possibilitando um entendimento

bastante intuitivo de algumas recorrências e princípios básicos de composição

da cerâmica arqueológica desta região, e em particular, da cerâmica marajoara. Quando, em 2002, a oportunidade de curar a enorme coleção de arqueologia

amazônica reunida pelo Instituto Cultural Banco Santos se apresentou, nos debruçamos sobre ela de forma a transformar este conhecimento intuitivo em conhecimento científico, tarefa esta bastante complicada, vistos os interesses

divergentes daquela instituição que sempre privilegiou o potencial expositivo de suas coleções. Mas, graças ao apoio buscado junto ao IPHAN, e membros da equipe museológica do Instituto, conseguimos garantir uma abordagem mais

científica, tanto na documentação como na catalogação do material, agregando as informações disponíveis na literatura académica especializada, e ao mesmo

tempo abrindo a coleção para a interlocução com pesquisadores da área. Este lento e minucioso trabalho foi interrompido com o fechamento do Instituto e a

transferência da coleção para o MAE.

Foi a partir da disponibilização da coleção no

MAE que vimos

a

oportunidade de transformá-la em objeto de estudo para um projeto acadêmico- científico de doutoramento, propondo então ao programa de pós-graduação do

museu

uma mudança temática bastante radical (de um projeto sobre

a

arqueologia das aldeias circulares do Brasil Central, para um estudo estilístico

de cerâmica marajoara).

2. Delimitação do Tema

A correlação entre princípios estilísticos observados na cultura material de uma sociedade e suas formas de sociabilidade é um tema clássico da arqueologia desde os seus primórdios, mas que vem sendo repensado a partir de um recente e renovado interesse da antropologia em estudos de cultura

material e de uma nova antropologia da arte (Conkey, 1990; Morphy, 1994;

Gosden, 2001). A idéia de explorar este tipo correlações na cerâmica amazônica, e a delimitação de um tema mais específico para se trabalhar com a referida coleção, levou em consideração, inicialmente, o aproveitamento máximo

de alguns potenciais exibidos pela própria coleção, entre eles, a grande

quantidade de objetos cerâmicos da fase marajoara, decorados e inteiros.

Pensamos então em aprofundar o tema da representação do corpo na cerâmica, tema este de fácil inserção dentro do cenário teórico da atual antropologia

amazônica, onde a "construção da pessoa" e a "fabricação do corpo" entre as

sociedades indígenas já constituem temas bem desenvolvidos (Viveiros de Castro, Seeger e da Matta, 1979). Além do mais, vislumbramos a possibilidade

de se contrapor uma perspectiva arqueológica sobre as formas de "materialização do corpo" a uma perspectiva etnológica sobre a "inconstância da alma selvagem" (Viveiros de Castro, 2002). Para tal, isolamos provisoriamente duas categorias de objetos que representam corpos tridimensionalmente e que são numericamente expressivas na coleção: as urnas funerárias e as estatuetas

antropomorfas da fase marajoara.

As análises destes objetos engendraram algumas dificuldades metodológicas inerentes ao trabalho com coleções desprovidas de uma contextualização arqueológica precisa, sobretudo quanto aos atributos funcionais dos objetos. Urnas funerárias ou recipientes para fermentação de

bebidas?

ídolos ou chocalhos antropomorfos, ou ambos? Tentamos evitar a

corriqueira, mas pouco segura associação entre cerâmica "decorada" e uma natureza necessariamente "cerimonial", categoria classificatória bastante

frequente nas análises cerâmicas arqueológicas, mas pouco qualificada. Ao

âncoras conceituais e alguns parâmetros de

invés,

procuramos

algumas

variabilidade, tanto na etnologia, como na arqueologia da região, de forma a

fazer com que os princípios estilísticos identificados nestes objetos pudessem

servir para aprofundar e construir novas maneiras de se entender as formas de

sociabilidade das populações pré-coloniais da Amazónia.

