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Tradução Sandra Martha Dolinsky

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Introdução

Neste livro você poderá encontrar as crises mais frequentes que os casais atravessam. As crises são as mesmas no mundo todo. São normais e esperáveis. O importante é conseguir superá‑las e que não se transformem em paixões tóxicas. Paixão vem do latim e quer dizer “sofrimento”, uma emoção ligada a um apego a algo ou a alguém. Paixão nos faz pensar em algo intenso, forte, que deixa mar‑ cas, e Paixões Tóxicas são essas crises que, por ficarmos presos nelas, deixam uma marca em nossa história. Todas as pessoas vêm de famílias disfuncionais; por isso, não existe o casal ideal. O importante é ter os recursos internos e flexíveis necessários para buscar novas alternativas nos conflitos que tivermos e continuar crescendo. Este livro não substitui, de jeito nenhum, a psicoterapia. Um livro não muda a vida de ninguém, é apenas um gatilho para ava‑ liarmos como está nosso relacionamento afetivo e, assim, poder pedir ajuda quando for necessário. Dei palestras em vários países do mundo e selecionei, de to‑ das as crises que existem, as mais frequentes. O índice dos temas selecionados poderia seguir infinitamente, mas a frequência com que me apresentaram esses problemas deu origem à escolha dos assuntos a desenvolver aqui. Não pretendo ser original em nada. Todos nós passamos pela mesma coisa! Procurei, como em todos os meus livros, escrever, de maneira

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clara, prática, sobre temas que outros já aprofundaram, regis‑ trando minha experiência destes últimos vinte anos. Acredito que um casal pode “lutar” para seguir em frente e buscar todos os recursos que o ajudem a melhorar sua qualidade de vida. Todos temos, dentro de nós, os recursos para poder se‑ guir adiante apesar do que quer que tenha acontecido. No final deste livro, cito dezenas de autores que considero muito bons para aprofundar e repensar alguns temas. Espero que as ideias de Paixões tóxicas nos sirvam para continuar cres‑ cendo um pouco mais.

Bernardo Stamateas

CapíTulo 1

Superando as paixões das emoções explosivas

1. O que faço com esta raiva?

Ter problemas na relação conjugal é normal; anormal é não ter conflitos, porque estes fazem parte da vida. O conflito não é positivo nem negativo, depende de como cada um o encare. Nasce no casamento ou na família, porque somos todos seres individuais e diferentes e, por isso, vemos as coisas de manei ‑ ras diferentes. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos descobriu que os casais conversam dezessete minutos por semana, e uma se‑ mana tem 10.080 minutos. Os problemas pelos quais mais se costuma discutir podem ser vários: intimidade, família, relacionamento com pais, filhos, so‑ gros, problemas financeiros, ciúmes, disputas, falta de ajuda, falta de diálogo, conflito de papéis etc. Em sua relação conjugal, qual de todos esses é seu calcanhar de Aquiles? Existem casais que vivem o tempo todo brigando e discu‑ tindo como cães e gatos. Casais que apaixonadamente se mal‑ tratam ou discutem na frente dos outros para que as pessoas tomem partido e digam quem está certo ou errado. Pais que falam mal das mães a seus filhos e mães que falam mal dos pais a seus próprios filhos, envolvendo‑os em um pro‑ blema que eles mesmos é que têm de resolver.

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E sentir raiva também é normal, é bom. A raiva é uma emo‑ ção, uma energia contida dentro de nós que se expressa quando surge uma dificuldade. Por exemplo, os homens podem sentir muita raiva quando, mal chegando em casa e decidindo ver um pouco de televisão, sua parceira começa a lhe contar todas as dificuldades que teve durante o dia. Pois bem: está dentro desse homem a decisão do que fazer com sua raiva. Se a usará para explicar a sua parceira que precisa de cinco minutos para desestressar, ou para maltratá‑la com pa‑ lavras depreciativas. É por isso que, apesar de a raiva dentro da relação conjugal ser normal, precisamos aprender a lidar com ela. Para ter paz, devemos canalizar essa emoção. A raiva é sau‑ dável quando surge e desaparece, quando é expressa correta‑ mente. Tenha em mente que a raiva é uma emoção, mas a violência é uma conduta.

