Você está na página 1de 65
SEBENTA ESTRUTURA MOLECULAR DA CÉLULA BERNARDO SOUSA PINTO EUGÉNIO GONÇALVES ISABEL VIEIRA MARGARIDA COSTA

SEBENTA

ESTRUTURA MOLECULAR DA CÉLULA

BERNARDO SOUSA PINTO

EUGÉNIO GONÇALVES ISABEL VIEIRA MARGARIDA COSTA

FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DO PORTO 2014/15

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Índice

Noções básicas de bioquímica. Estrutura e função das principais biomoléculas……

3

Incerteza e erro em bioquímica…………………………….……………………….……

3

Água, lipídos e sistema de fases

…………………………………………

…………

6

Compostos inorgânicos do organismo

…………………………………………

……

8

Componentes químicos dos seres

vivos

…………………………………………

……

12

Estrutura e papel biológico dos glicídeos

…………………………………………

15

Estrutura e papel biológico dos

lipídeos

…………………………………………

……

20

Estrutura e papel biológico das proteínas

…………………………………………

24

Proteínas de ligação ao DNA e seus domínios

funcionais

………………………………

28

Glicosilação e glicação de proteínas

…………………………………………

………

30

Enzimas e química

clínica

…………………………………………

……………….…

35

Célula: Estrutura e metodologia de investigação

…………………………………….

41

Célula: conceito e evolução…………… ……….…… … …… ……………………

41

Metodologia de estudo da célula:

Microscopia….………………….…

…………………

52

Metodologia de estudo da célula: Cultura e fraccionamento celular….………………….

57

Metodologia de estudo da célula: Análise e localização de moléculas….…………………

60

Esta sebenta inclui resumos relativos às aulas de Estrutura Molecular da Célula da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Alguns destes resumos constituem adaptações de textos antigos - das já extintas Unidades Curriculares de Biologia Celular e Molecular e Bioquímica -, enquanto outros constituem textos novos propositadamente escritos para esta sebenta.

Bom trabalho e votos de sucesso nos exames,

Os autores,

Bernardo Sousa Pinto, Eugénio Gonçalves, Isabel Vieira, Margarida Costa

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Incerteza e erro em bioquímica

Segundo o Institute of Medicine (IOM), os erros em Medicina podem ser causados por:

Overuse utilização (excessiva) de procedimentos que não surtem efeito.

o

Exemplo: 50% das radiografias a doentes com dores nas costas são desnecessárias.

Underuse não-utilização de procedimentos que poder-se-iam revelar úteis.

o Exemplo: Não é administrada a vacina pneumocócica a 50% dos idosos.

Misuse erros de execução.

o Exemplo: Todos os anos, 44000-98000 americanos morrem no hospital na sequência

lesões resultantes dos cuidados de saúde. De facto, os cuidados de saúde, apresentam

bastantes riscos, tendo em conta o número de vidas perdidas por número de

indivíduos que recorrem a estes serviços.

Incerteza

Qualquer determinação assenta em assumpções. Qualquer determinação está sujeita à incerteza e ao erro. A incerteza reflete a falta de conhecimento exato sobre aquilo que se está a medir. De facto, as medições constituem apenas estimativas dos valores reais, sendo afectadas por erros. A título de exemplo, os aparelhos têm resoluções finitas, sendo frequente obter variações em medidas repetidas em condições aparentemente iguais.

Exatidão e precisão

Nenhuma medida é exata - quando uma quantidade é medida, o outcome depende do sistema de medida, do processo de medição, das capacidades do operador, do ambiente, et caetra. Por isso, ao reportar um valor de uma quantidade física, deve-se quantificar a qualidade do resultado.

física, deve-se quantificar a qualidade do resultado. A exatidão constitui, pois, o grau de conformidade com

A exatidão constitui, pois, o grau de conformidade com o valor medido ou calculado em relação ao valor real, sendo tanto maior quanto menor o erro. Por seu turno, a precisão constitui o grau de variação de medidas ou cálculos semelhantes, podendo ser estimada pelo desvio padrão.

A repetibilidade corresponde à variação que ocorre quando se aplica o mesmo método ao mesmo material nas mesmas condições (instrumento, operador) durante um curto espaço de tempo. Por seu turno, a reprodutibilidade constitui a variação que ocorre quando se usa o mesmo procedimento com material idêntico mas em condições diferentes ao longo de períodos de tempo prolongados.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Erros

Os erros sistemáticos atuam no mesmo sentido e podem ser eliminados mediante uma seleção adequada de condições experimentais. Assim, o erro sistemático é o componente do erro que permanece de forma constante e varia de forma previsível. Um viés (bias) é a diferença entre o valor medido e o valor real.

Por seu turno, os erros aleatórios têm origem em causas indeterminadas e atuam em ambos os sentidos de forma não previsível (componente do erro que varia de forma imprevisível). Estes erros podem ser atenuados mas não completamente eliminados.

