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Importância do Médico Veterinário na Saúde do Consumidor (Cadeia produtiva do Leite)

DUPERRON DE ALENCAR CARVALHO¹ E THAYSA DOS SANTOS SILVA²

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1. Médico Veterinário (CVMV-GO 0453) e Fiscal Federal Agropecuário do MAPA. E-mail: duperron@terra.com.br

2. Médica Veterinária (CRMV-GO 04408) e aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal/

Ciência, Tecnologia e Inspeção de Alimentos, Universidade Federal de Goiás. E-mail: thaysamariana@hotmail.com

Co-autora: Juliana Alves Dias³ Colaboradora: Suely dos Santos Silva 4

3. Graduanda em Medicina Veterinária, Universidade Federal de Goiás.

4. Professora da Universidade Federal de Goiás, mestre em Educação pela UFG e aluna de doutorado em Educação

na USP

RESUMO

O Médico Veterinário é um profissional pouco conhecido na sociedade brasileira e, portanto, pouco valorizado, sendo atribuído a ele apenas a prática da clínica de cães e gatos. Mas a Medicina Veterinária abrange várias áreas de atuação que vão desde a higiene, inspeção e tecnologia de alimentos de origem animal, passando pela prevenção, saúde pública, produção animal, administração, extensão rural, reprodução animal, indústria de ração, medicamentos, defensivos até a área da biotecnologia. Outro fator ainda mais importante para a limitação desta profissão é o fato de os próprios veterinários desconhecerem a sua importância para a sociedade, muitos chegam até a desconhecer as suas áreas de atuação.A Medicina Veterinária atua de forma direta ou indireta na vida da população em geral, a mesma estabelece relações recíprocas com a Medicina Humana, principalmente quando nos referimos à saúde pública, mais especificamente à segurança dos alimentos, e como as mesmas são fundamentais para a nossa sobrevivência. Devemos encontrar medidas e programas, para que os alimentos se tornem seguros, não causando danos à população. Neste sentido o presente artigo trata da importância do médico veterinário na saúde do consumidor dando maior ênfase à cadeia produtiva do leite, descrevendo a sua participação na fiscalização e orientação dos processos de fabricação dos produtos de origem animal em especial o leite e seus derivados, partindo da obtenção da matéria prima no campo, passando pelo processamento industrial até chegar a estocagem, transporte e comercialização do produto acabado.

Palavras-chave: médico veterinário, saúde pública, consumidor, leite.

ABSTRACT

The Veterinary Medical is a professional little known in Brazilian society and for so little valued, being attributed to him only to the clinical practice of dogs and cats. But the Veterinary Medicine covers various areas of expertise ranging from hygiene, inspection and technology foods of animal origin through prevention, public health, animal production, management,

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rural extension, animal breeding, manufacturing of food, medicines, defensive until the area of biotechnology. Another factor limiting even more important for this profession, is the fact that their own veterinarians know its importance in the face of society, coming to know their areas of expertise. The Veterinary Medicine operates on a direct or indirect in the life of the general population because it establishes a reciprocal relationship with human medicine, especially when we talk about public health, specifically food safety, and how they are essential for our survival, we must find measures and programs, so that they become safer, not causing harm to people. Accordingly this article will address the importance of veterinary doctor in the health of consumers giving greater emphasis to the productive chain of milk, describing its participation in the supervision and guidance of procedures for the manufacture of animal products in particular for milk and its derivatives; ranging from the production of matter in the field, passing through industrial processing until you get to storage, transport and sale of the finished product.

Key words: veterinary medical, public health, consumer and milk.