Pois bem, por que muitos casais se maltratam diariamente? Se tentar lembrar, com certeza não saberá desde quando esses maus‑tratos surgiram. Talvez o príncipe

que você conheceu tenha se transfor‑ mado em sapo, ou a princesa em rã… ou

uma pessoa que quer vingança guarda suas feridas abertas.

Sir Francis Bacon

você realmente não esperou o tempo ne‑ cessário para conhecer aquela pessoa com quem decidiu manter uma relação conjugal. Com o tempo, muitos casais transformam sua raiva em vin‑ gança. Porém essa atitude, ao contrário, nunca permitirá recu‑ perar ou curar a relação a dois. A raiva, muitas vezes, transforma‑se em “raiva apaixonada não

expressa”, “raiva guardada”, “ressentimento”, “rancor encapsulado”.

E tem a ver com a raiva silenciosa que muitas vezes engolimos e que cresce dentro de nós quando não a expressamos.

Conta uma história que, em uma oportunidade, um casal, assim que teve um filho, se separou. a mulher decidiu pôr atrás de seu ex‑marido quinhentos

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advogados para processá‑lo, e, devido a isso, o homem teve de pagar uma pensão de quinhentos pesos por mês. passaram‑se os anos e, no dia em que sua filha completou dezoito anos, o homem disse a sua ex‑mulher: “ouça bem: eu menti, porque paguei qui‑ nhentos pesos por mês, mas ganhei muito mais dinheiro e poderia ter pago 1.500 pesos. Mas, como hoje ela completa dezoito anos, não vou lhe dar mais dinheiro. Eu a enganei”. a mulher deixou passar uns minutos e disse: “Fique tranquilo, eu também o enganei, a menina nunca foi sua”.

“Vingança”… Casais nos quais, quando um dos integrantes diz não ao pedido do outro, este responde: tudo bem. Mas, na semana seguinte, é ele quem, diante de um pedido, dirá apaixo‑ nadamente, “por vingança”, que não.

Se em alguma oportunidade um dos dois chegar tarde e dis‑ ser “desculpe, eu me atrasei”, o outro dirá “não faz mal, está tudo bem”. Mas, no dia seguinte, chegará tarde, alimentando, assim, profundas vinganças inconscientes.

Muitos casais transformam a raiva em gritos e ameaças, desenvolvem uma

Quem se vinga depois da vitória é indigno de vencer.

Voltaire

grande “hemorragia verbal”; são homens e mulheres que pensam que, quanto mais gritarem com o outro, mais poder terão, se darão bem e a dificuldade será resolvida.

Casais que diariamente se maltratam, ou um de seus inte‑ grantes exerce os maus‑tratos sobre o outro.

um homem, no leito de morte, decide confessar a sua mulher que havia sido infiel, que a havia enganado com sua prima, com a vizinha, com sua melhor amiga; a mulher espera um segundo e diz: “tudo bem, eu também tenho de lhe confessar uma coisa: foi por isso que o envenenei”.

Vejamos, então, como funciona a raiva mal expressa dentro da relação conjugal e as características daquele que maltrata:

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  • Homens que vivem menosprezando a mulher com palavras que ma‑ chucam, cortantes: você é uma boba, não serve para nada, sem mim você não existe.

  • Mulheres que maltratam seus parceiros fazendo que se sintam insignifi‑ cantes, desvalorizando tudo o que fazem e ferindo sua masculinidade.

  • Homens e mulheres que não sabem perguntar. Diante de um assunto a resolver só afirmam: “foi você”, “você fez de propósito”.

  • pessoas que vivem interpretando: “você é um mentiroso”.

  • Casais que não sabem perguntar.

