Administração financeira em cooperativas

:
conjunção de aspectos econômicos e sociais.

A administração das finanças de uma cooperativa envolve questões que vão além da busca
pela rentabilidade e liquidez. Em sociedades de capital, esses elementos são de vital
importância para garantia do sucesso do empreendimento, bem como em cooperativas.
Entretanto, não basta que o negócio em si seja satisfatoriamente gerenciado, mas que seus
integrantes usufruam dos benefícios gerados.

Nesse sentido, o administrador financeiro, em uma sociedade de pessoas, deve, além de
garantir a sustentabilidade da organização, permitir que seus resultados possam,
efetivamente, gerar crescimento às unidades administrativas individuais representadas pelos
integrantes de seu quadro social.

Atendendo aos "clientes"

De acordo com o ramo da cooperativa, essa tarefa se torna ainda mais árdua. Nas de crédito,
por exemplo, as principais receitas geradas são oriundas de taxas cobradas dos próprios
associados, uma vez que, as mesmas não podem realizar operações de
empréstimos/financiamentos com terceiros.

Assim, cabe à administração estipular políticas de precificação de ativos de forma a beneficiar
seus "clientes" e, simultaneamente, garantir retornos adequados à estrutura de custos da
instituição.

Por um lado, deve-se cobrar taxas de juros que proporcionem vantagens aos associados, ou
seja, mais atrativas que as encontradas no mercado financeiro tradicional. Por outro, a
entidade necessita acumular capital para disponibilizar maiores volumes de crédito e melhorar
sua prestação de serviços.

Nas cooperativas de produção, embora os clientes não sejam, na prática da atividade
comercial, seus proprietários, o dilema é semelhante. O quanto deve ser retido pela instituição
para assegurar que o negócio progrida e o quanto deve ser repassado aos sócios? Gerar sobras
expressivas, que poderão ser distribuídas ou mantidas como capital próprio, ou cobrar taxas
apenas condizentes com a estrutura de custos?

Essas questões devem ser discutidas e a decisão a ser tomada passa pela análise dos
elementos essenciais que compõem as finanças de uma cooperativa. É lógico que esse tipo de
organização prima pela sua finalidade precípua de promoção do desenvolvimento econômico-
social de seus integrantes.

Contudo, esse desenvolvimento não é pura e simplesmente alcançado com o repasse integral
do resultado obtido. A própria prestação eficiente dos serviços disponibilizados pela
cooperativa é meio para se chegar a tal objetivo.

Preservando a sustentabilidade do negócio

Nesse contexto, o negócio cooperativo deve ter condições de se auto-sustentar e de, atuando
em mercados cada vez mais competitivos, enfrentar em condições satisfatórias seus mais
diversos concorrentes.

Aliás, a concorrência não prima pelos mesmos princípios que regem o sistema cooperativista.
Além disso, sua estrutura organizacional propicia maior agilidade no processo de decisão.

Tudo isso faz com que seja essencial às cooperativas o processo de acumulação de capital, ou
seja, que as mesmas possam fortalecer sua capacidade de investimento, sobretudo face às
dificuldades de capitalização enfrentadas e já comentadas nesse espaço.

É por isso que cabe ao administrador financeiro buscar formas alternativas de garantir o
desenvolvimento da instituição, em que pese o efeito adverso de, na visão de alguns, muitas
vezes contrariar os princípios básicos do cooperativismo tradicional.

Ressalto o "na visão de alguns", pois há controvérsias sobre essa questão. Enquanto a adoção
de práticas mais capitalistas no processo administrativo de uma cooperativa implica, de certa
forma, em medidas severas na transação com cooperados, esse tipo de postura pode ser
essencial para a sobrevivência da entidade.

Tratando os diferentes de forma diferente

Por exemplo, a diferenciação no pagamento aos associados por produtos com níveis de
qualidade distintos pode ser entendida, a princípio, como discriminação em uma organização
que prima pela prática democrática e igualitária.

Entretanto, tem como intuito garantir a colocação no mercado de produtos com elevado
padrão de aceitação e confiabilidade por parte de seus consumidores. Além do mais, serve
como estímulo para que os cooperados invistam, cada vez mais, na melhoria e eficiência de
seus negócios.

Nesse ponto é que a cooperativa deve atuar para permitir que todo o quadro social tenha as
mesmas condições de produzir bens com o nível de qualidade desejado. A assistência técnica,
entre outras alternativas, deve ser priorizada e colocada à disposição de todos pela instituição,
permitindo que o argumento da "discriminação" seja enfraquecido pelo oferecimento de
meios para evitar a diferenciação no momento do pagamento pelos produtos entregues.

Essa é a função das cooperativas, permitir que os seus associados possam se desenvolver
social e economicamente, e não praticar a distribuição de benefícios iguais àqueles que
contribuem de forma diferenciada para a competitividade do empreendimento.

Nesse contexto, as finanças devem ser geridas de forma a garantir a continuidade sustentada
do negócio cooperativo e, simultaneamente, contribuir para o crescimento dos negócios
individuais dos cooperados, pois eles formam, em sua essência, a base sócio-econômica da
instituição.

Enfim, o trabalho de administrar financeiramente esse tipo de sociedade de pessoas vai muito
além daquele praticado em outras formas de organização. O conhecimento do cooperativismo
e sua doutrina deve ser aliado à moderna gestão de valor para que os objetivos precípuos
sejam alcançados da melhor forma.

A busca pelo equilíbrio financeiro deve ser orientada tanto pelo caráter social desse tipo de
empreendimento quanto pela natureza econômica de suas atividades. Enquanto as
cooperativas privilegiarem um dentre esses dois aspectos, muitos ainda serão os entraves ao
seu desenvolvimento.

Logicamente, não é fácil conjugar essas duas características do cooperativismo no âmbito da
administração financeira, entretanto, é de vital importância que se leve em consideração os
vários elementos que as compõem.

Conclusão

Basear uma decisão de diferenciar ou não o pagamento por conta da qualidade do produto
entregue em argumentos que privilegiem essa ou aquela temática é fechar os olhos às
exigências de sobrevivência impostas pelo mercado ou não primar pelos preceitos enfatizados
pela teoria e doutrina cooperativistas.

Essa decisão deve ser embasada na realidade prática do mercado em que atua a organização
e, ao mesmo tempo, necessita ser acompanhada de medidas que permitam a todos os
associados buscar padrões de excelência.

Mas esse é apenas um exemplo da dificuldade no processo de administração financeira
enfrentada por um profissional ou pelo próprio corpo diretivo de uma cooperativa. Muitas
outras decisões deverão ser baseadas em princípios sociais e econômicos que regem esse tipo
de organização, sendo o equilíbrio entre os mesmos fator essencial para garantia do
desenvolvimento sustentado.

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