Carta 1.

Cidade Sem Número, III de novembro de MMMVIII.
Amélia,
Espero que esteja bem. Espero que esteja viva. Espero que esteja de volta nesse
endereço.
Escrevo para me desculpar por ter faltado a todos os últimos encontros da
Resistência.
Encontre-me na estação B do Expresso Turístico e te explicarei o que aconteceu.
Saudades,
Mariana.

Carta 2.

São Paulo, VI de novembro de MMMVIII.
Sei que você não é Mariana. Responda dizendo-me quem escreve e o que
aconteceu com Mariana, ou rastrearei essa carta e as consequências serão graves.

Carta 3.

Cidade Sem Número, VIII de novembro de MMMVIII.
Amélia,
Fique calma. Sou eu, Mariana. Estou vivendo na Cidade Sem Número agora.
Você não conseguiria rastrear a carta, a tinta se apaga depois de lida. Verifique,
se preferir. Nenhuma letra estará legível.
Preciso te ver na estação B do Expresso Turístico. Por favor. É importante.
Responda-me com data e hora do encontro, sempre por correio. A internet está
completamente grampeada, mas há pessoas da Resistência infiltradas nos correios.

Carta 4.

São Paulo, X de novembro de MMMVIII.
Mariana,
Se for você mesma, sinto muito. Isso é tudo absurdo.
Se não for você, então isso é uma cilada e é a alternativa mais provável. Eu não
poderia jamais me aproximar do Expresso Turístico. A Mariana que conheci sabia
disso.

Carta 5.
Cidade Sem Número, XII de novembro de MMMVIII.
Amélia,
Sou eu e estou sã.
Escreverei uma carta explicando tudo em detalhes. Não é o que você está
pensando.
Fique tranquila.