Porém, um casal saudável pergunta: Um amor apaixonada‑ mente tóxico interpreta e não dá lugar para o diálogo?

  • 2. Em vez de afirmar, perguntar!

Julgamos saber o que o outro pensa e sente, porém, muitas vezes, isso não é verdade. O mais conveniente é sempre pergun‑ tar. Não dê nada por certo. Homens e mulheres maltratam seu companheiro sem saber que, quando fazem isso com o outro, podem acontecer várias coisas. Por tudo isso, devemos compreender por que os maus‑ ‑tratos não servem:

  • 1. Colhe­‑se­ o que­ se­ planta. Se você tratar mal, colherá cem vezes mais maldade. Quando seu interesse é infernizar a vida de seu parceiro, sua colheita é ruim. Se pretende que seu parceiro o ouça e fale direito com você, primeiro deve agir assim. Lembre‑se da lei da semeadura.

  • 2. A pe­ssoa maltratada te­ntará se­ vingar. Quando você trata mal, semeia rancor no coração do ou‑ tro. Quando seu parceiro não é bem tratado, considerado, acumula ódio, rancor, raiva, e chegará o momento em que vai querer se vingar.

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Quando você trata mal, está ativando a vingança no outro.

  • 3. O outro vai que­re­r se­ afastar de­ sua vida. Há homens e mulheres que pedem ao outro que mude, mandam seu parceiro ao terapeuta, mas, na realidade, quem tem de mudar é a própria pessoa. Quando você maltrata dia após dia seu parceiro, perde credibilidade, confiança, res‑ peito. Ninguém quer ficar com alguém que maltrata o tempo todo. Todos nós temos um limite de paciência, e, quando se chega a ele, muitas vezes a relação já não tem volta.

A pessoa que maltrata exagera aquilo que considera ruim no outro, chegando a condená‑lo. Vejamos, então, por que esse ho‑ mem, ou essa mulher, se tornou violento. A pergunta que fazemos é: Por que explodo tão facilmente?

  • a. Falta de­ domínio: acredita no mito do liga e desliga. Acha que uma pessoa deve estar tranquila ou alterada. É oito ou oitenta. Existe raiva de luz verde, amarela e vermelha, que é quando está disposto a destruir o outro.

  • b. Eu fraco: o ferido fere. Uma pes‑ soa agressiva tem o eu tão fraco

Muito fraca é a razão se não compreende que há muitas coisas que a ultrapassam.

Blaise Pascal

que se sente ameaçada e sensível. Quando a pessoa tem o eu fraco, tudo a incomoda e não tem tolerância à frustração. Uma pessoa fraca é uma pes‑ soa rígida e insegura.

  • c. Falta de­ e­mpatia: é preciso saber se colocar no lugar do outro. Muitos casais discutem porque cada um acha que tem razão, e a razão não existe. Tudo o que nós, humanos, vemos, é construído com a mente.

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3. Valorizar‑se é o segredo

Todos nós temos gatilhos, pontos fracos, e eles são conhe‑ cidos pelo parceiro, seja o homem ou a mulher quem exerce os maus‑tratos. O parceiro conhece as partes mais vulneráveis do outro, e com certeza, a essa altura da crise, os maus‑tratos já se tornaram um hábito para esse casal, tanto para quem maltrata quanto para quem é maltratado. O que esse casal não consegue ver é que essa forma desafortunada de tratar um ao outro vai acabar lhes roubando a saúde, os sonhos e as forças. Hoje, os médicos falam das doenças psicossomáticas, ou seja, uma emoção de raiva, dor, tristeza, fica encapsulada no corpo e prejudica um órgão. Os maus‑tratos, a violência verbal contínua, a desvaloriza‑ ção, o menosprezo encapsulado vão diretamente para o corpo. Sabemos que muitas doenças graves são

“ativadas” no corpo por raiva não ex‑ pressa, guardada. Pessoas que enfartam por maltratar, gente que sofre de doenças

a chave do sucesso é o conhecimento do valor das coisas.

