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CVM Comissão de Valores Mobiliários -,--~>

Protegendo quem investe no futuro do Brasil

PARECERlCVM/PJU/N° 003 - 02.02.98


REFERÊNCIA: PROCESSO CVM N° RJ 97/2829 de 170997
INTERESSADO: BANCO SANTANDER DE NEGÓCIOS SA.
ASSUNTO : Recurso contra decisão da GEO, relativa à alienação do controle acionálio e
cancelamento do registro de companhia abelia.
EMENTA: Controle Acionário Alienação. Promessa de Compra e Venda de Açõcs
anterior ao advento da Lei n" 9.457/97. Obrigatoriedade da ofelia pública nos telmos do
aliigo 254 da Lei n" 6.404176.
A CONSULTA
Trata o processo à epígrafe de recurso interposto pelo BANCO SANTANDER DE
NEGÓCIOS SA. contra decisão da Gerência de Operações E.speciais-GEO relativa ao
pedido de autorização para realização de ofelia pública de compra das ações da Sociedade
de Paliicipações Cimenteiras SIA - Spc.
Através do MEMOICVM/GJ-2/N° 259197, de 11.12.97, manifestou-se esta ProcuradOlia
Jt11idica pela validade do contrato de promessa de compra e venda de ações, detelminando
a obligatoriedade de ofelia pública de aquisição das ações dos acionistas minOlitários, nos
moldes do a1iigo 254 da Lei n° 6.404176, não obstante estivesse o refelido dispositivo legal
revogado quando da assinatura do contrato de compra e venda definitivo.
Compareceram os recol1'entes, às fls. 167/198, para juntar Parecer do Doutor Nelson
EiziJik, em anlparo às suas razões recursais, e sobre o qual solicita o Senhor Diretor Relator
nossas considerações.
PARECER
Conceitua, a melhor doutrina pátria, o contrato preliminar, categoria em que se enquadra o
compromisso de compra e venda, como sendo "convenção pela qual as palies cliam em
favor de uma delas, ou de cada qual, a faculdade de exigir a imediata eficácia de contrato
que projetaram". (ORLANDO GOMES, Contratos, pág. 160).
São requisitos para a validade e eficácia do contrato preliminal' aqueles atinentes à
capacidade das palies, à licitude do objeto, ao consentimento e à fOlma.
Não obstante revele o contrato preliminar, originaJiaJ11ente, apenas uma obrigação às palies
de celebrar novo contrato, o mesmo não OCOlTe com aqueles em que todos os termos e
condições já foram previamente dedal'ados, como é o caso dos compromissos iJTetratàveis.
Nestes o vinculo contratual definitivo já foi estipulado, desnecessária, pOlianto, nova
declaração de vontade, pelo que se concluí ser o contrato definitivo mera fase executória do
negócio anteliOlmente aceliado.
O eminente jurista CAIO MÁRJO DA SILVA PEREIRA, em análise profunda acerca do
contrato preliminar, assim entendeu:
"A sua eficàcia está na decOll'ência da apuração dos requisitos de validade dos contratos,
em relação ao contrato preliminar em si, mesmo, e não em função do contrato principal,
que lhe é objeto, e cuja outorga constitui a fase de sua execução." (in, Instituições de
Direito Civil, vaI. III, pág. 78)

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Igual entendimento é esposado por ORLANDO GOMES:


"Entende-se desnecessária nova declaração de vontade, pois, ao celebrarem o pré-contrato,
tudo o que é necessário ao estabelecimento do vínculo contratual definitivo já foi
estipulado. Basta, pOlianto, providenciar sua execução. Enfim, o contrato definitivo está
contido no contrato preliminar." (in, Contratos, pág. 160)
ln casu, é cristalina a eficácia da promessa, que se revela no exame dos requisitos atinentes
à capacidade das palies, à licitude do objeto, ao consentimento e à fOlma, sendo celio que é
irretratável, pois que já estipulou todos os telmos e condições do negócio, mOlmente com
relação ao preço e objeto, que apenas foram ratificados pelo contrato definitivo.
Com efeito, revela-se o contrato definitivo tão-somente fase executória do negócio já
delineado no contrato preliminar. Este, ao contrálio do que alegam os reconentes, não se
reduz á obIigação de estipular o contrato definitivo, mas sim, representa efetivamente o
negócio ajustado.
Vale salientar, ainda, que no ato de assinatura da promessa, a "promitente compradora"
efetuou o pagamento de um sinal de 10% (dez por cento) do preço de aquisição, o que vem
a cOl,.oborar a tese da eficácia daquele contrato, inclusive por força de sua cláusula 5.5.
Ademais, na mesma Promessa, as palies contratantes reconheceram a vinculação do
negócio ao ordenamento jurídico vigente à época com exclusão de qualquer outro posterior,
como se depreende da cláusula 18.13, verbis:
"18.13. - Interpretação: Todas as referências deste Contrato de Promessa de Compra e
Venda às disposições legais aplicam-se àquelas disposições em vigor nesta data, e não
àquelas disposições alteradas, se tais alterações entrarem em vigor após a data de assinatura
deste instrumento"
Entendimento este que foi mantido no contrato definitivo, verbis:
"4. As paltes declaram e aceitam que todas as obIigações assumidas na PROMESSA e no
ADITAMENTO, bem como obrigações decorrentes do cumplimento da PROMESSA e do
ADITAMENTO, pela assinatura do presente instrumento, permanecerão em vigor a paliir
da presente data, nos telmos e sob as condições da PROMESSA e do ADITAMENTO. As
paltes ratificam e confirmam a validade e eficácia, nesta data, de todas as declarações e
garantias prestadas na PROMESSA e no ADITAMENTO."
E ainda que assim não fosse, o que se diz apenas por argumentar, melhor sOlie não tetiam
os reCOl,.entes, tendo em vista o princípio da autonomia da vontade que rege o direito
contratual.
Segundo ORLANDO GOMES, "em matéria conh'atual, as disposições legais têm, de regra,
caráter supletivo ou subsidiário, somente se aplicando em caso de silêncio ou carência das
vontades paliiculal'es" (in Contratos, pág. 30).
Com a revogação do altigo 254 da Lei n° 6.404176, eliminou-se a obligatoriedade da afeIta
pública nos moldes daquele dispositivo, não significando, porém, que tal ofelia não possa
ser estipulada pelas palies, como efetivamente o foi, em consagração ao princípio da
autonomia da vontade nos contratos privados.
Deve-se, com efeito, interpretar, à luz do princípio da autonomia da vontade nos contratos
as disposições avençadas nas cláusulas 16.1 e 16.2 da promessa de compra e venda, verbis
"16.\- Imediatamente após a DATA DE FECHAMENTO, a COMPRADORA

