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ISSN: 1984 - 2864

ESTÁCIO DE SÁ
CIÊNCIAS HUMANAS

Revista da Faculdade Estácio de Sá de


Goiânia SESES - GO

VOL. 01, Nº 01, Dez. 2008 / Jun. 2009


Ficha Catalográfica da Revista

LOPES, Edmar Aparecido de Barra e.


Revista de Ciências Humanas da Faculdade Estácio de Sá de
Goiás- FESGO. Goiânia, GO, v.01, nº01, dez.2008.

Nota: Revista da Faculdade Estácio de Sá de Goiás – FESGO.

I. Ciências Humanas. II- Título: Revista de Ciências


Humanas. III. Publicações Científicas.

CDD 300

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( CPI)

Faculdade de Goiás

Catalogação na Fonte / Biblioteca FAGO

Jacqueline R.Yoshida – Bibliotecária – CRB 1901


ESTÁCIO DE SÁ
CIÊNCIAS HUMANAS
FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ DE GOIÁS – FESGO
VOLUME 1-1, N. 01, DEZEMBRO DE 2008,
PERIODICIDADE: SEMESTRAL.
ISSN : 1984 - 2864

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ESTÁCIO DE SÁ CIÊNCIAS HUMANAS
Revista da Faculdade Estácio de Sá de Goiás – FESGO

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ESTÁCIO DE SÁ CIÊNCIAS HUMANAS
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Mara Silvia dos Santos
SUMÁRIO
EDITORIAL

APRESENTAÇÃO

DOSSIÊ: “CULTURA E PODER”


Edmar Aparecido de Barra e Lopes (Org.)

12 - 29 António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu abolicionista


Mário Maestri

30 – 50 Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura presidencial de


Cristina Fernández de Kirchner
Inés Valdez

51 – 73 Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre identidades


femininas em situações de conflito
Izadora Xavier

74 - 92 A “Perspectiva de Gênero” na política imigratória da União Européia:


expectativas e dificuldades
Flávia Guerra
Erica Simone Almeida Resende

93 - 104 A poesia que lê a cidade: versos que interpretam Goiânia em travessia


Eguimar Felício Chaveiro
Angelita Lopes

105 - 124 As formas do silêncio na literatura brasileira e portuguesa: Vidas Secas e


Gaibéus
Marilúcia Mendes Ramos
Kellen Millene Camargos Resende

126 - 138 No contexto da reestruturação produtiva: o trabalho e a formação


profissional do docente frente à educação inclusiva
Yara Fonseca Oliveira Silva

139 - 150 Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas


Gláucia Peclát

151 - 162 Bons e maus selvagens: textos imagens e representações sobre o índio.
Rosani Moreira Leitão.

163 - 179 A representação do professor nos filmes hollywoodianos.


Edson Pereira da Silva.

180 - 194 Cemitérios oitocentistas como lugares de memória.


Gleidson de Oliveira Moreira
195 - 206 Desterritorialização: a ótica cultural do processo de modernização da
agricultura em Goiás
Júlio César Pereira Borges

207 - 220 Democracia, novos arranjos institucionais e gestão das cidades


Juliano Martins Rodrigues
Adão Francisco de Oliveira

221 - 238 Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades sociais: o caso de


Goiânia
Marcelo Gomes Ribeiro

239 - 260 Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933-1963):


origens do capital
Dulce Portilho Maciel

261 - 269 As raízes da sociologia brasileira


Maria Angélica Peixoto

271 - 285 Formas usuais de medição do setor informal


Edmar Aparecido de Barra e Lopes

PESQUISA

286 - 291 Utilização de geotecnologias para detecção de mudanças de uso no cerrado


Simone de Almeida Jácomo

292 - 304 A história construída de Viçosa: uma proposta de gestão do espaço


Beatriz Coroa do Couto
Edmar Aparecido de Barra e Lopes

RESENHA

305 - 311 Campos negros: as múltiplas faces da resistência quilombola no universo


oitocentista do Rio de Janeiro
Leonara Lacerda Delfino

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO


EDITORIAL

A revista Estácio de Sá - Ciências Humanas é uma realização coletiva. Está


enraizada na necessidade de um periódico científico há muito já colocada pela
comunidade acadêmica. Assim a revista não poderia existir sem esta sensibilidade
acadêmica pré-existente ao projeto que ora se realiza e que o legitima.
Muitos especialistas colaboraram com a árdua, competente e generosa tarefa de
fornecer pareceres para o sem-número de artigos que nos foram enviados. Sem a
contribuição de tais profissionais não teria sido possível trazer a público o resultado
final de nossos esforços; expresso nos artigos publicados.
É hora também de ressaltar a indispensável participação dos coordenadores de
cursos no projeto, bem como o apoio incondicional que o projeto da revista Estácio de
Sá - Ciências Humanas recebeu desde seu início da direção da instituição.
Necessário também ressaltar que a revista Estácio de Sá - Ciências Humanas
seria impensável, caso não estivesse contando com o crescente e cada vez mais intenso
envolvimento de professores dos cursos desta Instituição.
Os artigos aqui publicados dão visibilidade a participação de novos
pesquisadores no meio acadêmico, sem abrir mão da necessária contribuição oferecida
por nomes mais experientes no cenário da produção cientifíca nacional.
Neste sentido, por exemplo, o número 01 de Estácio de Sá - Ciências Humanas
traz ao público leitor contribuições de: 1) o dossiê “Cultura e Poder” (coordenado por
Edmar Aparecido de Barra e Lopes), com contribuições de Mário Maestri, Inés Valdez,
Izadora Xavier, Flávia Guerra, Erica Simone Almeida Resende, Angelita Lopes e
Eguimar Felício Chaveiro, Kellen Millene Camargos Resende e Marilúcia Mendes
Ramos; 2) artigos de: Yara Fonseca Oliveira Silva; Gláucia Peclát; Rosani Moreira
Leitão; Edson Pereira da Silva; Gleidson de Oliveira Moreira; Júlio César Pereira Borges;
Adão Francisco de Oliveira e Juliano Martins Rodrigues; Marcelo Gomes Ribeiro; Dulce
Portilho Macie, Maria Angélica Peixoto e Amone Inacia Alves ; 3) Pesquisas de Simone
de Almeida Jacomo, Beatriz Coroa do Couto e Edmar Aparecido de Barra e Lopes e; 4)
Resenha de Leonara Lacerda Delfino.
No mais, cabe ainda ressaltar, que a revista Estácio de Sá - Ciências Humanas
expressa o investimento da Faculdade Estácio de Sá de Goiás na defesa de um projeto
de educação há muito conhecido, ou seja, a necessidade da articulação sistêmica entre
ensino, pesquisa e extensão.

Prof. Dr. Edmar Aparecido de Barra e Lopes


Editor-Cientifíco
APRESENTAÇÃO

O primeiro número da revista Estácio de Sá - Ciências Humanas vem à luz,


marcando o reforço do compromisso da Faculdade Estácio de Sá de Goiás com a
produção do conhecimento.
Com periodicidade semestral, a revista Estácio de Sá - Ciências Humanas,
diretamente integrada ao Núcleo de Pesquisa desta instituição, conta com a colaboração
dos professores dos cursos de graduação e programas de pós-graduação de nossa
Instituição bem como de colaboradores de outras instituições, unidos pela luta
incansável implicada no processo de produção científica.
Trazer a público o primeiro número da revista Estácio de Sá – Ciências
Humanas é motivo de celebração para a nossa instituição que, apesar de tão nova (4
anos), já conta com: 7 cursos de graduação; 6 cursos de pós-graduação; 1 parceria em
projeto de pesquisa financiado pela FAPEG-GO; 01 pós-doutor; 05 doutores; 03
doutorandos; 29 mestres; 03 mestrandos; 14 especialistas e 03 graduados em processo
de especialização.
Além de iniciativas na área da pesquisa que têm procurado consolidar um
programa institucional de bolsas de iniciação cientifica, além da formação de grupos de
pesquisa visando financiamento externo para novas parcerias em projetos de pesquisa
A relevância social e científica desse períodico destaca-se pela amplitude do
leque de temas interligados numa perspectiva educacional.
Abordando temas de ordem diversa, as colaborações que compõem esse
primeiro número da revista Estácio de Sá - Ciências Humanas refletem a preocupação
da Faculdade Estácio de Sá de Goiás com o ensino, a pesquisa e a extensão, porém,
sem perder de vista as fronteiras desse tripé com: a democracia e a ética, a cidadania e a
pessoa humana.
O nº 01 da revista Estácio de Sá - Ciências Humanas soma-se a outras
iniciativas da Faculdade Estácio de Sá de Goiás nas áreas do ensino, pesquisa e
extensão, visando encontrar respostas paras os novos desafios colocados para as
instituições privadas no âmbito das novas medidas de controle, avaliação e regulação
implementadas pelo Estado, tais como: aumento das exigências de produção intelectual
institucionalizada; aumento qualificação do corpo docente em nível de mestrado e
doutorado; adoção de políticas de responsabilidade social
Esperamos contar com a contínua colaboração de todos para que o projeto
conquiste a devida legitimidade científica.

PROF. MS. ADRIANO LUIS FONSECA


Diretor Acadêmico da Faculdade Estácio de Sá de Goiás
DOSSIÊ: “CULTURA E PODER”
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

ANTÓNIO SANCHES:
A VOZ ANGUSTIADA DE UM CRISTÃO-NOVO DE
JUDEU ABOLICIONISTA

Mário Maestri∗

Resumo: . Abstract:

A partir do século 15, as poucas vozes que From the 15 century, the few voices
questionaram, no mundo lusitano, as that had questioned the religious, moral,
justificativas religiosas, morais, éticas e ethical and social justifications of the slave
sociais do tráfico e de da exploração do trade and worker’s exploration in the
trabalhador escravizado foram duramente Lusitanian world were hardly silenced,
silenciadas, sobretudo pela Inquisição, especially by the Inquisition, suffering the
sofrendo a prisão, o degredo, etc. Entre arrest, the banishment, etc. Among these
esses raros críticos da escravidão rare slavery’s critics are distinguished the
destacam-se o gramático Fernão de grammarian Fernão de Oliveira, and his
Oliveira, e sua obra A arte da guerra do work “A arte da guerra do mar”, in 1555,
mar, de 1555, e o médico António and the doctor António Sanches.
Sanches. Português cristão novo de judeu, Portuguese New Christian of Jew, forced
obrigado a viver no exílio devido às suas to live in the exile due to his world
visões de mundo, no contexto das reformas personal view, in the context of the
pombalinas do ensino, de 1759, Sanches Pombal’s education reforms, in 1759,
foi convidado por autoridade portuguesas a Sanches was invited by Portuguese
escrever, em Cartas sobre a educação da authorities to write, in “Cartas sobre a
mocidade, suas propostas de remodelação educação da mocidade”, his proposals for
do ensino , aproveitando o ensejo para remodeling the education, taking to
tecer duras críticas à escravidão. O opportunity to hardly criticize the slavery.
presente artigo traça sinteticamente a The present article traces, in a
biografia de António Sanches e apresenta synthetically way, the biography of
as diretrizes de sua visão abolicionista. António Sanches and sets guidelines on his
abolitionist vision
Palavras-chave: Key-words:

História das idéias; Abolicionismo em History of ideas; Abolitionism in Portugal;


Portugal; A escravidão em Portugal. The slavery in Portugal.

Primeira e última potência negreira européia, Portugal jamais conheceu uma


voz potente, como a do frei espanhol Bartolomeo de las Casas, que se levantasse
denunciando o tráfico e a feitorização dos americanos e dos africanos. Porém, mesmo
raras, houve palavras lusitanas lúcidas e destemidas que destoaram e se opôs ao coro
negreiro. A relativa ignorância sobre essas vozes deve-se sobretudo ao fato de terem
sido abafadas, no momento da sua enunciação, e subalternizadas, a seguir, pelas

∗ Doutorado (pós-doutorado). Primeira área de atuação: ciências humanas – história. instituição:


Universidade de Passo Fundo. email: maestri@via-rs.net.
12 MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01,12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

ciências sociais, no momento da seleção e legitimação dos locutores referenciais do


passado.
Em geral, registram-se três autores ibéricos que teriam feito escutar em
Portugal, com maior ou menor radicalismo, suas críticas contra o tráfico ou a
escravidão, mais de cem anos após a chegada dos primeiros africanos em Lagos:
Domingo de Soto, em 1556; Martín de Ledesma, em 1550-60 e Fernão de Oliveira, em
1555. Alguns eclesiásticos levantaram-se no Brasil contra a escravidão, conhecendo
igual silenciamento. No século 16, os jesuítas Gonçalo Leite e Miguel Garcia, e em fins
do século 18, o capuchinho José de Bolonha, opuseram-se à escravidão do nativo e, em
alguns casos, do africano, devendo por isso abandonar a colônia1.
O espanhol Domingo de Soto [1494-1570] ensinou teologia em Salamanca,
foi confessor de Carlos I, destacou-se como comentarista das obras de Aristóteles,
participou dos debates do Concilio de Trento e integrou a comissão de teólogos reunida
em Valladolid, em 1550-1, para debater a escravização dos americanos. Em De Iustitia
et Iure, interrogou-se “sobre a legitimidade das guerras entre africanos negros, embora
se limitasse admoestar os amos de má consciência que vendessem aqueles de seus
escravos capturados em semelhantes guerras”.2 Ele terminou propondo que a
escravidão podia ser «não apenas lícita» mas verdadeiro «fruto da misericórdia»,
quando livrava o escravizado de uma pena maior, como a morte.3
Após estudar teologia e ensinar em Salamanca, o dominicano espanhol
Martín de Ledesma foi chamado, em 1541, por dom João III, para ensinar teologia em
Coimbra, onde faleceu em 1574, com pouco mais de sessenta anos. Martín de Ledesma
criticou parcialmente o tráfico, defendendo as conversões livres do africano, ao qual
negou a condição de selvagem. Foi, portanto, bem mais longe do que seu coetâneo
Porém, em Secunda Quartae, de 1560, aceitou a compra legal, condenando às penas do
castigo sofrido na vida eterna apenas os detentores de cativos obtidos ilegalmente.
Portanto, dificilmente pode ser proposto como crítico da escravidão.4

II. A vida atribulada do gramático Fernão de Oliveira, crítico radical


da escravidão e do tráfico negreiro

Coube ao português Fernão de Oliveira5 o privilégio da mais radical


diatribe lusitana conhecida em defesa do homem negro escravizado. Filho de Heitor de
Oliveira, juiz dos órfãos em Pedrógão, Fernão de Oliveira nasceu por voltas de 1507, na
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 13
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

vila de Aveiro, no seio de família que ele próprio apresenta como modesta. Em 1520,
aos treze anos, teria entrado como noviço no convento de Évora, da Ordem de São
Domingos, onde estudou Gramática e outras disciplinas, na sua progressão em direção
ao estado canônico.6 Em 1532, aos 25 anos, por razões ainda desconhecidas, abandonou
o convento dominicano para refugiar-se em Castela, de onde voltou, em 1535, para
lecionar jovens fidalgos e publicar, em 1536, em Lisboa, aquela que seria a primeira
Gramática da língua portuguesa conhecida.7
Nos anos 1530, o acolhimento de sua Gramática da língua portuguesa e a
sua qualificação intelectual pareciam oferecer-lhe futuro social e profissional, se não
radioso, ao menos seguro, como preceptor de filhos de algumas das mais ilustres
famílias do Reino, entre elas, a de João de Barros, o cronista das Índias, e a de dom
Fernando de Almada, ao qual dedica sua Gramática, por o ter acolhido, “com muita
despesa”, para sua “casa” onde “graciosa e compridamente” o conservara.8 Em 1540,
Fernão de Oliveira partiu outra vez para Espanha, sem que também se saiba os motivos.
Durante viagem de Barcelona para Gênova, teria sido aprisionado pelos franceses, aos
quais serviria como piloto.9 Em 1543, voltava da Itália para Portugal, em companhia do
núncio apostólico dom Luiz Lippomano.10 Nos dois anos seguintes, viveu no
ostracismo ou, talvez, em anonimato relativo. Em junho de 1545, sob falso nome,
arrolou-se novamente como piloto em esquadra francesa que passava pelo Tejo para
juntarem-se à expedição contra a Inglaterra.
No primeiro semestre de 1546, devido às vicissitudes da guerra do mar, a
galé em que o sacerdote-gramático-piloto servia foi capturada no canal da Mancha. Na
capital inglesa, o infeliz prisioneiro teria se arranjado para cair nas boas graças de
Henrique VIII, às turras com Roma, o que nos ilumina fugazmente sobre a heterodoxia
de sua visão de mundo, em relação ao universo ideológico e social ibérico da época.11
Em janeiro de 1547, com a morte do soberano inglês, subiu ao trono Eduardo VI, que
cedeu a Fernão de Oliveira licença para partir e carta de recomendação ao rei português,
com a qual o sacerdote racionalista teria se apresentado a dom João III no “começo do
outono de 1547”. Então, Fernão de Oliveira vivia como homem laico, muito ao estilo
inglês, no “bairro de mareantes” de Cata-que-Farás.
Ao entardecer de 18 de novembro de 1547, à porta de livraria lisboeta, na
rua Nova, Fernão de Oliveira, então com 40 anos, deixou-se envolver imprudentemente
em provocação promovida pelo livreiro cristão-novo de judeu, seu desafeto, sobre a
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 14
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Inglaterra e as ações de Henrique VIII contra o papado, que foram por ele defendidas
acaloradamente. Denunciado por João de Borgonha à Inquisição, as “primeiras
inquirições” foram efetuadas dois dias mais tarde, já na prisão, onde o malogrado
Fernão de Oliveira permaneceria por longo tempo. Diante do Santo Ofício, o prisioneiro
teria se negado a condenar Henrique VIII, que disse tê-lo recebido e alimentado.12 Em
agosto de 1548, era condenado por suas “heréticas, temerárias e escandalosas” doutrinas
e, possivelmente, por sua negativa de se dobrar às injunções do dito Santo Ofício.13
Em “3 de setembro de 1550”, transcorridos três anos de encarceramento,
segundo parece, sob intervenção direta do cardeal dom Henrique, Fernão de Oliveira foi
libertado e enviado ao mosteiro de Belém, após abjurar seus erros, sob condição de
“retomar o hábito e tonsura sacerdotal” do qual “há muito se desabituara”.14 Em agosto
de 1552, possivelmente em busca de ares menos opressivos, e certamente procurando
pôr-se longe do alcance dos imensos braços da Inquisição, outra vez, Fernão de Oliveira
embarcava-se, como sacerdote nos papéis, eventualmente como piloto nos fatos, em
pequena expedição de cinco embarcações, enviada por dom João III, para “transportar e
repor nos seus antigos domínios o destronado rei de Vélez, em Marrocos”.15
Novamente, Fernão de Oliveira foi aprisionado, desta vez no porto de Vélez, por frota
argelina, sendo transportado com outros prisioneiros para Argel, de onde, igualmente
deslanchado, conseguiu partir, a seguir, para Lisboa, para tratar do resgate dos cativos.
Em fins de 1552, após chegar à capital portuguesa, teria sido apartado da operação das
negociações sobre o resgate por inspirar pouca confiança à administração real.
Como resultado de suas andanças pelos mares, Fernão de Oliveira escreveu
A arte da guerra do mar, em Lisboa, em 1552-4, na casa de dom António da Cunha, pai
de dom Nuno da Cunha, a quem dedicaria o livro. Porém, em janeiro de 1554, sofreu
nova ordem de prisão, por suas opiniões, parece que denunciado pelo próprio
hospedeiro.16 Ao menos imediatamente, a ação punitiva não teria tido maiores
conseqüências. Em dezembro de 1554, como fênix que renasce das cinzas, Fernão de
Oliveira era nomeado revisor tipográfico da Imprensa da Universidade de Coimbra,
onde teria ensinado “retórica” durante o ano acadêmico de “1554-5”, com “notável
competência”. Suas funções na imprensa da Universidade permitiram concluir a
publicação de seu livro, em 4 de julho de 1555. Possivelmente, esses foram os
momentos de maior consagração e tranqüilidade da vida atribulada do pensador
português.17
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 15
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

O livro surgia em tempos de conflitos e de rupturas. A arte da guerra do


mar foi redigida precisamente no momento em que a coroa e as classes aristocráticas
portuguesas apoiavam-se na Inquisição para combater a pressão das classes burguesas
européias e portuguesas e a cisão causada pela Reforma no ordenamento político-
ideológico feudal. Em 1555, quando A arte da guerra do mar foi conhecida, faziam
cento e dez anos que negro-africanos haviam começado a ser filhados, aos magotes, nas
costas do Continente Negro, para serem levados para a Península Ibérica ou
reexpedidos, a seguir, para o Novo Mundo, tornando-se uma das principais fontes de
riqueza das elites lusitanas. Mais ainda. No momento em que o autor estampava suas
idéias, o fluxo negreiro era potenciado e reorientado parcialmente para as capitanias
luso-americanas, devido ao esgotamento das possibilidades de expansão açucareira a
partir da escravidão do americano.18
Em A arte da guerra do mar, livro síntese de suas experiências militares,
Fernão de Oliveira dedica praticamente dois capítulos a atacar, um por um,
frontalmente, os argumentos basilares da retórica justificadora do tráfico e da
escravidão. Ou seja, um dos grandes eixos da aliança entre a Igreja, o Estado absolutista
e as elites aristocráticas e mercantis lusitanas.19 O segundo capítulo do livro – “De
quem pode fazer guerra” – é dedicado à abordagem das condições gerais para que uma
guerra fosse justa. Segundo o autor, o direito da guerra era de exclusiva alçada do
príncipe, ou seja, do Estado. Porém, apesar do príncipe ter que prestar contas apenas a
deus, seu único superior, ele devia agir em exclusiva defesa de seu povo e da verdadeira
fé, para não ser tirânico. Destruía igualmente as razões propostas da captura de
africanos.20
As razões fortes de Fernão de Oliveira foram sem dúvida escutadas, pelos
ouvidos errados. Em 26 de outubro de 1555, pouco mais de três meses após a edição de
Arte da guerra do mar, aos 48 anos, o pensador radical era novamente preso pela
Inquisição, crê-se que até 1557. A publicação desse ensaio e o novo encarceramento
assinalaram seu eclipse social, mesmo que tenha, possivelmente, alcançado a velhice,
ativamente.21 Pouco conhecemos sobre as últimas décadas da vida de Fernão de
Oliveira. Salvo trabalho recente, a historiografia jamais dedicou estudo bibliográfico
exaustivo a esse fabuloso e corrosivo pensador. Há possibilidade de que se encontrasse,
em 1565, no convento de Pámela. O certo é que, nos anos 1570, escreveria a Ars
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 16
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

náutica, ainda inédita, e, no início da década seguinte, sua última grande obra, sobre a
construção náutica, em parte inconclusa.
O Livro da fábrica das naus, tido como o “primeiro tratado enciclopédico
escrito por um português [...] sobre as matérias navais, entre as quais a construção naval
[...], foi publicado, por primeira vez, por Henrique Lopes de Mendonça, em 1898”, mais
22
de três séculos após suas redação! É possível que Fernão de Oliveira tenha-se
refugiado na França, devido às lutas pela sucessão dinástica, em 1580. Encontram-se na
Biblioteca Nacional, em Paris, “várias obras autógrafas” suas, entre elas uma “História
de Portugal”, um “Livro da antigüidade, nobreza, liberdade e imunidade do reino de
Portugal” e uma tradução ao português da “De re rustica” de Columella, o célebre
23
agrônomo romano.
No trabalho sobre a história de Portugal e em uma outra obra de cunho
historiográfico, sustenta a independência portuguesa contra a anexação espanhola. Ou
seja. Defende a posição da burguesia comercial e marítima, dos mesteirais, da arraia
miúda do campo e da cidade contra a grande aristocracia portuguesa. Como nada mais
se conhece da pena de Fernão de Oliveira, acredita-se que tenha morrido na segunda
metade da década de 1580, com mais de setenta anos, idade venerandíssima para época
em que, com cinqüenta anos, os homens já eram anciães.24 A falta de estudos
biobibliográficos aprofundados sobre Fernão de Oliveira tem permitido que esse
pensador radical e atípico lusitano seja apresentado comumente como “aventureiro de
gênio” que conheceu, quase por vocação, uma “vida aventurosa” e atribulada.25 Para
essa visão, suas dificuldades com a Inquisição e com o Estado lusitano são quase
deduzidas de uma inclinação natural à aventura. Ao contrário, parece-nos que suas
fugas do Reino nasceram da necessidade de se pôr ao largo das contrições intelectuais e
físicas de um Estado despótico e obscurantista, dedicado incessantemente a fazer calar
as razões inaceitáveis às classes proprietárias hegemônicas da época.
Arte da guerra do mar, de Fernão de Oliveira, seria reeditado apenas no
século 20. A segunda edição, de 1937, foi apresentada pelo comandante Quirino da
Fonseca e Alfredo Botelho de Souza. A terceira, de 1969, reproduziu a anterior e a
quarta, de 1983, fez o mesmo, apresentando em fac-símile o texto original. Todas foram
publicadas sob os auspícios do Ministério da Marinha de Portugal. As três reedições não
se deveram ao caráter radical e precoce da crítica do autor do tráfico negreiro e da
escravidão do trabalhador, mas ao fato de se tratar de talvez o “mais antigo tratado de
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 17
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

estratégia e tática naval de que há memória em letra de forma”, como lembra o


responsável do Ministério da Marinha, na edição de 1970.
Pensador racionalista radical, Fernão de Oliveira foi o autor da primeira
gramática portuguesa e o principal crítico ibérico do tráfico de cativos e da escravidão.
Por todas essas razões, urgem estudos que desvelem as razões e articulações profundas
desse pensador que emergiu dos mundos das chamadas elites dominantes para
interpretar os segmentos mais explorados de sua época, sofrendo, por isso, a prisão, a
perseguição e o abafamento de suas idéias, devido ao poder das forças sociais a que a
elas se antepuseram, no passado e no presente.

III. Vicissitudes de António Nunes Sanches, cristão novo de judeu,


abolicionista radical
Dois séculos após a crítica radical de Fernão de Oliveira do tráfico e do
escravista, em 1760, as justificativas cristãs daqueles fenômenos seriam igualmente
impugnadas pelo cristão-novo de judeu António Nunes Sanches. Nesse então, vivíamos
o início da agonia do ciclo minerador escravista brasileiro e das tentativas pombalinas
de reformar a ordem feudal, mercantil e colonial lusitana. Filho legítimo de Simão
Nunes e Ana Nunes, António Nunes Ribeiro Sanches nasceu na vila de Penamacor, no
centro-leste de Portugal, próximo à fronteira com a Espanha, em 7 de março de 1699, no
seio de família de cristãos novos de judeus, mantida como era habitual sob a dura
vigilância da Inquisição. Seu pai exercia o ofício de sapateiro, atividade que deve ser
compreendida em um sentido lato, já que era homem de relativas posses, que tinha
irmão e sobrinhos médicos, profissão exercida tradicionalmente pelos judeus.
Desde jovem, António Sanches foi destinado aos estudos, possivelmente na
residência paterna. Segundo ele, aos 12 anos, já conhecia o latim, o espanhol, a
gramática, a história e a geografia. Para prosseguir sua educação, aos treze anos,
mudou-se para a casa de parentes, na Guarda, onde conheceu as vexações e
descriminações anti-semitas então habituais.26 Finalmente, em 1716, em Coimbra,
inscrevendo-se “nas aulas de filosofia ministradas pelos jesuítas”. Inicialmente, estudou
“direito civil”, vislumbrando a possibilidade de seguir a advocacia. Porém, terminou
matriculando-se nas cadeiras de medicina, retomando a orientação paterna.27
Em 1719, a Universidade de Coimbra vivia dias sombrios, sob o domínio da
escolástica dogmática e das violências de estudantada organizada de boa família que
chegou ao fim apenas em fevereiro de 1721, com a intervenção de batalhão de
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quatrocentos soldados, chegado do Porto, e a condenação à morte e ao degredo do chefe


e de membros da pandilha.28 Sob injunção paterna, António Sanches abandonou
Coimbra, no terceiro ano de Escola, para matricular-se, em 28 de novembro 1720, na
Universidade de Salamanca que conhecia igual tacanhice intelectual emburrecedora,
mas vivia sob a plena ordem civil.
Finalmente, em abril de 1724, aos 25 anos, António Sanches concluía os
estudos em medicina, o que permitiu que retornasse, sem delongas, a Portugal. Durante
a estada em Espanha, escondera cuidadosamente sua origem cristã-nova, para escapar às
vexações e perseguições antijudaicas castelhanas.29 De volta ao Reino, instalou-se em
Benavente, nas proximidades de Lisboa, onde clinicou por dois anos. Porém, em
outubro de 1726, a Inquisição denunciava um seu primo que, durante o interrogatório,
citou seu nome, entre os Sanches “moseístas”. A maior denúncia de familiares,
sobretudo próximos, era quase exigida pela Inquisição, para que abrandasse, nem que
fosse relativamente, as penalidades do réu.

Pernas para que te quero


Sem confiar seu destino aos azares da sorte, o jovem médico deixou
discretamente Portugal, em novembro ou dezembro do mesmo ano, embarcando-se em
veleiro inglês que se dirigia à Inglaterra. Apesar de ter mantido, sempre, estreitos laços
culturais e científicos com Portugal, António Sanches jamais retornaria a terra em que
nascera. Anos mais tarde, escreveria sobre as vexações que lhe agoniavam em Portugal:
“Entra este rapaz cristão-novo no comércio do mundo, e a cada passo observa que os
cristãos-velhos, por trinta modos, o insultam e desprezam. Quanto mais vil é o
nascimento e ofício do cristão-velho mais insulta o cristão novo [...]. [...] o carniceiro, o
mariola, o tambor e mesmo algoz e o negro escravo são os primeiros que insultam e que
dão a conhecer com infâmia um cristão-novo.”
Porém, não se tratava discriminação nascida da incultura: “Os que têm
melhor educação lá dão seus sinais de distinção, mas com maior decência: um, quando
fala com ele, lhe diz uma meia palavra de cão; outro, por gíria, lhe chama judeu; outro
põe a mão no nariz; outro, antes que fale, dá umas cutiladas de dedos pelos bigodes; a
maior parte faz acenos que tem rabo ...”.30 Desde os séculos anteriores, era voz corrente
em Portugal que os hebreus, assassinos de Cristo, sugavam o sangue das crianças e
possuíam rabos, ao igual que os macacos! Ao lusitano de origem judaica era-lhe
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 19
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desconhecida a nacionalidade portuguesa plena, apanágio daqueles que podiam


apresentar, com ou seu razão, longa ascendência sem mancha hebréia, muçulmana ou
africana.
No século 20, Joaquim Ferreira, na sua ampla, arguta e radical apresentação
biográfica de António Sanches, na qual nos baseamos, ao denunciar indignado o anti-
semitismo em Portugal, termina recuperando a exclusão dos hebreus da nacionalidade
lusitana que denuncia: “Nos olhares e nas meias palavras dos circunstantes surpreendia
Sanches o rancor ancestral dos portugueses ao moiseísmo [...].” No século 18, as
perseguições antijudaicas das quais António Sanches fugia não se restringiam a
descriminações e a estadas nas duras masmorras do Santo Ofício, como comprova o
“assassínio do comediógrafo António José da Silva, estrangulado no garrote e queimado
o cadáver no auto-de-fé de 18 de outubro de 1739.” 31
Em Londres, António Sanches foi acolhido por seu tio Diogo Nunes
Ribeiro, também médico, que ali se refugiara, com esposa e cinco filhos, após participar
de “auto-de-fé de 19 de outubro de 1704” e ser condenado ao cárcere perpétuo. Na
Inglaterra, o jovem médico ampliou seus conhecimentos estudando anatomia,
matemática, física e química.32 António Sanches empregou-se igualmente como
preceptor de um “mancebo da família Solis, opulentos judeus lusitanos”, também
homiziados na Inglaterra. Seu pupilo orientava-se igualmente para os estudos em
medicina. Dois anos mais tarde, em 1728, talvez em companhia do aluno, mudou-se
para Montpellier e, meses depois, para Marselha, na França.

Cidadão do mundo

Em 1729, António Sanches clinicava em Bordéus, residindo como hóspede


na residência dos Solis dessa cidade. Porém, muito logo, em inícios de 1730, seguia
para os Países Baixos, com seu pupilo, para estudarem medicina, na universidade de
Leyde, sob a direção de Hermann Boerhaave (1668-1738). Por dois anos, António
Sanches trabalhou sob a direção do célebre atomista e patologista, sem deixar de manter
estreitos contatos com o embaixador português em Haia, para quem teria produzido
plano de “reformas na Faculdade de medicina de Coimbra”, absolutamente
desconsiderado em Portugal.33
No outubro de 1731, aos 31 anos, António Sanchez chegava à Rússia como
um dos três clínicos designados por Boerhaave, em resposta a um pedido da czarina
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Ana Ivanovna [1693–1740]. Como registra, pelo seu trabalho, receberia 600:000 réis de
salário. Em 1735, estabeleceu-se em São Petersburgo, na função de “médico dos
exércitos”. No “posto de médico-chefe dos serviços sanitários”, partiu para a Criméia,
devido à guerra entre a Rússia e a Turquia. Em 1736, foi nomeado médico da Escola
Militar de São Petersburgo, onde estudavam quinhentos cadetes filhos da aristocracia.
Três anos depois, era nomeado médico efetivo da corte e, a seguir, elevado à situação de
clínico privado da czarina, posto que ocupou, segundo parece, até a morte da imperatriz,
em 1740.
Na Rússia, António Sanches prosseguiu carteando-se com administradores e
homens de cultura portugueses, entre eles jesuítas eruditos estabelecidos na China. Essa
última correspondência teria ensejado projeto jamais realizado de visitar aquelas
distantes e exóticas regiões do mundo. Após dezesseis anos na Rússia, António Sanches
partiu de retorno à Europa Ocidental, coberto de honrarias: foi agraciado com o foro de
“fidalgo hereditário”, tornou-se sócio emérito da Academia das Ciências de São
Petersburgo, recebeu subsídio vitalício da casa real russa.34
Em 1747, após visitar o rei da Prússia, estabeleceu-se em Paris, onde passou
a clinicar, estudar, escrever e pronunciar-se principalmente sobre os fatos portugueses.
Entre suas relações parisienses ilustres encontrava-se o monsenhor Pedro da Costa e
Almeida Salema, ministro plenipotenciário de Portugal na França. A obra de maior
repercussão de António Sanches foi certamente seu compêndio Tratado da conservação
da saúde dos povos, publicado em Paris, em 1756, e reeditado, após correção, no ano
seguinte, em Lisboa. Nas duas edições, a obra não levava o nome do autor.
Consultamos a primeira edição no Real Gabinete Português de Leitura no Rio de
Janeiro.35
Saúde pública
O Tratado, escrito “em estilo tão claro, que todos o pudessem entender”, foi
o primeiro grande compêndio em português a apresentar, às autoridades e ao público
culto, em 31 capítulos, o conhecimento médico da época sobre a saúde pública. “Nele
pretendo mostrar a necessidade que tem cada Estado de leis, e de regramentos para
preservar-se de muitas doenças, e conservar a saúde dos súbditos; se estas faltarem toda
a ciência da Medicina será de pouca utilidade [...].” 36 Em 1759, devido ao Alvará
pombalino de 28 de junho, que abolia as “classes e os colégios dos jesuítas” e instituía o
ensino secundário estatal em Portugal, a pedido do monsenhor Salema, António
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Sanches apresentou suas idéias sobre a educação em pequena obra concluída em fins de
dezembro daquele ano.37
Estampada em Paris, a primeira tiragem de Cartas sobre a educação da
mocidade contava apenas com cinqüenta exemplares, enviados apenas saídos do prelo
para Portugal. Por sua “faina na reorganização da Universidade”, António Sanches
recebeu tensa anual de 360:000 réis”, suspendida no período 1761-69, devido à proteção
que acordara ao matemático Soares de Barros, perseguido por Salema. Sem jamais
voltar a Portugal, António Sanches faleceu, em Paris, em 14 de outubro de 1783, aos 83
anos, poucos anos após o transpasso do marquês de Pombal, que caíra em desgraça
desde o falecimento de seu protetor, dom José, em 1777, morte que ensejara a
entronização de dona Maria I e a viradeira conservadora e feudal que pôs fim ao
reformismo pombalino.38
Compilação do conhecimento da época, o Tratado da conservação da saúde
dos povos registra o esforço de um homem de ciência para arrancar Portugal do atrasa
em que se empantanara. Definitivamente superado pela ciência, não foi objeto, nas
décadas e nos séculos posteriores, de reedições. Ao contrário, as Cartas sobre a
educação da mocidade garantiriam a António Sanches destaque entre os racionalistas
portugueses de sua época, ao registrar sua avançada e original visão de mundo. A livro
assegurou-lhe igualmente o laurel de crítico precoce do escravismo moderno.
Ao enviar um exemplar do livro ao monsenhor Salena, António Sanches
reitera que devido às “preocupações” que tomara, os cinqüenta exemplares – “toda a
impressão” – chegariam, no dia seguinte, às mãos do diplomata.39 Os cuidados que
cercaram a redação, a impressão e, sobretudo, a circulação do opúsculo registram o
caráter transgressor das propostas. O radicalismo das Cartas explica por quê, mesmo
servindo como subsídio do reformismo pombalino, era inaceitável que elas fossem
difundidas além do estrito círculo da mais alta burocracia estatal portuguesa.

Abordagem histórica
O ensaio de António Sanches dividia-se em duas grandes partes.
Inicialmente, apresentava “sucinta história da educação civil e política que tiveram os
cristãos católicos romanos até os nossos tempos” e, a seguir, “uma notícia das
Universidades”, como subsídio para a reforma educacional pombalina, vivamente
apoiada por Sanches.40 Na “introdução”, “historia-se a génese e a evolução das escolas
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medievais sustentadas pela Igreja, as características civis da sociedade, os excessos do


clero na política, a natureza eclesiástica das Universidades e, em especial, a de Coimbra;
na segunda desenvolvem-se, num largo plano educativo, as directrizes pedagógicas que
ele propunha e defendia.” 41
António Sanches defende proposta de ensino laico, racionalista, sob o
controle do Estado, orientado para a satisfação do que entende serem as reais
necessidades da nação portuguesa. Nesse sentido, o ensino seria pago e o erário público
subvencionaria alunos excelentes mas sem recursos. A abordagem historicista da
questão educacional registra a importância da reflexão histórica para o autor. Portanto,
compreende-se o destaque que dá ao estudo da história nos cursos preparatórios. “Mas
esta história [...] não se há-de incluir a quantos reis teve uma monarquia, quantas vezes
foi conquistada e quantos reis conquistou.” 42
Expressão do pensamento racionalista burguês, António Sanches opõe-se
conseqüentemente à educação popular. “O povo não faz boas nem más ações que por
costume e por imitação, e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será
cortês ou grosseiro, sisudo ou trabalhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado
pelo seu cura, pelo seu juiz, pelo escudeiro ou lavrador honrado.” Na medida que não
supunha e não propunha modificações essenciais nas duras condições de existência dos
trabalhadores rurais da época, perguntava-se, não sem razão: “Que filho de pastor
quererá ter aquele ofício de seu pai, se à idade de doze anos souber ler e escrever?”
Para ele, a educação era “a origem por que os filhos dos lavradores fogem
da casa de seus pais”. Assim sendo, o trabalho devia ser o único grande recurso
pedagógico da população laboriosa e, sobretudo, “o remédio” seria apenas um, “abolir
todas as escolas” em meio rural!43 Na primeira metade do século 20, registrando as
condições de vida dos trabalhadores, Joaquim Ferreira lembrava sem papas na língua
que era a falta de trabalho, pão e moradia que desertavam, no passado e no presente, os
campos portugueses de seus trabalhadores: “Comem troços adubados com sal e dois
pingos de azeite, a que chamam caldo.” 44

Crítica radical da escravidão


Sem vínculos orgânicos com a sociedade portuguesa, António Sanches pode
expressar crítica racionalista radical sobre a escravidão que, para ele, fora instituição
nascida do domínio de um povo sobre outro que se perpetuara na história muito além do
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que justificava o progresso humano. Portanto, na sua opinião, a instituição era


fenômeno histórico sem qualquer base natural ou religiosa. “[...] todas as nações
conquistadoras [...], os gregos, romanos e godos conheceram e usaram dos povos
vencidos como escravos. Esta prática se conservou em Portugal pela conquista do Reino
contra os maometanos; e se continuou pela conquista de Guiné e de Angola. [...].”
Apenas devido essa razão, a escravidão havia sido “permitida em todo o
Domínio Português” sem que, até então, “ninguém” ponderasse “os males que causa[va]
ao Estado, à Religião e à educação da mocidade”. Portanto, propunha que a instituição
fosse responsável pelo atraso, e não sustentáculo do progresso português.45 Era frágil a
argumentação de Sanches de como a escravidão prejudicava o Estado português. Sua
sanção ao cativeiro era, sobretudo, moral e política, e não econômica. Afirmava que o
“Estado” não “recupera[va] pelos escravos, os súditos” que perdia “na conquista, na
navegação e nos estabelecimentos que tem na África”. Procurava assim inverter a
tradicional equação que justificava o tráfico e o cativeiro pelas riquezas que
produziriam.
A solução que propõe para a falta de braços livres no império português
certamente causou calafrios aos seus leitores aristocratas. Em verdade, ela apoiava-se
em exemplo histórico abusivo, já que apresentava a permissão de matrimônio entre
homens livres decaídos e os cativos ligados à terra – servus – da Alta Idade Média como
a legalização do casamento entre cidadãos romanos e trabalhadores escravizados.46 “Já
disse que os romanos permitiam aos escravos casarem-se, mesmo ainda com as
mulheres romanas, e que os seus netos vinham a ser cidadãos, e desse modo cada ano
recuperava a República pela escravidão, o que perdia pela conquista.” Ou seja,
propunha o matrimônio de portugueses e africanos escravizados para a produção de
cidadãos livres portugueses em duas gerações!
Sem o radicalismo de seu predecessor Fernão de Oliveira, fulminou a
explicação do tráfico como resgate de pagãos: “Eu não posso conceber como os
eclesiásticos não têm remorsos de consciência em permitirem que fique escravo o
menino que nasceu de pai e mãe escrava, no meio do Reino e da Religião Católica.”
Não apresentava, entretanto, por razões políticas, a proposta de libertação dos
trabalhadores escravizados que, na sua época, eram já essencialmente negro-africanos.
Certamente tinha consciência dos limites da abertura política pombalina e que seu livro
dirigia-se às autoridades civis, a quem absolvia taticamente da responsabilidade pela
ordem negreira.
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Nação inconclusa
Apenas por “razões políticas” e “não por aquelas do Evangelho”, Sanches
aceitava que “o adulto” que fora “cativo, ou comprado na África” permanecesse
“escravo depois que [...] batizado”. Mas para ele era “incompreensível” que “o mesmo”
ocorresse “com seu filho nascido nos Domínios Portugueses, e batizado nos braços da
mãe cristã”. Repetia, portanto, para o cristianismo, a interdição bíblica da escravidão
dos hebreus. Sanches lembrava que, segundo a “religião cristã”, todos os “fiéis” eram
“iguais” enquanto observassem “os mandamentos da Igreja”. Os “eclesiásticos”
deveriam estender “fora da Igreja esta igualdade” fazendo “entrar os escravos cristãos
na classe do súdito livre, e cidadão”.
Defendia, sobretudo, a libertação dos ventres das cativas africanas e crioulas
batizadas. Uma ação que apresentava como necessária à “instrução” e humanização da
“mocidade portuguesa”. “Se eu pretendera somente que a mocidade portuguesa fosse
perfeitamente instruída [...] não havia de reprovar a escravidão introduzida em
Portugal.” Seu “intento” era mais ambicioso. Queria dotar os jovens de “humanidade”,
não apenas de “instrução”. O que dizia ser impossível “enquanto um senhor” tivesse
“um negro a quem” dava “uma bofetada pelo menor descuido”. Para ele, a escravidão
tornava “cada menino, ou menina, rica” “soberbos, inumanos, sem idéia alguma de
justiça, nem da dignidade que tem a natureza humana”. 47
Jacobino avant la lettre, propunha a impossibilidade da construção de nação
cidadã enquanto vigesse o cativeiro e a “desigualdade civil” entre os cidadãos! “Como
dos privilégios dos fidalgos e da nobreza procedeu a escravidão, assim das imunidades
eclesiásticas, procedeu a intolerância civil.” Aproveitando o nadir dos jesuítas em
Portugal, centrava sua crítica dos privilégios nos eclesiásticos, deixando à margem do
espinaframento a nobreza lusitana. “Se a escravidão faz perder aquela igualdade civil
que faz o vínculo e a força do Estado, a intolerância faz perder aquela humanidade, que
é o desejo de a conservar para imitar o Supremo Criador [...].” “O poder eclesiástico é e
deve ser sobre aquele cristão que vai espontaneamente oferecer-se à Igreja para
satisfazer a sua consciência: mas não tem direito nenhum sobre aquele cristão ou gentio
que não quer entrar na Igreja. Logo, os eclesiásticos não podem assentar por máxima
universal que a tolerância, ou liberdade de consciência, é contrária à conservação da
Religião.” 48
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Sanches associava sua crítica da escravidão à defesa da liberdade de religião


e de consciência. “Como a escravidão” causava “distinção e preeminência entre os
súditos, assim a intolerância civil” levantava “um muro de separação entre o cristão da
religião dominante e o persecutado ou o intolerado [...].” 49 A impiedade de Sanches
chegava a ponto de defender a superioridade da civilização muçulmana e indiana diante
da portuguesa. “[...] era impossível conservar o que conquistaram os portugueses, sendo
intolerantes das religiões daquelas nações conquistadas: nações, tanto a maometana ou
indiana, que não conhecem tal máxima, qual é a intolerância: toda a Ásia e toda África
são tolerantes; e nós queríamos fundar nestes povos subjugados Império Português.” 50

Vozes silenciadas
A lógica da análise de António Sanches arrastava-o à critica da colonização
lusitana na África: “Assim se vai criando naquele ânimo uma aversão para a
humanidade; um ódio para os homens que não sujeitos às mesmas idéias que eles crêem
e adoram; daqui vieram aquelas tiranas inumanidades que exercitaram os castelhanos na
conquista da América e nós também em alguns lugares da África.” 51 António Sanches
não era crítico extraordinário. Ao contrário, era apenas expressão excelente de um
difuso movimento de crítica à escravidão e ao tráfico que perpassava, verticalmente, a
sociedade lusitana, com formas e conteúdos desiguais.
A resistência antiescravista, em Portugal, na África e nas colônias
americanas certamente alimentariam e enriqueceriam esse movimento de crítica
dominado na Europa pelo racionalismo burguês revolucionário, em dura oposição às
representações culturais, intelectuais, estéticas, éticas, políticas, etc. feudais. Portanto,
dentro ou fora do Reino, nas últimas décadas do século 18, não faltavam vozes lusitanas
que se alçassem contra o comércio e a ordem infame. Sobretudo, faltava terreno fértil
para que a boa nova frutificasse, alimentando e fortalecendo a luta dos segmentos
sociais em oposição à ordem vigente.
Também a crítica de Sanches sobre o tráfico e a escravidão não deixou
traços entre os intelectuais e a sociedade portuguesa de sua época. As razões certamente
não se encontram na pequena e restrita tiragem da obra.
Os discursos transgressores da época não eram naturalmente estéreis.
representante do bloco feudal-colonial dominante, o Estado lusitano mobilizava-se com
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singular precisão e afinco para calar as vozes dissonantes e ensurdecer os ouvidos


sensíveis.
Inquisição, ponta-de-lança do controle ideológico, não foi jamais paradoxo
histórico, mas órgão estatal com objetivos e práticas absolutamente coerente com os
objetivos gerais e particulares das classes proprietárias que representava. O fato de que
o Santo Ofício tenha perseguido com o mesmo afinco o cristão-velho Fernão de
Oliveira, de límpidas raízes cristãs, e o cristão-novo de judeu António Sanches, de
família indiscutivelmente hebréia, é uma outra prova tangível de sua função
essencialmente supra-religiosa.
A manutenção na submissão, objetiva e subjetiva, do mundo do trabalho
constituía necessidade imprescindível para o prosseguimento de um Estado e de uma
ordem profundamente parasitários. O absolutismo não alimentava a ordem negreira. Ao
contrário, era por ela poderosamente alimentado. Os escravizadores exigiam que as
únicas vozes escutadas fossem as de suas razões esdrúxulas.

NOTAS

1. Cf. LARA, Silvia Hunold. Campos da violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro.
1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 35; LEITE, Serafim. História da Companhia de
Jesus no Brasil. Lisboa: Portugália, 1938. T. 2, pp. 227-230; “Opinião de um Frade Capuxinho sobre a
Escravidão no Brasil em 1794”. RIHGB, 60 (1897): 155-157.
2. SAUNDERS, A.C. de C. M. História social dos escravos e libertos negros em Portugal. Lisboa:
Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1994. [Ed. orig. University of Cambridge, 1982.] p. 72
3. SOTO, Domingo, Iustitia et iure IV,2,2
4. SAUNDERS, A.C. de C. M. História social [...].p. 72.
5. MENDONÇA, Henrique Lopes de. O Padre Fernando Oliveira e a sua obra nautica – Memoria
comprehendendo um estudo biographico sobre o afamado grammatico e nautographo e a primeira
reprodução typographica do seu tratado inedito “Livro da Fabrica das Naus”. Lisboa: Academia
Real das Ciencias, 1898; ALBUQUERQUE, Luís de. Navegadores, viajantes e aventureiros
portugueses nos sécs. XV e XVI. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987. pp. 128-42; DOMINGUES,
Francisco Contente. “Experiência e conhecimento na construção naval portuguesa do século XVI: os
tratados de Fernão de Oliveira”. REVISTA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, XXXII (1986),
pp. 343-7.
6. Cf. ASSUNÇÃO, Carlos & TORRES, Assunção. “Introdução”. OLIVEIRA, Fernão de.
Gramática da linguagem portuguesa. [1536]. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 2000. p. 12.
7. Cf. ASSUNÇÃO & TORRES. “Introdução”. ob.cit. p. 12.
8. Id.ib. p. 4.
9. Cf. DOMINGUES, & BARKER “O autor e seu obra”. Ob.cit. p. 11.
10. Cf. FONSECA, Comandante Quirino. “Comentário preliminar” [da edição de 1937] pp.XI-XXV.
OLIVEIRA, Padre Fernando. A arte da guerra do mar. Lisboa: Ministério da Marinha [1970].
11. Cf. DOMINGUES & BARKER “O autor e seu obra”. Ob.cit. p. 12.
12. Cf. Loc.cit. p. 12.
13. Cf. Loc.cit.
14. Cf. Loc.cit. p. 12; ASSUNÇÃO, Carlos & TORRES, Assunção. “Introdução”. p. 14-5.
15. Cf. DOMINGUES & BARKER. “O autor e seu obra”. p. 12.
16. Cf. loc.cit.
17. Cf. FONSECA, Comandante Quirino. “Comentário preliminar”. Ob.cit.
18. MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo.
São Paulo: Companhia das Letras, 1994; SALVADOR, José Gonçalves. Os magnatas do tráfico
MAESTRI, Mário. António Sanches: a voz angustiada de um cristão-novo de judeu 27
abolicionista. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 12-29, Dez. 2008 / Jun. 2009.

negreiro: séculos XVI e XVII/ José Gonçalves Salvador. São Paulo: Pioneira, 1981; CONRAD,
Robert Edgar. Tumbeiros: o tráfico escravista para o Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985;
GOULART, Maurício. Escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico. 3ª ed. São
Paulo: Alfa-Ômega, 1975; SILVA, Alberto da Costa. A manilha e o libambo: a África e a escravidão
de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Biblioteca Nacional, 2002.
19 Cf. TORRES, Amadeu. “A paz da Fé e a fé na Pax Christiana: cruzadismo e irenismo na expansão
atlântica”. Actas do Congresso Internacional sobre Bartolomeu Dias e a sua Época, Universidade do
Porto, vol. V, 1989, pp. 605-15.
20 Cf. Filhos de Cã, filhos do cão: o trabalhador escravizado e a historiografia. O período colonial.
Revista História Debates e Tendências. Passo Fundo: , v.4, n.1, p.80 - 98, 2003.
21. Cf. MENDONÇA, Henrique Lopes de. O padre Fernando Oliveira e sua obra náutica. Lisboa: 1898;
BARKER, R.A “Ferando Oliveira: the english episode, 1545-1547”; DOMINGUES, Francisco
Contente. Experiência e conhecimento na construção naval portuguesa do século XV: os tratados de
Fernando Oliveira. Lisboa: 1985.
22. Cf. DOMINGUES & BARKER “O autor e seu obra”. Ob.cit. p.14.
23. Cf.FONSECA, Comandante Quirino. “Comentário preliminar”. Ob.cit.
24. Cf. DOMINGUES & BARKER “O autor e seu obra”. Ob.cit. p. 14.
25. Cf. Id.ib. p. 11.
26. FERREIRA, Joaquim. “António Sanches”. SANCHES, António Nunes Ribeiro. Cartas sobre a
educação da mocidade. Pref. e notas de FERREIRA, Joaquim. Porto: Domingos Barreira, s.d. p. 17.
27. Id.ib. p. 18
28. Id.ib. p. 20, 24.
29. Cf. MARQUES. Os sons do silêncio. Ob.cit. p.79.
30. FERREIRA. “António Sanches” pp. 25-7.
31. Id.ib. p. 17
32. Id.ib. p. 27
33. Id.ib. p. 34
34. Id.ib. p. 41.
35. [SANCHES, A.N.Ribeiro]. Tratado da conservação da saude dos povos. Obra util, e igualmente
necessaria a os Magistrados, Capitaens Gerais, Capitaens de Mar, e guerra, Prelados, Abbadessas,
Medicos, e Pays de Familias: com hum Appendix. Consideraçõins sobre os Terremotos, com a noticia
dos mais consideraveis, de que fas menção a Historia, e dos ultimos que se sentirão na Europa desde o
I de Novembro 1755. Paris, MDCCLVI.
36. Id.ib. p. vi. Atualizamos.
37. Cf. SANCHES, A[ntónio] N[unes] Ribeiro. Cartas sobre a educação da mocidade. [Nova edição
revista e prefaciada. Maximiano Lemos]. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1922. p. V-XV; Cartas
sobre a educação da mocidade. Prefácio e notas de FERREIRA, Joaquim. Porto: Domingos Barreira,
s.d.
38. FERREIRA. “António Sanches” p. 45
39. Cf. SANCHES. Cartas sobre a educação da mocidade. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1922. p.
IX.
40. Cf. Id.ib. 2.
41. Cf. Id.ib. p. 53.
42. Cf. Id.ib. p. 60.
43. Id.ib. p. 67
44. Id.ib. p. 67
45. Id.ib. 88
46. Cf. DOCKÈS. La libération médiévale. Ob.cit. p. 140.
47. Id.ib. p.90.
48. Id.ib. p. 96
49. Id.ib.,p.95.
50. Id.ib.,p.93.
51. Id.ib.,p.95.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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os Magistrados, Capitaens Gerais, Capitaens de Mar, e guerra, Prelados, Abbadessas, Medicos,
e Pays de Familias: com hum Appendix. Consideraçõins sobre os Terremotos, com a noticia dos
mais consideraveis, de que fas menção a Historia, e dos ultimos que se sentirão na Europa desde
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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun. 2009.

NI FEMINISTA NI EVITISTA. SOBRE LA CARRERA


POLÍTICA Y CANDIDATURA PRESIDENCIAL DE
CRISTINA FERNÁNDEZ DE KIRCHNER

Inés Valdez∗

Resumo: Abstract:

A pesar del crecimiento del rol de la mujer In spite of the growth of the roll of the
en política en los años transcurridos desde la woman in politics in the years passed since
transición democrática, el discurso the democratic transition, the journalistic
periodístico y de los actores políticos and the political actors speech maintains a
mantienen una visión dicotómica del dichotomizing vision of man and woman.
hombre y la mujer Según esta visión lo According to this vision the feminine is
femenino se asocia a lo extraño en la esfera associated to a strange in the public sphere,
pública, a un carácter naturalmente to a naturally affectionate character, and a
afectuoso, y a un lugar particular dentro de particular place within the familiar
la metáfora familiar que suele hacerse de la metaphor that usually happens with the
nación. La importancia de descubrir sesgos nation. The importance of discovering slants
de género en el tratamiento periodístico of gender in the journalistic treatment
reside en que el discurso refleja una lógica resides in that the speech reflects logic of
de organización social y política subyacente. underlying social and political organization.
Por lo tanto, la evaluación de la inclusión de Therefore, the evaluation of the inclusion of
género en la arena pública no puede dejar de gender in the public places cannot despise
lado esta área de análisis. El análisis de los this area of analysis. The analysis of the
discursos sobre la carrera política y speeches on the political race and
candidatura presidencial de Cristina presidential candidacy of Cristina
Fernández de Kirchner, actualmente Fernandez de Kirchner, at the moment
candidata a presidente por el partido Frente candidate to president by the party Frente
para la Victoria, confirma que la mujer para la Victoria, confirms that the woman
sigue siendo señalada como ajena a lo continues being indicated as other people’s
publico y diferente por naturaleza en el to and different by nature in the political
discurso político. Este artículo afirma que speech. This article affirms that the real
los efectos reales de la recurrencia del effects of the recurrence of the gender in the
género en la determinación discursiva de lo speech determination of the politician
político no pueden ser desestimados en la cannot be misestimated in the search of the
búsqueda de la democratización de los democratization of the scopes of
ámbitos de participación. participation.

Palavras-chave: Key-words:

Argentina; Cristina Fernández de Kirchner; Argentina; Cristina Fernandez de Kirchner;


Discurso periodístico; Elecciones Journalistic speech; Presidential elections;
presidenciales, Género; Mujeres en política; Gender; Women in politics; Peronism.
Peronismo.

∗ Inés Valdez. Universidad de Carolina del Norte en Chapel Hill. Professora da Universidad de Carolina
del Norte en Chapel Hill, Departmento de Ciencia Política. Universidad de Duke Beca Doctoral. M.A. en
Ciencia Política Universidad de Carolina del Norte en Chapel Hill. Licenciatura en Economía
Universidad Torcuato Di Tella. Email: inesv@unc.edu.
30 VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura presidencial
de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade
Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun. 2009.

El 25 de junio de 2006 el presidente argentino Néstor Kirchner anunció en


un acto celebrado en la provincia de Chubut la posible candidatura a la presidencia por
parte de su esposa, Cristina Fernández de Kirchner1. Esta posibilidad se había
empezado a considerar después de que Cristina Fernández de Kirchner derrotara a Hilda
“Chiche” Duhalde en las elecciones legislativas de octubre de 20052 y se confirmaría
recién en Julio de 20073.
El protagonismo de las mujeres en la esfera pública argentina no es una
novedad (a pesar de que se mantiene la desventaja numérica respecto a la participación
política de los hombres). La historia ofrece casos paradigmáticos como el de Eva Perón,
experiencias de grandes fracasos como el de Isabel Perón, movimientos colectivos
protagonizados por mujeres como el de las Madres de Plaza de Mayo y – en el pasado
más cercano – políticas electas con proyección nacional como Graciela Fernández
Meijide, Hilda “Chiche” González de Duhalde, Elisa Carrió, y Cristina Fernández de
Kirchner.
Este artículo centra su atención en la época contemporánea, buscando
analizar el discurso de género que existe alrededor de la carrera política y candidatura a
la presidencia de la actual senadora por la provincia de Buenos Aires, Cristina
Fernández de Kirchner, en las elecciones del 28 de octubre de 2007. Al hacerlo,
establezco continuidades y contrastes con los discursos históricos sobre los roles de las
mujeres en la política argentina.

1. Discursos de exclusión y diferencia

En este artículo examino tres temáticas que pueden considerarse clave en la


lectura del rol político de la mujer: (1) La exclusión histórica que se ha hecho de lo
femenino con respecto a la esfera pública; (2) Los discursos sobre la naturaleza distinta
de la mujer, más orientada a tareas de cuidado y afecto que a la confrontación que
caracteriza al mundo de la política y los negocios; y (3) La ubicación de la mujer dentro
de la metáfora de nación que la literatura y la narrativa histórica realizan, la cual
frecuentemente se basa en un formato familiar para representar a la Nación.
La primera temática se refiere a cómo, históricamente, la teoría política ha
colocado a la mujer fuera de la esfera pública. Aristóteles afirmaba que la contribución
de las mujeres a los fines del Estado se reducía a la producción de las necesidades
vitales y a la reproducción de los ciudadanos (hombres) (Jones 1990: 790). Según este
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 31
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
2009.

filósofo, la valentía de la mujer se demostraba en la obediencia (a diferencia del


hombre, que demostraba la suya al dirigir) (Kerber 1988: 19). La asociación entre la
mujer y lo biológico también puede verse a fines del siglo XVIII, período en el cual la
naturaleza de la mujer se creía asociada inextricablemente a sus órganos reproductivos,
factor que se utilizara para justificar la limitación de los roles sociales y económicos de
la mujer (Groneman 1994: 341). Maquiavelo, asimismo, identificaba a la mujer con la
fortuna, la cual debía ser domada y mantenida bajo control, mientras que Rousseau
consideraba el cuerpo de la mujer sin contención un peligro para el orden político (Jones
1990: 791).
Esta división entre la esfera pública y privada y la asignación de la mujer a
la segunda de ellas, se plasmó socialmente dando lugar a discursos sobre el “rol
apropiado” de la mujer, el cual con certeza se ubicaba fuera del ámbito político, dado
que la irracionalidad y cercanía a la naturaleza de lo femenino implicaban un peligro
para dicho ámbito. Aun hoy, los hombres son la norma en la arena política, mientras
que las mujeres todavía son categorizadas como el “otro” (la otra?) y marcadas por su
género en este contexto (Douglas Vavrus 2000).
En segundo lugar, existe un discurso en el cual se asocia a la mujer con
determinadas inclinaciones de carácter. En particular, la mujer es identificada como un
ser más sensible por naturaleza, encuentra especialmente predispuesta a tareas de
cuidado, crianza y cultivo de relaciones familiares. Fisher y Tronto (1991: 40) definen
el cuidado como “la actividad que incluye todo lo que hacemos para mantener,
continuar y reparar nuestro ‘mundo’ de modo que podamos vivir en él de la mejor
manera posible.”4 Estas cualidades con frecuencia se contrastan a las de autoridad y
liderazgo, que suelen ser asociadas con los hombres y – a la vez – requeridas para una
actuación exitosa en la esfera pública. Debe notarse que la valoración de las tareas de
cuidado es independiente de la asignación de cierta naturaleza orientada hacia ellas a
uno de los géneros5.
En tercer lugar, no es inusual encontrar en los discursos políticos claras
metáforas que identifican a la nación con la familia. Gwynn Thomas afirma que los
actores políticos utilizan estratégicamente a la familia en sus esfuerzos de “obtener
control del estado, legitimar sus proyectos políticos, justificar la movilización social,
criticar a sus oponentes, y crear un espacio desde donde hablar.” (Thomas 2005: 5).
Estos relatos familiares pueden contener “las coordenadas que exhiben lo social y
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 32
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
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cultural desde sus fisuras, e incluso revelar en su enunciado el germen de la resistencia o


los dilemas de un cambio.” (Amado y Domínguez 2006: 16)
En este sentido, resulta interesante examinar qué relatos familiares utilizan
los distintos actores políticos, qué lugar les cabe a las mujeres políticas en estas
metáforas, cómo se han modificado estos lugares a lo largo de la historia, y cómo se
diferencia esta posición de la que es asignada a políticos hombres que se encuentran en
situaciones similares.
Si bien hoy en día la mujer tiene formalmente garantizados el acceso al voto
y la libertad de presentarse como candidata aún se pueden encontrar en el discurso
periodístico y entre los actores políticos construcciones discursivas basadas en las tres
temáticas especificadas anteriormente. Así, las mujeres con participación política deben
enfrentar prejuicios basados en su género, y exploraciones de lo doméstico y lo
biológico (el cuerpo) que los hombres no encuentran a lo largo de sus carreras.
La utilidad de la técnica de análisis del discurso es que permite “entender la
lógica subyacente de la organización social y política de un área en particular”
(Crawford 2004: 22) ya que los significados y – por lo tanto – la realidad social, surgen
de la interacción entre textos o discursos, siendo éstos objetos concretos que producen
tanto como invocan una realidad material (Hardy et al. 2004: 20). Un ejemplo claro de
esta invocación/producción se puede encontrar en un artículo del diario Clarín en el cual
se citan las dudas de algunos actores políticos sobre conveniencia de la candidatura de
Cristina, quienes “señalan que lo mejor sería no cambiar el hombre al timón.”6
(énfasis en el original).
El tratamiento de estas cuestiones a través de una perspectiva de género
implica afirmar que “el mundo de las mujeres es parte del mundo de los hombres,
creado en él y por él. Este uso rechaza la utilidad interpretativa de las esferas separadas,
manteniendo que el estudio aislado de las mujeres perpetúa la ficción de que una esfera,
la experiencia de uno de los sexos, tiene poco o nada que ver con el otro.” (Scott 1986:
1056).
Más allá de la utilidad del análisis discursivo como herramienta teórica, el
objetivo final de analizar en forma constante el lenguaje es negarle al poder un lugar de
escondite (Wollstonecraft 1975: 87, citado por Kerber 1988: 39).
Este artículo toma como principio inspirador la candidatura a la presidencia
de Cristina Fernández de Kirchner, que podría culminar en la primera elección de una
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 33
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
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mujer como presidenta en la historia argentina. Debido a la cercanía entre el anuncio de


la candidatura y la escritura de este artículo, el material utilizado incorpora como fuente
la campaña de las elecciones legislativas nacionales en el año 2005, en las cuales
Cristina Fernández de Kirchner se enfrentó (y venció) a Hilda “Chiche” González de
Duhalde por el puesto de senadora nacional.
El análisis incorporará brevemente los legados históricos en lo que hace a la
participación femenina en política, con una concentración en personalidades
sobresalientes como Eva Perón (también conocida como Evita) y movimientos
mayormente femeninos de alto perfil público (tal como las Madres de Plaza de Mayo).
En definitiva, se buscará resaltar las continuidades y los contrastes entre las distintas
figuras, la predominancia de las temáticas especificadas anteriormente y la apropiación
o rechazo de las mismas por parte de las figuras femeninas de la política argentina.

2. Legados históricos

La centralidad de este breve trazado de los antecedentes históricos se debe a


que el análisis del discurso requiere un entendimiento profundo del contexto (Crawford
2004: 24). En el caso del estudio de las mujeres políticas en la argentina, es inevitable
enfocar el recuento en el análisis del caso de Eva Perón. La esposa del general Juan
Domingo Perón, quien estuvo a punto de ser la primera mujer en candidatearse a la
vicepresidencia, marcó el terreno político argentino (y particularmente el peronista) de
manera indeleble.
La irrupción de Evita en la escena política implicó varias rupturas con los
roles tradicionales de la mujer en la esfera pública, hasta ese momento reducidas a
tareas de caridad.7 Esta irrupción o “’escándalo’ simbólico político” (tal como lo define
Domínguez 2004: 152), carga consigo –sin embargo- visiones muy tradicionales de la
mujer, las cuales aceptan a la mujer en la esfera pública manteniendo visiones
dicotómicas sobre su naturaleza y le asignan un lugar en la metáfora familiar bien
distinto al que ocupan los hombres.
Eva se presenta como hija y como esposa del general Perón, y como madre
de los descamisados (Domínguez 2004). Dentro de esta metáfora familiar (que propone
activamente para el resto de las mujeres de la nación), Evita actúa como intermediaria
entre el pueblo y el general Perón (Guivant 1986: 5-6). Así su entrada en la esfera
pública, que de por sí la convierte en blanco de ataques, se produce como miembro del
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 34
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
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género femenino, como ser sensible que puede acercarse más a las necesidades e
insatisfacciones de las masas y comprenderlas, de modo de poder transmitirlas al
general, quien puede “politizarlas,” es decir, traducirlas del lenguaje del cuidado al de la
acción política.
Esta inclusión condicionada en la esfera pública se hace más notoria cuando
su candidatura a la vicepresidencia se ve bloqueada no por la falta de apoyo popular,
sino por las presiones de actores políticos masculinos como los militares y la oligarquía
(Soria 2005: 46) a las cuales él – su esposo/padre – les otorga prioridad sobre ella.
En este sentido, a Eva Perón se le niega la posibilidad de una legitimación
electoral/pública, lo cual mantiene su participación política en un terreno derivado de su
vínculo conyugal. En la misma línea, Claudia Soria destaca que la renuncia a la
vicepresidencia implica para Evita “permanecer a la sombra de Perón, atendiendo las
pequeñas necesidades de la ‘petite histoire’,” colaborando y operando – como consuelo
– como una extensión o apéndice del cuerpo de su marido (2005: 51).
En otras palabras, Eva sólo ingresa a la esfera pública a través de su
conexión “privada” con el general Perón. Este perfil se ve reforzado por el discurso
oficial y los escritos de la misma Evita (que – por otro lado – son construcciones
funcionales a los intereses del partido gobernante). En un análisis crítico de su auto-
biografía (La Razón de mi vida) Nora Domínguez menciona que esta obra ubica a Evita
como la “intermediaria” en el nuevo contrato social que el líder arma con el pueblo
peronista (Domínguez 2004: 156). Esta centralidad del general Perón en la vida de
Evita, se refuerza en la relevancia que adquiere en el relato el primer encuentro entre
ambos que “se constituye en la revelación absoluta y centro configurador de la
transformación de Eva,” incluyendo el despertar de su conciencia política (Domínguez
2004: 164).
En lo que hace al rol específico que Evita adquiere en la esfera pública, debe
destacarse que tanto el discurso oficial como sus acciones se ubican dentro de aquellas
que la “naturaleza femenina” estaría mejor capacitada para llevar adelante, mayormente
sociales/asistenciales y de “mediación” entre Perón y los miembros del movimiento.
Este discurso se continuaba en los mandatos del peronismo hacia las mujeres militantes.
Guivant (1986: 55) afirma que las mujeres en el peronismo “eran llamadas a
subordinarse como mujeres, es decir, su subordinación era justificada a través de la
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 35
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
2009.

evocación de lo que se entendía como ‘naturaleza femenina.’” (subrayado en el


original).
El caso de Isabel Perón, quien logró lo que a Evita le fuera negado (ser
candidata y luego elegida como vicepresidenta de la nación), es otro ejemplo de una
actuación femenina encasillada en roles femeninos conservadores. De acuerdo con
Deleis et al. (2001: 451), “en ningún otro gobierno constitucional de la segunda mitad
del siglo XX fue tan fuerte el discurso tradicionalista sobre la mujer, lo cual era
coherente con el marcado tono reaccionario que caracterizó la vida política, social y
cultural en esos años.” Isabel Martínez de Perón asumió la presidencia de manera
interina el 29 de junio de 1974 y en forma definitiva el 1 de julio del mismo año. La
crisis económica, la violencia, y las divisiones al interior del peronismo, hicieron de su
presidencia una sucesión de emergencias que la llevarían a optar por una licencia de
enfermedad poco antes de que el 24 de marzo de 1976 su gobierno fuera interrumpido
por un golpe militar que inició la dictadura más sangrienta de la historia argentina.
El caso de las Madres de Plaza de Mayo es también relevante en lo que hace
a la actuación política femenina. Su actuación empieza en abril de 1977, cuando “un
pequeño grupo de mujeres da nacimiento a la asociación que en poco tiempo más será
conocida como Madres de Plaza de Mayo.” (Deleis et al. 2001: 465). La entrada a la
esfera pública de estas mujeres se produce en un momento de alta peligrosidad para
cualquier actividad opositora,8 y se expresa a través del vínculo materno. Así, el rol
doméstico de “cuidado” se utiliza como la base para una acción profundamente política:
el desafío del ocultamiento que la dictadura militar hizo de su estrategia represiva. Tal
como Bellucci (1997, citado en Deleis et al. 2001: 466) sostiene, en el proceso de lucha,
la demanda de las madres por sus hijos “se expande para todos los desaparecidos.” Nora
Domínguez, asimismo, se refiere a un “desacomodamiento simbólico que perturba
sujetos, tiempos y espacios.” (2004: 167).
No es casual que el activismo en derechos humanos haya dado lugar a
muchas figuras de importancia política en la post-dictadura. Entre ellas, Graciela
Fernández Meijide, quien formara junto con otros políticos progresistas una fuerza de
centro izquierda que llegaría a conformar el Frepaso, frente político que – en alianza
con Octavio Bordón, otro disidente peronista – lograra superar a la Unión Cívica
Radical en las elecciones presidenciales de 1995, y finalmente constituyera la Alianza
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 36
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
2009.

por el Trabajo, la Justicia y la Educación, que obtuviera la presidencia en el año 19999


(Abal Medina 1998).
Elisa Carrió es otro ejemplo de un liderazgo femenino aún activo en la arena
política. Si bien Carrió proviene de una tradicional familia radical de la provincia del
Chaco, en 2001 – cuando se le pidió a los congresistas de la Alianza que votaran la
delegación de poderes especiales al ejecutivo – abandonó el partido radical para formar
su propio partido (ARI, por Afirmación por una República Igualitaria) y tuvo a lo largo
de su carrera una activa postura anti-corrupción (Levitsky y Murillo 2003: 156). La
actual diputada tiene un pasado de reina de belleza de su provincia y un presente de
fluctuaciones de peso, por lo que su cuerpo y apariencia en general han sido motivo de
escrutinio constante por la prensa local y extranjera10.