John Boyle O’Reilly

nos ossos, outros que padecem de pres‑ são alta ou baixa, ou de doenças causadas pelo desgaste emocio‑ nal que diariamente sofrem, seja homem ou mulher. Talvez você esteja se perguntando: o que eu fiz para merecer

esse parceiro? Há mulheres que dizem: “Por que sempre fico com os piores homens?”; “Por que, cada vez que namoro, escolho os homens mais infiéis… que maltratam?”; “Por que, cada vez que escolho uma mulher, é uma que só quer saber do sustento financeiro?”

E o fato é que, quando uma pessoa não se ama, sempre vai

escolher o pior para sua vida. Quando uma pessoa não se valoriza, vive frustrada e aceita os maus‑tratos do outro. Uma pessoa que não sabe se amar, se valorizar e se respeitar aceita os maus‑tratos do outro como algo normal. Porém, quando um homem ou uma mulher sabe o valor que tem, nunca vai tratar mal o outro, nem se tratará mal.

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Você precisa saber que, quando não valoriza a si mesmo, todo o mal vai ficar colado em você. O passado se tornará um eterno presente. Quando uma pessoa se desvaloriza, não somente fica colada ao mal, mas também permanece amarrada às coisas negativas do ontem. Eterniza frases que lhe disseram:

  • “Você não presta.”

  • “Não consegue.”

  • “Tome cuidado.”

  • “Não chore.”

  • “Não seja boba.”

  • “Não se mostre fraco.”

  • “Você é atrevido.”

  • “Incapaz.”

  • “Você é culpado pelo que acontece.”

  • “Você é desagradável.”

  • “É demais para você.”

  • “Você é rebelde.”

  • “Tem de cuidar de sua mãe.”

  • “Tem de cuidar de seus irmãos.”

  • “Cale a boca.”

  • “Folgado.”

Não se amar atrai o negativo, não se esforçar para ser respei‑ tado e respeitar o outro atrai os maus‑tratos. Existem casais que passam anos se maltratando, não se falam, não compartilham um diálogo nem à noite nem durante o dia. Seu casamento está se acabando, estão se

triturando e não fazem nada. Mas você, seja homem ou mulher, não foi criado para aceitar os maus‑tratos

amar a si mesmo é o começo de uma aventura que durará a vida toda.

Oscar Wilde

como uma coisa normal, como uma si‑ tuação cotidiana. Você precisa se revoltar com essa situação,

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esforçar‑se e sair dela. E, para isso, em primeiro lugar, é neces‑ sário que comece a amar a si mesmo.

Um casal saudável sabe que, quando os maus‑tratos se repetem diariamente, estes acabam se tornando um hábito.

4. Crescer é o segredo

Para não maltratar nem se deixar maltratar, é preciso se perguntar:

  • Como está minha vida a dois?

  • Como está minha vida sexual?

  • Como está minha vida social?

  • Como está minha vida em relação ao meu entorno?

  • Como está minha vida no trabalho?

  • Estou crescendo ou estou parado no meio de uma crise e não sei como seguir em frente?

Fazer perguntas a si mesmo é saudável e bom. Mas muito melhor é ouvir nossas respostas e, a partir daí, acionar as mu‑ danças necessárias para deixar as crises para trás, aprender com elas e tirar proveito delas. Para crescer e continuar avançando, precisamos conhecer e acionar princípios que realmente funcionam:

4.1 Se você não se cuida, ninguém vai cuidar de você.

É necessário que aprendamos a nos amar, a nos cuidar, a nos respeitar, a falar bem de nós mesmos, a confiar em nossa capa‑ cidade, a rir de nós mesmos quando erramos, a ter uma visão positiva de nossa vida. Quando fizer isso, os maus‑tratos não terão lugar em sua vida nem na de seu parceiro.

