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Salmo 32(33)a

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 – Biblia Hebraica, Rudolf Kittel. Pars II, Lipsiae.
J.C.Hinrichs, 1906. pp. 930 e 931.
Salmo 32(33)
Hino à providência de Deusb
Por ele foram feitas todas as coisas (Jo 1,3)
–1 Ó justos, alegrai-vos no Senhor! *
Aos retos fica bem glorificá-lo.
–2 † Dai graças ao Senhor ao som da harpa, *
na lira de dez cordas celebrai-o!
–3 Cantai para o Senhor um canto novo, *
com arte sustentai a louvação!
–4 Pois reta é a palavra do Senhor, *
e tudo o que ele faz merece fé.
–5 Deus ama o direito e a justiça, *
transborda em toda a terra a sua graça.
–6 A palavra do Senhor criou os céus, *
e o sopro de seus lábios, as estrelas.
–7 Como num odre junta as águas do oceano, *
e mantém no seu limite as grandes águas.
–8 Adore ao Senhor a terra inteira, *
e o respeitem os que habitam o universo!
–9 Ele falou e toda a terra foi criada, *
ele ordenou e as coisas todas existiram.
–10 O Senhor desfaz os planos das nações *
e os projetos que os povos se propõem.
=11 Mas os desígnios do Senhor são para sempre, †
e os pensamentos que ele traz no coração, *
de geração em geração, vão perdurar.
–12 Feliz o povo cujo Deus é o Senhor, *
e a nação que escolheu por sua herança!
–13 Dos altos céus o Senhor olha e observa; *
ele se inclina para olhar todos os homens.
–14 Ele contempla do lugar onde reside *
e vê a todos os que habitam sobre a terra.
–15 Ele formou o coração de cada um *
e por todos os seus atos se interessa. –

b Ofício Divino: Renovado conforme o decreto do Concílio Vaticano II e Pro-


mulgado pelo Papa Paulo VI; Tradução para o Brasil da segunda Edição Típica.
Liturgia das Horas. Vol I. Tempo do Advento e Tempo do Natal, Vozes,
Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 1994. p. 649.
–16 Um rei não vence pela força do exército, *
nem o guerreiro escapará por seu vigor.
–17 Não são cavalos que garantem a vitória; *
ninguém se salvará por sua força.
–18 Mas o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, *
e que confiam esperando em seu amor,
–19 para da morte libertar as suas vidas *
e alimentá-los quando é tempo de penúria.
–20 No Senhor nós esperamos confiantes, *
porque ele é nosso auxílio e proteção!
–21 Por isso o nosso coração se alegra nele, *
seu santo nome é nossa única esperança.
–22 Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, *
da mesma forma que em vós nós esperamos!
Catequese do Papa João Paulo II
Audiência Geral,
(Salmo 32 – Quarta-feira, 8 de agosto de 2001)c
Hino à providência de Deus
1. Distribuído em 22 versículos, tantos quanto é o número de
letras do alfabeto hebraico, o Salmo 32 é um cântico de louvor ao
Senhor do universo e da história. Um frêmitod de alegria invade-o
desde as primeiras expressões: “Exultai, ó justos, no Senhor, aos
rectos de coração pertence o louvor. Louvai o Senhor com a cítara:
cantai-lhe salmos com a harpa decacordee. Cantai-lhe um cântico
novo, tocai os instrumentos com arte, entre orações” (vv.1-3). Por
conseguinte, esta aclamação (teru'ah)f é acompanhada pela música e
é expressão de uma voz interior de fé e de esperança, de felicidade e
de confiança. O cântico é “novo”, não só porque renova a certeza da
presença divina no âmbito da criação e das vicissitudes humanas,
mas também porque antecipa o louvor perfeito que se entoará no dia
da salvação definitiva, quando o Reino de Deus chegar à sua atuação
gloriosa.
É precisamente para a realização final em Cristo que olha São
Basílio, o qual explica este trecho da seguinte forma: “Ha-
bitualmente, chama-se 'novo' o que é inusitado ou o que acaba de
nascer. Se pensas no modo maravilhoso e superior a qualquer
imaginação da encarnação do Senhor, cantas necessariamente um
cântico novo e extraordinário. E se percorres com a mente a
regeneração e a renovação de toda a humanidade, envelhecida pelo
pecado, e anuncias os mistérios da ressurreição, também cantas um
cântico novo e extraordinário”g. Em síntese, segundo São Basílio o
convite do salmista que diz: “Cantai-lhe um cântico novo”, para os
crentes em Cristo significa: “Honrai a Deus, não segundo o antigo

c © Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana; site:


http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/2001/documents/hf_jp-
ii_aud_20010620_po.html
d Frêmito = som estrepitoso, ruído surdo; estrondo, bramido, estrugido
e Decacorde = dez cordas
f Teru'ah =
g São Basílio, Homilia sobre o Salmo 32, 2: PG 29, 327
costume da 'letra', mas na novidade do 'espírito'. De fato, quem não
compreende a Lei sob o aspecto exterior, e todavia reconhece o seu
'espírito', canta um 'cântico novo'”h.
2. No seu corpo central, o hino divide-se em três partes que se
compõem como uma trilogia de louvor. Na primeira (cf. vv. 6-9)
celebra-se a palavra criadora de Deus. A admirável arquitetura do
universo, semelhante a um templo cósmico, desabrochou e cresceu
não através de uma luta entre deuses, como sugeriam algumas
cosmogonias do antigo Próximo Oriente, mas apenas com base na
eficaz palavra divina. Precisamente como ensina a primeira página
do Gênesis (cf. Gn 1): “Deus disse... e tudo foi feito”. De facto, o
Salmista repete: “Porque Ele falou e as coisas existiram. Ele mandou
e as coisas subsistiram” (v. 9).
O orante reserva um relevo especial ao controle das águas do mar
porque, na Bíblia, elas são o sinal do caos e do mal. Apesar dos seus
limites, o mundo é contudo mantido no seu ser pelo Criador que,
como recorda o livro de Job, ordena que o mar se detenha no litoral:
“Chegarás até aqui, mas não irás mais além; aqui se quebrará o
orgulho das tuas ondas” (Job 38, 11).
3. O Senhor também é o soberano da história humana, como está
escrito na segunda parte do Salmo 32, nos versículos 10-15. Com uma
vigorosa antítese, opõem-se os projetos dos poderes terrenos e o
desígnio admirável que Deus está a traçar na história. Quando
querem ser alternativos, os programas humanos introduzem a
injustiça, o mal e a violência, pondo-se contra o projecto divino de
justiça e salvação. E apesar dos êxitos transitórios ou aparentes,
limitam-se a simples conjuras, que se destinam a dissolver-se e a
falir. No livro bíblico dos Provérbios declara-se sinteticamente: “Há
muitos projetos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor
que prevalece” (Pr 19, 21). De maneira análoga, o Salmista recorda-
nos que, do céu, sua habitação transcendente, Deus acompanha todos
os itinerários da humanidade, mesmo os que são insensatos e
absurdos, e intui todos os segredos do coração humano.
“Onde quer que tu vás, tudo o que tu realizas, quer nas trevas,