3. El período contemporâneo

El 7 julio de 2005 Néstor Kirchner anunció que su esposa sería la candidata


por la Provincia de Buenos Aires representando al Frente por la Victoria (la agrupación
política creada por el presidente luego de romper con el líder peronista Eduardo
Duhalde) en las elecciones para el Senado Nacional. El Partido Justicialista (nombre
oficial del partido peronista) presentaría también a una mujer, Hilda “Chiche” González
de Duhalde, esposa de Eduardo Duhalde, líder histórico de la Provincia de Buenos
Aires, presidente interino durante 2002 y 2003 y responsable de la entrada de Kirchner a
la arena política nacional.
Luego de que Cristina Fernández venciera a Hilda “Chiche” González, la
posibilidad de su candidatura presidencial empezó a considerarse seriamente.
Finalmente, el 19 de Julio de 2007 se realizó el anuncio oficial de la candidatura de
Cristina Kirchner a la presidencia. De acuerdo a los resultados de las encuestas, esta
postulación podría dar lugar a la primera mujer presidenta elegida por el voto popular en
la historia de la Argentina.
El análisis de las tres temáticas discursivas detalladas anteriormente se
realizará examinando material de prensa de los años 2005 y 2007, de modo de cubrir los
años electorales correspondientes a las dos elecciones en las que Cristina Kirchner
participó/participa. El enfrentamiento entre dos mujeres con posibilidades de salir
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victoriosas en 2005 ofrece – adicionalmente – la oportunidad de contrastar la figura de


Cristina con otra figura femenina contemporánea.
Entre Cristina Fernández de Kirchner e Hilda González de Duhalde existen
similitudes claras, en tanto ambas están casadas con líderes peronistas de altísimo perfil,
su presencia en la pelea electoral y el apoyo que gozan dentro del partido es producto de
alianzas tejidas por sus maridos, y el resultado de la contienda conlleva importantes
costos o beneficios políticos para los mismos.
Sin embargo, las semejanzas mencionadas no logran oscurecer claras
diferencias de perfil político entre ambas candidatas, y si bien ambas se refieren a Eva
Perón en sus discursos, la forma de apropiación de la misma evidencia posiciones muy
diferentes de estas candidatas ante las modalidades de discursos de género descriptas en
este artículo.
La mayor diferencia radica en sus carreras. Cristina tiene una historia de
militancia que data de sus épocas de estudiante en La Plata (interrumpida por la
dictadura) y una serie de victorias en elecciones que empieza en 1989 con el puesto de
diputada provincial en la provincia de Santa Cruz (Wornat 2005: 173), y continúa con
cargos a nivel nacional (empezando como senadora nacional electa por Santa Cruz en
1995), los que le otorgan proyección nacional antes que a su esposo, Néstor Kirchner.
Chiche, en contraste, ha declarado: “Soy portadora de apellido, me llamo
Hilda Beatriz González de Duhalde, no me pesa y estoy muy orgullosa de serlo.”11 En
otras palabras, la carrera de Chiche Duhalde se encuentra asociada a la trayectoria
política de su esposo. Si bien en 1997 se postuló y obtuvo una bancada en la cámara de
diputados de la nación, sus actividades políticas previas estuvieron asociadas a la
gestión de Eduardo Duhalde como gobernador de la provincia. Su participación
comienza dirigiendo el Consejo Provincial de la Familia y Desarrollo Humano (creado
en 1991) y – siguiendo el ejemplo de Evita – la rama femenina del partido peronista
(Auyero 2000: 56).

3.1 La mujer como extraña

A pesar de las diferencias en la forma en que ambas mujeres se auto-


definen, tanto los discursos de la prensa como otros actores políticos tienden a señalar,
casi por igual, la otredad de las mujeres en la vida pública.
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 38
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Ricardo López Murphy, por ejemplo, quien se vio perjudicado por la


división peronista en facciones para las elecciones del 2005 declaró al diario Clarín “Le
planteamos a la sociedad bonaerense que se libere de las esposas”12 (énfasis en el
original) haciendo clara referencia a que el lugar y la influencia de las mismas se
encuentra fuera de lugar en la arena política. La lectura de esta afirmación tampoco se
agota en lo mencionado. En primer lugar, la polisemia de la palabra esposas da lugar a
un sentido alternativo, en el cual los hombres se encuentran maniatados por la presencia
femenina, su libertad limitada. Adicionalmente, la frase puede ser vista como dirigida
exclusivamente a los votantes hombres y como abogando por una generalizada
emancipación masculina de influencias femeninas indebidas en el ámbito político y en
general.
Este mismo candidato afirmó que la forma de conducir la campaña de “las
mujeres” está provocando que “la gente pierda interés”13 colocando otra vez la
participación femenina como disruptiva de la normalidad política.
Los recuentos de los actos de campaña resultan otra fuente interesante para
la temática de otredad. En primer lugar, los diarios gustan referirse al público femenino
en cada acto de políticas mujeres (notando que “Hubo mucha presencia femenina, como
en cada acto suyo”14 en el acto de cierre de campaña de la Senadora Duhalde y que
“Cristina fue interrumpida varias veces por un público (había muchas mujeres)
fervoroso”15 (sic.) en un acto de la Senadora Kirchner en San Miguel. Basta imaginarse
el recuento de un acto de un político hombre en el que se señale que “había muchos
hombres entre los asistentes” para notar la singularidad de este tipo de comentario
periodístico. En definitiva, las candidatas evidentemente atraen a una concurrencia que
no pertenece al ámbito de las concentraciones políticas, y como tal debe ser señalado.
En otra demostración de este tipo de dinámica el gobernador cordobés José
de la Sota afirmó sobre la participación de Cristina en una reunión en la Casa Rosada
que se la vio “muy participativa, informada y preguntona,”16 donde los dos primeros
adjetivos marcan la extrañeza de la mujer política profesional, y el tercero la devuelve a
cierto lugar infantil o jerárquicamente inferior de la alumna que pregunta.
Este mismo extrañamiento expresó el diario Clarín al describir unos afiches
que aparecieron en los días previos al anuncio oficial de la candidatura presidencial de
Cristina. Al referirse a ellos, el periodista Julio Blanck cree necesario aclarar lo que esos
afiches “no son”:
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 39
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No es la propaganda de un shampoo que asegura cabellos suaves, brillantes,


y con cuerpo. Tampoco el anuncio de un maquillaje para ojos que otorga más
profundidad y sugestión a la mirada. Ni el de pintura de labios que ofrece una delicada
mixtura de sensualidad y elegancia.
Diario Clarín, “La Dama de fuego y de hielo, y el cambio que recién
empieza,” 08/07/2007.
El fragmento citado remite tanto a un excesivo foco en la apariencia física
de la candidata a presidente, como a un reflejo que suele identificar a las imágenes
femeninas con actividades que se encuentran fuera de la política (como la
comercialización de productos de belleza). El énfasis en la apariencia – operación que
se repite numerosas veces17 – nos remite a la asociación entre mujer y biología que se
encontrara en textos clásicos de filosofía política. Esta cercanía, según la lógica
expuesta anteriormente, es la que impide a la mujer alcanzar el nivel de auto-control y
racionalidad que se requiere para actuar en la arena política. La referencia a productos
de belleza, por otro lado, le otorga a la imagen un aura de superficialidad que pone
asimismo en cuestión la idoneidad de una mujer para entrar en el mundo de la política.
La misma candidata a presidente ha identificado y criticado la abundancia de
comentarios sobre su apariencia, exceso de maquillaje y afán de arreglarse, afirmando
que revela “un grado de misoginia y discriminación hacia la mujer bastante fuerte” ya
que no es común escuchar críticas hacia un político “porque le guste estar bronceado o
porque se vista de una u otra manera” (Wornat 2005: 251).
Este doble obstáculo a la actuación política se expresa de forma física
nuevamente en la narrativa sobre el momento en que Cristina jura como senadora en
2005. En dicho artículo se menciona un episodio en el cual “el taco aguja del zapato
derecho se le trabó en la alfombra roja del estrado” y se describe con minuciosidad
como “La senadora dio un par de tirones con su pierna, se agachó para destrabar el
zapato y salió caminando con una sonrisa para abrazar a su cuñada senadora”18.

3.2 La mujer como diferente

En lo que hace a la segunda temática propuesta en este trabajo – la


naturaleza diferente del género femenino – los discursos periodísticos y propios de las
candidatas son elocuentes en señalar su relevancia en la actualidad.
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En el caso de Hilda González de Duhalde, el uso de su apodo (“Chiche”) en


la esfera pública remite a una cierta infantilización19 o cercanía doméstica que no se
observa en el tratamiento de los políticos hombres. El uso del nombre (en lugar del
apellido) es una práctica común en general para las mujeres. Así, la prensa se refiere a
Cristina Kirchner como “Cristina,” a Elisa Carrió como “Lilita,” y a Graciela Fernández
Meijide como “Graciela.”20
Asimismo, es sorprendente la similitud entre el discurso de Chice Duhalde y
las tradicionales categorizaciones de lo femenino que Evita realizara en sus escritos y
discursos públicos. Así, Evita justificó la creación del Partido Peronista Femenino (PPF)
diciendo que era necesario para evitar la “asimilación de los roles políticos femeninos y
masculinos en la esfera pública,” y acusando a las mujeres de clase media y alta de
“querer ‘masculinizarse’ al imitar a los hombres y no preservar las ‘naturales
diferencias’ entre los sexos al entrar en la arena pública.” (Guivant 1986: 32). Chiche
Duhalde, por su lado, afirmó que “ella, la otra, Cristina, se había ‘masculinizado’”
(énfasis en el original) por atacarla y ofender como “hacen los hombres.”21
Chiche también busca diferenciarse de los políticos con ansias de poder, que
buscan liderazgos al decir que ella se guía “por convicciones” y que la razón de su
candidatura es “representar a los que no tienen voz” ya que ella no va “ni por un
resultado ni por una disputa de liderazgo.”22 Esta diferenciación, en la cual las
convicciones predominan y “lo político” toma un lugar secundario se ve también en los
discursos de Evita quien afirma que la mujer es “mejor depositaria que el hombre de los
valores espirituales y más accesible a las buenas costumbres por su diferente condición
biológica-social.” (acto inaugural de la Primera Asamblea Nacional del Movimiento
Peronista Femenino el 26 de julio de 1946, en Perón 2001: 94). Asimismo, a pesar de su
prominencia en la arena política, Evita se caracteriza a si misma como “una mujer del
pueblo argentino (…) he querido confundirme con los trabajadores, con los ancianos,
con los niños, con los que sufren (…) para ser un puente de paz entre el general Perón y
los descamisados de la Patria.” (discurso pronunciado el 22 de julio de 1951, en Perón
2001: 274).
El inicio de la carrera de Chiche en el área social también es característico
de una segregación de las mujeres a funciones que se consideran más apropiadas. La
división entre “acción política” y “acción social” para hombres y mujeres,
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 41
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respectivamente, era asimismo respaldada por Evita en sus recomendaciones sobre la


actividad de las militantes del PPF (Guivant 1986: 43).
En el caso de Cristina, el contraste es claro. Su carrera y sus posiciones no
evocan a la figura histórica de Evita que se describiera y cuando ella elige evocarla
explícitamente, se refiere a una Evita militante, politizada (la “Evita montonera” podría
decirse23) que estaría “al lado de las Madres y las Abuelas de Plaza de Mayo,”24 cuya
existencia es abstracta o fruto de extrapolaciones improbables.
En lo que hace a la carrera política de Cristina Fernández de Kirchner, como
ya se detallara en la sección 3, su inicio fue independiente del de su esposo, el
gobernador de Santa Cruz y se produjo en sus épocas de estudiante en la ciudad de La
Plata (Provincia de Buenos Aires). No sólo el presidente, sino también actores políticos
a nivel de la provincia de Santa Cruz y a nivel nacional, le reconocen ampliamente su
capacidad de “operar políticamente.” En un artículo sobre el lanzamiento de su
candidatura a diputada provincial en marzo de 1989, el diario Santacruceño La Opinión
Austral declara que “Por estrategia política o decisiones internas, Cristina Fernández ha
tenido en los últimos tiempos un bajo perfil participativo en la marquesina política, pero
pocos dudan de la notable influencia que ejerce en asuntos del Estado y aun en la
designación de funcionarios.” En el mismo artículo el periodista se refiere a ella como
“un cuadro de peso” en el movimiento25.
Las autoras del recuento biográfico de Kirchner, Valeria Garrone y Laura
Rocha también acuerdan en que Cristina Kirchner – a diferencia de otras primeras
damas – “proviene de la política” (Garrone y Rocha 2003: 73).
Tal vez uno de los mayores elogios (involuntario) que Cristina ha recibido
en respuesta a su candidatura provenga del mayor enemigo político de la corriente
kirchnerista: Eduardo Duhalde, quien se refirió a ella como alguien sin experiencias de
gestión, agregando que “con su personalidad, tampoco creo que se deje manejar,” lo
cual puede ser leído como una puesta en relieve de que son las características personales
de la senadora las que se interponen con el rol de género con que se marca a las mujeres
en política.
Néstor Kirchner, asimismo, mantiene un discurso sobre su esposa alejado de
los estereotipos descriptos en este artículo. Al referirse a la potencial candidatura de
Cristina siempre se refiere a ella con admiración y aludiendo a la construcción
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 42
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institucional que ella será capaz de llevar adelante, así como la “experiencia, reflexión y
estudio” que aportará al cargo.26
Estas palabras superan lo discursivo, ya que cuando Kirchner se convirtió en
presidente el tipo de rol que se delegó en ella puede ser caracterizado como de
negociación política27, más que de vinculación con las tradicionales tareas sociales y
asistenciales que se encarga a las primeras damas28.
Este reconocimiento de su rol como “cuadro político” se extiende a otros
actores, tanto en el campo kirchnerista como en la oposición. La clase política recuerda
su actuación desde su banca en el Senado y a través de comisiones en casos de alto
perfil tales como la privatización de YPF, el diseño del Consejo de la Magistratura, el
conflicto con Chile sobre los hielos continentales, etc. (Garrone y Rocha 2003: 79).
La prensa, finalmente, también reconoce su rol político, y cita con
frecuencia su papel en ciertas decisiones gubernamentales, e incluso su postura crítica
ante decisiones del presidente29.

3.3 La mujer y su lugar en la familia/nación

Siendo Cristina Kirchner la esposa del actual presidente argentino, es


sorprendente que metáforas sobre un rol doméstico de la candidata hayan sido más
bien escasas. Como ya se refiriera en el recuento histórico, tanto Eva Perón como las
Madres de Plaza de Mayo se sirven de la maternidad (cierta o ficcionalizada) para
facilitar su nacimiento como actoras políticas (Domínguez 2004: 154-155). Sin
embargo, la carrera política de Cristina ha sido lo suficientemente separada de la de
su esposo como para que éste pueda apropiarse de su “nacimiento político,” o ella
tenga que justificar su actuación haciendo uso de roles femeninos estereotípicos
aceptados.

Nuevamente, Hilda “Chiche” González de Duhalde ofrece un contraste


en este ámbito. Por ejemplo, al referirse a las mujeres que participaban del programa
de distribución de comida en la Provincia de Buenos Aires (las “manzaneras”)
afirma que se trataba de mujeres que le daban trabajo al estado gratuitamente con
“mucho amor,” afirmando que cada chico que nacía “les nacía a ellas” y cada chico
que moría “se les moría a ellas también!”30 Este tipo de caracterización de la
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participación de las mujeres depende para su legitimación del cumplimiento de un


rol maternal por parte de las mismas.

Tal vez la única vez en que Cristina explicite su participación en la pareja


presidencial en su actuación política, sea al dirigirse a su esposo (el presidente) durante
sus discursos de campaña. Esto ocurrió tanto durante su candidatura a senadora, como
en el lanzamiento de su candidatura a presidenta. En el primer caso, la – entonces –
senadora y primera dama se refiere a su marido ubicado en el palco: “No se deje
intimidar,” y agrega “Lo van a atacar más duro.”31 También se refirió a Kirchner en
otro acto de su campaña por el senado diciendo “Dicen que las brujas no existen señor
Presidente, pero que las hay, las hay.” (énfasis en el original)32. En el segundo caso,
un recuento del acto afirma que la senadora se dirigió asimismo a su marido con un
“tono íntimo y a la vez institucional.”33 Si bien estos pasajes revelan cierta evocación
de una dinámica de pareja llevada a la política (en la cual la mujer cumple un cierto rol
tranquilizador y de apoyo), lo cierto es que el análisis realizado en este artículo nos
permite descartar cualquier uso excesivo o estereotípico de metáforas familiares y de la
inserción en ellas de Cristina.

4. Cristina, el feminismo y el peronismo

Resulta irónico que una política tan hábil y capacitada para intervenir en las
discusiones políticas, pueda terminar accediendo a la presidencia a través de su marido.
Cabe preguntarse si el aparato peronista podría ser movilizado por una mujer sin un
vínculo significativo con un político hombre. En este sentido, no sería extraño que las
limitaciones a la actuación política de las mujeres, se encuentren mayormente del lado
de las elites partidarias, antes que en la cuestión electoral34.
La oportunidad de Cristina Kirchner, por otro lado, no puede ser disociada
del proceso de personalización de la política argentina y del debilitamiento de las
estructuras partidarias, que ponen en cuestión la estabilidad y credibilidad de posibles
alianzas, así como la lealtad de los actores que participan en las mismas. En este
sentido, la valorización de los vínculos familiares se debe en parte a que resultan los
únicos en los que se puede confiar en estas situaciones. Es más, el hecho de que dos
candidatos de corrientes internas peronistas hayan optado por elegir a sus mujeres para
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enfrentarse electoralmente, no sólo no estaría reflejando un avance para las mujeres,


sino que sería síntoma de un retroceso democrático en las instituciones partidarias.
Asimismo, debe aclararse que a pesar de que Cristina Kirchner tiene una
concepción progresista del rol femenino en política – ya que representa un caso de
participación femenina que no precisa recurrir a imágenes femeninas o
racionalizaciones sobre su rol en respuesta a prejuicios misóginos sobre el tema – su
posición en temas políticos de alta relevancia para las mujeres no sigue – en la mayoría
de los casos – una lógica feminista. En particular, la candidata a presidenta se declaró
tajantemente opuesta al aborto, remarcando que ella no es “progre” sino “peronista.”35
Asimismo, en declaraciones a la revista Newsweek para América Latina, afirmó que si
bien cree “en la defensa de los derechos de la mujer, en la representación de los
derechos del niño, en la defensa de las minorías”, se niega a definirse bajo el “rótulo de
las feministas” lo cual implicaría “hablar de una categoría política,” prefiriendo plantear
como “discriminadores y mediocres a todo aquel que intente relegar a la mujer por el
solo hecho del género.” (Wornat 2005: 193-194)36. Esta negación de la discriminación
de género como algo político se repite en una entrevista otorgada al diario español El
País en la cual afirma que cuando ella se incorporó a la política “las mujeres estábamos
a la par de los hombres.”37 Catharine MacKinnon sostiene que esta estrategia implica
no identificarse como mujer, entendida esta identificación como el acto de hablar
“desde la perspectiva y los intereses del 53 por ciento de la población, intereses
comunes que son consecuencia de ser receptoras de un tratamiento que es real y
compartido.” (MacKinnon 1987: 75-77). Este olvido implica un falso refugio en la
seguridad de que se ha logrado escapar este destino.
Este escape, logrado a través de su vinculación afectiva, implica la
“amortiguación de la agresividad misógina que aún es característica de la política
argentina, sobre todo en el interior del país,”38 y que muchas veces no es notada por las
“esposas” hasta que una separación las deja en igualdad de condiciones (difíciles) que
las que nunca tuvieron una pareja que actuó como intermediario.
El análisis de la carrera y candidatura presidencial de Cristina Fernández de
Kirchner ha revelado que su lugar en la arena política guarda pocas similitudes con los
espacios que el partido peronista suele reservar a las mujeres, cuyo exponente más
sobresaliente es Eva Perón. Si bien todas las mujeres son señaladas como ajenas a la
política por la prensa y los demás actores políticos, en el caso de Cristina Kirchner son
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dos las transgresiones: su participación en política per se y su falta de adhesión a ciertos


guiones femeninos aceptados. Estas diferencias o “transgresiones” son subrayadas por
la prensa y los opositores políticos de la senadora, señalando que la lógica subyacente
de la política argentina no incorpora a la mujer como participante autorizada, sino que la
marca como extraña y la construye como diferente en su accionar político.
Con respecto al “parecido político” entre Cristina y Evita, el análisis
realizado deja en evidencia que la actual senadora no encaja en las coordenadas que Eva
Perón enunciara y siguiera en su propia actuación política. Así, no es casual que las
comparaciones entre Cristina y Evita hayan aparecido predominantemente en la prensa
extranjera39, dado que en el exterior se cuenta con un conocimiento menor de la
experiencia histórica y de la trayectoria política de Cristina, que precede
cronológicamente a la elección de Néstor Kirchner como presidente.
Por otro lado, cabe también aclarar que la negación de continuidades entre
Cristina Kirchner y Eva Perón se limita a una evaluación de las personalidades y
discursos que caracterizan la actuación política de Cristina, sin implicar una toma de
posición sobre aspectos relacionados con la construcción de un proyecto político dentro
del peronismo y a nivel nacional. Dado que mi análisis se encuentra circunscripto a su
carrera política y a su forma de relacionarse con construcciones sociales que otorgan a
la mujer un espacio limitado en la arena política, dichos debates se encuentran fuera del
alcance de este artículo.

5. Conclusión

Como se ha visto en este artículo, el género es una referencia recurrente en


la forma en que “el poder político se ha concebido, legitimado, y criticado” (Scott 1986:
1073) y puede encontrarse en los discursos sobre las mujeres políticas de alto perfil.
Estos mismos discursos con seguridad resultan obstáculos para muchas mujeres que
intentan ascender en política y cuyas carreras nunca resultan en puestos de alto perfil,
con la consecuencia de que su actuación y sus preferencias políticas son desconocidas
por el público en general.
Asimismo, este artículo demuestra la permanencia de discursos de exclusión
de la mujer. Ya sea a través de la asignación de un papel restringido a sus habilidades
naturales o a través de un escrutinio excesivo de su corporeidad, los discursos son
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representativos de un poder patriarcal que aún busca mantener sus prerrogativas en la


arena política.
Queda pendiente examinar los correlatos institucionales de estos discursos.
Si bien existen trabajos que examinan cuantitativamente los avances de las mujeres en
política, así como los efectos sobre las mujeres de las políticas públicas aprobadas, aún
es difícil entender cuáles son los mecanismos mediante los cuales las mujeres son
excluidas. El presente artículo da un paso importante, al examinar los correlatos
discursivos de esta exclusión, correlatos que reflejan y refuerzan estructuras sociales de
desigualdad y opresión.
NOTAS

1. El presidente declaró: “El año que viene vamos a tener un candidato o una candidata.
Argentino o argentina. Pingüino o pingüina.” (Clarín 25/07/2006).
2. Clarín 28/10/2005.
3. Si bien a principios del mes de Julio se cubrió la ciudad con afiches con la imagen de Cristina
Fernández de Kirchner en primer plano, el presidente solo la mencionó explícitamente como
candidata el 3 de julio, mientras que su lanzamiento oficial se realizó el 19 del mismo mes en la
ciudad de La Plata, en la provincia de buenos Aires.
4. Todas las referencias entre comillas a textos originales en inglés son traducciones propias.
5. Si bien es común encontrar éstas dos primeras temáticas analizadas en conjunto (ya que la
división entre las esferas suele ser basada o justificada en diferencias naturales entre los
géneros), considero que es necesario analizarlas por separado, debido a que existen instancias de
participación pública femenina que obviamente pone en cuestión la primera forma de exclusión
pero no dejan de aceptar la segunda modalidad de categorización.
6. Diario Clarín, “Kirchner, estallido en la retaguardia y un interrogante sobre el futuro,”
11/05/2007.
7. En efecto, la posición de presidenta de la Sociedad de Beneficencia era – por costumbre –
ocupada por la primera dama. Sin embargo, los enemigos de Perón dentro de las Fuerzas Vivas
(i.e. los intereses económicos representados por la Sociedad Rural, las mayores empresas
extranjeras, así como los exportadores e importadores) le negaron a Evita dicho cargo. La
respuesta a este acto fue intervenir la sociedad y purgar sus autoridades, convirtiéndola luego en
la Fundación de Ayuda Social y finalmente en 1948 en la Fundación Eva Perón (Rock 1987:
250, 287).
8. Tres de sus fundadoras fueron secuestradas a fines de 1977 y permanecieron desaparecidas
hasta el año 2005 en que se identificaron sus restos, confirmando que habían sido mantenidas
cautivas en el centro clandestino de detención de la Escuela de Mecánica de la Armada y luego
asesinadas arrojando sus cuerpos al río de la Plata.”
9. Presidencia que terminara de manera trágica y abrupta en diciembre de 2001, ver Gervasoni
2002.
10. En un ejemplo de particular falta de tacto y explícita objetivación de la mujer, el Sunday
Times de Inglaterra tituló una reciente nota sobre Elisa Carrió y Cristina Kirchner “‘Fatty’ v the
new Evita in all-girlfight for Argentina,” 07/08/2007.
11. La Nación Online, “Perfiles de los candidatos por Buenos Aires. Elecciones Legislativas
2005.” http://www.lanacion.com.ar/coberturaespecial/legislativas/perfilDuhalde.asp, consultado
18/07/2007.
12. Diario Clarín, “Murphy, contra Cristina y Chiche: pide ‘liberarse de las esposas’,”
25/07/2005.
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2009.

13.Diario Clarín, “Chiche y Murphy en Mar del Plata, otra ‘vidriera’ de los bonaerenses,”
15/09/2005.
14. Diario Clarín, “Chiche lanzó una apelación final al voto: ‘El poder lo tienen ustedes’,”
21/10/2005.
15. Diario Clarín, “Por primera vez sin Kirchner, Cristina se subió a la tribuna,” 27/08/2005.
16. Diario Clarín, “Kirchner volvió a hablar de Cristina: ‘Por ahí es pingüina’,” 15/02/2007.
17. Los ejemplos abundan, como en la descripción del encuentro de Cristina con la candidata
presidencial francesa Ségolène Royal: ¨Con vestido de seda marrón, chaqueta a cuadros con
ajustado cinturón, la senadora…” (Diario Clarín, “Cristina mandó un mensaje desde París: ‘Es
el siglo de las mujeres’,” 06/02/2007); su visita a Los Angeles: “Vestida con un traje verde agua
de gasa y zapatos de taco alto al tono, Cristina recordó…” (Diario Clarín, “Cristina dijo, como
Kirchner, que la oposición pretende proscribirla,” 14/07/2005.); o en los actos de campaña de
Chiche Duhalde: “la mujer de un metro cincuenta y pico y botas de taco soltó: …” (Diario
Clarín, “Chiche Duhalde: ‘La provincia de Buenos Aires no es un hotel que se alquila para una
elección’,” 27/07/2005.).
18. Diario Clarín, “Entre actos fallidos y pasos en falso Cristina y Chiche juraron en el Senado,”
15/12/2005.
19. El término es usado popularmente como sinónimo de “juguete.”
20. Esta costumbre se repite en otros países; Hillary Clinton – por ejemplo – es nombrada con
frecuencia como “Hillary.”
21. Diario Clarín, “Chiche almorzó por TV y se despachó a gusto,” 30/09/2005.
22. Diario Clarín, “‘Duhalde no va a hacer campaña conmigo: yo soy diferente a todos,’”
07/08/2005.
23. Si bien su temprana muerte a los 33 años impiden saber si eventualmente Evita hubiese
desarrollado una postura más radical que la de Juan Domingo Perón los grupos de izquierda
peronista en los años 70 adoptaron a Evita como una de ellos, siendo la expresión “Evita
montonera” parte de los cantos y posters distribuidos por el grupo armado Montoneros
(Hollander 1974: 54).
24. Diario Clarín, “Cristina Kirchner ‘¿Dónde imaginan a Evita, pidiendo no volver al pasado o
con las Madres?’” 27/07/2005.
25. La Opinión Austral, 11/03/1989, citado en Wornat 2005: 173-174.
26. Diario Clarín, “Kirchner le dio otro fuerte impulso a la candidatura de Cristina” 25/05/2007.
27. Sin embargo, debe notarse que el Presidente Kirchner nombró a su hermana (Alicia
Kirchner) en el Ministerio de Desarrollo Social, acatando así la tradicional división de tareas
entre hombres y mujeres trasladada desde el ámbito político a su propio ámbito familiar.
28. De hecho, al asumir Néstor Kirchner como presidente, Cristina declaró que ella no sería la
primera dama sino la “primera ciudadana” (Wornat 2005: 249).
29. Por ejemplo, luego de que Kirchner cambiara las autoridades del Instituto Nacional de
Estadística y Censos, el diario Clarín menciona que entre los críticos de esa decisión se
encontraban Cristina Kirchner, el jefe de gabinete, Alberto Fernández, y la ministra de
economía Felisa Miceli (Diario Clarín, “Kirchner, en tiempo de conflictos,” 22/04/2007).
30. Entrevista en Diario Perfil, “‘De Cristina Kirchner espero cualquier cosa’,” 15/07/2001.
31. Diario Clarín, “Un discurso con aires fundacionales, hacia afuera y adentro del peronismo”
08/07/2005.
32. Diario Clarín, “Cristina denunció un ‘pacto oculto de desestabilización’,” 25/08/2007.
33. Suplemento Las12, Página/12, “Matrimonios y algo más” 27/07/2007.
34. Esto ha sido observado asimismo por Lilian Ferro quien señala que el retorno de la
democracia en la Argentina re-ubicó la actividad política en instituciones tales como los
partidos politicos y los sindicatos, cuyas “rigideces patriarcales” hicieron que la acción política
de las mujeres se volcara hacia las organizaciones no gubernamentlaes (ONGs).
35. Diario Clarín, “En la Iglesia no creen que Cristina garantice una mejor relación”
09/07/2007.
36. Debe notarse que ninguna de las mujeres de alto perfil en la política argentina exhibe una
identidad feminista clara. Si bien hay ejemplos de legisladoras (y legisladores) de partidos
VALDEZ, Inés. Ni feminista ni evitista. Sobre la carrera política y candidatura 48
presidencial de Cristina Fernández Kirchner. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 30-50, Dez. 2008 / Jun.
2009.

progresistas cuya actuación parlamentaria transmite una preocupación por la vulnerabilidad de


las mujeres en áreas claves como la salud reproductiva, la discriminación laboral o la violencia
doméstica, estos temas no han sido adoptados como centrales en la agenda o el discurso de
políticos con proyección nacional y/o en cargos ejecutivos.
37. Reproducida en Página/12 Online, “‘Me identifico con la Evita del puño crispado’”
27/07/2007.
38. Lilian Ferro, en Suplemento Las12, Página/12, “Matrimonios y algo más” 27/07/2007.
39. En particular, el diario británico Sunday Times publicó tres artículos refiriéndose a Cristina
como “New Evita” o “Modern Evita” (11/02/1007, 03/07/2007, y 08/07/2007).

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Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun. 2009.

MULHERES EM CONFLITO: UMA ANÁLISE DAS


PRÁTICAS DISCURSIVAS SOBRE IDENTIDADES
FEMININAS EM SITUAÇÕES DE CONFLITO

Izadora Xavier∗

Resumo: Abstract:

Mudanças nas características das guerras Changes in the characteristics of the wars
desde o fim da Guerra Fria implicam since the end of the Cold War imply
mudanças no tratamento de questões da área changes in the approach to questions of the
de segurança dentro das Relações security area inside the International
Internacionais. Para analisar uma das Relations. To analyze one of the dimensions
dimensões ainda pouco explorada dessas still little explored of these changes, the
mudanças, a forma de percepção e form of perception and representation of the
representação das mulheres em situações de women in conflict situations, the article uses
conflito, o artigo utiliza de recursos da of resources of the critical speech analysis
análise crítica do discurso para avaliar o to evaluate how much established identities
quanto identidades estabelecidas se relate themselves with the real experiences
relacionam com as experiências reais das of the women. Using the arguments of
mulheres. Usando dos argumentos de authors as Bourdieu, Foucault and
autores como Bourdieu, Foucault e Fairclough, we still intended to perceive
Fairclough, pretende-se ainda perceber how a speech change can affect the
como uma mudança no discurso pode afetar feminine experiences, using the case of the
as experiências femininas, usando o caso do speech of the United Nations to exemplify
discurso das Nações Unidas para the use of the speech as social and politics
exemplificar o uso do discurso como prática practical.
política e social.

Palavras-chave: Word-keys:

Gênero; Segurança Internacional; Nações Gender; International security; United


Unidas; Análise critica do discurso e; Novos Nations; Critical Analysis of speech and;
conflitos. New conflicts.

1-Introdução

Desde o fim da Guerra Fria, a face da violência internacional vem se


modificando. Segundo o Human Security Report, relatório anual do Human Security
Center sobre as guerras contemporâneas, o número de conflitos no mundo tem
diminuído a partir do início da década de noventa1. Por outro lado, as guerras civis e os
conflitos intraestatais hoje superam a guerra entre Estados como maiores fontes de

∗ Bacharelanda em Relações Internacionais. Universidade de Brasília.


XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 51
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

violência no cenário mundial. De acordo com os dados do Programa de Dados sobre


Conflito da Universidade de Uppsala, os conflitos intraestatais constituíam, em 2005,
95% de todos os conflitos em andamento no mundo2.
Os impactos dessa mudança na tendência das guerras – de conflitos entre
países para conflitos dentro de países – ainda não foram devidamente explorados pela
área das Relações Internacionais. Literatura sobre as chamadas “novas guerras” apenas
começou a se desenvolver. Um dos exemplos é o livro de Mary Kaldor “New and Old
Wars”, no qual a autora define a natureza política das novas formas de “violência
organizada” no cenário internacional a partir das mudanças tecnológicas na indústria de
armas e dos efeitos da globalização sobre o Estado nacional3.
Como conseqüência dessa mudança no perfil dos conflitos, Kaldor aponta
para uma mudança na estratégia dos conflitos. A conquista territorial é substituída por
técnicas de intimidação centrada na população civil, como o uso de assassinatos em
massa e outros tipos de violações sistemáticas do direito internacional humanitário e dos
direitos humanos. Contudo, análises sobre os impactos dessa mudança nos modos de
sobrevivência das comunidades em situações de conflito ainda são, em sua maior parte,
superficiais. Avaliações sobre a importância do impacto societário dos conflitos são
quase inexistentes.
Mudanças tão profundas nas formas como os conflitos acontecem requerem,
dessa forma, novas abordagens para o estudo de Relações Internacionais. Dessa forma,
este artigo se centrará em uma das dimensões do impacto societário das “novas
guerras”: as experiências femininas. A participação feminina em conflitos tem sido
ignorada completamente, até pouco tempo, pela área de Relações Internacionais.
Autoras e autores que se valem das experiências retiradas do campo de estudos de
gênero para ampliação do escopo das relações internacionais explicam essa ausência
pela forma de construção do discurso realista, baseado apenas em experiências
masculinas, dentro da disciplina. Segundo Tickner, essa prática acaba tornando invisível
a participação das mulheres no campo internacional e deslegitima o discurso destas na
área4. Para Joshua S. Goldstein, a ligação entre gênero e guerra contribui para a
invisibilidade feminina quando se trata de discutir assuntos de guerra e paz. Segundo
Goldstein, ainda que as mulheres apóiem e participem nas guerras de variadas e
inúmeras maneiras, a ligação entre a construção da masculinidade e a habilidade de
participar em conflitos como guerreiros acaba fazendo com que apenas os homens
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 52
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

tenham suas experiências documentadas e reproduzidas depois do fim das guerras, e a


participação feminina seja assim descaracterizada e negligenciada5.
A partir da consideração dessa relação – ou ausência de relação – entre a
feminilidade e o combate, pretende-se explicar a ausência de discussões sobre
experiências femininas em situações de conflito. Tradicionalmente, as mulheres são
vistas como aquelas que ficam em casa enquanto os homens vão à guerra. Elas são
mães, viúvas e até enfermeiras, trabalhando no apoio dos combatentes, mas não são
reconhecidas como diretamente envolvidas no conflito.
No entanto, o foco deste trabalho está em perceber como essas concepções
têm sido modificadas com a mudança dos tipos de conflito internacionais.
Paulatinamente, podemos perceber um “surgimento” das mulheres em assuntos ligados
diretamente à guerra. Podemos pensar mesmo no caso das prostitutas na Segunda
Guerra Mundial pedindo reparações pelos danos sofridos, o caso japonês das Comfort
Women, ou nas vítimas de estupro em massa e limpeza étnica em Ruanda ou na Bósnia.
A percepção da existência dessas mulheres e de suas participações na guerra leva a uma
visão da mulher menos à margem do conflito.
Ela passa a ser vista como parte integrante dos conflitos, sendo afetada
diretamente pelos impactos da guerra em suas trajetórias pessoais. No entanto, essa
nova construção vai além da percepção das mulheres como vítimas diretas das lógicas
perversas da guerra. A idéia das mulheres como combatentes ou ativistas políticas
também é inserida em nosso imaginário, e mesmo representações de mulheres
combatentes em jogos eletrônicos ou filmes hollywoodianos demonstram uma
modificação na forma de percepção da participação das mulheres em conflitos.
Este trabalho tratará uma instância de colaboração para a modificação
dessas percepções: a construção político-discursiva das Nações Unidas. A revisão de
papéis determinados aos gêneros, responsáveis de acordo com Goldstein pela
invisibilidade feminina em assuntos de guerra, é uma tentativa de reconstrução das
identidades das mulheres. A partir do corpus textual analisado, procura-se esclarecer o
esforço discursivo de transformação social de órgãos das Nações Unidas. Este esforço
se contrapõe a uma análise do discurso das próprias mulheres presentes em países que
sofrem os impactos da guerra. Este tipo de discurso, representando visões mais
tradicionais do papel da mulher, mostra como tais papéis ainda são essenciais na
definição das experiências femininas nas situações de conflito. O conceito de violência
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 53
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
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simbólica de Bourdieu servirá como mediador da análise do discurso das mulheres e as


experiências práticas.
Assim, duas visões sobre as mulheres, e as relações de transformação dos
dois discursos são discutidos. Sob uma perspectiva, as vítimas, mães e esposas,
invisíveis como indivíduos atuantes em situações de conflito – percepção dominante na
compreensão sobre a atuação das mulheres em conflito até recentemente. De outro
ângulo, as mulheres como agentes e ativamente presentes nas guerras, sendo
reconhecidas como importantes na manutenção do tecido social em situações extremas e
considerando o caráter especial e baseado no gênero da violência sofrida pelas
mulheres. Nesse caso, tenta-se analisar sob como se dá o “surgimento” da mulher no
cenário político das guerras. Para isso, veremos a importância do discurso da
Organização das Nações Unidas na construção dessa outra perspectiva.

2-Metodologia
Ao propor uma nova forma de análise dos conflitos, que explora dimensões
mais societárias da prática das guerras, perspectivas e metodologias ligadas às formas
tradicionais – “empiricistas”6 – de conceber relações internacionais se mostram
inapropriadas. O estudo das identidades femininas como uma das dimensões
importantes dentro da complexidade dos conflitos atuais implica o uso de uma
metodologia da lingüística contemporânea que em muito se diferencia dos ideais
positivistas usados como padrão na disciplina.
Assim sendo, este artigo se situa do lado pós-positivista do “Terceiro
Debate” em Relações Internacionais, como tem sido próprio da teoria feminista no
campo7. Considerando o objetivo de esclarecer as dinâmicas de construção político-
discursiva das identidades femininas, visões objetivistas, próximas aos padrões das
ciências naturais são impraticáveis no contexto desse trabalho. De acordo com Smith,
escolher uma metodologia calcada nesses princípios mais tradicionais da área é também
definir o que ontologicamente pode ser incluído no estudo de Relações Internacionais,
prática que é criticada exatamente por excluir do campo dimensões da vida política e
social essenciais para a compreensão de fenômenos próprios a ele8.
Kaldor, por exemplo, explica as falhas e dificuldades de órgãos como as
Nações Unidas em responder às complexidades das guerras no pós-Guerra Fria como
resultado do uso de concepções vestfalianas em contextos de funcionamento claramente
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 54
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

diverso do das guerras tradicionais9. Analogamente, o método aqui utilizado responde à


inclusão de novos fenômenos dentro da ontologia da disciplina, aproximando-a de
discussões acontecendo em outros campos da ciência social atualmente, como a
Linguística e a Análise Crítica do Discurso (ACD).
Primeiramente, a escolha da ACD segundo Fairclough é conseqüência da
ênfase dada por esse autor à análise discursiva de situações de mudanças sociais e
culturais10. Em segundo lugar, o método e a teoria da Análise Crítica do Discurso de
Norman Fairclough se propõem a serem uma moldura analítica que possibilita o
entendimento das relações entre discurso, ideologia e poder11, e por isso foi escolhido
como base desse artigo. Tais relações serão essenciais para a discussão da medida na
qual o trabalho discursivo das Nações Unidas é responsável pela modificação nas
percepções sobre participação femininas em conflito, percepções até hoje calcadas em
relações de poder tradicionais, discutidas sob a ótica de Bourdieu mais à frente.
Por outro lado, a visão de Fairclough sobre o estudo das identidades como
uma das formas de ligação das práticas sociais ao discurso será responsável pela
conexão entre as percepções sobre papéis e agência femininas com a experiência das
mulheres em situações de conflito. Considerando o discurso como uma modalidade de
prática social, ele enfatiza a relação dialética entre discurso e estrutura social: a última é
tanto efeito quanto condição da primeira12.
O autor parte da perspectiva de Foucault sobre o papel do discurso na ordem
social, uma vez que este é fundamental para a compreensão da importância do discurso
na constituição de sujeitos e objetos sociais, do poder e da política. Parte essencial da
sua análise é a do “discurso como prática política estabelece, mantém e transforma as
relações de poder e as entidades coletivas entre as quais existem as relações de poder. O
discurso como prática ideológica constitui, naturaliza, mantém e transforma os
significados do mundo de diversas posições de poder”13. Sabendo que as questões de
gênero se baseiam em relações de poder baseada em uma hierarquização de homens e
mulheres nas relações sociais, a análise crítica do discurso nesse artigo procura mostrar
como essas relações de poder podem ser mantidas ou transformadas por meio do
discurso como parte da construção de identidades. Para isso, o conceito de violência
simbólica de Bourdieu, como explicação para a construção discursiva das identidades
femininas em suas concepções mais tradicionais, mostra o poder dessa afirmação no
desenvolvimento do trabalho.
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 55
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

Por outro lado, Fairclough critica a abordagem de Foucault e a diferencia da


sua “análise de discurso textualmente orientada” ao tentar complementar o
estruturalismo de Foucault com um foco na agência individual que permite
compreender a possibilidade de mudança social. A crítica à ênfase dada por Foucault a
uma análise centrada nas estruturas e ordens de discurso, em detrimento da análise da
prática discursiva individual, leva a uma preocupação de Fairclough com o uso de textos
como instâncias concretas da prática do discurso.
Dessa forma, as práticas discursivas não são entendidas apenas como
reprodutoras das estruturas, mas a análise do discurso como texto abre espaço para a
agência dos agentes discursivos na transformação delas14. Tenta-se, assim, superar a
ênfase estruturalista que não dá espaço à “agência social ativarias dimensnstruindo a
socieadeonstituindo ou construindo a socieadee em qualquer sentido”.15 A ênfase desse
artigo e da análise crítica do discurso é exatamente tentar compreender em que medida
os textos, como práticas sociais, trabalham na reprodução ou transformação de
estruturas. Se em uma dimensão as identidades tradicionais femininas representadas nos
discursos das mulheres mostram uma reprodução de estruturas, o discurso da ONU
aparece como agente na transformação. A instituição que apóia o discurso de
constituição da mulher como agente, sendo esta principalmente um espaço político
importante de produção e distribuição dessa prática discursiva, é também importante no
quadro metodológico estabelecido por Fairclough.
Assim sendo, o quadro metodológico tridimensional de análise crítica do
discurso coloca o texto como uma dimensão do discurso e a prática social como outra.
A terceira dimensão do discurso seria então a produção, distribuição e consumo textual,
essas relações sendo entendidas como a “prática discursiva”. O discurso como texto
requer a análise de forma e de significados: vocabulário (lexicalização, relexicalização e
significação), gramática, coesão e estrutura textual. Coerência e intertextualidade
também são incluídos aqui. O discurso como prática social leva a uma discussão da
ligação do discurso com ideologias: “significados/construções da realidade (o mundo
físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias
dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e que contribuem pra a
produção, reprodução ou a transformação das relações de dominação”16.
Questões de produção e consumo dos textos não serão discutidas
profundamente no artigo, mas a idéia do alcance político e da legitimidade internacional
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 56
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

de uma instituição como as Nações Unidas é pressuposto essencial para que se possa
entender a importância do seu posicionamento em relação às identidades femininas, e
sua escolha como fonte produtora do corpus textual analisado.
A dimensão da prática social no qual estão inseridos os textos deste trabalho
é examinada na próxima sessão, por meio da discussão da categoria de Bourdieu da
‘violência simbólica’. A análise micro do texto, em suas formas e significados, está
concentrada em uma quarta parte do trabalho, dentro de tópicos que obedecem às
categorias de identificação feminina como estabelecidas pelo documento oficial e
relatório da ONU. Dentro dessas três formas de identificação (a saber: ‘refugiadas e
deslocadas’, ‘prostitutas e escravas sexuais’ e ‘ativistas’) usarei tanto do discurso das
mulheres como exposto pelo relatório como do próprio discurso do relatório para
contrapôr a política discursiva da ONU com as identidades femininas mais tradicionais
(e mais ligadas ao conceito de Bourdieu). Pretendo, assim, demonstrar como a análise
da prática discursiva e do texto nos pode fornecer informações para a percepção de que
uma tentativa de reformular as práticas sociais pode partir de uma nova compreensão
discursiva das identidades femininas em situações de conflito.
O corpus do trabalho é formado pelo Relatório de especialistas
independentes para as Nações Unidas sobre a situação da mulher no mundo, Women
War Peace, e pelo Pacote de Recursos para Tratamento de Questões de Gênero em
Operações de Paz17, documento oficial das Nações Unidas. Importante assinalar que o
primeiro servirá não só como base para a discussão do discurso onusiano para as
mulheres, mas também será a fonte da discussão das declarações das mulheres a serem
analisadas também como parte do trabalho.

3-As dimensões políticas do discurso: o oficialismo da ONU e a


violência simbólica de Bourdieu

3.1-O Relatório das Especialistas Independentes: Women War Peace

As Nações Unidas têm como prática, a fim de extrair uma visão ampla sobre
temas tratados pela Organização, de usar o trabalho de especialistas independentes na
exploração desses temas. Tais especialistas são assessorados apenas em questões de
segurança pela ONU, e contam com seus próprios recursos para o trabalho de relatoria,
no objetivo de manter, ao máximo, a independência desses em relação à Organização.
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 57
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

No caso do documento em questão, é necessário primeiro estabelecer a clara


agenda política deste, explicitada na Introdução: “we direct our conclusions to those
with the power and resources to make a difference Indifference is not an option. In
representing women’s expierence of war we have paid attention to the causes and
consequences”18. Produzido pela ex-Ministra para Assuntos de Igualdade da Finlândia
em conjunto com a atual presidenta da Libéria, o relatório se propõe a mobilizar
recursos políticos para a causa de proteção dos direitos das mulheres em situação de
conflito, enfatizando a importância das questões de gênero e o caráter da atuação
feminina em situações nessas situações. Na próxima seção, serão analisados os recursos
discursivos empregados pelo relatório para a superação da visão da mulher como vítima
em prol de uma visão da mulher como sujeito de manutenção das estruturas
comunitárias.
O Relatório é dividido em onze partes (violência contra a mulher; mulheres
obrigadas a fugir; guerra e saúde da mulher; HIV/AIDS; mulheres e operações de paz;
organizando-se pela paz; justiça; poder da mídia; prevenção de conflitos e
reconstrução), cada uma delas se inicia como uma narrativa da história de uma mulher
real entrevistada pelas especialistas e termina com recomendações-chave dessas para o
tratamento pela ONU do tema do capítulo. Mistura narrativa com entrevistas feitas às
mulheres – com as quais se encontraram em dezesseis diferentes lugares do mundo que
passam ou passaram por guerras, entre eles Serra Leoa, Camboja, Ruanda e Bósnia.
Também conta com dados estatísticos e referência a conceitos econômicos, sociológicos
e políticos como forma de dar base às recomendações feitas ao fim do capítulo.

3.2-O Pacote para Tratamento de Questões de Gênero em Operações


de Paz

Documento oficial das Nações Unidas foi produzido pelo departamento da


Organização responsável pelos aspectos administrativos e práticos das operações de
paz. Dessa maneira, é organizado em vinte e três capítulos divididos por temas ligados
às questões de gênero (capítulo I se intitula ‘gênero e peacekeping; já o XVI, gênero,
desmobilização, desmilitarização e reintegração, e assim em relação a outros temas).
Cada capítulo é dividido em background, onde o tema tratado é discutido de maneira
resumida, legislative basis, onde são expostas as bases legais para a ação orientada pelas
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 58
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
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necessidades especiais de gênero – em geral a resolução 1325 do Conselho de


Segurança sobre mulheres e conflito –, e recommendantions, onde a ação necessária
para tratar devidamente aquele assunto é exposta em tópicos.
O pacote visa oferecer aos chefes de missão um guia para tratar com gênero
nas operações de paz. É um documento oficial das Nações Unidas e sua linguagem é de
resolução a ser seguida – representada pelo uso constante do imperativo. Os
pressupostos para as ações a serem tomadas pelos chefes de missão na implementação
do pacote claramente deriva de discussões como aquelas elaboradas pelo relatório. Ou
seja, está constantemente discutindo a necessidade de conceber as mulheres não como
vítimas da guerra, mas como agentes a serem reconhecidos, para que seu espaço de ação
possa ser respeitado e sua possibilidade de ação, promovida.

3.3. Para entender o discurso feminino: o conceito de ‘violência


simbólica’ de Bourdieu

De acordo com Bourdieu, a violência simbólica é uma experiência universal


– a maior parte das sociedades dá primazia aos homens nas estruturas sociais e
atividades produtivas19. Para uma compreensão de como a violência simbólica
participa das experiências reais de homens e mulheres, e da sua ligação às práticas
discursivas analisadas nesse artigo, é necessária antes uma explicação superficial do
pensamento do sociólogo francês a respeito da relação entre os sistemas de símbolos e
as relações entre agentes individuais e estruturas sociais.
Da mesma forma que Foucault e Fariclough usam a linguagem e o discurso
como meio de compreensão da relação ente as estruturas sociais e a agência que cada
indivíduo pode exercer na reprodução ou modificação dessas estruturas, a perspectiva
de Bourdieu vai englobar essas análises ao procurar entender essas mesmas dinâmicas
estabelecidas entre agentes e estrutura por meio da concepção de “campos” sociais.
Campos seriam, para esse autor, espaços sociais nos quais as relações se constrõem a
partir da competição por bens simbólicos e/ou materiais.
A própria constituição do ator como indivíduo subjetivo passa pela
construção do seu desejo de alcançar o capital característico do campo no qual está
inserido, e essa busca, por sua vez, é essencial na construção das estruturas sociais. Os
sistemas simbólicos, tais como a linguagem, são parte essencial da internalização dos
pressupostos dessa competição pelos agentes. A ordem social é, dessa forma,
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 59
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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constituída pela localização dos agentes nessas estruturas competitivas, marcadas por
relações de dominação sustentadas por significados e mapas cognitivos responsáveis
pela manutenção dessas redes.
Sendo as estruturas sociais loci de dominação, também os sistemas
simbólicos que as constituem subjetivamente são formas de exercício dessa dominação.
O “poder simbólico” é aquele que constitui os atores envolvidos nas relações de
dominação porque constroem as formas de conceber as estruturas sociais desses. A
dominação simbólica é aquela construída com a colaboração do dominado, pois esse é
também constituído como indivíduo a partir de mapas cognitivos que legitimam essa
dominação20.
A violência simbólica, própria das relações sociais caracterizadas pela
dominação masculina é um dos mecanismos de atuação do poder simbólico. Voltando à
afirmação da universalidade da primazia masculina, Bourdieu vai explicar a violência
simbólica como a construção societária que coloca os homens como “matrizes das
percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade”21. Isso
quer dizer que, nas relações homem-mulher, as relações de poder aí estabelecidas são
construídas e reproduzidas pelo sistema simbólico a partir das percepções masculinas.
Mesmo as mulheres percebem as relações nas quais estão inseridas por uma
visão do homem como sujeito da relação, enquanto a própria mulher se vê como um
“bem simbólico”, objeto das relações. Os interesses-padrão da sociedade são, assim, os
interesses masculinos, e os agentes-padrão, os homens; mulheres são moeda de troca e
instrumento para as ações dos homens. Bourdieu identifica essa dissimetria como a base
de toda a organização social: “as mulheres só podem aí ser vistas como objetos, ou
melhor, como símbolos cujo sentido se constitui fora delas e cuja função é contribuir
par a perpetuação ou o aumento do capital simbólico em poder dos homens”22.
As próximas seções do trabalho pretendem usar a análise do discurso crítica
para demonstrar como as ordens do discurso tradicional explicitado pelas entrevistas
femininas deixam transparecer os mecanismos simbólicos que suportam as estruturas da
violência simbólica acima descrita. Principalmente, considerando as proposições de
Bourdieu que “o que faz a circularidade terrível das relações de dominação simbólica, o
que faz com que não seja fácil se livrar dela, é que elas existem objetivamente sob
formas de diviões objetivas e sob forma de estruturas mentais que organizam a
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 60
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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percepção dessas formas objetivas”23, procura-se fazer a ligação entre a concepção do


papel das mulheres e as experiências objetivas dessas.
Aparece, por exemplo, de maneira saliente, nos conflitos, a lógica percebida
por Bourdieu para o ‘mercado matrimonial’. A negociação da honra por meio da troca
da mulher entre o pai desta e o marido, está presente no mercado do sexo, da ajuda
humanitária e mesmo no uso do estupro como arma de guerra, onde a mulher também é
bem de troca por diferentes bens, por vezes podem simbólicos e, outras vezes, materiais.
Em todos esses contextos, a concepção da mulher como instrumento e objeto do padrão
masculino, de acordo com as discussões de violência simbólica é demonstrada.
Por outro lado, retomamos as idéias de Foucault e o discurso da
Organização das Nações Unidas ao perceber que as reflexões sobre os impactos e as
dinâmicas dos conflitos hoje vêm acompanhadas por uma deslegitimação, dentro
daquela instituição multilateral, dessas estruturas simbólicas que funcionam como
mecanismos de reprodução da dominação masculina descrita por Bourdieu. Passemos,
na próxima sessão, a uma análise que também comporta uma percepção do trabalho da
ONU no qual a “produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada,
organizada e redistribuída por certo número de procedimentos”24 e, como coloca
Foucault, esse controle e distribuição do discurso corresponde a um esforço político.
Um dos objetivos do artigo, e do uso dos conceitos de Bourdieu, é levantar o
questionamento do quanto esse esforço político da transformação de uma ordem de
discurso institucional pode permitir uma mudança nas estruturas objetivas das
sociedades e nas experiências reais das mulheres em situações de conflito.

4. Identidades em conflito: análise das micro-práticas dos discursos

Partirei do uso de categorias determinadas pelo Relatório Women War


Peace – a lexicalização e categorização já sendo percebidas como uma tentativa de
identificação das mulheres de maneira mais específica do que as classificações
geralmente usadas das mulheres como ‘vítimas indiretas’ da guerra ou ‘população
vulnerável’25. Ao emprestar um vocabulário específico para as experiências femininas
em conflito, notamos uma prática discursiva que identifica cuidadosamente os efeitos e
participação das mulheres, na tentativa de superar a situação desses efeitos e
participação dentro de uma idéia vaga de ‘efeitos colaterais’ da guerra, e com claros fins
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 61
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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de viabilização de políticas de Estado para o tratamento das questões referentes a essas


experiências.

4.1. Refugiadas e deslocadas internas (internally displaced persons)

(1) “If [a girl] refuses[s], when the time comes for the supply of food items,
you will be told that your name is not on the list”26.
Se uma garota se recusa, quando o momento chega para o fornecimento de
itens alimentícios, eles dirão que seu nome não está na lista.
(2) “If you do not have a wife or sister or a daughter to offer the NGO
workers, it is hard to have access to aid”27.
Se você não tem irmã ou esposa ou filha para oferecer aos trabalhadores das
ONGs, é difícil ter acesso à ajuda.
(3) “Once our children are educated, the girls will know that they do not
have to submit to violence in order to have a husband”28.
Uma vez que nossos filhos forem educados, as garotas saberão que elas não
têm que se submeter à violência para ter um marido.
(4) “In one camp of Sierra Leonean refugees, one social worker offered us
her analysis of the differing ways men and women react to camp life. The men, she said,
loose their identity and their dignity. They sit around all day and then they take out their
frustrations on the women and children at night. In her view, women are different.
‘They cope because they have to. They bend with the situation’”29.
Em um campo de refugiados serra-lenoês, uma tradalhadora social nos
ofereceu sua análise sobre as diferentes maneiras que homens e mulheres reagem à vida
no campo. Os homens, ela disse, perdem a identidade e a dignidade. Eles ficam
sentados o dia todo e descontam suas frustrações nas mulheres e crianças à noite. Sob o
ponto de vista dela, as mulheres são diferentes. ‘Elas enfrentam a situação porque
precisam. Elas se adaptam às circunstâncias.
(5) “The women were restless, burning with the desire to communicate their
common experience, their common trauma”30.
As mulheres eram incansáveis, e ardiam com o desejo de comunicar suas
experiências comuns, seus traumas comuns.
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(6) “The responsibility to care for others is so embedded that even in the
most desperate conditions, women still try to take care of everyone around them”31.
A responsabilidade de cuidar dos outros está tão internalizada que, mesmo
nas situações mais desesperadoras, as mulheres ainda tentam cuidar de todos ao seu
redor.
O relatório do Human Security mostra que mulheres constituem setenta por
cento dos refugiados e deslocados internos32. Essas são pessoas que abandonam seu lar
por medo da violência ou por terem tido suas casas, vilas ou cidades destruídas. Os
excertos dos documentos acima apresentados foram retirados das experiências e
declarações de pessoas vivendo em campos de refugiados. Nessas situações, comida,
água e medicamentos, além de outros itens de primeira necessidade são em geral
supridos por ONGs e OIs, através de ajuda humanitária. Os excertos (1) e (2) mostram
como até na forma de acesso das pessoas a esses itens as formas de compreensão
tradicionais das identidades femininas têm impacto.
A visão das mulheres como ‘moeda de troca’ e objeto de relações nas quais
os sujeitos são os homens, caracterizados pela latência sexual típica da masculinidade,
determina o acesso das famílias aos itens. Isso se mostra claramente quando em (2) um
homem do campo usa o termo ‘oferecer’ (offer) como forma de definir a relação
necessária entre ele e os trabalhadores humanitários para ter acesso à ajuda. O uso da
mulher como moeda de troca não poderia ser mais explícito nessa construção, sendo as
relações entre os sujeitos masculinos aqui constituídas a partir do uso da mulher não
para o angariamento de bens simbólicos como a honra, mas de capital material, o da
ajuda humanitária. A lógica da violência simbólica presente,pode-se notar, é a mesma
discutida por Bourdieu.
Da mesma forma, em (1) uma das mulheres do campo reafirma tal
relacionamento ao dizer que se a ‘garota’ (girl) se recusa, ela não receberá a ajuda. Tal
proposição coloca os homens como agentes da ação, impondo relacionamentos aos
quais as meninas se recusam. A impossibilidade de se recusar explícita em (2) – sendo
este o único meio possível de acesso à comida –, nos deixa entender que resta
simplesmente às garotas se submeter a uma relação na qual elas não possuem agência
ou vontade.
Os trechos seguintes, em oposição, são usados pelas especialistas do
relatório para adicionar a essa visão das mulheres uma outra nuance: as refugiadas e
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deslocadas são apresentadas então como ativas e altivas – no caso do adjetivo ‘restless’
(incansáveis) em (5). Elas são responsáveis pelo cuidado dos outros, e, ainda que tal
comportamento também seja derivado de visões tradicionais do papel essencialmente
maternal das mulheres e, ultimamente, tenha impacto negativo sobre estas por pressupor
uma abnegação em favor da família que acaba negligenciado as necessidades destas,
leva à compreensão do motivo porque em (4), ao contrário dos homens, que se entregam
a auto-piedade, as mulheres se mantêm trabalhando, “tomando conta de todos”.
Assim sendo, elas passam do capital a ser negociado pelos homens,
submetidas em troca de comida e medicamentos, para aquelas que agem na manutenção
da comunidade, no cuidado dos outros, que dividem experiências próprias. Elas são
‘diferentes’, ‘inquietas’ e comunicativas. A identidade das mulheres, ao contrário do
que acontece com os homens, não é perdida: suas formas de agência são enfatizadas. A
agência dessa maneira enfatizada se liga às ideologias tradicionais de gênero: a mulher é
abnegada e coloca o bem-estar da família acima do seu. Mas é importante perceber,
nesse caso, que tal característica é enfatizada em contraste com as dos homens, que se
abandonam e se entregam à indolência, de forma que o papel e a ação das mulheres se
valorizam.
Finalmente, a declaração em (3) corresponde a uma demonstração da
consciência feminina da sua situação de submissão, e de bem simbólico.
Impressionantemente, elas concordam com Bourdieu de que saber estar submetida não
garante a liberação33. No entanto, parecem saber de que forma isso se dará: pela
educação, suas filhas saberão não ter que se submeter à violência doméstica. Tal trecho
é especialmente interessante na formação de uma visão dessas mulheres não como
vítimas, ainda que sofram violência – afinal, nas guerras os homens a sofrem sem serem
reconhecidos como tal. Elas são indivíduos e agentes da sua própria história,
reconhecendo os motivos de sua ‘dominação’ e planejando a superação dela pela
próxima geração.

4.2. Profissionais do sexo e escravas sexuais

(1) “I am the only person who has an income in the family. Since the
UNAMSIL’s34 arrival, I have been able to make enough money to support my family.
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My clients are mainly peacekeepers. Of course I do not like to trade my body for
money, but what choice do I have?”35
Eu sou a única que tem renda na família. Desde a chegada da UNAMSIL,
eu fui capaz de conseguir dinheiro suficiente para sustentar minha família. Meus
clientes são principalmente peacekeepers. É claro que eu não gosto de trocar meu corpo
por dinheiro, mas que outra escolha eu tenho?
(2) “They told us about their struggle to heal from the physical violence and
psychological pain”36.
Elas nos contaram sobre sua luta para se curar da violência física e dor
psicológica.
(3) “The girls were all sex workers. They belonged to different religions and
ethnic groups, but they all had one thing in common: they had been separated by from
their families during the war. Most had been abducted and forced to stay with the rebels
until they escaped or the cease-fire was signed. They had been raped repeatedly. Many
had seen their parents and siblings killed by armed groups (…) It is impossible to ignore
the desperation of these girls, but at the same time we were moved by the efforts to
support each other. Out of nothing they had created a community”37.
As meninas eram todas profissionais do sexo. Pertenciam a diferentes
religiões e grupos étnicos, mas todas tinham algo em comum: haviam sido separadas
das suas famílias durante a guerra. A maioria tinha sido raptada e forçada a permanecer
com os rebeldes até conseguirem escapar ou até a assinatura do acordo de paz. Elas
haviam sido estupradas repetidamente. Muitas viram pais e irmãos serem assassinados
pelas milícias. (...) É impossível ignorar o desespero dessas garotas, mas ao mesmo
tempo estávamos comovidas pelos esforços que faziam para apoiar umas às outras. Do
nada, elas criaram uma comunidade.
(4) “I was taken by the RUF when I was 14. Now I am 17. I was made to be
the ‘wife’ of a man for nearly two years. That is quick to say, two years, but everyday
felt like a year to me. I feel like an old woman now. Nobody will ever want me. I don’t
want to face my family because they know what happened. I will never love.38"
A RUF me levou quando eu tinha 14 anos. Agora tenho 17. Eu fui obrigada
a ser ‘esposa’ de um homem por quase dois anos. Isso parece rápido ao dizer, dois anos,
mas todo dia parecia um ano para mim. Sinto-me como uma velha agora. Ninguém
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jamais vai me querer. Eu não quero encarar minha família porque eles sabem o que
aconteceu. Eu nunca vou amar.
(5) “women and girls who have been abducted, suffered gender-based
violence such as sexual assault and rape, and been forced into marriage or worked as
sexual slaves, will have particular psycho-social needs”39.
Mulheres e crianças que foram raptadas, sofreram violência de gênero tais
como ataques sexuais ou estupro, e foram forçadas a casar ou a trabalhar como escravas
sexuais, terão necessidades psico-sociais particulares.
A situação das mulheres em redes de prostituição ou que foram submetidas
à escravidão sexual durante os conflitos é especialmente complexa. Por razões sociais e
culturais, até pouco tempo elas não eram nem um segmento considerado no tratamento
de questões de guerra e paz. A rejeição e o estigma que marcam a vida das mulheres
identificadas com a prostituição ou mesmo com a violência sexual por combatentes é
óbvia em (4): “eu não quero encarar minha família porque eles sabem o que aconteceu.
Ninguém jamais irá me querer”.
O próprio esforço presente nos trechos acima de caracterizar a dor, o
sofrimento e as necessidades especiais das mulheres que sofreram violência ou que se
prostituem é uma demonstração da desconsideração da subjetividade dessas mulheres
geralmente vigente. O estatuto de ‘objeto’ dessas pessoas restringe as possibilidades
econômicas das mulheres – afinal, como coloca Bourdieu, a esfera pública é dos
homens40, sobrando para mulheres, quando obrigadas a sustentar a família como em
(1), apenas atividades ligadas aos seus papéis tradicionais. A forma de violência sofrida
pelas mulheres, como em (4), também é pautada por esses papéis. Ao caracterizar sua
situação na milícia como ‘mulher’ (wife) de um combatente, a mulher dando o
depoimento está de fato demonstrando que a relação de violência física constante
caracteriza um “casamento” baseado na negação de sua individualidade e vontade em
favor do que seriam as necessidades do outro, nesse caso sexuais. A construção do
significado da mulher “fora de si”, retomando Bourdieu, chega nesse ponto ao extremo
– a percepção da mulher a partir do padrão masculino da sociedade nega a essa o
mínimo da subjetividade, permitindo que ela seja usada, sem consideração das suas
vontades ou percepções sobre aquela experiência, como objeto para exercício da
sexualidade do combatente.
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Dessa forma, o discurso do Gender Resource Package (5) e do Relatório das


especialistas (2) e (3) é um esforço de identificar essas mulheres subjetivamente, por
meio do emprego constante dos termos ‘psíquico’ e ‘psicológico’. Em (3) vemos como
isso se complementa na construção da ‘fortaleza’ feminina: mulheres submetidas a todo
tipo de violência, caracterizado na primeira parte do trecho pelo uso da voz passiva se
transforma na convivência com esse mal-estar sem prejudicar a capacidade de ação
dessas mulheres, na voz ativa em que é descrita a formação de uma comunidade por
elas. A colocação “É impossível ignorar o desespero dessas garotas” se coloca quase
como uma ironia, quando o trauma psicológico e a situação psíquica dessas mulheres
sofrem constantemente é geralmente ignorado em grande parte devido às causas acima
discutidas. Mesmo assim, o poder de ação das mulheres é enfatizado – não porque elas
não sofrem, mas porque são capazes de se reerguer de forma ‘comovente’, e agir mesmo
tendo sofrido tanto, como nos diz o trecho (3).

4.3. Ativistas políticas

(1) “As widows, we share a lot in common. We struggle to claim our


inheritance from our late husbands’ families and, sometimes, even the custody of our
children. We want to know where our husbands are buried so we pressure the
authorities to investigate their disappearences. And we turn to each other to help raise
our children and orphans who lost both of their parents at the war”41.
Como viúvas, temos muito em comum. Nós lutamos para exigir nossa
herança da família dos nossos falecidos maridos e, à vezes, até mesmo a custódia dos
nossos filhos. Queremos saber onde nossos maridos estão enterrados para que possamos
pressionar as autoridades na investigação de seus desaparecimentos. E nós contamos
umas com as outras para que possamos nos ajudar a criar nossos filhos e os órfãos que
perderam ambos os pais na guerra.
(2) “In Arta, we presented ‘buranbatur’ – a special poetic verse sung by
women – to show the suffering of women and children during the 10 years wars. We
lobbied for a quota for women in the future legislature, the Transitional National
Assembly (TNA). But we faced opposition from the male delegates, who told us that no
man would agree to be represented by a woman”42.
Em Arta, nós apresentamos ‘buranbatur’ – um verso poético especial
cantado pelas mulheres – para mostrar o sofrimento pelo qual passaram mulheres e
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crianças durante os dez anos da guerra. Nós fizemos lobby por cotas para as mulheres
na futura legislatura, a Assembléia Nacional Transitória. Mas enfrentamos oposição dos
delegados, que nos disseram que homem algum concordaria em ser representado por
uma mulher.
(3) “The men who had been negotiating didn’t fell that the women had any
right to be there. These men felt that they had the right to be there because they were
fighter or had been elected to some parliament before the war escalated. Burundi
women who had suffered so much didn’t have any legitimacy in their eyes. But by
bringing in the women, the documents have more legitimacy now”43.
Os homens que estiveram negociando não sentiam que as mulheres tinham
qualquer direito do estar ali. Esses homens sentiam que eles tinham direito de estar ali
porque eles eram combatentes ou tinham sido eleitos para um parlamento antes do
conflito escalar. As mulheres do Burundi não tinham muita legitimidade aos olhos
deles. Mas ao trazer as mulheres, os documentos têm mais legitimidade agora.
(4) “Women and girls are not only victims in armed conflict; they may also
become active agents. In many conflicts and post-conflict situations they have been
instrumental in promoting peace. Their involvement in a number of countries has drawn
upon their moral authority as mothers, wives and daughters to call for an end to the
conflict. However, women continue to be largely absent from formal peace process.
Instead they tend to play more prominent roles in informal activities that support formal
peace processes”44.
Mulheres e crianças não são apenas vítimas em conflitos armados; elas
também se tornam agentes ativos. Em muitas situações de conflito e pós-conflito, elas
têm sido instrumentais na promoção da paz. Seu envolvimento em um número de países
foi baseado em sua autoridade moral como mães, esposas e filhas que clamam pelo fim
do conflito. No entanto, mulheres continuam ausentes do processo de paz formal. Em
vez de participarem desses processo, elas tendem a possuir papéis mais proeminentes
em atividades informais que servem de apoio ao processo de paz.
(5) “When collecting information, UNMOs/MLOs45 are advised to
interview women in the communities being monitored as well as women leaders and
member’s of women organizations. These groups can provide important information on
a variety of topics, including human rights abuses such as the rape and trafficking of
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women and girls, forced recruitment of boys into armed groups, the level of weapon
ownership in the community and small arms trade”46.
Ao coletar informações, UNMOs/MLOs são aconselhados a entrevistar as
mulheres das comunidades sendo monitoradas, assim como as mulheres líderes e
membros de organizações femininas. Esses grupos podem fornecer informações
importantes em diversos tópicos, incluindo violações de direitos humanos tais como
estupro e tráfico de mulheres e crianças, recrutamento forçado de meninos em grupos
armados, o nível de posse de armas na comunidade e do comércio de armas leves.
Os locais de conflito visitados pelas redatoras do Relatório Women War
Peace são sociedades nas quais a divisão público/privado é essencial na compreensão
dos papéis masculinos e femininos, assim como na maior parte do mundo. Assim sendo,
qualquer atividade política feminina é em geral considerada imprópria e ilegítima, como
o trecho (3) claramente apresenta. O trabalho discursivo da ONU, nesse caso, centra-se
no esforço de legitimação de um trabalho político feminino calcado por vezes em
lógicas mais informais e afinadas com os papéis tradicionais asssumidos pelas
mulheres, como informam os trechos (1) e (4).
O trecho (2) tem um significado especial quando ele trata de categorias de
representação entre masculino e feminino, em diálogo com a idéia de violência
simbólica de Bourdieu. A diferença entre homem e mulher é caracterizada pela
capacidade de representação de um sexo pelo outro. Se as mulheres são bens simbólicos
de uma sociedade masculina, eles podem falar em nome delas, mas o inverso é
rejeitado. Em (1) a mesma lógica das mulheres como bem simbólico se repete – elas não
tem direito à terra ou aos filhos porque não são sujeitos dentro do casamento, são bens
como a terra e, logo, não faz sentido que um tenham posse sobre qualquer herança.
No entanto, em (1), ao mesmo tempo em que a declaração demonstra o
poder dessas formas tradicionais de identificar a mulher, ela também mostra a própria
mulher resistindo a essa identificação tradicional. Ela afirma sua identidade como
agente na ‘exigência’ (claim) de seus direitos sobre a terra de seu marido e os filhos que
teve com ele.
Os discursos em (4) e (5) colocam em cheque a lógica que leva à declaração
indireta em (2) de que as mulheres deveriam ser representadas pelos homens ao
estabelecer a ação política das mulheres como mãe, filhas e esposas em um patamar de
autoridade válido apesar da informalidade do seu exercício. A legitimação discursiva
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das experiências das mulheres, que em geral acontecem nas esferas consideradas
privadas, tem a finalidade de permitir que elas participem dos processos formais de paz
e não sejam rejeitadas na base do argumento exposto em (3). Nesse caso, apenas os
‘guerreiros’, os que pegaram em armas, num papel estritamente masculino, teriam
direito político. A ligação entre as duas experiências, da guerra e da política é entendida
essencialmente por serem realizadas por homens nas esferas consideradas públicas. O
estabelecimento da importância social do trabalho feminino ‘privado’ pelos trechos (1),
(3), (4) e (5) pretende levar as mulheres para um patamar político que permita o
reconhecimento público de suas demandas.

