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Partido Comunista Brasileiro


N° 137 – 23.12.2009

Democracia sem povo Crescimento de 2010 virá


Elite dirigente em Cascavel do consumo e estrangeiros
ignora debate e quer aval vão lucrar como nunca
automático a seus projetos
O déficit em conta corrente começou a disparar.
Isso bem do aumento das importações, das
remessas de lucros e dividendos para o exterior
e também do crescimento dos gastos de
brasileiros em viagens internacionais, transportes
e aluguel de equipamentos.
O Banco Central estima um déficit em conta
corrente para este ano de US$ 22 bilhões e, para
2010, de US$ $ 40 bilhões.
Trabalhador não conta

O anteprojeto de lei 263, enviado pela


Prefeitura à Câmara, propõe criar o Prodec
(Programa de Desenvolvimento Econômico
de Cascavel). No apagar das luzes do ano,
a proposta foi encaminhada com um estranho
pedido de urgência. Corretamente, a Comissão
de Economia, Finanças e Orçamento
desconfiou dessa pressa toda. E com toda a
razão: além de ter sido engendrado apenas
nos gabinetes do poder e dos “empresários”, Henrique Meirelles, comandante da economia
não teve a menor participação popular. nacional e representante dos banqueiros, é o
Mesmo sendo um projeto elitista, a Prefeitura candidato preferido de Lula a vice-presidente
sequer enviou aos vereadores informações As autoridades econômicas, repetindo o mesmo
elementares sobre a proposta. Por que ocultar erro dos governos anteriores, confiam que os
até dos vereadores, majoritariamente resultados negativos na conta corrente serão
“fechados” com o prefeito, detalhes sobre cobertos pelos investimentos estrangeiros diretos,
a realização prática do programa? sob a alegação de que vão para o setor produtivo
O prefeito Bueno repete os erros da primeira no País.
gestão: elege
elege-
ge-se em campanha populista mas Nenhum país que dependeu de poupança externa
dá as costas ao povo na hora de administrar. para cresceu de forma soberana. Só países que
Quer uma
uma administração sem povo e uma utilizaram poupança própria prosperaram. O
Economia em que o trabalhador é só objeto Brasil, para tapar o buraco, está entregando seu
e não precisa ser consultado. mercado interno às transnacionais. Daí a
disparada na remessa de lucros para o exterior.

Lembre-se: em Cascavel,
nós somos a Revolução!
Prefeito e vereador,
não tirem o couro
do trabalhador

Abaixo o tarifaço!
Passe Livre e tarifa mais baixa:
Lotação é direito
Lotação é serviço público

Crise mundial:
As garantias de direitos
sociais e o capitalismo

Jorge Luiz Souto Maior*


Nos últimos meses, grandes custos sociais arcados pelos trabalhadores, alvos de demissões em
massa e da flexibilização dos direitos trabalhistas, são justificados para sanar a perda de lucro e do
poder concorrencial de empresas. É justo a sociedade pagar a conta para salvar o sistema?

Muito se tem dito sobre a crise econômica e suas possíveis repercussões na realidade
social brasileira. À esta altura, uma abordagem crítica mais contundente é necessária
por causa da constatação de que muitos se valem da crise como mero argumento para
continuar jogando o jogo da vantagem a qualquer custo, desvinculando-se de
qualquer projeto de sociedade mais democrática.

Para iniciar essa análise, devemos lembrar que a crise é nossa velha conhecida. Ela
esteve presente em quase todos os momentos de nossa história. Em termos de
relações de trabalho, o argumento da “crise econômica”, como forma de justificar
uma reiterada reivindicação de redução das garantias jurídicas de natureza social
(direitos trabalhistas e previdenciários), acompanha o debate trabalhista desde
sempre. Se alguém disser que “agora, no entanto, é pra valer”, deve assumir que antes
era tudo uma grande mentira... E, se assim for dito, que força moral se terá para fazer
acreditar no argumento da crise atual?
Não se pode olvidar também que, mesmo quando o Brasil vivenciou, de
1964 a 1973, o que se convencionou chamar de “milagre brasileiro”, o crescimento
econômico foi obtido às custas do empobrecimento da maioria da população, já que
uma de suas características era a concentração de renda. Em 1970, os 50% mais
pobres da população ficavam com apenas 13,1% da renda total e os mais ricos (1%
da população) embolsavam 17,8%” [1].