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compromete-se a tomar todas as medidas necessárias para que seja efetuada uma oferta
pública de aquisição de ações ordinárias da SPC, ao mesmo preço oferecido aos
VENDEDORES, de acordo com o estabelecido no atiigo 254 da Lei n° 6.404 de 15.12.76, e
a Resolução n° 401176 do Banco Central do Brasil, de acordo com as regras adotadas pela
Comissão de Valores MobiliáIios.
16.2. - A COMPRADORA compromete-se ainda a, simultaneamente, estender a ofelia
descrita na Cláusula 16.1 acima aos acionistas da SPC detentores de ações preferenciais,
pelo mesmo preço e nas mesmas condições oferecidas aos detentores de ações ordinárias."
Idêntico, inclusive, é o pensamento do ilustre Dr. NELSON EIZIRIK, autor do Parecer
juntado aos autos pelos recolTentes, verbis:
"A Lei n" 9.457/97, em seu ati. 6°, revogou o ati. 254 e os §§ 1° e 2° do ali. 255 da Lei nO
6.404176, de molde a eliminar a obligatoriedade de ofelia pública de aquisição das ações
dos acionistas minOlitários por ocasião da alienação de controle de companhia abelta,
. . ... .. . ... .. . . ... . . . .. . . .... . . . ... .. .. " .. ..
Nada impede o adquirente do controle de fOlmular ofelta pública de aquisição de controle,
nela incluidas as ações dos minOlitários .... " grifo nosso (in RefOlma das S.A. & do
Mercado de Capitais, 1997. Pgs. 83/87).
Note-se que a ofelia pública extensiva aos preferencialistas não era uma expressa exigência
legal, tendo sido, pOltanto, livremente pactuada pelas pattes, assiô como há que se
entender tenha ocolTido também com relação aos acionistas minoritários.
Assim, não só estão os reCOlTentes obrigados a efetuar oferta pública de aquisição de ações
ordinárias nos moldes do atiigo 254 da Lei das SI A, por força da cláusula 16.1. do Contrato
de Promessa, como também deverão estender a referida oferta aos preferencialistas, como
detelmina a cláusula 16.2.
Em Conclusão:
a) Considerando que a promessa de compra e venda de ações é perfeitamente válida, pela
capacidade das paties, licitude do objeto, consentimento e fOlma não defesa em lei;
b) Considerando que este contrato preliminar é ilTetratável, porquanto estipulou todos os
termos e condições do negócio, principalmente quanto ao objeto e ao preço;
c) Considerando que, com a revogação do aJtigo 254 da Lei n° 6.404176, eliminou-se tão-
somente a obligatoriedade de ofelta pública aos acionistas minoritários para aquisição de
suas ações, não afastando, porém, sua fonnulação voluntária;
d) Considerando que, com escopo no princípio da autonomia da vontade que infOlma o
direito contratual, as paltes livremente pactuaram que:
d.l) a compradora estaria obrigada a efetuar oferta pública de aquisição de ações da SPC,
nos moldes do aJtigo 254 da Lei n° 6.404176, extensiva aos detentores de ações
preferenciais;
d.2) a promessa firmada seria interpretada pelas disposições legais em vigor na data de sua
assinatura, com exclusão de quaisquer outras alterações posteriores no ordenamento
juridico;
A CIMPOR Cimentos de POltugal está obrigada a efetuar ofelta pública de aquisição de
ações, em atenção ao que preceitua o aJtigo 254 da Lei nO 6.404176, tendo em vista que o
negócio jUlídico foi efetivamente realizado em janeiro de 1997, quando pactuados foram
todos os seus teImos e condições, inclusive com o pagamento de sinal de 10% (dez por
cento)

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ereço memet,
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Destarte, hão de ser mantidas as exigências da GEO, constantes do TEI,EFAXlCVM/GEO


N"196/97,
,
DE 29.08.97.
E o parecer, em 29.01.98
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