5-Considerações Finais: discurso e prática social – possibilidade de


uma síntese positiva para as mulheres?

Este trabalhou tentou delinear os termos do embate entre as identidades


construídas pela prática social tradicional e a tentativa de reconstrução dessas
identidades pelo discurso da Organização das Nações Unidas. Pela análise do discurso
das mulheres presentes nas situações de conflito, observa-se a cristalização de idéias e
identidades que variam da tradição do papel de esposa e mãe à negação do sujeito
feminino. Por outro lado, a prática discursiva da ONU se coloca como um agente que
tenta uma transformação social pela transformação das identidades femininas. Vale
ressaltar que o discurso esposado pela ONU hoje não é uma constituição recente, mas
parte de um processo de longo prazo. A análise de um momento da elaboração desse
discurso é importante para percebermos, seguindo as análises de Fairchlough, as
instâncias de mudança social – momentos que são parte de um processo de
reformulação de estruturas e não acontecem abruptamente.
Exatamente por isso é importante frisar que entre a prática discursiva da
ONU e a realidade da ação dessa Organização nas situações de conflito civil há ainda
grande distância. As visões tradicionais sobre as mulheres permeiam não só as
sociedades em conflito, mas também grande parte dos atores, em sua maioria homens,
que intervém na tentativa de superação desses conflitos. Reitera-se assim que a
dimensão social da prática discursiva da ONU tem conseguido avanços lentos na
modificação efetiva da experiência das mulheres através da revisão dos modos
simbólicos de identificá-las e reconhecê-las.
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Para fins dessa análise, contudo, a discussão se reveste de especial interesse


por serem as Nações Unidas um âmbito no qual as ordens do discurso ali constituídas se
transformem em ações políticas reais para a transformação do relacionamento homem-
mulher. Em situações delicadas como as de reconstrução das sociedades que saíram de
longos conflitos, a importância da ação feminina tem sido reconhecida na base de novas
concepções sobre o que as mulheres fazem e são.
O trabalho assim se concentrou menos na compreensão de como as
ideologias tradicionais de gênero são construídas e mais em que bases elas podem ser
reconstruídas. Significativamente, tentei mostrar que a prática discursiva é parte
essencial nessa tentativa de transformação social de papéis e identidades. É preciso
dizer que para isso compete o fato de que um discurso como o das Nações Unidas tem
sua dimensão política e ideológica explícita. Assim, a agenda de igualdade de gênero
defendida por essa Organização ‘investe’ seu discurso de um caráter emancipatório, que
acaba sendo refreado na prática por discursos mais tradicionais.
Para área de estudo das Relações Internacionais tais perspectivas são novas
e importantes, na medida em que apresentam formas de ver os domínios tradicionais da
disciplina de uma maneira ainda não explorada. Recorremos assim às dimensões sociais
da prática das identidades e do discurso para entender que a violência da guerra e a
reconstrução da paz não se fazem apenas com armas e armistícios, mas também com a
linguagem e o discurso em suas múltiplas possibilidades – de submeter ou libertar, de
negar ou enfatizar, de promover a exclusão ou a justiça. Repensar velhos assuntos sobre
novas perspectivas não é apenas possível, é necessário. A transformação social da qual
o discurso pode ser agente, neste caso, abre o caminho para novas concepções sobre o
que é a experiência da guerra e como se constitui a paz. Concepções nas quais a
desconsideração da mulher como sujeito e agente dessa paz concorrem diretamente para
inviabilizá-la.
NOTAS:

1 Human Security Centre. Human Security Report 2005 – War and Peace in the 21st
Century. New York, Oxford: Oxford University Press, 2005, p.3.
2 Ibidem, p. 23.
3 Ver KALDOR, Mary. New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era.
Cambridge: Polity Press, 1999.
4 Ver TICKNER. J. Ann. Gender in International Relations: Feminists Perspectives in
Achieving Global Security. New York: Columbia University, 1992.
5 GOLDSTEIN, Joshua S. War and Gender: How Gender Shapes the War System and
Vice-Versa. Cambridge: University Press, 2001, p. 59.
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 71
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

6 Chamo as metodologias tradicionais de RI de “empricistas” seguindo o argumento de


Wendt em seu livro “Social Theory of International Politics”, no qual ele identifica o
“empiricismo” com uma doutrina filosófica de “realismo científico”, baseado em um
pressuposto ontológico de independência ente o mundo factual e os seres humanos. Dessa visão
derivariam critérios de objetividade, criticadas por cientistas, como Wendt, que se dedicam ao
estudo de entidades “não-observáveis” como idéias e, no caso desse artigo, identidades, que
apesar da inexistência concreta não são menos ontologicamente presentes e importantes para a
compreensão das Relações Internacionais.
7 Também estou aqui me baseando nas discussões presentes em: Wendt, Alexander.
Social Theory of International Politics. Cambridge: University Press, 1999, pp. 32, 38, 47. É
importante assinalar, no entanto, que apesar de não ser considerado por Wendt, as perspectivas
feministas em Relações Internacionais são variadas em diversos aspectos, incluindo em visões
epistemológicas, que variam de concepções próximas ao positivismo até discussões pós-
modernistas. Para discussão sobre essas diferentes abordagens, ver WIBBEN, Annick.
“Feminist International Relations: Old and New Debates”. Brown Journal of World Affairs,
Inverno-Primavera 2004, Vol. X, Nº 2.
8 SMITH, Steve. “Positivism and Beyond” in: SMITH, BOOTH e ZALEWSKI.
International theory: Positivism and Beyond. Cambridge: The Cambridge University Press,
1996, p.
9 KALDOR, Mary. Op. Cit., p. 120.
10 FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e Mudança Social. Brasília: Universidade de
Brasília, 2001. Trad. Izabel Magalhães, p.61.
11 FAIRCLOUGH, Norman. Critical Discourse Analysis – The Critical Study of
Language. Language in Social Life Series. London and New York: Longman, 1995, p.1.
12 FAIRCLOUGH, Norman. Op. Cit.10, p.87.
13 Ibidem, p. 94.
14 FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e Mudança Social. Brasília: Universidade de
Brasília, 2001. Trad. Izabel Magalhães, p. 69.
15 Ibidem, p. 69.
16 Ibidem, p.117.
17 Tradução livre do título original: Gender Resource Package for Peacekeeping
Operations.
18 Nós dirigimos nossas conclusões àqueles que têm poder e recursos para fazer uma
diferença. Indiferença não é uma opção. Ao representar as experiências de guerra das mulheres,
nós prestamos atenção nas causas e conseqüências. REHN, Elisabeth; SIRLEAF, Ellen Johnson.
Women, War, Peace: The Independent Expert’s Assesment on the Impact of armed conflict on
women and women’s role in Peace-Building. United Nations Development Fund for Women,
2002, p. xiii.
19 BOURDIEU, P. A Dominação Masculina. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 1999, p.
45.
20 Ver BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2001.
21 BOURDIEU, Pierre. Op. Cit. 19, p. 45.
22 Ibidem, p.55.
23 BOURDIEU, Pierre. “Novas reflexões sobre a dominação masculina”. In: Lopes, M. J.
(org.), Gênero e Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996, p. 31.
24 FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2005, pp. 8-9.
25 Human Security Center, Op. Cit., p. 112.
26 REHN, Elisabeth; SIRLEAF, Ellen Johnson. Op.Cit., p. 25.
27 Ibidem, p. 25.
28 Ibidem, p. 26.
29 Ibidem, p. 40-41.
30 Ibidem, p.41.
31 Ibidem, p. 42.
32 Human Security Centre, Op. Cit., p. 101.
XAVIER, Izadora. Mulheres em conflito: uma análise das práticas discursivas sobre 72
identidades femininas em situações de conflito Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 51-73, Dez. 2008 / Jun.
2009.

33 BOURDIEU, P. Op. Cit. 19, p. 53.


34 UNAMSIL é o acrônimo para United Nations Mission in Sierra Leone, ou seja, é a
força de paz que foi estabelecida no território de Serra Leoa entre 1998 e 2003.
35 REHN, Elisabeth; SIRLEAF, Ellen Johnson. Op.Cit., p. 72.
36 Ibidem, p. 12.
37 Ibidem, p. 12-13.
38 Ibidem, p. 119.
39 Ibidem, p. 131.
40 BOURDIEU P., Op. Cit., p.62.
41 REHN, Elisabeth; SIRLEAF, Ellen Johnson. Op.Cit., p. 79.
42 Ibidem, p. 80.
43 Ibidem, p.81.
44 Gender Resource Package for Peacekeeping Operations, p. 8;
45 Abreviações de United Nations Military Officers e Military Liasion Officers. Ambos
são postos de missões de paz das Nações Unidas.
46 Gender Resource Package for Peacekeeping Operations, p. 124.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 74-92, Dez. 2008 / Jun. 2009.

A “PERSPECTIVA DE GÊNERO” NA POLÍTICA


IMIGRATÓRIA DA UNIÃO EUROPÉIA:
EXPECTATIVAS E DIFICULDADES

Flavia Guerra∗
Érica Simone Almeida Resende**

Resumo: Abstract:

O artigo visa a discutir as atuais políticas The article aims to argue the current politics
para a mulher da União Européia, baseadas for the woman of the European Union,
no conceito de gender mainstreaming based in the concept of gender
(perspectiva de gênero ou transversalidade). mainstreaming. According to this approach,
De acordo com esta abordagem, a política the gender politics must surpass all the
de gênero deve perpassar todas as outras others public politics of the Union and not
políticas públicas da União e não ficar to be confined to a specific department. It is
confinada a um departamento específico. about, therefore, to remove it from a
Trata-se, portanto, de retirá-la de uma secondary position and to become it visible
posição marginal e torná-la visível em toda in all the group structure. By this point of
a estrutura do bloco. Desse ponto de vista, o view, the gender mainstreaming represents
o gender mainstreaming representa um an advance in relation to the previous
avanço em relação às anteriores políticas da politics of the EU to the woman: from the
UE para a mulher: a do feminismo liberal e liberal feminism and from the positive
a da ação positiva. Além disso, ele poderia action. Moreover, it could have an
ter um caráter inovador, ao introduzir innovative character, when introducing not
elementos não patriarcais no desenho das patriarchal elements in the drawing of the
outras políticas públicas. others public politics.
Para avaliarmos a eficácia dessa nova To evaluate the effectiveness of this new
concepção, optamos por um estudo de caso conception, we opt to a case study of the
da política imigratória da União Européia. immigration politics of the European Union.
Estariam as mulheres imigrantes se Would the immigrant women be benefiting
beneficiando da influência da perspectiva de themselves from the influence of the gender
gênero sobre as políticas imigratórias? perspective on the immigration politics? We
Constatamos que o caráter liberal, evidenced that the liberal, repressive and
repressivo e conservador da política de conservative character of the politics of
integração cívica a torna resistente e civic integration becomes it resistant and
incompatível com uma concepção de incompatible with a conception of gender
perspectiva de gênero, sobretudo quando perspective, especially when this conception
esta propõe uma modificação das estruturas considers a modification in the patriarchal
patriarcais. structures.

Palavras-chave: Key-words:

Feminismo, União Européia, política Feminism, European Union, immigration


imigratória, liberal, perspectiva de gênero e politics, liberal, perspective of gender and
ação positiva positive action.

∗ Mestre em ciência política pela UFRJ.


** doutoranda em ciência política universidade de São Paulo (USP). Mestre em ciência política (2005)
universidade de São Paulo (USP) São Paulo, brasil. especialização em política internacional (2003)
Fundação Getúlio Vargas (FGV) rio de janeiro, brasil. complementação de estudos em relações
internacionais (2001) Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-rio) Rio de Janeiro, Brasil.
bacharel em estudos franceses (1996) Université de Savoie Chambéry, França. Bacharel em Direito
(1994) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rio de Janeiro, Brasil.
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 74
política imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá –
Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº
01, 74-92, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Introdução
A União Europeia proclamou “2007” como o Ano europeu da Igualdade de
Oportunidades para Todos. As ações se baseiam nos artigos 2° e 3° do Tratado de
Roma, que já tratava da igualdade entre os cidadãos e, particularmente, da igualdade
entre homens e mulheres. O Ano europeu da Igualdade, portanto, parece ser um
coroamento de uma série de medidas a favor da igualdade que vem sendo adotadas
desde os primórdios da União Européia.
No entanto, um estudo divulgado no dia 18 de julho de 2007 pela Comissão
Européia (CE), o órgão executivo da União Européia, revela que as mulheres do bloco
recebem salários até 15% mais baixos do que os homens, embora tenham mais anos de
estudos.
Mais do que mostrar que a Europa ainda está longe de ser um modelo de
eqüidade entre homens e mulheres, o informe da Comissão nos leva a questionar o teor
das políticas para a mulher adotadas desde a fundação do bloco.
A UE conta com órgãos acostumados a tratarem de temática relativas aos
direitos da mulher. Por outro lado, algumas políticas, como as de ação positiva e
perspectiva de gênero (ou gender mainstreaming) encontram obstáculos para serem
plenamente aceitas.
A finalidade deste artigo é investigar se a nova abordagem gender
mainstreaming teria mais chances do que sua antecessora (política de ação afirmativa)
para superar determinados pressupostos do feminismo liberal e as resistências de outras
políticas comunitárias em relação à questão da mulher. Para isso, optamos por analisar a
compatibilidade ou incompatibilidade entre o conceito de “perspectiva de gênero” e as
bases ideológicas da política imigratória da União Européia

2. As políticas feministas na União Européia

2.1 A visão liberal predominante

No entanto, as medidas adotadas nas primeiras décadas do processo de


integração se limitaram ao mercado de trabalho, seguindo a cartilha do feminismo
liberal. Segundo a pauta de reivindicações dessa corrente feminista representada por
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 75
política imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá –
Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº
01, 74-92, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Betty Friedman, entre outras, as mulheres devem lutar por tratamento igual no trabalho,
paridade de salários para tarefas iguais e legalização do aborto. Parte-se do pressuposto
de que as mulheres são essencialmente iguais aos homens e, portanto, aptas a alcançar
os mesmos postos que estes na estrutura do mercado de trabalho.
O feminismo liberal representado no século XX por Friedman é tributário
do pensamento de Mary Wollstonecraft, que no século XVIII reivindicava o Direito da
Mulher com base na mesma Razão iluminista que inspirou a Declaração Universal dos
Direitos do Homem. A mulher ocuparia uma posição inferior na sociedade não por
possuir uma qualidade intrínseca qualquer, mas por receber uma educação diferente da
dos homens, uma educação que as deixava mais preocupadas com uma elegância fútil
do que com o desenvolvimento de uma personalidade forte. Podemos, então, inferir que,
no pensamento de Wollstonecraft, o desenvolvimento da capacidade racional da mulher
dependeria de uma mudança na orientação de sua educação.
A principal crítica de outras correntes feministas a essa abordagem refere-se
ao fato de que ela, influenciada pela doutrina liberal que considera apenas o indivíduo
como sujeito de direito, tenta “adaptar” a mulher a uma estrutura historicamente criada
por uma sociedade dominada pelos homens. Neste sentido, a adequação da mulher,
pensada como indivíduo, à estrutura não modificaria as bases da dominação. A segunda
crítica geralmente dirigida ao feminismo liberal diz respeito ao próprio conceito de
mulher. Esta seria vista como portadora de uma essência inata igual à do homem,
essência essa constituída pela razão.
Um outro tipo de crítica vem de fora do movimento. Ao se referir ao
feminismo, Terry Eagleton lembra que sua popularidade se deve ao fato de não
representar uma ameaça ao sistema capitalista:

O feminismo e a etnicidade hoje gozam de popularidade por se fazerem


lembrar como algumas das lutas políticas mais vitais que confrontamos na
realidade. Essa popularidade também se deve ao fato de não se mostrarem
necessariamente anticapitalistas, desse modo combinando com uma época
pós-radical (Eagleton, 1998, p.33).

Mas a interpretação de Eagleton é, no mínimo, exagerada, pois estende para


todo o movimento feminista um traço que ele detecta no feminismo cultural e que, a
nosso ver, é na verdade uma característica do feminismo liberal, facilmente aceito e
compreendido pelo senso comum. Acreditamos que a natureza não contestatória do
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 76
política imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá –
Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº
01, 74-92, Dez. 2008 / Jun. 2009.

feminismo liberal talvez explique o fato de ele ter permanecido como a linha
predominante nos documentos oficiais da União Européia desde sua criação.
Outra característica deste tipo de feminismo é a prioridade dada à
legislação, como se as leis tivessem o poder, por si sós, de mudarem a realidade. O
feminismo liberal segue a tradição liberal de igualdade formal, garantindo direitos
iguais a todos os indivíduos. Ao estabelecer a “igualdade entre homens e mulheres”, o
Artigo 2° do Tratado da Comunidade está se referindo àquela igualdade formal. As
demais referências nos principais documentos da UE seguem a mesma linha. Assim,
temos no artigo 3° a determinação de “eliminar desigualdades, e promover a igualdade
entre homem e mulher” e no artigo 13°, a proposta de combater a discriminação baseada
em sexo. No artigo 119°, encontramos a preocupação típica do feminismo liberal com a
entrada da mulher no mercado de trabalho e o recebimento de uma remuneração
equivalente à dos homens. De acordo com o artigo em tela, cada Estado-membro deve
assegurar o “princípio de pagamento equivalente para trabalhadores homens e mulheres
que desempenham o mesmo trabalho ou trabalho de valor equivalente”. Todos esses
artigos foram absorvidos pela Constituição Européia1: a “igualdade entre homens e
mulheres” passou a figurar no Artigo 1° e o “pagamento igual para trabalhadoras e
trabalhadores que desempenham o mesmo trabalho ou um trabalho de valor igual”, no
Artigo III-214.
Em suma, apesar de vários desses artigos terem sido revisados ou
substituídos posteriormente, como veremos em outra seção, o compromisso com o
“tratamento igual” da visão feminista liberal foi mantido e passou a coexistir com outras
abordagens.

2.2. Mudança de rumos

A predominância dessa visão sobre a problemática da mulher na União


Européia só seria atenuada, segundo Pollack e Hafner-Burton, no início dos anos 80,
com a introdução paulatina de uma agenda mais ampla, que ia além do “tratamento
igual” e “salário igual” presente no Tratado de Roma e abarcava a ação positiva. O
órgão responsável por esta mudança foi a “Unidade de Oportunidades Iguais” da
Comissão Européia, que passou a promover uma série de ações específicas a favor da
mulher, atenuando desta forma a orientação exclusivamente liberal que havia
prevalecido até então.
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 77
política imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá –
Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº
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A ação positiva também pode assumir a forma de discriminação positiva,


quando se tenta aumentar de forma mais radical a participação da mulher com ações
afirmativas ou cotas. Recentemente, a Corte Européia se pronunciou a favor da
discriminação positiva no caso Kalanke & Marschall e reafirmou o direito dos Estados-
membros de adotarem este tipo de medida
De acordo com Delgado, Capellin e Soares, “são denominadas ações
afirmativas essas políticas que têm como meta corrigir antigas e novas discriminações”
(2000, p. 11). Ao contrário da liberal, a legislação da ação afirmativa está vinculada a
uma política abertamente intervencionista. A ação positiva opõe-se à visão do
feminismo liberal porque parte do pressuposto de que a igualdade formal não é
suficiente, pois “perpetua, recobre e, em última análise, legitima a desigualdade
substantiva” (Miguel, 2000, p.2). Desta forma, a ação positiva intervém para equilibrar
a desvantagem inicial da mulher, promovendo uma igualdade de oportunidade que
poderá aumentar a probabilidade de uma igualdade de resultados.
Diferentemente de Pollack e Hafner-Burton, Martine Voets entende que a
ação positiva esteve presente desde o início do processo de integração. Em “A estratégia
européia para a ação afirmativa”, Voets mostra como os processos de integração
supranacional sempre foram propulsores da adoção de medidas de ação afirmativa nos
diversos países europeus:

A história das ações afirmativas na Europa encontra-se pautada pela história


dos acordos de integração que, no caso específico das diretrizes para a
consecução da igualdade de oportunidades de gênero nos mercados de
trabalho, começa em 1957 com o próprio Tratado de Roma (2000, p.22).

No entanto, essas políticas de ação afirmativa apontadas por Voets se


restringiam a questões econômicas e voltadas para o mercado de trabalho, nisso se
aproximando das concepções do feminismo liberal. Uma hipótese que explicaria
essa insuspeita afinidade, e à qual voltaremos mais à frente, é a tendência do
liberalismo à flexibilidade e à absorção de teorias num primeiro momento
incompatíveis com ele.

A própria Voets admite que é apenas nos anos 80 que as ações positivas
adquirem maior autonomia em relação ao arcabouço jurídico. A União Européia chegou
à conclusão de que a legislação era necessária, porém não suficiente, e, por isso, a ação
positiva precisava de uma estratégia que fosse além da igualdade formal valorizada pelo
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 78
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feminismo liberal. Assim, a Comissão Européia adotou os Programas de Ação, que têm
o objetivo de promover valores e práticas favoráveis à igualdade de gênero, avaliar a
eficácia das políticas e desenvolver a percepção dos atores para promover a igualdade
de gênero. Em outras palavras, trata-se de criar uma nova cultura que possa garantir a
aplicação e a eficácia da legislação.
A ação positiva também se afasta, em princípio, do liberalismo por sua
visão sobre a mulher. Enquanto o feminismo liberal entendia a mulher como portadora
de uma essência igual à do homem, a ação positiva pode se aproximar da imagem
fornecida pelas feministas culturais de que a mulher é essencialmente diferente do
homem. Por estarem acostumadas a cuidar dos outros, as mulheres poderiam levar para
a política o que Carol Gilligan chamou de uma “ética do cuidado”, que se preocupa
mais com disposições morais do que com princípios morais. Na “ética do cuidado”,
modo de raciocínio tipicamente feminino, haveria uma propensão a buscar respostas
para um caso particular e não princípios de aplicabilidade universal. Por fim, explica
Gilligan, as mulheres estão mais atentas para as responsabilidades e as relações para
com o outro concreto do que para os direitos e a eqüidade do outro pensado como
abstração.
Mas a principal característica da ação positiva, intervencionista e antiliberal,
é o fato de inserir a mulher num grupo historicamente desprivilegiado. As políticas de
ação afirmativa ou cotas estão associadas a direitos coletivos e não aos direitos
individuais da mulher. Ora, no caso de uma política de ação afirmativa baseada na
“ética do cuidado”, teríamos aí um desvio em relação à concepção tradicional de ação
afirmativa. A “ética do cuidado” não se preocupa nem com o indivíduo abstrato do
liberalismo nem com o grupo, mas com o indivíduo concreto.
Apesar dessas diferenças, há um ponto de contato entre a igualdade formal
do feminismo liberal e a ação afirmativa baseada na ética do cuidado do feminismo
cultural. Ambas promovem uma acomodação da mulher à estrutura social patriarcal e ao
sistema político vigente. A primeira visa tornar a mulher equivalente ao homem dentro
do sistema patriarcal. A outra exige cotas para introduzir uma ética do cuidado no
mesmo sistema.
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 79
política imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá –
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2.3 A nova abordagem da transversalidade nos anos 90

A política para a mulher da União Européia ganha nova inflexão com a


adoção oficial, em 1996, da abordagem gender mainstreaming ou transversalidade pela
“Unidade de Oportunidades Iguais” da Comissão Européia. O conceito significa retirar
a questão da mulher de uma política comunitária específica e incluí-la em todas as
políticas públicas européias ainda na fase de planejamento. Dito de outra forma, a
problemática das relações de gênero deverá ser um princípio transversal, penetrando na
formulação e na implementação de todas as políticas do bloco. Neste sentido, a nova
abordagem apresenta, segundo Pollack e Hafner-Burton, um potencial revolucionário.
Apresentada desta forma, pode-se ter a impressão de que a transversalidade
é apenas uma inovação em termos de gestão, uma novidade na forma e não no
conteúdo. A nosso ver, esta é uma visão demasiado simplista do caráter revolucionário
da perspectiva de gênero. Ao interferir em todas as políticas da comunidade, inclusive
em sua fase de elaboração, a nova abordagem tem potencial para acolher a proposta das
correntes feministas que reivindicam uma mudança nas estruturas de dominação da
sociedade patriarcal.
Antes de adotarem oficialmente a transversalidade, também chamada de
perspectiva de gênero, as autoridades do bloco já estavam familiarizadas com o conceito
desde o início dos anos 90. O termo foi criado na Terceira Conferência sobre a mulher
em Nairóbi, no Kenya, em 1985, e desde então foi adotado pelas Nações Unidas e em
países do norte da Europa como Holanda, Suécia e Noruega. Na União Européia, o
conceito apareceu pela primeira vez num documento oficial em 1991, no Terceiro
Programa de Ação sobre Oportunidades Iguais (1991-1996), mas não chegou a ser
implantado nas políticas comunitárias.
A incorporação da transversalidade pela União Européia foi favorecida por
uma série de fatores. Em primeiro lugar, a UE já contava com uma estrutura propensa a
adotar a perspectiva de gênero. Possuía legisladores no Parlamento Europeu e
representantes dos Estados-membros no Conselho de Ministros sensíveis à questão
feminina. Além disso, a Unidade de Oportunidades Iguais da Comissão2, a Corte
Européia de Justiça e o Comitê de Direitos da Mulher do Parlamento, já envolvidos com
as ações positivas, foram receptivos à idéia.
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 80
política imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá –
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Essa estrutura de oportunidade política tornou-se ainda mais favorável a


partir da adoção do Tratado de Maastricht em 1993. O Tratado expandiu os poderes do
Parlamento Europeu, um antigo defensor da questão feminina. Além de ganhar o poder
de co-decisão sobre algumas áreas de legislação, o Parlamento recebeu competência
para nomear a Comissão Santer em 1995 e impor condições favoráveis à mulher. O
Parlamento determinou, por exemplo, que aquela comissão assumisse um compromisso
explícito com as questões femininas.
Em 1995, a Conferência Mundial sobre a Mulher aprovou em sua
declaração final o conceito de transversalidade. A idéia é “garantir que uma perspectiva
de gênero esteja presente em todas as nossas políticas e programas” (Artigo 38,
Declaração de Pequim).
No mesmo ano, entraram no bloco três países – Suécia, Finlândia e Áustria
– com ampla experiência em políticas de igualdade entre homens e mulheres, o que
pode ter sido mais um incentivo para a adoção da nova perspectiva.
Desta forma, em 1995, estavam dadas as condições para que a União
Européia introduzisse a perspectiva de gênero em todas as suas políticas. No final deste
mesmo ano, o Conselho de Ministros aprovou o “Quarto Programa de Ação (1996-
2000) sobre Oportunidades Iguais para Mulheres e Homens”. O documento determinava
que a UE deveria priorizar a abordagem gender mainstreaming, além de dar
continuidade às ações positivas já em curso. No ano seguinte, 1996, a Comissão
declarou oficialmente seu compromisso com a perspectiva de gênero num novo
comunicado intitulado “Incorporando Iguais Oportunidades para Mulheres e Homens
em todas as Políticas e Atividades da Comunidade”.
Em 1997, o Tratado de Amsterdã, considerado um tratado de
aprofundamento do processo de integração, adota uma série de medidas que estimulam
a preocupação com as questões femininas e reforçam a transversalidade. O artigo 119°
do Tratado, que em seu único parágrafo tratava do pagamento igual para homens e
mulheres, é substituído pelo 141°, com vários parágrafos. À questão do pagamento igual
são acrescentadas novas exigências, como o voto por maioria qualificada no Conselho
de Ministros e a co-decisão desta instituição com o Parlamento Europeu em legislação
sobre oportunidades iguais entre homens e mulheres. O novo artigo contém ainda uma
cláusula segundo a qual os Estados-membros podem manter políticas de discriminação
positiva. O Tratado de Amsterdã, portanto, tem uma orientação pró-mulher.
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 81
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A reafirmação da transversalidade, no entanto, aparece mais claramente na


revisão dos artigos 2° e 3° do Tratado de Roma, que timidamente se referiam à pauta de
reivindicações do feminismo liberal - tratamento igual e pagamento igual. O Tratado de
Amsterdã defende que políticas de promoção de oportunidades iguais entre homens e
mulheres – e não meramente tratamento igual e salário igual – sejam incorporadas em
todas as políticas da União. “Na realização de todas as acções previstas no presente
artigo, a Comunidade terá por objetivo eliminar as desigualdades e promover a
igualdade entre homens e mulheres” (acréscimo ao artigo 3°).
É importante salientar que as instituições da União Européia envolvidas
com a política de gênero não eram estruturas tradicionais, estáticas e fechadas, mas
estruturas de mobilização, isto é, canais através dos quais as pessoas podem se expressar
e se engajar numa ação coletiva. Tanto a Unidade de Oportunidades Iguais quanto o
Comitê de Direitos da Mulher do Parlamento, para citar dois exemplos, atuam como
pontos de convergência de redes transnacionais de especialistas e ativistas da questão de
gênero.
Por fim, gostaríamos de destacar que o sucesso ou fracasso da nova
abordagem na União Européia depende muitas vezes do grau em que a perspectiva de
gênero se adequa ou não às políticas comunitárias já existentes. Quanto mais se adequar
à estrutura dominante, ou seja, quanto menos revolucionária for, maior a probabilidade
de a transversalidade ser aceita pelas instituições. Em outras palavras, ela só será bem-
sucedida se abdicar de seu potencial revolucionário.
No caso da União Européia, vimos como as tentativas de ação positiva
foram frustradas nas primeiras décadas do processo de integração devido à
predominância do feminismo liberal. A primeira pergunta que fazemos neste artigo é se
a transversalidade, ou seja, a inclusão da perspectiva de gênero em todas as políticas da
UE, poderá realizar a promessa que a ação positiva não conseguiu. Em outros termos, se
a perspectiva de gênero será suficientemente revolucionária para mudar as estruturas da
sociedade patriarcal, acabando com o predomínio das concepções do feminismo liberal
nas políticas para a mulher da UE.

3. Transversalidade e Política Imigratória na União Européia

Em seu artigo sobre o conceito de gender mainstreaming na União


Européia, Pollack e Hafner-Burton analisaram sua implementação em cinco tipos de
GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na 82
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políticas públicas da União: Fundos Estruturais, Política de Emprego, Desenvolvimento,


Política de Competição e Políticas de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento. Os autores
concluíram que a Política de Competição foi a mais resistente à abordagem da
perspectiva de gênero devido ao seu caráter marcadamente neoliberal. O departamento
de políticas de competição da União Européia toma suas decisões sobre ajuda estatal,
cartéis e monopólios, fusões e aquisições de acordo com critérios estritamente legais e
econômicos. Daí a resistência a considerar o critério da perspectiva de gênero em suas
decisões.
A segunda proposta deste artigo é analisar a relação entre a perspetiva de
gênero e um tipo de poítica comunitária não analisado por Pollack e Hafner-Burton, a
política imigratória. Mais especificamente, interessa-nos saber se o aspecto
revolucionário da perspectiva de gênero vem sendo capaz de mudar a estrutura liberal
das atuais políticas imigratórias da União Européia e, assim, beneficiar as mulheres
estrangeiras.
De acordo com Christian Joppke, existe atualmente uma convergência na
política imigratória da União Européia, baseada na resolução do Conselho Europeu de
novembro de 2004 sobre “princípios básicos comuns”. Entre as políticas de
convergência examinadas por Joppke, a principal é a da integração cívica, introduzida
pela Holanda em 1998 e posteriormente incorporada por Finlândia, Dinamarca, Áustria,
Alemanha e França.
As políticas imigratórias da Holanda foram tomadas como modelo para
vários países europeus tanto nos anos 80, com o multiculturalismo, quanto no final dos
anos 90, com a integração cívica. Por isso, optamos por analisar num primeiro momento
os dois tipos de políticas imigratórias deste país e suas conseqüências para a questão
feminina.
No início dos anos 80, a Holanda implementou uma política multicultural
que proclamava a emancipação do imigrante através de instituições sustentadas pelo
Estado nacional holandês, entre elas escolas étnicas, hospitais étnicos e mídia étnica. Ou
seja, o multiculturalismo holandês entendia o imigrante como portador de uma
identidade já constituída e que deveria ser mantida pelo Estado que recebia o imigrante.
A limitação desse modelo vem sendo apontada por vários autores. Amartya
Sen, por exemplo, destacou sua falta de liberdade intrínseca. Ao imigrante é negada a
possibilidade de optar racionalmente entre distintas culturas; ele é confinado à sua
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comunidade de origem. Na visão de Alain Tourraine, este multiculturalismo fechado


apontado por Sen mereceria o nome de multicomunitarismo, uma vez que o indivíduo
pertence à comunidade desde sempre e sua identidade não pode ser negociada.
O modelo multicultural holandês apresentava um caráter ambíguo porque,
se por um lado era intervencionista, obrigando os imigrantes a permanecerem no círculo
de sua comunidade de origem, por outro, exaltava a autonomia da comunidade e da
família imigrante dentro da sociedade. Apenas este último aspecto aproxima o
multiculturalismo holandês do liberalismo clássico.
Kymlicka lembra que, ao contrário do que se pensa, o liberalismo clássico
não defende a liberdade do indivíduo em relação a todo tipo de associação, mas proteger
a esfera privada e as associações dessa esfera de uma interferência política, representada
na maior parte das vezes pela intromissão estatal. “O ideal liberal de vida privada não
era proteger o indivíduo da sociedade, mas libertar a sociedade da interferência política”
(Kymlicka, 2006, p.332).
Para os liberais clássicos, o indivíduo não precisava ser protegido da
sociedade – ou de grupos existentes dentre dela, como a comunidade e a família –, mas
sim da política. Existe, portanto, uma afinidade entre o multiculturalismo holandês e o
liberalismo clássico, uma vez que ambos se abstêm de intervir na comunidade e na
família.
Durante a vigência dessa abordagem, a mulher imigrante encontrava-se no
pior dos mundos. A comunidade e a família eram livres para atuar na sociedade liberal e
multicultural, mas a mulher deveria seguir a cultura da comunidade e a hierarquia
familiar.
Diante deste quadro, podemos concluir que qualquer política favorável à
mulher encontraria dificuldades para se impor. As propostas de tratamento igual do
feminismo liberal partiam do pressuposto de que a mulher é um ser isolado dentro da
sociedade e elas estavam submetidas a grupos. Já as políticas de ação positiva estavam
voltadas para um grupo, só que um grupo que fazia referência a uma identidade
feminina. Presas a uma identidade étnica (da comunidade) ou familiar, as mulheres não
podiam ser alcançadas por estas ações que levavam em conta uma identidade única, a de
gênero.
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Políticas desses matizes, liberais ou de ação positiva, muito provavelmente


não produziram resultados para a mulher imigrante porque esbarraram nos interesses da
comunidade ou da família.
No fim dos anos 90, a Holanda adota uma outra política de inclusão de
imigrantes, a chamada integração cívica, que se transforma a partir de então em um
modelo para vários países da União Européia. Ao contrário do multiculturalismo, que
permitia que os imigrantes permanecessem numa “concha étnica”, na integração cívica
eles devem ganhar autonomia através da aquisição da língua da sociedade receptora e da
integração ao mercado de trabalho. Em suma, devem romper os laços que o ligam à
comunidade e incorporar-se à sociedade que os acolhe.
Subjacente à proposta de integração cívica, está presente um liberalismo que
visa a proteger o indivíduo de qualquer grupo que porventura o sufoque. Esta concepção
de liberalismo, geralmente considerada como a original, é perpassada pela tradição
romântica e é a única que poderia realizar a tarefa que Bauman atribuiu ao nacionalismo
e ao liberalismo: a aniquilação da comunidade. No processo de construção da nação,
tanto o nacionalismo quanto o liberalismo tinham o mesmo alvo. “As comunidades
étnicas e locais, forças conservadoras que impediam a auto-afirmação e a
autodeterminação individual, eram os principais suspeitos e se tornavam os alvos na
linha de tiro”. (Bauman, 2003, p.85).
Esta mudança na política de inclusão do imigrante poderia nos levar à
conclusão de que a integração cívica permitiria maior liberdade da mulher em relação à
comunidade. Teria ela mais liberdade de escolher entre diversas alternativas, uma vez
liberta da obrigação com a comunidade de origem?
Antes de responder a esta pergunta, precisamos nos voltar para o caráter
repressivo da integração cívica, apontado por Joppke. Em sua versão original, o modelo
não previa sanções, mas acabou ganhando contornos mais rígidos depois dos
assassinatos do político Pim Fortuyn em 2002 e do diretor de cinema Theo Van Gogh
em 2004. Até então voluntária, a integração cívica ganhou uma dimensão coercitiva.
Assim como o multiculturalismo oscilava entre liberalismo e
intervencionismo, a integração cívica terá também um movimento duplo. Por um lado, o
Estado afirmará que o imigrante deve ser autônomo e auto-suficiente, independente do
welfare state. Por outro lado, o Estado intervirá de forma coercitiva, ao condicionar a
concessão de visto de residência permanente à aprovação no teste de línguas. Essa
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exigência chegou a ser estendida aos candidatos à imigração ainda em seus países de
origem, numa espécie de imigração controlada no exterior. Na França, o então ministro
do Interior Nicolas Sarkozy chegou a declarar em 2004 que “trata-se de obrigar aquele
que faz vir uma pessoa do exterior, e que geralmente é sua mulher, a permitir que ela
aprenda o francês e se integre à nossa sociedade” (apud Lochak, 2004, p.1).
Sarkozy invoca indiretamente o patriarcado como uma tradição capaz de obrigar a
mulher a romper os laços com a comunidade étnica e se integrar à sociedade francesa.
Se no multiculturalismo, a mulher estava submetida a uma dupla tirania, a da
comunidade e a da família, agora, na integração cívica ela tem a possibilidade de se
libertar dos grilhões da comunidade, mas isto se dá às custas de um reforço dos grilhões
da família. A esta situação Joppke e outros chamam de liberalismo repressivo3.
Mesmo o liberalismo influenciado pelo romantismo, que pregava a proteção
da liberdade individual em relação a qualquer grupo, sempre se absteve de interferir na
esfera privada da família. A integração cívica reproduziu as características deste tipo de
liberalismo. Foi eficaz para quebrar os laços comunitários, mas recuou diante da
estrutura patriarcal da família e até se aproveitou dela para atingir seus objetivos.
Voltamos então à nossa pergunta inicial. A abordagem da perspectiva de
gênero (ou gender mainstreaming), introduzida em 1996, foi capaz de revolucionar a
política de integração cívica adotada no final dos anos 90 na União Européia? De
imediato, detectamos uma contradição entre as duas políticas, a imigratória e a de
gênero. Enquanto a integração cívica se aproveita do patriarcado para trazer a mulher
para a sociedade, numa espécie de liberalismo repressor, como discutido por Joppke, a
política de perspectiva de gênero, quando revolucionária, confronta a estrutura patriarcal
da sociedade.
Suspeitamos que, se a perspectiva de gênero tivesse mantido sua proposta
revolucionária de modificar estruturas patriarcais, a política imigratória de integração
cívica jamais teria considerado em sua elaboração a estratégia de usar o patriarcado para
liberar a mulher da comunidade de origem e aproximá-la da sociedade receptora.

4. Considerações sobre o liberalismo

Numa tentativa de definir o liberalismo, Carlos Estevam Martins constata


que a doutrina engole, como uma imensa “boca de jacaré”, “as virtudes típicas dos
demais membros de sua própria família, deixando-os desfalcados de seus títulos de
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identidade” (2003, p.629). O liberalismo tornou-se, diz o autor, um ecletismo, uma


doutrina flexível que absorveu inclusive as contribuições positivas da esquerda. Essa
falta de uma identidade clara seria uma estratégia para manter a hegemonia, uma vez
que uma doutrina pura é muito mais facilmente alvo das críticas dos adversários do que
uma doutrina híbrida.
Hegemônico, ubíquo, o liberalismo invade outros campos e se apropria de
teses opostas, desfigurando-as e trazendo-as para a sua seara. Um exemplo disto seriam
os liberais de esquerda que acreditam na liberdade política, mas admitem intervenções
econômicas. O resultado é uma mescla teórica de liberalismo, assistencialismo,
protecionismo e corporativismo.
Outros, como Bobbio, chegaram a se referir a um liberal-socialismo em que
haveria compatibilidade entre liberdade e igualdade. No entanto, o teória político
italiano voltou atrás e afirmou, em Liberalismo e Democracia, que igualdade e liberdade
permanecem em campos opostos:

Mesmo diante do contraste entre duas ideologias nascidas em contraposição


uma à outra e, nas suas linhas programáticas, antitéticas, como liberalismo e
socialismo, existiram tentativas de mediação ou de síntese. (...) A antítese,
porém, permaneceu e se foi reforçando e enrijecendo nos dois últimos
decênios (1988, p.86).

A antítese se cristalizou na prática, mas as tentativas de conciliar as teorias


continuaram aumentando nos últimos anos. Até marxistas como Perry Anderson,
destaca Martins, fizeram um movimento em direção ao liberalismo. Para Anderson, um
marxista contemporâneo não poderia deixar de reconhecer as conquistas liberais.

A proposta de Martins de delimitar o conceito de liberalismo também


pode ser encontrada em Carl Schmitt, para quem era preciso separar
parlamentarismo/liberalismo e democracia. “Em épocas pré-incorporação, os valores
democráticos puderam estabelecer uma coalizão com os expedientes liberais e
parlamentares. É essa a combinação condenada por Schmitt” (LESSA, 2003, p.59).
Essa separação e delimitação dos termos é fundamental para definir com clareza o alvo
a atacar ou, para empregar os termos de Schmitt, se se quer “levar os inimigos a sério”
(ibid, p.31).

Outro movimento alvo das críticas de Schmitt é o romantismo, que teria


invadido todos os campos, inclusive o político. Essa hegemonia romântica também
ocorreu através de uma estratégia de escamoteação de seus fundamentos:
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O problema é, na verdade, obter clareza, mesmo se for apenas uma clareza a


respeito dos motivos pelos quais um movimento parece ser tão obscuro e
porque tenta estabelecer um princípio de opacidade. É inerente ao
romantismo que ele talvez pretenda ser incompreensível e estar fora do
alcance das palavras humanas (Schmitt apud Lessa, 2003, p.32).

Na interpretação schmittiana, a política parlamentar e liberal teria sido


contaminada pelo ideário romântico no qual o conflito é estetizado, tornando-se uma
conversa interminável entre os atores que vêem, nesse processo, uma oportunidade para
obterem prazer e se aperfeiçoarem. Martins chama ainda a atenção para uma outra
estratégia dos liberais para manter sua hegemonia. Além de incorporarem doutrinas
antagônicas, os liberais tentam abater os adversários acusando-os de autoritarismo.

A advocacia liberal opera a partir do princípio, jamais demonstrado, de que


todos aqueles que combatem o liberalismo o fazem porque são, de um modo
ou de outro, adeptos do autoritarismo. Quem é antiliberal ou meramente não-
liberal é automaticamente reduzido à mísera condição de autocrata convicto
ou de inocente útil a serviço de causas autocráticas (Martins, 2003, p.627).

Após esta digressão, podemos constatar que há uma tendência para a


apropriação ou contaminação entre os conceitos. O romantismo se inseriu, segundo
Schmitt, em todas as esferas, entre elas a liberal. Por sua vez, o liberalismo, como
mostrou Martins, também incorporou doutrinas opostas.

O sincretismo do liberalismo com outras doutrinas rende uma longa lista:


constitucionalismo, nacionalismo, republicanismo, humanismo e romantismo. Vimos na
seção anterior que essa última combinação, entre liberalismo e romantismo, estava por
trás da política de integração cívica da União Européia. Contudo, o componente
romântico não pôde ser plenamente realizado porque libertou a mulher da comunidade,
mas não da família.
A mistura presente na integração cívica, entre liberalismo e romantismo,
conta ainda com um outro elemento: o autoritarismo. Joppke já havia salientado esse
caráter repressivo do liberalismo das políticas de imigração.
A política de integração cívica da União Européia mostra que o liberalismo
não apenas absorveu as virtudes das doutrinas contrárias a ele, mas adotou o espírito
autocrático que condenava naqueles que ousavam se dizer antiliberais. Em suma, a
atual política de imigração da UE mostra o acerto da avaliação de Martins de que o
liberalismo é uma “boca de jacaré” que tudo devora.
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Esse diagnóstico nos ajuda a entender tanto a dinâmica interna da política


para a mulher da UE quanto as relações entre esta política e a imigratória. No primeiro
caso, podemos dizer que as políticas de ação positiva da União Européia acabaram se
submetendo às diretrizes do feminismo liberal. O liberalismo aborveu as políticas
contrárias, entre elas as ações positivas implementadas nos anos 80 na Comunidade
Européia.
Quanto à relação entre política feminina e imigratória, vemos que a
perspectiva de gênero se deparou com o liberalismo romântico e repressor da política de
integração cívica. Como ocorreu com a ação positiva, esse liberalismo da política de
imigração neutralizou qualquer possibilidade revolucionária da perspectiva de gênero.

5. Conclusão

A partir do exposto, podemos afirmar que, até agora, a abordagem gender


mainstreaming (também chamada de transversalidade ou perspectiva de gênero) não
teve grande penetração nas políticas para imigrantes da União Européia. Definimos
anteriormente este conceito como uma proposta de retirar a questão feminina de um
departamento específico e inseri-la em todos os setores da União Européia, fazendo com
que as diversas áreas levem em conta o fator mulher na elaboração de suas políticas.
A introdução da transversalidade e do modelo de integração cívica
ocorreram quase concomitantemente na União Européia. A primeira foi incorporada em
1996 e o segundo, em 1998. Em seu estudo, Pollack e Hafner-Burton constataram que a
Política de Competição, a mais neoliberal da União Européia, foi também a mais
resistente à abordagem da perspectiva de gênero. Em nossa análise, pudemos comprovar
que pelo menos um certo tipo de liberalismo é capaz de esvaziar qualquer política de
perspectiva de gênero.
O novo conceito de gênero não foi suficiente para mudar o padrão de uma
política de inclusão do imigrante que dava pouca atenção à questão feminina. Entre o
multiculturalismo e a integração cívica houve mais continuidade do que ruptura do
ponto de vista da emancipação feminina.
Em nossa opinião, esta continuidade se deve ao conteúdo repressivo
presente nos dois tipos de liberalismo que serviram de base a esses modelos. Joppke
chamou a atenção para o liberalismo repressivo da integração cívica, mas devemos
lembrar que este componente autoritário também pode ser detectado no
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multiculturalismo fechado, o qual obriga o imigrante a se restringir à cultura de seu país


de origem.
Pollack e Hafner-Burton referem-se a duas estratégias para implementar a
transversalidade: a integracionista e a do poder de agenda. Na primeira, introduz-se a
perspectiva de gênero em processos de política pública já em andamento, sem contestar
as linhas mestras de tal política. A perspectiva de gênero atua como um elemento
reformista, tentando se adaptar ao status quo como estratégia para ser aceita. A
modificação se daria lentamente na elaboração de políticas.
Ao contrário, na estratégia do poder de agenda, tenta-se modificar a
estrutura das políticas responsáveis pela desigualdade entre homens e mulheres. Em
outras palavras, trata-se de realizar uma revolução e não uma mera reforma. Esta
estratégia de implantação do novo conceito atenderia perfeitamente à reivindicação das
feministas radicais, para as quais o objetivo do movimento feminista deve ser a
transformação de instituições criadas num contexto histórico de dominação masculina:

Se um grupo é mantido fora de algo por um período suficientemente longo, é


avassaladoramente provável que as atividades deste tipo se desenvolvam de
maneira inadequada para o grupo excluído. (...) as mulheres foram mantidas
fora de muitos tipos de trabalho e isso significa que é bem provável que o
trabalho seja inadequado para elas (Radicliffe Richards, apud Kymlicka,
2007, p.309).

Concluímos que os defensores dos direitos das mulheres e da nova


abordagem gender mainstreaming na União Européia encontram-se, hoje, diante de um
dilema no que diz respeito às políticas de imigração. Implantar o gender mainstreaming
através do integracionismo, ou seja, através de uma adaptação à política imigratória já
em curso, pode significar a manutenção do caráter repressor do liberalismo da
integração cívica, que reforça o modelo patriarcal de família em nome de uma
“emancipação” da mulher em relação à comunidade. Por outro lado, instituir o gender
mainstreaming por meio do controle da agenda pode resultar ineficaz dada a enorme
oposição que tal estratégia provocaria nas instituições comunitárias. Mas talvez essa
estratégia mais radical ainda tivesse alguma chance de sucesso se se preocupasse, em
primeiro lugar, em definir com clareza o que é o liberalismo presente na União Européia
e, particularmente, na política imigratória. Até agora, só pudemos constatar que se trata
de um liberalismo combinado com intervencionismo, repressão e nacionalismo.
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NOTAS

1 O processo de ratificação da Constituição Européia foi interrompido após o não da


França e da Holanda em 2005.
2 Um órgão como a Unidade para Oportunidades Iguais é necessário para promover tanto
as ações positivas quanto a transversalidade. No entanto, ao contrário da ação positiva, que
exige constantemente um órgão deste tipo para promovê-la, a transversalidade, se bem-
sucedida, acarretará na obsolescência deste tipo de instituição. Uma vez que cada departamento
inclua a questão feminina em suas políticas, não haverá necessidade de um órgão para promover
tais práticas.
3 Joppke usa o termo liberalismo repressor para se referir à integração cívica, mas
acreditamos que ele também deva ser aplicado ao multiculturalismo holandês dos anos 80, que
obrigava um imigrante a permanecer dentro de seu grupo étnico.

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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 93-104, Dez. 2008 / Jun. 2009.

A POESIA QUE LÊ A CIDADE: VERSOS QUE


INTERPRETAM GOIÂNIA EM TRAVESSIA

Angelita Lopes∗
Eguimar Felício Chaveiro**

Resumo: Abstract:

O trabalho que ora se apresenta tem esse The present work has as objective: to
objetivo: demonstrar a leitura espacial de demonstrate the space reading of Goiânia
Goiânia feita pela poesia de diferentes made by the poetry of different author-
autores-poetas. Tentaremos verificar o grau poets. We will try to verify the degree of
de aprofundamento dessa leitura viajando na deepening of this reading travelling in the
paisagem da cidade, especialmente landscape of the city, especially centering
centrando a viagem no modo como o poeta the trip in the way as the poet sees the life
vê a vida no espaço – e lê o espaço pela in the space - and reads the space through
emoção. the emotion.

Palavras-chaves: Key-words:

Espaço; Cidade; Representação; Poesia Space; City; Representation; Poetry

Introdução

Os estudos e as pesquisas sobre Goiânia se diversificam de acordo com os


campos de saberes, com as perspectiva científicas e, especialmente, a partir dos
interesses políticos que motivam as ações de pesquisa. Na interface entre cultura e poder
há trabalhos que investigam a memória dos migrantes nordestinos que ajudaram a
construir a cidade (Menezes, 2004; Teles, 1986, 1998). o papel dos símbolos de Goiás e
de Goiânia (Chaveiro, 2005); a formação das instituições populares, como é o caso do
time Vila Nova (Balzacchi Junior, 2002); a política e a cultura goiana (Campos, 1998,
2002); imagens e mudanças culturais (Oliveira, 1999); personalidades importantes,
como os trabalhos “Dona Gercina – a mãe dos pobres” (Oriente, 1981) e Pedro
Ludovico: Um tempo. Um carisma. Uma história (Machado, 1990); ideologia (Palacín,
1986).
Além desses trabalhos, crescem os de cunho acadêmico que são realizados
no cruzamento entre história e cultura, geografia e literatura como é o caso dos

∗ Especialista em Educação Ambiental, iesa-ufg. Membro do nupeat (núcleo de pesquisa e estudos em


educação ambiental e transdisciplinaridade).
**Doutor em geografia humana, USP. Professor do IESA-UFG. Membro do nupeat.
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trabalhos feitos por Fontanezi (2004); Chaveiro (2001) e vários que analisam Goiânia
pelo viés literatura explorando obras de Brasigóis Felício, Carmo Bernardes, Horieste
Gomes, Jose Mendonça Teles etc.
Esses trabalhos certamente fazem uso de alguns pressupostos fundamentais
oriundos de novos paradigmas de conhecimento como o de que a cultura é um
manancial de símbolos, signos e artefatos que se entremeiam na construção, na vivência
e na experiência dos espaços. Por ser assim, toda ação social é guiada por uma prática
cultural que lhe serve de guia, mediante a qual os sujeitos produzem sentidos políticos e
desenvolvem significados às suas ações.
Esses pressupostos, no caso do presente trabalho, possuem um sentido
prático: Goiânia é representada pela poesia. Essa representação, forjada pelos critérios
estéticos próprios da empresa poética e do labor metafórico, ajuda a conhecer a alma da
cidade – e a decifrar os sentidos de usos das instituições e dos diferentes tipos de poder
que transformam o espaço em bem privado, de rentabilidade ou de produção e
reprodução da vida.
O trabalho que ora se apresenta tem esse objetivo: demonstrar a leitura
espacial de Goiânia feita pela poesia de diferentes autores-poetas. Tentaremos verificar
o grau de aprofundamento dessa leitura viajando na paisagem da cidade, especialmente
centrando a viagem no modo como o poeta vê a vida no espaço – e lê o espaço pela
emoção.

1. O mundo contemporâneo e a cultura tecnificada

As grandes transformações pelas quais vem passando o mundo, a corrida


frenética pela industrialização, desde o séc. XVIII e a tecnologia controladora das
instâncias sociais, delimitam campos de ações diante da produção do espaço e da vida;
contribuem, também, para o esfacelamento das relações sociais, para a produção do
anonimato na multidão e especialmente para a destruição da memória coletiva, de
maneira que a vida urbana se torna conflitada, atemorizada, distendida – e ofendida.
Isso tudo faz resultar segundo Pelbart (2005) na perda do sentido da vida, na
capacidade de gerar projetos políticos para a coletividade e a redução na crença da
potencialidade de sujeitos. Não se luta mais por amores, por vidas, por pensamentos. Ao
contrário: luta-se pelo corpo escultural, contra a obesidade, a favor da imagem e da
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representação. A ação cultural entra como ingrediente político de


assimilação, não de dissidência.
A vida humana neste cenário perde sua cor e viço, se torna opaca. As
pessoas se tornam mecanizadas, sem sentimentos em relação à dor de seu próximo,
perdem a ética e o respeito à vida. A cidade grande, especialmente a metrópole, é o
palco, por excelência, dessas contradições. E nela que “o jeito do mundo” se revela com
mais intensidade. E a cultura de adesão enfronha-se com mais vigor na produção dos
gostos e dos sentidos humanos.
Este contexto instiga a fragmentação das relações sociais e o desligamento
comunitário. A valorização agora se dará em torno da satisfação pessoal, onde os
sujeitos vão aos poucos, assumindo uma nova imagem, e um novo papel social. A
cultura perfomática, mercadológica, mediatizada pelo dinheiro, torna, aí, uma fonte de
produção da imagem. E é com essas imagens que o sujeito estabelece a sua plataforma
de desejo, o modo de amar, inclusive, as maneiras de falar, de comunicar – e de
estabelecer sentido para a vida. Ter uma imagem de mundo compatível com a
mercantilização do capitalismo reinante é o ponto de sustentação pela qual a cultura
perfomática age.
A família, antes habituada a repartir e transmitir experiências através das
longas conversas, as longas rodas de prosa que se constituíam nas comunidades, nas
praças, nos almoços domingueiros, nas festinhas nas redondezas familiares, na
transmissão de mitos e rituais que expressam poeticamente a vida, desaparecem aos
poucos, tornando costumes e hábitos ultrapassados. É a renuncia ao saber tradicional
preservado e construído pela humanidade de maneira comunitária ao longo de sua
história de desenvolvimento. E a adesão cultural pelo entretenimento espetacularizante.
Nesta longa caminhada a dignidade humana se desintegra, a natureza, a
cultura e a tecnologia são utilizadas como mecanismos de dominação e alienação,
expandindo suas fronteiras às margens da “desertificação humana”. Santos (2005), Leff
(2004), Morin (2006), ao abordarem a fusão entre natureza, cultura e tecnologia,
concordam na possibilidade de sua utilização como instrumento contra-hegemônico
criando-se bases de consolidação desta fusão com a sociedade através da ligação de
saberes.
E a integração de saberes deve-se traduzir em organizações coletivas de
conhecimentos – e de ações. Vale a pena nos ater ao pensamento de Boaventura de
Sousa Santos a respeito.
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A biodiversidade, a diversidade de formas de vida – plantas, animais,


microrganismos -, é a base ecológica da vida. Também é o “capital natural”
de dois terços da humanidade que depende da biodiversidade enquanto meio
de produção – na agricultura, pesca, cuidados de saúde e na produção de
utensílios. Esta base de sobrevivência dos pobres é agora considerada como
“matéria prima” para negócios e indústrias globais, porque, por um lado, as
antigas tecnologias químicas já estão a falhar, tanto na agricultura como na
saúde, e, por outro lado, a acumulação continuada de capital está a conduzir o
lançamento de novas tecnologias como a biotecnologia, para o aumento do
controle sobre os mercados e recursos (Santos, 2005, p. 319).

Ao assumir a condição de dependência existente entre os seres vivos, o ser


humano passa à consciência de vida em comunidade, permitindo-se construir laços de
fraternidade, respeito, dignidade, percebendo a sistematização efetiva que há entre todos
os elementos constituintes do universo, onde o “eu”, faz parte do mar, do ar, da terra, do
fogo, do preto e do branco, do rico e do pobre.
A consciência de irmandade cósmica e de existência interligada passa a
desenvolver uma compreensão que o destruir o outro, é destruir a si mesmo. Nasce daí o
que pode se chamar de pensamento ecológico, ou a Ecologia do Ser, onde o ser humano
não é mais o centro do universo, mas apenas uma minúscula parte poética do seu todo.
Uma poética de influências recíprocas – e uma ética de responsabilidade total. A cultura
entra aqui como cerne do patrimônio ético e político, pois os diferentes símbolos, as
diversas manifestações e os diversos gostos, ao serem respeitados, participam
ativamente dessa poética integradora.

2 - O desencantamento cultural da poesia e a sociedade da pressa

Os termos cultura e subjetividade serão abordados com o objetivo de


esclarecer noções básicas de seus conceitos nas visões dos teóricos Edgar Morin e
Fernando Gonzáles Ray. Morin (1986) inicialmente esclarece que a palavra cultura traz
em si uma gama de conceitos que permitem uma série de leituras em suas definições e
sentidos, por seu uso múltiplo nas ciências humanas.
O autor segue explicando que a palavra cultura é na antropologia usada em
sentido duplo, representando tudo que é modificado pelo homem socialmente, ou
mesmo, tudo que adquire sentido dentro das atividades humanas selecionadas como
sendo superior; esclarece ainda, que há o sentido etnográfico que agrupa normas,
valores, crença e comportamentos que não se relacionam às tecnologias; por fim, o
sentido sociológico envolvendo o aspecto da personalidade, da sensibilidade, do psico-
afetivo, e por vezes este sentido é reduzido ainda mais quando é empregado como
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cultura ilustrada, expressando a união entre a cultura das humanidades clássicas e o


valorado na literatura e nas artes modernas, argumentando que o uso da palavra situado
apenas em um campo de definição e sentido, engessa a capacidade de abranger as
problemáticas humanas, sendo relevante uma concepção ampla, onde seja necessário,
“considerar a cultura como um sistema que faz comunicar – em forma dialética – uma
experiência existencial e um saber constituído” (Morin, 1986, p. 77).
A cultura, então, tende a se movimentar de acordo com a civilização que
dela faz uso acomodando-se conforme as necessidades ali definidas. Para construção de
uma visão articulada de mundo, é necessária a compreensão dos mecanismos estruturais
da sociedade, sobretudo aos conceitos que se dão através da cultura ilustrada e da
cultura de massas. A cultura ilustrada abrange o campo cognitivo e estético, se
caracteriza em valorizar a elite, que detém a renovação e o culto da exclusividade
através da apropriação da cultura, agindo como diferencial entre as classes sociais.
A cultura de massas possui afinidade com a cultura ilustrada, porém ela não
necessita de força física para se manter presente no seio da sociedade, “neste sentido,
pode ser concebida como um aspecto capital da extensão ou da democratização da
cultura urbana burguesa, e, de resto, desenvolve-se na e pela destruição das culturas
rústicas pebléias” (Morin, 1986, p. 101). A ação do sujeito que ora buscava se
relacionar pela afetividade, pelo olhar, pelo tocar foi permitindo que estas marcas se
evadissem, tornando-se marcas de constrangimento. Ser poeta, cantar a vida, o amor,
sofrer por uma paixão ou por uma desilusão tornou-se piegas. Nestes termos Gonzáles
Ray, argumenta:
A ação do indivíduo dentro de um contexto social não deixa uma marca
imediata nesse contexto, mas é correspondida por inúmeras reações dos
outros integrantes desse espaço social, criando-se no interior desses espaços
zonas de tensão, que podem atuar como momentos de crescimento social e
individual ou como momentos de repressão e constrangimento do
desenvolvimento de ambos os espaços (Gonzáles Ray, 2005, p. 203).

Entrelaçando a concepção de Morin e de Gonzáles Ray, buscando seus


pontos de convergências, podemos concluir que a cultura em seu sentido expandido
assume parcela importante na formação e configuração da subjetividade individual e
coletiva, que se perceberá como sua personalidade expressa nas atitudes e em seus
comportamentos, que manifestarão o caráter diferenciado dos acontecimentos e espaços
sociais em que estejam os sujeitos sociais, permitindo melhor compreensão dos fatos da
vida que nos cerca. E das ações de poder dos diferentes grupos sociais num determinado
espaço.
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3. A construção de um sonho: Goiânia poetizada

O poeta goiano Gabriel Nascente, no poema “GOIÂNIA, A CIDADE E


SUAS COSTAS PARA O MAR”, lê o espaço assim:

No começo a cidade não tinha rosto


Era áspera, impune, silenciosa
E dormia como um navio
Debaixo do chão (...)

Era um carro de boi


Sol e canga: fumaça no chapado,
Ronco operário
De músculos e réguas
Abrindo ruas, valas, alicerces e vilas
Da cidade menina
Nascendo com seus lábios de poeira (...)

Uma cidade nasce sem rosto, no silêncio dos sonhos que adormecem...
brotam, geram a vida e a morte, a alegria e a tristeza. E de guardados em guardados,
trançam-se as teias dos destinos que ali viverão. Das muitas ruas, dos muitos carros, das
muitas flores, se constroem pontes que se tornarão um infindável presente e passado se
interpondo.
No coração do Brasil adormecida em sua inocência e pureza infantil de pele
intocada, na pureza virginal de suas matas, nasce..., cresce... Aos olhos de muitos,
menina feia, sem viço, que mesmo em sua tenra idade já se fazia em rugas, deformada
em seus membros tortuosos – Goiânia, cidade poesia para muitos, cidade dos sonhos
para outros tantos... É o ranger dos carros de bois que vem a nos acordar para uma nova
vida, para a junção com a Campininha, com a Aparecida de Goiânia, com a Trindade da
fé em um amanhã reluzente de salvação.
Goiânia nasceu do sonho de muitos, da fantasia de desbravadores humildes
da enxada e da foice e, dos não tão humildes, que ambicionando o multiplicar de suas
luzes douradas e, ambos valentes em seus devaneios, foram lapidando a Menina-flor,
mesclando as cores no coração do Brasil.

Do alto da serrinha
um som esbravejou:
“Goiânia, aqui será Goiânia!”
Indômita caçula desta América
que arde no topo das bandeiras.
(Gabriel Nascente em “Goiânia, a cidade de costas para o mar”.)
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Goiânia vai cultivando sua presença no cenário nacional com o charme de


uma bela donzela, que de acordo com o poeta Gabriel Nascente, vai construindo sua
imagem como a “Cidade dos Ipês, Capital do Cerrado, Cidade Ecologicamente
Correta, Cidade das Praças e das Flores, Capital de Eventos, Capital da Música
Urbaneja, a Capital da Pamonha...”
E de prosa em verso, a vida vai se construindo num emaranhado de outras
vidas, a cidade vai expandindo, silenciosa em sua urbanização, vai engolindo
vorazmente suas matas, suas nascentes de rios e córregos, suas flores, seus encantos... A
linda cidade dos belos Ipês e dos Flamboyants, motivo de tanta inspiração para os
poetas e trovadores, mescla de cinza com o preto, perde gradualmente suas cores
vividas e brilhantes.
É a contemporaneidade invadindo os espaços urbanos da sociedade,
transfigurando cores intensas em cores fúnebres, onde se perde o projeto de vida
comunitária, aniquilando-se conhecimentos que levaram centenas de anos para serem
construídos através de experiências de nossos ancestrais. Em concordância com o
acinzentamento do ser humano, embrenhado à perda da poesia, Leff (2004), afirma que
a economia capitalista trás a decadência para a sociedade, pois:
Vivemos um mundo onde a perda de sentidos existenciais, a desesperança
generalizada pela marginalização, pelo desemprego e pela pobreza, e o fastio da
abundância geram uma reação cega que tende a desvalorizar a própria vida. Hoje não há
mortes românticas, sobrecarregadas de gozos patéticos onde se cantava a natureza e
onde a natureza era o reflexo da alma. Hoje se morre de inanição de sentidos (Leff,
2004, p. 122).
É neste cenário de degradação do meio ambiente que o poeta atordoado
demonstrará sua indignação diante da perca da qualidade de vida nos centros urbanos,
com a separação entre poesia e vida, passando a mostrar uma leitura saudosa da cultura
tradicional preocupada com a manutenção da existência dos seres vivos.
Chão que pisamos,
Do ar que respiramos,
Das coberturas que dividimos,
Do que percorremos com o olhar, juntos,
Dos espaços de vida que ocupamos.
Lembranças e relembranças de nós...
Arquitetos e poetas da vida.
(Ângela Barbosa em “Os Guardados da Cidade”.)
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Exaltar os sentimentos para mostrar o mundo Planeta Terra, o mundo Brasil,


o mundo Goiânia ou, o mundo mais íntimo ainda, o mundo do “eu”, da subjetividade
construída dia-após-dia, que se revela nova a cada dia, das experiências de nossos pais,
de nossos “queridos avós”, e dos sons de carros, de suas buzinas, do calor do asfalto que
nos molha o rosto. É assim que vemos a cidade de Goiânia, com os olhos do coração do
poeta, que ri e chora e se alegra por ela.
O poema mostra o espaço da cidade a partir da memória e da vivência. A
cidade vai crescendo, ultrapassando limites, tece o emaranhado social que combina
experiências, transformando-as em conhecimentos, saberes. São os guardados da
memória de um aglomerado de pessoas que os modelam em cultura goianiense. Lida
pela memória, a poesia se torna fonte historiográfica, pois a cidade que fora é parte da
cidade que é. Portanto, os seus problemas são construções históricas mas com ecos nas
experiências de cada um que usaram o espaço como prática cultural.
Os chãos que pisamos, que muitos pisaram e ainda muitos irão pisar, do
chão que nossos avós pisaram com alegria, ou com tristeza, do ar que outrora respirado
puro... Jaz aqui em poeira negra, dos lugares que passamos e que muito deixamos em
sentimentos, sentimentos que outros deixaram e que nunca iremos saber quais e quem
os deixou, mas que estão ali, presentes na memória daquele lugar.
Ângela Barbosa, vê a construção da cidade com um olhar profundo,
penetrando no ser, vê em suas estruturas o que não é visto habitualmente, o que é
guardado na memória individual ou coletiva refletida em atitudes diante da vida.
Saudosa, a poeta vê que o desenvolvimento econômico da cidade atrofia suas
possibilidades; a sociedade evolui para a desintegração de seus valores éticos e morais;
para o individualismo que esquece as zonas de habituais trocas de experiências dentro
da família, indigna-se diante do perecimento da juventude, que já não sabe organizar
seu tempo despolitizando seu espaço de cidadania.
Ana Caetano em “A Goiânia dos meus olhos”, compartilha da mesma idéia,
ponderando que o crescimento da cidade pensado em seu aspecto econômico, em nada
contribuiu com a qualidade de vida das pessoas:

E pra não dizer que só falei de verde, mostro sinal vermelho para o transporte
público... Quando adolescente, eu adorava atravessar a cidade num ônibus
pra chegar até o campus, era como se o ônibus me levasse para o futuro: era
bem longe, eu ia de pé, mas havia espaço para o meu calo sem que o
pisassem e eu não esperava tanto nos pontos; hoje, tem-se a impressão de que
a população cresceu e a quantidade de coletivos diminuiu e, no espreme-
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espreme dos terminais, diminuiu, também, a dignidade do povo (Ana


Caetano em “A Goiânia dos meus olhos”.).

Ao se referir ao vermelho para o transporte coletivo, a poeta enfatiza o


descaso do poder público em relação à dignidade da população, que se vê privada até
mesmo das condições básicas em manter a sobrevivência dos seus, com o mínimo de
respeito enquanto ser humano, e ainda em relação aos transportes, analisa com lucidez a
educação no trânsito, que deveria trazer conforto e tranqüilidade, no entanto, o que a
poeta percebe é:

Como mudam as coisas, hoje, não ando mais de ônibus, atravesso as nossas
ruas largas e até limpas e me assusto com as buzinas mal educadas, com os
apressados, com as filas duplas nas portas das escolas, entretanto, agradeço
por serem, relativamente, raros os engarrafamentos (Ana Caetano em “A
Goiânia dos Meus Olhos”.).

A indiferença humana em relação às pessoas, também é percebida por


Chaveiro. O poeta explora os diversos ambientes da cidade, captando a miséria e a
fartura andando lado-a-lado, companheiras do mesmo espaço que não compartilham da
mesma sorte.
Não há cores vermelhas, laranjas, amarelas
no estômago das mães das vítimas do Césio 137
Nem há movimentos transparentes nos vitrais
das grades do Cepaigo.

Contestando a alienação freqüente do sujeito, o poeta colérico se põe a


perguntar sobre o desempenho dos políticos e sua função, se cumprem suas promessas
de campanha, ou mesmo, se a penúria do povo sofrido atinge sua consciência ética e
moral.

E já ouvi dizer que os paralelepípedos do palácio tremem


assim como o salão de espera do Hugo, a sala do IML tremem...
Já ouvi dizer que um poeta Nascente,
um poeta Aires estão Coroados - e assustados –
porque o odor do Meia Ponte
ressoa no sovaco do Anhanguera
mas, sim senhor, há muitas flores em Goiânia
Sim senhor, Goiânia é uma cidade bela
para quem tem coragem de lutar.
(Eguimar Chaveiro em “O Sovaco da Estátua do Anhanguera”.)

Centrado nas contradições sociais expressas no espaço, o poema tende a


contrabalancear o poder ideológico da imagem, como se avisasse que não possuímos
mais espaços para nos reconstruirmos, possuímos espaços para nos consumirmos.
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Chaveiro segue expondo que não há como viver em nosso mundo sem contradição,
pois, elas estão embebidas em nosso ser contraditório.

Por isso, é que uma cidade contemporânea se faz num cruzamento dinâmico
de processos econômicos, de apropriação da natureza, e de sua
transformação, de processos, políticos, culturais, sociais, ideológicos,
imaginários, fabulários, míticos. E é atravessada de sentidos, vozes,
significados, ações (Eguimar Chaveiro em “Por Uma Leitura de Goiânia,
2006”.).

Nas várias leituras dos poetas, podemos perceber o duelo entre o passado e
presente, a queixa contra a modernidade destrutiva do ser, que se perde diante da magia
do consumismo que o brutaliza e o conduz a pobreza das relações sociais, que vão se
desertificando, perdendo seus referenciais de vida construídos por seus antepassados.
O sujeito reportado nos poemas é alienado pela sociedade que lhe repassa a
figura de um mundo pelo qual não vale a pena lutar, pelo qual não vale a pena
preservar, nem em suas memórias, nem em suas riquezas naturais. A vida em sociedade
é apresentada em suas contradições, pois o sujeito é em si a representação da
divergência por não sermos fadados a uma só história, e ao entrar na vida social:

[...], a pessoa vai se transformando em sujeito; no entanto, sua integração


neste espaço é diferenciada até pela própria socialização de suas diferenças
individuais, que passam a constituir-se como elementos de sentido na
organização dos sistemas de relação social que acompanham o
desenvolvimento humano. As formas de subjetivação das diferenças
individuais têm a ver com os modelos dominantes de subjetividade social,
assim como a constituição de seus protagonistas (Gonzáles Ray, 2005, p.
205).

E partindo desta premissa, os poetas apresentam a luta pela vida como


forma de burlar os ditames do sistema capitalista. A poesia vira arma cultura de poder
dos enfraquecidos, dos deserdados, dos que não se nutrem da riqueza que eles mesmos
produzem. A luta pela vida, por outro lado, constituí-se então em preservar a construção
histórica dos seres humanos, assimilando o que for benigno nos novos saberes, levando
o sujeito a se perceber como parte de um gigantesco sistema interdependente.
Edgar Morin sabiamente relata a luta entre o homo sapiens e o homo
demens, do diálogo que devemos travar com nossos vários “eus”, em que devemos
saber mediar a quantidade de loucura e racionalidade existente em nós, para que
possamos construir um mundo através do amor, que se traduzirá em poesia, poesia da
sabedoria.
Abrir a possibilidade de ler as diversas mazelas que nos são colocadas, de
diferentes formas, aprendendo a se mobilizar nas estruturas petrificantes da sociedade, é
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tarefa imprescindível diante de nossa realidade: a de preservar as culturas e riquezas


construídas por nossos antepassados, entre elas a de perceber a vida como
possibilidade. E a poesia como fonte de beleza e de consciência.