No começo da presente crise pouco se falou na relevância da diminuição do valor do


trabalho. A partir de outubro de 2008, iniciou-se um movimento organizado para
requerer uma flexibilização das leis trabalhistas do país como forma de combater a
crise financeira. Empresas começaram a anunciar dispensas coletivas de
trabalhadores, criando um clima de pânico para, em seguida, pressionar sindicatos a
cederem quanto às suas reivindicações e buscar junto ao governo a concessão de
benefícios fiscais.

Entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009, as vendas do varejo nacional acumularam


alta de 8,7%.

Essa corrida que passa por cima dos direitos trabalhistas é totalmente injustificável
por, pelo menos, três motivos.

Primeiro, porque o custo do trabalho não está na origem da crise econômica como
atestam as últimas análises. Nada autoriza a dizer que a sua redução seja fator
determinante para que a crise seja suplantada.

Segundo, porque já se pode verificar o quanto se apresentou precipitada e oportunista


tal atitude. Em fevereiro de 2009, um aumento do nível de emprego formal foi
registrado sobretudo nos setores de serviços, construção civil, agricultura e
administração pública [2]. A própria Companhia Vale do Rio Doce iniciou esse
movimento irresponsável, quando anunciou dispensas coletivas de trabalhadores. No
entanto, no quarto trimestre de 2008 obteve um lucro líquido de R$10,449 bilhões,
que representa um aumento de 136,8% em relação ao mesmo período do ano anterior,
quando o lucro líquido foi de R$ 4,411 bilhões. A Bovespa, em março, acusou alta de
11% [3]. Em maio, já apresenta alta acumulada de 36,87% desde o início de 2009 [4].
A venda de automóveis, em razão da redução do IPI, sofreu um aumento de 11% [5].
As vendas do comércio varejista subiram 1,4% em janeiro com relação a dezembro
do ano passado, segundo noticiou o IBGE. Entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009,
as vendas do varejo nacional acumularam alta de 8,7%.

A Embraer dispensou 4,2 mil empregados. Ela é investigada pelo Ministério do


Trabalho acusada de ter fornecido bônus de R$50 milhões a 12 diretores e de ter
efetuado a contratação de 200 empregados terceirizados. Os fatos são negados pela
empresa. O incontestável é que ela encerrou o primeiro trimestre de 2009 com lucro
líquido de R$ 38,3 milhões e receita líquida de R$ 2,667 bilhões [6].

A forma oportunista como algumas empresas se posicionam diante da


crise atual, desconsiderando o interesse de toda a comunidade, deve ser
questionada

Em terceiro lugar, mesmo que a crise fosse o que se apresentava, é grave a ausência
de uma compreensão histórica revelada pelo desprezo aos direitos trabalhistas. Ora,
os argumentos de dificuldade econômica das empresas foram uma constante no
período de formação da Revolução Industrial e se reproduziram por mais de cem anos
até que, em 1914, sem qualquer possibilidade concreta de elaboração de um novo
arranjo social, o mundo capitalista entrou em colapso.

À época, eram feitas alegações de que as empresas seriam obrigadas a fechar se


fossem obrigadas a dar aumento de salário ou estabelecer melhores condições aos
trabalhadores e de que seria melhor um trabalho qualquer a nenhum. Dizia-se ainda
que seria preciso primeiro propiciar o sucesso econômico das empresas de forma
sólida para somente depois pensar em uma possível e progressiva distribuição da
riqueza produzida e que a livre iniciativa não poderia ser obstada pela interferência
do Estado. Acreditava-se também que era mais saudável para as crianças de cinco a
dez anos se dedicarem à disciplina do trabalho durante oito ou mais horas por dia do
que ficarem nas ruas desocupadas.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, com a criação da Organização


Internacional do Trabalho (OIT), reconheceu-se que “havendo condições de trabalho
que impliquem para um grande número de pessoas a injustiça, a miséria e privações,
gera um tal descontentamento que a paz e harmonia universal são postas em
perigo...” [7]. A organização ainda enfatiza que “uma paz universal e durável só pode
ser fundada sobre a base da justiça social”.

