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A violência na mídia: jornalismo descompromissado

Resumo
Trata-se de um estudo qualitativo sobre as matérias jornalísticas de jornais
populares quando tratam de eventos violentos ou criminais. Procura assim,
evidenciar aspectos nada virtuosos através dos quais, se pautam esses
meios midiáticos de massa no intento de “vender” a informaço e
conquistar a audi!ncia" por #ltimo, busca ainda arra$oar sobre os impactos
das matérias jornalísticas citadas, nas pessoas.
Introdução
% &rande e diverso o n#mero de peri'dicos populares no (rasil que
se destinam essencialmente a e)plorar notícias policiais.
*esi&no tais jornais de “populares” visto que, em ra$o do preço,
lin&ua&em e conte#do, se destinam a alcançar +s pessoas de camadas
sociais menos favorecidas, embora alcance os demais e)tratos sociais.
,utra característica dessas publicaç-es é o fato de terem nas notícias sobre
viol!ncia e a forma como as abordam e divul&am, seu &rande apelo.
.om o mesmo fim, so produ$idos os pro&ramas televisivos do
tipo “/undo co”. 0ob o prete)to de serem noticiários informativos de
seus telespectadores, tais pro&ramas se pautam quase que e)clusivamente
nas notícias sobre viol!ncia, fa$endo-o dentro de um estilo que denomino
um tanto quanto violento. 1 estraté&ia comercial e)p-e tais pro&ramas em
2orários onde, culturalmente, as famílias esto reunidas e assim, no início
da man2, no intervalo do almoço e no jantar, so “brindadas” com cenas e
notícias de viol!ncia que nos so passadas com eloq3!ncia inconseq3ente,
sem aborda&ens críticas responsáveis que a questo requer.
*essa percepço sur&e lo&o uma intri&ante questo4 se tais notícias,
na forma como so veiculadas, sejam nos jornais impressos ou nos
pro&ramas “/undo co” nos parecem to inadequados, por que mesmo
assim, os compramos e assistimos5
6sse me parece ser um em meio a tantos efeitos constatados a partir
da to propalada “espetaculari$aço” do jornalismo policial" resta claro, no
meu entendimento, que as notícias sobre viol!ncia, e)postas na
confi&uraço atual, banali$aram seu real sentido no entendimento das
pessoas.
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Violência: um sentido popular
, conceito e o entendimento de viol!ncia so mutantes e
din7micos, confi&urando-se de acordo com o tempo e a cultura reinante em
determinada época e lu&ar.
*entro até de um mesmo povo ou cultura, os e)tratos sociais vo
entender a viol!ncia de maneira diferenciada. 1 educaço familiar, o meio
social e urbano vo ser determinantes na maneira de lidar e perceber a
viol!ncia.
6mbora pareça um produto do nosso tempo, a viol!ncia esteve
presente em todas as épocas da evoluço social da 2umanidade. 1
percepço atual e assustadora que temos desse evento, em maior medida,
me parece ser outra conseq3!ncia da supere)posiço dos eventos
criminosos nos lares e ainda, a rapide$ com que os meios informativos nos
tra$em tais informaç-es, muitas ve$es ao vivo, em tempo real. 1o mesmo
tempo em que banali$am e conformam o sentido da viol!ncia, colocando-a
como “parte da paisa&em” cotidiana, também nos passam a impresso 8
equivocada - de que se trata de um evento novo, do nosso tempo.
*e maneira &eral, al&uns conceitos so reinantes sobre tal
fen9meno social. Para :oben2orst “Violência sugere...idéias de vigor,
potência e impulso”. Num segundo conceito, o mesmo Robenhost
preleciona que violência é “Uma fora brutal que rompe e ultrapassa um
determinado limite”.
Para (rec2t, ;<<;, “1 viol!ncia é o uso desejado da a&ressividade,
com fins destrutivos”. 1firma ainda, que a viol!ncia
“!eve ser entendida como produto e produtora de
deteriora"o das condi#es de vida social, como patologia
ou doena social que acaba de contaminar todo o tecido
social” =(rec2t, ;<<>?.
1 ,r&ani$aço /undial de 0a#de, @AAB, conceitua a viol!ncia
como
“$ uso intencional da fora f%sica ou do poder, real ou em
ameaa, contra si pr&prio, contra outra pessoa, ou contra
um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande
possibilidade de resultar em les"o, morte, dano psicol&gico,
deficiência de desenvolvimento ou priva"o”.