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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 105-124, Dez. 2008 / Jun. 2009.

AS FORMAS DO SILÊNCIO NA
LITERATURA BRASILEIRA E PORTUGUESA
VIDAS SECAS E GAIBÉUS

Kellen Millene Camargos Resende∗


Marilúcia Mendes Ramos**

Resumo: Abstract:

Neste estudo, nós observaremos como o In this study, we will observe how silence
silêncio significa compromisso com os means commitment with the social
problemas sociais, que não podiam ser problems, which could not be pointed out
abordados explicitamente. Para desenvolver explicitly. To develop this research, we will
este estudo, nós analisaremos os romances: analyze the following novels: Vidas Secas,
Vidas secas, do brasileiro Graciliano by the Brazilian author Graciliano Ramos
Ramos, e Gaibéus, do português Alves and Gaibéus, by the Portuguese author
Redol. As analises nas duas obras Alves Redol. The analysis on these books
consistirão em investigar as causas que will consist of investigating the causes that
provocaram o silêncio e a passividade das provoked the silence and the characters
personagens ante os fatores de repressão. passivity facing the factors of repression.
Os dois romances serão estudados segundo The two works will be studied according to
as suas características específicas, ou seja, their specific features, which mean their
os seus aspectos literários e as formas de literary aspects and the ways of silence that
silêncio que nelas ocorrem. Serão, também, occur. These books will be confronted, but
confrontados entre si, sendo que Vidas Vidas Secas will be the basis novel for the
secas será o romance que embasará a parallel among them. In the two stories,
comparação entre eles. Nas duas obras, as characters are repressed and exploited by
personagens são reprimidas e exploradas physical, social, political, economical and
por elementos físicos, sociais, políticos, ideological. Because of this, the study of
econômicos e ideológicos. Por esse motivo, these elements will be needed to
o estudo desses fatores, que atendem aos comprehend which exploitation level the
interesses da classe dominante, será characters are submitted.
necessário para se compreender o nível de
exploração a que as personagens são
submetidas.

Palavras-chave: Key-words:

Silêncio; Neo-Realismo; Repressão; Vidas Silence; Neo-Realism; repression; Vidas


secas; Gaibéus. secas; Gaibéus.

Introdução
Este trabalho pretende estudar, na literatura, os motivos que desencadeiam o
silenciamento de personagens que sofreram alguma forma de repressão. Ao abordarmos
o estudo do silêncio em obras literárias, buscaremos compreender o sentido que ele
possui em romances neo-realistas, escritos durante regimes ditatoriais. A nossa intenção
será a de verificar como a arte, em seu contexto diegético1, fornece meios para se

∗ Mestra em literatura pela UFG. Professora de orientação de estágio em língua portuguesa e literatura na
Universidade Estadual de Goiás – Unidade Universitária De Inhumas.
**Doutora em literatura pela USP. Professora de literatura na Universidade Federal de Goiás.
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 104
silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº
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compreender as formas e os sentidos que o silêncio adquire no aspecto textual e


extratextual.
Os romances que compõem o corpus deste estudo são Vidas secas, do
brasileiro Graciliano Ramos e Gaibéus, do português Alves Redol, publicados,
respectivamente, em 1938 e 1939. Essas duas obras retratam o novo olhar da literatura,
voltado ao oprimido. Foram selecionadas por expressarem o silenciamento e o
comportamento passivo de personagens marginalizados por uma classe exploradora.
Nesse contexto, em que os indivíduos dominados são submetidos a um determinado
poder, tal submissão ocorre impulsionada por formas sutis ou explícitas de repressão.
Vidas secas foi o romance que primeiro nos despertou o interesse para
observarmos o fenômeno do silenciamento. Assim, o objetivo do estudo foi o de tentar
compreender por que a personagem Fabiano silenciava e se submetia ao poder
dominador mesmo quando tentava reagir interiormente.
O enfoque de nossas análises não se prenderá à observação dessas obras por
pertencerem ao Neo-Realismo, pois para tanto o trabalho teria de voltar-se, mais
detidamente, ao estudo desse estilo literário, principalmente porque as obras estudadas
foram criticadas por não se adequarem às características desse movimento que procurou
expor os problemas sociais e a luta de classes. Embora venhamos a destacar certas
preocupações desse movimento, que auxiliarão nossas reflexões, o que nos levou ao
estudo das duas obras foi a percepção de que nelas o silêncio configura-se como signo
lingüístico, e como tal, envolvido por questões ideológicas.
Um aspecto relevante ao se estudar o silenciamento, em obras literárias que
expõem a introspecção das personagens, é que se tem acesso a uma forma de linguagem
que nenhum poder repressor pode apagar: o discurso interior, ou fluxo de consciência.
E, mesmo que a personagem fale, não aquilo que realmente queria, mas o que não a
comprometa, ou, mesmo que se cale, o leitor sabe, em situações em que há o discurso
interior, o que realmente ela quis dizer.

O silêncio: signo, ideologia e censura

A repressão fascista de Getúlio e Salazar silenciou as sociedades brasileira e


portuguesa, no entanto, a literatura buscou alternativas para mostrar através da arte a
realidade de então. O silêncio imposto pelo ditatorialismo fascista tornou um
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silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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subterfúgio em prol da arte, pois, sendo este recurso um signo, ele se apresenta no nível
do discurso como uma contra-ideologia.
Analisar o silêncio é observar como esse fenômeno lingüístico e literário
significa na compreensão de acontecimentos históricos que influenciaram ou afetaram a
sociedade e a arte.
Assim, rever a obra pelo recurso do silêncio é lançar um novo olhar,
podendo ser ele mais sensível ou mais consciente, como explica Sontag (1987: 20): “As
noções de silêncio, vazio e redução delineiam novas receitas para os atos de olhar, ouvir
etc. – as quais ou promovem uma experiência de arte mais imediata e sensível, ou
enfrentam a obra de arte de uma maneira mais consciente e conceitual”.
Ao definir a teoria do silêncio, Orlandi (1992: 23-24) distingue duas formas,
o silêncio fundador e a política do silêncio. O fundador seria aquele silêncio que existe
nas palavras, cuja significação encontra-se naquilo que não é dito, mas que produz
condições para significar.
Assim, transferindo essa definição para a compreensão das obras, a
significação do silêncio está naquilo que é mostrado no desenrolar do enredo, em cada
uma das formas de silenciamento: na repressão sofrida pelas personagens, seja pelos
Aparelhos Repressivos de Estado, seja pela exploração de capitalistas; no isolamento;
nas angústias; nas catástrofes naturais; nas explorações sexuais; ou pelas formas sutis de
repressão dos Aparelhos Ideológicos de Estado.
O silêncio se faz ler nos espaços da linguagem, em sua construção artística,
no desenrolar de cada cena em que é mostrada a vivência sofrida de cada personagem,
como expõe Teles (1979:12), ao dizer que
Preferimos ver o silêncio não em torno da linguagem, mas dentro dela, no
espaço ocupado pela figura e por todos os elementos que transformam a linguagem
comum numa linguagem literária, que fazem da linguagem sonora da comunicação
coloquial a linguagem silenciosa da comunicação escrita e intencionalmente artística.
Além do mais, em vez de ausência de fala, o silêncio se deixa ler como o espaço de
outras “falas”, de outras linguagens, como a pausa na música, como a página branca ou
o espaço em branco de um livro de vanguarda, como a mímica no teatro, criando
tensões e expectações, contribuindo para que o expectador aprofunde os estados de
alma, motivando verossimilhanças, fazendo avançar as ações, enfatizando-as, pois
muitas vezes as cenas “falam” mais que as palavras. (Teles, 1979: 12).
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silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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Nas obras analisadas, as cenas falam mais que as palavras, pois as


personagens, muitas vezes, não podem usar um discurso que se opõe à exploração. É
nesse sentido que ocorre a política do silêncio, ou o silenciamento propriamente dito,
que se subdivide em silêncio constitutivo e local. O primeiro refere-se àquele que, para
dizer, é preciso que nada seja dito, ou que se use um outro discurso, que não
comprometa o falante. Nesse silenciar, revela-se que há algo significativo por trás, e não
se diz por que há alguma coisa que impede. Em Vidas secas, quando o narrador expõe o
que Fabiano pensa, quando é silenciado, fica evidente que ele se cala porque sabe que se
falar será prejudicado. Ou, ainda, quando usa outro discurso, diferente do que pensou, é
para não ser demitido da fazenda em que trabalha.
O silêncio local é referente à censura, que proíbe o dizer em uma
determinada conjuntura. Nesse aspecto, pode-se reconhecê-lo no silenciamento que
ocorre no âmbito dos autores, pois escreveram suas obras em um momento em que a
repressão de governos ditatoriais, tanto no Brasil quanto em Portugal, perseguia toda
forma de expressão que abordasse aspectos sociais e políticos de seus países.
Observa-se que “[a]s palavras são múltiplas mas os silêncios também o são”
(Orlandi, 1992: 29), e no caso do silêncio local, o silêncio não é voluntário, pois o
indivíduo é silenciado, e, para compreendê-lo, deve-se observar o contexto histórico em
que o indivíduo é inserido: “O silêncio não é pois imediatamente visível e interpretável.
É a historicidade inscrita no tecido textual que pode ‘devolvê-lo’, torná-lo apreensível,
compreensível. Desse modo, o trabalho com o silêncio implica a consideração dessas
suas características.” (Orlandi, 1992:60).
Ao observar o silêncio, nas camadas sociais representadas em Vidas secas e
Gaibéus, pode-se compreender que, mesmo nas camadas consideradas sem classe, o
poder da ideologia dominante exerce sua autoridade.
O silêncio, principalmente em Vidas secas, passa despercebido, parecendo
um problema lingüístico das personagens, que, miseráveis, não conseguem se expressar.
No entanto, observando o silêncio nas formas e contextos em que ele ocorre, o problema
lingüístico passa a ser mais uma justificativa da personagem e do narrador, no caso, para
que o silêncio não transpareça como uma ameaça. Caso o escritor deixasse transparecer
o real significado do silêncio, por certo, a circulação de sua obra seria proibida.
107 GUERRA, Flávia e RESENDE, Érica Simone Almeida. A “perspectiva de gênero” na política
imigratória da união européia: expectativas e dificuldades. Estácio de Sá – Ciências da
Ciências Sociais Aplicadas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01,
Nº 01, Dez. 2008 / Jun. 2009.

O silêncio, nesse romance de Graciliano, faz-se de tal forma que não se


percebe, na diegese, sua relação sócio-político-econômica com a realidade factual. Tal
consideração pode ser comprovada pela leitura de Medeiros (1996: 128) que indica não
haver no romance Vidas secas nenhum compromisso social: “Abstraindo-se de qualquer
sentimento impressionista que o romance possa suscitar, a obra [Vidas secas] está,
igualmente, isenta de compromissos de natureza social, política e filosófica”. Observa-
se com esta citação que o silêncio apaga a denúncia explícita, é como se a obra estivesse
descompromissada com os descasos sociais.
O silêncio, por si só, é político, por isso, no aspecto semântico do romance,
não transparece um cunho político e social. O silêncio foi um signo favorável, uma
espécie de subterfúgio, em que, sem poder dizer, dizia. É um signo que diz, embora não
possa ser inteiramente substituído por palavras. Em relação aos signos ideológicos,
Bakhtin (1992: 38) explica que Nenhum dos signos ideológicos específicos,
fundamentais, é inteiramente substituível por palavras. É impossível, em última análise,
exprimir em palavras, de modo adequado, uma composição musical ou uma
representação pictórica. Um ritual religioso não pode ser inteiramente substituído por
palavras. Nem sequer existe um substituto verbal realmente adequado para o mais
simples gesto humano. Negar isso conduz ao racionalismo e ao simplismo mais
grosseiros. Todavia, embora nenhum desses signos ideológicos seja substituível por
palavras, cada um deles, ao mesmo tempo, se apóia nas palavras e é acompanhado por
elas, exatamente como no caso do canto e de seu acompanhamento musical. (Bakhtin,
1992: 38).
Justificar o silêncio da personagem somente por ela não saber se comunicar
socialmente atende a pelo menos dois fatores: o primeiro, ocorre ao mostrar que a classe
dominada assimila e reproduz os discursos do dominador, e, o segundo, pode ser
compreendido como uma forma de o escritor poder escrever sem que sua obra fosse
vetada pela censura.
Para justificar o silêncio das personagens, a obra recorre ao recurso do
discurso escolar. Esse aparelho, por ser responsabilizado de formar cidadãos
conscientes, faz as personagens acreditarem que são excluídas por não possuírem
escolaridade, assim, reproduzem a idéia de que os filhos terão um futuro diferente se
freqüentarem escolas: “os meninos freqüentariam escolas, seriam diferentes deles”
(Ramos, 2002:126).
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O escritor, ao se valer de recursos que lhe permitiriam desviar-se do crivo


da censura, não deixa de expressar aquilo que queria dizer. Assim, a arte constitui uma
via de fato para que o homem, mesmo não podendo, expresse o seu mundo:
Pouco importa que seu discurso [do escritor literário] seja sincero ou
mentiroso ele estará sempre manifestando alguma formação discursiva existente na
sociedade. Mesmo quando cria outros mundos, como, por exemplo, na ficção científica,
ele revela os valores, as carências e as angústias presentes numa dada formação social.
(Fiorin, 1988:17).
Dessa forma, estudar as obras que foram silenciadas é procurar o sentido
que esse silêncio veicula, como indica Orlandi (1992: 11): “há um modo de estar em
silêncio que corresponde a um modo de estar no sentido e, de certa maneira, as próprias
palavras transpiram silêncio”.
As palavras transpiram silêncio, elas significam mesmo não dizendo
explicitamente, e é nesse não dizer que seus sentidos expressam que, naquele silêncio,
há algo significativo, pois é preciso ler o silêncio.
É nesse sentido de ler o silêncio, ou o silenciamento, que há que se
considerar o que o causa. Assim, estudá-lo é buscar sua significação e sua causa na
história e na ideologia (Orlandi, 1992: 12).
Nas obras analisadas, o silêncio é provocado por vários fatores históricos,
entre eles, a exploração econômica, a miséria, os problemas ambientais e tantos outros
por esses desencadeados. Ao observar essas causas, quando do estudo detido sobre cada
obra, buscar-se-á perceber o que esses fatores provocam nas personagens, como esses
sujeitos lidam com ele.
Assim, nos momentos em que Fabiano, de Vidas secas, justifica seu silêncio
por não saber falar, e não fala, mas pensa, notamos o trabalho do escritor no jogo de
silenciar e justificar o silêncio com algo que, aparentemente, não despertaria a atenção
da censura. As palavras, nesse sentido, não dizem, mas significam que o problema do
silêncio de Fabiano significa muito mais do que o não saber expressar-se, porque no
trabalho de elaboração do texto, o escritor registra seus pensamentos, sua introspecção,
desenvolvida com muita coerência.
Em Gaibéus, quando as personagens estão fatigadas pelo cansaço, pela sede,
não podem falar para pedir água, apenas lançam olhares que imploram por ela. Esse
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silenciamento não significa respeito pelo patrão e empenho no trabalho, e sim,


denunciam o modo dramático como essas personagens são submetidas ao serviço.
O silêncio das personagens configura-se nas duas obras como um recurso
ideológico que representa a situação do povo naqueles momentos históricos. O povo
estava sem voz, ora pela censura, ora pelo descaso, ora pela repressão. As obras
retratam este aspecto silenciando as personagens, expondo-as caladas ante o dominador,
ante as intempéries da natureza, ante o sistema econômico e social.
Em ambas as obras, o silêncio das personagens é provocado. Elas não
silenciam, são silenciadas. Há, nesse aspecto, uma intencionalidade significativa. Ao
mesmo tempo em que há o silenciamento das personagens, há também o do narrador e o
do autor. Assim, ele pode significar a censura à qual os artistas e todo cidadão desses
períodos de dominação eram submetidos.
O silêncio ocorre quando se deixa de fazer uma denúncia explícita para
somente mostrar, no desenrolar do enredo, a situação vivida pelas personagens, como
também quando o narrador usa metáforas para não ter que usar um discurso
comprometedor. É o silêncio que Orlandi (1992: 24) denomina de constitutivo.
Em algumas situações da vida de Fabiano, os fatos são criados em sua
mente, num envolvimento tão singular à sua vida, fazendo com que a referência à
realidade factual fique velada, como ocorreu no episódio em que Fabiano encontrou o
soldado amarelo na caatinga, o mesmo que o havia prendido e humilhado há um ano:
“Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas.” (Ramos,
2002: 101).
A denúncia contra a violência legalizada, efetuada pelo sistema policial,
fator que ocorria no país, não está implícita nesse episódio, porque esta se constrói
naquilo que está dito. Aqui, a denúncia está naquilo que está apagado, pois o que é
exposto refere-se intimamente ao caso da personagem, não há exposição dos juízos de
valor do narrador onisciente intruso2: “Lembrou-se da surra que levara e da noite
passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas
inofensivas.” (Ramos, 2002: 101). Percebe-se que a crítica da última frase está
intrinsecamente ligada à vida de Fabiano. No entanto, nesse mostrar o drama de
Fabiano, o sentido, ainda que em silêncio, pode remeter a outros contextos, como o da
realidade do país, naquela época de repressão.
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 110
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Nesse momento, no romance, quando Fabiano e o soldado amarelo se


encontraram na caatinga, Fabiano se vê numa situação favorável para se vingar e
começa, então, a pensar sobre tudo o que lhe acontecera um ano antes: “voltou-se e deu
de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara à cadeia, onde ele agüentara
uma surra e passara a noite” (Ramos, 2002: 99).
Fabiano poderia ter-se vingado, mas estava acostumado a se submeter à
autoridade: “De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma
autoridade.” (Ramos, 2002: 100). Nessa parte, discute-se o abuso de poder do soldado
amarelo, e, Fabiano, imagina-se no lugar do policial para refletir se ele seria tão mau
quanto aquele, caso usasse uma farda: “Ele, Fabiano, seria tão ruim se andasse fardado?
Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar pancadas neles? Não iria.” (Ramos, 2002: 105).
No período em que a obra Vidas secas foi publicada, muitos trabalhadores
foram presos por reclamarem, em greves, dos baixos salários e das más condições de
trabalho. Quando se menciona “trabalhadores”, no discurso de Fabiano, na citação
anterior, para indicar uma situação que a personagem viveu, percebe-se que a palavra no
plural não foi colocada impensadamente. Parece haver, aqui, o implícito e não o
silêncio. No entanto, como a construção é bastante sutil e envolvida à trama narrativa da
vida da personagem, o dito é apagado e o sentido constrói-se pelo silêncio.
Em relação à figura do soldado amarelo, o narrador vale-se de uma
construção metafórica, portanto uma forma silenciosa, para criticá-lo e criticar o sistema
que reprimia tantas pessoas que temiam se defender: “Havia muitos bichinhos assim
ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins.” (Ramos, 2002: 07).
Um dos recursos utilizados nas obras, que possibilita notar que as
personagens são silenciadas, é o discurso indireto livre. Ao usá-lo para expor os
pensamentos das personagens, um outro recurso é utilizado, o fluxo de consciência,
método que apresenta de forma exata, não analisada, o que se passa na mente de uma ou
mais personagens (Carvalho, 1981: 51). O crítico Humphrey (apud Carvalho, 1981: 51)
aponta quatro técnicas básicas na apresentação do fluxo de consciência: o monólogo
interior direto, o indireto, o solilóquio e a descrição onisciente. O que interessa, neste
trabalho, é o monólogo interior indireto, pois utiliza como principal recurso estilístico o
discurso indireto livre. A consciência da personagem é desvendada pela intervenção do
narrador, que, ao expor a consciência da personagem, adere ao que está descrevendo ou
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analisando. Há, neste momento, o encontro das duas vozes que se envolvem, não sendo
possível separar os discursos, como se percebe a seguir, em um trecho de Gaibéus:

Sentiam saudades da terra que lhes negava o pão. Saudades bem fundas,
catano! Vir de tão longe... E se lá havia pão para todos! Mal tinham acabado
os dias fadigosos das vindimas, ainda o vinho saía ao pipo, já as aldeias se
despovoavam para a Borda-d’Água. Era um êxodo de desgraça e susto. Que
iriam encontrar por ali?!... (Redol, 1976: 23).

A expressão “Vir de tão longe...” pode ser a voz do narrador bem como das
personagens, assim como “E se lá havia pão para todos!” e “Que iriam encontrar por
ali?!”, essas expressões além de representarem as dúvidas e apreensões das
personagens, podem representar, também, as indagações do narrador, que interage com
os seres narrados. O uso do discurso indireto livre, como explica Maingueneau (1996:
125-126), apóia-se na polifonia, em que se ouvem duas vozes mescladas, a do narrador
(discurso citante) e a da personagem (discurso citado, que pode ser apresentado nas
formas de discurso direto e indireto). O discurso indireto livre seria então um amálgama
entre os discursos citante e citado, as duas vozes. No entanto, são percebidas pelos
leitores devido à dissonância que ocorre entre elas, pois não se relacionam a uma única
instância enunciativa.
Maingueneau (1996: 117) afirma que para identificar o discurso indireto
livre é preciso observar se ele é incompatível com os elementos que propiciam o
discurso indireto e o direto, pois o primeiro exige a subordinação e exclui as
exclamativas, enquanto o segundo é enunciado com o apoio de um “eu” ou um “vós” e,
também, do presente dêitico, momento em que o enunciador fala.
Por sua vez, o discurso indireto livre não possui um modo específico de
introdução, há, todavia, alguns sinais como o uso de verbos não dicendi, orações
exclamativas, predicativos do sujeito, evocação direta dos pensamentos e dos
sentimentos das personagens (fluxo de consciência), sem, contudo, passar pelo discurso
indireto. Resta observar que, apesar de haver esses sinais, pode-se considerar que não há
marcas lingüísticas para esta forma de citação, ou seja, não há como indentificá-la fora
do contexto. Existe, ainda, uma delimitação do discurso indireto livre, não há total
segurança sobre o lugar exato em que surge e do momento em que desaparece
(MAINGUENEAU, 1996, p. 118-120), como se nota neste trecho de Gaibéus (Redol,
1976: 35):
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 112
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O ceifeiro pende mais a cabeça, finca na foica os dedos com desvigor de moribundo e vai
cortando caules que lhe roçam a fronte e lha limpam de suor.

Aquele roçagar de humidade empresta-lhe ímpetos – parece mão fresca de mulher a dar-lhe
afagos que não conhece.

Cerra os olhos e pensa. Pensa vingança que não esqueça. A mão descarnada vai tacteando o
arroz; o decepar das canas assemelha-se ao fender de um cutelo a cortar carne.

E vê a cabeça do capataz, ali à mão, a sorrir o seu descanso, a ralhar as suas injúrias.

Nunca os dedos entorpecidos de fadiga se fincaram mais num pé de arroz. Nem os tendões
se crisparam tanto no seu braço escorreito de vigor.

Segurava ali entre as mãos, as suas, a gorja carnuda daquele vendido – que entre eles,
ceifeiros, eram só alugados a tanto por cada dia.

Alugados por uma colheita e depois... ala, moço! Cada qual trata de si.
Mas agora nada havia que valesse àquele vendido. Ia dizer-lhe cara a cara, olhos com olhos,
todo o seu ódio. O ódio de sete gerações roubadas.

E quando na cara do outro alvorecesse o primeiro sinal de medo, quando pela garganta bem
apertada se escapasse o primeiro vagido de súplica, saberia também gritar-lhe o seu
desprezo.

“Ah, cão!... Se ainda fosses uma cachopa tenra!...” (Redol, 1976: 35).

O discurso indireto livre começa e termina de forma sutil. No trecho


exemplificado, é preciso estar atento para perceber a injunção de vozes.
Estruturalmente, a marca pronominal parece indicar apenas o discurso citante, porém, a
marca de não-pessoa3 (ele, no caso da citação o “lhe”), pode ser também usada no
discurso indireto livre: “Ia dizer-lhe cara a cara”. Nesse caso, é possível distinguir que
há a voz da personagem porque ela é a mais interessada em declarar com ênfase o que
lhe passa no íntimo, como: “Mas agora nada havia que valesse àquele vendido
[capataz]. Ia dizer-lhe cara a cara, olhos com olhos, todo o seu ódio”. Essa confusão de
vozes não ocorre, no final do fragmento, com a marca de pessoa, como se percebe, com
o uso do “tu”: “‘Ah, cão!... Se ainda fosses uma cachopa tenra!...’”, percebe-se em
“fosses” o traço marcante do discurso direto, o qual não se mistura ao discurso citante.
O discurso indireto livre funciona, também, como um filtro em que somente
o leitor tem acesso ao que pensa a personagem, esse fator é importante para a
compreensão da obra quando as personagens não podem falar, nesse momento, percebe-
se o vínculo entre narrador e personagem na forma como um e outro justificam, como é
mostrado em Vidas secas, a passividade da personagem:

Se ele soubesse falar como sinha Terta, procuraria serviço noutra fazenda,
haveria de arranjar-se. Não sabia. Nas horas de aperto dava para gaguejar,
embaraçava-se como um menino, coçava os cotovelos, aperreado. Por isso
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esfolavam-no. Safados. Tomar as coisas de um infeliz que não tinha onde cair
morto! Não viam que isso não estava certo? Que iam ganhar com semelhante
procedimento? Hem? Que iam ganhar? (Ramos, 2002: 97).

O uso da não pessoa (ele), como ocorre no fragmento acima: “Se ele
soubesse falar como sinha Terta”, e do imperfeito: “Nas horas de aperto dava para
gaguejar”, são formas do discurso indireto livre em que são descritos tanto o mundo
exterior, quanto os pensamentos das personagens, sobre esse aspecto Maingueneau
(1996: 122) esclarece que:

[o] recurso sistemático ao discurso indireto livre permite que se ponham no


imperfeito e em não-pessoa tanto as descrições do mundo exterior quanto
aquelas do pensamento das personagens. Elas são consideradas de algum
modo como tendo a mesma substância. Ora, lembremo-nos que o imperfeito
em uma narração encarrega-se da dimensão não-dinâmica. Tudo isso
contribui para induzir a essa “visão de mundo” tão particular, onde a
consciência se envisca nas coisas, e o tempo se dissolve na descrição ou na
repetição. (Maingueneau, 1996: 122).

Freixieiro (1977, p. 247) afirma, em relação ao capítulo “Fabiano”, de Vidas


secas, que o discurso indireto livre, ali, é “mais ou menos interior, de acordo com a
ausência ou presença de termos expressivos; dá-se isso, geralmente, com relação aos
estados mentais da personagem”. Esse fenômeno que Freixieiro denomina de “estado
mental” pode ser considerado como introspecção. Essa introspecção não ocorre somente
no capítulo “Fabiano”, de Vidas secas, mas, também, em outros capítulos como
“Cadeia” e “Contas”, em que a personagem é mais silenciada, como se percebe na
seguinte citação retirada do capítulo “Cadeia”:

Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender


uma acusação medonha e não se defendeu.
[...]
¾ Hum! Hum!
Por que tinham feito aquilo? Era o que não podia saber. Pessoa de bons
costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzuê sem motivo.
Achava-se tão perturbado que nem acreditava naquela desgraça. Tinham-lhe
caído todos em cima, de supetão, como uns condenados. Assim um homem
não podia resistir. (Ramos, 2002: 30).

O discurso indireto livre, em Vidas secas, ocorre em maior proporção nos


momentos em que Fabiano teme, por vários motivos, usar a linguagem. Nesse caso,
sofre as agressões sem, contudo, defender-se. Os únicos sons que emite são, segundo o
narrador, uns rosnados “Hum! Hum!”, mas, interiormente, ele questiona tal violência.
Não fala, talvez, por medo de um castigo maior, por mais que considere a ação do
soldado amarelo indevida, respeita a sua autoridade, como se percebe no capítulo “O
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 114
silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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01, 105-124, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Soldado Amarelo”: “De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave,
uma autoridade.” (Ramos, 2002: 100).
O fenômeno do silêncio pode ser observado nas obras, mediante o recurso
do discurso indireto livre, principalmente quando as personagens sofrem qualquer forma
de repressão.
O silêncio surge como um todo significativo. Em alguns momentos,
significa medo de falar, ou consciência de que não será ouvido, e, às vezes, indica
resistência, como se percebe em Gaibéus quando o ceifeiro rebelde, ao levar Ti Maria
do Rosário nos braços, quase morta pela febre e cansaço do trabalho, encontra no
caminho o patrão: “Ouve cá!... Quando se fala comigo, quero esse chapéu fora da
cabeça... O outro lhe mostrou a companheira [que estava em seus braços] e não deu
palavra.” (Redol, 1976: 90).
Não é a todo o momento que as personagens se calam. Depende de quem é
o interlocutor e a condição de interação para que as personagens deixem de expor suas
vontades para aceitar as do outro. Quando o silêncio significa resistência, ele incomoda
o outro, pois “um indivíduo que permanece silencioso torna-se opaco ao outro; o
silêncio de alguém inaugura uma série de possibilidades de interpretação desse
silêncio”. (Sontag, 1987: 24).
Em Gaibéus, as personagens podiam cantar enquanto trabalhavam na
colheita do arroz, pois isso não atrapalhava o serviço, dava-lhes ânimo, porém, eram
proibidas de executar aquilo que pudesse atrasar o trabalho. Não tinham o direito de
parar um pouco para pedir água: “De soslaio, os olhos vão clamando, em silêncio, aos
capatazes. Mas os capatazes espreitaram as horas nos relógios e entenderam que ainda
não chegou a hora de lhes dar de beber” (Redol, 1976: 34). Quando bebiam água,
paravam a ceifa, por isso o horário de bebê-la era determinado pelo capataz.
As personagens, por sua vez, sabem a hora de calar, como ocorre com
Fabiano, que para não perder o emprego teve de aceitar as contas feitas pelo patrão sem
reclamar (Ramos, 2002: 93).
Coutinho (1986: 406), ao se referir ao silêncio, em Vidas secas, considera
que “Fabiano é a imagem da terra que pisa; é um ser ilhado pela incapacidade de
verbalização dos próprios pensamentos”. É preciso considerar cada detalhe da
argumentação de Coutinho.
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 115
silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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É significativa a comparação ou a equiparação de Fabiano com a terra:


“Fabiano é a imagem da terra que pisa”. A terra é pisada por todos quantos passam por
ela. É, então, um suporte, uma estrutura que sustenta os seres, ainda que estes não
tenham consciência, uma vez que ninguém, ou poucos talvez, pensem nessa função da
terra e de sua importância.
Assim é Fabiano, sua importância é ignorada, porém, na fazenda, é o
suporte que a mantém bem cuidada e ainda garante os lucros ao patrão, que não se dá
conta dessa importância, uma vez que a fazenda, antes de Fabiano chegar, estava
abandonada, inutilizada.
A terra serve, ainda, como receptora e, posteriormente, doadora, ofertando,
muitas vezes, centenas de vezes mais do que se lhe deu, este é o conceito do plantio e da
colheita. O patrão não queria Fabiano como vaqueiro em sua fazenda, mas devido a
tanta insistência, acabou admitindo-o. Fabiano recebeu os apetrechos de vaqueiro e
alguns animais para cuidar, os quais foram se multiplicando e o lucro indo todo para o
bolso do patrão. A imagem da terra serve como estrutura, mas nada é revertido para ela,
pelo contrário, a cada plantio enfraquece-se mais. Fabiano, cada vez que ia fazer os
acertos de contas, sentia-se mais explorado, os juros aumentavam vez após vez:

Olhou as cédulas arrumadas na palma, os níqueis e as pratas, suspirou,


mordeu os beiços. Nem lhe restava o direito de protestar. Baixava a crista. Se
não baixasse, desocuparia a terra, largar-se-ia com a mulher, os filhos
pequenos e os cacarecos. Para onde? Hem? Tinha para onde levar a mulher e
os meninos? Tinha nada! (Ramos, 2002: 95).

Pelo fato de não ter para onde ir, é que Fabiano se calou, não por que não
sabia verbalizar os próprios pensamentos. Percebe-se no discurso indireto livre que ele
“baixava a crista”, não “protestava”, devido à sua falta de opção.
Fabiano justificou, nesse episódio, que aceitara as contas do patrão porque
não tinha recurso, discurso persuasivo, para se defender: “Muito bom uma criatura [...]
ter recurso para se defender. Ele não tinha. Se tivesse não viveria naquele estado”
(Ramos, 2002: 97-98).
As ideologias que cooperam para o silenciamento das personagens vão se
configurando como necessidade para encobrir as verdadeiras razões da exploração.
Essas ideologias são difundidas pela classe exploradora e os indivíduos assimilam,
progressivamente, como se fossem deles, como deixa claro Bakhtin (1992: 45):
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 116
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O tema ideológico possui sempre um índice de valor social. Por certo, todos
estes índices sociais de valor dos temas ideológicos chegam igualmente à
consciência individual que, como sabemos, é toda ideologia. Aí eles se
tornam, de certa forma, índices individuais de valor, na medida em que a
consciência individual os absorve como sendo seus, mas sua fonte não se
encontra na consciência individual. O índice de valor é por natureza
interindividual. (grifo do autor).

Pode-se considerar que o silêncio do autor constitui-se, também, como um


fator ideológico, imposto pela classe dominante, porém, reutilizado pelo artista como
contra-ideologia, pois significa que algo o impedia de falar. No entanto, o escritor busca
mecanismos significativos para atuar, exercendo, ele e a literatura, seu papel social.
Dessa forma, o silêncio é eloqüente porque comunica, é uma forma de discurso em que
o artista deve criá-lo dialeticamente, podendo assumir vários sentidos, como esclarece
Sontag (1987: 18), ao dizer que:

O artista que cria o silêncio ou o vazio deve produzir algo dialético: um


vácuo pleno, um vazio enriquecedor, um silêncio ressoante ou eloqüente. O
silêncio continua a ser, de modo inelutável, uma forma de discurso (em
muitos exemplos, de protesto ou acusação) e um elemento em um diálogo.
(Sontag, 1987: 18).

Os escritores souberam mostrar, ou conscientizar que, devido à ignorância


em determinadas conjunturas econômicas, o trabalhador nem percebe que é explorado.
Quando percebe, como ocorreu com Fabiano, ao mencionar as diferenças entre as
contas da mulher e as do patrão, é ludibriado, e a culpa recai em um fator que parece
estar acima da interferência humana. No caso de Fabiano, a culpa recaiu sobre os juros,
cujas contas complexas deixavam o trabalhador ainda mais na ignorância, não de que
era passado para trás, sobre isso ele tinha consciência, mas ignorância na compreensão
dos cálculos dos juros. Porém, por medo de perder o emprego, acaba aceitando a
exploração.
Da mesma forma ocorreu com os gaibéus quando tiveram que parar a
colheita por causa da chuva. O patrão, para aproveitar a mão de obra, oferece aos
ceifeiros um trabalho na debulha do milho, como as personagens estavam chateadas
porque não receberiam o salário do dia, a notícia foi recebida com aplausos, sendo que
elas tinham o direito a receber o salário completo, pois não foi por culpa delas que o
trabalho fora interrompido, porém, aceitaram essa ideologia como uma questão de
justiça.
Pelo que se pôde observar, no estudo dos dois romances, não é coincidência
haver o silenciamento nas situações difíceis ou de repressão, nem é por acaso que tal
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 117
silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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fator ocorre nas duas obras. O silêncio, por sua vez, não é apenas um fator social. Ele
também desencadeia recursos estilísticos, pois quando ocorre entre as personagens,
intensifica-se o discurso interior, cuja forma perfaz-se no discurso indireto livre.
Quando não há razão para o silêncio, este é substituído pelo discurso direto, como
ocorre no capítulo “Inverno”, de Vidas secas. Esse capítulo relata a temporada de chuva,
fenômeno tão esperado pelas personagens. Nesse momento de contentamento, a
narrativa mostra as personagens conversando uma com as outras, acontecimento raro
em toda a narrativa, pois aparecem sempre caladas, conversam pouco entre si. O uso do
discurso direto, diálogo entre a família de Fabiano, nesse capítulo “Inverno”, contrasta
com o restante da obra, em que as personagens aparecem sempre caladas, ora devido à
repressão provocada pela seca, ora pela exploração do patrão ou do soldado amarelo.
Dentre as obras estudadas, a que termina com um traço menos negativo, em
termos de possibilidade de superação da alienação e miséria, ainda que
involuntariamente, é Vidas secas. Involuntária porque é a seca quem obriga as
personagens a tomarem uma decisão. A decisão tomada foi a de se retirarem e se
dirigirem para o litoral, ou em direção ao litoral, ainda que não cheguem lá. É esse
aspecto que diferencia Vidas Secas de Gaibéus, pois não houve, sequer, no outro
romance, possibilidade de resolução dos conflitos expostos no início da obra.
Em relação a Gaibéus, Reis (1983: 509) considera que “do restrito tempo da
ceifa não decorre, aparentemente, nenhuma transformação positiva, uma vez que os
próprios projectos dos emigrantes em potência não foram capazes de colher a obscura
mensagem enunciada pelo ceifeiro rebelde”.
Apenas em Vidas secas ocorre a “possibilidade”, do que se poderia
considerar, conforme um dos desígnios do materialismo histórico, a superação dialéctica
dos conflitos, utilizando aqui uma definição usada por Reis (1983: 509).
Fabiano, durante a caminhada, no último capítulo do livro, denominado
“Fuga”, menciona um lugar onde poderá arrumar emprego e os meninos poderão
estudar. A família parece ter a intenção de dirigir-se para a zona urbana. Nesse sentido,
pensa em se afastar do isolamento e procura integração no meio social. Essa é uma
“possibilidade” de que venha adquirir consciência de classe entre outros trabalhadores
urbanos. Não se pode esquecer que é uma possibilidade, pois o romance terminou com
o mesmo contexto inicial, com as personagens fugindo da seca. A obra não dá respostas,
ela sugere um fato.
RESENDE, Kellen Millene Camargos e RAMOS, Marilúcia Mendes. As formas do 118
silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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Em Gaibéus, inexiste essa possibilidade, apesar de os ceifeiros trabalharem


em grupo, se comportam como pessoas individualizadas, uma vez que não se unem para
reivindicar por melhores condições de trabalho e salário. Quando termina a colheita, vão
embora mais desalentados do que quando chegaram: “Ficou-lhes a saúde. É isso que
lhes falta para andarem leves, como os outros que vão lá à frente, junto à carreta, em
procissão. Tudo foi dizimado pelas foices – tudo engolido pelas debulhadoras.” (Redol,
197: 65).
O ceifeiro rebelde, o personagem mais consciente da exploração que os
trabalhadores sofriam, poderia esclarecer-lhes muitas coisas que não enxergavam, caso
fossem um grupo unido. Porém, ele não fala, porque sabe da individualidade do grupo:
“Se o ceifeiro rebelde lhes dissesse da sua aversão, aversão depois lamento e logo
confiança, saberiam compreendê-lo.” (Redol,1976: 111).
Nas duas obras, há a temática da emigração. As personagens são retirantes,
a diferença é que, em Gaibéus, retiram-se de suas terras temporariamente. As
personagens deixam suas terras apenas para garantir o pão durante o inverno, após,
retornam para seus lares: “o futuro deles não difere do passado” (Redol, 1976:166).
Em Vidas secas, a obra inicia e termina com as personagens vivendo como
retirantes. Quando a seca se anuncia, Fabiano e sua família deixam a terra onde estão,
na esperança de outra que lhes dê alimento e também uma vida mais digna.
As obras estudadas, apesar de abordarem aspectos sociais, não o fazem aos
moldes de alguns romances da época, em que mesmo sob repressão fizeram denúncias
contra o governo fascista. Os romances de Graciliano Ramos e Alves Redol não
mostram a luta de classe, mas sim, a repressão sofrida passivamente pelos que estão na
base social.
Quando Graciliano publicou Vidas secas, Pereira (1992: 121-122) lamentou
o fato de Graciliano tê-lo escrito tardiamente, pois os romances nordestinos já não
empolgavam o leitor, como em seu início:

Vidas secas, o último romance de Graciliano Ramos, só tem um fator contra


si: ter aparecido um pouco tarde. Se tivesse sido escrito há alguns anos, se
fosse do tempo do Quinze e da Bagaceira, teria levantado uma celeuma. Mas
veio quando já o público está meio cansado de histórias do nordeste [...]. Isso
não lhe altera naturalmente o valor intrínseco, mas lhe diminuirá a
repercussão. (Pereira, 1992: 121-122).

No entanto, Vidas secas prova, hoje, que Graciliano Ramos não escreveu
mais uma história do Nordeste. É uma obra universal. E seus aspectos intrínsecos e
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silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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extrínsecos diferem dos romances nordestinos. Segundo Pereira, Vidas secas é uma obra
que não envelhece.
Os escritores dessas obras, devido à censura, tiveram que se calar, sujeitar-
se à imposição de não poder resistir, ainda que pela arte literária. Ao invés de Graciliano
e Redol criarem, na literatura, uma ideologia de resistência explícita, mostrando a luta
de classes e, por fim, a consciência do proletário, mostraram o que a ausência de
consciência de classe estava provocando: a passividade imposta.
Pode-se considerar, no entanto, que mesmo os escritores tendo criado
personagens passivas, demonstra-se uma forma de resistência, que não chamou a
atenção da censura. Talvez esses escritores não tenham atentado para isso, mas por
certo, opuseram à censura e, conseqüentemente, à repressão.
Nas duas obras, quando se intensificam os problemas, repressões, angústias
e calamidades naturais, as personagens ficam mais silenciadas. Em Gaibéus, assim que
as personagens chegaram à Lezíria, para a colheita, cantavam enquanto trabalhavam,
aos poucos, com o cansaço, vão se calando. Quando acaba a colheita e vêem que pouco
lucraram, o silêncio é quase completo: “Tirou o saco para fora e foi passando as moedas
nos dedos – decorara-as de tanto as contar. Setenta e oito e oitocentos. Bem pouco para
uma ceifa – o resto ficara para o Agostinho Serra.” (Redol, 1976:164).
Na volta dos ceifeiros para casa, tamanho era o cansaço e a decepção pelo
muito que trabalharam e pelo pouco que rendeu a ceifa, que ninguém falava (Redol,
1976: 166).
Uma das diferenças entre Gaibéus e Vidas secas ocorre em relação à
opressão advinda das calamidades ambientais. Enquanto em Vidas secas o problema é a
seca, a escassez de chuva, em Gaibéus é a chuva que traz angústia aos trabalhadores.
Assim, a temática da água está presente nas duas obras como um dos motivos
desencadeadores do silenciamento.
A chuva adquire representação de personagem, pois desencadeia o
desenrolar dos conflitos, e serve como mecanismo ideológico da classe dominante para
controlar a exploração das personagens. Nos dois romances, tanto a abundância como a
falta da chuva provocam o desemprego. Em Vidas secas, apesar dos perigos que ela
poderia causar, é esperada como uma dádiva dos céus, pois representava a possibilidade
da permanência na terra, mesmo que fosse por pouco tempo. Em Gaibéus, as chuvas
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silêncio na Literatura brasileira e portuguesa: Vidas secas e Gaibéus. Estácio de Sá –
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representam o medo de perder a jorna, o salário do dia, e é temida quando os


trabalhadores estão na colheita:

Lá em cima, no céu, o Sol fazia ventas. E os homens olhavam-no a querer


adivinhar-lhe os propósitos.
¾ Eh, Manel!, que tal? ...
¾ Isto dá borrifada, pelo menos. Não estou a gostar nada de as ver assim a
enrolarem-se. Nuvens prò norte, chuvas prà porta.
E os rostos ficaram num charco de angústia. (Redol, 1976: 53).

Percebeu-se que nas obras destacam-se os três tipos de silêncio, o fundador,


existente em todo discurso, como aquilo que sem ser dito significa; a política do
silêncio, com seus dois desdobramentos, o silêncio constitutivo, em que a personagem
usa um discurso diferente do que realmente queria usar para não ser prejudicada. E o
outro, o silêncio local, representado pela censura, em que o autor é obrigado a silenciar.
No entanto, Graciliano e Redol, aproveitaram esse recurso e fizeram com que revelasse
as várias formas de repressão, por isso não se pode “ler” o silenciamento por apenas um
fator, como o lingüístico, mas sim, por vários fatores como a exploração da força de
trabalho, os problemas climáticos, entre outros, os quais foram aproveitados pelo
sistema repressor para deles se beneficiar.
As personagens retratadas nas duas obras são seres à margem da margem,
são os excluídos da própria classe excluída. Os gaibéus são considerados inferiores a
outros trabalhadores de sua mesma categoria, os rabezanos, por não terem serviço na
própria terra.
Fabiano, de Vidas secas, vê-se, também, à margem em relação às pessoas
da vila, que se encontram na sua mesma condição, pobres e sofredores pelo castigo da
seca. Até mesmo o fator climático colabora para aumentar a exclusão, uma vez que a
seca constitui-se um promulgador, ou um fator que beneficia os dominadores. Em Vidas
secas a seca auxilia a classe dominadora na submissão da camada pobre.
Nos dois romances há um retorno, no final das narrativas, à situação inicial
da obra. Em se tratando de romances neo-realistas, que buscaram as temáticas na
realidade da época, é um aspecto que chama a atenção, podendo indicar o que estava
ocorrendo no plano factual. Com a prolongada duração da ditadura, a história vivia um
momento em que a repressão não era superada. Falava-se em progresso e modernidade,
mas a sociedade vivia sob uma rígida repressão e muitos ainda passavam fome.
O desfecho dos romances remete ao cíclico. Em Vidas secas, o final da
narrativa faz pressupor que será iniciada uma nova e necessária retirada, fugindo as
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personagens da seca implacável. Em Gaibéus, o pagamento não foi suficiente para


mantê-los no temido inverno que estava chegando, levando o leitor a deduzir que o
ciclo, que se inicia novamente, será ainda mais duro que aquele que acabaramm de
vencer.
Os desfechos, igualmente, remetem à idéia de espiral, conforme define
Barthes (198), “[a] espiral regulamenta a dialética do antigo e do novo; graças a ela, não
somos obrigados a pensar: tudo está dito, ou: nada foi dito, nada é primeiro, no entanto,
tudo é novo”. Apesar da história dessas personagens não mudar, se repetir sempre, algo
de novo, não necessariamente melhor, uma nova aprendizagem, pode ser acrescentada.
Silenciosamente.

NOTAS

1 Entende-se por diegese, segundo a explicação de D’Onofrio (1999, p. 63), a história, a


fábula, o conjunto dos acontecimentos presentes no texto literário.
2 Ao se referir à tipologia do narrador, nos romances Vidas secas e Gaibéus, será levada
em consideração a teoria narratológica de Norman Friedman (1967). Nas duas obras o narrador
é onisciente, ou seja, conhece o que se passa no íntimo das personagens. Há, contudo,
alternâncias no foco narrativo, variando entre narrador onisciente intruso, em que há interrupção
da narrativa para manifestação das opiniões do narrador, e a onisciência neutra, em que o
narrador conhece o que se passa na mente das personagens, mas procura ser imparcial.
3 Em Análise do Discurso, são denominadas de pessoas o “eu” (pessoa que fala), e o “tu”
(pessoa com quem se fala), e como não-pessoa há o “ele” (aquele sobre quem o eu e o tu
falam).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Frateschi Vieira. 6. ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
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Janeiro: Nova Fronteira, 1990. Título original: L’obvie et l’obtus – essais critiques III.
CARVALHO, Alfredo Leme C. de. Foco narrativo e fluxo da consciência: questões de teoria
literária. São Paulo: Pioneira, 1981. (Manuais de estudo).
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. v. 5,
parte II.
D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto 1: prolegômenos e teoria da narrativa. 2. ed. São
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DO Ó, Jorge. Elementos para uma história social do salazarismo (1933-1958). In: MARQUES,
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Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. (Fortuna Crítica, 2).
FRIEDMAN, Norman. Point of view in fiction. In: STEVIC, Philip (Org.). The theory of the
novel. New York: The Free press, 1967.
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Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº
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MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de lingüística para o texto literário. Tradução de


Maria Augusta Bastos de Matos. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Leitura e Crítica). Título
original: Ëléments de linguistique pour lê texte littéraire.
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TELES, Gilberto M. A retórica do silêncio: teoria e prática do texto literário. São Paulo:
Cultrix, 1979.
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
VOL. 01, Nº 01, 126-138, Dez. 2008 / Jun. 2009.

NO CONTEXTO DA REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA:


O TRABALHO E A FORMAÇÃO PROFISSIONAL
DO DOCENTE FRENTE À EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Yara Fonseca Oliveira Silva∗

Resumo: Abstract:

Este artigo discute as políticas de formação This article argues about the politics of
docente e os desafios enfrentados nesta teacher formation and the challenges faced
profissão/trabalho. Busca perceber as in this profession/work. It tries to perceive
contradições dos conceitos de the contradictions of the concepts of
exclusão//inclusão dentro de um contexto exclusion/inclusion inside of a context of
de reestruturação produtiva, e a atual productive reorganization, globalization
globalização e políticas neoliberais. and neoliberal politics. It was concluded
Conclui-se que se faz necessário that is necessary to understand the logic of
compreender a lógica do sistema the capitalist system, it’s interests and
capitalista, seus interesses e tendências, tendencies to from this search for a
para a partir disto a procura de uma “identity” that has value and social
identidade que tenha valor e significação signification instead of allow the capital to
social ao invés de permitir que o capital se appropriate or this “know-how”. If the
aproprie desse “saber-fazer”. Se a educação education is for everybody, is necessary to
é para todos é preciso reverter o percurso revert the path of the exclusion, beginning
da exclusão, iniciando com a formação do with the formation of the teacher, giving
professor, dando-lhes condições de serem them conditions of being teachers and
ensinantes e aprendizes diante da apprentices ahead the diversity of the
diversidade do aluno. student.

Palavras-chave: Key-words:

Formação docente, exclusão, inclusão, Teacher formation, exclusion, inclusion,


reestruturação produtiva productive reorganization

Este estudo surge da necessidade de discutir as atuais políticas de formação


docente. O fio condutor será a busca de uma reflexão sobre os desafios enfrentados
pelos docentes frente à proposta, de declarações e diretrizes políticas de educação
inclusiva, no processo de reestruturação produtiva, dos sistemas social econômico e
educativo. Portanto, busca-se compreender como poderia ser construída a identidade1
dos professores nesse contexto.
Muitas são as dúvidas e as questões que nos incomodam: quem é o
trabalhador/professor em tempos de políticas neoliberais? Qual a qualidade da formação
inicial e continuada oferecida a este profissional? Será que o trabalho do professor é tido
como atividade regular e sem interrupções, carente de satisfações intrínsecas, ou é tido

∗ Mestre em Educação pela Universidade Federal De Goiás e professora da Universidade Estadual De


Goiás-Unidade Universitária de Inhumas.
SILVA, Yara Fonseca Oliveira. No contexto da reestruturação produtiva: o trabalho e a 125
formação profissional do docente frente à educação inclusiva. Estácio de Sá – Ciências
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 126-
138, Dez. 2008 / Jun. 2009.

como atividade exercida com o máximo tempo para se obter o maior ganho
possível? Será que, por estarmos vivendo em uma cultura que busca satisfações somente
no campo do consumo, a educação também estará envolvida neste processo consumista?
Esta formação possibilita ao docente lidar adequadamente com questões conseqüentes
da reestruturação produtiva, como, por exemplo, a exclusão ou inclusão?
A sociedade da última década do século XX foi alvo de grandes
transformações. Designada por alguns estudiosos como sociedade do conhecimento, por
outros como a sociedade em rede, para Rifkin (2001) esta sociedade presenciou a
economia no ciberespaço, o capitalismo cultural, em que os relacionamentos e as
experiências se transformam em commodities2 e o novo produto é o conhecimento, ao
qual só alguns têm acesso, através da rede. Parte da humanidade embarca rumo à “era
do acesso”. Acessar, segundo Rifkin (2001:12):

Diz respeito a distinções e divisões, sobre quem deverá ser incluído e quem
será excluído. Acessar está se tornando uma ferramenta conceitual potente
para se repensar nossa visão de mundo, bem como nossa visão econômica,
tornando-se a metáfora mais poderosa da próxima era.

Diante do contexto atual, deve-se buscar perceber as características e as


exigências do trabalho e da formação do professor e o lugar dessa educação na vida das
pessoas de direitos e/ou necessidades especiais3. Para isto, faz-se necessário
historicizar este processo, buscando compreender o caminho que a humanidade
trabalhadora perfaz nas mudanças sócio-estruturais.
Conceituar “inclusão” é necessário antes falar de “exclusão”. Ao se analisar
o processo histórico, nota-se que a exclusão se faz presente ao longo de todo ele. Rever
os diversos modos de produção mostra a existência da dicotomia entre incluídos e
excluídos, de uma forma ou outra, a começar pela escravidão; é só observar o domínio
do senhor sobre o escravo, sendo dono de sua própria vida, fazendo com que o escravo
se visse excluído da expressão maior da existência humana, que é a liberdade. No
decorrer do tempo histórico, nota-se a suavização da exploração das classes, sendo a
escravidão gradualmente substituída pela servidão durante a Idade Média na Europa
Ocidental. Esta suavização manifesta-se na perda do poder dos senhores sobre a vida
dos seus servos, mas a opressão continuava a ocorrer e os servos continuam excluídos
de diversos direitos, pois tinham de se submeter às regras dos senhores e garantir a
produção de excedentes para os senhores feudais.
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 126
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
VOL. 01, Nº 01, 139-150, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Com o surgimento e o desenvolvimento da burguesia, floresce um novo


modo de produção, o capitalismo. Neste contexto os servos libertos têm apenas sua
força de trabalho para vender no mercado; e a burguesia compra essa força, pois ela é a
única que produz mais valor do que ela contém. O valor a mais produzido pelo
trabalhador é trabalho não pago, apropriado pelo capitalista. A exploração continua e
cresce na mesma proporção a exclusão.
A exclusão começa a ficar patente no discurso de competência do
liberalismo4, no qual o Estado deveria deixar de ter uma ação intervencionista, para que
o mercado se auto-regulasse e, assim, os mais capazes sobreviveriam e se tornariam
vencedores.
Mas, com as crises de super produção do início do século XX, houve um
certo desencanto com o liberalismo e começaram a surgir os Estados intervencionistas,
fossem eles totalitários ou democráticos, com a proposta de determinar os parâmetros da
economia, direcionando-a e controlando-a.
É importante destacar a “Teoria do Bem-Estar Social”, de Keynes5, a qual
serviu de base à política econômica entre as Guerras Mundiais, no período de 1945 a
1973. De acordo com Moggridge (1976), Keynes encarou os problemas de seu tempo e
envolveu-se nos problemas de finanças da guerra, organizando um serviço de auxílio à
reconstrução da Europa pós-guerra. Keynes analisou a economia como um ramo da
lógica, a qual deveria ser vista como uma arte que pensasse nos valores morais e éticos.
Propunha ainda uma administração consciente, na qual o planejamento era necessário;
portanto, era contrário à economia com base nas práticas do laisser faire e da livre
competição, conforme demonstra em poucas palavras.

Trata-se de saber se estamos preparados para deixar o estado do laisse faire


do séc. XIX a fim de ingressar numa era de socialismo liberal; por socialismo
liberal entendo um sistema em que podemos agir como uma comunidade
organizada para propósitos comuns e promover a justiça social e econômica,
ao mesmo tempo que respeitamos e protegemos o indivíduo – sua liberdade
de escolha, sua fé, sua mente e a expressão dela, seu empreendimento e sua
propriedade (Keynes, 1976: 06).

Keynes buscou entender os processos que causaram a depressão a partir da


crise de 1929, em sua análise, recomendava ao governo o aumento de seus gastos.
Desenvolveu um método para atingir o pleno emprego estabelecendo uma política
econômica na qual o Estado é responsável pela promoção do “bem-estar social”.
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 127
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
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Vale ressaltar uma das diferenças entre a proposta de Keynes e a de Marx


para se chegar ao pleno emprego; Keynes aceita a lógica interna do sistema capitalista,
em que as medidas gerais favoráveis ao consumo popular podem aumentar as vendas e a
produção de bens de consumo, o que leva os donos do capital a aumentarem o
investimento produtivo e ao mesmo tempo, aumentarem as taxas de lucro, do contrário
de Marx, que diz não ser necessário aceitar essa lógica, sendo necessário criar um outro
sistema econômico, com diferente relação de produção e eliminar o poder de Estado
burguês.
Este modelo intervencionista é tido por muitos como esgotado, tendo sido
substituído por um outro modelo, o liberalismo, que ressurge em uma nova roupagem a
partir da década de 1980, sendo chamado de neoliberalismo de mercado. Segundo
Oliveira esta é a “denominação de uma corrente doutrinária do liberalismo que se opõe
ao social-liberalismo (...) preconizando a minimização do Estado, a economia com
plena liberação das forças de mercado e a liberdade da iniciativa econômica.”(Oliveira,
2003: 97)
No entanto, para Harvey (2001), a forma de trabalho de Keynes/Ford trouxe
insatisfações por não beneficiar a todos, promovendo desigualdades sociais, fortes
movimentos de excluídos, e mais uma vez fica clara a exclusão dos desprivilegiados. A
aguda recessão de 1973, que trouxe novas experiências nos domínios da organização
industrial, social e política, possibilitou os primeiros ímpetos para a passagem do
regime keynesiano para a acumulação flexível6, também uma forma de capitalismo, na
qual a palavra chave é “desregulamentação”. Afirma ainda Harvey que o
keynesianismo, aliado ao fordismo7, ainda é percebido no novo contexto de
acumulação flexível, entendendo que o novo traz em si o “velho”. Harvey diz ainda
estar testemunhando uma transição histórica, ainda longe de completar-se, e elenca
como conseqüências da acumulação flexível o individualismo mais competitivo, uma
distribuição de renda que beneficia a maioria já privilegiada; o uso de computadores e
das comunicações eletrônicas, que acentuam a significação da coordenação instantânea
de fluxos financeiros; o aumento da produção do setor informal, enfim, um modo de
produção que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a
mercadificação de formas culturais. Acrescenta ainda que a atual conjuntura caracteriza-
se por uma combinação altamente eficiente em alguns setores e regiões e de sistemas de
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 128
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
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produção mais tradicionais, que implicam mecanismos bem distintos de controle de


trabalho.
Enfim, é possível entender que o intervencionismo ocorreu devido ao
interesse da elite de ver alguém colocar “ordem na casa”, mas, depois de reestabelecida
a ordem econômica e social, desaparece a necessidade de intervenção estatal. Daí a
doutrina do Estado Mínimo apregoada pelos neoliberais, ou seja, como afirma Hayek
(1990: 88):

“O Estado deve limitar-se a estabelecer normas aplicáveis a situações gerais


deixando os indivíduos livres em tudo que depende das circunstâncias de
tempo e de lugar, porque só os indivíduos poderão conhecer plenamente as
circunstâncias em cada caso e a elas adaptar suas ações”.

Hayek propõe em sua doutrina liberal uma sociedade individualista, que


busca a liberdade da livre concorrência, considerando a concorrência um método
superior, que pode ajustar suas atividades sem a intervenção coercitiva da autoridade.
Todos devem ter liberdade para vender e comprar e o acesso às diferentes ocupações
deve ser franqueado a todos.
O que é perceptível neste estudo do contexto de reestruturação produtiva é
que a ideologia neoliberal favorece a exclusão social e o neoliberalismo surge, para
restabelecer a hegemonia burguesa no quadro desta nova configuração do capitalismo,
como alternativa histórica à crise do fordismo, no qual a lei natural prevalece como
sendo a justa. No modo de produção vigente, o indivíduo sofre efeito que não é
percebido de maneira tão intensa como nos modos de produção anteriores, que é a
alienação, pois ele nem mesmo se dá conta da exclusão a que é submetido, ao passo que
o escravo e o servo estavam conscientes de sua submissão, mesmo que muitas vezes se
apegassem a desculpas existenciais. Já o indivíduo do capitalismo não percebe a
complexidade das relações que o cercam.
Para estudar as mudanças neste contexto, é preciso então refletir sobre esse
processo de globalização/mundialização como dinamizador desta valoração, quiçá
equivocada, do conhecimento como produto econômico e de sua transmissão também
submetida a um mercado. A globalização surge com propostas atraentes em sua
idealização, como o acesso de países em desenvolvimento a novos mercados,
conhecimentos, tecnologias, culturas, etc. Porém, acaba agravando ainda mais as
desigualdades sociais e econômicas e propondo uma homogeneização cultural nos
moldes norte-americanos. Para Stiglitz (2002: 32),
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 129
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
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A distancia cada vez maior entre os que têm e os que não têm vem deixando
um numero bastante grande de pessoas no Terceiro Mundo num estado
lamentável de miséria (...) apesar das repetidas promessas de redução dos
índices de pobreza feitas durante a ultima década do séc XX, o numero dos
que vivem na miséria efetivamente aumentou, e muito. Isso ocorreu ao
mesmo tempo que a renda total do mundo elevou-se, em média, 2,5 por cento
ao ano.

Chesnais (1996: 260) mostra que os estados nacionais foram obrigados a se


filiar a políticas amplas, com um primeiro enfoque financeiro de desregulamentação, e
perderam o controle de seus mercados. Nas palavras do autor:

Todo Estado que não pretenda denunciar essas práticas, nem colocar sob a
acusação a política dos EUA, mas que também queira colocar seus bônus do
Tesouro é obrigado a se alinhar às práticas americanas.(...) O mesmo vale
para a desregulamentação. (...) todo estado que não esteja disposto a abrir um
confronto direto com os ninhos de capital monetário concentrado de seu país
(bancos, grandes companhias de seguro), é obrigado a acompanhar, ou até a
antecipar-se aos demais.

A desregulamentação, que começa pelo mercado financeiro, é parte da


ideologia do livre mercado, que também pressupõe uma liberdade irrestrita do poder
econômico e a prospecção de novos negócios. Ocorre uma mercantilização também
irrestrita de setores absolutamente humanos e talvez desinteressantes para a preservação
cultural da maioria dos países. Dentre estes setores, está a educação. Como afirma
Apple (2003: 24), “ver a educação como parte de um mecanismo de troca de mercado
torna aspectos cruciais literalmente invisíveis, impedindo a crítica antes mesmo que ela
comece”.
O Brasil insere-se neste contexto como uma figura periférica, recebendo
diretrizes da Agenda Internacional, não sendo de estranhar a adoção de políticas
neoliberais pelo país, quase como uma imposição do FMI - Fundo Monetário
Internacional - e do BM – Banco Mundial -, e a educação tem de se adaptar aos moldes
da política adotada, daí a necessidade das reformas educacionais que vêm ocorrendo nos
últimos anos em vários países, e uma das novas adaptações é o processo de educação
inclusiva / ensino especial.
Ainda segundo Apple (2003), “a mão invisível do mercado”, sendo o
mercado forte e o Estado fraco, seleciona as escolas e essas selecionam seus alunos –
como num ranking –, tornando o resultado comercial mais importante do que o
educacional. É nesse contexto que se encontra o processo de implantação e de adaptação
de educação inclusiva – grifo nosso -, ficando claro que os alunos com necessidades
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 130
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
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especiais são dispendiosos e diminuem os resultados de classificação e de competição


da escola que freqüenta.
É importante ressaltar que, em relação à educação especial, constata-se,
grosso modo, um padrão semelhante de evolução, que vem sendo seguido na maioria
dos países. Primeiramente caracterizado pela segregação e pela exclusão, a “clientela” é
simplesmente ignorada, evitada, abandonada ou encarcerada, quando não exterminada.
Num segundo momento, há uma modificação no olhar sobre a referida “clientela”, que
passa a ser percebida como possuidora de certas capacidades, ainda que limitadas,
como, por exemplo, a de aprendizagem. Atualmente, pode-se dizer que existe uma
discussão mais ampla sobre inclusão, fundamentada na movimentação histórica
decorrente das lutas pelos direitos humanos, não mais se constituindo numa novidade,
se se levar em consideração que tais princípios já vêm sendo veiculados em forma de
declarações e diretrizes políticas pelo menos desde 1948, quando da aprovação da
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Com essa Declaração, grandes
perspectivas surgem em torno do excepcional, visto que estavam assegurados os direitos
de igualdade, liberdade e fraternidade. Porém, o movimento pela inclusão torna-se
significativo através de dois eventos e documentos mundialmente reconhecidos,
lançados a partir de 1990: A Conferência Mundial sobre Educação para Todos,
provendo serviços às necessidades básicas de educação, ocorrida em Jomtiem,
Tailândia, em 1990, e a Conferência Mundial sobre Educação Especial – acesso e
qualidade, em Salamanca, Espanha, em 1994.
A partir dos dispositivos legais a educação fica em evidência e entende-se
que a pobreza do mundo se dá, nos dias atuais, pela falta de conhecimentos.Assim, é
dada a possibilidade de todo cidadão ser consciente de seus direitos e deveres. Cresce a
necessidade de programas educacionais flexíveis, que atendam à diversidade do
alunado, incluindo a pessoa com necessidades educativas especiais8.
Quanto às leis brasileiras, destaca-se a nova Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional - LDBEN 9.394/96, a qual reserva um capítulo exclusivo para a
educação especial no conjunto das políticas públicas brasileiras, propondo-se uma
educação baseada na integração9 e não de uma educação inclusiva10, porém a
sociedade civil clama por inclusão, pois já não é mais suportável conviver com os
estigmas da exclusão em nossa sociedade. Destaca-se ainda a pouca importância dadas
pelas leis anteriores 4.024/61 e 5.692/71, para essa modalidade educacional.
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 131
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VOL. 01, Nº 01, 139-150, Dez. 2008 / Jun. 2009.

O Estado de Goiás11 encontra-se desde 1999, através da Secretaria de


Educação do Estado Goiás, via Superintendência de Ensino Especial, com a proposta de
efetivação da educação inclusiva, em atendimento aos novos paradigmas educacionais,
a partir da Lei de Diretrizes e Bases do Sistema Educativo Goiano, lei n. 26/98, que
considera a aproximação dos pressupostos e das práticas sociais da educação para todos.
Na busca de uma educação com qualidade e eqüidade para todos, na qual os sistemas de
ensino devem matricular todos os alunos, a escola deve se organizar para o atendimento
com qualidade.
Barros (2001), ao definir educação especial como “modalidade de educação
escolar” (art. 80 da Lei n.° 26/98 e art 58, LDBEN), considera-a um avanço, pela
concepção inclusiva que ela representa. “Ser parte é diferente de ser à parte; portanto,
não discrimina ou marginaliza.”.
O ponto central deste artigo é refletir a formação de professores neste
contexto que, por um lado, prima pela igualdade de valores entre os seres humanos e,
como tal, pela garantia da igualdade de direitos entre eles e, por outro, já não mais
comporta a existência da ignorância, exclui o ser humano de um ritmo de produção cada
vez mais vital à crescente competitividade, por lhes dificultar o exercício pleno de um
de seus deveres como cidadão: o de trabalhador produtivo e, conseqüentemente, o de
contribuinte.
Cabe ao professor um papel fundamental neste processo, pois a escola
inclusiva propõe a mudança do papel tradicional para uma nova identidade profissional,
que seja capaz de tomar iniciativas que favoreçam a plena escolarização de todos os
alunos, conhecendo seus alunos, suas possibilidades e limitações. Suas
responsabilidades crescem diante desta realidade, necessitando que ele tenha
informações apropriadas a respeito das dificuldades da criança, dos seus processos de
aprendizagem, do seu desenvolvimento social e individual. E ainda, deverá entender a
necessidade de ir além dos limites que as crianças se colocam, no sentido de levá-las a
alcançar o máximo da sua potencialidade. Os professores devem tornar-se mais
próximos dos alunos, na captação das suas maiores dificuldades. O suporte aos
professores das classes baixas é essencial para o bom andamento do processo de ensino-
aprendizagem.
O que se constata é a falta de informação e de formação12 desses
profissionais sobre as diferentes deficiências – suas causas, conseqüências, recursos e
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 132
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VOL. 01, Nº 01, 139-150, Dez. 2008 / Jun. 2009.

alternativas; é notória a teoria distante da prática, pois é percebida através da pesquisa


empírica, os professores estão recebendo os alunos de necessidades especiais de forma
“receiosa” e, na maioria das vezes, buscam justificar essas condições como uma questão
humana e, portanto, devem ser solidários. As crianças com necessidades especiais estão
“incluídas” na escola ou estão ainda mais sendo excluídas do processo educativo? Será
que por detrás dessa proposta de inclusão há um desinteresse ou desobrigação das forças
governamentais para com esses indivíduos? Ou ainda, será que a proposta de inclusão
nesse momento de acesso tem o interesse de conseguir mais alguns consumidores para o
mercado?
Neste processo histórico, o profissional da educação está desqualificado, a
educação virou um produto vendável, sala de aula virou mercadoria, o capital se
apropria desse “saber fazer”. A reorganização racionaliza custos e gastos, pois a própria
sala de aula se transforma no lugar de formação do professor, tendo por base a filosofia
da promessa continuada de preparação do professor e de melhorias. A desigualdade é
reconhecida como a possibilidade desejável de levar as pessoas a competir entre si no
mercado
Se a educação é para todos, se visa a reverter o percurso da exclusão, se
deve criar condições, estruturas e espaços para uma diversidade de educandos, a escola
só poderá se tornar inclusiva quando conseguir transformar não apenas a rede física,
mas, inicialmente, a formação do professorado, dando-lhes condições para serem
agentes de transformações da realidade em que estão inseridos, ou sejam, capazes de
serem ensinantes e aprendizes diante da diversidade do alunado. As atitudes e as
mentalidades dos educadores e da comunidade escolar em geral devem se voltar para
aprender a lidar com o heterogêneo e conviver naturalmente com as diferenças.
Respeitar e lutar pelo princípio da escola inclusiva, que é o de que todas as
crianças deveriam aprender juntas, independentemente de quaisquer dificuldades ou
diferenças que possam ter, são essenciais à dignidade humana, ao gozo e do exercício
dos direitos humanos, porém é preciso desvelar esses conceitos a partir da realidade
social brasileira. Não há ainda no Brasil o acúmulo de capital suficiente para efetuar
essa inclusão; as novas tecnologias pedem um sujeito competente; é preciso deixar de
fazer uso do trabalho manual para usar a nossa intelectualidade; a desigualdade de renda
e riqueza é talvez a causa mais importante dos grandes males políticos, econômicos,
sociais, éticos e culturais que assolam o país. O Brasil é campeão mundial de
concentração de renda13 e pentacampeão de concentração de riqueza.
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 133
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As medidas alternativas para tirar o Brasil da atual trajetória de instabilidade


e crise exigem a ruptura das atuais estruturas de concentração de renda e riqueza, as
soluções para os nossos problemas passam por uma distribuição significativa de renda e
de riqueza. Para superar esse modelo econômico vigente os estudos de Bordieu (1930-
2002) acredita ser possível organizar um movimento social que se una ao sindicalismo
renovado e consciente.
Diante deste estudo, é importante frisar que há nesse contexto de
reestruturação produtiva uma sociedade dualizada, dividida em perdedores e
ganhadores, que busca explicações ideológicas para justificar tal situação e leva as
maiorias a acatarem e a aceitarem as injustiças sociais como algo comum, normal e de
responsabilidade individual. A nova ordem cultural se preocupa com a eqüidade social e
não mais com a justiça social. Essa forma de justificativa é complexa e tem por
fundamento uma nova explicação, pretendendo formar um senso comum que acredite
que as injustiças sociais são criadas pelos próprios indivíduos, que não se esforçam, são
incompetentes e se auto-excluem das benécias do sistema. E agora José?A festa está só
começando...
É nesse contexto que o neoliberalismo se confirma como um novo
darwinismo social, no qual os mais fortes, os mais aptos, mais competentes, os
ganhadores, serão os integrados/incluídos; os demais, por sua própria responsabilidade,
se auto-excluirão.
Necessário se faz perceber no capitalismo a acumulação de capital, que
sempre implicou uma tendência generalizada e crescente à mercantilização de todas as
coisas. Para Gentili (1995), significa dizer que essa expansão do universo mercantil
causa impacto não apenas na realidade das coisas materiais, mas também na
materialidade da consciência. É assim que os indivíduos, na medida que introjetam os
valores e as relações mercantis como padrão dominante de interpretação dos mundos
possíveis, aceitam, confiam no mercado como o âmbito em que “naturalmente” podem e
devem desenvolver-se como pessoas humanas.
O professor precisa atingir um nível de consciência e de prática política que
contemple sua articulação com os interesses de seus alunos é preciso uma formação
com qualidade, que contemple a possibilidade de, em sua construção de identidade,
buscar o valor e a significação social do seu trabalho; que articule o conhecimento com
o poder que esse tem para a produção da vida material e social. Para assim pensar no
trabalho do professor, é preciso pensar o conceito de trabalho de forma mais geral. Para
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 134
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
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Marx, o trabalho é uma característica essencialmente humana; é o que o diferencia de


outros animais, o homem necessita, então, produzir, e a partir de sua produção
modificar o seu meio, com isso se tornar um ser histórico. Visto por esse prisma, o
trabalho do docente deve se realizar na sala de aula, numa relação de ensinante e
aprendiz; o aluno não é apenas o consumidor do produto, mas sujeito ativo e histórico
do seu processo educativo de trabalho.
Essa atividade é inconclusa, mas entender a formação do professor frente à
dimensão dos conceitos de “inclusão e exclusão”, tão badalados nos discursos
educacionais, é buscar antes de tudo compreender a lógica do sistema capitalista, seus
interesses e suas tendências e, a partir daí, buscar uma formação consciente e crítica
desse profissional, na ânsia de concretizar as mudanças de atitude do professor.