INTRODUÇÃO

De acordo com BRUXELAS (2005), a Medicina Veterinária, como ciência, é relativamente jovem. Como arte, porém, é antiga. O progresso e o bem-estar das nações evoluíram proporcionalmente aos cuidados dispensados à criação de animais. Ao adquirir e utilizar animais para o seu próprio benefício, o homem assumiu a responsabilidade de lhes proporcionar cuidados e comodidade, além de fornecer alimento e abrigo, bem como cuidados médicos quando precisassem. Os primeiros escritos do homem revelam que na administração dos antigos governos eram previstos os doutores de animais. Da mesma forma que em nossa profissão irmã, a medicina humana, muitas práticas veterinárias eram baseadas em superstições e fantasias devido à falta de conhecimentos sobre as causas das doenças. Logo que a importância da indústria animal se desenvolveu, cresceu a exigência de melhor conhecimento das doenças em animais e de sua profilaxia (conjunto de todas as medidas a serem adotadas, para efetuar o controle de uma determinada enfermidade). Além disso, tornou-se evidente, bem cedo, que tanto o homem como os animais eram susceptíveis a algumas doenças comuns e que em alguns casos a espécie humana adquiria a doença de espécies inferiores. Sendo esta a base para o gradual desenvolvimento da medicina veterinária como prevenção para determinadas doenças (BRUXELAS, 2005). Muitas pessoas não estão cientes da importância da Medicina Veterinária ou de seu papel na sociedade. As atividades que o médico veterinário desenvolve são, muitas vezes, divulgadas de forma limitada, atribuindo a estes, apenas a prática da clínica médica veterinária, criando assim um estereotipo do Médico Veterinário como uma profissão que cuida apenas dos animais como cães e gatos. Outro fator ainda mais importante para limitação da valorização deste profissional, é o fato de os próprios veterinários não saberem a importância que eles tem na sociedade, ou seja, desconhecem as áreas de atuação. O Médico Veterinário tem um valor muito grande para a vida da população em geral e a Medicina Veterinária estabelece uma relação recíproca com a Medicina Humana, principalmente quando o assunto é saúde pública e dentro desta, a segurança dos alimentos. Como o alimento é necessário para a sobrevivência, é vital encontrar medidas e programas para que se tornem seguros e não causem riscos à população. A inserção do Veterinário nas equipes de Saúde Pública ocorreu devido ao fato do mesmo se encontrar apto a identificar e tratar as zoonoses (doenças transmissíveis entre diferentes espécies de vertebrados, incluindo também o homem). Além disto, outras habilidades aprendidas durante a sua formação acadêmica nas matérias como; inspeção de carnes, leites e

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seus derivados, tornaram-se privativas dessa profissão, atuação na higiene e inspeção de laticínios, matadouros, frigoríficos e indústrias de produtos de origem animal, solidificaram a participação deste profissional na Vigilância Sanitária. Este foi o primeiro campo de trabalho aberto ao Veterinário na Saúde Pública, sendo regulamentado pela Lei N.º 5.517/68. Nas últimas décadas, novos desafios têm surgido para a Saúde Pública em decorrência da globalização mundial, que tem intensificado o tráfego de pessoas, alimentos e bens de consumo entre os diferentes países. Algumas enfermidades romperam as barreiras de proteção territorial estabelecendo-se em lugares onde antes não existiam. Esta realidade fez com que os profissionais da saúde tentem responder a estes desafios com eficácia, debelando as fontes de contaminação e impedindo a proliferação das enfermidades em suas áreas de responsabilidade. Na estrutura profissional multidisciplinar da Saúde Pública, não há dúvidas da importância do Médico Veterinário como promotor da saúde humana, sendo esta, amplamente reconhecida e divulgada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que tem solicitado, insistentemente, aos países membros, a participação do Veterinário nas equipes de administração, planificação e coordenação de programas de saúde (BRITES NETO, 2003). Nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, o trabalho do Médico Veterinário ainda limita-se a prevenção das zoonoses endêmicas (Leishmaniose, Raiva, Leptospirose, Dengue, Febre Amarela, Malária, Peste, entre outras), emergentes e re-emergentes. Ele atua na inspeção e controle dos locais de abate e comercialização de produtos de origem animal. Em países desenvolvidos, este profissional já utiliza os conhecimentos de biologia, ecologia, medidas gerais de profilaxia, medicina veterinária preventiva, administração, entre outros, para desempenhar várias funções nas diferentes áreas da Saúde Pública, inclusive coordenando as equipes de vigilância (MENESES, 2008). Se no Brasil a atuação ainda é limitada, ela é resultado da pouca ênfase que os cursos superiores têm dado ao ensino teórico e prático dos conteúdos relacionados às diferentes áreas de atuação do Médico Veterinário na Saúde Pública. No Brasil, a maioria dos profissionais que trabalha nesta área, ou que ainda irá atuar, adquiriu ou irá adquirir o conhecimento necessário para desenvolver suas atividades nos estágios extracurriculares ou no Estágio Supervisionado Obrigatório que realizaram ou realizarão antes da conclusão do curso. Além disto, o número de Médicos Veterinários que têm buscado cursos de especialização em Saúde Pública após a graduação, tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. O século XXI promete várias mudanças na estrutura organizacional dos sistemas de saúde. A OMS estima que a população mundial dobre de tamanho nos próximos 10 anos, e que mais de 50% desta viva em áreas urbanas. Além disto, é esperado que o aumento da temperatura global provoque novas mudanças climáticas que continuarão a trazer desafios às equipes de Saúde Pública em todo o planeta. Assim, é imprescindível que os profissionais responsáveis pela promoção da saúde coletiva estejam cada vez mais preparados para enfrentar estes novos desafios. Neste contexto, estão englobados os Médicos Veterinários que devem se conscientizar da sua importância para a saúde da população em geral (WORLD HEALTH ORGANIZATION,