Ao explorarmos o universo etnográfico dos rituais funerários das sociedades indígenas amazônicas e dos contextos funerários documentados pela arqueologia, percebemos que, em ambos os lados, o vasto e rico material

levantado apontava para questões de relevância fundamental para se entender formas e graus de complexidade social e organização política destas

sociedades, uma vez que muitas destas formas e relações de hierarquia e poder

estão relacionadas às concepções de ancestralidade, de vida e morte, e de

corpo e alma.

Por outro lado, o universo contextual das estatuetas na etnografia e na

arqueologia da região se mostrou bem menos conhecido, apesar de alguns

estudos clássicos na etnografia Karajá (como os de Baldus,1936; Hartman,

1973; Chiara,1970; e mais recentemente Campos, 2007), e do artigo de Reichel-

Dolmatoff (1961) sobre a estatuária Cuna da Colômbia, oferecerem parâmetros

documentais e interpretativos pontuais. Além disso, na Amazónia pré-colonial, o

universo das estatuetas, marajoaras e tapajônicas, já tinha sido explorado

Roosevelt (1988) e Schaan (2001b) a partir de questões mais relacionadas à

identidade de género do que a formas de organização social. Também já

tínhamos explicitado estas questões de identidade e género a partir de algumas estatuetas da coleção Instituto Cultural Banco Santos (Barreto, 2003 e 2004).

Por estes motivos, deixamos em suspenso o estudo das estatuetas da coleção, e escolhemos a cerâmica funerária como o objeto propriamente de

estudo para esta tese. Isto posto, estamos convencidos de que a cerâmica da

fase marajoara deve ser estudada enquanto um sistema que engloba várias

categorias conceituais de objetos, cuja relação entre as categorias encerra

muitos dos princípios estilísticos aqui identificados. Assim sendo, a relação entre urnas funerárias antropomorfas e a estatuária não foi ignorada nesta tese.

3. Organização dos capítulos

No capítulo inicial, intitulado Arte, Arqueologia, e Transformações

Sociais na Amazónia Antiga justificamos a relevância dos temas escolhidos,

apresentamos as principais inspirações teóricas, assim como as implicações das teorias para as abordagens metodológicas empregadas. Aqui, a

arqueologia dos cadeados da Amazónia é revisitada no sentido de avaliar as

diferentes formas com que as características estéticas e tecno-estilísticas dos

artefatos foram

utilizadas para construir

argumentos

a favor

ou

contra o

desenvolvimento de sociedades complexas na Amazónia pré-colonial.

Apontamos algumas discrepâncias entre esta arqueologia de cacicados

e as teorias advindas da etnologia, que desde as "sociedades contra o Estado" de Clastres, até as sociedades instáveis do perspectivismo amazônico de

Viveiros de Castro, parecem apontar formas de sociabilidade mais igualitárias.

Introduzimos a idéia de que o estudo dos estilos e da arte, de uma forma dinâmica, isto é na sua variabilidade regional e temporal e, sobretudo, na esfera dos objetos rituais, possa constituir uma ponte para um diálogo entre a

arqueologia e a etnologia, em direção a uma visão consensual.

A partir das antropologias da arte praticadas por Lévi-Strauss e Alfred

Geil, explicitamos algumas das teorias utilizadas em nossas análises:

respectivamente, sobre a função social da arte e a teoria de agência dos

objetos. Destas teorias decorre nossa escolha por uma definição operacional de

estilo, conforme proposta por Peter Roe, e por um método de análise descritivo

dos princípios

e indutivo, de identificação de recorrências para a definição

estilísticos sob

metodológicas, levantadas a partir do conhecimento etnográfico do mundo da

mágica ritual, também são aqui anunciadas.

os quais

foram

concebidos os

artefatos. Outras questões

No segundo capítulo, intitulado Rituais Funerários e os Meios Místicos de Reprodução Social na Amazónia desenvolvemos algumas das implicações da etnologia de rituais funerários na Amazónia para a análise arqueológica de objetos funerários. Em particular examinamos os funerais enquanto momentos

de forte produção estética direcionada tanto para a reprodução como para a transformação de formas tradicionais de sociabilidade.