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Muitos casais conseguiram resolver os conflitos pelos quais es‑ tavam passando porque começaram, em primeiro lugar, a amar cada um a si mesmo e, depois, a respeitar, cuidar e valorizar o outro. Um casal saudável sempre vai encontrar um motivo para estar feliz. Decida a cada dia se respeitar e se tratar bem. Mike Mur‑ dock cita: “Tudo aquilo que respeitarmos se aproximará de nós”. Se respeitar sua esposa, ela vai se aproximar. Se respeitar seu ma‑ rido, ele vai se aproximar. Aquilo que você respeitar vai se aproximar de sua vida. Do contrário, aquilo que você maltratar se afastará.

4.2 A lei do respeito.

Temos de aprender a entrar em acordo com nosso parceiro, a decidir o que é melhor para ambos. Não o julgue, não o critique. Não fique vivendo na crise, não se acostume. Precisamos aprender a nos relacionarmos bem com o outro. Se você estiver de acordo com o bom, as coisas com certeza vão mudar. Quando trato bem o outro, o que estou mostrando é que sou uma mulher, um homem maduro emocional e espiritualmente. Uma pessoa que sabe tratar “o outro” é uma pessoa madura, que tem domínio de seu próprio ser e sabe controlar suas emoções. Um casal saudável sabe se tratar bem, não se maltrata. Tratar bem o outro não significa andar pela vida o tempo todo sorrindo, mas ser uma pessoa firme, que sabe impor limites, que não se deixa abusar e que, ao mesmo tempo, respeita aquele que está a seu lado. Tratar bem o outro é saber impor limites, mas com amor. Não se amarre aos maus‑tratos do outro; se há tempos está passando por uma situação assim, evite‑a, não responda aos maus‑tratos com mais maus‑tratos. Lembre que responder a um ignorante com ignorância nos faz ignorante também. Trate bem, mesmo quando o odiarem, abençoe. Quando aprender a tratar bem, estará exercendo autoridade sobre a dor e sobre a violência, e, consequentemente, ninguém vai machucá‑lo.

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Deixe tudo aquilo que o machuca. Quando a pessoa não se gosta, sempre escolhe o negativo para sua vida; quando uma pessoa não se respeita nem se valoriza sempre escolhe as coisas que a machucam, sempre escolhe o negativo.

4.3 “Não posso mudar ninguém!”

Nunca se preocupe com o problema do outro mais que ele próprio. Não dê conselhos diretivos. Muita gente acha que ajudar é

dizer ao outro o que deve fazer, e isso não é ajudar, é decidir pelo outro. Não queira mudar o outro; se a pessoa não quer mudar, não

o homem inteligente fala com autoridade quando dirige sua própria vida.

Platão

há modo de ninguém o ajudar.

Você nunca vai ajudar uma pessoa sen‑ tindo dó, vendo‑a como uma pobre vítima.

Você precisa se estender, ir um passo além, não ficar onde está hoje. Você pode mudar um pouco mais:

seu parceiro está melhorando, mas pode melhorar mais. Ouse, estenda‑se, saia da acomodação. Entre em acordo com seu parceiro e aposte na felicidade.

5. Cuide da atmosfera

Um casal que se respeita e aposta em si a cada dia sabe que para enriquecer o outro deve levar em conta a atmosfera na qual diariamente compartilham sua vida e suas emoções. O escritor John Gottman, em seu livro magistral Sete princípios para o casa‑ mento dar certo, descobriu que um dos elementos mais importan‑ tes é cuidar da atmosfera na vida a dois. 1 A que nos referimos quando falamos de atmosfera? Vamos ver…

1 GOTTMAN, J.; SILVER, N. Sete princípios para o casamento dar certo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

5.1 Cuidar da atmosfera

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Você pode viver o pior conflito, mas conseguir a melhor atmosfera. Podemos estar atravessando as piores circunstân‑ cias, mas sempre devemos cuidar da atmosfera; e mesmo que as circunstâncias sejam negativas, a atmosfera deve ser positiva.

Temos de aprender a cuidar da atmosfera.