2002).

Refletir estes desafios e indagações é o objetivo deste trabalho. Nele expomos a importância do Médico Veterinário na Saúde Pública, esclarecendo que é ele o responsável pela fiscalização e a orientação dos processos de fabricação dos produtos de origem animal em especial o leite e seus derivados, indo desde a produção da matéria prima no campo, passando pelo processamento industrial até chegar à estocagem, transporte e comércio do produto acabado.

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ATUAÇÃO DO MÉDICO VETERINÁRIO

No Brasil a Medicina Veterinária é uma profissão pouco conhecida em sua abrangência e por isso mesmo possui baixo prestígio. Principalmente quando comparada com a importância que a profissão desfruta nos países de primeiro mundo. A maioria da população desconhece a amplitude dessa profissão, sua complexidade e a importância dos serviços prestados à população brasileira e mundial prestígio que angariou desde que foi fundada na França de Luís XV, por um advogado criador de cavalos. Exceção feita à clínica de pequenos animais, o grande público e, principalmente os homens de decisão política e econômica do país, não relacionam nosso trabalho com a higiene, com a saúde pública, com a indústria e distribuição de alimentos de origem animal, com a cirurgia experimental, com as revolucionárias conquistas da bioengenharia, da engenharia genética, da reprodução, da nutrição, do diagnóstico por imagem, da zootécnica, da farmacologia, da toxicologia, da perícia técnica policial, da administração, dentre outras. (LEAL, 2005). De acordo com a Lei n.º 5.517/68, capítulo II DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL, Art. 5º relaciona a competência privativa do Médico Veterinário, bem como do exercício de atividades e funções ficando-as a cargo da União, dos Estados, dos Municípios, dos Territórios Federais, entidades autárquicas, paraestatais e de economia mista e particulares, dentre as funções citadas nesta lei, a letra f que define é função do veterinário:”a inspeção e a fiscalização sob o ponto de vista sanitário, higiênico e tecnológico dos matadouros, frigoríficos, fábricas de conservação de carne e de pescado, fábricas de banha e gorduras em que se empregam produtos de origem animal, usinas e fábricas de laticínios, entrepostos de carne, leite, peixe, ovos, mel, cera e demais derivados da indústria pecuária e, de um modo geral, quando possível, de todos os produtos de origem animal, nos locais de produção, manipulação, armazenagem e comercialização” tratadas neste artigo com maiores detalhes. Atualmente, as principais atribuições do Médico Veterinário são:

Higiene, inspeção e tecnologia - Controlar as condições de higiene em produtos de origem animal destinados à alimentação. Prevenção e saúde pública - Procurar e eliminar fontes de infecções. Fazer o controle sanitário de alimentos em feiras, supermercados, bares e restaurantes, inspecionando os produtos e a forma de manuseio. Indústria de ração, medicamentos e defensivos animais - Cuidar do processo de fabricação e comercialização de soros, vacinas, carrapaticidas, rações, vitaminas e medicamentos. Clínica - Cuidar de animais domésticos, rebanhos e criações. Fazer exames clínicos, diagnósticos e prescrever tratamentos. Ecologia e meio ambiente - Pesquisar e garantir a preservação da fauna em regiões afetadas pela ocupação do homem. Produção animal, administração e extensão rural - Acompanhar a criação e a exploração econômica de animais. Planejar e administrar propriedades rurais, trabalhando com agrônomos e zootecnistas. Biotecnologia, reprodução animal e fisiopatologia da reprodução - Essa é uma especialidade em ascensão na Medicina Veterinária. O exemplo mais conhecido é o da clonagem da ovelha Dolly. Mas engloba também o trabalho com ginecologia, obstetrícia e andrologia animal e técnicas de inseminação artificial. Pesquisas de processos de melhoria genética de cavalos, bois, ovelhas, suínos e aves, entre outros, sem esquecer é claro, de uma das maiores descobertas dos últimos tempos na área da reprodução, o sêmen sexado de bovinos, que garantiu maior exatidão na determinação do sexo dos animais.

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A amplitude das áreas que o Veterinário pode atuar é inquestionável e fundamental a presença do mesmo em todos os setores referentes à obtenção de alimentos próprios para o consumo humano, independentemente de sua origem se (animal ou vegetal), o mesmo se apresenta altamente qualificado para exercer o cargo de “guardião da saúde humana”, utilizando para isso o controle da água e também dos alimentos.

Importância do Médico Veterinário da produção ao consumo do leite

Em 1946, a OMS criou a Saúde Pública Veterinária, designou algumas atribuições para este profissional: controle de zoonoses, higiene dos alimentos e os trabalhos de laboratório, de biologia e as atividades experimentais. Desde então, o Médico Veterinário tem demonstrado sua capacidade e competência para atuar nas equipes de Vigilâncias Epidemiológica, Sanitária e Ambiental. No Brasil, este espaço vem sendo ocupado gradativamente nos diferentes níveis de gestão, federal, estadual e municipal, (MENESES 2008). Ao analisar o que foi exposto à cima, o que se observa, é que o Médico Veterinário está apto a atuar em quase todos os processos de produção e processamento dos alimentos, indo desde o campo onde o animal é criado, passando pela industria na qual o produto de origem animal é processado, até a comercialização e chegada do produto ao consumidor. A seguir serão descritas todas as competências que cabem ao Médico Veterinário no que se diz respeito à cadeia produtiva do leite:

1.

CAMPO

No ambiente rural, ou seja, no campo, o veterinário tem um papel fundamental no processo de orientação do produtor rural, bem como das pessoas encarregadas da lida com os animais, principalmente os responsáveis pela realização das ordenhas, sendo que, as principais orientações repassadas para os produtores agropecuários estão relacionadas ao manejo sanitário, alimentação e a profilaxia dos animais entre outros. Este profissional atua nas mais diversas áreas em uma fazenda, tendo responsabilidade com o controle da utilização de agrotóxicos, pesticidas, hormônios e praguicidas, controle da mastite, na formulação dos produtos que servem para a alimentação dos animais (rações, concentrados e sais minerais), entre várias outras competências que serão descritas a seguir.