NOTAS
1 Identidade não é um dado imutável.Nem externo, que possa ser adquirido. Mas é um
processo de construção do sujeito historicamente situado. A profissão de professor, como as
demais, emerge em dado contexto e momento históricos, como resposta a necessidades que
estão postas pelas sociedades, adquirindo estatuto de legalidade. ( Pimenta, 1999, p.18)
2 Commodity é um anglicismo para mercadorias homogêneas com mercados muito
líquidos, tais como café, ferro, soja e outros. (Rifkin, 2001, p. 6)
3 Necessidades Educacionais Especiais, aquelas relacionadas às aprendizagens que
requerem uma dinâmica própria na relação ensinar-aprender em decorrência das características
particulares do aluno, bem como, da ausência do conhecimento institucional de suas
possibilidades e limites em desenvolver uma prática pedagógica a contento (Declaração de
Salamanca, 1994).
4 Liberalismo, enquanto termo político, significa adquirir ou preservar algum grau de
liberdade dentro do controle exercido pelo Estado. No campo teórico, os liberais receberam
influencia de John Locke, o qual acreditava num estado e numa lei naturais, de acordo com os
quais se reconhecesse que ninguém deve prejudicar o outro em sua saúde, vida, liberdade e
posses.
5 John Maynard Keynes, economista britânico, filósofo, bibliófilo, social liberal, é autor
da Teoria Keynesiana também chamada de Estado do Bem Estar Social - Welfare State.
6 Acumulação flexível caracteriza-se pela flexibilidade dos processos de trabalho, dos
mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo, pelo surgimento de novos setores de
produção, de inovações tecnológicas, comerciais e organizacionais, desenvolvimento desigual
das regiões subdesenvolvidas, desemprego, subemprego, terceirização, prestação de serviço,
desvalorização dos sindicatos. (Harvey, 2001)
7 Fordismo : marco simbólico em 1914, quando Henry Ford introduziu seu dia de oito
horas e cinco dólares como recompensa para os trabalhadores da linha automática de montagem
de carros. O Fordismo aprimorou os princípios da administração científica de Taylor.
8 De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases do Sistema Educativo Goiano de 26/98, em
seu artigo 80 paragrafo 2º “por educandos com necessidades especiais entendem-se todas as
crianças, jovens e adultos, cujas necessidades decorrem de suas características peculiares ou de
suas dificuldades de aprendizagem permanentes ou transitórias”.
9 Integração escolar é uma forma de inserção proposta pela escola, onde essa recebe
alunos com deficiência desde que os mesmos sejam capazes de acompanhar a escola comum
existente nos modos tradicionais. Para Sassaki, (1999. p.32 ) houve um avanço significativo
nessa proposta com o desenvolvimento do princípio de mainstreaming, termo na maioria das
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 135
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
VOL. 01, Nº 01, 139-150, Dez. 2008 / Jun. 2009.

vezes sem tradução e significa levar os alunos o máximo possível para os serviços educacionais
disponíveis na corrente principal da comunidade.
10 Educação inclusiva é o processo de se educar tanto os ditos normais como as pessoas de
necessidades e/ou direitos especiais, com o fim de utilizar todos os recursos disponíveis,
especialmente os recursos humanos, para promover a participação e a aprendizagem de todos os
alunos, no seio de uma comunidade local. Para Mantoam (1997) a inclusão causa uma mudança
de perspectiva educacional, pois não se limita a ajudar somente os alunos que apresentam
dificuldades na escola, mas apóia a todos: professores, alunos, pessoal administrativo, para que
obtenham sucesso na corrente educativa geral.
11 LDBEN 9.394/96, em seu Artigo 4º define como dever do Estado “atendimento
educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais,
preferencialmente na rede regular de ensino” (inciso III).
12 Apesar da ênfase que o governo vêm dando à formação de professores, como é o caso
dos cursos emergenciais, licenciaturas parceladas de fins de semana, cursos que contam com
recursos humanos e materiais insuficientes, nota-se um vazio e uma dificuldade de melhoria na
qualidade da educação.
13 A renda média das elites brasileiras é 25 vezes maior que do que a renda média do
restante da população e a riqueza média das elites é 110 vezes maior que a riqueza média do
restante da população brasileira. Ver o nome do autor desse dado é do livro o desmonte da
nação.(Gonçalves, 1999, p. 45-46.)

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EMPADÃO GOIANO:
EXPRESSÃO DE PRÁTICAS FESTIVAS
E ECOLÓGICAS

Gláucia Péclat∗

Resumo: Abstract:

O presente trabalho pretende analisar as This work is based on research I carried out
práticas e concepções dos vilaboenses com in the City of Goiás, the former capital of
relação aos significados do empadão dentro the State of Goiás. Following the steps of
do contexto de festas sociais e religiosas. E, this research, I analyze the practices and
por último, contextualizar o conceito de conceptions of the vilaboenses in relation to
“tradição” dentro da perspectiva the meanings of empadão in the context of
mudança/continuidade acordada entre os local religious and social functions. Finally,
próprios habitantes da região. A partir dos I contextualize the concept of “tradition” in
dados etnográficos e pesquisa bibliográfica, the perspective of change/continuity
procurou-se acompanhar a relação entre os according to the local residents. To start
sujeitos da comunidade em questão e o from the ethnographic data and the
empadão mediante as orientações bibliographic research, I tried to follow
ecológicas que também, presidiram a closely the relation between the individuals
constituição deste como uma referência da of the community and the empadão, by
culinária local. means ecological orientations that managed
the organization of this research as a
reference to the local cookery.

Palavras-chave: Key-words:

Empadão Goiano – Tradição – Meio Empadão Goiano – Tradition –


Ambiente – Goianidade. Environment – Goiás’ manner of life

Empadão Goiano: do profano ao mundo religioso

Na maioria dos casos estudados, a palavra “alimento” refere-se a uma


propriedade da comida, ou do mantimento. Aqui estarei tratando-a como algo ligada ao
sentido de reciprocidade. Para falar de reciprocidade devemos pensar mais na forma de
dons recíprocos do que em transações.
Em Goiás, como em outras partes do Brasil, a cozinha foi - e ainda continua
a ser - um espaço de receber os parentes e os amigos próximos, diferente da sala onde se
recebe os estranhos. Na Cidade de Goiás, em especial, a cozinha sempre se caracterizou
como parte da intimidade. Na intimidade, o hábito de servir alimentos desempenhou um

∗ Doutoranda em História Cultural pela UnB, professora do Departamento de História e Geografia da


FECHA, professora do Departamento de História da UEGD UnU “Cora Coralina” e pesquisadora
associada do NARQD UEG.
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 138
de Sá – Ciências da Ciências Sociais Aplicadas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia
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papel central, pois, neste espaço se estabelecem vínculos familiares. Ao


contrário da sala que se caracteriza por espaço público.
Situada na parte de trás da casa, é na cozinha que se prepara e se serve a
comida. Além disso, mesmo fora dos horários das refeições, é a cozinha, um local de
descontração onde a conversa deixa transparecer intimidade e se desenrolam inúmeros
“causos” (Molina, 2001). Não por acaso, a cozinha deveria ser a parte principal da casa.
Antigamente até a política se tramava ali. Os antigos resolviam todos os seus problemas
na mesa grande da cozinha. Muitas vezes um fulano se dirigia a alguma casa para tomar
satisfações, mas dava-se um rodeio, levava o homem à cozinha, passava-se um
cafezinho gostoso, e pronto: “fumava-se o cachimbo da paz”. Levar alguém para a
cozinha significa amizade confiada e segura.
A cozinha goiana pode ser compreendida como algo mais amplo, não
somente como um conjunto de hábitos alimentares, mas também como um importante
espaço onde se desenvolve o convívio e as relações sociais. Assim, quando um grupo
decide fazer uma galinhada ou pamonhada, sabe-se, de antemão, que o fazer não é o
preparo dessas iguarias e sim a criação de um momento e de um espaço de
relacionamento social. Situadas fora do ritmo cotidiano, a galinhada e a pamonhada
podem ser definidas como referências identitárias coladas no tempo das sociabilidades,
das festas ou do lazer, permitindo que as famílias e os amigos se encontrem.
Nas primeiras décadas do século XX, as bodas eram ocasiões onde se
serviam o que havia de bom e melhor em iguarias. Empadões recheados de carne de
galinha, pastéis, pães recheados de pernil, biscoito de queijo, bolo de arroz, doce de
ambrosia, doce de laranja, de leite e de limão. Refresco de seriguela, de maracujá,
servidos às crianças e às senhoras. Aos homens eram oferecidos vinhos, feitos de
laranja, além de vinho português. Os doces eram feitos em tachos, colocados em
caixinhas de madeira, forradas de papel manteiga. Em grande medida, nos jantares
festivos e em geral às três horas da tarde, as mesas eram aumentadas e arrumadas com
toalhas de algodão, copos de vidro, talheres de prata, aparelho azul importado, salvas e
copos de prata. Das iguarias eram servidas; sopa de macarrão grosso importado de
Portugal, tutu de feijão, arroz, carne enrolada, carne recheada, tostadas e cheirosas,
grandes travessas com empadas, cobertura e forros tostados no velho forno de barro,
guariroba como molho e tigelada.
Nesta perspectiva destacam-se como elementos culturais da culinária
goiana, símbolos de uma “goianidade”, empadão goiano, arroz com pequi, peixe na
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telha, ‘macarrão de folia’, frango ao molho ou ensopado, guariroba ou arroz com


guariroba, pamonha, angu com quiabo, abóbora, jiló e carne picadinha, lombo de porco.
Todos articulados à sociabilidade, tornando-se indicadores que permitem a marcação e
demarcação de um grupo que envolve pertencimento.
No contexto do âmbito privado a mulher operou em muitos momentos,
cuidou também de dirigir a casa, sendo, portanto, responsável pela sociabilidade e
harmonia do lar. Neste sentido, essas mulheres respondem pela definição tanto da forma
como a função do empadão goiano, o que significa, certo controle da forma como esse
alimento irá mediar às relações entre indivíduos. O empadão enquanto produto da
comida regional, expressa algo que diz respeito a um prato que tem peso social muito
importante, pois inventa a sua própria ocasião social. Ademais, também se refere a algo
que exprime possibilidades simbólicas e por isso permite realizar uma importante
mediação entre a sua forma e função.
Para Da Matta (1986), a sociedade manifesta-se por meio de muitos
espelhos e vários idiomas. Um dos mais importantes no caso do Brasil é, sem dúvida, o
código da comida, que em seus desdobramentos morais acabam ajudando a situar a
mulher e o feminino no seu sentido talvez mais tradicional. Tudo isso revela que a
comida se refere a algo que ajuda a estabelecer uma identidade, definindo, por isso
mesmo, um grupo, classe ou pessoa.
O empadão simboliza a ordem social, com suas diferenças e gradações, seus
poderes e hierarquia. Não por acaso, em Goiás, nos anos de 1881, a província estava
dividida em dois grupos - clubistas e empadistas, aqueles dirigidos por Bulhões e estes
por Anteristas e Fleurys. A fase de transição da monarquia à República é marcada por
mudanças significativas na composição do poder em Goiás. O Estado foi palco de luta
de oligarquias rurais que disputavam o poder. Destacaram-se nesse embate
especialmente os Bulhões e os Caiado. Em 1888, foi oferecido um banquete político
pelo diretório liberal da capital, representado pelo tenente coronel Antônio José Caiado,
aos distintos correligionários. No menu oferecido à época torna-se evidente o apego à
língua francesa e vínculo desta à realidade regional.1
Comparando o banquete com o que transcreveremos à seguir, podemos
perceber algumas modificações no plano político-ideológico. Primeiro que o cardápio
logo abaixo é redigido em português e privilegia o que era pensado como culinária
regional: macarronada, galinha assada, leitão, tutu de feijão, lombo de porco e doces
feitos com frutas do cerrado. Segundo que, Pedro Ludovico Teixeira, ligado ao modelo
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de concepção centralizado na política de substituições de importações, proposta do


Governo Vargas, tem como marca, o Nacionalismo, ou seja, uma política ideológica
voltada para a valorização da produção nacional. Assim sendo, o cardápio teve como
princípio valorizar as coisas da terra, como poderemos observar:

- Sopa de batatas com azeitonas. - Empadinhas de camarão com arroz. -


Macarronada com galinha assada. - Leitão com tutu de feijão e alface. - Arroz
de forno com lombo de porco recheado. Doces: mangaba, caju com queijo
Palmeira. Queijo de leite. Bebidas: Coktail, Vermouth, vinhos branco e tinto.
Champagne - Café - Licores. Charutos (Voz do Povo, 02 de outubro de
1931).

No contexto desse Nacionalismo enfatiza-se uma preocupação com a


Marcha para o Oeste. Isto é, a ocupação de novas terras mais especificamente no Oeste
de Goiás e Mato Grosso, e sua integração produtiva. Além disso, enfatiza-se também, a
criação de novas cidades e melhoria de comunicação, através de novas estradas de
rodagem. Em 1961, o Diário da Tarde publicou o almoço de comemoração do jubileu
de prata da turma de Direito da Cidade de Goiás de 1936. Segue a publicação do
Almoço Jurídico:

O cardápio foi originalíssimo, lembrando, desde os vestibulares até as


atividades da vida dos advogados e magistrados: I - Empadas Vestibulares; II
- Frio “Exames Finais”; III - Frango “Apuros da Profissão”; IV - Arroz
“Primeira Audiência”; V - Arroz “Justiça Gratuíta”; VI - Tutu “Honorários
Advocatícios”; VII - Feijão “Interlocutório Simples”; VIII - Lombo
“Composição Amigável”; e o prato extra, Arroz com Piqui: “Arroz Decisão
Final”. Como sobremesa, os deliciosos doces de figo e laranja, em calda, e as
famosas passas de caju. Bebidas: água de alambique, mineral, guaraná,
cerveja e o delicioso vinho dos Padres, fabricado pelos Dominicanos.

Na recepção festiva do título de Patrimônio da Humanidade, realizada em


Goiânia, no Country Clube de Goiás, foram servidos dois mil empadões produzidos
especialmente para a ocasião. Tal fato nos sugere uma extensão simbólica/culinária de
Goiás para Goiânia.
A ordem abaixo, ilustra as formas e função do empadão percebidas
localmente e que, por sua vez, apontam para a sua dimensão enquanto produto:

empadinhas Aniversário; batizado; casamento; Folia do Divino; reuniões sociais e


políticas.

empada Sociabilidade; individualização; mercadoria.


(10 cm)
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empadão Sociabilidade; individualização; mercadoria.


(14 cm)

empadão Tradicional; identidade emblemática.


(20 cm)

empadão Natal; Semana Santa; Dias das Mães; agregação


redondo familiar e ritual de comensalidade familiar.
(36 cm)

Empadão Ritual de comensalidade, agregação familiar.


retangular
(38 cm)

Em relação à especificidade da empadinha na Folia do Divino Espírito


Santo, chamo atenção para a relação entre prestígio e recompensa. O primeiro pode
simbolizar status e o segundo pode significar - dar e receber. Durante a Semana Santa,
não se come carne vermelha. Nesta perspectiva torna-se oportuno, apresentar alguns
aspectos que estão implicados neste sistema. No decorrer da Semana Santa, se faz
empadinhas de bacalhau; camarão e atum como denotam as narrativas. Geralmente, aos
domingos se faz empadões de bacalhau ou atum. No entanto, um caso específico
destaca-se, no Domingo de Páscoa - o fornecimento de empadinhas de frango como
oferenda na Folia do Divino Espírito Santo.
Ao mencionar a oferta de salgado empadinhas em especial, percebe-se
através da noção de tradição, que isto é uma novidade que faz da festa um
acontecimento ainda mais expressivo e interessante, pois as concepções de incremento e
mudança na tradição são importantes para que a mesma possa apresentar um caráter
dinâmico e contextualizado. É necessário que se reconheça que as tradições estão
constantemente sujeitas a mudança, a reinterpretações desde o momento em que
surgem. Hobsbawn e Ranger (1984), afirmam que as “tradições inventadas” são
mantidas por quem as cria e delas se beneficia. No caso da Folia do Divino Espírito
Santo, nota-se que a incorporação dos salgados se caracteriza por uma “tradição
inventada” o que denota uma “reapropriação” da Festa imposta por alguns membros do
grupo em questão e que passa a ser definidora de uma identidade específica da
comunidade vilaboense.
Neste caso levanto aqui uma questão: Quem pode introduzir uma inovação?
Se alguém de “fora” a introduz é aceita ou não? Em relação a Folia do Divino Espírito
Santo, percebe-se que não, pois os cargos só podem ser dirigidos a pessoas de
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naturalidade vilaboense, domiciliada ou não na Cidade de Goiás, o que ocorre


naturalmente no caso do empadão. Entretanto, devemos lembrar que a função de
estabelecer ou não novos modelos de “adaptações” segue as diretrizes da tradição, o que
significa que pode sofrer alterações, desde que não seja colocada em risco.
Outra dimensão a ser ressaltada pode configurar-se nas formas de circulação
cerimonial do alimento que, podem começar por ser analisadas à luz das características
religiosas das Festas do Espírito Santo. A dissipação de recursos alimentares que ela
requer é de fato concebida, antes de mais, como uma forma não só de homenagear a
divindade, más também de assegurar a sua proteção (Leal, 1991:34).
No caso da Festa do Divino Espírito Santo na Cidade de Goiás, a
distribuição de oferendas (por exemplo, empadinhas) é operado como um meio de
obtenção da proteção do Espírito Santo para a sua unidade doméstica. Muitas vezes
também certos dispêndios cerimoniais resultam de promessas feitas ao Espírito Santo e
funcionam, portanto, como um meio de retribuir graças anteriormente concebidas.
De acordo com Leal (1991), simultaneamente a esta vertente religiosa, as
refeições, dádivas e distribuições alimentares que integram a seqüência ritual das Festas
do Espírito Santo possuem uma importante dimensão sociológica. Circulando num
quadro social profano minuciosamente previsto e regulamentado, os alimentos, ao
mesmo tempo em que ligam os homens à divindade também os homens entre si.
É justamente para uma imbricação deste tipo que se pode analisar a
empadinha da Folia do Divino Espírito Santo como algo que significa comunhão. A
palavra comunhão significa, comm~un~i-one-, comunidade, ato de pôr em comum,
participação, caráter comum.
Se, por um lado, sabemos que o significado de empada significa pão, por
outro lado, sabe-se que o pão pode significar o símbolo do sagrado na Folia do Divino,
pois para Santo (1988), no ato da ceia do culto do Divino, trazem então para a mesa o
mais sagrado e o mais Santo de todos os alimentos: pão comum. Para Mayol (1998), o
pão, não é tanto um alimento básico, mas, sobretudo, um “símbolo cultural” de base, um
monumento sem cessar restaurado para conjurar o sofrimento e a fome. O pão suscita o
respeito mais arcaico, é quase sagrado. Jogá-lo ao chão, pisá-lo é visto como sacrilégio.
O pão é um memorial. Pode-se afirmar, o empadão é um memorial.
Baseado no que foi apresentado acima, proponho-me, então, a fazer uma
relação entre o sentido etimológico da palavra comunhão com a Santa Ceia, a fim de
mostrar como a expressão tem no bojo da questão o propósito de consagrar e unir um
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 143
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grupo em torno da comida. Logo, se comunhão = comm~un~i-one, não poderia escapar


de nossa atenção a representação simbólica da Santa Ceia em relação ao significado
etimológico da palavra empadão = pão o que pode simbolizar o Corpo de Cristo no ato
da eucaristia.
Nesta mesma percepção, compreende-se que a empadinha da Folia do
Divino Espírito Santo na Cidade de Goiás pode simbolizar a divisão do empadão em
várias pequenas partes, representando então, a comunhão. Além disso, entende-se que a
empadinha é uma “ressemantização” do empadão quando ele vai ou alcança as camadas
populares da Cidade de Goiás, mas isto enquanto pão. Sendo que, nesta dimensão, tem
menor tamanho; menos recheio e massa menos elaborada. É a massa para a massa.
A Folia do Divino Espírito Santo a partir de 1988 chega até Goiânia-GO,
estabelecendo a inserção dos nativos da Cidade de Goiás que se mudou para a nova
capital. O que implicou a “replicação”/extensão da empadinha para o contexto da festa
evidenciando, assim, a união de dois elementos significativos tradicionais da antiga Vila
Boa de Goiás.

Empadão Goiano: resultado de uma simbiose


entre homem e meio ambiente

Aos poucos iria brotar no cerrado, uma culinária própria adaptada. A


realidade sob muitos aspectos era nova ao colonizador. Assim os doces antigos foram
muito doces, o café abusivo e melado, a gordura e os óleos besuntados, características
que entre muitas outras, podem obscuramente explicar-se pela adaptação antrópica
(Bertran, 1994).
Hoje, temos uma variada cozinha goiana, em geral, e vilaboense, em
particular que, além dos vinhos, queijos, licores, quitandas e o empadão, prima pela
qualidade dos pratos de sabor exótico feitos com espécies do cerrado goiano, como
pequi e guariroba. Sem falar dos doces e sucos feito com os frutos da região e até
mesmo, com as cascas desses frutos, resultado de uma verdadeira e perfeita simbiose
entre o homem e seu meio ambiente.
É mais nas matas do que no cerrado e no campo que a população goiana
encontra frutos silvestres; guariroba, araticum, marmelada-de-cachorro, jenipapo,
curriola e cagaita. Mas os frutos naturais de maior consumo e agrado são encontrados
no campo e no cerrado; “cajus-do-campo”, o murici e a mangaba.
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O esquema abaixo mostra a relação entre o homem, meio ambiente e


empadão. A influência da natureza sobre o produto é fundamental. O quadro aponta
aqueles produtos que são de origem animal, vegetal e mineral.

EMPADÃO

ORIGEM ANIMAL ORIGEM VEGETAL ORIGEM MINERAL

Carne suína Cebola Sal


Banha de porco Farinha de trigo (pão) Argila
Carne de peixe Azeitona Antiplástico*
Bacalhau, camarão Alho (lata de goiabada)
Ovos Ervilha Ferro estanhado
(pedaços inteiros ou filé) Batata
Queijo Tomates
Manteiga Guariroba
Carne de frango

*antiplástico (areia, mica etc.)

O esquema anterior pode ser agora complementado da seguinte maneira:

EMPADÃO

(COLETA) DA FAZENDA (QUINTAL) DA CIDADE

DA NATUREZA (TRABALHO) (COMPRA)


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Guariroba Salsa Alumínio batido


Lenha Banha Bacalhau
Argila Galinha Camarão
Areia Ovos Atum
Frutos Lingüiça Frango
Pimenta Lingüiça (industrial)
Queijo Tomate
Manteiga de leite Cebola
Guariroba Queijo (mussarela)
Frango Azeitona
Porco Ervilha
Palmito
Fermento em pó
Óleo
Margarina
Milho (enlatado)
Madeira (combustível)
Cerâmica
Lata de goiabada
Sal

Com a redução das atividades de mineração, aumenta a implantação de


fazendas de gado na região. Vários fatores contribuíram para a reprodução do
campesinato, entre eles destacam-se terras inexploradas que são abertas a pequenos
produtores para produção autônoma. Além disso, contamos com as migrações massivas
que levaram ao surgimento da categoria de posseiro ou pequeno proprietário. A figura
do agregado é tão antiga quanto a própria ocupação regional (Suárez, 1982).
A história do Centro-Oeste é marcada por um processo em que migrantes
tornaram-se posseiros para serem, posteriormente, proprietários. A fazenda tradicional
não deve ser pensada, simplesmente, como uma unidade de produção de gado. Nela se
executava um processo de trabalho complexo que incluía a produção de gado, a
produção de alimentos e o processamento dos mesmos (Suárez, 1982; Motta, 1983).
Com o tempo, os produtos passaram a ser cultivados na “roça de quintal”.
Esta roça de quintal emprega apenas o trabalho da mulher e dos filhos. Tudo isso
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 146
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confirma a relação entre ingredientes do empadão com a fazenda. O empadão goiano é a


feliz combinação entre os produtos importados e produtos dos quintais e da fazenda.
A valorização do produto da fazenda expressa auto-suficiência. Produtos da
fazenda expressam melhor qualidade, segundo a percepção local. Esta concepção é
parte da economia doméstica, próprio da economia camponesa. É comum encontrarmos
na Cidade de Goiás, assim como no universo camponês, referencial sobre os “dias de
hoje” e o “tempo antigo”. No tempo antigo a natureza era mais hostil e mais pródiga.
Além de pródiga, suas qualidades estavam por todas as coisas; na saúde das pessoas,
dos animais de criação e na riqueza dos produtos dela retirados.

Considerações Finais

Fica aqui demonstrado que o empadão, em domínio privado, se difere em


duas categorias: empadão tamanho familiar e empadão familiar especial. O primeiro
tem na tradição o significado de “agregação familiar” e, não que o outro de distancie da
primeira conclusão, mas a sua especificidade se encontra no domínio da ocasião
especial, para pessoas especiais, com ingredientes especiais. E é isto, que possibilita
entender o empadão como uma tradição que permite, em situações especiais, estabelecer
o que DaMatta (1986), considera culinária relacional.
A empadinha, uma adaptação do empadão, ligada aos supostos de festas
sociais e religiosas, tem, neste primeiro aspecto, uma conotação de sociabilidade que
geralmente acontece em contexto de reuniões sociais, como aniversário e casamento. E
quanto ao último aspecto, a empadinha ganha a dimensão de comunhão que no sentido
etimológico da palavra significa, comm~un~i-one. No que se refere à forma e função
do utensílio doméstico utilizado para o preparo do empadão goiano, penso que está
relacionado às ocasiões extraordinárias/especiais ligadas às pessoas, utensílios, pratos e
acompanhamentos especial. E nesta direção o empadão goiano, visto como uma
tradição regional está inserido na perspectiva mudança/continuidade.
O empadão atualiza-se; mas a tradição se mantém. Além disso, deve-se
considerar que a continuidade do empadão goiano é garantida. Sua manutenção é
acordada entre os habitantes da comunidade vilaboense. Entretanto, devemos frisar que
ela só é aceita quando não há uma contradição com a maneira com que a memória
registra o passado da tradição - registro este não necessariamente elaborado como
discurso, mas realizado através da prática, em atitudes que dizem algo sobre o passado
sem que seja preciso expressá-lo conscientemente. Não basta propor uma nova
PÉCLAT, Gláucia Empadão goiano: expressão de práticas festivas e ecológicas. Estácio 147
de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
VOL. 01, Nº 01, 139-150, Dez. 2008 / Jun. 2009.

mudança, e achar que serão aceitas. Há pessoas que são legítimas introdutoras de novos
produtos no empadão. Estas são entendidas como “autoridade máxima” do saber fazer.
Àquelas a quem a comunidade delegou certa autonomia e responsabilidade sobre o
modo de fazer. As mudanças estão limitadas pela necessidade de se adequar à memória
da comunidade. É preciso que essas mudanças sejam reguladas e tacitamente aceitas.
O tema proposto ainda tem muitos aspectos a serem desvendados e sua
reflexão não deverá ser vista como conclusão. A dinâmica mudança/continuidade
implicada no “modo de fazer” empadão que acontece em todos os níveis - tecnológico,
econômico, cultural, ligada à complexidade do mundo da cozinha e diversidade da vida
social, tem, sobretudo, alterado o quadro de essa prática alimentar em Goiás. Assim
sendo, buscar entender os fatores interligados a este complexo dinâmico é, no meu
ponto de vista, mais importante do que compreender as razões que levaram ao seu
surgimento.

NOTA

1 “Potages, Vermicelle. Consomé. Orge perlè. Hors d’ouvre croquettes aux pommes de
terre. Petits patès de viande. Patês de poisson. Rele vès poisson a la goyene. Roast-beef aux
petits pois. Mayonnaise de poulets. Filets de boeuf a la Custodie. Perdrix farci rotis pigeons au
cresson. Paca aux olives. Salade aux oeufs. Legumes haricots verts. Petits pois. Dessérts
pouding à la federation des provinces. Gelleé aux oranges. Creme à la Sainte Therese. Café,
cognac, liqueurs. Vins Bordeaux, Madére, Porto” (Goyaz, 15 D 06 D 1888. Apud Bittar, 2002:
136).

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VOL. 01, Nº 01, 151-162, Dez. 2008 / Jun. 2009.

BONS E MAUS SELVAGENS:


TEXTOS IMAGENS E REPRESENTAÇÕES SOBRE O ÍNDIO∗

Rosani Moreira Leitão**

Resumo: Abstract:

Este trabalho tem como objetivo discutir a This work aims to argue the construction of
construção da imagem do índio no the image of the indigenous people in the
imaginário brasileiro, apontando diferentes Brazilian imaginary, pointing different
aspectos que influenciaram a construção de aspects that had influenced the construction
uma representação, via de regra of a representation, usually prejudiced,
preconceituosa, estereotipada, idealizada stereotyped, idealized that it retraces to the
que remonta às primeiras imagens first images constructed by the European
construídas pelo imaginário europeu acerca imaginary concerning the New World and
do Novo Mundo e dos seus povos. Estas its people. These images will influence the
imagens vão influenciar a mentalidade national mentality and they will reflect in
nacional e refletir na produção literária, the literary production, also those
inclusive aqueles elaborados com elaborated with educative purposes
finalidades educativas compondo composing school contents that make
conteúdos escolares que possibilitam a possible the creation of a “didactic
criação de um “índio didático”***, um indigenous”, a generic and primitive
índio genérico e primitivo, cujas indigenous, whose positive or negative
características consideradas positivas ou characteristics are manipulated presenting
negativas são manipuladas apresentando images that oscillate between the notions of
imagens que oscilam entre as noções de good or of bad savage.
bom ou de mau selvagem.

Palavras-chave: Key-words:

Índio; Representações; Imaginário Indigenous people; Representations;


Imaginary
Introdução

A “descoberta da América”, no final do século XV, e as primeiras


impressões deste novo continente reveladas à Europa através de relatos de aventureiros
exploradores, viajantes e missionários provocou uma verdadeira revolução no
imaginário europeu. Documentos e testemunhos das grandes expedições marítimas,
como a carta de Américo Vespúcio “Mundus Novus”, oferecem novos elementos para

∗ Texto preparado para apresentação no Primeiro Simpósio Internacional de história, no período de 22 a


26/09/03, em Goiânia. Uma versão preliminar do texto foi apresentada como trabalho final da disciplina
tópicos especiais: “visões do paraíso – pensando sobre o exotismo americano”, ministrada pela professora
Elizabeth Cancelli, no curso de antropologia do programa de Pós-Graduação Sobre América Latina E
Caribe, Da Universidade De Brasília, no primeiro semestre de 2001.
** Doutora em antropologia (área de concentração estudos comparados sobre América Latina E Caribe),
pela Universidade de Brasília e diretora da divisão de antropologia do museu antropológico da
Universidade Federal De Goiás.
***ROCHA, Everardo Pereira Guimarães. Um índio didático: notas para o estudo de representações. In:
ROCHA, e. P. G. E outros (orgs.). O testemunho ocular. São Paulo: brasiliense, 1984.
LEITÃO, Rosani Moreira. Bons e maus selvagens: textos imagens e representações 150
sobre o índio. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 151-162, Dez. 2008 / Jun. 2009.

as interpretações literárias da época. A partir de então, um universo


terrestre de três continentes se amplia para quatro e lugares ainda não imaginados
habitados por populações humanas concretas passam a informar um imaginário até
então alimentado por um acervo lendário acerca do que poderia existir além do
Atlântico1.
Os relatos dos viajantes adquirem caráter de verdade e as novas imagens
neles fundamentadas passam a ser tratadas como evidências2, o que vai provocar um
grande impacto em todas as interpretações de espaço, tempo, produções artísticas,
literárias, cartográficas e até na própria noção de humanidade. As noções, imagens e
representações construídas desde então e difundidas em todo o ocidente passam a
compor o quadro de referências para a categorização do mundo, das situações e dos
grupos de pessoas, sobretudo daquelas consideradas diferentes3.
Neste cenário, o diferente, por não compartilhar de iguais modelos,
costumes crenças etc., aparece como selvagem, bárbaro, ameaçador. Rocha define este
sentimento da seguinte forma: “A sociedade do eu é a melhor, a superior. É
representada como o espaço da cultura por excelência. É onde existe a civilização, o
trabalho, o progresso. A sociedade do outro é atrasada. É o espaço da natureza. São os
selvagens, os bárbaros. São qualquer coisa, menos humanos.”4 Assim, desde a literatura
clássica européia produzida a partir de século XV as representações sobre o Novo
Mundo e seus povos referem-se a um “o outro” passível de ser manipulado,
conquistado, dominado.
A ilha utópica de Thomas Morus (1478-1533), apesar de ser um lugar
paradisíaco onde as instituições jurídicas, políticas e sociais são perfeitas,5 também é
um lugar idealizado que reproduz as relações sociais e o imaginário europeu bem como
os seus padrões de relações com os povos nativos, de territórios colonizados,
legitimando inclusive a idéia de guerra justa. Assim, os terrenos não cultivados pelos
indígenas poderiam ser ocupados pela expansão colonialista(?) e pelo excesso de
população da cidade utópica, resultado de uma emigração geral decretada pelo Estado.
Os colonizadores seriam bons e amigos dos colonizados, desde que estes aceitassem
como legítimas as suas instituições e costumes. Caso contrário, a prática da guerra
contra aqueles que se recusassem a aceitá-los, estaria justificada6.
Outros exemplos estão presentes na obra de Shakespeare (1564-1616)7. Em
“A Tempestade” algumas referências são feitas a seres estranhos “meio humano, meio
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 151
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

monstros”, como é o caso de uma criatura encontrada na Ilha de Próspero, que é


associada aos “brutos”, “selvagens”, “homens da índia”, “capazes de emitir apenas
gorjeios”, “criaturas repugnantes”. Diálogos entre personagens da obra – Calibã e
Estéfano – a apresentam como uma criatura passível de ser domesticada, exibida como
objeto de curiosidade em feiras européias, vendida por muito dinheiro ou presenteada a
algum imperador.
Representações, negativas, que expressam o imaginário europeu da época e
o empreendimento colonizador, são construídas a partir do choque cultural provocado
pelo conhecimento dos costumes dos povos habitantes de continente antes
desconhecido. Aspectos referentes ao encontro do europeu com os povos nativos da
América e das relações estabelecidas entre ambos estão presentes na obra de de Daniel
Defoe (1632-1731). O personagem Robinson Crusoé8, menciona na sua ilha deserta,
entre outras coisas referentes aos selvagens nativos, a presença do canibalismo como
“bárbaros banquetes de carne humana” acompanhados de rituais de dança. Crusoé, após
presenciar pela primeira vez um ritual de canibalismo, passa a sonhar aterrorizado com
a cena, na qual ele próprio se inclui como vítima, e passa a desejar o extermínio dos
selvagens como um ato justificável9. Por outro lado, não apenas o extermínio, mas
também a convivência com o selvagem é vislumbrada, desde que este último seja
domesticado, passe a ser obediente e servil, elimine das suas práticas, costumes
bárbaros, repugnantes e as substitua por costumes, crenças e práticas próprias do
universo europeu e, por isso, consideradas superiores. A relação de Crusoé com Sexta-
feira, um nativo salvo por ele – antes de ser morto e comido em um dos banquetes
“canibais” – que se tornara seu criado, demonstra esta possibilidade. Após algum tempo
de convivência, Crusoé consegue fazer com que Sexta-feira aprenda a “falar” e a
“obedecer”, passe a usar roupas, converta-se ao cristianismo, e adquira o gosto por
outros tipos de carne que não a humana, consegue, enfim, transformá-lo em um
“servidor fiel, afetuoso e sincero”.10 Talvez como uma forma de atribuir humanidade
ao selvagem já domesticado Defoe, através do seu personagem, ressalta no mesmo
algumas características físicas positivas, que o associam aos europeus e o distinguem
dos “nojentos e repugnantes” demais índios da América11.

Era um belo tipo, elegante, bem proporcionado, alto e robusto (...) Tinha
aspecto agradável e não feroz ou brutal. A fisionomia era varonil, embora não
lhe faltasse a doçura e a suavidade do semblante europeu (...). Os cabelos
eram compridos e pretos, e não crespos como lã de carneiro. A fronte era alta
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 152
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

e larga, os olhos vivos e penetrantes. A pele não era negra retina, porém,
acobreada, mas não daquele horrível acobreado, amarelecido e nojento, dos
índios do Brasil, da Virgínia e de outras regiões da América. Era mais um
tom azeitonado, brilhante, muito agradável, ainda que difícil de descrever. O
rosto era redondo e cheio, o nariz pequeno e não achatado como o dos
negros. A boca era muito bem feita, tinha os lábios finos e os dentes bonitos,
regulares, alvos como marfim (Dedoé, 2001: 161)

Voltaire (1694-1778), como Morus, Shakespeare, Defoé e outros, aborda


aspectos correntes na literatura ocidental desde o século XV, tais como tempestades,
ilhas e naufrágios. Em Cândido, ele sugere a idéia de um mundo ocidental cheio de
malediscências, uma sociedade corrompida, degenerada, povoada de injustiças, guerras
e carnificinas, arbitrariedades cometidas pela aristocracia ou pela Igreja Católica12. Em
contraposição, aparece na obra deste autor em algum local do Novo Mundo, um lugar
paradisíaco13, um eldorado representado por um mundo não corrompido, sem
desigualdades ou injustiças. Entretanto, em diversos momentos da narrativa, o Novo
Mundo e seus povos são associados a imagens negativas, tais como terremotos e a
proliferação de doenças 14. A América às vezes também é associada a selvagens
canibais15. São mencionados os “selvagens orelhões” ávidos por comerem Cândido e
Cacambo, “assados” ou “cozidos”, por serem confundidos com jesuítas16. Outras
passagens sugerem costumes que, como o canibalismo, situa os nativos em um grau de
humanidade duvidosa como, por exemplo, a existência de relações sexuais entre
mulheres e macacos17, o que é atribuído à falta de uma educação adequada.
Outros autores, como Montaigne (1533-1592)18 e Rousseau (1712-1778)19,
podem ainda ser mencionados como referências para a elaboração de uma imagem
romântica sobre os nativos da América e que certamente tiveram influência na
construção de nossas representações acerca dos índios brasileiros. Montaigne talvez
tenha sido um dos primeiros pensadores a realizar um exercício de relativismo cultural
comparando os costumes dos primitivos povos da América com costumes europeus. Sua
descrição do modo de vida dos canibais, apesar de feita a partir de relatos de um
viajante, assemelha-se a uma cuidadosa etnografia. Entretanto, o caráter paradisíaco
aparece na sua obra quando ele descreve a região habitada pelos canibais como muito
agradável, de “clima temperado a ponto de (...) raramente se encontrar um enfermo (...)
epiléptico, remeloso, desdentado ou curvado pela idade”20. Os povos e seus costumes
são descritos como exemplos de simplicidade primitiva, de autenticidade, cujas
sociedades em oposição às relações sociais e costumes europeus corrompidos seriam
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 153
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

ainda mais perfeitas do que a República de Platão. Mesmo quando descreve o


canibalismo, Montaigne destaca as qualidades dos nativos e ressalta as “nobres” razões
para esta prática, segundo ele, menos bárbara do que costumes ocidentais, tais como
“esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e queimá-lo aos poucos, ou entrega-
lo aos cães e porcos, a pretexto de devoção e fé”21.
A idéia do “bom selvagem”, encontrada na obra de Rousseau também pode
ser apontada como uma das referências para a elaboração de uma imagem romântica do
índio, apontada pela etnologia como uma mentalidade que, embora não seja negativa, é
tão equivocada e preconceituosa como outros estereótipos que impedem a compreensão
das sociedades indígenas como sociedades humanas concretas.
Assim, estas imagens, acerca do índio que o qualificam seja como bom,
puro, autêntico, corajoso, seja como estranho, assustador, exótico, perigoso, selvagem,
preguiçoso, estão presentes ainda hoje na literatura, na imprensa, nos meios de
comunicação e também nos textos elaborados com finalidades didáticas e permitem a
construção de uma noção de índio genérico e primitivo, que pode ser manipulada –
positivamente ou negativamente – de acordo com os valores considerados legítimos e
com os interesses em jogo, em cada época e situação.

Imagens e representações sobre o índio segundo a etnologia brasileira

Alguns etnólogos brasileiros tais como Cardoso de Oliveira, Gomes, Melatti


e outros, discutem as diferentes imagens construídas acerca dos índios pela consciência
nacional e ressaltam que tais mentalidades, muitas vezes, reforçam preconceitos e
estereótipos e legitimam atitudes hostis para com os índios.
De acordo com Cardoso de Oliveira e com Melatti22, a noção genérica de
índio esconde diferentes significações que podem ser favoráveis ou depreciativas,
resultando quase sempre em um índio estereotipado. Se por um lado existe no mundo
urbano das grandes cidades uma imagem idealizada do índio, alimentada pelo senso
comum de uma apreciação genérica, que o vê como “bom”, “puro” “ingênuo”, “criança
grande”, por outro lado, as populações regionais, especialmente localizadas em regiões
limítrofes às aldeias, possuem concepções negativas, agressivas e impiedosas. Estes
autores citam outras concepções alimentadas pelo desconhecimento da realidade
indígena e por imagens idealizadas que são responsáveis por deformações desta
realidade e que se constituem como verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento de
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 154
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
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relações menos assimétricas entre índios e brancos e de políticas adequadas pelo poder
oficial. Existe assim:
1) uma mentalidade estatística, que deposita demasiada crença nos números
que se fundamenta pela comparação do número supostamente “insignificante” de
índios, frente a uma numerosa população brasileira carente de atenção e de políticas
sociais. Esta mentalidade é comum, segundo os autores, entre camadas da população
que possuem poder de decisão sobre as ações do Estado e legitimam a definição de
prioridades que consideram os problemas indígenas como menos importantes;

2) uma mentalidade burocrática, própria de servidores que desqualificados


para a tarefa indigenista e sem perspectivas de ação tornaram-se burocratas rotinizados.
Outra concepção corrente, entre os agentes oficiais do Estado que lidam com a questão
indígena, é a mentalidade empresarial, comum entre os altos funcionários que
concebem o trabalho de subsistência como ilegítimo e comungam com os
empreendedores privados, tradicionais exploradores do trabalho indígena e que vêem os
postos e o trabalho indígena como fonte de empreendimento e de lucro. Estas
concepções estereotipadas favorecem situações preconceituosas que desvalorizam o
trabalho indígena e justificam o discurso de que as terras indígenas serão melhor
aproveitadas se forem cultivadas por agente da sociedade “civilizada”23;

3) uma mentalidade romântica, própria do homem comum, metropolitano


baseada em uma visão ingênua e literária de um índio idealizado nos textos de
Gonçalves Dias ou de José de Alencar24. Esta mentalidade romântica pode ter um
efeito tão negativo quanto outras formas de preconceitos, uma vez que desumaniza o
índio isentando-o de faltas ou quando delas toma conhecimento pela imprensa, amplia
as suas dimensões. Cardoso ressalta que as concepções acima mencionadas fazem com
que a posição do índio na sociedade brasileira não lhe seja favorável e que uma
consciência deturpada sobre o mesmo continuará existindo a não ser que penetrem na
imprensa e nas escolas conhecimentos sobre sua situação real.

Mércio Gomes25 ressalta que o impacto do desconhecido que as populações


nativas provocaram nos europeus que ficaram chocados com hábitos considerados
cruéis, como o canibalismo e com a indiferença “para com os símbolos materiais” tão
valorizados pelo poder europeu, fez com que a própria humanidade indígena fosse
questionada. Entretanto, a condição de animalidade dos índios favorecia aos interesses
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 155
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
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dos colonizadores, pois justificaria sem muitos constrangimentos a escravidão e outras


práticas arbitrárias.
Para o pensamento europeu o estatuto de humanidade indígena foi
estabelecido em um documento do Vaticano expedido em 1537, que só se tornou
conhecido no Brasil um século depois quando reafirmado pela Bula Comissum Nobis
expedida pelo papa Urbano VIII, que ameaçava excomungar os escravizadores de
índios. Mas, posteriormente, de acordo com Gomes, este status de humanidade é
colocado em dúvida pelas teorias racistas, que se esforçam para demonstrar além de
desumanidade física, uma desumanidade cultural26. Ainda conforme este autor o
estatuto de “bons ou de nobres selvagens” dá lugar à idéia de que a “natureza é rude e
cruel” e de que a civilização é necessária. Assim, o “mito do bom selvagem” que
explica ao mesmo tempo “a bondade e a crueldade dos índios, a sua liberdade, a sua
ingenuidade, a sua sagacidade, a preguiça e a resistência física, a vida e a morte”, passa
a não ter mais tanta eficácia. Apesar desta concepção romântica continuar existindo e
ser acionada em algumas situações e, sobretudo entre o senso comum urbano, tanto nas
relações concretas entre indígenas e não-indígenas, bem como nas esferas político-
administrativas das metrópoles colonialistas e entre as elites coloniais, é mais freqüente
e mais intensa uma concepção dos indígenas como “grosseiros, brutos e cruéis”,
mentalidades mais passíveis de justificar fatos históricos que causaram a destruição de
aldeias indígenas inteiras27.

O Índio e os Textos Didáticos

Vários autores abordaram os conteúdos didáticos como possuidores de uma


dimensão ideológica que reproduz no microcosmo da escola as concepções de mundo
vigentes28. No que se refere à temática indígena, esta dimensão ideológica se revela
pela presença de noções que têm origem no final do século XV e início do XVI,
percorrem todo o período colonial e imperial e chegando à República de forma
renovada pelas noções de progresso e de evolução social, que concebem os modos de
vida indígenas como estágios provisórios rumo à civilização.
As imagens elaboradas a partir do ponto de vista do observador externo,
pela ótica do ocidente e das suas ideologias, modelam uma noção estereotipada, de um
índio selvagem, primitivo e genérico (não situado em um universo cultural específico),
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 156
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
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enfim, uma noção simplificada que acaba sendo tomada como modelo didático pelas
escolas e pelos textos escolares.
Faria29 analisa a concepção de trabalho no livro didático e aponta este
último como um difusor de preconceitos que reforça uma mentalidade que concebe o
índio como “‘selvagem’, desconhecendo o progresso, nu e enfeitado com cocares”.
Além disso, o índio é apresentado como não adepto ao trabalha, pois não se submete à
uma jornada de trabalho própria do modelo ocidental de sociedade “. Neste sentido, o
trabalho voltado para o abastecimento familiar e do grupo, que não obedece a horários
rigorosamente fixos não é tido como trabalho30.
Aracy Lopes, Almeida, Norma Telles e outros (1993) realizam estudos
sobre a questão indígena na sala de aula, o que resulta na organização de um livro cujo
prefácio afirma que os livros didáticos reproduzem a historiografia oficial, voltados para
a divulgação da história contada pela ótica do colonizador.
Almeida aborda o racismo nos livros didáticos das seis primeiras séries do
ensino fundamental e demonstra que, apesar de a princípio eles apresentarem-se contra
o racismo e de mostrarem-se tolerantes com relação aos grupos etnicamente diversos, e
orgulhosos de “uma nacionalidade que surge da diversidade”, uma leitura mais
aprofundada dos mesmos demonstra “... dificuldade em enfrentar a existência de
diferenças étnicas e sociais atuais na sociedade” Estas dificuldade se revelam pelo
patente “esforço de recalcar, para o passado e para o folclore, essas diferenças. Além
disso, os índios são apresentados como criaturas “cordiais e ingênuas”, que “trabalham
para os brancos” e são “preguiçosos”, “inimigos da colonização”, “perigos tropicais,
aliados a estrangeiros”. Aparecem também como mão de obra e em contextos em que
“os bandeirantes são vistos como heróis e em que o genocídio dos grupos indígenas é
uma necessidade para o progresso”31.
De acordo com Telles (1993:27) , a abordagem didática do índio
conservadoras e desejosa de adequar a realidade aos “desígnios convencionais”
cultivando “um modelo ideal de como as coisas deveriam ser” e esvaziando, assim, “a
história, os episódios narrados e os grupos étnicos envolvidos”.
Assim, é possível compreender essas concepções, imagens e textos como
informadas por um conjunto de elementos que podem ser utilizados na elaboração de
uma representação sobre o índio, que de acordo com o que se pretende demonstrar no
argumento, pode resultar, tanto em um índio caracterizado por a) heroísmo e coragem -
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 157
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

quando são mencionados heróis indígenas que serviram aos projetos de colonização; a)
pureza, ingenuidade e carência de proteção - quando são justificadas as intervenções
missionárias ou estatais – c) ou ainda preguiçoso, primitivo e selvagem, se seus
territórios são considerados mais do que necessitam e se são alvos de pretensões
lucrativas.

NOTAS

1 MONTAIGNE menciona escritos de Platão e Aristóteles para referir-se a ilhas e lugares


desconhecidos, mencionados por sacerdotes e profetas, localizados além do Atlântico, como é o
caso da suposta Ilha de Atlanta “mais extensa do que a África e a Ásia reunidas” ou de um lugar
mencionado em “as Maravilhas Extraordinárias” obra atribuída a Aristóteles, que relata a
aventura de alguns cartagineses que se aventuraram pelo Atlântico, além do estreito de
Gilbratar, e descobriram, após longa navegação, “...grande ilha fértil, coberta de bosques, regada
por grandes e profundos rios, e muito afastada da terra firme.” MONTAIGNE, Michel de. Dos
Canibais. In: Ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1991. p. 98. – (Coleção: Os pensadores, 18).
2 BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. A Imaginação do Desconhecido. In: Bessone,
Tânia Maria Tavares e Queiroz, Tereza Aline. América Latina: imagens, imaginação e
imaginário. Rio de janeiro: Expressão e Cultura; São Paulo: Edusp, 1997.
3 De acordo com Rocha, As representações permitem uma comunicação efetiva e “um
conhecimento facilmente partilhado e difundido” com base em categorias que são “acionadas
positiva ou negativamente” (Rocha, E. P. G. ob. cit).
4 Em Raça e História, Levi-Stauss ressalta que a humanidade termina nas fronteiras da
tribo e que por isso mesmo algumas populações ditas primitivas adotam auto-designações como
“os homens”, “os bons”, “os excelentes”, “os perfeitos”, enquanto designam os outros como
“maus”, “perversos”, “macacos da terra” etc. Rocha, E. P. G. ob. cit.p. 14 e 15.
5 MORUS, Thomas. A Utopia. Brasília: Editora de Universidade de Brasília, 1980, p. 36
(coleção Pensamento Político 23).
6 “... Ao mesmo tempo que ocupam a terra associam-se aos nativos, se é do seu agrado
viverem juntos. Graças a essa união voluntária e à unidade de instituições e de costumes , os
dois povos para seu maior proveito chegam, facilmente, a se transformarem num só. (...) Os
utopienses conseguem tornar fecunda, para a nova colônia, uma terra que seus primeiros
habitantes achavam rude e ingrata. As tribos que se recusam a viver sob suas leis são expulsas
dos territórios que anexaram. (...) se alguns resistem vão à guerra. Porque entendem ser um caso
de guerra inteiramente justificado: a posse, por um povo, de um solo que ele deixa inculto, inútil
e deserto, enquanto impede o aproveitamento e a posse a outros povos, que têm, em virtude de
prescrições da lei natural, o direito de retirar dele sua subsistência (Morus, T. Ob. cit. p. 17).
7 SHAKESPEARE, William. A Tempestade. Edição especial distribuída gratuitamente
pela Internet, através da Virtualbooks (abril de 2000).
8 Defoe, D. Robinson Crusoé. São Paulo / Rio de Janeiro / Porto alegre: W. M. Jakson
Inc. Editores, 1947, p. (p. 148-9). (Grandes Romances Universais, 1) e Defoe, D. As Aventuras
de Robinson Crusoé. Perto Alegre: LP&M, 2001.
9 Crusoé assim descreve o cenário de um lugar na praia onde houvera um rito de
canibalismo: “Fiquei apavorado com o que vi. Quando fui até a praia, e contemplei os horríveis
vestígios que deixaram, isto é, ossos, sangue e pedaços de carne humana, devorada com alegria
por aqueles miseráveis. Indignei-me tanto que pus a planejar o aniquilamento dos que viesse a
ver mais tarde, qualquer que fosse o seu número (Ob. cit. p. 149).
10 Defoe, D. Ob. cit. p. 162-5.
11 (Defoe, D. Ob. cit. p. 161).
12 Esta última aparece no texto principalmente através das ações dos inquisidores do Santo
ofício e dos autos de fé (Voltaire. Cândido ou o Otimismo. Porto Alegre: L&PM, 2000, p.27-8.
Ver Também: Voltaire. F. M. A. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,1978).
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 158
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

13 Voltaire. Ob. cit., 2000, p.75 e 76.


14 Quando Pangloss explica a Cândido a origem da doença que deixou o seu rosto
desfigurado, sem um olho e sem uma orelha, ele faz uma retrospectiva envolvendo uma cadeia
de personagens que tem início com “um dos companheiros de Colombo”, em Lima, na América,
passando por padres, jesuítas e franciscanos, aristocratas e criados e relações sexuais heréticas
(Voltaire. Ob. cit., 2000, p.19).
15 Uma das situações de canibalismo envolve os dois personagens: (...) Os Orelhões
habitantes do país (...)os garrotearam com cordas feitas de casca de árvore. Estavam rodeados
por uns cinqüenta orelhões, todos nus, armados com flechas, maças e machados de pedra: uns
preparavam espetos e, todos juntos, gritavam:’ É um jesuíta! É um jesuíta! Seremos vingados e
faremos uma boa refeição. Comamos o jesuíta...!’”.
16 Nesta e em outra ocasiões “ governo dos jesuítas no Paraguai é mencionado com ironia
( p. 58).?
17 Em um diálogo entre Cândido e Cacambo, este último explica ao primeiro uma cena
presenciada pelos dois em que “duas moças, inteiramente nuas, corriam com agilidade à beira
da pradaria, seguidas por dois macacos, que lhes mordiam as nádegas”, e insinua que mulheres e
macacos fossem amantes: “(...). Porque julgas tão estranho que em alguns países existam
macacos que obtenham as boas graças das damas? Eles são um quarto homens, como eu sou um
quarto espanhol” (Voltaire. Ob. cit., 2000, p.69).
18 MONTAIGNE, Michel de. Dos Canibais. In: Ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
– (Coleção: Os pensadores, 18).
19 ROUSSEAU, J-J. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
20 MONTAIGNE, M. ob. cit. p. 100.
21 Montaigne refere-se aos canibais americanos da seguinte forma: “(...) não vejo nada de
bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade cada qual considera bárbaro o
que não se pratica em sua terra. E é natural, porque só podemos julgar da verdade e da razão de
ser das coisas pelo exemplo e pela idéia dos usos e costumes do país em que vivemos. Neste a
religião é sempre melhor, a administração excelente, e tudo o mais perfeito” (Montigne, M. ob
cit. p. 99)
22 Conforme os autores citados, e stas concepções são gestadas no imaginário regional
como conseqüência do estranhamento provocado pelas diferenças culturais entre ambos, e
porque as populações regionais estão diretamente comprometidas com os interesses das
economias regionais, inclusive com a disputa de territórios, territórios o que acaba por
desencadear relações conflituosas e chegando mesmo a incentivar e legitimar massacres das
populações indígenas como os muitos já registrados na história do contato entre índios e
brancos no Brasil (Cardoso de Oliveira, R. A Sociologia do Brasil Indígena. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro e Brasília: Editora da UnB, 1978, p. 66 e Melatti, Júlio César. Índios do
Brasil. Brasília: Editora da UnB, 1987).
23 Melatti, Ob. Cit. p. 193.
24 De acordo com Melatti, os poetas romancista brasileiros, além de difundirem uma visão
romântica do índio, deturpam informações etnográficas. Assim, a índia Iracema de José de
Alencar atira flechas, enquanto este é um artefato usado só pelos homens, Aos Timbiras (grupos
filiados a línguas Jê), de Gonçalves Dias, são atribuídos nomes tupi-guarani (Melatti, J. C. Ob.
cit., p. 197).
25 Gomes, Mércio Pereira. Os Índios e o Brasil. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1991.
26 afirmando que os indígenas não tinham nem fé, nem lei, nem rei, porque não existia nas
línguas tupi of, oleor (áspero) Gomes, M. G. Ob. cit. p. 109.
27 Gomes explica esta falta de conhecimento sobre os indígenas no período colonial, à
falta de estudos sobre os mesmos. Tais estudos quando existiram, foram descrições etnográficas
feitas por jesuítas para fins de evangelização, sobre os Tupinambá ou outros grupos de língua
tupi (Gomes, M. G. Ob. cit. p. 110 e 115).
28 Esta compreensão se fundamenta principalmente na análise de Bourdieu sobre os
sistemas de ensino. In: BOURDIEU, Pierre, PASSERON, Jean-Claude. A reprodução:
elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro : F. Alves, 1975.
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 159
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

29 Faria Ana Lúcia G. A Ideologia no Livro Didático Faria, Ana Lúcia G. A Ideologia no
Livro Didático. São Paulo: Cortez, 1984.
30 Segundo Nosella, embora bastante freqüentes nos textos didáticos, os indígenas são
tratados como “figuras idealizadas”, ou como “raça em processo de extinção”. A resistência à
dominação colonialista, por parte dos indígenas, quase nunca é mencionada. São Eles são
apontados como “...leais colaboradores dos portugueses na conquista de suas próprias terras e
na exploração de suas riquezas”. (NOSELLA, Maria de Lourdes Chagas Deiró. As Belas
Mentiras e a ideologia subjacente aos Textos Didáticos., São Paulo: editora Moraes, 1981).
31 Leitão ressalta, além de questões já apontadas por outros autores, a ênfase que os
conteúdos didáticos dão ao evento da “descoberta do Brasil”. De modo geral, a idéia da
“descoberta” traz implícitas duas concepções de história: uma, que ignora toda a história
anterior a 1500 e outra, uma noção vaga, que se refere à incorporação de entidades geográficas à
Europa e assegura a continuidade da história européia, mas nega a existência e a autonomia de
grande parte da humanidade, pois em 1500, mais do que “ser descoberto” foi revelado à Europa
e através dela ao mundo” (LEITÃO, R. M. Padronização X Diversidade: as sociedades
indígenas no livro didático de 1º Grau (monografia). Goiânia: ICHL/UFG, 1994.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Tânia Maria Tavares Bastos & Queiroz, Tereza Aline. In: América Latina: imagens,
imaginação e Imaginário. São Paulo: Expressão e Cultura/Edusp, 1997.
Estácio de Sá – Ciências da Ciências Sociais Aplicadas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

A REPRESENTAÇÃO DO PROFESSOR
NOS FILMES HOLLYWOODIANOS∗

Edson Pereira da Silva∗*

Resumo: Abstract:

Este texto é fruto de uma experiência This text is result of an experience


desenvolvida com alunas dos três primeiros developed with students of three first
períodos do curso de Pedagogia da FECHA periods of teacher‘s course FECHA
(Faculdade de Educação e Ciências (Anicuns Humans Sciense and Education
Humanas de Anicuns). A principal meta foi Universit). The main aim was the
a apresentação e reflexão da imagem do presentation and reflection of the teacher‘s
professor nos filmes hollywoodianos como image in the movies of hollywood like
maneira de acesso ao conhecimento da way of acess to knowledge of philosophy
Filosofia da Educação. O texto trata de uma education. The text discuss a investigation
investigação da imagem do professor no of teacher‘s image in the cinema of
cinema hollywoodiano com a análise dos hollywood with anlysis of movies: go
filmes: Vem Dançar; O Sorriso de Monalisa; dance, Monalise‘s smile, Imperor‘s club,
O Clube do Imperador e Em Nome de Deus. and in the name of god. In this
Nessa investigação, foram utilizadas as investigation, we use the purpose to
proposições da análise do discurso com o analyse the spuch, with intention to
objetivo de identificar a maneira das identify the way of relations between
relações entre os personagens e o contexto characters and social context.
social.

Palavras-chave: Key-words:

Educação, cinema, professor, indústria Education, cinema, teacher, cultural


cultural. industry.

Introdução

O século XXI é o século da informação e da comunicação. O crescimento


da indústria cultural em toda sua multiplicidade de suportes, dos impressos aos
audiovisuais e eletrônicos, colocam-na como um dos mais importantes elementos da
produção simbólica por ocupar o tempo livre das pessoas com mais intensidade.
O cinema é uma das ferramentas pedagógicas de suma importância para a
educação nesse novo século que vem se caracterizando principalmente pelo uso das
novas tecnologias. A educação deve formar seres humanos. A utilização dos filmes em

∗ Este relato de experiência foi elaborado sob a orientação do prof. Dndo. Paulo Henrique Castanheira
Vasconcelos do departamento de História da FECHA/FACER/UEG. End. Eletrônico:
paulohcv@uol.com.br.
∗ * Graduado em filosofia pela UCG. Especialista em educação e modernidade filosófica também pela
ucg. Professor De Filosofia, Ética E Metodologia Científica Da Fecha (Faculdade De Educação E
Ciências Humanas De Anicuns).
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 162
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

sala de aula é mais uma destas ferramentas que permitem desenvolver atitudes críticas,
que ajudam a discernir e conhecer o mundo em que vivemos com toda sua diversidade.
Conforme a opinião de Libâneo (2005: 117):
O cinema é, portanto, um conteúdo que sintetiza razão e emoção, por meio
de imagens, movimentos, sons, que, juntos, compõem essa síntese. Ele não fala sobre as
coisas, ele ´representa‘ as coisas de outras formas, as audiovisuais, as cênicas, as
sonoras, as artísticas. Essas qualidades do cinema possibilitam o enriquecimento das
experiências de aprendizagem, porque o filme nos leva a formular uma idéia da
realidade com mais amplitude, para além da nossa própria experiência cotidiana, e para
além dos textos escritos sobre a realidade. Portanto, o cinema ajuda nossos alunos a
aprender a pensar, ajuda no desenvolvimento cognitivo e nas aprendizagens.
Em síntese, o cinema (Vídeo, DVD, TV), especialmente quando usado
pedagogicamente, atua de maneira eficaz na formação das alunas, nos aspectos
cognitivo, físico, afetivo, estético e moral. Conforme o autor supracitado, o cinema é
uma experiência cognitiva e estética muito rica para a formação. Quando bem usado na
formação acadêmica, ele possibilita mudança na capacidade de ser e agir diante do
mundo, auxiliando a educanda para pensar e agir em relação à sua própria vida, aos
outros, às situações de vida cotidiana. O mundo de hoje é cheio de imagens, diferente de
outras décadas em que prevalecia a palavra, isto é, a leitura escrita. Portanto, a
acadêmica de hoje é um ser humano que pensa, mas também que vê, que percebe
através da TV e das outras mídias. Há até uma tendência de a imagem se sobrepor à
palavra, o visual ao inteligível (Sartori, 2001).
Como frisou Libâneo, o filme nos leva a formular uma idéia da realidade
com mais amplitude. A seleção dos quatro filmes para a experiência com as alunas do
curso de Pedagogia da FECHA (Faculdade de Educação e Ciências Humanas de
Anicuns) tem justamente esse intuito de poder proporcionar, através dos exemplos,
modelos, atitudes dos educadores representados, a reflexão das nossas atitudes em sala
de aula como professores de crianças, adolescentes e até mesmo de pessoas adultas. Em
um mundo fragmentado como o nosso a ajuda dos filmes levaram as alunas a
aprenderem a pensar de maneira reflexiva e crítica e essa contribuição da Filosofia da
Educação em si representa uma grande vitória.
O texto pretende realizar uma análise de quatro produções cinematográficas
de Hollywood que possuem como foco central o universo do educador e têm o professor
como personagem principal, na tentativa de identificar, por meio das propostas
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 163
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

metodológicas da Análise do Discurso, como alguns elementos presentes no discurso de


gênero são utilizados para retratar o universo do educador e construir uma imagem
específica do professor.

Reflexões sobre o ensino da Filosofia da Educação

Este relato pontua reflexões sobre o ensino da Filosofia da Educação através


da produção cinematográfica dos filmes hollywoodianos com as alunas dos três
primeiros períodos do curso de Pedagogia da FECHA (Faculdade de Educação e
Ciências Humanas de Anicuns). A experiência pedagógica vivenciada pelo professor da
disciplina e pelas educandas foi bastante significativa e inovadora por ampliar a
interação social frente a outras formas de aprendizagens.
Os debates ocorridos em sala de aula sobre a problemática do ensino-
aprendizagem em Filosofia da Educação diante dos filmes analisados está centrado em
buscar compreender, neste primeiro momento, que a faculdade precisa juntar a imagem
e a palavra, porque aprendem-se coisas também pelas imagens.
A Faculdade de Educação e Ciências Humanas de Anicuns é mantida pela
Fundação Educacional de Anicuns – Autorizada pela Resolução nº 124, de 16 de maio
de 1985 do C.E.E. de cunho público, é uma faculdade de referência localizada no setor
Leste de Anicuns (GO). Com grande espaço físico, distribuído em salas de aula,
biblioteca, laboratórios de informática... Encontra-se bem estruturada para oferecer
cursos de extensão, graduação e pós-graduação.
Mediante as características físicas da faculdade, logo compreende-se o perfil
econômico das alunas do curso de Pedagogia pertencentes à classe C e, portanto, com
acesso aos aparelhos de televisão, vídeo cassete e/ou DVD para o lazer. É nesse sentido
que:
Os produtos da cultura da mídia, portanto, não são entretenimento inocente,
mas têm cunho perfeitamente ideológico e vinculam-se à retórica, a lutas, a programas e
a ações políticas. Em vista de seu significado político e de seus efeitos políticos, é
importante aprender a interpretar a cultura da mídia politicamente a fim de descodificar
suas mensagens e efeitos ideológicos (Kellner, 2001: 123).
Essa compreensão fez pensar em desenvolver atividades com as educandas
e levá-las a entender que o mundo que nos rodeia com seus aparelhos de
entretenimento, também pode auxiliar a interpretar a cultura da mídia e ampliar a crítica
ideológica para abranger a intersecção de sexo, sexualidade, raça e classe, e ver que a
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 164
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

ideologia é apresentada na forma de imagens, figuras, códigos genéricos, mitos e


aparato técnico de cinema, televisão, música e outros meios, bem como por intermédio
de idéias ou posições teóricas.
No caso específico do curso de Pedagogia, a reflexão feita como
problemática inicial surgiu do descontentamento por parte das educandas em estarem
estudando muita teoria e pouca reflexão prática durante as aulas de Filosofia da
Educação. A solução encontrada para o melhor aproveitamento das aulas surgiu do
debate entre o professor e as alunas salientando quatro estratégias para serem
desenvolvidas durante o semestre letivo:

1. Aulas expositivas com exercícios e debates;


2. Leitura de um livro a cada mês com exercícios pertinentes;
3. Didática e prática da filosofia em colégios do município;
4. Utilização do uso de filmes como recurso didático-pedagógico.

Diante dessas estratégias e procurando fugir das armadilhas que se fazem


presentes no cotidiano acadêmico e dos planejamentos pedagógicos, que suprem o
tempo apenas com informações administrativas, procurou-se diversificar o conteúdo
programático com atividades mais prazerosas para as educandas, como a utilização dos
filmes que foi o diferencial das aulas. Assinala-se, ainda, que a inserção dos filmes
como atividades diversas não pudessem ser vistos apenas como um recurso
complementar ao material didático, mas que possibilitassem às alunas pensar e refletir
sobre a prática filosófica.
Por outro lado, alguns teóricos defendem a idéia de uma indústria cultural
necessária para o debate e para a aquisição desses bens. Para o escritor Umberto Eco
(2001: 8-9):
[...] já que a televisão, o jornal, o rádio, o cinema e a estória em quadrinhos,
o romance popular e o reader‘s digest agora colocam os bens culturais à disposição de
todos, tornando leve e agradável a absorção das noções e a recepção de informações,
estamos vivendo numa época de alargamento da área cultural, onde finalmente se
realiza, a nível amplo, com o concurso dos melhores, a circulação de uma arte e de uma
cultura “popular”.
A atividade que mais sobressaiu foi a de produção cinematográfica em sala
de aula, que veio à tona perante as problemáticas discutidas nas aulas de Filosofia da
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 165
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Educação. Enfrentou-se, com atenção, o desafio de procurar pistas que sinalizassem


indícios para forjar práticas e experiências no ato de ensinar e aprender filosofia.

O cinema e a formação de professores

A Pedagogia trabalha com a interação entre seres sociais, tanto no nível do


intrapessoal como no nível da influência do meio, interação essa que se configura numa
ação exercida sobre sujeitos ou grupos de sujeitos visando provocar neles mudanças tão
eficazes que os tornem elementos ativos desta própria ação exercida. Conforme Libâneo
(2005: 118), “A pedagogia lida com a transmissão e interiorização de saberes e modos
de agir implicados nos múltiplos processos de formação humana”. Compreende-se essa
formação humana como ajudar as pessoas a promover mudanças qualitativas no seu
desenvolvimento e na sua aprendizagem.
Após dois anos trabalhando estágio supervisionado com as formandas do
curso de Pedagogia da FECHA no município de Anicuns, percebe-se a necessidade de
proporcionar uma preparação profissional mais eficaz quanto a utilização das novas
tecnologias, principalmente, o uso do cinema para o enriquecimento dos mais diversos
temas estudados.
Não basta que os professores disponham na escola dos meios de
comunicação ou apenas aprendam a utilizá-los. É preciso que aprendam a elaborar e a
intervir no processo comunicacional que se realiza entre professores e alunos por meio
de mídias, já que elas são conteúdos, veiculam idéias, opiniões, práticas. Contra uma
idéia linear e simplista sobre o uso das mídias, é preciso que professores e alunos
elaborem e transformem idéias, sentimentos, atitudes, valores, utilizando
articuladamente múltiplas mídias, escolares e não-escolares (Libâneo, 2005: 122).
A importância da educação pela mídia acontece devido a televisão e o
cinema serem cada vez mais instrumentos poderosos no processo de socialização. O uso
do cinema e da televisão durante as aulas tornou-se imprescindíveis, porque pela
experiência em trabalhar com a imagem, a discussão dos conteúdos dos filmes, a
compreensão da técnica cinematográfica, às alunas vão compreendendo a linguagem
desses meios e aprendem a fazer uma leitura crítica dos programas e dos filmes
veiculados pelos meios de comunicação de massa. A tentativa com essa prática em sala
de aula é a de garantir um espaço propício no mundo globalizado para atividades e
SILVA, Edson Pereira da SILVA. A representação do professor nos filmes 166
hollywoodianos. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá.
Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 163-179, Dez. 2008 / Jun. 2009.

estudos sobre o cinema e com ele desenvolver competências que auxiliem as futuras
professoras no cotidiano escolar.
Para Rezende e Fusari (1994), “Os bons pedagogos sabem hoje qual é o
papel pedagógico das mídias, especialmente do cinema e da televisão elas são, ao
mesmo tempo, portadoras de conteúdo e meios tecnológicos da comunicação humana
(visuais, cênicos, verbais, sonoros e audiovisuais)”. Todavia, esses meios de
comunicação não substituem a Pedagogia. A escola convencional continua tendo seu
espaço e importância mediante todas essas transformações. Com efeito, as mídias são
mediações culturais e educacionais que educam e auxiliam a formar subjetividades. Os
valores e as crenças transmitidas por esses meios ajudam na formação da personalidade
das educandas que serão também formadoras das novas personalidades.
Como nos lembra Libâneo (2005: 121), “Quem domina as mídias acaba por
dominar as cabeças das pessoas, que é o que vemos acontecer na televisão, nas
campanhas políticas, na propaganda”. O domínio exercido através dos meios de
comunicação sobre as representações, o imaginário das pessoas e os discursos precisam
considerar os aspectos pedagógicos e da ética para evitar que o encantamento com os
meios de comunicação deixem em segundo plano os aspectos do desenvolvimento e
formação humana.

Desenvolvendo a experiência: a representação do professor nos filmes


hollywoodianos

Desde o tempo em que alguém imprimiu as primeiras gazetas, e depois com


o nascimento do jornal, a relação entre condicionamentos externos e fato cultural
tornou-se ainda mais precisa. A essa altura começa o fenômeno conhecido como
indústria cultural, que surge, portanto, como um sistema de condicionamentos, aos quais
todo operador de cultura deverá prestar contas se quiser comunicar-se com seus
semelhantes. Isto é, se quiser comunicar-se com os homens, porque agora todos os
homens estão preparados para tornarem-se seus semelhantes, e o operador de cultura
deixou de ser o funcionário de comitê para ser o “funcionário da humanidade” (Eco,
2001: 14).
Na realidade, a indústria cultural gerou e gera um círculo de manipulação e
necessidades derivadas que a unidade do sistema tornou cada vez mais impermeável,
tornando a racionalidade uma técnica de dominação em que é o caráter repressivo da
sociedade que se auto-aliena. O objetivo dessa experiência é auxiliar as alunas do curso
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de Pedagogia na arte da análise e na utilização do audiovisual como um recurso eficaz


no estudo, no lazer e na cultura.
Durante os dois anos de realização dessa experiência, trabalhou-se para que
as educandas estivessem aptas a ver um filme e pudessem realizar sua interpretação
crítica como também a usá-lo de maneira didática durante uma aula, palestra ou evento
similar. A atualização contínua fez com que as alunas procurassem habilitar-se e
preparar-se para desenvolver um trabalho permanente que mostrasse como o cinema
pode ser usado no cotidiano:

1. Iniciar a discussão de um assunto ainda não abordado e lançar uma questão a ser
investigada;
2. Desenvolver um conteúdo;
3. Perceber o contexto histórico a que o filme se refere, o que ele está mostrando e que
fenômenos e fatos são retratados;
4. Explorar a estrutura narrativa e como ela foi desenvolvida no filme (Bencini, 2005:
49).

