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Freud descreveu a neurose obsessiva num caso que ele apelidou como sendo do

“Homem dos Ratos” (1909). Esse pseudônimo surgiu da obsessão relatada pelo
paciente, que consistia num castigo físico em que o punido sentava-se sobre uma
cadeira de fundo falso, como numa caixa, que poderia ser aberto a qualquer momento.
No chão, presos num tipo de gaiola cuja única saída era o fundo da cadeira, estavam
alguns ratos. Com o prisioneiro sentado sobre o fundo falso, agora aberto, os ratos
entravam pelo seu ânus e faziam um caminho pelas vísceras dele. Na obsessão do
paciente, o castigo seria infligido contra seu pai (que, para o espanto de Freud, estava
morto há um bom tempo) e sua namorada, dependendo de circunstâncias pelas quais
seria responsável.
O paciente era um homem esclarecido, que passara por muitas terapias (sem
sucesso) até ler algumas obras de Freud e decidir procurá-lo. Já tendo conhecimento das
bases teóricas da psicanálise, ele dedica-se a contar sobre sua infância e suas
experiências sexuais. Freud percebe que o paciente sofre muito pela morte do pai, que
acredita ter sido sua culpa, especialmente porque ele chegou a desejar isso na infância:
pensava que, caso uma tragédia se abatesse sobre ele, receberia o afeto da menina de
quem gostava. Quando tinha sete anos, o homem passou a temer que seus pais ouvissem
seus pensamentos; este sentimento o acompanha desde então.
Ainda sobre o pai, o paciente se sentia culpado por não ter estado ao lado dele
em seu leito de morte. A recordação da negligência só veio a perturbá-lo dezoito meses
depois, quando o homem passou a tratar-se como criminoso. Ele chegou a ficar
impossibilitado de trabalhar devido a esta obsessão. A única coisa que lhe fazia
melhorar eram as palavras de um amigo tentando convencê-lo de que a autocensura era
infundada.
Freud explica ao paciente que, na verdade, não tentará convencê-lo de que sua
autocensura é errada. Um leigo, como seu amigo, diria que o afeto – a autocensura – é
exagerado para o caso e que, conseqüentemente, a inferência causada por ele – a
inferência de que o paciente é um criminoso – é falsa. O papel do analista seria dizer
exatamente o contrário: o afeto é justificado e o sentimento de culpa pertence a algum
outro contexto, que é desconhecido (inconsciente) e exige ser buscado.
Mas como poderia o paciente admitir que era um criminoso em relação à morte
de seu pai quando precisa saber, na verdade, que sequer houve um crime? Há aí uma
divisão (splitting) da personalidade do paciente. Ele teria de assimilar o contraste entre
o eu (self) moral e o eu (self) mau com o contraste entre, respectivamente, o consciente
e o inconsciente.
Freud diz, sobre os atos compulsivos:
“... em estádios sucessivos, quando o segundo neutraliza o primeiro, constituem uma
típica ocorrência nas neuroses obsessivas. Naturalmente a consciência do paciente
interpreta-os mal e formula um conjunto de motivações secundárias que os explica (...)
os racionaliza. Sua real significação, contudo, reside no fato de serem eles
representação de um conflito de força aproximadamente igual”