1.1 Pastagens

Os agrotóxicos são substâncias químicas (herbicidas, pesticidas, hormônios e adubos químicos) utilizados em produtos agrícolas e pastagens, com a finalidade de alterar a composição destes e, assim, preservá-los da ação danosa de seres vivos ou substâncias nocivas. Apesar de serem cada vez mais utilizados na agricultura, os agrotóxicos podem oferecer perigo para o homem, dependendo da toxicidade, do grau de contaminação e do tempo de exposição durante sua aplicação. Eles podem ser encontrados em vegetais (verduras, legumes, frutas e grãos), açúcar, café e mel. Alimentos de origem animal (leite, ovos, carnes e frangos) podem conter substâncias nocivas que chegam a contaminar a musculatura, o leite e os ovos originados do animal, quando ele se alimenta de água ou ração contaminadas. A utilização de agrotóxicos de forma indiscriminada e mal orientada também tem originado sérios riscos a saúde humana e dos animais. Os profissionais envolvidos nas equipes de Vigilância Ambiental devem estar cientes do perigo que este material químico representa, quais seus efeitos e que medidas de prevenção e controle devem ser utilizadas com a finalidade de diminuir os riscos causados pela exposição ao produto e pelo seu lançamento no meio ambiente (FIORI, 2004).

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Além de agredir o ambiente, a saúde diretamente do animal e indiretamente a do homem também pode ser afetada pelo excesso destas substâncias. Quando mal utilizados, os agrotóxicos podem provocar três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. Na aguda, os sintomas surgem rapidamente. Na intoxicação subaguda, os sintomas aparecem aos poucos: dor de cabeça, dor de estômago e sonolência. Já a intoxicação crônica, pode surgir meses ou anos após a exposição e pode levar a paralisias e doenças, como o câncer. Em muitos países, principalmente naqueles em desenvolvimento, o uso indiscriminado dos agrotóxicos é generalizado e tem chamado a atenção dos governos, das agências de proteção do meio ambiente e de trabalhadores. Relatórios indicam que a exposição aos agrotóxicos por longo tempo em homens, plantas e animais tem efeitos nocivos e indesejáveis. Apontam como medidas para redução de riscos na sua utilização: a educação e treinamento dos agricultores, sendo esta realizada por profissionais da área como os médicos veterinários e agrônomos, a regulação da propaganda, a limitação do uso de substâncias altamente tóxicas, o monitoramento da população mais exposta ao agrotóxico e a inspeção dos produtos nas lojas de venda e no campo, sendo esta feita por veterinários da inspeção.

O Laboratório de Inspeção de Produtos de Origem Animal da Universidade Estadual de

Londrina, no norte paranaense, divulgou uma pesquisa que confirma a presença de pesticidas, inseticidas e agrotóxicos, em amostras de leite coletadas em: São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul. O grau de contaminação varia de acordo com a região,

mas está presente em todas elas (ÉPOCA, 2007).

1.2 Substâncias carreadas ao leite: o perigo dos antibióticos

A presença de resíduos de antibióticos no leite tem sido, nos últimos anos, um dos

maiores desafios impostos à indústria de alimentos de todo o mundo. A interferência deles no processo de fabricação e maturação de alguns produtos lácteos, podem causar hipersensibilidade

em humanos, além de resistência à antibioticoterapia, que são considerados indesejáveis pelos consumidores.

O leite contaminando por resíduos de antibióticos é considerado adulterado e impróprio

para consumo, representando riscos para a saúde publica, para a indústria de lacticínios e comerciais. Para o homem a ingestão de resíduos via alimentos pode gerar problemas de ordem microbiológica, farmacológica juntamente com a toxicológica e riscos imunopatológicos, como as alergias. A toxicidade dos contaminantes alimentares foca-se principalmente nos efeitos a longo prazo como: carcinogénicos, teratogénicos e neurotoxicológicos. Os resíduos de antibióticos podem causar deterioração do produto, ou o leite pode se tornar impróprio para a produção de derivados fermentados, principalmente iogurtes. A mastite, doença infecto-contagiosa que se propaga no rebanho; devido a fatores ambientais ou má higienização na ordenha. Essa doença pode ser controlada por medidas higiênicas e profiláticas. Ela caracteriza-se pela inflamação do úbere, provocada por germes que

penetram pelo canal do leite sendo a principal doença do gado leiteiro que requer

antibioticoterapia e, portanto, uma das principais origens de resíduos de antibióticos no leite. Enfatiza-se que qualquer antibiótico utilizado em vacas, independente da via de aplicação, pode resultar em resíduos no leite, isso ocorre porque os antibióticos são absorvidos pela corrente sangüínea, após sua aplicação e podem passar para o leite. O tratamento contra mastite de um teto contamina via sangüínea o leite presente nos outros quartos de tetos.