Co ima&inário da sociedade, o tema viol!ncia remete 8
predominantemente 8 ao sentido passado pelos noticiários e jornais
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policiais. *e forma que, quando se trata do tema viol!ncia, o senso comum
ima&ina cenas de roubos, 2omicídios, estupros e tráfico de dro&as. 1ssim,
entendo que a oferta demasiada de notícias e noticiários voltados para a
e)ploraço da viol!ncia criminal, somado a impactante e)ploraço das
cenas e detal2es mais c2ocantes dos eventos criminosos, limita o
discernimento das pessoas sobre a e)tenso da viol!ncia. D&noram assim,
as demais formas de viol!ncia que por no conceituar como tal, acaba
também por praticar. % o caso das bri&as de tr7nsito, a&ress-es domésticas,
a embria&u!s ao volante, o avanço sobre os pedestres na fai)a de travessia.
.omo conseq3!ncia ainda desse conceito limitado da viol!ncia,
observo também, a complac!ncia ou omisso da sociedade frente a modos
ou posturas que se mostram diferentes das práticas violentas admitidas e
ou convencionais, mas que também se constituem em viol!ncia. Cesse
sentido, so os crimes do colarin2o branco, a corrupço política, os crimes
ambientais, as 2omofobias, as discriminaç-es social, reli&iosa e de cor.
Dnstala-se, portanto, um estado de anomia nas relaç-es sociais, com
evidente corroso das boas práticas interpessoais, onde o padro de
comportamento passa a se nivelar por práticas violentas que so passadas
pela imprensa com contornos vul&ares e triviais.
A exploração das “manchetes policiais”
1s manc2etes dos jornais que e)ploram as notícias populares, em
especial, +quelas sobre a criminalidade, do bem a medida da falta de
qualidade e conte#do jornalístico descompromissado que levam ao
p#blico.
1 “ima&em de A;” é o “cabeçal2o” da pá&ina inicial do site do
Eornal /eia Fora, do 6stado do :io de Eaneiro. Dndependentemente das
notícias ou ima&ens que viro abai)o dele, o leitor já se depara com os
componentes de um conte)to de viol!ncia4 armas, projéteis, al&emas e o
&irofle) de uma viatura policial. *essa forma, confunde o ima&inário
popular, a&re&ando um esti&ma violento + polícia. 1 ima&em transmite
ainda, um aspecto distorcido das ferramentas policiais, evidenciando-as
como instrumentos de viol!ncia, quando na verdade so ferramentas de
prevenço e de proteço.
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Dma&em A;
Ca “ima&em A@”, o mesmo jornal, na verso impressa, entre outras
c2amadas, destaca a manc2ete principal “MAMAMA!ARAM " #A
#A#A#$I%&"”' Co cenário componente da ima&em observamos um
típico local de 2omicídio, com um corpo no c2o, policiais fa$endo o
isolamento e o perito fa$endo os e)ames de pra)e. 6sta cena é c2ocante e,
no mínimo, merece uma reporta&em jornalística séria e respeitosa, seno
pelos leitores, ao menos em consideraço aos familiares da vítima. Cum
e)emplo e)presso de anomia jornalística, o jornal fa$ 8 literalmente 8 uma
piada com a morte de um cidado, de um ser 2umano acima de tudo.
/anc2etes como esta falam por si e reiteram a afirmaço inicial de
que a supere)posiço da viol!ncia, veiculada com in&redientes bi$arros e
de espetaculari$aço, tem como efeito mais imediato, a banali$aço da
viol!ncia e o p7nico nas pessoas.
Dma&em A@
Co e)emplo se&uinte, no mesmo jornal, a “Dma&em AB” tra$ a
manc2ete “(")*+I,A- " I%.*!I+I,A ,A )"/0+IA: !*RR0V*/
+"%!RA ". MAR#I%AI.”. Go&o bai)o, vem a c2amada “+oronel )M
)aiva avisa: 1"s mar2inais são mos3uitos do mal' * o policial 4 um
saneador”'
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6m que pese + infeli$ declaraço do oficial da Polícia /ilitar, a
manc2ete do jornal reforça a ima&em 8 já consolidada, é verdade 8 de
“polícia que mata”. Tal manc2ete passa também a idéia de que a
“e)tinço” de “bandidos” pela polícia estar avali$ada, autori$ada e é
“normal” que assim aconteça. Por #ltimo, dissemina nos leitores um
desvio de entendimento do real papel social e constitucional das polícias
militares, ou seja, preservar vidas e no para tirá-las.
Dma&em AB
1 manc2ete se&uinte =Dma&em AH? publica que “1GIC, %
6JPIG0, P,: .1I01 *6 .FIG%”. Ca c2amada, o jornal escreve que
“/e revoltada di$ que a coisa vai feder pro lado da professora”.