O ensino da Filosofia da Educação carrega hoje a proposta de contribuir


para a intencionalização da prática educacional a partir de sua própria construção em ato
como presença atuante na sociedade. Conforme Bencini (2005: 48), “A desordem
cultural persistirá enquanto a escola pretender educar as crianças com instrumentos e
sistemas que tiveram validade há 50 anos. (...) Subsistirão as lições, os braços cruzados,
as memorizações enquanto fora da escola haverá uma avalanche de imagens e de
cinema”.
Diversos são os motivos que contribuem para o baixo rendimento das alunas
em Filosofia da Educação: apresentação de um conhecimento pronto e acabado, a
organização curricular, os objetivos, conteúdos e atividades ou com procedimentos
utilizados na sala de aula por parte do professor, os excessos de conteúdos presentes nos
livros e textos selecionados as atividades descontextualizadas da realidade das alunas e
ausência de aulas de campo que promovam a prática fora da sala de aula.
Diante das dificuldades encontradas procurou-se desenvolver essa atividade
com o uso do filme objetivando levar as alunas à ruptura com o universo tradicional só
de leituras, exercícios e provas para um novo processo inovador, ágil e dinâmico. Essa
experiência com as educandas do curso de Pedagogia sugeriu uma reflexão sobre a
produção cinematográfica dos filmes hollywoodianos que apresentassem uma temática
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relacionada à vida cotidiana do professor e do aluno. O uso dos filmes foi escolhido por
ter provocado uma maior inquietação nas nossas alunas, sendo possível levá-las a
abordar e questionar a compreensão do vivido e do presente fazendo com que o
encantamento com as lições fílmicas motivasse a prática pedagógica.
Diante dos vários filmes existentes no mercado que tratam da representação
do professor nos filmes de Hollywood optamos por trabalhar com os quatro que mais
marcaram nossas educandas: Vem Dançar, de 2006; O Sorriso de Monalisa, de 2003; O
Clube do Imperador, de 2002 e Em Nome de Deus, de 1988.
O filme Vem Dançar1 é uma grande lição de vida e exemplo, pois mostra a
realidade pela qual passam muitos jovens que ficam uma parte do tempo na detenção da
escola, e um professor de dança: Pierre Dulaine, que se oferece para ajudá-los através de
suas aulas de dança. No começo, o professor teve algumas dificuldades com os alunos,
mas ele não desistiu e continuou, procurando motivá-los e encorajando-os, fazendo com
que aprendessem a confiar em si mesmos para que ninguém os manipulassem e nem os
colocassem em uma escala inferior, procurou mostrar também que a sociedade não é
uma divisória e que todos têm direitos iguais, desde que lutem e trabalhem para alcançar
seus objetivos.
O professor: Pierre Dulaine foi um exemplo para muitos educadores que
passaram e ajudaram milhares de estudantes, ele sim, fez a diferença. “A inteligência
dos alunos não é um vaso que se tem de encher, é uma fogueira que é preciso manter
acesa”. Essa fala do professor durante o filme alerta que todo ser humano nasce com um
potencial, mas é preciso que dia após dia esse potencial seja alimentado; pois se
deixarmos que o descaso dos governantes e parte da sociedade que detém os recursos
financeiros, tecnológicos e culturais continuem manipulando a inteligência e o potencial
dos jovens, vão a cada dia se tornando em meras cinzas, incapazes de produzir algo útil.
Esse filme gerou a reflexão em torno das relações de poder tão freqüentes na
sociedade brasileira e que podem ser verificadas entre os gêneros. O professor Dulaine
revela a necessidade do “pathos”, o espanto que nutre o educador a continuar se
adaptando às mudanças para poder promover uma educação de qualidade. Os alunos de
castigo daquela escola pública de Nova York lembram as crianças e jovens da maioria
das escolas municipais e públicas no nosso país. Aqueles interessados em hip-hop, os
nossos amantes desse estilo de música e muitas vezes mergulhados no crime, nas drogas
e roubo. O mais importante é que o professor consegue trabalhar como voluntário na
escola e conquista a confiança da turma e os motiva a aprimorar suas habilidades.
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No filme O Sorriso de Monalisa2, uma professora serve de inspiração para


suas alunas, após decidir lutar contra normas conservadoras do colégio em que trabalha.
Esse filme recria a atmosfera e os costumes do início da década de 50. A profa.
Katherine Watson estimula as alunas a estudarem Arte Moderna, levando-as a um
depósito em Boston para olharem um quadro de Jackson Pollock. O filme conta a
história dessa professora de arte que educada na liberal Universidade de Berkeley, na
Califórnia. Enfrenta uma escola feminina, tradicionalista – Wellesley College, onde as
melhores e mais brilhantes jovens mulheres dos Estados Unidos recebem uma
dispendiosa educação para se transformarem em cultas esposas e responsáveis mães.
O esforço da profa. Katherine para gerar um pensamento e uma ação
independente naquelas garotas acaba sensibilizando uma das alunas, Joan Brandwyn,
que irá buscar sua formação em Direito na Yale Law School, no final. Embora aceita,
ela desiste porque o noivo entrou em outra faculdade e ela não poderá ficar longe do lar,
após se casar. Katherine, embora lutando pelo desenvolvimento mental e cultural das
jovens, será também envolvida nos temas que tanto preocupam as alunas de Wellesley:
o amor, as festas, o brilho na sociedade, o casamento, etc. Ela transita, com sucesso e
beleza, neste meio, acabando por se apaixonar pelo professor de italiano.
O filme, porém, trará à tona, embora de forma não profunda, temas
fundamentais que começam a ser discutidos naquele momento como a aceitação da
infidelidade masculina e a obrigatoriedade da sua compreensão pela mulher, a
possibilidade de uma mulher escolher uma carreira em detrimento do casamento, e
assim por diante.
Ao verem o filme, as alunas solicitaram a presença de um artista plástico
para uma palestra em que apresentasse algumas contribuições e reflexões sobre alguns
dos quadros mostrados durante a exibição. Foi convidado o artista plástico Ricardo
Gomes, que, prontamente, atendeu a solicitação e veio para uma exposição com a
turma. Salientou que a Arte Moderna é a expressão do crescimento e da força; frisou
também que a arte do século XX foi marcada por obras que exigem respostas e não a
contemplação.
O primeiro quadro comentado: Monalisa, quadro de Da Vinci também
conhecido como (A Gioconda) famosa mulher pintada por Leonardo da Vinci, cuja
expressão é introspectiva, leve, enigmática com um triste sorriso. Ricardo salientou que
o esforço de Katherine foi o de levar as alunas a se interessarem vivamente por arte e,
através deste interesse construírem a si próprias enquanto pessoas que têm opiniões
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pessoais. O segundo quadro analisado foi “Lês Demoiselles d`Avignon” de Pablo


Picasso, uma das mais importantes obras do que se chamaria Arte Moderna. Trata-se de
mulheres em um bordel, em posições sedutoras, mas pintadas de forma plana e não com
linhas arredondadas, como é o clássico corpo feminino. Elas nos olham e solicitam um
posicionamento. O terceiro quadro apreciado “Greyed Rainbow” de Jackson Pollock é
outra referência da Arte Moderna que o filme evocou. Esta obra foi finalizada três anos
antes da morte de Pollock, vítima de um acidente de carro. O movimento, a textura, o
jogo de cores e formas do quadro são capturados por uma câmera que se aproxima,
investigativa da obra, aceitando o convite de Katherine: “Simplesmente olhe”. O quarto
e último quadro comentado foi na verdade o primeiro apresentado pela profa. Katherine
no filme: “Carcaça”, de Chaim Soutine, discípulo de Rembrant. Soutine é um dos
representantes da Arte Moderna e traduz como ninguém o desespero pela falta de
sentido que vê na vida.
No filme O Clube do Imperador3, o processo de ensino-aprendizagem do
professor William Hundert (Kevin Kline) era dinâmico, motivado. Ele procurava
ensinar seus alunos através de exemplos, livros, quadros e, principalmente, incentivava
a se cobrirem de panos para que pudessem se sentir no tempo e viverem o personagem
da história. Assim se expressavam melhor e preparavam para a prova que tinham na
escola da qual o vencedor teria como prêmio uma foto sua na exposição.
A metodologia do professor visava um conhecimento crítico, pois ele
procurava fazer com que os alunos refletissem sobre o valor e a responsabilidade de
estudar para vencerem e serem alguém na vida, com respeito, dignidade e sabedoria.
Lembra Aristófanes quando afirma: “[...] A ignorância pode ser educada, a estupidez
pode ser eterna”. Com essa fala demonstra seu credo no valor da verdadeira educação
como aquela que proporciona o pathos=espanto com a vida, com o mundo e com tudo
que está a nossa volta.
O que o professor espera de seus alunos é que eles se formem, tenham
conhecimentos e principalmente se tornem cidadãos com valores morais, que saibam
respeitar o próximo, ser honestos, lutar por justiça e por igualdade. O próprio lema da
escola para rapazes Sant Benedict‘s: “o fim depende do começo” é um indicativo
daquilo que o prof. Hundert – um apaixonado pela história antiga – almeja da escola que
deve ser o ambiente cujos alicerces são a tradição e a honra, onde se ministram aulas em
que a emoção e a alegria deverão estar sempre presentes.
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Apesar de tudo que o professor fez, mostrou que há dificuldades e


problemas em uma sala de aula. O importante é nunca desistir, deve-se motivar, dedicar,
procurar novas técnicas e lutar até o último minuto para transformar e formar
verdadeiros cidadãos para a sociedade. O Sr. Hundert compreende que o dever de um
professor é ensinar que o ensino mude o caráter de um menino e o transforme num
grande homem. Esse filme apresentou fortes lições de moral do prof. Hundert a seus
alunos. Outra boa qualidade foram as frases em latim usadas pelo prof. com um forte
apelo ao caráter, à retidão e à honestidade. “O caráter de um homem é o seu destino”,
essa é uma das pérolas apresentadas. A metodologia utilizada foi o ponto central de
análise com a turma.
Vários aspectos foram observados no filme Em Nome de Deus4. O primeiro
mostra, de uma forma geral, a sociedade de uma época, muito conservadora, cheia de
princípios morais e, principalmente, religiosos, baseada numa crença coletiva e, por esse
motivo, uma sociedade regida por regras de comportamento, o que por sua vez, torna-a
preconceituosa com aquilo que não condiz com os seus parâmetros de comportamento
já pré-estabelecidos pela mesma, e é este preconceito que vai gerar os conflitos da
história.
Embora, a princípio, o filme mostre uma sociedade conservadora, no
decorrer das cenas, vai se revelando uma outra realidade: a que vai além das aparências.
Percebe-se que a sociedade é capaz de muitas coisas que não se encaixam na imagem
passada a princípio, uma sociedade capaz de matar, mentir, ferir, enganar, capaz de tudo
por dinheiro e poder. Fatos estes comprovados por algumas cenas, por exemplo, a cena
que mostra a falsificação de relíquias religiosas em que um dos personagens as prepara
e depois as vende por preços absurdos, dizendo ser ossos de Cristo etc. Outra cena
muito forte e de grande injustiça foi quando castraram o professor de filosofia Peter
Abelardo. São inúmeras as cenas que revelam a contradição de princípios e valores
dessa sociedade.
Mas o filme não revela apenas o negativo, também mostra exemplos muitos
bonitos de dedicação, idealismo, força de vontade, perseverança, tudo isso ligado a uma
grande história de amor, que nem a maldade e o preconceito de uma época foram
capazes de destruir, deixando para quem pôde assistir grandes contribuições e exemplos
para a vida, tais como: lutar por um ideal, perseverar naquilo que se acredita mesmo que
muitos duvidem e até critiquem, vencer o preconceito e o medo de tentar, e mostrou que
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é preciso exercitar e dar valor a verdade que mais alivia do que machuca e certos de que
ela estará sempre acima de qualquer falsidade como o óleo sobre a água.
Esse filme motivou um caloroso debate em sala de aula, pois proporcionou
duas grandes lições: a nomeação do prof. Peter Abelard para Escola Catedral de Notre
Dame, tornando-se, em pouco tempo muito conhecido com sua sabedoria por fazer uso
da dialética em suas aulas. O respeito e o envolvimento com os discípulos chamaram a
atenção de todos. O amor sentimento dos sentimentos que envolveu Abelardo e Heloísa
intrigou toda a turma por transmitir a vitalidade e a persistência com que lutaram para
estarem juntos.
Pretendendo ampliar o conhecimento fílmico e buscando encontrar outros
fatores relacionados ao uso de outras linguagens no ensino da filosofia da educação,
nossas reflexões procuraram compreender três pontos:

1-elaboração de eixos norteadores;


2-exibição dos filmes selecionados em sala de aula;
3-atividade motivadora.

No primeiro momento juntamente com as alunas, foram elaborados os eixos


norteadores em consonância com o ementário da disciplina: Filosofia e Educação;
Educação e Sociedade; Tendências Pedagógicas na Prática Escolar; O Conhecimento –
Elucidações Conceituais e Procedimentos Metodológicos.
No segundo momento, procurou-se, após uma breve reflexão técnica e
interpretativa sobre a disciplina, enfatizar a importância dos filmes para a formação da
futura pedagoga. Através dos debates, foram feitas reflexões sobre o conhecimento
prévio que as educandas tinham sobre o valor do educador abordado nos filmes. Essa
experiência teve a duração de quatro meses, ou seja, de um semestre letivo, sendo que a
cada mês era projetado um filme. Isso ocorreu durante os dois anos em que foi feita a
experiência.
A exibição dos filmes em sala de aula foi a maneira encontrada para
proporcionar novos elementos enriquecedores para as aulas de Filosofia da Educação,
notando didaticamente a relação cinematográfica com o ensino da filosofia no curso de
Pedagogia. A problematização das imagens, a época, os gestos, as formas de expressão
do mundo complexo do educador fizeram com que as alunas percebessem como é o
espaço do professor em uma sala de aula.
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Finalmente, o terceiro momento é a atividade motivadora. Depois da


exibição dos filmes e debates, as alunas reuniram-se em sala de aula e, em grupos,
foram convidadas a realizar duas atividades consideradas importantes para a
compreensão dessa experiência: 1. Análise do filme – Nesse momento foram entregues
aos grupos questões referentes aos filmes exibidos para serem preenchidas. As alunas
registraram a representação do professor e dos educandos na visão do cineasta; a
contextualização histórica do filme; anotação dos pontos positivos e negativos da
compreensão dos filmes; e considerações apreendidas. 2. Produção e apresentação de
um texto produzido pelos grupos, tomando como referência a análise dos filmes.
Conforme a aplicação da atividade foi importante apreender e observar a
dimensão histórica, os pontos que guiaram a reflexão de nossas alunas, as reflexões
sinalizadas e a certeza de que os momentos compartilhados a partir da própria
experiência de vida auxiliam a contextualizar os conceitos percebidos nos filmes.
As avaliações dos grupos foram feitas de forma contínua, ou seja, por meio
do acompanhamento das atividades realizadas tanto individualmente quanto em grupo.
Os melhores trabalhos serviram para publicação no jornal Integração do Departamento
de Educação da FECHA. Os debates em sala foram realizados tomando como parâmetro
a produção dos textos pelos próprios grupos.
De maneira geral, houve o envolvimento e a participação das alunas por
sentirem o mérito desse tipo de atividade como uma ação pedagógica. Nos filmes
assistidos, o professor, o aluno e a escola parecem ter ainda lugares essenciais na vida
das pessoas, embora essa realidade esteja se transformando.

Considerações finais

É importante salientar que durante as exibições dos filmes, as alunas além


de perceberem a importância da produção cinematográfica como recurso didático,
compreenderam também que o uso dos recursos tecnológicos é de suma importância
para o processo ensino-aprendizagem.
Ressalta-se que a estrutura das aulas de Filosofia da Educação obedece a
uma estrutura e esta não exclui a história cronológica. Portanto, a escolha dos quatro
filmes para a exibição e o estudo em sala de aula buscou compreender a necessidade do
questionamento do tempo histórico abordado nas apresentações. Também é importante
perceber que:
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As transformações sociais se dão em um tempo diferenciado, ´num tempo


histórico‘, que deve exprimir e explicar essa mudança. É a esse tempo – que
chamaremos de tempo histórico – que devemos ficar atentos e não somente
ao que podemos chamar de tempo físico ou tempo cronológico. O tempo
histórico exprime, explica o processo que sofre a realidade social em estudo
(Cabrini, 1994: 36).

Os filmes trouxeram uma forma de representação do real. A análise


realizada dos tópicos propostos para estudo leva a considerá-los como conjuntos em que
a inserção de cada elemento possui um significado, o que cria a necessidade de
apreender os esquemas que presidiram a relação e a organização das diferentes partes
que o constituem. Conforme Kornis (1992: 11), “O filme possui um texto visual que
merece, assim como o texto escrito, uma análise interna e, como artefato cultural possui
sua própria história e um contexto social que o cerca. Reside aí a complexidade da
análise fílmica para a história social”.
Ainda que venham ocorrendo transformações na sala de aula cada vez mais
rápidas, percebe-se que o professor deve fazer uso das novas mídias e de outras formas
metodológicas com o intuito de possibilitar às educandas uma reflexão do tempo vivido
e das experiências do presente. Tudo isso leva os professores comprometidos e
engajados com o departamento, com a faculdade e com a educação a buscarem novas
metodologias, técnicas e estratégias que procurem situações a fim de propiciar
dinâmicas na busca da compreensão da filosofia da educação.
Mesmo reconhecendo que a sociedade contemporânea está mergulhada num
mundo de imagens, constata-se a diversidade de questões que se colocam ao professor
que faz a opção em trabalhar com os filmes. Dessa forma, a produção cinematográfica
foi uma maneira encontrada pelo professor e pelas alunas para vivenciarem na prática
outras linguagens tomadas como fontes para interpretar a construção do conhecimento.

NOTAS

1 Marca a estréia da diretora veterana de comerciais e videoclipes Liz Friedlander, que já


dirigiu para vários artistas como Joss Stone, U2, Blink 182 Simple Pan. Em sua preparação para
o papel, Antônio Banderas teve aulas de dança com coreógrafa JoAnn Jansen, que trabalhou em
Dirty Dancing e Baila comigo.
(Dados capturados no site www.adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes, acesso em
30 de julho de 2007).
2 Premiação: recebeu uma indicação ao Globo de Ouro, na categoria de melhor canção
original (“The Heart of Every Girl”). Curiosidade: para se preparar para o papel a atriz Julia
Roberts assistiu a algumas aulas de História da Arte na Universidade de Nova York. (Dados
capturados no site www.adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes, acesso em 30 de julho de
2007).
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3 Esta é a segunda vez que o diretor Michael Hoffman e o ator Kevin Kline trabalham
juntos. A anterior fora em Sonhos de uma noite de verão (1999). (Dados capturados no site
www.adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes, acesso em 30 de julho de 2007).
4 Pierre Abélard (1079-1142) foi teólogo e filósofo francês, nascido em Lê Pallet, perto
de Nantes, considerado um dos maiores intelectuais do século XII com especial importância no
campo da lógica, e precursor do racionalismo francês. (Dados capturados no site
www.beatrix.pro.br/cultobsc/heloidecem.htm, acesso em 30 de julho de 2007).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CABRINI, Conceição. et.al. O ensino de história: revisão urgente. 5 ed. São Paulo: Brasiliense,
1994.
ECO, Humberto. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre o
moderno e o pós-moderno. Trad. Ivone Castilho Benedetti. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
KORNIS, Mônica Almeida. História e cinema: um debate metodológico. Estudos Históricos.
Rio de Janeiro: vol. 5, n. 10, 1992, pp. 237-250.
LIBÂNEO, José Carlos. A importância do cinema na escola. Educativa. Goiânia: vol. 8, n. 1,
jan-jun de 2005, pp. 117-124.
REZENDE; FUSARI, M. Multimídias e formação de professores e aluno: por uma produção
social da comunicação escolar da cultura. In: VVI EDIPE. Anais... Goiânia, 1994.
SARTORI, G. Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
www.adorocinema.cidadeintenet.com.br/filmes, acesso em 23 de julho de 2007.
Anexo: ficha técnica e sinopse dos filmes
1. Título: Vem dançar
Gênero: Drama
Tempo de duração: 108 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2006
Direção: Liz Friedlander
Roteiro: Dianne Houston
Produção: Christopher Godsick, Michelle Grace e Diane Nabatoff
Edição: Robert Ivison
Elenco: Antônio Banderas (Pierre Dulaine), Rob Brown (Rock), Dante Basco (Ramos) e Lyriq
Bent (Easy)
Sinopse: Pierre Dulaine (Antônio Banderas) é um dançarino de salão profissional, que se torna
voluntário para dar aulas de dança em uma escola pública de Nova York. Pierre tenta apresentar
seus métodos clássicos, mas logo enfrenta resistência dos alunos, mais interessados em hiphop.
É quando desse confronto nasce um novo estilo de dança, mesclando os dois lados e tendo
Pierre como mentor.
2. Título: O sorriso de Monalisa
Gênero: Drama
Tempo de duração: 125 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2003
Direção: Mike Newell
Roteiro: Lawrence Konner e Mark Rosenthal
Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff e Deborah Schindler
Edição: Mick Audsley
Elenco: Julia Roberts (Katherine Watson), Kirsten Durnst (Betty Warren), Julia Stiles (Joan
Brandwyn), Maggie Gyllenhaal (Giselle Levy), Marcia Gay Harden (Nancy Abbey) e Topher
Grace (Tommy Donegal).
Sinopse: Em 1953, a recém graduada Katherine Watson (Julia Roberts) torna-se professora de
História da Arte do respeitado e conservador colégio Wellesley. Decidida a lutar contra normas
tradicionais que existem na sociedade e no próprio colégio, a jovem professora inspira suas
alunas, como Betty (Kirsten Dunst) e Joan (Julia Stiles), a vencer seus desafios de vida. Uma
espécie de Sociedade dos Poetas Mortos na versão feminina.
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3. Título: O clube do imperador


Gênero: Drama
Tempo de duração: 109 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2002
Direção: Michael Hoffman
Roteiro: Neil Tolkin, baseado em curta-metragem de Ethan Canin
Produção: Marc Abraham e Andy Karsch
Edição: Harvey Rosenstock
Elenco: Kevin Kline (William Hundert), Emile Hirsch (Sedgewick Bell), Embeth Davidtz
(Elizabeth Brewter), Chris Morales (Eugene Field), Luca Biginini (Copeland Gray) mais velho
e Patrick Dempsey (Louis Massoudi) mais velho.
Sinopse: William Hundert (Kevin Kline) é um professor da St. Benedict‘s, uma escola
preparatória para rapazes muito exclusiva que recebe como alunos a nata da sociedade
americana. Lá Hundert dá lições de moral para serem aprendidas, através do estudo de filósofos
gregos e romanos. Hundert está apaixonado por falar para seus alunos que “o caráter de um
homem é o seu destino” e se esforça para impressioná-los sobre a importância de uma atitude
correta. Repentinamente algo perturba esta rotina com a chega de Sedgewick Bell (Emile
Hirsch), o filho de um influente senador. Sedgewick entra em choque com posições de Hundert,
que questiona a importância daquilo que é ensinado. Mas, apesar desta rebeldia, Hundert
considera Sedgewick bem inteligente e acha que pode colocá-lo no caminho certo, chegando
mesmo a colocá-lo na final do Senhor Júlio César, um concurso sobre Roma Antiga. Mas
Sedgewick trai esta confiança arrumando um jeito de trapacear.
4. Título: Em nome de Deus
Gênero: Romance
Tempo de duração: 105 minutos
Ano de lançamento (Inglaterra/Iuguslávia): 1988
Direção: Clive Donner
Roteiro: Chris Bryant
Produção: Susan George
Edição: Michael Ellis
Elenco: Derek de Lint (Peter Abelard), Kim Thomson (Heloise), Denholm Elliot (Fulbert),
Kenneth Cranham (Seiger), Patsy Byrne (Agnes) e Cassie Stuart.
Sinopse: Em Paris, no século XII, o respeitado professor e filósofo da Escola de Notre Dame
Peter Abelard (Derek de Lint) é contratado para ser o tutor da bela e inteligente Heloise (Kim
Thomson). Rapidamente eles se apaixonam, mas precisam manter seu relacionamento
escondido de todos porque Abelard está comprometido com o celibato.
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 180-194, Dez. 2008 / Jun. 2009.

CEMITÉRIOS OITOCENTISTAS
COMO LUGARES DE MEMÓRIA

Gleidson de Oliveira Moreira∗

Resumo: Abstract:

Nada é tão individual quanto à morte, por Nothing the death is so individual how
ser intransferível. Todo conhecimento a much, for being intransferable, All
seu respeito é indireto, pois somente é knowledge its respect is indirect, therefore it
apreendido pela morte do outro. Isso gera, is only apprehended by the death of the
ainda, a exacerbação dos signos tumulares other. This generates, still, the exacerbation
para tornar visível o ser em detrimento do of the signs tumulares to become visible the
nada, buscando dar um sentido de presença being in detriment of the nothing, searching
e recordação eterna ao ausente. Esse artigo to give to a direction of presence and
abordará os cemitérios oitocentistas como perpetual memory to the absentee. This
lugar de memória, observando o caso article will approach the cemetaries
específico do Cemitério São Miguel de oitocentistas as memory place, observing
Arcanjo na cidade de Goiás. the specific case of the Cemetary Is Miguel
de Arcanjo in the city of Goiás.

Palavras-chave: Key-words:

Morte; Cemitérios; Lugar-memória; Goiás. Death; cemeteries; place-memory, Goiás.

Todo e qualquer cemitério, e particularmente o cemitério oitocentista, é um


lugar de reprodução simbólica do universo sócio-cultural e de expectativas metafísicas.
Esta primeira característica determina a existência de uma relação dos mortos e a
memória. Com efeito, esta pode ser definida como um conjunto de recordações e de
imagens associadas a representações, as quais conotam valores e normas de
comportamento elaboradas e ou “inventadas”. Como defende Paul Ricoeur ao comparar
a memória e imaginação, a última invoca o ausente como irreal, a memória representa-o
como anterior à evocação, sugerindo assim uma dimensão “veritativa”1.
Se ontologicamente a morte remete para o não-ser, é na memória dos vivos,
que os mortos poderão ter uma existência mnésica. As imagens produzidas a partir da
lembrança garantirão sua existência. Ganha desta maneira significado o cemitério
ocidental que estruturado como uma textura de signos e símbolos “dissimuladores” do
sem sentido - a morte – e, “simuladores” da somatização do cadáver, tornará o cemitério

∗ Mestre em História pela UFG. Este artigo é resultado parcial da pesquisa: “O cotidiano da morte em
Goiás no Século XIX”.
MOREIRA, Gleidson de Oliveira. Cemitérios oitocentistas como lugares de memória. 178
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES –
GO. VOL. 01, Nº 01, 180-194, Dez. 2008 / Jun. 2009.

um campo simbólico que, se convida à anamnesis,2 encobrindo o que se pretende


esquecer e recusar.3 Isso implica dizer que a função do símbolo funerário é uma
metáfora do corpo e o cemitério compreende o lugar de recusa do esquecimento, pois
este compensará o lugar de recusa do esquecimento do morto pela objetivação dos
desejos de sua eternidade. Os vivos não querem ser esquecidos depois de mortos.
Diante a incompreensibilidade do ser esquecido pela morte, tratará esse
texto do Cemitério oitocentista como lugar de memória-construída, memória que
emerge como protesto compensatório da morte. Buscará no estudo específico do
Cemitério São Miguel de Arcanjo da cidade de Goiás, evidenciar a “morte do outro”,
morte antevista; recordação do finado constituindo a morte de quem se antevê morto
uma “representificação” quando rememorado e, por conseguinte, perpetuado na
memória dos vivos. 4
Para tanto, observar-se-à no túmulo da poetisa Cora Coralina, signo
funerário, um exemplo dessa representificação. Memória em construção.
Derivado de “sema”5 o signo, pedra tumular, tem em sua função não apenas
devorar e digerir o cadáver, mas ser compreendido como sobreposição de significantes
(cadáver vestido, caixão, pedra tumular, epitáfio, estatuária, fotografia, etc.) que
induzem metaforicamente a aceitar-se a incorruptibilidade do corpo, 6 elevando-se a
metonímia do real. Ou seja, cada significado dado ao cadáver acrescenta uma máscara
ao sem sentido, o desejo é de parar a putrefação alimentando a ilusão de que o corpo
não está condenado ao desaparecimento.7 E os signos “são assim dados em troca do
nada segundo uma lei de compensação ilusória pela qual quanto mais signos, mais
existe o ser e menos o nada. Graças à alquimia das palavras, dos gestos, das imagens
(fotografias...) ou monumentos – posto que as sepulturas seguem a mesma lógica – dá-
se a transformação do nada em algo ou em alguém”.8
Nos cemitérios oitocentistas os túmulos constituem uma totalidade
significante que articula duas dimensões bem diferenciadas: o “invisível” (situado
debaixo da terra) e o “visível”, o que faz com que, como escreveu Bernardin de Saint-
Pierre em 1868 na Revista dos Monumentos Sepulcrais, o túmulo constituía-se “um
monumento colocado entre os limites de dois mundos”9 Se a invisibilidade cumpre na
“clandestinidade” a função higiênica, a camada semiótica tem por papel encobrir o
cadáver, transmitindo às gerações vindouras os signos capazes de individualizarem a
“representação”, ou melhor, a “representificação” do finado. E é por causa destas
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características que é lícito falar, a propósito, da linguagem cemiterial como uma


“poética da ausência”10
No cemitério São Miguel Arcanjo da cidade de Goiás, esse jogo do
simbolismo cemiterial associado a uma “poética da ausência”, suscitará a elaboração de
memórias dadas numa dimensão “veritativa” ao ausente. Aqueles a quem se pretende
recordar emergem do abscôndito continente do recalcado. Isto é, se toda a
memorização, enquanto construto mediado pelo presente (a existência de uma
“memória pura” é uma ilusão bergsoniana), tem a sua outra face no inconsciente, lado
adormecido do consciente, 11 também o cemitério, como “lugar de memória”, assenta
no invisível fundo de amnésia, algo que também se detecta no campo da consciência
individual: a memória e o esquecimento mantêm a mesma relação que une a vida e a
morte. 12
A projeção da necessidade existencial que relega a morte a condição
garantidora da imortalização pela memória, aproxima a morte da vida na constatação de
sua evidência material como a epígrafe tumular da poetisa Cora Coralina.

Meu Adeus à vida

Morta serei árvore, serei tronco, serei fronte.


E minhas raízes agarradas as pedras de meu berço
são as cordas quebradas de uma lira.
Enfeitar de folhas verdes a pedra de meu túmulo
num simbolismo de vida vegetal.
Não morre aquele que deixou na terra a melodia de
seus cânticos na música de seus versos.

Cora Coralina
(1889-1985)

Eternizada pela necessidade de negar-se ao esquecimento, a memória do


morto representeficado pelo trato das imagens, valida o mundo pela mesma ação que
provoca seu esquecimento: a morte. Percerbe-se ai a interseção dos mundos visível e
invisível. Cora Coralina se antevê morta, transitando da morte a memória. Elemento
garantidor do seu não esquecimento.
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Tanto a vida orgânica quanto a vida simbólica dará a Cora Coralina uma
nova cenografia e culto. A renovação das velhas qualificações da morte como “morte-
sono” (E minhas raízes agarradas às pedras de meu berço...) implicará na explicação
de outra forma de habitação do morto. Arquitetonicamente materializada como
sucessora e sucedânea do “teto eclesiástico” (o jazigo-capela), mas também como
“casa”, a sepultura, tal como a “casa da família” (dos pais, dos avós), passa a ser centro
privilegiado de “identificação” e de “filiação” de gerações que retornam ao “berço de
origem”, a cidade de Goiás. E todas estas necessidades simbólicas farão da necrópole
um analogon da cidade dos vivos.13
O cemitério Municipal São Miguel Arcanjo é uma necrópole de evidências
burguesas, pois levou às últimas conseqüências um desejo de sobrevivência
individualizada que, embora potenciado pelo uso do material tumular (porcelana,
mármore carrara...), arte estatuária importada (regiões litorâneas do Brasil ou da
Europa) epígrafes rebuscadas em bronze e territorizalização de poder no uso geográfico
do espaço cemiterial (militares e políticos ocupando simultaneamente o lado esquerdo
da entrada do cemitério), (famílias tradicionais, em sua maioria destadas na entrada pelo
lado direito), (pobres e indigentes ao fundo), ainda alimentou a idéia judaico-cristã do
post-mortem, sobretudo, pela promessa de ressurreição final dos corpos, que só ganhou
curso nos alvores da modernidade. Afinal, se comparada a necrópole oitocentista, a
necrópole do homem medieval não o permite estar centrado sobre si mesmo, pois se
sentia co-participante da comunidade santa dos crentes, isto é, sentia-se na posse da
verdadeira vida.14 Em tal horizonte, só podia brotar uma concepção dominantemente
comunitária do além. Ao seja, com o crescimento da importância do “sujeito”, teriam de
aparecer projetos em que a nova dimensão sociabilitária não poderia subsumir o direito
ao “indivíduo” e à sua privacidade.
Os sinais que apontam para a emergência de atitudes “individualizantes” do
cemitério oitocentista começam como os jacentes e os orantes no século XIII,
conquanto ainda circunscritos aos mais dignitários da sociedade. Com o avanço do
processo civilizacional, nomeadamente a partir dos finais do século XVIII, esta
tendência ir-se-á “democratizar” e expandir, atingindo a sua máxima expressão nos
novos cemitérios do século XIX. No Brasil é a própria lei imperial (ao exigir sepulturas
individualizadas) e os próprios valores fundantes da nova sociedade surgida da transição
da monarquia a república a acenar com a promessa de que, nem que fosse através da
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ritualização mnésica, o culto dos mortos devia cada vez mais ser intersubjetivo e
familiar, a que todos podiam finalmente aspirar à perpetuação na memória coletiva. Dir-
se-ia que as garantias de imortalização foram passando de privilégio de alguns a direito
natural de todos.
Neste contexto, a progressão dos privilégios individuais antes restritos a
padres ou a um líder político de notoriedade sepultados no interior das Igrejas templos
no Brasil e observados Goiás na igreja do Carmo, na capital da Província tornado
secularizado, a partir de 1801, que reforça o domínio do status quo. É a partir de 1808
que em Goiás o advento dos cemitérios públicos, leva a individualização e anonimato,
os cadáveres acantonados no adro e naus direita e esquerda15 de muitas igrejas
católicas.
O jazigo, O epitáfio, a estátua e, por fim, a fotografia (relembre-se que a
descoberta da fotografia é contemporânea da revolução cemiterial romântica) que se
detecta nos cemitérios modernos a partir do final dos oitocentos a tradução iconográfica
adequada a ritualização dos novos imaginários. Mesmo imaginários que apontavam para
fins escatológicos. E para que o trabalho simbólico do cemitério (a localização
geográfica) correspondesse àquelas expectativas, a materialização dos signos que exigiu
a “fixação” do cadáver (isto é, um monumento), passou a ser nítida e inequívoca a
“evocação” (a imagem, o símbolo ou o epitáfio narrativos) e a “identificação” do
ausente (a epigrafia onomástica).16
Esta maior acentuação da memória ocorreu dentro de uma mundividência
dominantemente religiosa, embora já alcançada por influências secularizadoras. O novo
cemitério oitocentista rompeu com o círculo sacral dos enterramentos nas (ou à volta
das) igrejas ficou subordinada a uma gestão política, passando também a ter um
ambíguo estudo profano. Por isso surgiram várias resistências dos setores mais
tradicionalistas da igreja Católica ou de populares ligados a ela. Na Bahia esses novos
espaços geraram no século XIX a revolta da cemiterada, uma reação de escravos e
homens livres secularização da morte17. Mas faltar-se-ia à verdade se não se frisasse
que, desde o século XVIII, muitos iluministas e eclesiásticos já defendiam o “exílio dos
mortos”, e basta atentar nas prerrogativas que a Igreja continuou a ter em relação aos
novos cemitérios (considerando-as como campos consagrados) e ter em conta a
fraquíssima expressão dos enterramentos civis oficialmente confirmadas desde o século
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XVIII, para se confirmar, no caso português, a continuidade da determinação religiosa


do novo culto cemiterial dos mortos.
Todavia, esta dimensão do trato com os cemitérios não pode conduzir à
subalternização de uma outra realidade que lhe é coexistente, a saber: a secularização
provocada não só pelo modo mais profano de gerir os cemitérios (em Portugal, eles
foram definidos como “espaços públicos” de gestão municipal ou paroquial por leis de
1834, no Brasil, a secularização dos cemitérios em lugar dos enterramentos em igrejas
adveio do Primeiro Reinado) situação que ganhou projeção também no campo
tanatológico, das idéias e dos valores de uma época crescentemente polarizada pelos
desejos de afirmação da individualidade e de expectativas terrenas: a
insalubridade.18Daí que, nos comportamentos e nas atitudes em relação à morte, sejam
igualmente observáveis as novas necessidades sociabilitárias decorrentes da raiz
“contratualista”, “associativista” e “relacional” da sociedade moderna, também
encontrada na projeção das estratégias de legitimação dos vários poderes e as tensões
resultantes da gradual autonomização da memória histórica em relação à imortalidade
transcendente. Isto é, o cemitério objetiva esteticamente o próprio inconsciente da
sociedade. E esta se dá a ler mediante uma trama simbólica estruturada e organizada à
volta de certos temas e mitos unificados por esta função: reforçar, depois do “caos”, a
“racionalidade” dos vivos, e imobilizar o devir, mesmo quando se recorre ao contraste
(ambíguo) com transcurso irreversível do tempo e da transitoriedade da vida.
Isto significa que, neste processo, se detectam investimentos simbólicos não
raro antagônicos entre si. Mas a sua condicionalidade histórica e social não deve fazer
esquecer que essa rede de signos se revela a partir de um impulso de raiz metafísica, o
qual impele o homem a separar-se da natureza e da animalidade e a emergir, na escala
dos seres, como um cultuador de mortos, logo, como um produtor de cultura e de
memória. Sem a angústia nascida da tomada de consciência da precariedade humana
não haveria necessidade de se construírem monumentos, pois só aquele que se sabe e se
recusa a ser transitório pode aspirar à perpetuação.19
Numa categorização antropológica, o monumento funerário tanto é a
exteriorização da tomada de consciência de que o homem é um ser para a morte com
direito de afirmação à memória, como o signo funerário em sua significação
monumental. O túmulo de Cora Coralina, constitui uma forma de assegurar a
imortalização na terra.20
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Relacionado às práticas dos italianos de Gênova, Bari ou Messina, estes


chamam às suas necrópoles modernas Cemiterios Monumentales por serem fiéis a uma
realidade primordial que os “campos santos” oitocentistas expressam.
A palavra latina monumentum deriva da raiz indo-européia men. Esta
exprime uma das funções nucleares do espírito (mens), a “memória”. Deste modo, tudo
aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação – incluindo os próprios atos
escritos – é um “monumento”.21 É verdade que, com a Antigüidade romana, aquele
tinha dois significados: denotava uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura
(arco do triunfo, coluna, estátua, troféu, pórtico, etc.) e aplicava-se a edificações
funerárias destinadas a eternizar a lembrança de alguém. Como sublinhou Philipe Ariès,
já na sua origem “o túmulo é um memorial”22 E, mesmo nas sociedades de dominância
sacral, a sobrevivência do morto não se concretizaria somente no plano escatológico,
mas também dependeria da fama que os túmulos (com os seus signos, as suas
inscrições) e os elogios de escritores ajudavam a reativar a lembrança de Cora Coralina.
Como toda a memória é simbólica – isto é, opera por metáforas que
exprimem um estado de espírito, uma situação, uma relação, uma pertença ou mesmo
uma essência inerente ao grupo23 entende-se que o cemitério monumental na sua
expressão arquitetônica e na sua função de “lugar de memória”, evoque significados e
resignificações.
O nexo entre a memória e o monumento, articulado com o jogo
“dissimulador” dos símbolos funerários, obriga no campo dessas significações, a ter-se
cautela na qualificação do cemitério moderno como museu, uma das expressões
privilegiadas da “memória-saber”.
Cenário de “memórias construídas”, mas também de “memórias-vividas”
(principalmente no terreno da gestão familiar do culto), os cemitérios são os “lugares de
memória” por excelência do século XIX (e do seu prolongamento no século XX),
porque as recordações que os seus símbolos sugerem não privilegiam somente a ordem
do saber – como é típico do racionalismo iluminista e da organização museológica ou
bibliotecária – mas mais a ordem dos sentimentos e das intenções cívico-educativas.24
Nas suas expressões mais afetivas, o “diálogo” que a evocação pressupõe
quase anula o distanciamento gnosiológico entre o sujeito e o objeto e faz dela uma
“comemoração”. É que toda a memória se exprime, quaisquer que sejam as variações
culturais, a partir de uma relação dialógica em que, a sociedade põe questões que a
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memória procura responder.25 Por com seguinte, a comemoração será sempre uma
partilha. Nela, o recordar, mesmo sendo um diálogo do “sujeito” consigo mesmo, não se
esgota num ato ensimesmado ou meramente subjetivo, mas diz-se na linguagem
“pública”, “coletiva” e “instituinte” da celebração ritual, numa teatralização que
pretende gerar efeitos que ultrapassem o pragmatismo da transmissão dos saberes.
Com efeito, se, como sustenta Pierre Nora, os “lugares de memória”
sugerem a paragem do tempo26 e, de certa maneira, a “imortalização da morte”, não é
outro valor senão o mnésico do cemitério, pois nele se encontra uma das características
essenciais daqueles espaços: a sua estruturação como um sistema de significantes que, a
par da face “veritativa” que referenciam, também visam gerar “efeitos normativos” e, de
certo modo, “afetivos”. Os símbolos do cemitério possuem conteúdo ou história, eles
revelam algo característico de toda ordem simbólica encobridora da corrupção do
tempo: organizam o campo imaginário como um “templo”, cavando uma censura de
indeterminação do “espaço” e do “tempo” profanos, e escrevem um círculo de
sacralidade no interior do qual os signos só valem no tecido das suas relações. Assim, as
“liturgias” desenrolam-se num “espaço- tempo” específico, distinto do espaço e do
tempo cotidianos, e o cemitério é freqüentado como uma espécie de santuário. Ora
“historiquement, cela n’a d’ailleurs pas toujours été le cas; ce n’est qu’au XVIII siècle
et sourtout au XIX siècle, au moment où la sépulture s’affirme comme support du
souvenir et où le culte dês morts devient culte des tombeaux, que le cimetiére accéde à
la sanctuarisation”27 Devido a este estatuto, os cemitérios oitocentistas, ao contrário
dos cemitérios antigos, tinham de ser lugares de excesso, fechados sobre si mesmos,
espaços em que o próprio muro físico funciona como proteção contra as profanações e
como uma espécie de “símbolo-fronteira”, campo semântico onde mesmo o mais
secular dos significantes se aura de sacralidade.
Nesta perspectiva, e ao contrário das peças de um museu, os objetos
cemiteriais não são psicologicamente dissociáveis da estrutura em que se integram. Isto
é, o lugar (topos) e o signo (sema) estão de tal modo imbricados um no outro, são de tal
modo compreendidos como co-extensivos, que nenhum dos dois é
fenomenologicamente separável,28 parecendo natural a relação entre o significante, o
significado e o referente (ausente). Mas esta naturalidade recobre-se de sacralidade, já
que, como “lugares de consagração” neles se convoca o “invisível” através do “visível”,
suscitando simultaneamente atração e medo, ao contrário do que acontece com o museu,
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território em que os objetos expostos aparecem descontextualizados, ou melhor, surgem


inseridos num conjunto artificial e erudito. Sem dúvida, é a consciência do defasamento
existente entre o topos e o sema que leva a deplorar-se o cariz decepcionante, por
estarem separadas da sua arquitetura e do seu ambiente,29 das esculturas funerárias
quando isoladamente vistas em exposições.
Pretende-se com tudo isto defender que o símbolo funerário é metáfora de
vida e apelo, uma periódica ritualização revivificadora; ele é para ser vivido e para
ajudar a viver,30 oferecendo-se assim como um texto cuja compreensão mais afetiva (a
dos “entes queridos”) envolve toda a subjetividade do sobrevivente.
Com a sua linguagem de recolhimento e do silêncio, o novo rito cemiterial
irá ter na “visita” periódica (com maior incidência no Dia dos Defuntos – 2 de
novembro) a sua expressão pública mais relevante, atitude que ganhou um
incontornável tom comemorativo e de celebração, como exemplarmente se comprova
pela análise das romagens, sobretudo pelas que foram diretamente animadas por
intenções cívicas. É certo que lhe faltam algumas características que Emile Durkheim
definiu para o “rito comemorativo”, mormente o aspecto diretamente representativo,
recreativo e estético da manifestação. Mas a tendência para a individualização que nela
se detecta não era de pendor narcísico, solitista ou associal; recordação e comemoração
ainda não estavam dissociadas: a evocação, que o novo culto fomenta, é um modo de
reconhecimento, isto é, uma prática de legitimação que retrospectivamente apela para a
autoridade simbólica dos mortos, levando-os a “antepassados normativos e
paradigmáticos” de um grupo.
Defende-se assim que, mesmo à escala da “visita ao cemitério”, é possível
surpreender as características que, numa evidente transferência analógica, as
comemorações políticas de raiz tanatológica explicitavam de uma maneira ainda mais
evidente. A idéia de comemoração é herdeira não só da solenidade da cerimônia pública
de elogio e de menção de um nome, como implica a sacralização do evocado,
desenrolando-se, em similitude com a sua matriz – o ato religioso –, num rito eficaz
para a memória dos mortos e para o destino dos vivos.
O túmulo de Cora Coralina é um dos mais visitados por turistas e estudiosos
que vão à cidade de Goiás. A partir dessa e de outras figuras, tecem acontecimentos
fundadores no Cemitério São Miguel Arcanjo: a comemoração, ou melhor, o espetáculo
da rememoração – que requer um lugar, um teatro, um tempo e a sua ficção, uma
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mensagem, a recordação e o esquecimento –, uma prática socializada que unifica a


diversidade e até o antagonismo de memórias coletivas em sua gênese espontanêa.31
Daí que, conquanto só os indivíduos possam recordar, o rito comemorativo, transforma-
se em rito religioso propriamente dito, prolongando as práticas de vocação holística,
bem como a sua “função instituinte de sociabilidades”.
A “visita ao cemitério” é um rito de repetição. E nele se verifica esta
vertente essencial da comemoração: esta, depois do ato fundador, será sempre
comemoração de comemoração, a qual se transformará em “tradição” se a anamnesis
deixar de ser uma necessidade vital para os vivos. Com efeito, naquele ato, repetem-se
comportamentos (a deposição de flores, o recolhimento em silêncio...) e a sua
corporização é coletiva e pública (as “visitas” individuais são exceção), incitando-se à
recordação do morto e ao reforço do cosmos (a começar pela família) dos vivos. É que a
memória reavivada pelo rito tem uma “função pragmática e normativa”,
consubstanciada no intento de, em nome de um patrimônio (espiritual e material)
comum, integrar os indivíduos em cadeias de “filiação identitária”, distinguindo-os e
diferenciando-os em relação aos “outros”, mas exigindo-lhes igualmente, em nome da
perenidade do grupo, deveres e fidelidades. Para isso, o seu efeito tende a saldar-se
numa “mensagem”. E esta, ao unificar recordações pessoais ou outras memórias
coletivas, constrói e conserva uma unidade que domestica a fluidez do tempo num
presente que dura.32
Cora Coralina é matrona, sua poesia domestica o tempo transformando-o em
arauto de identificação do ser goiano. As pessoas que visitam o túmulo de Cora
Coralina se aproximam de um elemento de pertença do ser goiano. E como defendeu
Maurice Halbwachs, a este nível, o trabalho de unificação será uma “norma”, pois
recorda-se o espírito de família porque é necessário retransmitir e reproduzi-lo. Em
graus de sociabilidades mais extensa – como, nas classes e grupos sociais – a memória
será aquela feita sob um critério unificante análogo ao do sistema de avaliação
nobilitária.33 Mas importa não esquecer que nos ritos rememorativos (e
comemorativos) se encontra sempre uma tensão entre afeição e conhecimento e entre
memória e normatividade. O que gera esta experiência interativa: como a memória é
normativa, ela é oferecida como uma “mensagem”, e esta, ao criar uma pulsão e uma
corrente, inunda os indivíduos participantes no rito, apela a ser interiorizada e a
socializa-se como um dever.34
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Nesse sentido, cemitério passou a ser uma espécie de “familistério” de


mortos. O que se entende: em primeira instância, o culto, na sua incidência mais
profana, é, sobretudo um rito familiar; ele não só se celebra em família, como está
investido de uma carga simbólica especificamente familiar, ao reiterar e reforçar os elos
de parentesco. Com isto, reaviva o sentimento de pertença. Fio invisível que a memória
partilhada e ligada a uma herança e a uma tradição enraíza. Deste modo, o monumento
funerário dos novos cemitérios tem de ser entendido à luz das estratégias de
“transmissão”, comumente carismadas por uma “figura-fundadora”.
É certo que a gestão memorial, quando se cinge ao núcleo familiar, parece
fugir às características das comemorações (ela é mais singela, espontânea, restrita e
silenciosa). Porém, tal como em todo o ato comemorativo, também ela se concretiza
como um grande movimento simbólico através do qual um grupo assegura a sua
identidade, voltando-se para a face do passado que, num dado momento, considera
definidora da sua unidade continuidade. E no caso das comemorações de finalidade
cívica, a celebração integra-se de componentes estéticos, dinâmicos (o desfile) e orais
(os discursos), de modo a realizar programadamente suas intenções paidéticas e o seu
trabalho sociabilitário. Pode mesmo afirmar-se que, quanto maior e mais massificada
for a escala sociabilitária mais aumenta a “estranheza” entre os indivíduos e se requer
um mais constante investimento simbólico na construção e reprodução da memória
unificadora. Por conseguinte, se no rito de centralização exclusivamente familiar o culto
é mais “quente” e espontâneo, as romagens e as comemorações, movidas por uma mais
marcante intenção coletiva e pública, implicarão, regra geral, a existência de uma
coordenação (isto é, uma organização), de um desfile, de signos com significado social
(guias turísticos), e contarão amiúde com a presença de oficiantes (oradores), tendo em
vista sublimar o esquecido com o significado de palavras que relembrem e enalteçam.
35
No entanto, também, nestas liturgias cívicas se encontram, por extensão e
imitação, os propósitos de “filiação”, “integração” e de “identificação” característicos
do culto familiar dos mortos.36
Outra não é a função das liturgias da recordação: criar sentido e perpetuar o
sentimento da pertença e de continuidade. O imaginário da memória sociabiliza, dado
que o recordar liga os indivíduos não só verticalmente, isto é, a grupos ou entidades que
holisticamente se impõem, mas também a uma vivência horizontal e longa do tempo
social. Por conseguinte, a memória socializa a “identificação” e a “filiação” e,
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simultaneamente, ajuda a esconjurar a angústia da irreversibilidade do tempo e da


morte, inserindo a finalidade da existência finita numa “filiação escatológica”. Neste
horizonte, os indivíduos são integrados na cadeia das gerações e em um ideal de
sobrevivência na memória dos vindouros. 37 O que pressupõe uma experiência
continuísta do tempo – a memória, vinda do passado, poderá perdurar num futuro aberto
– e implica que se esqueça que, tarde ou cedo (duas ou três gerações?), os mortos
acabarão por ficar órfãos de seus próprios filhos.
Por tudo isto, defende-se que as liturgias da recordação têm por finalidade
federar atomismos e diferenças sociais e recalcar (pelo menos no tempo curto do rito) as
tensões que atravessam os grupos. Portanto, não será descabido dizer-se que, em certa
medida, o cemitério desempenha um papel análogo ao dos velhos Libri memoralis
(também chamados “necrófagos” ou “obituários” a partir do século XVII). Estes
continham o nome de pessoas, geralmente já mortas, de quem se pretendia guardar
memória através do recurso a fórmulas como estas: “aqueles ou aquelas cuja memória
lembra”; “aqueles de quem escrevemos os nomes para guardarmos na memória”. A
escrita (a leitura) é elevada a garante memorial da memória, não deixando de seu
sintomático que, desde o século VIII, a excomunhão tenha passado a ser sinônimo de
damnatio memoria (Concílio de Reisbach, 798; de Elne, 1027), numa evidente
cristianização de uma atitude antiga: já na velha Grécia, os que desapareciam no
esquecimento do Hades tornavam-se nônumnoi, isto é, “anônimos”, “sem nome”.38
Segundo, Jean-Didier Urbain os cemitérios são como “bibliotecas” e os
túmulos como livros que se abrem, é certo, mas que se consultam como tábuas
mesopotâmicas ou sumérias, pois a sua significação não é imediata e transparente.39 Se
esta imagem é acertada na perspectiva do investigador, ela não chega para apreender a
intencionalidade simbólica da necrópole. Esta não se esgota na escrita. Já no século
XIX, o célebre Monsenhor Gaume, em obra publicada no período da Comuna contra os
enterramentos civis – e logo traduzida para português em 1874 – definia explicitamente
o cemitério como “o livro mais eloqüente que pode haver”, porque “fala
simultaneamente aos olhos, ao espírito e ao coração”.40
O cemitério é um livro escrito em linguagem metafórica. Então isto quer
dizer que o culto dos mortos, como todo ato constitutivo de memórias, também é um
diálogo imaginário do “sujeito” consigo mesmo, feito com os olhos, o espírito e o
coração, a fim de “representificar” o evocado. Logo, se, enquanto vivência ritualista, a
MOREIRA, Gleidson de Oliveira. Cemitérios oitocentistas como lugares de memória. 189
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES –
GO. VOL. 01, Nº 01, 180-194, Dez. 2008 / Jun. 2009.

sua leitura, como todo o rito, denota algo da esfera das intenções, o seu significado é,
porém, irredutível à pura racionalidade. Como não se procura construir uma “memória-
saber”, evocar será “recordar” e “comemorar”, pelo que o território dos mortos funciona
simultaneamente como um texto objetivador de sonhos escatológicos (transcendentes
e/ou memoriais) será como um “espaço público” e de “comunhão”, cenário
“miniaturizado” do mundo dos vivos e teatro exemplar de afetividades e de produção e
reprodução de memórias, de imaginários e de sociabilidades. E só depois de um
adequado e extrovertido tempo de luto ganhará força o distanciamento racional, que
cura e normaliza, porque “só a razão é que pode distinguir um antes e um depois da
morte, ao passo que o imaginário se recusa a aceitar a ruptura e continua a ver naquele
que acaba de morrer alguém que ainda não deixou a vida”.41

NOTAS

1 RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, Vol 05 n 10,
1992, p.200-212
2 Sobre o peso do esquecimento nos processos construtivos das memórias subjetivas (e
coletivas), veja-se CANDAU, Joel. Anthropologie de la Mémoire. Paris: PUF, 1996.
3 ETLIN, Richard. I Encontro internacional sobre los cemitérios contemporâneos. Actas.
Sevilla 4/7 Junio 1991.
4 DÉCHAUX, Jean-Hugues. Le Souvenir dês Morts. Essai sur lê lien de filiations. Paris:
PUF, 1997 p 232
5 DEBRAY, Régis. Vie et Mort de I’Image. Une histoire du regard em Occident. Paris:
Gallimard, 1992
6 DEBRAY 1992 p.28
7 THOMAS, Louis-Vicent. Lê cadavre. De la biologie a I’antropologie. Paris: Complexe,
1980 p. 35
8 O inominável – morrer. In A Invenção do Cotidiano. Michel de Certau. Ed. Vozes. Vol
I. 1990 p 293
9 REVISTA MONUMENTOS SEPULCHRAES, 1868.
10 Ver Claudia Rodrigues em Lugar dos mortos na cidade dos vivos. 1995 p. 35
11 No mesmo sentido, leia-se TODOROV, Tzvetan. Les Abus de la Mémoire. Paris: Arléa,
1995
12 AUGE, Marc. Les Formes de L’Oubli. Paris: Payot, 1998. p 18
13 RODRIGUES, Claudia. Lugares dos mortos na cidade dos vivos: tradições e
transformações fúnebres na Corte. Dissertação. UFF. 1995 p 76
14 FEUERBACH, Ludwig. Pensées sur la Mort et I’Immortalité. Paris: Cerf, 1991.
15 Algumas das partes em que estavam divididas os interiores das igrejas católicas.
16 URBAIN, Jean-Didier. Lês Bouleversements Actuls de l’Art Funeraire. Coimbra:
Septembre, 1993. p 15
17 Ver o livro: A morte é uma festa de João José Reis. Ed. Cia das Letras, 1990 p.68
18 Quando aqui se usa o conceito de secularização não se pretende confundi-lo com o de
laicização. Com efeito, e como se procurou esclarecer em outro lugar, o primeiro denota o longo
processo de automatização, em todos os níveis da vida social, da esfera profana da sagrada.
Situa-se na longa duração e foi-se concretizando em temporalidades diferenciadas, ainda que
sempre num horizonte pautado pelos valores cristãos. Assim sendo, importar reter que o
fenômeno da secularização nem sempre se definiu em oposição a igreja (e muito menos a
MOREIRA, Gleidson de Oliveira. Cemitérios oitocentistas como lugares de memória. 190
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES –
GO. VOL. 01, Nº 01, 180-194, Dez. 2008 / Jun. 2009.

religião), aparecendo muitas vezes como reivindicações tendentes a “desmitoligizar”,


“desmagificar” ou a “desclericalizar” a sociedade, e não tanto a “descristianizá- la”. O conceito
de lai-cismo, se entronca no de secularização, remete para o propósito militante de levar às
últimas conseqüências e, assim, torná-la equivalente a “descristianização”. Por isso, deve se
referir tão só aos projetos de transformação cultural que os movimentos anticlericais e
anticatólicos dos finais do século XIX e princípios do século XX (conjuntura em que se
consolidou a expressão laicismo), bem como as suas expressões políticas (liberais de esquerda,
republicanas, socialista anarquista) procuram concretizar nas sociedades européias
dominantemente católicas. Dito isso, pode então se aceitar que, se o laicismo é uma expressão
mais radical do secularismo, nem toda a secularização é sinônimo de laicismo. CATROGA. op.
cit., p. 6-34.
19 CARTROGA op. cit., p. 25.
20 No mesmo sentido, veja-se BOTTACIN, Maurizio. La tentazione Del nulla. Giardini
della memória per um eterno oblio. Arsenale, 1987
21 LÊ GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: ENCICLOPÉDIA EINAUDI, v. 1,
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984.
22 Ver Philippe Áries, O homem diante a morte. 1990. p 595
23 Id., Documento/Monumento
24 Ibid.. p. 37-38.
25 NAMER, Gerard. Mémoire et Sociéte. Paris: Méridiens Klincksieck, 1987.
26 NORA, Pierre. Les Lieux de Mémoire. I La Republique. Paris: Gallimard, 1984 p 05
(comentário)
27 op. cit., p. 68.
28 op cit,. 31-32.
29 FRANÇA, José Augusto. A arte em Portugal no século XIX. v. 2. Lisboa: Bertrand,
1966
30 op. cit., p. 33
31 NAMER, Gerard. op. cit., p. 201, 204-205.
32 op. cit., p. 224.
33 Ibid., p. 226.
34 Ibid., p. 236.
35 DÉCHAUX, Jean-Hugues. op. cit., p. 75-76.
36 No estado sobre A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal (v. 2, p.
891-999) explicitamos as relações estreitas existentes entre o culto cemiterial e romântico dos
mortos e as festas cívicas polarizadas à volta das comemorações centenárias. Estas análises
foram posteriormente por nós retomadas em Ritualizações da História. In: TORGAL, Luis Reis;
MENDES, Jose Maria Amado; CATROGA, Fernando. História da História em Portugal.
Séculos XIX/XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996. p. 547-671. Para o caso francês, pode-se
ler-se os já citados estudos de Pierre Nora, de Pierre Ory e de Gerard Namer. Para outros países
(Estados Unidos, Inglaterra, Iraque, França, Israel, Alemanha), leia-se por todos GILLIS, John
R. (ed) Commemorations. Princeton-New Jersey: Princeton University Press, 1994.
37 DÉCHAUX, Jean-Hugues. op. cit., p. 231-232.
38 VERNANT, Jean-Pierre.L’individu dans la cite. In: SUR l’individu. Paris: Seul, 1987,
p. 2; CANDAU, Joel. op. cit., p. 3.
39 URBAIN, Jean-didier. L’Archipel de Morts. Lê sentiment de la mort et lês derives de la
mémoire dans lês cimetières d’Occident. Paris: Payot, 1998, p. 10.
40 MONS. GAUME. O Cemitério no Século XIX ou as últimas palavras solidárias Porto:
E. Chardron, 1874, p. 106.
41 THOMAS, Louis-Vincent. Préface, In: BAYARD, Jean-Pierre, op. cit., p. 13.
MOREIRA, Gleidson de Oliveira. Cemitérios oitocentistas como lugares de memória. 191
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES –
GO. VOL. 01, Nº 01, 180-194, Dez. 2008 / Jun. 2009.

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Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 / Jun. 2009.

DESTERRITORIALIZAÇÃO: A ÓTICA
CULTURAL DO PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO
DA AGRICULTURA EM GOIÁS

Júlio César Pereira Borges∗

Resumo: Abstract:

O estudo da modernização da agricultura em The study of the agriculture modernization


Goiás, sob a ótica da desterritorialização, in Goiás, under the optics of the
busca fazer uma discussão sobre as unterritoriality, aims to make a quarrel
transformações nos modos de vida dos about the transformations in the ways of
grupos sociais envolvidos neste processo. A life of the social groups involved in this
compreensão de tais transformações permite process. The understanding of such
a apreensão do território, no momento em transformations allows the apprehension
que nos revela a sua reorganização espacial of the territory, at the same time that
que expressa a dinâmica da relação discloses its space reorganization that
homem/natureza e homem/homem, ou seja, expresses the dynamics of the relation
das relações sociais de produção, criando man/nature and man/man, in other words,
formas, símbolos e significados que the dynamic of the social relations of
representam seu gênero de vida. O que pode production, creating forms, symbols and
conduzir à compreensão dos fatos culturais é meanings that represent its gender of life.
justamente a possibilidade de mergulharmos What can lead to the understanding of the
neste mundo de significações, de cultural facts is exactly the possibility to
participações de sua dinâmica. Neste dive in this world of meanings, of
sentido, far-se-á uma análise sobre a participation of its dynamics. In this
desterritorialização do sertanejo goiano em direction, it will be done an analysis about
decorrência da modernização da agricultura, the unterritoriality of Goiás’ cowboy in
processo que esta envolto em significados result of the agriculture modernization,
que se expressam na simbologia estética da process that is involved in meanings that
paisagem de um território, no ato de sua express themselves in the esthetic
refuncionalização, assim como na psique do symbology of the landscape of a territory,
indivíduo ou grupo social envolvido nesta in the act of its re -functionalism, as well
processualidade. Diante desta idéia, o as in the psyche of the individual or social
território aparece como o lugar, espaço group involved in this process. Up against
físico e social, do domínio dos modos de this idea, the territory appears as the place,
vida que, ao sofrerem mudanças apresentam physical and social space, of the domain in
situações propícias ao movimento migratório the ways of life that, when suffering
e, conseqüentemente, acarreta a perda da changes present propitious situations to
identidade do lugar e do sujeito. migratory movement and, consequently,
cause the loss of the identity of the place
and of the citizen..

Palavras-chave: Key-words:

Modernização da Agricultura; Agriculture, Modernization;


Desterritorialização; Identidade. Unterritoriality; Identity.

∗ Professor do departamento de Geografia da UEG-Unidade Iporá, Professor do departamento de


geografia da Faculdade de Educação e Ciências Humanas de Anicuns.
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 193
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

A Desterritorialização na Geografia
Ao propor o estudo sobre a modernização da agricultura em Goiás sob a
ótica da questão cultural, pretende-se aqui, fazer uma discussão sobre as transformações
no modo de vida do indivíduo e do grupo social envolvidos neste processo. Para tal,
teremos como direcionadores os pressupostos da Geografia Cultural. Segundo Claval
(1997).

Aproximar-se da geografia cultural é antes de mais nada, captar a idéia, que


temos do ambiente próximo, do país, do mundo. É se interrogar em seguida
sobre a maneira como as representações são construídas, sobre o papel no
modelamento do real e sobre sua permanência, sua fragilidade e as reações
que provocam.

A geografia cultural ganha ênfase a partir da década de 1980, com o


movimento de revalorização de idéia de cultura no domínio acadêmico da ciência
geográfica, a qual aparece como portadora de elementos fundadores de uma nova
perspectiva epistemológica (GOMES, op.cit., p. 31). Neste contexto, ocorre um
rompimento com modelos de ciências baseadas na lógica geral e dedutiva, assim como
com o totalismo positivista e marxista, se apoiando na teoria da complexidade,
colocando em evidencia autores como Edgar Morin.

Da crescente consciência sobre a necessidade de relativizar, de


contextualizar, de compreender os fatos sociais em lugar de querer explicá-
los, de absolutilizá-los, tornando-os gerais e uniformes, ou de objetivá-los,
tomando deles apenas suas características comuns e regulares. (GOMES,
ibidem)

A compreensão da cultura de um individuo ou grupo social, se torna


importante e se revela imprescindível na apreensão do território, no momento em que
esta nos revela a sua organização espacial, pois a mesma é resultado da relação
homem/natureza e homem/homem, ou seja, das relações de produção, criando formas,
símbolos e significados que representa seu gênero de vida. Tal imaterialidade do
elemento cultural não prescinde da materialidade do mundo, todavia, permite dar mais
atenção ao campo das representações sócio-culturais, pois, admite que cultura:

(...) é definida como um domínio próprio do mundo humano, um mundo de


significações, de valores, um mundo de referencias, que nasce da
comunicação e de um universo de símbolos... o que pode conduzir à
compreensão dos fatos culturais é justamente a possibilidade de
mergulharmos neste mundo de significações, de participações de sua
dinâmica. (GOMES, p. 32)
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 194
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Neste sentido que se propõe fazer uma análise sobre a desterritorialização


do sertanejo goiano que, em virtude da modernização da agricultura, passa por um
conjunto de mudanças que alteram significativamente o seu modo de vida.

Investigando o território e a desterritorialização

Ao se aventurar em uma discussão sobre o termo desterritorialização, se faz


necessário uma melhor clareza, face à sua grande complexidade, pois não se trata como
afirma Haesbaert (2004: 43), simplesmente da outra metade da dinâmica da
territorialização. Na verdade o termo desterritorialização é envolto de significados, que
se expressam na simbologia estética da paisagem de um território, no ato de sua
refuncionalização, assim como na psique do individuo ou grupo social envolvido neste
processo.
O discurso sobre a desterritorialização efetivamente tomou vulto a partir da
década de 1990, tendo em vista, segundo alguns autores, a expressividade das condições
da pós-modernidade, já que para estes, o Pós-modernismo inaugura uma nova estrutura
de mundo, baseada na mobilidade espacial, dada pelo domínio tecnológico e
movimentação populacional, pondo fim aos antigos laços da sociedade com o espaço e
gerando um “descentramento do individuo com a comunidade bem delimitada”
(Haesbeart, 2004:145). Neste contexto, o processo de desterritorialização é entendido
como transições demográfica e cultural inerente a refuncionalização territorial, que
incluem as diferenças e mudanças para um grupo social, que são acarretadas na
passagem de um território a outro.
A influência da pós-modernidade, no discurso da desterritorialização, se
caracteriza pela fragmentação, complexidade, e por uma nova ordem social, teleguiada
pelo advento tecno-ciêntifico, promovendo uma recriação da cultura. Neste sentido, os
meios de análise clássicos já não são suficientes para a abordagem desta complexa
realidade.

A relação objetiva entre sujeito e objeto já foi invalidada pelas colocações da


física quântica. As teorias a respeito do evolucionismo cultural já caíram por
terra. Novos paradigmas surgem em quase unanimidade abrangendo as
diversas ciências e, cada vez mais, o próprio conceito de ciência abrange
saberes múltiplos. Neste contexto surge, já a partir dos anos 60, uma corrente
de pensamento revalorizando o imaginário que, por séculos tinha sido
desprezado pela cultura ocidental. Nas ciências ditas humanas, além de
Gilbert Durand, “pai” das Estruturas Antropológicas do Imaginário,
encontram-se autores como Edgard Morin, trabalhando o conceito de
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 195
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

complexidade, Abraham Moles, trazendo a noção de flou caracterizando o


fenômeno social, Michel Maffessoli mostrando o novo espaço delimitado
pelas novas tribos com a noção de localismo afetual, Jean Baudrillard pondo
em destaque a dimensão do simulacro característica da vivência atual, entre
outros. (Nogueira e Pitta, 2001: )

Diante da idéia já expressa de desterritorialização, o território aparece como


o lugar, espaço físico e social, do domínio dos modos de vida que, ao sofrerem
mudanças apresentam situações propícias ao movimento migratório, e
conseqüentemente, acarretam na perda da identidade do lugar e do sujeito. Estas
mudanças são promovidas por uma conjuntura, na qual o estado aparece como regente
do território, redefinindo e reorientando o uso do mesmo. De acordo com Raffestin
(1993:15):

Do estado ao individuo, passando por todas as organizações pequenas ou


grandes, encontram-se atores sintagmáticos que produzem o território. De
fato o Estado está sempre organizando o território nacional por intermédio de
novos recortes, de novas implantações e de novas ligações.

No âmbito da Psicologia Social, o significado de território ultrapassa os


limites da configuração de sua paisagem, caminhando em direção a uma territorialidade
subjetiva, na qual o espaço vivido dos indivíduos é resultado da relação homem-
natureza e homem-homem, da qual originam suas representações, suas significações,
sua cultura que se caracteriza na identidade do território. Desta forma, “O território
pode tanto ser relativo a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do
qual um sujeito se sente em casa”. (Guatari, 1986: 323).

O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si


mesma. Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai
desembocar, pragmaticamente, toda uma serie de comportamentos, de
investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais e estéticos,
cognitivos.

Neste sentido, o ato de desterritorialização também ocorre subjetivamente,


pois ao desterritorializar-se, o indivíduo perde o referencial, através da desarticulação
cultural, levando-o a perda de sua identidade. A este processo de desterritorialização a
espécie humana esta mergulhada intensamente, tendo em vista que seus territórios
originais se desfazem ininterruptamente, e na fase atual com grande velocidade.
(Guatari,1986: 323)
A todo o momento o individuo se encontra em um processo de
desterritorialização, isto em função da sua própria evolução, estabelecendo assim novas
territorialidades, subjetivamente delimitando novas fronteiras, se reterritorializando.
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 196
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Neste sentido Guatarri (1986: 323) afirma que: a reterritorialização consiste numa
tentativa de recomposição de um território engajado em um processo
desterritorializante”.
Nas sociedades globalizadas, sob a égide da evolução tecnológica, ocorre o
fenômeno do “desencaixe”, entre espaço e tempo, que é definido por Giddens, (apud
Haesbaert, 2004: 57) como “O deslocamento das relações sociais de contextos locais de
interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de espaço”. Neste
contexto, de acordo com Haesbaert (2004: 158): “A desterritorialização é apenas uma
face de uma dinâmica conjunta de reterritorialização, o desencaixe espaço temporal
representa uma das faces do processo de reencaixe, em novas bases histórico-
geograficas”.
Em outras palavras, o território é reorganizado para atender as exigências do
momento histórico, rompendo com a organização anterior através do processo de
desterritorializaçõ, a reterritorialização é a adaptação a esta nova realidade, que
acontece concomitantemente a desterritorialização. Neste à
desterritorialização/reterritorialização a adaptação ao novo é envolvida por profundas
transformações, tendo em vista que o modo de vida anterior é significativamente
modificado, o que não implica numa absoluta perda de identidade do grupo ou
individuo envolvido no processo1. Como exemplo, podemos citar o caso do sertanejo
goiano envolvido no processo de modernização da agricultura, que passou por
mudanças e adaptações no seu modo de vida.

A modernização da agricultura em Goiás sob a ótica da


desterritorialização
O processo de desterritorialização promovido pela modernização da
agricultura no Estado de Goiás, se constitui na refuncionalização produtiva do território,
promovendo deslocamentos populacional no sentido campo/cidade e rupturas na vida
cotidiana e temporal de um grupo social, “os povos cerradeiros”.2
Estudiosos do processo de modernização do território goiano, tais como:
chaveiro (2001), Estevam (2004), Borges (2002), Chaul (2004), Arrais (2004),
Mendonça (2004), dentre outros, consideram que o processo de modernização é
resultado da territorialização do capitalista nacional e internacional no Brasil, atingindo
diretamente o interior do país. Neste contexto, é identificado o papel da dinâmica
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 197
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

capitalista na transformação do território goiano, onde se percebe que o processo


inevitável da apropriação capitalista sobre os espaços de produção agrícola de Goiás não
é um fenômeno isolado e independente das transformações globais da sociedade
moderna, ou seja, o território goiano se encaixa nos moldes da lógica global e capitalista
de produção.
Os discursos que justificavam a expansão capitalista eram carregados de
chavões como “progresso da região”, “desenvolvimento econômico”, “integração
nacional”, “avanço social”. O Poder Estatal era convocado a eliminar os “entraves do
progresso regional”, nesse momento a eliminação de aspectos culturais profundos da
formação territorial do país e de Goiás, era lançada nas mãos do governo como tarefa a
ser cumprida. De acordo com Estevam (2004: 11).