O período de carência ou de retirada do leite para o consumo é aquele que vai da

administração da droga até o leite ser permitido para consumo humano. O período de carência esgota-se no momento em que os resíduos de antibióticos no leite forem menores que o Limite Máximo de Resíduos (LMR). A duração do período de carência depende de diversos fatores,

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como: a dose e esquema de tratamento utilizado, via de administração, produção leiteira do animal, a formulação do produto. As principais razões para o aparecimento de resíduos de antibióticos no leite estão relacionados com: i) a não observância do período de carência de antibióticos, ii) erro na identificação dos animais tratados ou na anotação dos dados do tratamento, iii) uso de drogas em diferentes dosagens ou diferentes esquemas de tratamento para o qual o período de carência foi estabelecido, iv) procedimentos incorretos na ordenha como; descarte de leite apenas do quarto tratado, vacas que têm partos antecipados e curtos períodos secos, uso de produtos de vacas secas para tratamento de vacas em lactação, ordenha acidental de vacas secas, erro durante a ordenha e mistura do leite com e sem resíduos. Em um programa básico de controle de mastite, recomenda-se que as vacas com mastite clínica sejam tratadas imediatamente e que todas elas devam ser tratadas na secagem. Nesse caso, o uso de antibióticos tanto por via intramamária quanto sistêmica são recomendados. O leite do animal tratado somente poderá ser destinado à alimentação humana após o prazo mínimo de carência estabelecido pelo fabricante na bula, esse prazo depende do tipo de medicamento utilizado e do regime de tratamento adotado. O Médico Veterinário atua como o responsável pela detecção e identificação no leite da presença de resíduos e contaminantes nos produtos de origem animal, sendo ele o principal indicado para tomar medidas preventivas, corretivas e educativas sobre o assunto. Da preocupação com os malefícios que a presença de resíduos no leite pode acarretar a saúde do homem, criou-se o Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC). O PNCRC tem como função regulamentar básica, o controle e a vigilância. Suas ações estão direcionadas para se conhecer e evitar a violação dos níveis de segurança ou dos LMRs de substâncias autorizadas, bem como a ocorrência de quaisquer níveis de resíduos de compostos químicos de uso proibido no país. Para isto, são colhidas nas fazendas; amostras de leite cru de vacas abatidas e vivas e derivados industrializados e/ou beneficiados, destinados à alimentação humana, proveniente dos estabelecimentos sob Inspeção Federal (SIF). Um dos objetivos do PNCRC é tornar-se parte integrante do esforço destinado a melhoria da produtividade e da qualidade dos alimentos de origem animal colocados à disposição da população brasileira, e secundariamente, proporcionar à nação, condições de se adequar do ponto-de-vista sanitário, às regras do comércio internacional de alimentos, preconizadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e órgãos auxiliares como a FAO (Organização das Nações Unidas Para Agricultura e Alimentação) e OIE (Organização Internacional de Epizotia). As principais metas do PNCRC visam verificar o uso correto e seguro dos medicamentos veterinários, de acordo com as práticas veterinárias recomendadas e das tecnologias utilizadas nos processos de incrementação da produção e produtividade pecuária. Além da função desempenhada pelo veterinário responsável pela inspeção, é necessária a atuação do clínico veterinário com vistas a conscientizar o produtor sobre o cumprimento do período de carência. Tal esforço é fundamental para que se alcance o objetivo de produção com excelência e qualidade dos produtos de origem animal. O veterinário é também o responsável pela orientação para a correta utilização dos equipamentos necessários para ordenha, higienização e pelo trabalho educativo com os profissionais envolvidos com a manipulação do leite, salientando a necessidade de práticas higiênicas e sanitárias com os alimentos enquanto os mesmos ainda não chegaram ao local de processamento. A ordenha exige cuidados e atenção, devido a sua influência na produção e qualidade do leite e na saúde dos animais. Os cuidados tomados durante a ordenha envolvem a higiene do local, dos animais, dos utensílios e do ordenhador. Sobretudo, o acondicionamento do leite deve respeitar a legislação vigente e devem ser utilizados majoritariamente tanques de expansão, a uma temperatura adequada e o transporte realizado em caminhões isotérmicos com temperatura também controlada.