% mais um e)emplo de uma questo séria que, pela aborda&em na
forma de pil2éria, o e)p-e como fato banal, admissível e corriqueiro. ,
tom de den#ncia que deveria ter acaba por se tornar despre$ível, uma ve$
que foca no c9mico, se é que o ocorrido apresenta tal viés.
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"s impactos da exposição da violência na mídia
/uito se discute - empírica e cientificamente - sobre os efeitos nas
pessoas da e)posiço de viol!ncia nas pro&ramaç-es televisivas e
jornalísticas.
Cessa discusso esto os ar&umentos de liberdade da imprensa e o
das pessoas fa$erem livremente a opço do que l2es é prejudicial ou no"
duelam também outras correntes que ale&am que a mídia apenas reflete o
comportamento social vi&ente, enquanto outras lecionam que no, que os
instrumentos midiáticos ditam comportamentos sociais.
1 *outora 5athie %jaine =@AAB? leciona que
Uma outra conseq'ência apontada na literatura, decorrente da
e(posi"o a longo pra)o * violência na tela, é a
dessensibili)a"o. +sse efeito se caracteri)a pela indiferena dos
indiv%duos quando a violência é dirigida a outros e h, atitude de
omiss"o em rela"o * v%tima. $utro fen-meno estudado é o da
intensifica"o do medo, por parte dos espectadores, de serem
v%timas da violência na vida real ./erbner et al., 01234. +sse
aspecto do medo foi observado nas pessoas e(postas a muitos
epis&dios de agress"o na 5V. +(pressa6se por meio de atitudes
autoprotetoras e nas formas desconfiadas de se relacionarem
com os outros. $s autores e(plicam que tais espectadores tendem
a igualar a violência na tela, incluindo a que é veiculada nos
tele7ornais, com a violência na vida real
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, médico cancerolo&ista e escritor *rau$io Karella =@A;A?
defendeu que
8eis das mais respeitadas associa#es médicas americanas .entre
as quais as de pediatria, psiquiatria, psicologia e a influente
9merican :edical 9ssociation4 publicaram, em ;<<0, um
relat&rio com a seguinte conclus"o sobre o assunto= >$s dados
apontam de forma impressionante para uma cone("o causal
entre a violência na m%dia e o comportamento agressivo de
certas crianas>.
Covamente Lat2ie Cjaine doutrina que
?enas de violência na fic"o, quando representadas dentro de
um conte(to e(plicativo, têm o poder de transmitir para os 7ovens
um modelo que n"o deve ser copiado. 9lguns estudantes
consideram que certos comportamentos de personagens da tv, no
entanto, geram conflitos em casa. +sta pesquisa constatou que
muitos valores que a m%dia transmite entram em choque com os
valores morais da fam%lia. @or e(emplo, o hor,rio para voltar
para casa * noite, determinado pelos pais, é questionado por
muitos adolescentes que vêem na fic"o uma permissividade
maior para os personagens da mesma idade.
1s citaç-es encerram com propriedade tal discusso, pois, resta
muito claro que a e)posiço de viol!ncia na mídia, seja na forma de
desen2os infantis ou jornais populares, tem efeito ne&ativo no
comportamento das pessoas" as d#vidas admissíveis, no caso, se limitam a
responder como se processam tais efeitos.
+onclusão
Por fim, conclui-se pela imperativa necessidade de se continuar a
questionar e debater, inclusive, cientificamente tal questo.
1 mídia 8 em toda sua e)tenso 8 e)erce sim, papel si&nificativo
no comportamento social. ,s jornais populares, até pelo seu alcance, tem
&rande potencial para contribuir preventivamente no combate a
criminalidade, no entanto, o que se observa é a e)ploraço desmedida e
sem critérios da “notícia policial”, que no af de noticiar e &an2ar mercado
incrementa o cenário já e)cessivamente violento.
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1 sociedade tem sua contribuiço na e)panso dos noticiários e
pro&ramas que e)ploram a viol!ncia, pois, os compra e “consome”.
:efer!ncias
K1:6GG1, *ráu$io. Kiol!ncia na TK e comportamento a&ressivo. 0ite
MMM.drau$iovarella.com.br . @A;A.
CE1DC6, Lat2ie. 0entidos da viol!ncia ou a viol!ncia sem sentido4 o
ol2ar dos adolescentes sobre a mídia. @AAN, :io de Eaneiro.
CE1DC6, Lat2ie 1 viol!ncia na mídia como tema da área da sa#de
p#blica4 reviso da literatura
*1CT10, Gurdes. 1 viol!ncia, um fato milenar. :evista 0uper
Dnteressante, p. @A,@AA;

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