h São Basílio, Homilia sobre o Salmo 32, 2: PG 29, 327


quer à luz do dia, o olhar de Deus observa-te”, comenta São Basílioi.
Feliz será o povo que, acolhendo a revelação divina, seguir as suas
indicações de vida, percorrendo as suas veredas nos caminhos da
história. No final só permanece uma coisa: “Somente o plano do
Senhor subsiste para sempre, os desígnios do Seu coração, por todas
as idades” (v. 11).
4. A terceira e última parte do Salmo (cf. vv. 16-22) retoma de dois
pontos de vistas novos o tema do senhorio único de Deus sobre as
vicissitudes humanas. Em primeiro lugar, por parte dos poderosos,
convidados a não se iludirem no que se refere à força militar dos
exércitos e das cavalarias. Depois, por parte dos fiéis, muitas vezes
oprimidos, famintos e à beira da morte: são convidados a ter
esperança no Senhor que não os deixará precipitar no abismo da
destruição.
Revela-se, desta forma, também a função “catequética” deste
Salmo. Ele transforma-se num apelo à fé num Deus que não é
indiferente à arrogância dos poderosos e que está próximo das
debilidades da humanidade, elevando-a e apoiando-a se tem
esperança, se n'Ele confia, se a Ele eleva a súplica e o louvor.
“A humildade dos que servem a Deus explica ainda São Basílio
mostra que eles esperam na sua misericórdia. De facto, quem não
tem confiança nos seus grandes empreendimentos, nem espera ser
justificado pelas suas obras, tem como única esperança de salvação a
misericórdia de Deus”j.
5. O Salmo termina com uma antífona que foi inserida no final do
conhecido hino Te Deum: “Venha sobre nós, Senhor, o Vosso amor,
pois esperamos em Vós” (v. 22). Graça divina e esperança humana
encontram-se e abraçam-se. Aliás, a fidelidade amorosa de Deus
(segundo o valor da palavra hebraica original usada aqui, hésedk),
semelhante a um manto, envolve-nos, aquece-nos e protege-nos,
oferecendo-nos serenidade e dando um fundamento certo à nossa fé e
esperança.

i Homilia sobre o Salmo 32, 8: PG 29, 343


j Homilia sobre o Salmo 32, 10: PG 29, 347
k hésed =
HINO TE DEUM (A VÓS, Ó DEUS, LOUVAMOS)
Nos domingos, nos dias da oitava da Páscoa, nas solenidades e festas, depois da segunda leitura e seu
responsório, se diz o seguinte
hino:
A vós, ó Deus, louvamos, Sentastes à direita
a vós, Senhor, cantamos. de Deus, do Pai na glória.
A vós, Eterno Pai, Nós cremos que de novo
adora toda a terra. vireis como juiz.
A vós cantam os anjos, Portanto, vos pedimos:
os céus e seus poderes: salvai os vossos servos,
Sois Santo, Santo, Santo, que vós, Senhor, remistes
Senhor, Deus do universo! com sangue precioso.
Proclamam céus e terra Fazei-nos ser contados,
a vossa imensa glória. Senhor, vos suplicamos,
A vós celebra o coro em meio a vossos santos
glorioso dos Apóstolos, na vossa eterna glória.
Vos louva dos Profetas (A parte que se segue pode ser omitida, se for
oportuno).
a nobre multidão
e o luminoso exército Salvai o vosso povo.
dos vossos santos Mártires. Senhor, abençoai-o.
A vós por toda a terra Regei-nos e guardai-nos
proclama a Santa Igreja, até a vida eterna.
ó Pai onipotente, Senhor, em cada dia,
de imensa majestade, fiéis, vos bendizemos,
e adora juntamente louvamos vosso nome
o vosso Filho único, agora e pelos séculos.
Deus vivo e verdadeiro, Dignai-vos, neste dia,
e ao vosso Santo Espírito. guardar-nos do pecado.
Ó Cristo, Rei da glória, Senhor, tende piedade
do Pai eterno Filho, de nós, que a vós clamamos.
nascestes duma Virgem, Que desça sobre nós,
a fim de nos salvar. Senhor, a vossa graça,
Sofrendo vós a morte, porque em vós pusemos
da morte triunfastes, a nossa confiança.
abrindo aos que têm fé Fazei que eu, para sempre,
dos céus o reino eterno. não seja envergonhado:
Em vós, Senhor, confio,
sois vós minha esperança!

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