O veneno não me matará se eu não o tomar. Quando apren‑ demos a evitar as críticas, fica muito mais fácil reverter qualquer situação na qual nosso parceiro se encontre. O mais importante em uma discussão é aprender a cuidar da atmosfera. Você pode estar com a razão, mas, se não cuidar da at‑ mosfera, não poderão chegar a um acordo. Como dizemos as coisas é muito mais importante que o que dizemos. Em geral, na vida a dois colocamos o foco no que dize‑ mos, e não no modo como o dizemos. Muitos homens e mulheres com certeza têm toda a razão no que estão defendendo perante o outro; porém não saber falar contamina toda a atmosfera e a predisposição do outro a ouvir e compreender a mensagem. Cuidar da atmosfera é:

  • Nunca agredir, rebaixar ou desqualificar seu cônjuge.

  • Nunca gritar.

  • Não falar à noite de problemas ou dificuldades.

  • Não falar quando o outro, ou você mesmo, está nervoso.

  • Não envolver ninguém em seu conflito, a menos que seja um profissio‑ nal que você escolheu para ajudá‑lo.

Mesmo que diga o que é certo, se for com a atmosfera er‑ rada, nunca chegará a um acordo, a uma mudança. O mais importante daquilo que você vai dizer a seu cônjuge é como vai falar.

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Cuidar da atmosfera é tentar entender o outro.

Quando ocorre uma discussão, ninguém tem razão. Nos conflitos conjugais ninguém tem razão, porque cada um vê as coisas de um ponto de vista. Por isso, geralmente quando um casal em crise consulta um profissional, um dos exercícios que os terapeutas costumam fa‑ zer é dar aos dois um livro para que eles possam dizer o que veem. A partir desse exato momento, gera‑se ali uma discussão, dado que cada um vê algo diferente. Cada integrante do casal vai se deter em um determinado ponto, e isso com base em sua his‑ tória de vida. É por isso que cada um deles verá algo diferente, e cada um deles, da sua perspectiva, terá razão. O homem, depois de trabalhar dez ou doze horas, a única coisa que quer fazer, quando chega em casa, é ver televisão, e tem razão. Quando a mulher chega do trabalho, não quer limpar a casa, atender a todos, preparar o jantar, e tem razão.

Não existe a verdade no casamento; nos conflitos, todos temos razão.

Tem razão essa mulher que passa o dia todo com as crianças e só o que quer é sair de casa porque está cansada. Tem razão o homem que chega cansado do trabalho; essa mulher que chega cansada da faculdade, ambos têm razão. Todos temos razão.

A questão é se entender, não tentar ganhar. Se a única coisa que você tem na cabeça é querer ganhar, não garanto que vá conseguir resolver o conflito. Aprendemos o conceito falso de que alguém tem razão e de que alguém está errado – o modelo de que alguém ganha e alguém perde. Em um casal a coisa é a dois: ou fracassam os dois ou ga‑ nham os dois. Por isso é “conjugal”; é um jugo igual.

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No casamento ou na vida a dois não existe “um fracassado” e um que “não fracassou”; não existe um que tem razão e outro que está errado. Os dois precisam se fazer entender e cuidar da atmosfera; cuidar de como se falam as coisas.

A palavra dita como convém abre portas.

Cuidar da atmosfera é buscar soluções. Existem pessoas que trazem um problema para discuti‑lo; mas outras trazem soluções.

Todos os casais têm suas crises. Não espere que o outro adivi‑ nhe o que você tem; fale, diga. Mas, quando for falar do que o in‑ comoda em seus filhos, em seu marido, em sua esposa, antes pense em soluções; porque você foi dotado de uma mente criativa. Na vida a dois é normal ter problemas, mas, quando se sabe buscar soluções, tudo é possível. Gandhi dizia: “Não procure fazer seus oponentes se ajoelharem, e sim faça‑os entender”.

E, por último, para receber o melhor do outro, devemos fa‑ lar em paz. Nunca fale quando estiver nervoso. Se o outro está nervoso, vá embora, mantenha a paz. Quando seu parceiro estiver nervoso, não agrida. Se estiver zangado, estará incapacitado para resolver a situação que está atravessando. Man‑ tenha a paz. A paz é uma arma de guerra.