A forma oportunista como algumas empresas se posicionam diante da crise atual,


desconsiderando o interesse de toda a comunidade, acuando sindicatos a fim de
auferir a redução de direitos trabalhistas e pressionando o Estado para recebimento de
incentivos fiscais, deve ser questionada, porque abala consideravelmente a crença na
formação de uma sociedade capitalista desenvolvida a partir de um pacto de
solidariedade.

Ora, muitas empresas “modernas” falam de sua responsabilidade social, do seu dever
de cuidar do meio ambiente, de ajudar pobres e necessitados, mas quando se veem
diante de uma possível redução de seus lucros, não têm o menor escrúpulo de
defender abertamente o seu direito de conduzir trabalhadores ao desemprego sem lhes
apresentar uma justifica plausível.

Num contexto internacional, cumpre denunciar a postura de algumas


multinacionais que pregam aos países “periféricos” um código de conduta, baseado
na precarização das condições de trabalho para favorecer a manutenção dos ganhos
que direcionam para o financiamento dos custos sociais em seus países de origem.
Esse mecanismo é fator decisivo para eliminar qualquer espírito de solidariedade
proletária em nível internacional.

O debate deve extrapolar o conflito entre trabalhadores e empresa e atingir o


espectro mais amplo do arranjo socioeconômico.

É hora de tirar as máscaras, de se apresentarem os fatos como eles são, pois, do


contrário, continuaremos sendo ludibriados por debates propositalmente pautados
fora da discussão necessária, que nos leva à seguinte questão: O capitalismo tem
jeito? Se a crise é do modelo capitalista não se pode deixá-lo fora da discussão.

O capitalismo se baseia na concorrência. Se o primeiro é desregrado,


consequentemente, o segundo não encontra limites. A obtenção de lucro impulsiona a
ação na busca de um lucro sempre maior. Os investimentos especulativos, por
trazerem lucros fáceis, são naturalmente insaciáveis.

Em um mundo marcado pelo avanço tecnológico, as repercussões especulativas e os


lucros pela produção se concretizam muito rapidamente. Não há tempo para reflexão
e, até mesmo, para elaborar projetos a longo prazo. Assim, os riscos são
potencializados e a sociedade tende ao colapso sobretudo pela perda de valores éticos
e morais, afinal, não é só de sucesso econômico que se move a humanidade. É
conveniente registrar que só a satisfação espiritual não basta, pois sem justiça social
não há sociedade democrática.

Estas são reflexões necessárias para o presente momento. Não é mais possível apenas
tentar salvar os ganhos dos trabalhadores diante das investidas de alguns segmentos
empresariais. O debate deve extrapolar o conflito entre trabalhadores e empresa e
atingir o espectro mais amplo do arranjo socioeconômico. Neste prisma, se os
preceitos do Direito Social são entendidos como empecilhos ao desenvolvimento
econômico por gerarem um custo que obsta a necessária inserção na concorrência
internacional, a questão não se resolve simplesmente acatando a redução das
garantias sociais.

Diante de uma constatação dessa ordem, então, será preciso reconhecer a inutilidade
do Direito Social para a concretização da tarefa a que se propôs realizar, isto é, a de
humanizar o capitalismo e de permitir que se produza justiça social dentro desse
modelo de sociedade. Em seguida, será necessário assumir a inevitabilidade do
caráter autodestrutivo do capitalismo, inviável como projeto de sociedade, uma
vez que a desregulação pura e simples do mercado já deu mostras de ser incapaz de
desenvolver a sociedade em bases sustentáveis. A prova disso é a própria crise
econômica, realidade já vivenciada em outros países.