Carta 6.
Cidade Sem Número, XIII de novembro de MMMVIII.
Querida Amélia,
Escrevo para me desculpar por ter faltado a todos os últimos encontros. Sinto
muito que tenha te feito esperar e que não tenha dado notícia durante meses. O
que ocorreu foi que há alguns meses peguei um Expresso Turístico por engano.
Pois é, parece absurdo, mas ocorreu dessa maneira. A minha intenção era pegar
o trem de todos os dias, que vai até o centro e passa perto do trabalho. Mas algo de
estranho aconteceu naquele mês de agosto.
Você não estava na cidade e não percebeu as consequências que o Decreto nº V
da Lei MDXV/MMMV causou nas nossas vidas. Eu já tinha observado que as coisas
estavam meio turvas, como se observadas por fora de um aquário e um pouco
insossas, como se eu estivesse resfriada. Pensei que eu estivesse enlouquecendo,
quando me dei conta de que era por causa das eleições. O Decreto que citei, como
você sabe, deveria permitir certas propagandas políticas diretamente conectadas
ao nosso sistema nervoso, o que já é cruel além do imaginável, mas resultou em
coisa pior... Resultou em distorções da realidade.
Eu estava pensando em maneiras de impedir todos esses abusos junto ao
coletivo de Resistência, mas nós já estávamos quase fora do controle. Sentíamo-nos
aprisionados dentro do nosso corpo, com alguma consciência de que algo ia mal,
mas sem capacidade cognitiva para agir.
Nós não podíamos enxergar além de um metro com exatidão, fora que os traços
físicos estavam se perdendo em nuvens esbranquiçadas quando olhávamos para as
outras pessoas. Assim, paramos de olhar para os rostos das pessoas e apegamo-nos
cada vez mais a telas de aparelhos eletrônicos. Os cheiros estavam moles, diluídos e
quase não se percebia a forte fumaça da poluição. Os sons estavam picados, foscos
e embolados, não se distinguia o que era buzina do que era voz humana.
Os dias turvos e as coisas estranhas que aconteciam não passavam de parte das
barbaridades manipuladoras que você já conhece. Ainda bem que você estava fora
da cidade e bem longe. O Decreto nº V da Lei MDXV/MMMV autorizou alterações
significativas nas nossas mentes e no mundo projetado por elas. Alterações ainda
piores das que nós, da Resistência, já sabíamos que existiam.
Então um dia (você sabe que eu estava na mira da Guarda), peguei o Expresso
Turístico por engano. Claro que foi tudo calculado por eles para me levar até lá, mas
eu não consegui me dar conta. Não antes de estar dentro de um vagão.
Eu estava na plataforma, aguardando o trem como sempre.
Surpreendentemente, entrei no trem que estacionou na plataforma sem observar
com atenção de que unidade se tratava. Eu estava me sentindo tonta e enjoada, fui
quase que empurrada por osmose pra dentro do trem.
Qual não foi meu susto quando me deparei com pessoas quase transparentes
acomodadas nos acentos. Tentei conversar com uma delas pra entender o que
estava acontecendo, mas fui completamente ignorada. Minha cabeça doía muito e a
todo momento parecia que um bolo de gases queria passar pela minha garganta,
subindo do meu estômago.
As pessoas transparentes... Amélia, parecia que elas estavam esquecidas em
outra dimensão. Logo percebi que eram os tais fantasmas-resto! As sobras das
pessoas esquecidas que, sem poder morrer nem viver, ficam viajando pra lá e pra cá
em pequenos expressos turísticos... Quase sempre totalmente sozinhas... Algumas
vezes acompanhadas por cães fieis e sem propósito de existência.
Fique tranquila, Amélia, eu ainda sou de carne, osso, sangue e alma.
Surpreendida? Desconfiada? Pense em todas as lendas urbanas que já ouviu... É
lenda, também, que nos transformamos em fantasmas-resto só de estar perto de
algum. Isso foi criado para nos afastar cada vez mais das pessoas esquecidas e,
quando nós próprias formos esquecidas, será tarde demais para mudar qualquer
coisa.
Claro que eu não sabia disso até poucos meses atrás e entrei em pânico quando
percebi que estava dentro de um Expresso Turístico. Fui até a máquina cobradora e
disse que minha presença no trem se tratava de um engano, ao que ela me
respondeu entre “bips” de máquinas velhas que nada nesse mundo é engano e
iluminou uma placa. Na placa, li “Pise somente nas marcas pré-direcionadas aos
seus sapatos (Lei CCXXXI/MMMIV). O descumprimento da Lei acarretará na punição
devida e na automática implosão do vagão com as naturais consequências de
ordem física e moral para passageiros e equipamentos.” Olhei para o chão e vi
pequenas marcas com o solado do meu sapato marcando meu caminho até o
banheiro e até a porta de saída. Amélia, eu estava presa.
Sentei-me em meu lugar – sim, que estava devidamente marcado – e aguardei
até a próxima parada. Infelizmente, nenhuma luz acendeu para meus sapatos e eu,
claramente, não poderia pisar em lugar nenhum daquele vagão. Parada atrás de
parada eu permanecia sem sinalização até que minha paciência se esgotou.
No entanto, percebi que conforme nos afastávamos das regiões centrais da
cidade, o sinal de manipulação ficava mais fraco e era possível raciocinar com
clareza. Levantei-me abruptamente, com medo e raiva e reclamei em voz alta! Disse
que tudo aquilo era um grande absurdo, que eu tinha que ser autônoma e que eu
tinha direito a defesa! Disse que a realidade também me pertencia! Eu chorei,
Amélia, chorei. Solucei de tanto chorar e ninguém se mexeu! Juro que pensei em
implodir aquele vagão insignificante e não o fiz por receio do que de pior poderia
acontecer. Pra onde iríamos depois de implodidos? Será que seríamos
transformados em pó de demolição? Será que nossa alma ficaria aprisionada em
algum palácio regado a champagne que cerca as redondezas da nossa realidade?
Sentei-me inquieta e a máquina anunciou: “Próxima parada: terminal Cidade
Oito. Solicitamos que tudo o que há no trem desembarque nessa estação.”
Cidade Oito. A cidade dos sem rosto.
Vi oficiais da Guarda assim que o expresso parou. Respirei pra não sufocar, imitei
certo alívio pra enganar minha própria consciência e desci as escadas do vagão.
Coloquei meu lenço em volta da cabeça rapidamente. Os fantasmas-restos
desceram do trem e eu me escondi entre eles. Eles se dirigiram a um bar próximo ao
terminal. Pensei em me juntar a eles, mas um oficial da Guarda passou quase ao
meu lado no mesmo instante. Temi que o oficial fosse me algemar naquele
momento, mas um grupo de pessoas sem rosto, acidentalmente, formou uma
barreira em volta dele e o dispersou.
Eu tive muita sorte, Amélia. Essas criaturas que um dia foram pessoas
dispersaram os guardas no momento certo e evitaram minha prisão. E os oficiais
são amedrontadores! É verdade que as orelhas são arrancadas durante o
treinamento e que os ouvidos são lotados de piche e cera de velas. São
completamente surdos devido a isso. Surdos e obedientes a ordens superiores –
dos palácios dos arredores – como bons oficiais da Guarda devem ser...
Procurei apressada uma loja para disfarçar minha presença na Cidade Oito. Por
sorte, próxima a mim estava uma loja com objetos amarronzados e enormes.
Aproximei-me e me dei conta de que tais objetos eram madeiras velhas com
buracos pros olhos. Percebi que pessoas sem rosto utilizam esses objetos pra
contornar a ausência da face. Peguei uma a fim de me disfarçar. O velho que vendia
as tábuas tossiu. Olhei assustada, temendo ter sido descoberta, mas ele olhava pra
um jornal de ponta cabeça e apontava pra um sinal de cifrão na mesa. Deixei
algumas moedas sobre o balcão. O velho continuou olhando para o jornal que,
notei, era de MMMVI. Saí apressada, andando na ponta dos pés.
Amarrei a tábua com o lenço e prendi na camiseta. Quando estava arrumando o
disfarce, deparei-me com uma ampulheta quase vazia impressa ao lado de um aviso
em baixo-relevo na parte de trás da tábua, que dizia: “Atenção! Essa tábua foi
programada para durar exatamente um dia (39 horas e 4 minutos) da Cidade Oito.
Organize-se para trocar sua tábua antes da ampulheta esvaziar. Pessoas sem rosto e
sem tábua que circulam nas dependências da Cidade Oito serão punidas de acordo
com a Lei CCXXIII/MMCMLIX”.
Se a ampulheta estava acabando, então minha tábua estava no fim da validade.
Claro que eu não tinha moedas para novas tábuas, então precisava ser rápida para
sair da Cidade Oito.