5.2 Rir um pouco mais

Edward de Bono, uma pessoa muito

Não podemos resolver problemas pensando da mesma maneira que quando os criamos.

Albert Einstein

criativa, diz: “O humor é a atividade mais importante e característica de nosso cé‑ rebro humano”. E talvez você diga: “Tenho dificuldade de rir”. O escritor David Niven, em seu livro Os 100 segredos dos bons relacionamentos, encontrou, como resultado de uma pesquisa, que “duas pessoas que formam um casal, com bom senso de hu‑

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mor, apresentam 77% menos de conflito que os casais que não têm bom humor”.

  • para se dar bem na família, você precisa rir um pouquinho mais.

  • Nove de cada dez casais felizes durante muitos anos relacionaram sua felicidade com o cotidiano e com o humor no dia a dia.

  • o humor ativa a amizade com seu parceiro.

  • Casais com mais de trinta anos de casados disseram que o fator de sucesso número um para eles foi a amizade.

  • o humor relaxa, une, diverte. 1

2

Precisamos aprender a rir e a aproveitar a vida com nosso parceiro.

A capacidade para ser feliz, para aproveitar a vida, está dentro de nós. O fato é que, muitas vezes, por diversas circunstâncias que atravessamos, sentimos que já não podemos aproveitar nem nos divertir mais; porém a natureza pro‑

funda de nosso ser é gozo, paixão e vida. Só você, e ninguém mais que você, é

a capacidade de rir juntos é o amor. Françoise Sagan
a capacidade de rir
juntos é o amor.
Françoise Sagan

dono de suas emoções; só você tem o con‑ trole remoto. A cada dia, a cada manhã, somos nós quem decidi‑ mos como vamos nos sentir e como vamos tratar o outro. Essa capacidade está dentro de nós. Aprenda a rir, solte‑se um pouco mais e aproveite seu par‑ ceiro, um café da manhã, um jantar, uma caminhada… Invista no outro, usufrua. Temos de aprender a desfrutar; tudo aquilo que você conseguir – inclusive o amor –, se não o desfrutar, acabará perdendo‑o. Desfrute seu parceiro. Invista tempo, vontade, paixão, dê vida a seu relacionamento.

1

NIVEN, D., Ph. D., Os 100 segredos dos bons relacionamento. Rio de Janeiro: Sex‑ tante, 2003.

2

5.3 Ativar a criatividade

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Atualmente, a maioria dos casais atravessa crises, e a per‑ gunta que nos fazemos é: o relacionamento conjugal está em decadência? Mas a resposta é Não! E o diagnóstico é: “burocracia conjugal” – o problema é falta de criatividade. Alguns casais andam mal porque falta criatividade. Quantos homens e mulheres entediados conhecemos? Tédio, desânimo, falta de vontade, apatia, ostracismo, fastio, bocejo, cansaço; é fazer sempre a mesma coisa da mesma ma‑ neira; é a falta do novo. Por isso, descubra o que o outro está esperando que você faça e faça‑o. Mime‑o, leve‑o em conta, faça‑o saber que é importante.

o livro Como ter novas ideas, 3 de um dos maiores criativos americanos, Jack Foster, conta que teve a ideia de fazer umas capas para umas facas, e comentou‑a com seus alunos, dando‑lhes um dia para que criassem uma capa nova. No dia seguinte, os alunos não haviam conseguido criar nada. Esse homem fez esse mesmo exercício durante quatro anos seguidos. Da última vez, disse: “vocês têm meia hora, e nesse tempo vão me trazer dez capas diferentes que vocês tenham inventado”. para surpresa do professor – conta Jack Foster em seu livro –, surgiram 25 modelos diferentes. Com isso, chegamos à conclusão de que, quando pensamos que um pro‑ blema tem uma solução, ficamos bloqueados; mas quando você descobre que seu problema tem dezenas de soluções, muito mais que uma ideia vai surgir para renovar sua vida conjugal.