Concepções ameríndias sobre a morte e o sobrenatural constituem as bases para diferenciar rituais voltados para a ressocialização dos mortos e aqueles voltados para reafirmar as estruturas hierárquicas dadas pela ancestralidade.

Retomamos as sequências dos ritos em dois casos de ritual funerário bem estudados na etnologia amazônica, o ritual funerário Bororo, e o Kuarup, observando em cada sequência, o papel dos objetos envolvidos, os contextos de intenções à sua volta, e a agência e protagonismo destes objetos, desde sua criação até o seu descarte. Propõe-se assim algumas idéias em direção a uma etno-arqueologia dos rituais funerários que possa ser utilizada como parâmetro interpretativo da cerâmica funerária arqueológica da Amazónia.

No terceiro capítulo, intitulado Arqueologia das Urnas Funerárias da Amazónia, construímos um panorama sobre as urnas funerárias na arqueologia da Amazónia, em especial, no que diz respeito às variações estilísticas e diferentes maneiras de representar corpos humanos. Da baixa Amazónia, até os

contrafortes andinos, estabelece-se diferentes graus de variabilidade na representação humana, possivelmente correlacionados à posição das diferentes

sociedades em relação aos fluxos inter-regionais, aos diferentes estilos de se

demarcar a diferenciação social entre os indivíduos e, finalmente, às diferentes

maneiras de se legitimar autoridade e poder. Propõe-se que esta variabilidade também seja resultante da variabilidade etno-linguística dos povos que ocuparam a região antes do contato, particularmente da história de expansão das populações proto-Aruaque e proto-Tupi. A partir disso, constrói-se um modelo preditivo polarizado entre dois tipos de sociedades, com graus de variabilidade estilística e formas de representação humana na cerâmica

funerária correspondentes.

No

quarto

capítulo,

intitulado

O

Estilo

da

Cerâmica

Cerimonial

Marajoara especificamos a abordagem metodológica para a definição de uma

cerâmica cerimonial marajoara e o trabalho de análise desenvolvido com os vasilhames da coleção do Instituto Cultural Banco Santos no MAE. Alguns

princípios estilísticos gerais à cerâmica marajoara são apresentados como

resultado das análises, sobretudo, aqueles que podem ser identificados como

definidores de uma arte de sociedades de máscaras, conforme definido por

Lévi-Strauss, e as suas "tecnologias de encantamento".

No quinto e último capítulo, intitulado O Despertar das Almas: as Urnas

Funerárias Marajoara apresentamos uma tipologia das urnas funerárias marajoara, onde os tipos variam entre um modelo constituído nos moldes

reconhecidos pela literatura da antropologia da religião de construção de ídolos,

e outro, cuja função emblemática parece ser mais predominante. Colocamos a

hipótese de que o estilo funerário marajoara pode ser resultante de uma busca

e

pertencimento a uma identidade marajoara coletiva perante o mundo exterior, e

uma relação de idolatria de entidades míticas ancestrais, ou sobrenaturais, que

reforçaria a rivalidade entre grupos internos à sociedade marajoara.

pela

conciliação

entre

uma

relação

de

identificação

emblemática

Esta hipótese pode explicar algumas das discrepâncias observadas entre as cerâmicas funerárias marajoara e as demais urnas funerárias conhecidas para Tradição Polícroma no restante da Amazónia, frequentemente associadas às populações proto-Tupi, e talvez elucide os processos que levaram à extinção da sociedade marajoara por volta de 1400 d.C., ou sua absorção por povos subsequentes.

Na Conclusão apontamos o potencial explicativo das teorias sobre o perspectivismo ameríndio para a arqueologia. Retomamos o modelo apresentado no terceiro capítulo para o caso específico da cerâmica funerária marajoara, e tecemos algumas considerações finais quanto à posição dos

cacicados de Marajó entre os dois pólos do modelo proposto e sua inserção no quadro de transformações regionais quando de sua decadência.