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2. INDÚSTRIA

Para se produzir alimentos com qualidade e segurança para o consumidor interno e externo do país, é de suma importância que os principais atores da cadeia produtiva do leite como: produtores, Médicos Veterinários e indústrias envolvidas no processamento trabalhem em conjunto. No âmbito industrial, a atuação do Médico Veterinário vai desde o transporte da matéria-prima (nesse caso o leite) até a sua comercialização tendo, portanto, responsabilidade direta pela qualidade do produto a ser consumido pela população. A atuação constitui-se de: a) verificação das exigências requeridas para o transporte da matéria-prima dos estabelecimentos produtores até os locais de processamento e b) correto acondicionamento, conservação do produto in natura nos veículos, nos quais o mesmo é transportado. Isso se dá mediante a inspeção dos caminhões-tanque e latões, constatando-se aspectos da estrutura física e limpeza dos mesmos, além da temperatura à que os produtos in natura são transportados. Nessa fase do processamento faz-se a coleta de amostras para a realização de análises e interpretação dos resultados, determinando o destino adequado da matéria-prima (leite in natura) dentro do laticínio, conforme legislação vigente.

O Médico Veterinário tem a função d orientar: i) a indústria na aquisição de matéria-

prima de boa qualidade e também de procedência, ii) a compra de aditivos, embalagens,

desinfetantes, conservantes e sanitizantes, iii) como deve ser realizada a higienização de todas as instalações e equipamentos, inclusive das pessoas que trabalham na indústria. As pessoas que desenvolvem os trabalhos nas indústrias devem ser orientadas quanto às operações de manipulação, transformação, embalagem, armazenamento e transporte dos produtos. E iv) atua também no controle e/ou combate de insetos e roedores, evitando que os mesmos possam contaminar os alimentos, visto que esta é uma freqüente via de transmissão de doenças aos consumidores.

O Médico Veterinário assume ainda a responsabilidade do estabelecimento industrial e da

qualidade dos produtos que são produzidos. Obriga-se a orientar sobre as condições técnicas do laboratório de controle de qualidade, quanto a; equipamentos, pessoal, reagentes e técnicas utilizadas para a realização das análises laboratoriais, das quais as mais utilizadas no leite são: A redutase, pesquisa de resíduos de antibióticos, crioscopia, determinação do teor de sólidos totais e de sólidos não gordurosos, densidade relativa acidez titulável, teor de gordura e temperatura. Além, é claro, de pesquisas de indicadores de fraudes e adulterações. Outro fator que é de competência do Veterinário é exigir que às indústrias cumpram rigorosamente os memoriais descritivos da elaboração dos produtos que o transporte e o uso correto dos produtos e a composição e prazo de validade seja registrado de forma clara na embalagem permitindo claro entendimento do consumidor. Orientar a empresa sobre a importância da licença ambiental. O Veterinário é também o responsável pela análise e aprovação de rótulos e memoriais dos processos de fabricação dos produtos. À rotulagem, deve ser aplicada a legislação específica para cada produto e verificação de composição nutricional (tabela nutricional) dos mesmos e utilização de aditivos e coadjuvantes de acordo com a Portaria

nº 540 - SVS/MS, de 27 de outubro de 1997 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