Andei por todo o terminal procurando uma saída e fiz um plano: eu sairia
rapidamente e andaria pelos trilhos do expresso na direção da volta,
persistentemente, até chegar a alguma Comunidade de Resistência (que, nós
sabemos, se escondem nas vilas entre São Paulo e a Cidade Oito) ou até que não
aguentasse mais. Eu não temia morrer tentando. Temia, apenas, ser pega pela
Guarda.
Quando estava chegando perto dos trilhos, ouvi vozes que pareciam estar
debaixo dos meus pés, como que em outra dimensão. Algumas mantinham diálogos
cotidianos, algumas se queixavam, algumas reclamavam cheias de raiva, algumas
gritavam, outras bocejavam... Vozes de bebês chorando, vozes de pessoas velhas...
Vinham todas de bueiros espalhados pelo chão.
Na mesma hora, tive que me esquivar de dois oficiais que vinham em minha
direção e não tive opção se não entrar num dos bueiros de vozes que estava aberto.
Esperei que passassem os oficiais e, de dentro do bueiro, me dei conta que aquelas
vozes eram das pessoas sem rosto que ficavam naquela cidade. Era triste e
amedrontador ouvir todas as vozes que estavam jogadas como esgoto naquele
bueiro. Saí com calafrios e voltei pros trilhos.
Andei por muito tempo. Logo minha tábua desapareceu, mas eu ainda andei
muito. Tive fome e sede, mas não temia mais ser capturada nem descoberta. Eu
estava cansada, não sabia mais por onde andar. Amélia, parece que andei por
meses... Mas sei que foram apenas algumas horas. Acontece que as horas naqueles
trilhos são dilatadas e o tempo não nos pertence. Meu relógio parou. E eu pensei
quão inútil era aquela máquina.
Quando já tinha gastado toda a sola dos meus sapatos pensei que não existia de
fato nenhuma comunidade de resistência. Pensei que ia morrer de fome nos trilhos
infinitos do Expresso Turístico. Até que avistei uma enorme bolha de sabão cheia de
fumaça. Curiosa, tentei olhar através da bolha, mas não conseguia ver. Era tudo
muito turvo, eu só enxergava um foco de luz ao fundo iluminando algumas
plantas... ou seriam pessoas?
Surgiu da terra – como se uma toupeira tivesse cuspido o jantar – uma placa,
que dizia em alto e bom tom: “Estoure a bolha se for corajosa para viver e curiosa
para sonhar”.
Aproximei-me da bolha... Olhei pros lados, pensei se não se tratava de uma
cilada. Eu tinha fome e sede, mas ainda conseguia raciocinar que qualquer coisa era
melhor do que a Guarda e as grades onde me colocariam se me pegassem. No
entanto, alguma coisa naquela região me encheu de algo antigo, familiar, mas
distante. Era um sentimento que tangia a esperança e ao mesmo tempo se
aproximava da felicidade. Pensei que pudesse ser amor. Amor, Amélia. Quanto
tempo faz que você não sente isso? Sei bem que faz muito tempo, porque nossos
canais de energia foram bloqueados rigorosamente durante o treinamento escolar
obrigatório. Amor é tão sutil que não passa por bloqueios de canais energéticos.
Sabemos que, se tentarmos sentir, o resultado será uma mistura de ódio, ignorância
e dominação abomináveis.
Em um impulso, nem sei bem quando ou como, fechei os olhos e rasguei a
bolha. Ela fez um som grave e lento, soltou um gás que me deu enjoo e pesou meu
estômago. Desfaleci na sequência. Acordei em uma Comunidade de Resistência
localizada na Cidade Sem Número.
Amélia, você precisa vir pra cá. Temos um escape permanente do Expresso
Turístico para a comunidade. É um escape impossível de ser bloqueado, por isso nos
fazem crer que não podemos nos aproximar de tais locomotivas! É impossível
bloquear a passagem que vai dos trilhos do Expresso Turístico para as comunidades
de Resistência, porque ela foi construída com base nas coisas mais verdadeiras que
existem, mais verdadeiras do que nós podemos imaginar. Nem deuses podem
destruir isso.
Preste atenção: nada de ruim acontecerá. Memorize: você só precisa ir a uma
parada do Expresso Turístico. Nada de ruim te acontecerá, você continuará sendo
uma pessoa como antes. Salte do expresso na parada 4 com seu bilhete comum e,
antes de ir pra estação dessa parada, pegue uma pequena porta azul à esquerda. Ela
está tranquilamente localizada lá, porque oficiais da guarda não podem ver a cor
azul. Você seguirá, então, por uma estrada de terra e flores com mais natureza do
que você jamais terá visto. Essa é justamente a passagem verdadeira. Ao fim da
estrada, está nossa casa.
Essa carta foi escrita com nossa tinta especial, como as anteriores. Ela
desaparece depois de lida. Provavelmente, se chegou até esse ponto da leitura, as
primeiras linhas já sumiram. Então, tenha certeza de que memorizou o caminho.
Esperamos por ti, Amélia.
Saudades,
Mariana.