Você se lembra de quando estava apaixonado? Seu relacio‑ namento pode crescer, basta um pouquinho de criatividade. Por isso, quando saímos de férias ou fazemos algo pequeno diferente, sentimos que podemos voltar a nos dar uma oportunidade, que nem tudo está perdido.

3 FOSTER, J. Como ter novas ideias. São Paulo: Futura, 1997.

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6. Como dizemos as coisas?

Vivemos em uma cultura violenta, na qual os episódios de violência estão aumentando dia a dia. A violência verbal, os maus‑tratos, a irritabilidade é comum nestes tempos, desde que nos levantamos; mas não só na rua ou no trabalho. Muitas vezes, dentro da própria família ou nos casais. Casais apaixonadamente tóxicos para quem o valor de cada palavra é igual a uma granada ou uma bomba. Níveis extre ‑ mamente altos de agressão. Conflitos não sanados que afetam diariamente sua personalidade, amarguram sua vida, tornam‑ ‑no violento e não lhe permitem desfrutar nada: nem a vida, nem seu parceiro. Hoje, sabemos o poder que as palavras têm. O poder da vida e da morte está na boca. As palavras podem levantar, matar, cons‑ truir ou destruir. O maior poder que os seres humanos têm está no falar, na boca. Maus‑tratos verbais, homens que dizem a sua mulher: “Meu Deus, você está um trapo, como engordou!”. Ou dizem: “Você é advo‑ gada e não sabe do que estou falando? Para que estudou tanto?”. São pessoas cujas palavras são como balas; ferem diretamente sua autoestima, porque seu objetivo é “fazer que você se sinta mal”. Homens e mulheres que arremessam uma palavra negativa atrás da outra. Você diz: “Arranjei um emprego”. “Sim”, respon‑ dem, “mas vai perdê‑lo com a crise mundial”. Devemos ter cuidado com nossas palavras e, quanto mais im‑ portante for a conversa, mais tempo devemos levar para prepará‑la, para pensar “o quê”, “como”, “quando” falar, no momento apro‑ priado. “Use as palavras com sabedoria.” Há pessoas que falam o correto, mas a maneira como dizem invalida tudo. Salomão dizia: “como maçã de ouro em salva de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”. O sábio usa as palavras corretas para resolver os conflitos. Procurar, ganhar, investigar, resolver, negociar.

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Comece a ativar bons desejos para sua própria vida, não só para sua vida conjugal. Tenha sonhos próprios, projetos. Reassuma o con‑ trole de sua vida. Ninguém pode ter o controle de suas emoções, ex‑ ceto você mesmo. Ninguém pode torná‑lo

negativo, exceto você mesmo. Quando uma pessoa confia em si mesma, ama‑se e se

a palavra, uma vez falada, voa e não volta.

Quinto Horacio Flaco

respeita, não deixa que ninguém o dimi‑ nua. Você precisa saber que, antes de amar o outro, deve amar a si mesmo. Você é uma criação valiosa. Você é um ser único. Ninguém tem direito de maltratá‑lo. Não permita.

Seja criativo. Um casal saudável sabe que a criatividade é uma decisão.

Quer que as coisas andem bem em sua casa? Cuide da at‑ mosfera, cuide do modo como diz as coisas; você pode dizer tudo o que quiser, mas a palavra dita como convém traz solução

e paz. Não entre no jogo de ver quem ganha ou quem perde, porque em uma relação conjugal ganham os dois ou perdem os dois. Procure se fazer entender e entenda

que ninguém é dono da verdade; cada

a suave resposta acalma a ira.

Salomão

um vê uma parte da verdade. Muitos casamentos acabam destruídos porque a pessoa luta a vida toda e quer conquistar a medalha do mais forte. Temos de decidir ser criativos. Acredite no poder do amor. O amor é um motor poderoso para conseguir coisas.