Duas são as alternativas que se apresentam para o momento e que devem ser tomadas
com urgência:

a) ou fazer valer de forma eficaz, irredutível e inderrogável os direitos sociais,


preservando a dignidade humana e, ao mesmo tempo, mantendo a esperança da
efetivação de um capitalismo socialmente responsável. Isso exige uma série de
medidas:

Os trabalhadores não devem pagar a conta em tempos de crise;

Uma “ética nos negócios” deve ser implantada, baseada no respeito à dignidade da
pessoa humana, na democratização da empresa (permitindo co-gestão por parte dos
trabalhadores, além de participação popular e institucional) e em uma distribuição
real de lucros e na formulação de projetos a longo prazo;

Não aceitação da terceirização de trabalhadores, que transforma pessoas em coisas


de comércio;

Não transformar homens em Pessoas Jurídicas para se servir de seus serviços


pessoais de forma não-eventual;

Não se valer de cooperativas, de contratos de estágio e de outras formas de trabalho


com o objetivo de fraudar a aplicação da legislação trabalhista;

Não impulsionar um sistema cruel de rotatividade da mão-de-obra;

Não assediar moralmente os trabalhadores sobretudo mediante a ameaça do


desemprego;

Não utilizar mecanismos de subcontratação, transferindo para empresas


descapitalizadas parte de sua produção, pois isso abala a efetividade dos direitos dos
trabalhadores;

Não institucionalizar um sistema de banco de horas com o único propósito de


prorrogar a obrigação quanto ao efetivo pago às horas extras com o adicional
constitucionalmente previsto;

Não deixar de cumprir obrigações legalmente previstas, com a intenção de forjar


acordos perante a Justiça do Trabalho com quitação de todos os direitos. Neste item,
cabe mencionar o registro da CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) do
trabalhador, a dinâmica de horas extras e o seu pagamento, a preocupação com o
desenvolvimento sustentável etc

Nesta primeira alternativa, que considera a viabilidade do capitalismo,


a solução dos problemas da crise não se resume à cômoda aceitação da intervenção
do Estado na lógica de mercado. É preciso que o sentido ético se insira na ordem
produtiva. Por exemplo, não servem as iniciativas de incentivo à produção ou à
construção civil, se os produtos e obras se realizarem por intermédio de mecanismos
de supressão dos direitos dos trabalhadores. Além de isso significar um desrespeito à
ordem jurídica, representa também uma forma de agressão ao ser humano, quebrando
toda possibilidade de pacto social. Para implementação desse projeto, já inscrito na
Constituição brasileira, exercem papel decisivo a parcela consciente do empresariado
nacional, além do Estado e do mercado consumidor por meio de uma atitude à base
de sanções e prêmios.

b) ou iniciar a elaboração de um projeto de outro modelo de sociedade a partir dos


postulados socialistas de divisão igualitária dos bens de produção e da riqueza
auferida. Afinal, se dentro da lógica capitalista não for viável concretizar os preceitos
supra, relativos aos direitos humanos inderrogáveis e previstos em declarações,
tratados internacionais e em nossa própria Constituição, por que continuar seguindo
esse modelo que reduz as garantias sociais, aprofundando as desigualdades e o
retrocesso no nível da condição humana?

[1] Rubens Vaz da Costa, apud, José Jobson de A. Arruda & Nelson Piletti, Toda a
História: história geral e história do Brasil, Ed. Ática, 2002, p. 436.

[2] Cf. http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u536582.shtml.

[3] Cf. reportagem da Folha de São Paulo, p. B-3, de 24/03/09.

[4] http://eptv.globo.com/economia/economia_interna.aspx?257170

[5] Cf. noticia a rádio CBN:


http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/economia/2009/03/13/COM-ALTA-DE-
11-VENDA-DE-VEICULOS-PUXA-EXPANSAO-DO-COMERCIO-EM-
JANEIRO.htm.
[6]
http://ultimosegundo.ig.com.br/economia/2009/04/30/embraer+encerra+trimestre+co
m+lucro+liquido+menor+de+r+383+mi+5856931.html

[7] Preâmbulo da Constituição da OIT

–––––––––––––––––––––––––––
* Jorge Luiz Souto Maior – Juiz do trabalho, titular da 3ª. Vara do
Trabalho de Jundiaí e professor de Direito do Trabalho da Faculdade de
Direito da USP.

Este espaço está sempre aberto para artigos


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