Carta 7.
São Paulo, XVIII de setembro de MMMXVIII.
Cara Mariana,
Mal posso acreditar em tudo o que me escreveu. E é verdade, a tinta
desapareceu depois de lida a carta. Informo-te que de um mês pra cá não existem
mais correios oficiais para cartas, somente os clandestinos, então fique tranquila
quanto a sigilo de endereços.
Ocorre que como ninguém (quase ninguém...) se lembra de como escrever a
mão ou a máquina, os oficias se ocupam de fiscalizar somente as mídias da web,
sem se dar conta de que deixaram uma falha de segurança para o sistema.
Por aqui, as coisas não estão tão turvas como descreveu. Provavelmente, o nível
de distorção da realidade voltou ao comum depois das eleições e as pessoas
seguem normalmente com suas vidas. Nós, da Resistência, estamos planejando
ações para acordá-las e trazê-las pra vida real, mas estamos sendo constantemente
boicotadas. Temo que descubram nossa base do centro.
Sou grata por ter feito o contato comigo. Sei que esse seu endereço remetente
não condiz com o local onde está abrigada, então imagino que está se arriscando
para se comunicar comigo e por isso peço: pare. Irei assim que possível, mas no
momento, não posso abandonar a Resistência e nem levar ninguém comigo. Creio
que temos pessoas perigosas infiltradas e temo denunciar a localidade de vocês.
Fico feliz de saber que existem, de fato, as Comunidades de Resistência. Desejo
sorte para vocês.
Espero vê-la em breve.
Com algo de esperança, se é que sei o que é isso.
Amélia.
*
Nota:
(escrita muito tempo depois por uma pessoa sem rosto que viveu nessa
Comunidade de Resistência com Mariana e teve seu rosto e sua voz recuperados
depois de um tempo)
Amélia nunca chegou à Cidade Sem Número. Não se sabe do seu paradeiro, não
se sabe se está viva. Não se sabe se virou uma pessoa sem rosto e teve sua voz
jogada no bueiro da Cidade Oito. Não se sabe se teve seu sistema nervoso invadido
e acabou por se esquecer de sua identidade e de seus ideais, dedicando sua
existência a um trabalho sem valor, mas para o qual recebia recompensas materiais
ilusórias, que possuem valor somente dentro de um sistema infectado que adoece e
mata o amor pela vida.
Não se sabe de Amélia.
Mas na Cidade Sem Número, pessoas com esperança cuidam da vida e
experimentam coisas já esquecidas por nós. Para todas as criaturas é boa e
prazerosa a vida na Cidade Sem Número. A comunidade cresce dia a dia, com mais e
mais seres vivos que se dispõem a cuidar de si e do lugar onde estão.
A Cidade Sem Número cresceu tanto, que ficou perto de todas as criaturas.
Atualmente, basta abrir os olhos, dilatar os poros da pele e respirar pra encontrá-la.
Repare: a Cidade Sem Número está somente a uma bolha de distância.




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