A responsabilidade pela seleção adequada da matéria-prima e pelo controle de qualidade

do produto elaborado é exclusiva do estabelecimento beneficiador, inclusive durante a sua distribuição, sendo esta executada pelo médico veterinário da empresa cujo nome é Responsável Técnico (RT). Sua verificação deve ser realizada de maneira periódica ou permanentemente, pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF), de acordo com procedimentos oficialmente previstos, a

exemplo das auditorias de Boas Práticas de Fabricação (BPF), do Sistema de Análise de Perigos

e de Pontos Críticos de Controle (APPCC) e do PPHO (Procedimento Padrão de Higiene

Operacional) de cada estabelecimento e, segundo a classificação que este receber como

conclusão da auditoria realizada.

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3. COMERCIALIZAÇÃO

O Médico Veterinário atua fiscalizando os produtos após o seu processamento e verifica as condições de conservação e estocagem, estas devem estar de acordo com a legislação vigente para cada produto e inspecionando o transporte dos produtos de origem animal levando em consideração a temperatura de transporte e o tipo de meio utilizado para fazê-lo, respeitando assim as normas previamente estabelecidas. O médico veterinário no âmbito da comercialização dos produtos, principalmente nos supermercados tem a função de orientar a aquisição de produtos originários de estabelecimentos com Inspeção Sanitária Oficial, exigir condições higiênico-sanitárias das instalações e equipamentos. Ele é responsável por proporcionar treinamento e formação das pessoas que estão envolvidas nas operações de depósito, manipulação, embalagem, armazenamento e transporte dos produtos. Orienta na manipulação e armazenamento de produtos embalados de origem animal. É da competência do Médico Veterinário manter sob rigoroso controle, as câmaras de resfriamento e da estocagem dos produtos de origem animal, fazendo o monitoramento periodicamente. Este profissional orienta o controle de insetos e roedores nos supermercados, a higienização do estabelecimento, bem como a higiene e saúde do pessoal. Tem também a função de realizar a identificação e orientação sobre os pontos críticos de contaminação dos produtos e ambiente, sendo fundamental seu trabalho dentro dos locais de comercialização dos produtos. O objetivo é que estes cheguem ao consumidor com qualidade visando garantir a saúde de toda a população. Além de o Médico Veterinário ser fundamental como orientador de toda a cadeia produtiva de leite, ele também tem a função de promover a fiscalização industrial e sanitária de todos os produtos de origem animal, comestíveis e não comestíveis, que sejam ou não adicionados de produtos vegetais, preparados, transformados, manipulados, recebidos, acondicionados, depositados e em trânsito. É ele é o profissional responsável por impedir que produtos que não estejam aptos ao consumo cheguem à mesa do consumidor, utiliza para isso nos casos mais extremos, a autuação da empresa ou até o seu fechamento.

4.

CONCLUSÃO

Frente ao exposto, este trabalho visou destacar que é de suma importância que a profissão do Médico Veterinário consolide-se ainda mais nas posições já conquistadas, visto que várias outras profissões vêm entrando nos ramos de atuação exclusiva dos Médicos Veterinários. É também necessária a conscientização da sociedade e da própria classe de Médicos Veterinários, sobre as múltiplas facetas de sua profissão, bem como, a conquista de novos espaços principalmente nas áreas de Saúde Pública, visto que a mesma requer conhecimentos médicos específicos da profissão e por estar intimamente relacionada à saúde, bem estar e qualidade de vida da população. É fato comprovado por vários pesquisadores que a Medicina Veterinária é uma área de fundamental importância para a Saúde pública. Refletir sobre as áreas de atuação do Veterinário é de suma importância por sanar as deficiências advindas na grade curricular dos cursos de Medicina Veterinária em relação a este tema. Espera-se que esta contribuição aos estudantes e Médicos Veterinários sirva para conhecer e entender sua importância na garantia da Saúde Pública dos brasileiros tendo-o como material de apoio e fonte de pesquisa na formação inicial e continuada.

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5. REFERÊNCIAS

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2005.

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