Argumentos de ordem espacial apontaram para o isolamento geográfico do


Estado, para sua insuficiência populacional e para a carência de vias de
comunicações inter-regionais. Na dimensão econômica, o latifúndio, a
pecuária extensiva e a débil produção agrícola comercial foram identificados
enquanto entraves ao dinamismo da região. No aspecto político algumas
pesquisas constataram – em determinados eventos históricos – “descaso” de
autoridades governamentais para o progresso da região. Mesmo no aspecto
sócio-cultural pesquisadores realçaram certo “desapego” ao trabalho, lamúria
e preferência pela ociosidade por parte do homem goiano, desalentado e
distanciado do progresso.

Por mais que a modernização do território goiano seja “uma modernização


conservadora” e isso se justifica no aspecto da estrutura latifundiária existente desde a
formação territorial de Goiás até os dias atuais, que, mesmo sendo considerada um
entrave para o “progresso do país” e criticada pelo capital internacional, ainda
permanece, ela provocou mudanças impactantes na nova divisão regional do trabalho e
no superestrutural, mais precisamente, nos aspectos culturais e ideológicos.
Antes das transformações concretas responsáveis pela nova configuração do
território goiano, foram necessárias mudanças no pensamento sobre o sistema produtivo
de Goiás e sobre sua posição geográfica. Avançar a agricultura e aumentar o
contingente populacional de uma região “predominantemente pecuária” e “isolada do
resto do país” exigiram dos governantes investimentos em campanhas de incentivo à
agricultura e ao povoamento de Goiás, para tanto, tinham que inverter o pensamento
que os brasileiros tinham sobre o isolamento do sertão goiano e convencer os
pecuaristas sobre as vantagens comerciais proporcionadas pela agricultura. A primeira
intervenção do Estado nesse sentido é ideológica. De acordo com Santos, (2004: 21):
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 198
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Vivemos numa época em que o superestrutural se adianta ao estrutural, não


somente para preparar o seu advento como também para determinar-lhe os
contornos. Os papéis do Estado e da ideologia, no nível nacional e
principalmente no nível internacional, são fundamentais para a definição da
totalidade do aparelho produtor.

A inserção da ideologia desenvolvimentista do estado dá inicio a


desterritorialização subjetiva3, mesmo antes da consolidação do processo de
modernização, estratégia do avanço do capital, que altera o território em sua totalidade.
Sobre esta atuação, Mészáros (2004: 16), afirma:

O sistema do capital em si não é apenas a reunião de um conjunto de


entidades materiais, organizadas e, sempre que as condições o exijam,
reorganizadas com sucesso numa ordem adequada pelos recursos combinados
da “racionalidade instrumental” e da “ética protestante do trabalho”, como é
geral e erroneamente entendido. Pelo contrário, é um sistema orgânico de
reprodução sociometabólica, dotado de lógica própria e de um conjunto
objetivo de imperativos, que subordina a si – para o melhor e para o pior,
conforme as alterações das circunstâncias históricas – todas as áreas da
atividade humana, desde os processos econômicos mais básicos até os
domínios intelectuais e culturais mais mediados e sofisticados.

A modernização da agricultura no território goiano se deu de forma


excludente e concentradora, transformando o mapa agrário da região através da
concentração de terras, que se deu com a incorporação de pequenas e medias
propriedades aos latifúndios. Diante deste quadro, aliado a maquinificação da produção,
os pequenos e médios proprietários, foram expropriados, ou seja, desterritorializados do
seu modo de vida anterior. De acordo com Silva (2001: 02):

A modernização da agricultura no território goiano desencadeou um


desenvolvimento desigual e contraditório no cerrado, processo dialético,
resultante das novas relações estabelecidas entre homem x natureza e homem
x homem para territorializar-se, se fez em detrimento à exclusão de uma
parcela da população, isto é da desterritorialização do camponês e da
ascensão dos grandes produtores.

A desterritorialização sertaneja resultou em um intenso movimento


migratório, no sentido campo/cidade, o que desencadeou um crescimento urbano
acelerado e em conseqüência uma urbanização desordenada. Neste contexto o sertanejo
desprovido de recursos financeiros e de formação educacional é excluído da cidade,
ocupando as áreas periféricas e sem infra-estrura, além de se sujeitarem aos
subempregos, devido à falta de qualificação profissional, exigida pela economia urbana.
Em outras palavras, os sertanejos se constituem nos deserdados da modernização, que
também não tem “direito a cidade”.
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 199
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Outro fator comum ao processo de modernização da agricultura em Goiás


foi o movimento migratório, rumo a outras regiões, ou seja, em direção as novas
fronteiras de expansão. Este fato é explicado pela situação dos médios produtores, que
não se enquadraram ao processo modernizador, porém tiveram suas terras valorizadas
pelo mesmo. Neste caso, os produtores venderam suas propriedades e adquirindo outras
em regiões onde o valor da terra era baixo, como no caso do norte de Mato Grosso e
Pará, ocorrendo uma transição de médio produtor agrícola a latifundiário pecuarista.
Neste contexto o processo de desterritorialização é abrandado pela reterritorialização
bem sucedida, pode-se dizer estes produtores não se constituem em deserdados da
modernização, mesmo porque, estão inseridos no processo de avanço do modo de
produção do capital.
Este fato é justificado pela seguinte forma: Enquanto produtor, antes da
modernização, o sistema de produção era pré-capitalista, com o uso de mão-de-obra
familiar, sistema de parceria, mutirão dentre outros; no momento em que se torna
pecuarista o sistema de produção passa a ser capitalista, a família reside na cidade (com
direito à mesma), e a produção do latifúndio se da pelo sistema de mão-de-obra
assalariada, característica do sistema capitalista de produção. Neste sentido, ao se
discutir o processo desterritorialidor da modernização da agricultura, deve-se destacar a
sua complexidade, que é negligenciada pela grande maioria dos trabalhos sobre o
assunto, dotados de uma visão totalizante, o que não condiz com a realidade.
Tomando como base uma visão pós-modernista da modernização da
agricultura, pode-se dizer que esta, com o advento da tecnologia criam o que Lencione
(2003:176) denomina de uma “segunda natureza de relações” alterando a relação
espaço-tempo. No caso da agricultura este fato é percebido pelo processo de
maquinificação da produção, no avanço da genética que através da hibridez altera a
natureza das plantas e animais, diminuindo o tempo da germinação, da colheita, em
outras palavras, alterando a natureza da natureza.
Neste contexto a desterritorialização aparece de duas formas
interdependentes: na primeira pelo caráter excludente do avanço tecnológico, no qual
aqueles que não têm acesso ao mesmo se vêem fora do mercado de trabalho e do
sistema de produção, sendo obrigados a abandonar o seu estilo de vida em nome de sua
sobrevivência; no segundo se refere a desumanização do homem em detrimento do
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 200
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

virtual, no qual o ser humano perde sua preeminência. De acordo com Lencione (2003:
176-177):

A aproximação virtual sobrepõe-se á antiga sociabilidade e se constrói uma


segunda natureza de relações que, mediatizada pela eletrônica, aproxima os
lugares e os homens, quebrando o isolamento territorial entre eles. Porém,
aprofunda-se uma dupla contraface: Uma relativa ao alijamento daqueles que
não participam diretamente dessas relações, fazendo-os impiedosamente, crer
no seu anacronismo. Outra decorre do fato de que essa mediação técnica
pode conduzir a uma maior desumanização do homem, em decorrência de o
ser humano estar perdendo sua preeminência.

No universo da segunda natureza é modificado o modo de pensar e de


perceber o espaço, diante de um ritmo alucinante de expansão das representações que
invadem o cotidiano do ser humano. Estas representações ganham autonomia e passam
a ser capitadas desvinculadas de seus significados se sobrepondo ao que representam.
Neste sentido pode-se dizer que o avanço tecnológico no campo alterou
significativamente o modo de vida e a própria personalidade do sertanejo, que
ludibriado pelas representações desenvolvimentistas, em sua grande maioria não
percebem suas perdas. Ao não se identificarem no então modelo de produção, não se
conscientizam que no ato do seu planejamento, já estavam externos a ele. O mais grave:
não tem idéia do colapso de sua identidade provocado pela sua fragmentação cultural,
arrancando os bens mais preciosos de sua condição sertaneja, sua dignidade de produzir
e sua honra de promover o sustento da família. De herança deixou ao mesmo a vergonha
do lugar a ele reservado pelo processo modernizador, o lado de fora.
Assim, urdimos, pois defender a inserção do sertanejo no sistema de
produção agrário, através de mecanismos assentes à reforma agrária, apesar de
compreendermos que a famosa “volta ao campo”, tão propalada, esmerada e vaticinada
pelos intelectuais, partidos políticos e, principalmente, pelos movimentos sociais do
campo, não implica em reconquista da “identidade perdida”, tampouco na assunção do
homem do campo a uma condição humanamente superior, mas, a uma situação
complexa, que, mesmo que venha implicar num provisório alcance ou recuperação da
dignidade material e simbólica do camponês, não resulta na solução de todos os males,
pois, como nos assegurou Santos “(...)acho um negócio horrível condenar um sujeito a
morar no campo.
É a maior perversidade que pode existir.”, pois “(...)o fundamental são as
pessoas, e suas necessidades e direitos e não onde elas estão.”Com certeza, Santos
acerta ao concluir que “o fundamental são as pessoas”, acertando também, com esta
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 201
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

tese, um firme golpe nos ingênuos intelectuais e numa certa militância política que
vêem na reforma agrária a panacéia para todos os problemas que afligem sem-terras e
demais segmentos de explorados e despossuídos que transbordam nas grandes cidades,
mas, ao nosso ver, exagera, pra não dizer erra, ao diagnosticar que tal processo sócio-
político (a reforma agrária) seja “a maior perversidade que pode existir”.
Preferimos acreditar que existam uma infinidade de outras condições que
são muito mais perversas, em termos humanos, existenciais e materiais, do que a
inferida por Santos, ademais, considerando alguns conteúdos programáticos de
determinados movimentos sociais, tais como os do próprio MST, enxergamos, pelo
contrário, um combate a anterior (e atual!) condição de perversidade que
estruturalmente condena o homem do campo e das cidades brasileiras a uma vida
totalmente destituída de qualquer perspectiva.
O que corrobora nosso posicionamento é o modelo de reforma agrária
brasileira, que condiciona o deserdado da terra, a interesses vinculados ao grande
capital, com a supervalorização das terras de grandes latifundiários, e com a sujeição do
assentado a normas do mesmo. Neste sentido concordamos com Oliveira (1986: 56), ao
afirmar que: “o modelo de reforma agrária tem que ser desvinculado do capital, não
consiste em apenas doar terras e sim dar condições para que o assentado sobreviva
dignamente dela”.

Considerações finais
Os Estudos sobre o espaço agrário nas ultimas décadas colocam como
ênfase a modernização da agricultura, sendo ela o carro chefe das mudanças estruturais
na renda fundiária e agrícola, inserindo o campo no capitalismo globalizado, o que
acarretou num conjunto de transformações: nos meios de produção, na fecundação do
solo, no tempo do plantio, na relação de trabalho, enfim no modo de vida da população
envolvida no processo. A modernização da agricultura implanta uma segunda
relação social, entre a sociedade do conhecimento e a sociedade do costume e das
tradições sertaneja, estabelecendo um conflito entre saber popular e saber científico, em
uma nova ordem de poder, na qual ascende o agrobusines. Este por sua vez, se sustenta
na exclusão camponesa e na utilização de evoluídos meios tecno-ciêntifico, da
biogenética, dos sistemas virtuais, da maquinificação, meios responsáveis diretos pela
desterritorialização do sertanejo.
BORGES, Júlio César Pereira. Desterritorialização: a ótica cultural do processo de 202
modernização da agricultura em Goiás. Estácio de Sá – Ciências Humanas.. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 195-206, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Diante dos impactos, surge uma resistência camponesa ao modelo do


agrobusines, orientados por entidades e grupos intelectuais, organizações como MST,
MAB dentre outros, tem conseguido importantes vitórias em direção a sustentabilidade,
a segurança alimentar, ao coletivismo, a manutenção de seus costumes, tradições.
Infelizmente a força do grande capital é maior, principalmente no que se refere à
ideologia, que através das mídias desvirtua o verdadeiro significado de tais movimentos,
colocando-os como desordeiros, o que concedido pela grande maioria da população,
inclusive os que são beneficiados por esta luta.
Desta forma podemos afirmar que a modernização da agricultura em Goiás,
promoveu uma desterritorialização excludente da grande maioria dos sertanejos, a partir
do momento que estes são expropriados do seu modo de vida. Embora a luta seja árdua,
nos parece que a única forma de amenizar esta situação é o fortalecimento dos
movimentos contrários ao modo de produção capitalista.

NOTAS
1 Para Stuart Hall, autor que tem se posicionado ao lado da virada pós-moderna, a identidade
não se define, em última instância, unicamente pela classe social a qual pertence o indivíduo.
Segundo o mesmo, a identidade é fruto de uma espécie de jogo, onde o indivíduo se
posiciona e assume posições diversas dentro da “partida social” que disputa, ou seja, a
tradicional idéia de submissão total do sujeito diante do poder aniquilador econômico-
político, estaria sendo substituída pela atual idéia de identidade como uma mutante “força
plástica”, onde o eu não é idêntico a si mesmo, mas , pelo contrário a do indivíduo
fragmentado que se (re)constrói através dos discursos, das suas práticas e de suas posições
assumidas no “jogo”, o que, necessariamente, supõe graus de escolha e autonomia.
2 Expressão utilizada pelo prof. Dr. Marcelo Mendonça em sua tese de doutorado intitulada a
Urdidura do Trabalho e do Capital no Cerrado do Sudeste Goiano.
3 Expressão utilizada por Felix Guatari ao definir a perda cultural de um indivíduo ou grupo
social no processo de mutação territorial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 / Jun. 2009.

DEMOCRACIA, NOVOS ARRANJOS


INSTITUCIONAIS E GESTÃO DAS CIDADES*

Adão Francisco De Oliveira∗*


Juliano Martins Rodrigues***

Resumo: Abstract:

Este texto tem por finalidade analisar a This text has as purpose to analyze the
efetivação das formas de participação effect of the social politics forms of
sociopolíticas instituídas no Brasil após a participation instituted in Brazil after the
Constituição de 1988, principalmente no que Constitution of 1988, mainly in what
diz respeito ao planejamento e concerns to the urban planning and
desenvolvimento urbanos, regulamentados development, regulated in 2001 from the
em 2001 a partir do Estatuto da Cidade. A Statute of the City. The basic idea is to
idéia básica é discutir os condicionantes da argue the conditioners of the culture
cultura política e a sua materialização em politics and its materialization in action of
ações de impacto no sistema democrático impact in the Brazilian democratic system,
brasileiro, verificando não só a capacidade verifying not only the organization
organizativa da sociedade civil como capacity of the civil society as also the
também os dispositivos de abertura do devices of opening of the State created by
Estado criados por governos. No caso governments. In the specific case of
específico de Goiânia, se pretende verificar Goiânia, it intends to verify the impacts of
os impactos do programa “Agenda Goiânia” the program “Agenda Goiânia” in the
na ampliação da condição democrática. magnifying of the democratic condition.

Palavras-chave: Key-Words:

Democracia; Gestão urbana; Participação Democracy; Urban management; Social


social; “Agenda Goiânia”. participation;”Agenda Goiânia”.

A deterioração da qualidade de vida nas grandes cidades brasileiras tem


levado à reflexão um número razoável de pesquisadores das ciências sociais no Brasil
nesse início de século. A cidade presente nos estudos e programas de pesquisas é
visivelmente demarcada por ocorrências empíricas relacionadas à violência, às
condições precárias de moradia, à saúde e à gestão pública. Essa situação é agravada
porque desde a metade do século passado verificam-se explosões demográficas e o
fenômeno da metropolização atinge diversos pontos no território brasileiro.

∗ Texto apresentado no XIII Congresso Brasileiro De Sociologia, acontecido entre os dias 29 de maio e
01 de junho de 2007 na UFPE, Recife – Pe.
**Graduado em História (UFG), mestre em Sociologia (UFG) e doutorando em Geografia pela UFG-GO.
Pesquisador do observatório das metrópoles – núcleo de Goiânia e professor de sociologia na FECHA. E-
mail: adaofrancisco@yahoo.com.br
***Graduado em Ciências Sociais (UFG) e mestrando em Sociologia (UFG). Pesquisador do observatório
das metrópoles. E-mail: juliano_cs@hotmail.com
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 205
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Embora já tivessem sido debatidas anteriormente, é no período da


democratização dos anos 1980 que a problemática urbana no Brasil adquire umconteúdo
propriamente político. Através do Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU)
ganham destaque as reivindicações relativas aos níveis de injustiça social no meio
urbano e as pressões para democratização do planejamento e da gestão (SOUZA, 2003).
O principal efeito da atuação do movimento foi a inscrição de instrumentos legais com
essa orientação na Constituição de 1988.
Ao analisarmos os artigos da constituição que tratam da política urbana -
182 e 183 – percebemos a presença dos dispositivos principais que regulamentam os
dispositivos de controle e ordenamento urbano. A efetiva regulamentação desses artigos
encontra-se, no entanto, na lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001; o Estatuto da Cidade.
As diretrizes do Estatuto da Cidade, de forma geral, podem ser vistas assim: (a) as
clássicas, referentes ao planejamento e uso do solo urbano; (b) as referentes à ação do
poder público; (c) as que se referem à função social da propriedade; (d) as que dizem
respeito à oportunidade de propriedade urbana e á moradia, sobretudo pelas populações
de baixa renda; (e) as que tratam da relação entre poder público e sociedade através da
participação individual e comunitária; e (f) aquelas relativas às necessidades de proteção
do meio ambiente, do patrimônio histórico, etc. (Cardoso e Ribeiro, 2003).
Uma das diretrizes no Art. 2º, inciso II, diz respeito à participação popular
na gestão e no planejamento urbano:

“gestão democrática por meio da participação da população e de associações


representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação,
execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de
desenvolvimento urbano;” (Estatuto da Cidade, 2001)

Esse novo quadro institucional reorienta a atuação dos agentes coletivos


dentro do campo político citadino, uma vez que faz despertar o interesse público por
questões de desenvolvimento urbano, principalmente aquelas que são pontuais e que
demarcam cotidianamente a vida urbana, tais como a ocupação do solo, as políticas
habitacionais e o transporte coletivo.
Ribeiro e Cardoso (2003) entendem que o “espaço urbano é uma arena onde
defrontam interesses de benefícios em termos da geração de rendas e obtenção de
ganhos”, e que, portanto, se referem basicamente ao interesse de ordem econômica. Por
outro lado, demandas por melhores condições materiais e simbólicas de vida se
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 206
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

manifestam em um quantitativo crescente de pessoas. O cenário daí derivado evoca a


discussão tanto dos problemas urbanos quanto das questões que envolvem a
mobilização política e a participação coletiva nas cidades.
Nessa perspectiva, entendemos que os processos de definição das políticas
urbanas estão, agora, demarcados por uma nova relação entre Estado e sociedade
(Gohn, 2003; Nogueira, 2004; Santos Júnior, 2001) e a atuação dos agentes nos espaços
de decisão e controle são orientadas por novas formas e conteúdos. Isso porque o
arranjo institucional proporcionou a emergência de formatos diferenciados de espaços
decisórios nas cidades. Neste estudo pretendemos identificar os conteúdos de
participação popular e de democratização em uma experiência um tanto nova nessa
dinâmica: a discussão implementada por uma empresa privada de comunicação na
cidade de Goiânia.
Como estratégia analítica, optamos, primeiramente, por destacar a formação
do espaço urbano de Goiânia, destacando as contradições e especificidades que o
qualificam, pressupondo uma forte articulação entre a dinâmica espacial na definição da
política. Depois, para clarear a discussão, indicamos através de um quadro expositivo a
dinâmica de funcionamento da experiência em questão. Por fim, destacamos as formas
associativas que estiveram inseridas nestes processos de consulta popular.

A formação do espaço urbano de Goiânia

Construída numa localização estratégica no Estado de Goiás para alojar não


só o centro do poder político como também do desenvolvimento econômico, Goiânia
satisfez a uma dupla dimensão de interesses. A primeira é a idealizada pelo pioneiro
Pedro Ludovico Teixeira na representação política dos produtores agropecuários do
sul/sudoeste do Estado. Nesta, a nova capital do Estado estaria topicamente distante da
influência das velhas oligarquias goianas – influência esta exercida a partir da cidade de
Goiás –, sob liderança da família Caiado e atenderia com mais precisão a demanda por
infra-estrutura e serviços públicos das regiões sul e sudoeste do Estado, articuladas à
economia de mercado dirigida pelo centro-sul do país (Campos, 2002; Chaul, 1997,
2000; Oliveira, 2002b). A segunda dimensão é aquela dirigida por Getúlio Vargas, que
via Goiânia como um entreposto para a concretização do projeto de segurança nacional
e, ao mesmo tempo, um trampolim para a articulação do centro-norte amazônico à
economia de mercado, como pretendiam os investidores do capital (Bernardes, 1998;
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 207
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Chaul, 2000; Oliveira, 2002b). Goiânia seria, nesta perspectiva, um instrumento


fundamental da política da “Marcha para o Oeste”.
Assim, entre as décadas de 1930 e 1960 a capital goiana foi o palco de
decisões políticas que, por um lado, viabilizaram o avanço da fronteira econômica para
fora de seu território, rumo ao norte do país – integrando todo o território goiano, no
geral, à rede de mercado capitalista e potencializando seu “papel” na divisão regional do
trabalho (Borges, 2000). Por outro lado, para que Goiânia suportasse o peso de sua
representação, tais decisões a produziram razoavelmente na sua dimensão pública para,
a partir de 1950, permitirem a privatização das iniciativas de seu desenvolvimento. A
este respeito é interessante o que dizem alguns estudiosos sobre a cidade, ao
conceituarem o período. Para Pastore (1984) o período significou “a privatização do
parcelamento do solo em Goiânia”icou “ere dizem alguns estudiosos sobre a cidade, ao
conceituarem o peror moradia e alternativa de sobreviv; Chaves (1985) o compreende
como sendo de “privatização do espaço e conflitos urbanos”; Moraes (1991) o identifica
como sendo a “fase de ampliação do espaço”.
Desta forma, a gestão pública sobre a capital do Estado de Goiás
aproximava a lógica de desenvolvimento da cidade à nova fase do desenvolvimentismo
nacional, que garantiu privilégios à iniciativa privada nas ações sobre os territórios,
resumindo-se à montagem de infra-estrutura básica e de serviços e a mediar interesses
econômicos. O impacto dessa condição política sobre Goiânia foi significativo, haja
vista que sobre esta cidade recaia uma intensa procura por moradia e alternativa de
sobrevivência de famílias retirantes da zona rural e de pequenas cidades sem grandes
perspectivas, tanto de Goiás quanto de outros Estados, principalmente do Nordeste (em
particular do Maranhão e da Bahia) e de Minas Gerais.
O resultado de tudo isso foi um intenso crescimento demográfico de
Goiânia, de acordo com os seguintes índices: de 1950 a 1960, 187,5%; de 1960 a 1970,
153,9%; e de 1970 a 1980, 109,7%. Ou seja, Goiânia saltou de uma população de
53.389 habitantes em 1950 para 817.343 habitantes em 1980 (Souza, 1996: 38. Apud
Oliveira, 2002b: 71).
Nestas dimensões, Goiânia viu não só um aumento do sítio urbano, como
também uma diversidade social aumentada, pois passou a agregar “uma variabilidade de
possibilidades de trabalho, de níveis de consumo, de papéis sociais e de proveniência de
pessoas” (Costa, 2005: 80).
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 208
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Essa trajetória de crescimento nos faz compreender a cidade de Goiânia


como uma metrópole precoce. Idealizada e concretamente iniciada no limiar dos anos
de 1930, Goiânia encerrou o século XX na condição institucional de metrópole, tendo
atingido em 2005, segundo estimativas do IBGE, aproximadamente 1,2 milhão de
habitantes, sendo que sua região metropolitana, neste mesmo ano, constituída por mais
11 municípios1, alcançou 1.934.771 habitantes.
A complexidade de processos sociais que acompanham o fenômeno da
metropolização deu contornos bem definidos ao que hoje compreendemos como Região
Metropolitana de Goiânia. O que foi moldado resultou na constituição de uma série de
novos problemas sócio-territoriais, os quais se traduzem nos espaços diferenciados da
cidade pólo e de seu entorno.

2. Segregação sócio-espacial e as lutas políticas na cidade

A dinâmica percebida na formação do espaço urbano de Goiânia e que hoje


predomina nas grandes cidades brasileiras é assinalada por um fenômeno identificado
na maioria dos estudos urbanos como sendo efeitos da segregação espacial.
Villaça (1999) entende que a alta concentração de camadas sociais em
determinada parcela do espaço urbano caracteriza a segregação residencial. Em seu
argumento, a segregação espacial na cidade mostra-se necessária para que exista uma
dominação pelo espaço urbano e para que, através dessa dominação, haja apropriação
diferenciada do produto do trabalho, entendendo que o espaço urbano é o produto do
trabalho de todos os que habitam e trabalham na cidade.
Caldeira (2000), ao analisar o processo de urbanização de São Paulo,
identifica diferentes momentos de consolidação da segregação urbana. No primeiro,
diferentes grupos sociais se comprimem numa mesma área, sem a definição clara de
áreas/bairros para determinados grupos. Este período vai do final do século XIX até os
anos 40; outro momento, que vai até o início dos anos 1980 é caracterizado pela relação
centro-periferia, que estabelece regiões para cada grupo social, sendo que as classes
mais elevadas ocupam o centro e suas imediações e os pobres a periferia; No momento
atual, que rompe com os limites de áreas de circunscrição, embora o padrão centro-
periferia ainda ocorra, destaca-se o padrão dos enclaves fortificados (condomínios
fechados), onde a noção de separação de classes torna-se sem sentido, tendo-se que falar
somente em excluídos e incluídos, que convivem lado a lado separados por muros.
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 209
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Atualmente o debate aumenta em complexidade, sendo ampliado,


sobretudo, pelas modificações que operam em níveis globais e das modificações que o
processo de metropolização acarreta na realidade urbana brasileira. Segundo Ribeiro
(2005), as causas macro-estruturais estão ligadas à globalização que impõe novos
modelos e paradigmas às políticas urbanas, por um lado, e, por outro, reordena a
economia a partir da concentração de investimentos e renda. Tudo isso molda a
estrutura social de forma polarizada. No caso da metropolização ocorre esvaziamento e
estagnação de áreas centrais das maiores cidades, com a emergência de novas dinâmicas
imobiliárias, marcadas principalmente pela inclusão dos enclaves residenciais de alta
renda, fortificados e reclusos através de barreiras físicas bem visíveis, como muros altos
e cercas elétricas (Ribeiro, 2005).
A forma com que a cidade é estruturada socialmente é premissa
fundamental para se delimitar o conceito de segregação. A diferenciação social se
converte em espaços também diferenciados e o entrelaçamento desses dois tipos de
relação social é determinado por hierarquias definidas a partir, então, da localização
espacial e do acesso a bens materiais e simbólicos. A segregação espacial, nessas bases,
produz uma dinâmica de causação circular da pobreza e o efeito disto é a alta
concentração de grupos em situação de vulnerabilidade em territórios homogêneos, por
um lado, e a concentração de categorias superiores, em outro (Ribeiro, 2005).
Ruben Katzman (2005), embora não fazendo uso da mesma terminologia,
demonstra de forma bastante lúcida essa relação, mostrando a existência de um certo
círculo vicioso entre pobreza e concentração espacial2. Para esse autor, o isolamento de
alguns estratos pobres das populações urbanas se converte em um obstáculo importante
para o acúmulo de ativos necessários para deixar de ser pobre, fazendo com que a
pobreza urbana socialmente isolada se constitua em um caso paradigmático da exclusão
social. Nessa linha, o resultado mais significante é a manutenção de vínculos frágeis
entre a população destituída e as instituições que detêm o controle das normas e valores
dominantes na sociedade, como no caso do sistema educacional.
Por outro lado, ocorre também um cercamento cultural e simbólico que fica
estereotipado nas concentrações espaciais. Esse processo gera padrões de conduta e
cognição singulares. Tal perspectiva é trazida por Wacquant (2001) que apresenta a
noção de gueto para essas formações sociais.
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 210
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

A partir dessas considerações entendemos que o efeito das diferenças que se


traduzem no espaço tem um retorno imediato para a dinâmica social. Isso porque além
de acarretar modificações significativas nas relações produtivas com recolocação da
população no mercado informal, diminui as chances de protagonismo da população
segregada porque diminui os ativos necessários para reforçar os vínculos com as
instituições e porque engendra padrões de conduta e comportamento que pouco
contribuem para a afirmação de direitos e de princípios de justiça social. Por isso a
confluência entre espaço demarcado pelo fenômeno da segregação e os processos
políticos concomitantes são as variáveis preponderantes nesta reflexão.
As lutas políticas de conteúdo predominantemente urbano são recentes no
Brasil. A questão urbana só foi agregada à agenda política nacional, como entendem
Bonduki e Kowarick (1988), a partir dos anos 70. Nesse deslocamento, as lutas e
reivindicações que se desenvolveram em busca de benefícios urbanos, acesso à terra,
habitação e bens de consumo coletivos passam a se relacionar às conjunturas políticas.
Isso porque a segregação enquanto forma de domínio político cristalizou e passou a
dominar as relações de poder na cidade. A chamada espoliação urbana, como afirma
Kowarick, fixou o mito de uma sociedade amorfa, incapaz intelectualmente de
reivindicar e lutar por direitos primários, relacionados, sobretudo, às condições de
trabalho e moradia nas metrópoles (Kowarick, 1993).
Para Gohn (2003), a transformação no cenário político das metrópoles,
através da redemocratização, instaura um novo vínculo entre sociedade e Estado,
marcado, sobretudo, pela ascensão de movimentos sociais que, mesmo influenciados
por vetores de despolitização e individualismo, possibilitaram o estabelecimento e a
consolidação de novos espaços de reivindicação. Esses espaços se traduzem em fóruns
permanentes, audiências públicas, conselhos gestores, etc. A dinâmica, agora assinalada
pela participação popular, é definida a partir da atuação de uma heterogeneidade de
entidades, compostas por diferenciadas visões de mundo, valores, projetos sócio-
políticos e culturais e cultura política em si.
A nova relação entre sociedade e Estado demarca também as políticas
urbanas. Por isso as prerrogativas participativas, presentes no ideário da reforma urbana,
refletem-se na gestão e no planejamento urbano. As administrações de esquerda nos
municípios brasileiros a partir dos anos 90 instauraram, segundo Cardoso e Ribeiro
(2003), o “planejamento politizado”.
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 211
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

Ao lado desse planejamento urbano politizado se consolida, também, um


amplo espaço de luta política que situa diferentes agentes na defesa de interesses. O
espaço urbano passa a ser uma arena de luta onde se concentra de um lado agentes
interessados na apropriação de renda e ganhos de origem produtiva ou comercial, e de
outro os que lutam por melhores condições materiais e simbólicas de vida. (Cardoso e
Ribeiro, 2003)
Ao pressupormos a atuação de uma complexa rede de agentes coletivos
agarrados a referências diversas, resta saber como se configura os espaços de ação
desses agentes, isso é tarefa das teorias democráticas atuais.

2.1 Democracia, condição democrática e poliarquia

É bastante rico e não menos extenso os debates sobre democracia


atualmente. A complexificação social impõe novos desafios às teorias democráticas
(Costa, 2001), o que concorre para o estabelecimento de escolhas teóricas mais
aproximadas com os objetivos das investigações. Ao admitirmos que a indagação que
aqui fazemos sobre a mobilização política nas questões urbanas está relacionada com
um quadro institucional específico, procedemos na análise das instituições políticas
como forma de antecipar as nossas conclusões.
Dahl (1997) admite uma distinção entre democracia, como ideal regulador,
e poliarquias, como exemplares empíricos da descrição. Neste modelo existe uma
combinação entre cooperação e conflito, pressupondo a existência de instituições
visíveis para os agentes, como eleições, partidos e parlamentos.
Tal percepção se baseia na suposição de que o governo dê respostas às
preferências dos seus cidadãos, considerados como politicamente iguais. Assim, aos
cidadãos devem ser garantidas algumas (oportunidades?) na sua plenitude, as quais
incluem: a formulação de preferências; expressão das preferências aos demais membros
da comunidade coletiva e ao governo através da ação coletiva e individual; ter as
preferências igualmente consideradas na conduta do governo, independentemente do
conteúdo ou da fonte.
A forma como os governos geram estas condições relaciona-se com os
regimes democráticos, existentes numa ampla variedade de situações. Por isso, Dahl
(1997:31) prefere designar as experiências reais dos sistemas políticos de poliarquia.
Por esta, se entende “um regime fortemente inclusivo e amplamente aberto à
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 212
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contestação política”. Por regime aberto se entende a liberalização da competição


política por ato institucional, bem como o reconhecimento da igualdade de direitos e a
aceitação dos resultados da competição. Já por regime de inclusividade, se entende a
participação social em eleições e em cargos públicos eletivos, bem como na sua
organização social, também com garantia de direitos. Compreende-se melhor a
poliarquia na contraposição de regimes contrários, tais como: 1) a hegemonia fechada;
2) a hegemonia aberta; e 3) a oligarquia competitiva.
Resumidamente, a proposta teórica de Dahl é enquadrar realidades
democráticas específicas ao seu modelo de análise. As variáveis principais nesse caso
são: 1) a amplitude do direito de participação e 2) a existência do direito à contestação
pública.
No caso de Goiânia, investigar os canais de participação na cidade
possibilita o estabelecimento de um quadro esclarecedor no nível poliárquico assumido
nessa realidade. Resguardadas as devidas proporções, a experiência eleita para este
estudo serve de indicador para essa aproximação.

3. Agenda Goiânia

O Agenda Goiânia foi um programa implementado pela Organização Jaime


Câmara – maior empresa de comunicação do estado –, pela Prefeitura de Goiânia e pela
Universidade Católica de Goiás. Entre fevereiro e novembro de 2006 foram realizados
10 encontros que tiveram como proposta discutir o “futuro” da cidade de Goiânia. O
objetivo explícito dessas discussões era debater temas que envolvessem a população, de
modo que as reuniões foram dividas em 6 eixos temáticos: a) desenvolvimento
econômico; b) sustentabilidade Sócio-ambiental; c) ordenamento territorial; d)
mobilidade e acessibilidade; e) desenvolvimento sócio-cultural e; f) gestão urbana.
Durante os encontros esses eixos foram operacionalizados através de grupos
de trabalho coordenados por duas pessoas ligadas aos temas e vinculadas à
Universidade Católica de Goiás e à Prefeitura de Goiânia. Tinha, também, o
acompanhamento de um relator ligado à empresa de comunicação. A composição era
completada pela participação popular.
Como podemos perceber os princípios que orientaram essa experiência têm
em suas diretrizes fundamentais os elementos necessários para a inclusão política. No
entanto, ao tratarmos de uma cidade significativamente contraditória no que diz respeito
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 213
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à ocupação do solo, como é o caso de Goiânia, é necessário problematizar tal conclusão


a fim de saber em que medida a mobilização tem efeito na diversidade dos agentes
políticos nesse espaço e como afetam o conteúdo das discussões.
De acordo com o levantamento realizado o programa teve ampla
divulgação, contou com a participação dos principais veículos da empresa organizadora,
das universidades e de organizações profissionais relacionadas com a temática urbana.
Os resultados das discussões foram publicados em cadernos especiais no jornal O
popular e contou com a colaboração de especialistas no assunto. Em termos
quantitativos 983 pessoas participaram das discussões, sendo que a participação em
cada eixo ficou assim distribuída:

Tabela 1. Distribuição dos participantes nos eixos temáticos

N %

Sustentabilidade sócio-ambiental 239 24,3


Desenvolvimento sócio-cultural 210 21,4
Mobilidade e acessibilidade 178 18,1
Ordenamento Territorial 127 12,9
Gestão urbana 123 12,5
Desenvolvimento Econômico 106 10,8
Total 983 100,0

Consideradas dimensões da publicidade recebida, da diversidade de


conteúdo e do quantitativo da participação esse espaço criado pelo Agenda Goiânia
pode ser tomado como altamente poliárquico, no sentido colocado por Dahl, ou seja
aberta à participação política por um lado, e por outro garantidora do direito à
contestação pública.
A problematização aqui proposta, no entanto, amplia essa primeira
consideração tentando examinar o conteúdo da dimensão poliárquica dessa experiência.
Com esse exercício almeja-se analisar a qualidade da participação política na definição
das políticas urbanas.Para efeito analítico recompomos a conjuntura em que as
discussões do Agenda Goiânia encontram-se inseridas, qual seja o processo de
elaboração do Plano Diretor da Cidade de Goiânia.
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Iniciado ainda no mandato do Partido dos Trabalhadores entre os anos de


2000 e 2004, este processo ficou emperrado na câmara municipal porque havia um
impasse quanto à expansão da área urbana do município. Embora nesse período tenha
ocorrido uma conferência da cidade, plenárias do orçamento participativo, e inúmeras
audiências públicas, o plano diretor acabou paralisado na câmara.
Atualmente essas discussões se arrastam e o plano diretor continua parado
na câmara municipal aguardando votação por parte do legislativo. As polêmicas
continuam girando em torno da expansão da área urbana da cidade. De um lado, a
prefeitura, que insiste em sustentar uma quota de lotes para cada loteamento aprovado, e
de outro, o mercado imobiliário, que sustenta que tal ação caracteriza confisco e que tal
prejuízo será repassado aos consumidores.
Ao analisarmos as atas do Agenda Goiânia procuramos avaliar em que
medida as polêmicas que envolvem a política urbana de Goiânia foram tomadas
enquanto problema coletivo. Procuramos, primeiro, identificar discursos em torno da
aprovação do plano diretor, que paralelamente encontrava-se em discussão na câmara
municipal. Foi possível perceber que tal ponto foi pouco discutido, e mesmo quando
isso ocorreu ficou distante das diretrizes fundamentais que orientam a elaboração do
plano. Nas demandas da população, aparecem reivindicações pontuais dos bairros e
regiões, sem vínculo com dispositivos aplicáveis à legislação urbana. As falas giraram
em torno de problemas no mercado de trabalho, na estética dos bairros, no
desenvolvimento econômico e na valorização imobiliária.

“Moradores do Setor Sul solicitam discussões aprofundadas para um possível fechamento das
vielas, transformando o bairro em condomínio fechado.”
“Cobra-se a incorporação, pelo Plano Diretor, de um Plano de Arborização.”
“Campinas é vítima da poluição visual, sonora e hídrica. Vizinhos de ferros-velhos e
serralherias são os mais prejudicados.”
“Foi sugerido engajamento da comunidade e o envolvimento do empresariado local na
priorização da contratação de jovens da região.”
“A demora na autorização para construção de prédios em Campinas reflete “descaso” das
administrações municipais e a ausência de obras de grande impacto em uma região que ´parou
no tempo´.”
“Uma das formas de gerar mais empregos na região central de Goiânia é estimular os
comerciantes informais a partirem para a formalidade e criarem suas micro e pequenas
empresas. Para tanto, é necessário que a Secretaria de Desenvolvimento Econômico crie
políticas específicas para os informais e artesãos, apoiando essas pessoas em seus projetos de
estruturação comercial e empresaria.”
“Os bairros de ambas as regiões necessitam de um plano de arborização, que está previsto no
Plano Diretor, e mapeamento das áreas onde se encontram árvores cinquentenárias, muitas
delas doentes, e oferecendo risco de acidentes.”
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 215
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Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

O conteúdo das demandas consagrou as solicitações pontuais, com forte


vínculo paternalista do estado. A manutenção desse padrão de conduta frente ao papel
do Estado parece responder às hipóteses de que o espaço urbano contraditório produz
também lógicas conflituosas dentro do campo político. Verificamos que as demandas da
população urbana mobilizada dentro da experiência participativa ainda não assumiram o
conteúdo correspondente aos problemas urbanos fundamentais.

4. Considerações finais

Este trabalho implicou num exercício de aproximação que tentou


demonstrar a íntima relação entre a questão urbana e a questão política. A primeira
centrada nas contradições que demarcam o espaço segregado da metrópole atual, e a
segunda focada na mobilização coletiva em torno das decisões sobre o futuro da cidade.
A pergunta fundamental, e que o prosseguimento dessa reflexão tentará
responder é: na reunião de organizações coletivas em Goiânia os espaços
institucionalizados estão se constituindo em um campo de atuação política fundamental
para o futuro da cidade (urbano)? E mais: de que tipo são essas organizações coletivas
e qual o sentido vetorial das decisões deliberadas?
A construção de um novo modelo de sociedade, ou seja, de cidade que se
quer, passível de ser alcançada dentro dos marcos da institucionalidade, só será possível
se houver o envolvimento efetivo do povo em processos de participação a partir do seu
lócus de referência – a rua, o bairro, a região, o trabalho etc. Isto implica em dizer que,
de onde quer que as pessoas estejam, uma sociedade pautada num modelo democrático
que pretenda a sustentabilidade dentro de um contexto de desenvolvimento integrado, é
fundamental a sua organização e participação nos processos institucionais decisórios.
Isto significa que a ampla participação popular faz com que a cultura
política de gestão e de intervenção na cidade vai sendo transformada, na medida em que
a apropriação da cidade vai se confirmando num processo contínuo de democratização
dos espaços públicos. Não obstante, o exercício permanente de cidadania se erige frente
à liberdade e à crítica de escolhas e decisões em espaços públicos.
Contudo, as experiências de gestão da Goiânia, principalmente a partir da
década de 1990, do ponto de vista político-social, não possibilitou grandes avanços para
a implantação de mecanismos estáveis de descentralização decisória do espaço urbano,
mesmo nas administrações que neste período se apoiaram nos movimentos sociais de
OLIVEIRA, Adão Francisco de e RODRIGUES, Juliano Martins. Democracia, novos 216
arranjos institucionais e gestão das cidades. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 207-220, Dez. 2008 /
Jun. 2009.

recorte popular. Instrumentos utilizados como Orçamento Participativo, Conferência das


Cidades e Agenda Goiânia não conseguiram abrir espaço efetivo de participação que
possibilitasse a criação de um novo centro de poder, com capacidade de intervenção, em
consonância com os respectivos executivos do período, na perspectiva de dar uma
feição mais democrática na gestão dos problemas urbanos.

NOTAS

1 A Região Metropolitana de Goiânia – RMG, foi criada em 1999 pela Lei Complementar
nº 27, que instituiu como finalidade “integrar a organização, o planejamento e a execução de
funções públicas de interesse comum dos municípios dela integrantes” (cf. art. 2º). Faziam
parte dela 11 municípios, sendo eles: Abadia de Goiás, Aparecida de Goiânia, Aragoiânia,
Goianápolis, Goiânia, Goianira, Hidrolândia, Nerópolis, Santo Antônio de Goiás, Senador
Canedo e Trindade. Porém, a partir de 2004, com a Lei Complementar nº 049, foi acrescentado
a ela o município de Bela Vista de Goiás.
2 Para o autor, a situação é gerada pela precariedade ou inexistência dos vínculos com o
mundo do trabalho pela redução dos espaços públicos que geram relações informais de
convívio.

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OCUPAÇÃO DO ESPAÇO URBANO


E PRODUÇÃO DE DESIGUALDADES SOCIAIS:
O CASO DE GOIÂNIA

Marcelo Gomes Ribeiro∗

Resumo: Abstract:

O objetivo do presente trabalho é o de The objective of the present work is to


comparar as condições sócio-econômicas de compare the social-economic conditions of
duas regiões administrativas da cidade de two administrative regions in the city of
Goiânia – Região Noroeste e Região Sudeste Goiânia - Northwest Region and Southeastern
– e a partir disso buscar relacionar com a Region - and from this comparison try to
intervenção que o Estado realizou em cada relate with the intervention that the State
uma delas. Essas regiões surgiram no carried through in each one of them. These
cenário municipal mais ou menos no período regions had appeared in the municipal scene
histórico, porém desde o inicio a forma more or less in the historical period, however
como cada uma foi viabilizada até os dias since the beginning the form as each one was
atuais, fizeram com que o poder público made possible until the current days had made
dedicasse mais atenção à uma que a outra. E that the public power dedicated more
claro que isso contribui para que haja attention to one that to the other one. And it is
diferenças entre elas traduzidas na forma de certain that this fact contributes so that has
investimento em infra-estrutura pública, bem differences between them, translated in the
como na construção de equipamentos. Para form of investment in public infrastructure, as
tanto, procura-se demonstrar que a forma well as in the equipment construction. For
como o Estado e os diversos agentes sociais such thing, we aim to demonstrate that the
atuaram no processo de produção do espaço form as the State and the diverse social agents
urbano, que resultou em desigualdades had acted in the process of urban space
sociais, estão inseridas num contexto mais production, that resulted in social inequalities,
amplo de transformações estruturais are inserted in an ampler context of structural
ocorridas no mundo e no Brasil, que afetam transformations occurred in the world and in
na própria estrutura do Estado de Goiás e, Brazil, that affect in the proper structure of
por conseguinte, na estrutura urbana de um the State of Goiás and, therefore, in the urban
contexto particular, como é o caso de structure of a particular context, as the case of
Goiânia. Goiânia.

Palavras-chave: Key-words:

Desigualdades sócio-espaciais, espaço intra- Social-space inequalities, intra-urban space,


urbano, urbanização e Estado. urbanization and State

Introdução

Este trabalho trata-se de uma discussão acerca das desigualdades sócio-


espaciais produzidas no contexto urbano de uma metrópole no interior do Brasil, a partir

∗ Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Católica de Goiás (2001) e Mestrado em
Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (2007). Atualmente é doutorando em Planejamento
Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 219
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

da ação do Estado (poder público). Ela procura compreender os processos que se


produziram essas desigualdades. O foco de análise centra-se nas desigualdades sócio-
espaciais, apesar de haver concentração na compreensão do modo como o Estado as
favoreceu. Porém, isso precisa ser visto apenas como um recurso para abordagem da
emática proposta, visto que se há desigualdade, ela precisa ser justificada a partir de
elementos concretos.
O contexto espacial escolhido trata-se de Goiânia, a capital do Estado de
Goiás desde 1933, quando da sua fundação. Por ser uma cidade planejada num
momento histórico específico, esta cidade possui particularidades próprias que a
diferencia inclusive de outras cidades planejadas do país. Porém, ela possui
características que lhe confere homogeneidade em relação às demais cidades brasileiras
que passaram por um processo de crescimento populacional e de metropolização. Esses
aspectos homogêneos são incorporados, principalmente, a partir da década de setenta,
quando o Estado modifica sua estrutura populacional e Goiânia passa a concentrar
parcela significativa da população de Goiás.
Ao considerar esta cidade, tem-se a preocupação de compreender suas
características internas, o que a literatura denomina de espaço intra-urbano. No seu
interior, observa-se que a cidade é apresentada de forma heterogênea, que em grande
parte decorre das desigualdades sociais manifestada no espaço. Por este motivo, o
estudo em questão, ao escolher Goiânia como lócus da investigação e reconhecer sua
heterogeneidade, concentra sua pesquisa em duas regiões administrativas da cidade que
possuem características diferentes, desde o seu processo de ocupação. Porém, para que
se possa analisar de modo comparativo, a fim de problematizar as desigualdades,
escolheu-se duas regiões que surgiram mais ou menos no mesmo período, final da
década de 1970 e início da década de 1980, a Região Sudeste e a Região Noroeste.
Além disso, destaca-se que elas tiveram na sua origem, principalmente, modos de
ocupação diferenciada. A primeira fora ocupada por decorrência da iniciativa privada. A
segunda fora patrocinada pela ação dos movimentos populares (Moyses, 2001; Moraes,
2003).
Convém salientar que o recorte espacial utilizado nessa definição de região
é o mesmo que o poder público municipal tem utilizado na atualidade. Isso é importante
porque no passado, por exemplo, o que fora denominado de Região Noroeste não
corresponde à configuração atual. E como esta região, em particular, já fora objeto de
várias abordagens é preciso que se tenha compreensão que ao realizar este estudo neste
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 220
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

momento estar-se considerando, em grande medida, mudanças significativas que


aconteceram no contexto urbano, que implicou na expansão da cidade. A regionalização
atual do município com destaque para as regiões em estudos pode ser verificada no
mapa 1 (abaixo).
A Região Noroeste, pelo recorte que será dado aqui, teve sua primeira
ocupação realizada por iniciativa dos movimentos populares, por meio de mobilizações
e acampamentos, a qual resultou na Vila Finsocial, no início da década de 19801. Ao
longo dessa década, outros loteamentos foram ocorrendo que tiveram, em sua maioria,
uma participação destacada do Estado. Essa é uma região em que pela legislação urbana
não poderia ser habitada, por decorrência de seus aspectos ambientais. Porém, o próprio
Estado possibilitou essa iniciativa favorecendo a ida de centenas de pessoas para esse
espaço, como são os casos da Vila Mutirão, do Jardim Curitiba e do Bairro da Vitória,
que mais tarde vieram a ser desmembrados em outros loteamentos.
A região Sudeste possui uma conformação muito diferente da verificada
naquela primeira. E isso tem a ver com o modo em que se processaram as ocupações
nesse pedaço do território da cidade. O capital imobiliário e o governo central (União)
tiveram, no começo, papel fundamental no modo como fora operado essa ocupação.
Loteamentos planejados, com infra-estrutura e equipamentos públicos, foram ocupados
por pessoas que tinham condições de adquirir um imóvel com essas características, o
que sugere a diferença da estrutura sócio-econômica destes com os da Região Noroeste.
Além disso, verifica-se que na atualidade novos empreendimentos imobiliários têm sido
construídos nesta região, com padrões mais sofisticados do que fora na década de 1970
e 1980.
As características apontadas para diferenciar uma região da outra, em que
pese constituísse como reveladora do modo de ocupação de cada uma delas, não
significa que a totalidade de cada uma das regiões foi ocupada segundo aquilo que
caracteriza o conjunto da região. Porém, mesmo que formas diferenciadas de ocupação
do território de cada uma das regiões tenham ocorrido, seu aspecto caracterizador ainda
se verifica pela sua ocupação inicial.

Mapa 1
Região Noroeste e Região Sudeste de Goiânia – 2005.
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 221
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Para tanto, é preciso, antes de mais, delimitar o que se estar entendendo


como Estado para esta investigação proposta. Neste caso, estar-se considerando a ação
do poder público, executivo, nas suas três esferas: municipal, estadual e federal (União).
Independe se a ação fora decorrente dos técnicos, que compõem a estrutural estatal e
administrativa, ou se fora obra dos governos, que são os mandatários do poder público,
mas que não possuem permanência. Mesmo que a legislação seja votada e aprovada
pelo Parlamento – Câmara Municipal, no caso dos municípios; Assembléia Legislativa,
no caso dos Estados; Câmara dos Deputados e Senado, no caso da União – se
considerará no âmbito do executivo, pois é ele que possui a prerrogativa de pô-la em
execução.
O Estado atua sobre o contexto urbano de várias maneiras, principalmente
porque este tem sido palco da maioria das interações sociais, desde que a maior parcela
da população passou a habitar as cidades. Seja para reprimir a violência ou impor a
ordem, interferir na mobilidade das pessoas, definir as zonas de residências ou
comerciais, seja para oferecer políticas de saúde, educacionais ou assistenciais o Estado
está muito presente no cotidiano da sociedade.
A importância da definição da compreensão do Estado para título desse
estudo é o de enquadrar as desigualdades sócio-espaciais como foco de análise. Isso
porque quando se procura discutir a partir da ação do Estado tem o perigo de favorecer a
análise sobre suas concepções e comportamentos, o que deve ser buscado na teoria do
Estado. Mas esta não é a preocupação propriamente dita. Por mais que ela possa
contribuir para a análise proposta, o interesse é o de verificar como as desigualdades
sócio-espaciais podem ser produzidas a partir da intervenção do Estado, que é diferente
de verificar como o Estado produz as desigualdades sócio-espaciais. Pois no primeiro
caso trata-se de sua ação delimitada por aspectos que provocam diferenciação no
território, já no segundo trata-se da ação do Estado a partir de suas prerrogativas, tendo
em vista seu papel e função em sentido amplo, para além da intervenção em
investimentos públicos, o que pode contribuir ou não para a produção das desigualdades
espaciais.
Assim se poderá verificar a ação do Estado em contextos urbanos
diferenciados de um mesmo território. De um lado, a intervenção que o Estado faz em
uma região administrativa da cidade em que sua forma de ocupação fora decorrente da
mobilização de segmentos da população, os quais se constituíram em “movimentos
sociais”. De outro lado, a intervenção do Estado em uma região administrativa da
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 222
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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cidade em que sua ocupação fora patrocinada pela iniciativa privada (imobiliárias,
principalmente).
Urbanização brasileira e goiana

A ocupação territorial urbana no Brasil tem sido uma prática deveras


realizada de modo indiscriminado pelos agentes sociais. A literatura que trata a esse
respeito tem mostrado diversos interesses que estão em jogo nesse processo. Os
movimentos populares, a iniciativa privada (as construtoras, as empreiteiras e as
imobiliárias) e o Estado aparecem como os principais agentes coletivos presentes nesse
campo social. Isso porque, se verifica que a indução de um processo de ocupação do
território da cidade é feita por pelo menos um desses agentes. Os conflitos ocorridos em
torno dessa prática se, por um lado, retratam as desigualdades sociais acumuladas no
país, por outro, favorecem as desigualdades sobre o espaço urbano, levando ao
aprofundamento das primeiras.
Essa situação foi agravada a partir de meados do século XX, dado o
processo de urbanização ocorrido no Brasil. A urbanização, discutida por diversos
autores, entre eles Milton Santos (1996), se realizou em parte pelo crescimento
vegetativo da população e em parte pelo êxodo rural. Mas, esse comportamento
populacional teve implicações diferenciadas no âmbito do território nacional. Num
primeiro momento houve acumulação de pessoas nas regiões que passaram pelo
processo de industrialização, em detrimento da política de substituição de importação,
ocupando, em grande medida, as franjas dessas cidades, como fora o caso de São Paulo,
Rio de Janeiro e Belo Horizonte, principalmente, pelo que ficou conhecido como
metropolização (Santos, 1996). Para se ter uma idéia, houve crescimento de 79,3% da
população no período de 1950 a 1970, no país, seguindo uma taxa geométrica de 3% ao
ano (Censo Demográfico do IBGE). Ao passo que no mesmo período a população
urbana cresceu 177,4%, a uma taxa geométrica de 5,2% ao ano, contra uma taxa de
1,1% do crescimento da população rural.
Por outro lado, observa-se que, embora o crescimento total da população no
país e da população urbana tenha continuado, no período de 1970 a 2000, houve
decréscimo populacional no meio rural (-0,8%). Porém o comportamento da população
verificado nesse período se deu de modo diferente ao período anterior. Apesar de as
pessoas continuarem engrossando as franjas das grandes cidades, reforçando a
metropolização, houve a descentralização desse crescimento, na medida em que outras
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sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

regiões do país passaram também a incorporar de modo concentrado em lugares


específicos parcela dessas pessoas, o que pode ser denominado como
desmetropolização (Santos, 1996). Ou seja, esse fenômeno não significa, em si, a
desconcentração de metrópoles já constituídas, mas a formação de outras metrópoles
pelo interior do país.
O caso de Goiás é típico do segundo período. Este Estado se apresentou ao
século XXI com uma população de mais de cinco milhões de habitantes. Mais de ¾
(três quartos) dessa população foram acrescidas na segunda metade do século passado.
Ou seja, em cinqüenta anos o número de habitantes cresceu três vezes mais do que o
ocorrido ao longo de mais de 2 (dois) séculos. Mas Goiás apenas seguiu uma tendência
que se realizava em todo o Brasil, como indica Santos (1996), e em grande parte dos
países do mundo. Esse crescimento constatado se deu principalmente no urbano.
Enquanto em 1950 o estado possuía 1.214.921 pessoas, em 2000 atingiu 5.003.228, uma
variação de 312%. Porém, ao considerar a população urbana e rural separadas observa-
se que a primeira possuiu um crescimento contínuo o que resultou numa variação de
1.690%, pois em 1950 ela era constituída por apenas 245.667 pessoas e em 2000 atingiu
o patamar de 4.396.645. A segunda, população rural, em que pese ter registrado
crescimento até 1980 chegou a 2000 com uma população inferior a registrada em 1950,
o que provocou ao longo do meio século um crescimento negativo de 37%.
Há que considerar que a configuração territorial de Goiás sofreu
modificações ao longo desse período e elas tiveram conseqüências no quantitativo
populacional do estado. O que hoje é denominado Distrito Federal pertenceu a Goiás até
ao final da década de 50 quando foi cedido para construir a nova capital do país. Além
disso, em 1988 com a promulgação da nova Carta Magna, Goiás sofreu outro
desmembramento cedendo parte de seu território ao que se constituiu como estado do
Tocantins. Por este motivo, em que pese comprometer a análise da evolução histórica,
quando se refere a Goiás antes de 1991 está considerando sua configuração da época.
Outro aspecto importante que merece ser destacado é o conceito de
população urbana. Como a opção foi trabalhar com os dados do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) a compreensão é a mesma por ele utilizada.
População urbana é aquela que possui residência na zona urbana dos municípios. Ocorre
que todos os municípios por mais espraiados que seja sua população possuem uma sede
que por definição é considerada como zona urbana. Mesmo em municípios muito
pequenos em que o modo de vida e as relações sociais são próprias do meio rural o que
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 224
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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se define por sede do município é considerado como urbano, e a população que aí reside
é também computada sob essa categoria.
Mas isso não invalida a importância que tem tomado o crescimento da
população urbana. Ao considerar apenas os dez municípios com o maior quantitativo de
pessoas de Goiás, segundo os dados do Censo Demográfico de 2000, observa-se que a
sua população corresponde a 48% da população do estado, que possui 246 municípios.
A população urbana desses dez municípios corresponde a 54% da população urbana do
estado, o que explica uma taxa de urbanização da ordem de 98% no conjunto desses
municípios. Esses dados sugerem que é preciso tratar com relatividade os processos
territoriais e populacionais, pois como se vê o fenômeno da urbanização não é
homogêneo e possui peculiaridades dependendo do contexto e do recorte que se analisa.
Além disso, é importante considerar a forte concentração populacional em
alguns dos municípios ou conjuntos de municípios do estado. Para se ter uma idéia
somente a população da capital, em 2000, representava 22% da população de Goiás. Ao
acrescentar a população de municípios adjacentes, os quais constituem a Região
Metropolitana de Goiânia (RMG)2, sua população passou a representar 33%, ou seja,
1/3 do total da população. A população dos municípios goianos que pertencem a Região
Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE) possui 17% da
população. Ou seja, ao considerar apenas os municípios da RMG e os municípios
goianos da RIDE eles possuem juntos a metade (50%) de toda população do estado,
sendo que o número de municípios (30) dessas regiões somados corresponde a 12% do
número de municípios de Goiás. A outra metade da população está distribuída pelo
restante do estado, nos seus outros 216 municípios.
Porém, o processo de urbanização e, por conseguinte, a metropolização e
desmetropolização não podem ser explicados apenas em si mesmos. Se por um lado
esse processo sofreu as conseqüências da reestruturação produtiva iniciadas nos países
centrais (Harvey, 1992), por outro não podem ser desprezadas as mudanças estruturais
ocorridas na economia brasileira quando do esgotamento da política de substituição de
importações (Mantega, 1984). Além disso, é preciso considerar as transformações da
estrutura econômica de Goiás. Esses fenômenos atribuem significados diferentes para o
modo de vida das pessoas que moram nos centros metropolitanos.

Mudanças estruturais
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 225
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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A análise das transformações estruturais da economia política capitalista do


final do século XX, referente aos processos de trabalho, hábitos de consumo,
configurações geográficas e geopolíticas e poderes e práticas do Estado, constitui-se
como objeto de discussão da obra Condição Pós-Morderna, de David Harvey,
principalmente no que diz respeito à segunda parte que constitui os capítulos de 7 a 11.
Para tanto, o autor utilizou a abordagem teórica de orientação da chamada Escola da
Regulamentação. Nesta perspectiva considera-se o regime de acumulação - um período
longo em que as relações de produção e consumo possuem algum grau de estabilidade
colaborando para a acumulação capitalista -, sustentado pelo modo de regulamentação o
qual garante um determinado tipo de comportamento individual e ao mesmo tempo a
reprodução de hábitos, normas, leis etc.
O período em que se aprofunda a análise é caracterizado como sendo um
momento de transição de um regime de acumulação para outro, do regime fordista-
keynesiano para o regime de acumulação flexível. Neste sentido, procura-se analisar a
constituição do regime fordista-keynesiano, na tentativa de evidenciar seu declínio, e os
novos elementos que caracterizariam o surgimento do regime de acumulação flexível,
embora ainda em formação.
Chama a atenção que a opção teórico-metodológica destacada para análise
da transição que caracteriza as transformações político-econômicas do capitalismo
coloca peso demasiado às estruturas sociais nesse processo, influenciando, ou mesmo,
determinando as práticas, ações e comportamento dos indivíduos. Ante apenas
compreender como ocorreram as transformações estruturais que provocaram mudanças
no comportamento dos indivíduos, vale a pena indagar qual o significado dessas
estruturas capazes de imprimir hábitos, gostos e, até mesmo, maneiras de ser nas
pessoas singulares. Ou seja, como compreender que mudanças significativas que
ocorreram no final do século XX foram capazes, não somente de mudar o
comportamento dos indivíduos, mas de serem percebidas por estes, sem ter sido obra de
nenhum deles em particular.
Ao longo da trajetória da análise que é desenvolvida, observa-se que o autor
traz à luz o processo histórico em que se emergiram os instrumentos necessários para
por em prática determinadas estruturas sociais que, por sua vez, entrou em colapso. E é
no desenrolar dessas estruturas que se determinaram os hábitos e comportamentos dos
indivíduos, desconsiderados de sua individualidade. Embora no período em que se
denominou de acumulação flexível há alterações importantes que diferenciam
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 226
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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indivíduos, principalmente no que se refere ao mercado de trabalho, mas mesmo assim


cada diferença é considerada como uma totalidade: gênero, etnia, etc. Convém, porém,
destacar as contribuições feitas sobre alguns aspectos que favoreceram a mudança de
um processo de acumulação que necessariamente resultou em outro (mesmo que ainda
inacabado).
Os processos de trabalho, por exemplo, ganharam envergadura num
momento muito posterior à sua elaboração. O fordismo que significou uma
“radicalização” do taylorismo foi criado e colocado em prática já no início do século
sustentado na concepção de que produção de massa significa consumo de massa. As
implicações disso estavam expostas, na medida que se tornou necessário à criação de
demanda efetiva para a produção industrial, que de outro modo, significa aumento de
renda da população e mudanças de práticas de consumo para quem ainda não percebera
a necessidade de determinadas mercadorias.
Seu estabelecimento se deu somente depois que os critérios orientadores do
regime econômico vigente foram abalados. O liberalismo econômico não foi mais capaz
de ditar as regras que determinasse o equilíbrio de mercado. O Estado, a partir de então,
aprofundou o modo de regulação da economia bem como assumiu um novo papel no
modelo econômico que entrou em vigor. E isso favoreceu a consolidação do fordismo,
visto que foi encontrado aquilo que faltava e que o keynesianismo foi capaz de oferecer.
Um novo sistema de reprodução da força de trabalho fora criado ao mesmo
tempo em que foram incorporados novos mecanismos de controle sobre ela. O trabalho
necessitou de mais racionalização e disciplina. E isso possibilitou (com muitas
resistências, principalmente no início) a concentração por um período de oito horas para
realização de tarefas com poucos movimentos que antes possuía fortemente o modelo
artesanal como característica.
Por decorrência das inter-relações que foram estabelecidas entre o trabalho
(tendo o sindicato um papel muito forte neste momento), o capital e o Estado o regime
fordista-keynesiano pode ser compreendido não apenas como sistema de produção de
massa, mas principalmente como um modo de vida. E foi esse regime de acumulação do
capital, que ao entrar em declínio, levou ao surgimento de outro regime de acumulação
que ainda está sendo considerado como um momento de transição. Mas que se torna
perceptível não apenas nas totalidades dos processos sociais como também no modo de
agir das pessoas singulares. Esse novo regime é denominado, como dito outrora,
acumulação flexível do capital.
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Muitas foram as reestruturações colocadas em curso que possibilitaram essa


nova configuração estrutural. O fordismo que fora baseado na produção em escala
cedeu lugar para produção de escopo; a rigidez do processo de trabalho é substituída por
processos flexíveis; a organização industrial se fragmenta; as formas de organização da
classe trabalhadora são fragilizadas. Porém, segundo Harvey duas foram as mudanças
que permitiram a passagem de regime de acumulação para outro: o novo sistema de
informação e a reorganização do sistema financeiro. Ambas decorrentes dos avanços
tecnológicos que implicaram numa nova relação tempo e espaço.
As implicações para o contexto urbano foram várias. Pelo fato de o processo
produtivo, no modelo fordista, ser focado na produção em grande escala, havia a
necessidade da contratação de um grande número de operários para realizar essas
atividades, uma vez que o sistema produtivo ainda se baseava nos princípios tayloristas.
Esse modo de organização do trabalho “moldava” trabalhadores que possuíam
especificidades quando se observa seu estilo de vida também em suas moradias. Quando
se passa para o modelo de acumulação flexível, as mudanças no processo produtivo
provocam também alterações no comportamento, hábitos e gostos das pessoas. Uma vez
que se modificam as formas de consumo.
Por outro lado, verifica-se que o Brasil desde a década de 1950, mais
especificamente, passou por um processo de industrialização por meio da substituição
de importações, o que significou, grosso modo, a implantação da produção industrial
internamente no país de produtos que antes era adquirido no mercado internacional. Até
o momento dessa mudança estrutural sua economia era assentada na exportação de
produtos agropecuários sem agregação de valor. A partir desse momento ocorreram
grandes fluxos migratórios do meio rural em direção aos grandes centros urbanos, pois
estavam sendo criadas perspectivas de trabalho nas cidades em detrimento do campo.
Foi um período em que o país assistiu a mudança de sua estrutura populacional, como já
fora retrato anteriormente, o que agravou problemas decorrentes das grandes
aglomerações populacionais, tais como saneamento, condições de moradia, educação,
etc.
Mas essa política industrial, que possibilitou o crescimento econômico do
país e uma nova forma de inserção nas relações de troca com o resto do mundo,
esgotou-se por decorrência dos seus efeitos produzidos, principalmente pela elevação da
dívida pública do país e dos altos índices inflacionários. Em sua substituição ascendeu o
receituário da ortodoxia econômica, que fora acompanhado mais tarde pela liberalização
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comercial e financeira que o país atravessou. Porém, no momento de transição da


política de substituição de importações para a política de cunho neoliberal foram fortes
os impactos para o contexto urbano.
Dado o agravamento das condições sociais de vida da população pelos
efeitos negativos do período de industrialização do país, em que houvera forte
concentração da renda em pequenos segmentos da população, as condições de moradia
tornaram-se um dos grandes problemas dos centros urbanos. Eis o motivo das
ocupações realizadas por meio de mobilizações populares, organizadas por movimentos
sociais. Mas os conflitos produzidos em torno da terra urbana não podem ser
dissociados do interesse que vários outros agentes possuem sobre essa questão, tais
como o capital imobiliário e o próprio Estado.
A dinâmica populacional descrita acima precisa ser melhor compreendida a
partir da estrutura econômica do estado de Goiás. Ou seja, que fatores podem ser
destacados no processo econômico que proporcionaram um aumento da população
principalmente em zonas urbanas de um estado que se caracterizou por muito tempo
como estado agropecuário? Neste sentido, procurar-se-á compreender a relação desses
processos com o mercado de trabalho.
Embora a formação econômica de Goiás se desse assentado na produção
agropecuária, principalmente, as atividades de serviços passam a assumir importância
cada vez mais significativa, que hoje se constitui também como caracterizadora da
dinâmica econômica deste Estado. É importante perceber que mesmo antes das grandes
mudanças ocorridas no campo e na indústria, o setor de serviços sempre teve lugar
numa economia que tem por base a agropecuária. Isso porque as atividades de
comercialização, financiamento etc. são constituintes deste setor. A questão que se
coloca é de outra ordem, tendo em vista que nem todas as atividades de serviços hoje
existentes no estado de Goiás possuem relação direta com a produção agrícola. Para
tanto, é preciso analisar a evolução histórica do processo econômico a fim de
compreender suas transformações.
Em relação à industrialização do campo os impactos na economia do estado
são muito perceptíveis e estudados até o recente momento. A partir da década de 1970
muitas pesquisas foram desenvolvidas no sentido de favorecer a ocupação do planalto
central que até aquele momento se constituía como região de fronteira, como fora
abordado por Estevam (1998). Esses estudos possibilitaram o desenvolvimento de novas
técnicas agrícolas o que permitiu o uso do solo dessa região como jamais concebido até
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essa época. Aliado a essa questão ocorreu também desenvolvimento de insumos


propício a região bem como o uso de máquinas para a monocultura que se estabeleceu a
partir desse período.
Essas mudanças tiveram efeitos surpreendentes na produção agrícola e no
comportamento da renda da população do Estado. O que parece contraditório é que a
agricultura perde peso na participação da composição da renda interna de Goiás. Porém,
como foi destacado a industrialização do campo favoreceu o desenvolvimento de
agroindústrias na região, voltadas para o beneficiamento e industrialização dos produtos
agrícolas, de um lado, e o desenvolvimento de atividades que antes faziam parte
exclusiva da agricultura ou da indústria, passaram a se constituir como caracterizadas no
setor de serviços, de outro lado. Isso explica porque em 1960 a participação da
agricultura na renda interna de Goiás era de 49,5% e em 1995 foi de 16,2%. Ao passo
que o setor de serviços participou naquele ano com 43,2% e neste com 58,4% (Estevam,
1998).
Mesmo em si tratando de uma cidade planejada, a capital de Goiás sofreu os
impactos da urbanização e das transformações político-econômicos. A partir desse
período foram várias as mobilizações dos diversos agentes coletivos com interesse sobre
o território. Motivo pelo qual a cidade passa intensificar o crescimento em suas franjas,
criando uma situação de “desordem” territorial. Por um lado, observa-se que o poder
público tivera a preocupação com o planejamento da cidade, tentando induzir a forma
de seu crescimento; de outro, se verificou que as pressões exercidas por aqueles agentes
trouxeram mudanças ao planejado. E nesse processo dialético, entre poder público e
sociedade, que se produziu a cidade concreta que existe hoje. Mas a participação do
Estado não fora homogênea, nem tampouco fora guiada segundo os mesmos interesses.
As conseqüências de suas ações são verificadas ao analisar o modo como ele interveio
em cada região da cidade.
O Estado, entendido como poder público, pelo seu papel na sociedade
intervém em todos os modos de ocupação que se realizam no território urbano, seja nas
ocupações patrocinadas pelos movimentos populares, pela iniciativa privada ou por ele
mesmo. Suas intervenções corroboram para a construção de localizações diferenciadas
(Villaça, 1998) no contexto urbano, tendo em vista que se leva infra-estrutura e se
constrói equipamentos públicos há a valoração das propriedades e dos imóveis
beneficiados por essas ações. Por conseguinte, a medida que esses espaços são
valorados o perfil de sua população tende a se alterar, seguindo os padrões sócio-
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 230
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econômico exigidos pela novo contexto espacial. Porém, esse processo não ocorre de
modo homogêneo em toda a cidade, pois em contextos que a população se enquadra nos
baixos padrões de consumo e que a ocupação espacial se verificou por meio de
mobilização social, a localização aí construída, apesar de ser maior valorada que antes
da intervenção estatal, não se iguala àquelas em que o modo de ocupação se deu por
iniciativa das imobiliárias e construtoras. Nestas o processo se dá de modo
completamente diferente. E isso se verifica pela relação que a iniciativa privada constrói
com o poder público.
Nos lugares onde a ocupação do território urbano se processou através das
empresas imobiliárias e construtoras verifica-se que sua valoração ocorre antes mesmo
de o espaço ser ocupado por aqueles que realizarão sua atividade finalística, como
morar e trabalhar. Isso ocorre porque a iniciativa privada mantém uma estratégia em que
ao doar parte do terreno para o poder público construir algum equipamento público
significativo, aumenta o preço da terra, na medida que valora a localização. Por este
motivo, o perfil sócio-econômico das pessoas que conseguem se apropriar de uma
parcela desse território se situa nos segmentos de mais elevada renda da sociedade.
Mas é preciso também considerar um outro aspecto da relação público-
privado presente no contexto de ocupação urbana que tivera a chancela dos movimentos
populares, o que se verifica na Região Noroeste. Apesar de essa mobilização ter como
apelo a reivindicação da função social da propriedade, atualmente contida na
Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Cidade, de 2000, não se pode ignorar que
sua ação apenas muda a estrutura de privação da propriedade, na medida que antes ou
era concentrada em poucos proprietários ou pertencia ao Estado. Como se sabe, o que
hoje é denominado Região Noroeste fora no passado estabelecido para ser área de
preservação ambiental.

Condições sociais das regiões Noroeste e Sudeste de Goiânia

As condições sociais existentes nas regiões Noroeste e Sudeste pode ser


apreendida a partir de dados referentes de trabalho e escolaridade. Neste sentido, se
poderá observar a expressão dessas diferenças.
Como se observa na tabela 1, em termos absolutos a Região Noroeste possui
maior número de pessoas do que o verificado na Região Sudeste, tanto em relação à
População em Idade Ativa, à População Economicamente Ativa e à População
Ocupada. Porém, ao considerar a taxa de atividade e a taxa de ocupação, percebe-se que
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as duas regiões e o conjunto do município têm praticamente a mesma estrutura, com


pequenas diferenças entre as duas regiões na taxa de atividade em favor da Região
Noroeste e na taxa de ocupação em favor da Região Sudeste. E chama atenção que mais
de 4/5 das pessoas disponíveis para o mercado de trabalho estão exercendo alguma
ocupação, apesar de representar na Região Sudeste uma taxa de desocupação de 13,2%
e na Região Noroeste um índice que alcança 14,2%, acima da taxa de desocupação do
conjunto do município que é de 11,9%.

Quando se verifica a distribuição da população segundo a faixa de renda,


observa-se que a Região Sudeste possui uma estrutura muito parecida com a estrutura
do conjunto do município de Goiânia, como se vê na Tabela 2. Para as pessoas
ocupadas que percebem até um salário mínimo por mês, 17,9% estão nessa faixa na
Região Sudeste e 17,1% em Goiânia. Em relação aqueles cujo rendimento situa-se no
patamar de mais de 1 a 3 salários mínimos, verifica-se que naquela região os ocupados
representam 44,9%, enquanto no conjunto do município os ocupados representam 43%.
Para a faixa de rendimentos de mais de 3 a 5 salários mínimos, os ocupados
representam 15,4% na região contra 14,5% no município. Ainda em relação aqueles que
percebem acima de 5 salários mínimos, na Região Sudeste os ocupados representam
21,8%, enquanto que em Goiânia os ocupados representam 25,4%.
O caso da Região Noroeste é mais dramática a situação. Mais de 4/5 dos
ocupados da região percebem até 3 salários mínimos, ao considerar que há 25,2% que
ganham até 1 salário mínimo e 58,4% que recebem mais de 1 a 3 salários mínimos,
enquanto que no município de Goiânia considerado globalmente as duas primeiras
faixas de rendimento corresponde a menos de 2/3 dos ocupados, 60,1%. Assim,
somente 11,2% dos ocupados da Região Noroeste recebem mais de 3 a 5 salários
mínimos e 5,1% possuem remuneração acima de 5 salários.
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 232
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Quando se verifica os dados relacionados à escolaridade percebe-se que há


muitas diferenças entre as Regiões Sudeste e Noroeste. Aquela, por exemplo, tem uma
taxa de analfabetismo (pessoas de 15 anos e mais de idade que não sabem ler) muito
parecido com a taxa verifica em Goiânia, 4,9% contra 4,8%. A Região Noroeste possui
um índice que é quase o dobro dessas taxas, com 9,1%, como pode ser verificado na
Tabela 3.

Na Tabela 4 observa-se que em todas as faixas de idade a Região Sudeste


possui um índice de freqüência à escola ou creche superior ao verificado na Região
Noroeste. A única faixa etária que possui estrutura parecida é entre 7 e 14 anos de idade,
pois a Região Sudeste possui 98,5% e a Região Noroeste 97,1%. Nas outras faixas as
diferenças são significativas. Chama atenção pelo fato de nas faixas compreendidas
como juventude haver menor participação na Região Noroeste.
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 233
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Quando se considera aqueles que estão freqüentando escola e se verifica os


que estão numa série condizente com sua idade, como mostra a Tabela 5, percebe-se
neste quesito a Região Noroeste possui uma situação pior, na medida em que somente
na faixa de 7 a 14 anos de idade é que o índice ultrapassa a metade das pessoas,
registrando 52,9%, ao passo que a Região Sudeste nesta faixa registra uma taxa de
64,9%. Em todas as faixas restantes essa taxa fica abaixo de 50% para a Região
Noroeste, principalmente na faixa de 18 a 25 anos, cujo índice é de 8%, enquanto na
Região Sudeste esta faixa de idade corresponde a 37,5%. Já na faixa etária de 15 a 17
anos, a Região Noroeste corresponde a 30,7% e a Região Sudeste a 55,3%.

A Tabela 6 apresenta taxa de pessoas que possuem 15 anos ou mais de idade


sem instrução ou com até 3 anos de estudo. Verifica-se o índice da Região Noroeste é
mais que o dobro da Região Sudeste. Enquanto aquela registra 27,6%, esta registra
13,0%.

Por outro lado, a Tabela 7 apresenta as pessoas de 18 anos e mais de idade


com 11 anos e mais de estudo. Verifica-se que em relação a este aspecto a situação se
investe, uma vez que a Região Sudeste, embora possua uma taxa inferior à registrada no
conjunto do município de Goiânia é quase quatro vezes maior que o verificado na
RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 234
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Região Noroeste (9,9%). Ao passo que naquela Região o índice é de 36% enquanto em
Goiânia o índice é de 38,7%.

De modo geral, podem-se apreender diferenças entre as condições sociais


existentes na região Noroeste e região Sudeste quando medido pelas variáveis de
trabalho e escolaridade. E essas diferenças tendem a ser mais favoráveis à região
Sudeste por ter apresentados melhores condições referentes a renda e níveis de
escolaridade, o que demonstra a existência de desigualdades sociais quando verificadas
no contexto do território urbano.

Considerações finais

Em decorrência das relações estabelecidas em cada um dos contextos entre


os agentes sociais que interferem na ocupação do espaço urbano e das condições
existentes que objetivam suas estruturas, verifica-se a produção das desigualdades
sócio-espaciais entre áreas diferentes do urbano. Sugere-se que essas desigualdades não
são apenas decorrentes da intervenção que o Estado faz em cada uma dessas áreas ou
regiões da cidade, mas, sobretudo, do modo em que o Estado atua nessa intervenção,
através do investimento em infra-estrutura e construção de equipamentos públicos.
Além disso, considera-se que o tipo de ocupação realizado está relacionado com as
condições sociais produzidas em cada contexto, que se apresenta como características
explicativas das desigualdades sócio-espaciais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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RIBEIRO, Marcelo Gomes. Ocupação do espaço urbano e produção de desigualdades 235
sociais: o caso de Goiânia. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 221-238, Dez. 2008 / Jun. 2009.

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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

FORMAÇÃO DO SETOR EMPRESARIAL DA ECONOMIA


DE GOIÂNIA (1933-1963): ORIGENS DO CAPITAL

Dulce Portilho Maciel∗

Resumo: Abstract:

Esta pesquisa foi conduzida com base na This research was lead on the basis of the
suposição de que o conhecimento a assumption that the knowledge regarding
respeito da procedência geográfica dos the geographic origin of the entrepreneurs,
empresários, bem como das atividades as well as the economic activities
econômicas por eles desempenhadas developed by them preliminarily to the
preliminarmente à ocasião em que occasion where they had invested in one
investiram em uma dada economia given capitalist economy, consists in a
capitalista, constitui-se em elemento-chave key-element for the clarification of
para o esclarecimento de questões relativas questions relative to the original
à acumulação originária do capital, accumulation of the capital, particularly,
particularmente, onde e como fora where and how was previously
previamente acumulado. Conforme os accumulated. As the data, the geographic
dados, a área geográfica de onde se area where originated most of the capital
originou a maior parte do capital aplicado applied in the enterprise economy of
empresarialmente na economia de Goiânia Goiânia corresponds to the territory of the
corresponde ao território do próprio Estado proper State of Goiás, in the present time
de Goiás, na atualidade (excluído, pois, o (excluded, therefore, the territory of the
território do atual estado de Tocantins). current state of Tocantins). On the other
Por outro lado, foi considerável a hand, the contribution that other Brazilian
contribuição que ofereceram à formação regions, mainly the Southeast, had offered
daquele capital outras regiões brasileiras, to the formation of that capital was
principalmente a Sudeste. considerable.

Palavras-chave: Key-words:

Acumulação originária do capital; Original accumulation of the capital;


Formação; Setor empresarial goiano. Formation; Goiania’s enterprise sector.

Introdução

Goiânia foi fundada em 1933, para servir de sede ao governo do Estado de


Goiás, em substituição à cidade de Goiás, antiga Vila Boa. Este trabalho refere-se aos
primeiros 30 anos da história da nova cidade e fundamenta-se em dados originais,
obtidos mediante diferentes expedientes de pesquisa, tomando-se como ponto de partida
levantamento realizado nos arquivos da Junta Comercial do Estado de Goiás - JUCEG.
A pesquisa foi conduzida com base na suposição de que o conhecimento a respeito da
procedência geográfica dos empresários, bem como das atividades econômicas por eles

∗ Nota sobre a autora.


MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 237
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

desempenhadas preliminarmente à ocasião em que investiram em uma dada economia


capitalista, constitui-se em elemento-chave para o esclarecimento de questões relativas à
acumulação originária do capital, particularmente, onde e como fora previamente
acumulado.
Conforme os dados, a área geográfica de onde se originou a maior parte do
capital aplicado empresarialmente na economia de Goiânia corresponde ao território do
próprio Estado de Goiás, na atualidade (excluído, pois, o território do atual estado de
Tocantins). Por outro lado, foi considerável a contribuição que ofereceram à formação
daquele capital outras regiões brasileiras, principalmente a Sudeste. No concernente a
como aquele capital fora acumulado, segundo tais dados, as maiores parcelas de que se
formou o capital privado-empresarial da economia goianiense provinham de atividades
industriais e comerciais, sobretudo das primeiras.
Este último resultado surpreendeu-nos, em razão do pequeno peso que teve
o setor industrial na economia do Estado de Goiás, ao longo do conjunto temporal
abrangido na pesquisa. Na ocasião em que, tendo em vista a sua realização, cogitávamos
a respeito da questão de quem, na sociedade goiana, em termos de segmento sócio-
econômico, até pelo menos o início da década de 1960 - quando a sociedade goiana,
seguindo a tendência geral no país, passou a sofrer grandes transformações -, teria tido
condições de reunir capital sob seu poder em volume suficiente para permitir que
destinasse uma parte dele a investimentos empresariais na economia de Goiânia, o
grupo formado pelos fazendeiros ocorreu-nos em primeiro lugar.
Isto porque, segundo explica uma boa parte da produção acadêmica acerca
da História de Goiás, a capacidade de domínio que teve este grupo sobre a vida política
do Estado, no decorrer das primeiras décadas deste século (se não bem mais),
respaldava-se, sobretudo, no poder econômico que detinha. Os dados dos censos
econômicos e também outros produzidos pelo IBGE a respeito do Estado reforçam esta
tese - a participação da agropecuária na formação da renda interna goiana manteve-se na
faixa entre 50% e 60%, ao longo do período em causa neste trabalho. Assim, então,
aventamos a hipótese de que uma parcela importante do capital investido
empresarialmente em Goiânia provavelmente teria como origem a atividade produtiva
rural, atraída que deveria ter sido pelos termos vantajosos à acumulação que a economia
urbana da nova cidade podia oferecer.
Ocorreu, no entanto, conforme nossos dados, que a participação de
fazendeiros na composição do empresariado goianiense foi pouco considerável, e a
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 238
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

contribuição que trouxeram à formação do capital privado da economia da cidade foi


ainda menos significativa, em comparação com outros grupos, constituídos de
indivíduos pertencentes a categorias ocupacionais diferentes dessa. Procederemos, em
seguida, ao exame do conjunto dos resultados obtidos mediante a pesquisa em foco,
apresentando, em sendo o caso, as explicações que encontramos para variadas
revelações propiciadas pelos dados coligidos.

Empresários segundo a procedência geográfica e o capital

De acordo com os dados reunidos na Tabela 1, a seguir, 90% dos indivíduos que se estabeleceram na
condição de homens de negócios em Goiânia, no transcorrer de seus primeiros 30 anos,
residiam no Estado de Goiás na ocasião em que se tornaram membros de uma
organização empresarial da cidade, sendo que a grande maioria deles - 85% do universo
- já se achava vivendo ali. Conforme a Tabela 2, que vem em seguida, referindo-se ao
capital segundo os locais de residência dos investidores, a participação dos que
moravam naquele Estado foi de 82% do total investido pelo conjunto compreendido na
pesquisa, sendo de 79% a dos que já se encontravam residindo naquela Capital.
Tais números forneciam indicação importante acerca de onde uma parcela
significativa do capital investido na economia urbana de Goiânia havia sido
preliminarmente acumulada. Mas eles não detinham, sozinhos, suficiente poder de
convencimento, razão pela qual tiveram de ser confrontados com informações obtidas
mediante outras fontes, expediente cujos resultados reforçam sobremaneira a
importância desses números, conforme iremos explicar adiante.
Vamos aqui tratar primeiro das referidas tabelas, visto que, além do valor
que detêm seus dados como contribuição para o esclarecimento da questão das origens
do capital aplicado empresarialmente em Goiânia, forneceram-nos elementos de base
empírica para novas reflexões acerca do assunto, servindo também de ponto de partida
no desenvolvimento de ulteriores procedimentos de pesquisa a respeito da questão.
Acerca dos dados contidos nessas tabelas, devemos antes esclarecer que o universo
nelas tomado em consideração abrange os casos relativos a unidades empresariais
organizadas sob a forma de sociedades - por cotas e anônimas - ou de cooperativas,
entre 1935 (a partir de quando se fundaram empresas de tais tipos em Goiânia) e 1963, e
que tiveram duração igual ou superior a cinco anos. Estão excluídos dele, portanto, os
proprietários de empresas do tipo jurídico Individual e os que participaram de
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 239
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

organizações cuja duração foi inferior à mencionada. Estão excluídos dele, ainda, os
empresários afetos ao comércio varejista.1
Examinemos, pois, os dados reunidos na Tabela 1, acerca da composição do
empresariado goianiense quanto aos locais de residência de seus membros na ocasião
em que se estabeleceram na Capital goiana. De acordo com a referida tabela, até 1945 -
fase considerada pioneira da história de Goiânia -, 100% dos empresários nela
considerados residiam no Estado de Goiás, registrando-se uma diferença curiosa entre
os dois períodos aí abrangidos; isto é: entre 1935 e 1940, 45% dos indivíduos que
investiram empresarialmente na economia da nova cidade residiam fora dela; já no
período seguinte, entre 1940 e 1945, apenas 3% dos novos empresários estabelecidos na
Capital moravam em outros municípios goianos. Ao que indicam tais dados, neste
último período, a cidade, além das vantajosas oportunidades para investimentos em
negócios que já vinha oferecendo desde o início de sua construção, tornara-se também
um lugar atraente para se viver, aos olhos dos homens de dinheiro no Estado.

TABELA 1. Empresários segundo o local de residência e o período de ingresso

Unidades
Federadas
35|-40 40|-45 45|-50 50|-55 55|-60 60|-63
Quant.% Quant. % Quant. % Quant. % Quant. % Quant. %

Goiás 11 100 29 100 88 97 202 90 348 88 534 90 1.212 90


Goiânia 6 55 28 97 81 89 192 86 337 85 504 85 1.148 85
Outros Munic. 5 45 1 3 7 8 10 4 11 3 30 5 64 5
Minas Gerais 1 1 10 4 11 3 17 3 39 3
São Paulo 1 1 7 3 22 6 14 2 44 3
Rio De Janeiro 1 1 4 2 8 2 16 3 29 2
D. F. (Brasília) 2 - 7 1 9 1
Outras 1 - 4 1 5 1 10 1
TOTAL 11 100 29 100 91 100 224 100 395 100 593
100 1.343 100

FONTE: Arquivos da Junta Comercial do Estado de Goiás.


NOTA: Abrangidos os casos em que havia as duas informações aqui consideradas: local de residência
do empresário e data de ingresso na sociedade

Concorreram para isto, certamente, muitas das medidas que se tomaram


para viabilizar a inauguração da nova cidade, ocorrida em 1942, como: a conclusão das
obras iniciais de urbanização, infraestruturas básicas, prédios residenciais e outras; a
melhoria nas condições do abastecimento de gêneros de primeira necessidade à
população; a implantação ou regularização da oferta de uma série de serviços de
consumo coletivo (ensino, saúde, diversões, etc.); entre vários outros fatores - como, por
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 240
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

exemplo, a transferência do staff político e burocrático estadual, que, em Goiás,


representava também a sua elite cultural.
Entre 1945 e 1950, surgiram em Goiânia os primeiros empresários
residentes em outras regiões brasileiras (Estados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro),
mas já representavam 3% dos que investiam na economia da cidade. A estabilidade da
condição de Capital conferida à cidade pela sua pomposa inauguração oficial - com
participação de autoridades federais e estaduais procedentes de todos os quadrantes do
país - e o desenvolvimento ali de um mercado urbano caracterizado pelo aumento
acelerado e diversificação progressiva da demanda por bens e serviços, em decorrência
do seu extraordinário crescimento populacional, devem ter-se constituído em fatores
que, já então, tornavam a economia de Goiânia atraente à inversão de excedentes de
capital produzidos em outras regiões brasileiras.
De 1950 a 1955, cresceu consideravelmente a participação de empresários
residentes em outros Estados - 4% em Minas Gerais, 3% em São Paulo e 2% no Rio de
Janeiro. No período seguinte, entre 1955 e 1960, aumentou ainda mais a participação,
nos quadros do empresariado goianiense, de indivíduos fixados residencialmente em
outras regiões do país - 6% no Estado de São Paulo, 3% em Minas Gerais, 2% no
Estado do Rio de Janeiro e 1% em outras unidades da Federação brasileira, registrando-
se também a presença de moradores de Brasília. Observe-se, no entanto, que não
obstante a participação de forâneos ocorrida ao longo da década, a predominância de
indivíduos residentes no Estado de Goiás permaneceu absoluta - 90% na primeira
metade da década e 88% na segunda.
Em relação ao conjunto dos anos 1950, os dados da Tabela 1 apontam para
algumas ocorrências dignas de nota. Em primeiro lugar, chama a atenção o fato de o
número de indivíduos residentes no Estado de Minas Gerais entre os empresários de
Goiânia ter sido idêntico ao dos que moravam no interior de Goiás - 4% na primeira
metade da década e 3% na última. Em seguida, realça-se o crescimento ocorrido na
participação de empresários residentes no Estado de São Paulo - passaram de 3% no
primeiro quinqüênio, para 6% no segundo -; estes dados parecem estar indicando, em
complementação aos da Tabela 2, a época em que o capital paulista teria superado o
mineiro na economia urbana de Goiânia. Depois, desperta interesse a presença, então
crescente naquele quadro, de investidores fixados em outros Estados distintos dos
mencionados anteriormente. Por fim, surpreende a rapidez com que moradores recentes
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 241
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

de Brasília, cidade na época em fase inicial de construção, interessaram-se em realizar


investimentos empresariais na Capital goiana.
No período 1960-63, como nos anteriores, a maioria absoluta dos indivíduos
que investiram empresarialmente em Goiânia residia então no Estado de Goiás - 85% na
Capital e 5% no interior. Quanto aos que mantinham domicílio em outras partes,
entretanto, alguns pontos merecem ser comentados. Em primeiro lugar, chama a atenção
a ocorrência de um crescimento expressivo da participação de habitantes do Estado do
Rio de Janeiro na composição do empresariado daquela cidade - 3% dos novos
investidores -, enquanto que diminuía, na mesma época, a proporção dos que residiam
no Estado de São Paulo - caiu de 6% para 2%, em relação ao período anterior. Depois,
desperta surpresa a participação já significativa de moradores de Brasília entre os novos
empresários de Goiânia - mais de 1% do total -, em face do então curto tempo de
existência da nova Capital federal.
Passando agora ao exame da Tabela 2, à frente, chamamos a atenção para o
fato de o número de empresários compreendidos em seu universo ser superior ao dos
considerados na Tabela 1. Isto ocorre porque, na elaboração da primeira, apenas os
casos acerca dos quais se dispunha, com base nos arquivos da JUCEG, de ambas as
informações ali consideradas - local de residência do empresário e data de seu ingresso
na organização - foram incluídos e, em relação a esta última, devido a se ter privilegiado
a informação acerca do valor da participação individual dos sócios no capital das
empresas, que muito raramente faltava nos registros desse órgão, grande número de
outros, sobre os quais não se dispunha de uma ou de ambas aquelas informações, foi
abrangido.

TABELA 2 - Empresários segundo o local de residência e o capital (*)


CIDADES
EMPRESÁRIOSCAPITAL MÉDIA
QUANT. % VALOR %CAP./EMP.
ESTADO DE GOIÁS 1.587 88 9.122.391 82 5.748
Goiânia 1.523 85 8.855.987 79 5.814
Anápolis 13 1 45.534 - 3.502
Outras 51 3 220.870 2 4.330
ESTADO DE MINAS GERAIS 39 2 394.110 4 10.105
Belo Horizonte 11 1 25.023 - 2.274
Uberlândia 15 1 323.303 3 21.553
Uberaba 8 - 12.676 - 1.584
Outras 5 - 33.108 - 6.621
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 242
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

ESTADO DE SÃO PAULO 44 2 897.337 8 20.394


São Paulo (Capital) 33 2 838.026 8 25.394
Outras 11 1 59.311 1 5.391
ESTADO DO R. JANEIRO 29 2 368.339 3 12.701
Rio de Janeiro (Capital) 23 2 337.420 3 14.670
Outras 6 - 30.919 - 5.153
DISTRITO FEDERAL (Brasília) 9 1 27.057 - 3.006
OUTRAS UNID. FEDERADAS 10 1 58.520 1 5.852
SEM INFORMAÇÃO 79 4 297.367 3 3.764
TOTAL 1.797 100 11.165.121 100 6.213

FONTE: Arquivos da Junta Comercial do Estado de Goiás.


(*) Valores indexados segundo taxas de inflação encontradas pelo IBGE (Estatísticas históricas do Brasil, 1990, v. 3), tomando-se
como referência o mês de dezembro de 1963. Em Cr$ 1.000,00.

Segundo os dados da referida tabela, no período de tempo em causa neste


trabalho, a participação de indivíduos residentes no Estado de Goiás na formação do
total dos investimentos realizados na economia urbana de Goiânia pelo conjunto de
empresários nela considerados foi de 82%. Para isto, a contribuição oferecida pelos que
residiam na própria Capital foi decisiva - 79% do total.
O segundo Estado brasileiro a contribuir mais, mediante indivíduos
residentes em seu território, com investimentos em capital na economia urbana de
Goiânia, foi o de São Paulo - 8% do total obtido na tabela em referência. Aí, a
contribuição oferecida pelos que residiam na Capital foi muito superior à dos que
viviam no interior do Estado. Isto principalmente porque a média capital/empresário dos
primeiros era perto de cinco vezes maior do que a dos últimos. Cabe aqui, aliás, a
observação de que a média apresentada pelos investidores domiciliados na Capital
paulista era mais de quatro vezes superior à dos investidores residentes no Estado de
Goiás.
O terceiro foi Minas Gerais - 4% do capital considerado na Tabela 2. Com
referência a este Estado, chama a atenção a média de capital por empresário obtida
pelos que residiam em Uberlândia, somente superada pelos paulistas da Capital. Os
outros casos, inclusive os de Belo Horizonte e Uberaba, surpreendem pela razão
inversa, ou seja, porque seus moradores tiveram uma das menores médias
capital/empresário apresentadas na tabela.
Em quarto lugar esteve o Estado do Rio de Janeiro - 3% do capital da tabela.
Neste caso, distinguem-se pela elevada média capital/empresário os indivíduos
residentes na cidade do Rio de Janeiro; era cerca de duas vezes e meia maior que a
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 243
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

obtida pelos que residiam em Goiânia. Ao contrário disto, os que eram domiciliados em
outras cidades fluminenses apresentaram uma média de capital por empresário inferior à
dos moradores do Estado de Goiás. Os empresários de Goiânia residentes em outras
unidades da Federação brasileira, distintas das mencionadas acima, contribuíram, em
conjunto, com 1% do capital considerado na tabela em pauta, sendo que tiveram uma
média capital/empresário idêntica à dos moradores do Estado de Goiás.
Os dados que viemos examinando são incisivos em apontar o Estado de
Goiás como o território onde fora originariamente acumulado o maior volume do capital
privado investido na economia urbana de Goiânia, no decorrer dos primeiros trinta anos
da história da cidade. Enfraquece seu poder de convencimento, entretanto, o fato de a
população daquele Estado ter-se constituído, ao longo desse tempo, com grande e
sempre renovada mescla de imigrantes. A ocorrência deste fato colocou-nos a
possibilidade de que uma parcela daquele capital considerado goiano, com base na
informação sobre o local de residência dos empresários, pudesse ter resultado da
contribuição de habitantes recém-chegados ao Estado ou diretamente à cidade.
Isto gerou a necessidade de que fosse avaliado o grau de legitimidade de tais
dados, em vista do objetivo que tínhamos em mente com relação a eles, mediante o uso
de fonte e método distintos dos que havíamos utilizado na sua obtenção. Com referência
a esta tarefa, todavia, a averiguação de valores de capital estava impossibilitada pela
inexistência de outras fontes de informação diferentes da já utilizada, razão pela qual
optamos por rever o aspecto da procedência do empresariado de Goiânia, desta vez,
segundo os lugares de permanência duradoura de seus componentes, anteriormente à
ocasião em que se estabeleceram nesta condição.
Assim, recorrendo à técnica estatística da amostra aleatória, sorteamos, do
conjunto dos empresários goianienses abrangidos na pesquisa realizada na Junta
Comercial, cem (100) nomes de indivíduos a respeito dos quais, mediante novo
procedimento de investigação, iríamos tomar alguns dados biográficos. No que se refere
ao assunto em pauta neste momento, as informações a serem obtidas acerca desses
indivíduos eram, em resumo, lugar de nascimento e local de residência prolongada em
época anterior ao ingresso como sócios de organizações empresariais de Goiânia.
Os dados que vamos apresentar a seguir foram obtidos por meio de
entrevistas, realizadas principalmente com pessoas próximas aos empresários
selecionados - parentes ou, mais raramente, ex-sócios -, pois eram poucos os casos em
que eles próprios permaneciam vivos. Dos cem indivíduos sorteados para compor a
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 244
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

amostra, conseguimos informações acerca de sessenta e um. Em relação a estes, vamos


apresentar primeiro os resultados sobre lugar de nascimento. Deste universo de sessenta
e um empresários, apenas um indivíduo era de nacionalidade estrangeira (alemã) - 2%
do total -, sendo os brasileiros naturais dos seguintes Estados: Goiás - 30 indivíduos
(49%), Minas Gerais - 11 (18%), São Paulo - 8 (13%), Maranhão - 3 (5%), Piauí - 2
(3%), Bahia - 2 (3%), Paraíba - 1 (2%), Rio Grande do Norte - 1 (2%), Rio de Janeiro -
1 (2%), Santa Catarina - 1 (2%).
Assim, pois, presumindo-se o valor científico do método utilizado, constata-
se que, na composição do empresariado goianiense, predominaram largamente os
indivíduos naturais do próprio Estado de Goiás. Com relação a estes, a procedência
segundo os municípios de origem foi, em ordem decrescente dos números, a seguinte:
Goiás (antiga Capital) - 7 indivíduos (23% dos empresários nascidos em território
goiano); Catalão - 4 (13%); Palmeiras - 3 (10%); Rio Verde e Ipameri - 2 de cada
município (7% em cada caso); e Goiânia, Pirenópolis, Luziânia, Guapó, Itaberaí,
Cumarí, Jataí, Paraúna, Buriti Alegre, Bela Vista, Santa Cruz e Pontalina - 1 indivíduo
de cada município (3% cada).
Quanto aos locais de residência prolongada dos empresários anteriormente à
ocasião em que ingressaram no meio empresarial de Goiânia, pelos resultados obtidos,
75% do total (46 indivíduos) residiam em municípios goianos, sendo que destes, 43%
(20 indivíduos) moravam em Goiânia já desde algum tempo e os demais - 26
empresários (57% dos residentes em Goiás) - eram habitantes dos seguintes municípios:
Goiás (antiga Capital) - 5 empresários (11% dos que habitavam no Estado de Goiás);
Catalão - 4 (9%); Palmeiras e Ipameri - 3 em cada um (7%); Cristalina - 2 (4%); e
Luziânia, Morrinhos, Bonfinópolis, Caldas Novas, Pontalina, Jandaia, Bela Vista,
Leopoldo de Bulhões e Pedro Afonso - 1 indivíduo (2%) em cada município.
Entre os empresários incluídos na amostra, 15 (25% do total) residiram em
outras partes do Brasil até bem próximo à ocasião de seu ingresso como sócios de
empresa em Goiânia; isto é, eram recém-chegados à cidade na ocasião. A composição
destes, segundo os Estados brasileiros onde residiam antes era a seguinte: São Paulo
(interior) - 7 indivíduos (47% dos que habitavam fora de Goiás); Minas Gerais - 5
(33%), sendo 2 em Belo Horizonte, 1 em Uberlândia e 2 em outros municípios; e Rio de
Janeiro (Capital), Piauí (interior) e lugar ignorado - 1 em cada situação (somam 20%
dos recém-vindos).
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 245
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Pelos resultados da amostra, então, perto da metade dos empresários de


Goiânia seria nativa do Estado de Goiás e cerca de mais um quarto deles, embora tendo
nascido em outras partes (sobretudo do Brasil), teria residido duradouramente no Estado
antes de ingressar no meio empresarial da cidade. A outra quarta parte desses
empresários, nascida também alhures, teria transferido domicílio para a cidade
imediatamente antes disto.
A operação de se sobrepor os dados obtidos mediante ambos os expedientes
de pesquisa que adotamos, uns em relação aos outros, produz resultados que não
permitem dúvida quanto à procedência geográfica da maior parte do empresariado de
Goiânia, convergindo também no sentido de indicar, com clareza, que uma proporção
aproximada, embora inferior, do capital privado investido na economia da cidade teve
origem geográfica idêntica à da maioria de seus detentores; ou seja, a principal
contribuição à formação do empresariado e do capital privado da economia de Goiânia
foi proporcionada por habitantes permanentes do próprio Estado de Goiás. A
circunstância que levou a que a taxa de contribuição de habitantes deste Estado à
formação daquele capital fosse menor do que a oferecida à constituição do seu
empresariado foi a elevada média de capital por empresário apresentada por
investidores forâneos, em comparação com os locais, particularmente dos Estados de
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

2. Empresários segundo as ocupações anteriores e o capital

Vamos tratar agora do aspecto de como o capital privado da economia


urbana de Goiânia teria sido originalmente acumulado, com base na suposição de que o
conhecimento acerca das atividades econômicas dos indivíduos, prévias à ocasião em que
investiram empresarialmente em uma dada economia, nas condições de história
contemporânea, representa fator chave para que se possa obter resposta a esta questão.
Na Tabela 3, a seguir, dados obtidos mediante levantamento realizado nos
arquivos da JUCEG foram organizados com base em classificação adotada pelo IBGE
no Censo de 1960, segundo grupos, subgrupos e categorias ocupacionais. Obedecida
esta classificação, uma série de agregações foi realizada em relação a categorias e
mesmo a subgrupos. No primeiro caso, o critério adotado foi o da afinidade entre
ocupações de um mesmo subgrupo; no segundo, levou-se em conta a modéstia dos
números encontrados pelo conjunto, o que deixava de justificar seu desdobramento.
Houve situações, por outro lado, em que categorias reunidas pelo IBGE sob uma única
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 246
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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denominação foram desmembradas, para efeitos de se realçar as condições apresentadas


por alguma delas em particular.
De acordo com esta classificação, um primeiro grupo, sob o título
“ocupações administrativas”, abrange três subgrupos: “proprietários”, “administradores”
e “funções burocráticas ou de escritório”. Do conjunto de empresários considerados na
Tabela 3, acima, 52% dos indivíduos pertenciam a este grupo, sendo que a maioria
absoluta deles - 48% do total do conjunto - incluía-se no subgrupo dos proprietários. A
participação deste grupo na formação do capital privado da economia de Goiânia foi
ainda mais considerável; isto é, atingiu 57% do total da tabela em referência, sendo que
a dos proprietários foi de 52%. A média de capital por empresário foi também muito
elevada, em comparação com os outros - mais de duas vezes superior à obtida pelo
grupo colocado em segundo lugar, o das ocupações técnicas, científicas e afins. A
respeito deste ponto, entretanto, os dados revelam um aspecto surpreendente, ou seja,
diferentemente do que se poderia esperar, um outro subgrupo, que não o dos
proprietários, alcançou uma média bem superior à destes, que foi o das funções
burocráticas ou de escritório. Voltaremos ao assunto mais tarde, neste trabalho.

TABELA 3 - Empresários segundo a ocupação anterior e o capital (*)


Ocupações
Empresários
Capital (Cr$ 1.000)
Capital (Cr$ 1.000)
Quant. % Valor % Média
Cap./Emp.
I. Administrativas 928 52 6.343.107 57 6.835
Proprietários 871 48 5.844.066 52 6.709
Fazendeiros 44 2 154.710 1 3.516
Industriais 254 14 3.387.325 30 13.335
Comerciantes 532 30 1.976.438 18 3.715
Outros Proprietários 41 2 325.593 3 7.941
Funcion. Burocráticos ou de Escritório 55 3 497.387 4 9.043
Coletores, caixas, tesour. e contadores 43 2 361.198 3 8.399
Funcionários Públicos 12 1 136.189 1 11.349
Administradores 2 - 1.654 - 827
II. Técnicas, Científicas e Afins 293 16 976.764 9 3.333
Engenheiros e Arquitetos 117 7 499.121 4 4.265
Químicos e Farmacêuticos 21 1 40.458 - 1.926
Agrôn., veterinários, cientistas e profess. 6 - 13.128 - 2.188
Médicos e Odontólogos 43 2 117.797 1 2.739
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 247
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Magistrados e Advogados 64 4 176.933 2 2.764


Escritores e Jornalistas 15 1 69.998 1 4.666
Art. Plásticos, Fotógrafos e Cinegrafistas 5 - 15.849 - 3.169
Religiosos 5 - 24.554 - 4.910
Estudantes 17 1 18.926 - 1.113
III. Ind. De Transformação e Constr. Civil 78 4 66.456 1 852
IV. Comércio e Atividades Auxiliares 5 - 10.578 - 2.115
V. Transportes e Comunicações 9 - 10.150 - 1.127
VI. Ocupações Domésticas 39 2 39.278 1 1.009
VII. Sem Informação 445 25 3.718.788 33 8.356
TOTAL 1.797 100 11.165.121 100 6.213

FONTE: Arquivos da Junta Comercial do Estado de Goiás.


(*) Valores indexados segundo taxas de inflação encontradas pelo IBGE (1990), tomando-se como referência o mês de dezembro de
1963. Em Cr$ 1.000,00.

Os dados referentes às diversas categorias ocupacionais compreendidas no


grupo reservaram-nos, todavia, outras surpresas ainda maiores, a começar pelo caso dos
fazendeiros, no subgrupo dos proprietários, assunto comentado na introdução a este
trabalho. Como consta da Tabela 3, a participação de fazendeiros na formação do
empresariado goianiense foi pouco considerável - 2% do conjunto abrangido na tabela -
e a contribuição que trouxeram à formação do capital foi ainda menos significativa - 1%
-, em comparação com a de outras categorias ocupacionais, principalmente do grupo dos
proprietários. Voltaremos ao assunto adiante.
Os dados sobre a categoria ocupacional apresentada em seguida na tabela, a
dos industriais, também nos surpreenderam. Desta vez, pelo motivo inverso ao do caso
anterior. A participação dos indivíduos que se declararam possuidores desta condição,
para efeitos de registro na Junta Comercial, foi de 14% na formação do empresariado da
cidade e 30% na do capital. A média capital/empresário destes indivíduos foi a mais
elevada entre as categorias ocupacionais relacionadas na tabela. Em face de tais dados,
perguntamo-nos: De onde teriam vindo tantos homens de dinheiro, membros novos do
quadro empresarial goianiense, anteriormente ocupados em administrar investimentos
seus no setor industrial da economia?
Esta pergunta decorria da incongruência que parecia estar havendo entre os
dados e a circunstância de no Estado de Goiás, de onde procedia a maior parte do
empresariado de Goiânia, o setor industrial ter sido sempre pouco significativo,
conforme atestam dados estatísticos produzidos pelo órgão federal responsável pelo
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 248
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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assunto, relativos ao período de tempo que estudamos - segundo o IBGE, até 1960, a
taxa mais elevada obtida pela indústria na formação da renda interna goiana foi de
6,6%, em 1948; a mais baixa foi de 3,5%, em 1955. (Anuário Estatístico do Brasil,
1973) Este foi um dos motivos pelos quais deliberamos conferir, mediante o expediente
utilizado em relação à amostra a que nos referíamos atrás, a veracidade dos números
que havíamos reunido acerca das atividades ocupacionais anteriores dos empresários de
Goiânia, assunto de que voltaremos a tratar adiante.
Os comerciantes vêm em seguida na tabela em pauta, tendo sido de 30% a
participação deles na composição do empresariado de Goiânia - eram o maior
contingente - e de 18% no capital. No subgrupo dos proprietários, foi uma das
categorias ocupacionais a apresentar menor média de capital por empresário; só
superaram os fazendeiros, quanto a esta média. Tais dados, todavia, não nos trouxeram
maior embaraço. Em primeiro lugar, porque podíamos imaginar que uma boa parte
desse contingente fosse procedente da economia informal do Estado, aí incluídos desde
a figura popular do mascate, até uma série de tipos que, sem se acharem estabelecidos
na condição de comerciantes, podiam estar envolvidos em negócios de monta, como,
por exemplo, na compra e revenda de cereais, animais de corte, ouro, pedras preciosas,
etc.
Depois, porque contávamos com a possibilidade de, entre os homens de
negócios de outras plagas, os pequenos comerciantes terem sido os primeiros a serem
atraídos para a nova cidade, conforme costumeiramente acontece em relação às áreas
em recente processo de ocupação populacional e econômica. A categoria “outros
proprietários”, apresentada em seguida na Tabela 3, inclui avicultores e criadores de
pequenos animais, os declarados simplesmente como “proprietários” e outros mal
definidos. Formavam 2% do conjunto de empresários e contribuíram com 3% do capital
considerados na tabela. Sua média de capital por empresário foi a segunda mais elevada
- depois dos industriais - no conjunto dos proprietários.
No subgrupo chamado “funções burocráticas ou de escritório”, fizemos
distinção entre dois segmentos, ou seja, de um lado, coletores, caixas, tesoureiros e
afins, e de outro, funcionários públicos. O primeiro deles participou com 2% do
conjunto de empresários e 3% do capital compreendidos na tabela em referência. Em
relação a eles, chama a atenção a elevada média capital/empresário - bem superior à do
conjunto do subgrupo dos proprietários -, o que levanta em nós a suspeita de que o seu
capital teria outra origem que não o exclusivo exercício das profissões ou ocupações
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 249
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

declaradas para efeitos de registro na Junta Comercial, aí consideradas as alternativas de


acumulação de funções - técnica e de administração de patrimônio pessoal, por exemplo
-, casamento e até corrupção. Neste último caso poderiam estar, por exemplo,
responsáveis por coletorias fiscais em zonas de fronteira territorial do Estado de Goiás,
onde a prática do suborno era corriqueira nas primeiras décadas do século XX.
Os funcionários públicos constituíam-se em 1% do conjunto dos
empresários e também contribuíram com 1% do capital considerado na Tabela 3. O que
impressiona em relação a eles é principalmente a elevada média capital/empresário; na
tabela, só foram superados pelos industriais. Reunidos ao segmento mencionado
imediatamente acima, formam o subgrupo em que esta média foi mais alta.Tais dados
apontam para a possibilidade de ter-se transferido, para a nova sede do governo goiano,
um velho costume da cultura política no Estado, a prática do nepotismo
Passamos agora ao exame dos dados relativos ao grupo “Ocupações
técnicas, científicas e afins”. Constituiu-se em 16% do empresariado goianiense e
contribuiu com 9% do capital considerado na Tabela 3. A média capital/empresário
apresentada por este grupo era cerca de metade da obtida pelo grupo anterior, o das
ocupações administrativas. Aí, chama-nos a atenção imediatamente os números
relativos aos engenheiros e arquitetos; eram 7% dos empresários e contribuíram com
4% do capital considerados na tabela. Dentro do grupo, eram 40% dos indivíduos,
sendo que seu capital atingia 51% do total. Tais dados são representativos de certas
características da evolução histórica de Goiânia; ou seja: de uma parte, a condição de
pólo dinâmico que a área da construção civil exerceu em relação ao desenvolvimento
econômico da cidade; de outra, e em decorrência da primeira, a proliferação, em seu
meio, de um tipo de profissional antes extremamente raro na sociedade goiana, a quem
o espírito empreendedor freqüentemente é próprio.
Seguem-se, na tabela em referência, dados relativos a químicos,
farmacêuticos, agrônomos, veterinários, cientistas e professores, que, pelo seu pequeno
significado em termos do conjunto, tanto pelo número de indivíduos como pelo capital
que investiram, mas principalmente pelo último motivo, vamos nos abster de comentar.
Os médicos e odontólogos, cujos dados vêm em seguida, constituiram-se em 2% do
empresariado de Goiânia e contribuíram com 1% do capital considerados na tabela. A
contribuição que deram à formação de um e outro, não chegando a ser digna de nota,
revestiu-se de alguma importância no contexto de que estamos tratando.
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 250
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Os profissionais do direito - advogados, procuradores, juízes, etc. -


colocaram-se em segundo, depois dos engenheiros e arquitetos, no grupo das funções
técnicas, científicas e afins, tanto no número deles quanto no capital - respectivamente,
4% e 2% dos totais da Tabela 3. Em relação ao grupo, sua participação no capital foi
significativa - 18% -; contudo, a média de capital por empresário que tiveram foi
modesta: pouco mais de metade da obtida pelos engenheiros e arquitetos.
Os escritores e jornalistas tiveram uma participação surpreendente, à
primeira vista, no quadro geral de que estamos tratando, isto é, 1% dos empresários e
também do capital compreendidos na tabela em pauta e, principalmente, uma das mais
elevadas médias capital/empresário do grupo - somente superada pela dos religiosos.
Devemos observar aqui, entretanto, que a indústria editorial e gráfica constituía-se em
um dos principais ramos de atividade da economia de Goiânia, que contava com duas
grandes organizações privadas no campo das comunicações, os Diários Associados
(cujo principal acionista era o conhecido empresário brasileiro F. Assis Chateaubriand
Bandeira) e as atualmente denominadas Organizações J. Câmara.
Artistas plásticos, fotógrafos e cinegrafistas tiveram pequena participação
no quadro de que estamos tratando. Os religiosos, todavia, surpreenderam, nem tanto
pela sua quantidade - 5 indivíduos -, mas principalmente pela elevada média
capital/empresário que apresentaram, conforme assinalamos atrás. Os estudantes
marcaram presença aí, mais pelo número deles - 1% do total da tabela em pauta - do que
pelo capital que investiram ou a média capital/empresário que obtiveram: somas
modestas em ambos os casos.
Os demais dados da Tabela 3 foram agregados segundo grupos
ocupacionais, em razão do pequeno peso que tiveram no contexto geral em exame.
Entre estes grupos, o de maior expressão no conjunto foi o das “Ocupações das
indústrias de transformação e da construção civil” - 4% dos empresários da tabela em
referência e 1% do seu capital. A média de capital por empresário obtida pelo grupo, no
entanto, foi uma das mais baixas apresentadas na tabela.
Do grupo “Ocupações do comércio e atividades auxiliares”, apenas cinco
indivíduos fizeram parte do empresariado goianiense. Do grupo “Ocupações dos
transportes e das comunicações”, nove indivíduos estavam neste caso. O grupo sob a
denominação “Ocupações domésticas” teve uma participação numericamente
importante no quadro empresarial goianiense - 2% do empresariado e 1% do capital -,
tendo apresentado, porém, uma pequena média capital/empresário.
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 251
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
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Empresários segundo as ocupações anteriores e as origens geográficas

Diante da incoerência que parecia estar existindo entre os dados que vínhamos examinando e as condições
do desenvolvimento econômico do Estado de Goiás, principalmente com referência ao
pequeno peso neles representado pelos fazendeiros e, contrariamente a isto, a
importância aí adquirida pelos que se declararam como industriais para efeitos de
registro na Junta Comercial, conforme mencionamos atrás, deliberamos conferir o grau
de fidedignidade de tais dados, mediante o recurso da amostra estatística, do modo
como descrevemos antes.
De acordo com os resultados obtidos por meio de entrevistas acerca
daqueles sessenta e um indivíduos componentes da amostra, a maioria dos empresários
de Goiânia antes pertencera ao grupo das chamadas ocupações administrativas - 33
indivíduos (54% do conjunto deles) -, sendo que destes, o maior contingente fazia parte
do subgrupo dos proprietários - 23 indivíduos (38%) -, do seguinte modo: 1 fazendeiro
(2%), 2 pequenos agricultores (3%), 6 industriais (10%), 13 comerciantes (21%), 1
proprietário de empresa de transportes (2%). O segundo maior contingente dentro deste
grupo era o dos que haviam anteriormente se ocupado com funções burocráticas ou de
escritório - 8 indivíduos (13% do total da amostra) -, sendo que deles 4 eram
funcionários públicos (7%) e os restantes coletores ou bancários (7%). Por último vinha
a subgrupo dos administradores, com 2 indivíduos - 3% do total da amostra.
Repare-se que não obstante exista alguma divergência entre estes
percentuais e aqueles encontrados com base nos arquivos da Junta Comercial, os dois
conjuntos de dados convergem no sentido de indicar certos aspectos importantes da
constituição do empresariado de Goiânia, referentes ao esclarecimento da questão de
como o capital privado de sua economia foi preliminarmente acumulado. Com relação
ao grupo de que acabamos de tratar, absolutamente majoritário na formação do
empresariado desta cidade, de acordo com ambos os conjuntos de dados, os pontos de
maior interesse para o nosso caso são a participação pouco considerável de fazendeiros
no quadro empresarial goianiense, a predominância aí de comerciantes e industriais, e o
peso que nele adquiriu a presença de funcionários públicos.
Conforme os resultados da amostra, 25% dos empresários de Goiânia (15
indivíduos) possuíam habilitação para exercer funções técnicas, científicas e afins ou
eram estudantes: 3 engenheiros (5% do total da amostra), 1 agrônomo (2%), 3 médicos
(5%), 2 advogados (3%), 3 professores (5%), 1 jornalista (2%), 2 estudantes (3%). Tais
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 252
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

dados confirmam os da Tabela 3, atrás, no que se refere à importância da participação


que tiveram os engenheiros na composição do empresariado de Goiânia, mas destoam
daqueles ao realçar a participação aí de médicos e principalmente de professores. Nestes
últimos casos, como também em outros, o mais provável é que isto tenha resultado de
situações em que a informação prestada para efeitos de registro na Junta Comercial e a
que se obteve mediante entrevista correspondam a duas funções diferentes exercidas por
um mesmo indivíduo.
A contribuição oferecida por antigos trabalhadores das indústrias de
transformação e da construção civil na constituição do empresariado de Goiânia,
segundo os resultados obtidos em relação à amostra, foi de 10% (6 indivíduos); isto é: 1
mecânico (2% do total da amostra), 2 costureiras (3%), 1 sapateiro (2%), 2 profissionais
da construção civil (3%). Por estes dados, a participação do grupo na composição do
quadro empresarial da cidade teria sido bem superior à indicada na Tabela 3, atrás, com
base em dados coletados na Junta Comercial - 4%, conforme estes. Embora tal
discrepância exija atenção, em se tratando de uma cidade em que a indústria artesanal
deteve grande importância, sobretudo nos seus primórdios, e onde havia falta de
profissionais capacitados para atuação em diversos de seus ramos, para o que temos em
mente neste momento, porém, possui importância secundária, posto que, ao que tudo
indica, a contribuição que tal grupo pôde oferecer à constituição do capital privado da
economia urbana de Goiânia foi reduzida.
Dos resultados obtidos em relação à amostra constam ainda 3 trabalhadores
do comércio (5% do conjunto nela abrangido), 2 das ocupações domésticas (3%), 1
jogador de futebol (2%) e 1 de ocupação ignorada. Chama-nos a atenção aí a presença
dos primeiros porque, conforme já assinalamos em relação a outros casos, a
probabilidade de que tenham reunido capital exclusivamente por meio de seu trabalho
na condição de empregados parece remota. Recordemos que estamos aqui tratando
apenas dos principais sócios de organizações empresariais da cidade, que, por pequenas
que tenham sido, detiveram solidez suficiente para manterem-se em funcionamento ao
menos por cinco anos.
A mais importante contribuição oferecida pela amostra à elucidação das
questões em pauta neste trabalho, de onde e como o capital aplicado empresarialmente
em Goiânia teria sido preliminarmente acumulado, foi proporcionada pelo cruzamento
de seus dados entre si, para, mediante sobreposição dos resultados desta operação aos
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 253
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

obtidos com o levantamento da Junta Comercial, conseguir elucidar alguns pontos para
nós obscuros acerca destes.
Tomemos primeiro os indivíduos que antes de ingressarem como sócios de
empresas em Goiânia exerciam ocupações administrativas, a maior parte dos
empresários da cidade. Segundo os dados da amostra, 82% deles residiram
duradouramente em Goiás antes de realizar o investimento - 44% destes já em Goiânia e
56% em municípios do interior. No conjunto do grupo, 58% dos indivíduos eram
nativos do próprio Estado. Este grupo contribuiu, conforme os dados reunidos com base
nos arquivos da Junta Comercial, seguramente, com mais da metade do volume de
capital aplicado no setor privado da economia de Goiânia pelo conjunto de empresários
abrangidos em nossa pesquisa; provavelmente com mais que isto, posto que grande
parte daqueles a respeito dos quais não se obteve informação sobre as ocupações
anteriores, por certo pertencia ao grupo.
Tais dados são, por si só, muito contundentes em confirmar a indicação que
vínhamos tendo de que a maior parte do capital investido empresarialmente em Goiânia
fora acumulado nos próprios limites do Estado de Goiás. Seus desdobramentos
contribuem também, decisivamente, para o esclarecimento da questão de como, ou seja,
que atividades econômicas propiciaram esta acumulação. Examinemos primeiro os
casos acerca dos quais pairaram nossas principais dúvidas.
Começando pelo caso dos proprietários rurais - 1 fazendeiro e 2 pequenos
agricultores -, verificamos que nenhum deles tinha nascido em Goiás ou residira
duradouramente no Estado, anteriormente à ocasião em que investiram
empresarialmente em Goiânia. Isto significa, surpreendentemente, que o capital
originário da atividade produtiva rural representado, ao menos parcialmente, pela soma
que investiram juntos tais indivíduos na economia de Goiânia, fora acumulado em
outras partes que não em Goiás.
Quanto aos industriais, segundo os resultados da amostra, 83% deles
residiam no Estado de Goiás há bastante tempo quando realizaram investimentos
empresariais nessa cidade - destes, 60% em Goiânia mesmo e 40% em municípios do
interior. Do conjunto de tais indivíduos, entretanto, apenas 17% eram goianos por
nascimento. Isto significa, então, que muito embora grande parte do capital procedente
do setor industrial da economia investido na cidade tenha sido acumulada em território
goiano, era forânea a maioria dos agentes humanos promotores desta acumulação. E isto
também indica que uma parcela considerável deste capital fora acumulada já na própria
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 254
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

cidade, o que nos leva a deduzir que segmentos importantes da economia urbana de
Goiânia estiveram excluídos de nossa pesquisa - limitada que esteve ela à chamada
“escala possível”. As empresas de tipo individual, as do comércio varejista e as que
funcionavam mediante mecanismos da economia informal devem ter sido responsáveis
por boa parte dessa acumulação.
Em relação aos comerciantes, os resultados da amostra não ofereceram
grande surpresa quanto às origens geográficas - 69% eram naturais do Estado de Goiás,
outros 8% residiam aí desde muito tempo e 23% eram forâneos. Os dados acerca das
localidades de moradia dos indivíduos domiciliados no Estado é que surpreenderam,
principalmente se comparados com os anteriores acerca dos industriais - 80% deles
residiam em municípios do interior e apenas 20% na Capital. Isto aponta para duas
possibilidades não excludentes entre si; isto é, por um lado, as oportunidades oferecidas
à acumulação de capital mediante atividades comerciais levadas a efeito no interior do
Estado teriam sido bastante vantajosas; e, por outro, na economia urbana de Goiânia, o
setor industrial teria propiciado, em comparação com estas, melhores condições de
reprodução ao capital.
As outras categorias ocupacionais que, no grupo, bem como no conjunto do
universo considerado na pesquisa, detiveram importância numérica e também quanto à
participação que tiveram na formação do capital privado da economia de Goiânia foram
os funcionários públicos, de um lado, e coletores, bancários, contadores e afins, de
outro. Segundo os resultados da amostra, residia em Goiás a totalidade dos
componentes de ambas estas categorias, sendo que eram naturais do Estado 100% dos
primeiros e 75% dos últimos. Em relação a tais indivíduos, entretanto, pode-se apenas
levantar conjecturas acerca das possibilidades que tiveram de ganhar dinheiro, exercício
que levamos a efeito atrás, mas que carece de base empírica que o sustente
satisfatoriamente.
No grupo das ocupações técnicas, científicas e afins, o segundo colocado em
importância no setor empresarial de Goiânia, conforme já vimos, de acordo com os
resultados da amostra, 73% dos indivíduos residiam no Estado de Goiás há algum
tempo, dos quais, 55% em Goiânia e 45% no interior. Do conjunto deles, 47% nasceram
no Estado. Neste caso, ao que indicam estes dados, embora o interior do Estado tivesse
oferecido condições de se ganhar dinheiro através do exercício de funções tecnicamente
qualificadas, uma parte do capital investido pelo grupo teria sido reunida mediante
atividades profissionais e/ou empresariais levadas a efeito na própria cidade
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 255
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Um outro grupo ainda merece comentário, o das ocupações da indústria, se


nem tanto pelo peso que teve em número de indivíduos ou pelo capital que investiu no
setor empresarial privado de Goiânia, principalmente pela importância que tiveram,
certamente, as qualificações profissionais que possuíam seus integrantes, para o
surgimento e expansão do setor industrial de uma economia em que a mão-de-obra
qualificada era muito escassa. Pelos resultados da amostra, 67% dos indivíduos
pertencentes ao grupo residiram no Estado de Goiás duradouramente antes de realizar
investimentos empresariais em Goiânia; contudo, apenas 33% deles haviam nascido no
Estado. Antes da fundação desta cidade, as atividades artesanais de tipo urbanas eram
muito pouco desenvolvidas em Goiás, achando-se ligadas principalmente ao esquema
de auto-suficiência das unidades de produção rurais.

Conclusão

Os dados apresentados neste trabalho são incisivos em apontar a área


geográfica de onde se originou a maior parte do capital aplicado empresarialmente na
economia de Goiânia, no curso de seus primeiros 30 anos; isto é: o território do próprio
Estado de Goiás. Não obstante isto, foi significativa, conforme tais dados, a
contribuição que ofereceram à formação daquele capital outras regiões brasileiras,
sobretudo a Sudeste - Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Se tais constatações não surpreendem, propriamente, isto já não ocorre no


que se refere à questão de como aquele capital foi acumulado, preliminarmente a sua
inversão na economia da cidade. Segundo os dados, as maiores parcelas de que se
formava o capital privado e empresarial desta economia provinham de atividades
industriais e comerciais, sobretudo das primeiras. Isto é muito surpreendente, em face
do pequeno peso que teve o setor industrial na economia do Estado de Goiás, no
decorrer do conjunto temporal que estudamos. Os dados, porém, não deixam margem de
dúvida quanto a este ponto: a maior contribuição oferecida ao desenvolvimento da
economia de Goiânia resultou do re-investimento de excedentes econômicos produzidos
pelo setor industrial, seja da própria cidade, do Estado de Goiás ou de outras partes.

Mas, os dados referentes às categorias ocupacionais dos empresários de


Goiânia reservavam-nos surpresas ainda maiores, cabendo menção especial, entre elas,
o caso dos fazendeiros: foi pequeno o número de proprietários rurais na constituição do
empresariado urbano da nova Capital goiana; e, o que é mais importante, foi pouco
MACIEL, Dulce Portilho. Formação do setor empresarial da economia de Goiânia (1933- 256
1963): origens do capital. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio
de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 239-260, Dez. 2008 / Jun. 2009.

considerável a participação que tiveram na formação do capital aplicado


empresarialmente na cidade.

Esta constatação, frustrando nossas expectativas quanto aos prováveis


resultados da pesquisa aqui em foco, levantava, por outro lado, novas indagações, sendo
que algumas delas remetem-nos ao terreno das motivações econômicas ou ao das
qualidades pessoais exigidas ao empresário: será que a este grupo de homens faltou
“vocação” ou, quem sabe, “talento”, para atividades do tipo empresarial-urbano? ou,
diferentemente disto, a atividade produtiva rural teria oferecido condições tão ou mais
vantajosas à reprodução de capital que essas urbanas?

Esta última possibilidade parece-nos com maior probabilidade de acerto, já


que vocação e talento empresariais, ao que tudo indica, não faltaram a este grupo de
homens. A partir dos anos 1940, e cada vez mais crescentemente depois, o setor
agropecuário da economia do Estado de Goiás tem-se desenvolvido em moldes
empresariais. Estamos aqui nos referindo à antiga parte sul do Estado que hoje recebe
este nome, de onde era originária a totalidade dos empresários de Goiânia abrangidos na
pesquisa. Com isto, fica para nós demonstrado o equivoco em que havíamos incorrido
aventando a hipótese de que um volume considerável de excedentes produzidos pelo
setor primário da economia desse Estado deveria ter sido carreado para Goiânia, sendo
esta a origem provável de uma das parcelas mais importantes do capital privado da
economia urbana da nova cidade.

Devemos aqui lembrar, entretanto, que não obstante isto, a existência de tais
excedentes foi responsável pela criação de um mercado interno em Goiás para bens e
serviços produzidos nesta cidade, sem esquecer, também, da parcela que, pela via fiscal,
transferia para ela o Estado – melhor dizendo, o governo estadual, que além de se
encarregar da implantação da cidade, ocupou-se, de forma quase exclusiva (ignorando o
poder público municipal), com administração do seu desenvolvimento, ao longo do
tempo aqui em causa. De um modo ou de outro, portanto, a produção de excedentes
pelo setor agropecuário do Estado de Goiás constituíu-se, certamente, em fator
fundamental do qual dependeu o desenvolvimento da economia urbana de Goiânia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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História), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo.
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO.
VOL. 01, Nº 01, 261-269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

AS RAÍZES DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA

Maria Angélica Peixoto∗

Resumo: Abstract:

O presente artigo aborda as raízes da The present article approaches the roots of
sociologia no Brasil, buscando analisar as the sociology in Brazil, looking for to
razões de seu surgimento tardio em analyze the reasons of your late appearance
comparação com o ocorrido na Europa in comparison with happened him in
Ocidental. A conclusão geral é a de que tal Western Europe. The general conclusion is
surgimento tardio é produto do próprio the that such a late appearance is product of
desenvolvimento capitalista tardio em the own late capitalist development in our
nosso país. country.

Palavras-chave: Key-words:

Sociologia; Sociologia Brasileira; Sociology; Brazilian Sociology; Capitalist


Desenvolvimento Capitalista; Capitalismo Development; Late Capitalism, Totality.
Tardio; Totalidade.

O tema do presente artigo é a formação da sociologia no Brasil. A


sociologia tem seus primeiros passos no continente europeu no século XVIII e se
sistematiza enquanto ciência no século XIX, e teve seu processo de consolidação no
século XX, já em seu início (Martins, 1994; Cuin e Gresle, 1994; Bouthoul, 1959). No
Brasil, no entanto, os primeiros passos desta ciência ocorrem no século XX, a partir da
década de 30, sendo que, para alguns estudiosos, seu nascimento dataria da década de
30, 40 ou 50 enquanto que, para outros, isto seria a fase pré-sociológica, e a sociologia
científica surgiria mesmo na década de 60 (Gomes, 1994; Fernandes, 1978). O que
visamos no presente artigo é descobrir as raízes da sociologia brasileira, observando o
seu processo de gênese e explicando este processo à luz de uma análise da realidade
social brasileira.
Partindo da constatação desta defasagem entre o desenvolvimento da
sociologia na Europa e no Brasil, apresentamos o seguinte problema de pesquisa: por
qual motivo a formação da sociologia no Brasil ocorreu de forma tão tardia em relação
ao continente europeu? Antes de dar continuidade poderíamos repensar o problema e

∗ Mestrado em Sociologia pela Universidade de Brasília, Brasil(2001)


Atuação em Fundamentos da Educação, com ênfase em Sociologia da Educação
Professor titular da Universidade Paulista Faculdades Objetivo , Brasil.
PEIXOTO, Maria Angélica. As raízes da sociologia brasileira. Estácio de Sá – Ciências 259
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 261-
269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

colocar que ao invés de um motivo, houveram vários. Pois bem, partimos das
indicações metodológicas feitas por Karl Marx. Segundo este: “o concreto é o resultado
de suas múltiplas determinações” (Marx, 1983), mas cabe ao pesquisador, descobrir a
determinação fundamental do fenômeno, isto é, descobrir aquilo que engendrou
efetivamente o fenômeno, e, posteriormente, re-agrupar as demais determinações numa
totalidade concreta (Marx, 1983; Viana, 2007). Assim, ao perguntarmos do motivo,
estamos perguntando pela determinação fundamental, o que não significa descartar as
demais determinações. Porém, focalizaremos esta para posteriormente enquadrarmos as
demais.
A partir do problema levantado buscamos realizar uma investigação
bibliográfica que nos permitisse constituir uma hipótese que fosse o fio condutor de
nossa pesquisa. Para elaborar nossa hipótese percebemos que seria necessário partir da
idéia de que a compreensão deste fenômeno nos remete a um estudo sociológico da
sociologia, isto é, a aplicação do saber sociológico à própria sociologia. Este será,
portanto, o embasamento de nosso referencial teórico.
O quadro teórico de nosso trabalho se encontra na contribuição
metodológica de vários sociólogos, entre os quais, Marx e Durkheim, e daqueles que
contribuíram mais especificamente com a sociologia do conhecimento, além dos acima
citados, tal como Mannheim, Löwy, Bourdieu, Berger e Luckmann, entre outros, e
também estudiosos da sociologia brasileira e da sociedade brasileira, tal como Florestan
Fernandes, João Manuel Cardoso, Antônio Cândido, Cândido Gomes, entre outros.
O referencial teórico se baseia, então, na sociologia do conhecimento,
partindo da idéia de totalidade como categoria central para nossa análise. A sociedade
compreendida como totalidade é a chave explicativa para o nosso problema e fio
norteador de nossa análise e hipótese.
Karl Marx e Friedrich Engels forneceram significativas sugestões neste
sentido. Para estes autores, as idéias (religiosas, morais, estéticas e, o que se refere
diretamente ao objeto de nosso estudo, científicas) não podem ser compreendidas de
forma isolada das relações sociais. As idéias, as representações, as formações culturais
(Marx e Engels, 1991) se formam e desenvolvem no interior das relações sociais. O
modo como os homens vivem, suas relações recíprocas, seu modo de produzir, suas
relações sociais em geral, é a chave explicativa de suas representações, suas idéias.
Assim, a produção científica está indissoluvelmente ligada com o processo social
(Löwy, 1987).
PEIXOTO, Maria Angélica. As raízes da sociologia brasileira. Estácio de Sá – Ciências 260
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 261-
269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Karl Mannheim também apresentará uma grande contribuição para a


compreensão da produção de conhecimento. Este autor irá destacar a relação entre a
produção de conhecimento e o contexto socio-histórico, principalmente as classes
sociais (Mannheim, 1986).
Berger e Luckmann também trazem uma importante contribuição ao
destacar que o conhecimento é produzido socialmente (1986), tal como Durkheim, que
afirma que as representações coletivas, entre outras formas de consciência, são
produzidas socialmente (1996). Bourdieu traz uma análise fundamental ao realizar
estudos sobre o que ele denomina “campo científico” (1994) e em suas análises sobre a
sociologia (1983), traz elementos fundamentais para pensarmos a formação da
sociologia no Brasil, seu processo de institucionalização e sua dinâmica.
O que todos estes pensadores apresentam é uma visão geral da produção do
conhecimento, trazendo elementos importantes para analisarmos a formação da
sociologia no Brasil. Estes sociólogos apresentam uma visão da produção de
conhecimento como produto social e, por conseguinte, não pode ser separado das
relações sociais, do processo histórico e social.
Sendo assim, somente compreendendo a sociedade brasileira em sua
totalidade é que poderemos compreender a formação da sociologia no Brasil. Por
sociedade brasileira entendemos uma extensão do conceito de sociedade, tal como
definido por Karl Marx, que a define como sendo o conjunto das relações sociais. A
sociedade brasileira, por conseguinte, é o conjunto das relações sociais existentes no
território brasileiro. Este é um conceito abrangente, mas ao mesmo tempo concreto, isto
é, refere-se a uma sociedade concreta, delimitada espacialmente e temporalmente.
Sem dúvida, não iremos analisar a totalidade das relações sociais existentes
no Brasil, mas – sem perder de vista sua globalidade – iremos focalizar aqueles
elementos fundamentais para a nossa pesquisa, especialmente o processo de
modernização da sociedade brasileira. Tal processo de modernização é marcado pela
expansão da sociedade capitalista, ou, em outras palavras, de “ocidentalização” (Le
Goff, 2003). Este processo de modernização proporciona várias mudanças em uma
determinada sociedade, tal como o processo de industrialização, elemento fundamental
por instaurar novas relações de produção, urbanização, racionalização, entre outros.
A nossa hipótese, por conseguinte, é a de que a formação tardia da
sociologia no Brasil é derivada do próprio desenvolvimento histórico do Brasil,
PEIXOTO, Maria Angélica. As raízes da sociologia brasileira. Estácio de Sá – Ciências 261
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 261-
269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

caracterizado por um capitalismo tardio, retardatário. Também poderíamos denominar


tal processo como “modernização tardia”.
Esta hipótese pode ser respaldada na análise que Marx e Engels fizeram da
filosofia alemã de sua época, o chamado neohegelianismo (1991). O neohegelianismo
surgiu numa sociedade atrasada, a Alemanha, com uma industrialização retardatária em
relação aos demais países europeus (principalmente Inglaterra e França) e, no entanto,
vestiu as concepções político-filosóficas destes países.
Aqui temos os dois elementos que nos ajudam a compreender o processo de
constituição da sociologia no Brasil: um desenvolvimento econômico incipiente ao lado
do intercâmbio cultural com países mais desenvolvidos. Isto permite um
desenvolvimento tardio da sociologia no Brasil, pois seu período pré-sociológico (até
década de 30) se caracteriza pela importação cultural derivada de um intercâmbio com
outras culturas que produziam uma sociologia mais sistematizada e institucionalizada. O
seu caráter pré-sociológico é possível graças a este intercâmbio cultural que ocorria sem
as bases materiais, o desenvolvimento capitalista.
Assim, sua formação e institucionalização datam da consolidação do
capitalismo tardio no Brasil, no qual a urbanização e industrialização se tornam
predominantes em nosso país. Neste caso, estamos entendendo por cultura a definição
fornecida por Alfred Weber: “os produtos artísticos, religiosos, filosóficos, e outros, de
uma sociedade” (Bottomore, 1970, p. 110). Em outras palavras, cultura se refere ao
conjunto de idéias, valores, moral, religião, ciência, filosofia e outras produções
intelectuais de uma determinada sociedade. Este conceito de cultura difere de outros
fornecidos principalmente pela antropologia social, mas é bastante utilizado na teoria
sociológica.
Assim, a determinação fundamental da formação tardia da sociologia
brasileira é o a formação de um capitalismo retardatário em nosso país. Este capitalismo
retardatário pressupõe um desenvolvimento capitalista avançado em outros países e de
relações entre estas duas formas de capitalismo. Esta relação ocorre sob o signo da
subordinação econômica que se reproduz sob a forma cultural e científica. Sendo assim,
a formação tardia da sociologia brasileira é derivada desta situação do capitalismo em
nosso país. A fase pré-sociológica é possível devido ao intercâmbio cultural e
subordinação científica, o que produz “idéias fora do lugar” e manifestações
rudimentares, convivendo com formas mais desenvolvidas em outros países. A
formação da sociologia brasileira, sua fase científica, ocorre com o desenvolvimento
PEIXOTO, Maria Angélica. As raízes da sociologia brasileira. Estácio de Sá – Ciências 262
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 261-
269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

capitalista no Brasil, o processo de industrialização, proporcionando a base material


para o seu desenvolvimento e sistematização.
A partir destas considerações e referencial teórico, realizamos uma análise
da realidade brasileira a partir da leitura de autores como Gorender (1978); Gorender
(1990); Freitas (1982); Costa (1982); Cardoso de Mello (1986); Mazzeo (1989); Gebara
(1986) e Fernandes (1987). Assim, já podemos ter uma primeira visão panorâmica da
sociedade brasileira para realizar a comparação com as sociedades européias nas quais
surgiu a sociologia.
O nosso objetivo foi obter uma visão geral da sociedade brasileira no
mesmo período em que a sociologia se esboçava na Europa, bem como no período de
sua sistematização e consolidação. Isto ocorreu nos séculos XVIII (precursores da
sociologia), XIX (surgimento com os clássicos); XX (consolidação). Sem dúvida,
perceber o processo histórico de desenvolvimento da sociedade brasileira era necessário
e por isso fizemos algumas leituras sobre o período antecedente para compreender a
dinâmica de desenvolvimento desta sociedade, sem fazer cortes abruptos.
Assim, as leituras de Gorender (1978; 1990), Costa (1982) e Freitas (1982)
nos ajudaram a compreender a sociedade pré-capitalista brasileira, o regime escravista
colonial. A transição deste regime para o regime capitalista, já tendo alguns subsídios
nestas leituras, foram aprofundadas com a leitura dos textos de Cardoso de Mello
(1986); Mazzeo (1989); Gebara (1986) e Fernandes (1987).
O conhecimento em geral e a ciência, mais especificamente, são produtos
sociais. A ciência possui uma racionalidade própria, que não pode ser desligada dela,
mas o seu conteúdo e mesmo os elementos determinantes de sua forma são constituídos
socialmente. Assim, a sociologia surge na Europa num contexto social específico, numa
sociedade que tem como características a secularização, a racionalização (Weber, 1978),
a industrialização e o surgimento da “questão social” (Martins, 1994; Bottomore: 1970),
a era do cientificismo e a busca de constituição de diversas novas ciências,
principalmente as chamadas ciências humanas (Viana, 2000), as lutas sociais, entre
outros elementos. Em poucas palavras, a sociologia surge na Europa a partir de um
novo contexto social, marcado pelo surgimento e desenvolvimento da sociedade
capitalista.
As pré-condições para o surgimento da sociologia são a formação do
capitalismo e seu desenvolvimento, proporcionando novas lutas de classes (burguesia e
proletariado), novos problemas sociais, e uma ampliação da racionalização e da divisão
PEIXOTO, Maria Angélica. As raízes da sociologia brasileira. Estácio de Sá – Ciências 263
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 261-
269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

social do trabalho, o que faz emergir o que Bourdieu denomina “campo científico” e
outros autores chamam “comunidade científica” (Portocarrero, 1994; Viana, 2003), o
desenvolvimento das ciências naturais e o progresso tecnológico e científico que traz
legitimidade e status superior ao novo ramo do saber, a ciência (Viana, 2000). Também,
neste contexto, como subdivisão no interior do “campo científico”, emerge o “campo
sociológico”, isto é, uma subdivisão no interior de um campo mais amplo. A sociologia
de Pierre Bourdieu (1983) contribui para uma compreensão deste processo,
principalmente sua análise do campo científico e sua obra (Bourdieu, 1983) na qual
aborda as características dos sociólogos, embora não trabalhe exatamente sua gênese
histórica.
O surgimento da sociologia fora do continente europeu é posterior, pois é
neste que o capitalismo surge inicialmente e se torna hegemônico. Nos países fora do
continente europeu em que ocorre um rápido processo de industrialização também há
um desenvolvimento da sociologia, embora peculiar e ligado às influências européias
(Cuin e Gresle, 1994).
Por fim, o desenvolvimento da sociologia nos países de capitalismo tardio
tende a ser tardio, embora, devido à influência cultural dos países industrializados,
possa se esboçar antes da concretização do processo de industrialização e sua
consolidação.
Assim, a partir dos estudos de Gorender (1978; 1990), podemos perceber
que a sociedade brasileira nasce sob o signo da escravidão. No período colonial, o Brasil
é um país que se fundamenta num modo de produção escravista. No entanto, o
escravismo brasileiro difere do escravismo antigo e a diferenciação se encontra no
caráter colonial do primeiro. O regime escravista colonial brasileiro estava intimamente
ligado ao processo colonizador europeu, mais especificamente português, e ao processo
que Marx (1988) denominou “acumulação primitiva de capital”.
As relações de produção, no Brasil, no período da expansão colonial e
acumulação primitiva de capital, eram escravistas. O escravismo brasileiro era mais
brutal que o existente no mundo antigo, pois o seu caráter colonial e sua ligação com o
processo de acumulação de capital na Europa, fazia dele uma máquina de sugar
excedente, e assim a super-exploração dos escravos negros se tornava sua máxima. Para
se ter apenas um exemplo, a média de vida dos escravos negros era mais baixa do que a
dos escravos da sociedade antiga. O regime colonial, em que pese o contato com os
países mais industrializados, não possuía um desenvolvimento científico e tecnológico
PEIXOTO, Maria Angélica. As raízes da sociologia brasileira. Estácio de Sá – Ciências 264
Humanas . Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO. VOL. 01, Nº 01, 261-
269, Dez. 2008 / Jun. 2009.

Sem dúvida, nesta sociedade faltavam as bases sociais da existência da


ciência sociológica. O processo de abolição da escravidão e a formação do mercado de
trabalho livre já convivem com os primeiros passos de industrialização no Brasil. As
primeiras indústrias vão surgindo no Brasil no final do século XIX. Este processo de
industrialização vai seguindo uma linha evolutiva de acumulação que permite um
desenvolvimento nacional em bases capitalistas. Juntamente com isto ocorrem mutações
políticas e sociais.
O tópico fundamental para nossa análise reside na industrialização tardia da<