Os erros de arredondamento resultam da representação de números reais com um número finito de algarismos significativos. Os algarismos significativos incluem aqueles que sabemos estarem corretos, bem como o primeiro algarismo duvidoso estes algarismos dão-nos uma ideia do grau de precisão da medida. Podem ser considerados algarismos significativos todos aqueles entre 1 e 9 (inclusive); o zero é considerado quando se encontra entre dois números diferentes de zero ou caso esteja à direita da vírgula e seja(m) o(s) número(s) terminal(is).

direita da vírgula e seja(m) o(s) número(s) terminal(is). Para compreender o conceito de erro, é necessário
direita da vírgula e seja(m) o(s) número(s) terminal(is). Para compreender o conceito de erro, é necessário
direita da vírgula e seja(m) o(s) número(s) terminal(is). Para compreender o conceito de erro, é necessário

Para compreender o conceito de erro, é necessário compreender uma série de outros conceitos adicionais, tais como:

o

o

o

Ruído Flutuações aleatórias existentes em todo o tipo de sinal e que são inerentes ao método

e instrumento utilizado. Pode ser periódico ou não periódico.

Limite de deteção Resultado mínimo que, dentro de uma determinada probabilidade, pode ser distinguido de um ensaio em branco. Define o ponto a partir do qual é possível efetuar uma análise.

Branco Leitura ou resultado da medida de matriz, reagentes ou uma viés residual num instrumento ou processo que contribui para

o sinal obtido. Medida em que a quantidade que importa supostamente não existe.

que contribui para o sinal obtido. Medida em que a quantidade que importa supostamente não existe.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Características da amostra e do instrumento de medida

A amostra deve ser representativa e homogénea relativamente à população. Pode ser aleatória ou não aleatória. Por seu turno, as características do instrumento de medida incluem as seguintes:

Sensibilidade

Exatidão

Resolução

Repitabilidade

Estabilidade

Reprodutabilidade

Seletividade

Tempo de resposta

Drift

Intervalo de medição

Limite de deteção

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Água, lípidos e sistema de fases

Em geral, os lipídeos são insolúveis em água, pois contêm uma predominância de agrupamentos não polares (hidrocarbonetos). No entanto, os ácidos gordos, fosfolípideos, esfingolípideos, sais biliares e, em menor grau, o colesterol contêm agrupamentos polares. Portanto, uma parte destas moléculas é hidrofóbica (insolúvel em água), e uma parte é hidrofílica (solúvel em água) - estas moléculas são, pois, consideradas anfipáticas. Ao serem colocadas em interfaces água-óleo, a parte polar destas moléculas fica voltada para a fase aquosa, enquanto a parte apolar fica voltada para a fase oleosa. Uma camada dupla desses lipídeos anfipáticos constitui a estrutura básica das membranas biológicas.

Bicamadas Lipídicas

A bicamada fosfolipídica é a estrutura básica das membranas biológicas e uma barreira assimétrica. Para além das membranas celulares e organelares, as bicamadas lipídicas encontram-se ainda na mucosa gástrica e surfactante pulmonar.

As membranas biológicas não são estáticas, mas fluidas, sendo que os fosfolipídeos descrevem vários movimentos, nomeadamente:

Difusão lateral

Rotação Flexão Movimentos Flip-Flop

A estrutura da bicamada lipídica mantém-se por interações hidrofóbicas. Estas ligações são muito mais

fracas que as ligações covalentes e, por isso, os fosfolípidos constituintes da membrana são altamente móveis (ou seja, fluidos).

O grau de fluidez e viscosidade das membranas é controlado por vários factores, nomeadamente:

Tamanho das cadeias carbonadas dos ácidos gordos (normalmente de 14 a 24 átomos de

carbono) Grau de Insaturação dos ácidos gordos:

 

o

Maior fluidez → Ácidos Gordos com ligações duplas (insaturadas). As ligações duplas nas cadeias nas cadeias dos ácidos gordos dificultam o empacotamento e, consequentemente, tornam a membrana mais fluída

o

Menor fluidez → Ácidos Gordos saturados

Temperatura - A membrana pode ter três fases resultantes de um aumento progressivo da temperatura (sendo que a temperatura de transição da fase depende da composição da membrana):

 

o

Fase Cristalina;

o

Fase Gel;

o

Fase Fluída.

Colesterol Desempenha um papel ambivalente:

o

Diminui o empacotamento dos fosfolípidos;

o

Diminui o movimento lateral dos fosfolípidos.

Note-se que alterações da fluidez das membranas causam possíveis alterações no movimento e orientação das proteínas que flutuam na matriz lipídica, provocando alterações da sua funcionalidade.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Noções básicas de reologia

A reologia é a ciência que estuda o escoamento da matéria e as suas deformações. Para medir o escoamento determina-se a viscosidade. No que diz respeito à viscosidade, esta define-se como uma medida reológica de resistência de um líquido ao fluir ou ao ser deformado, sendo que quanto maior esta propriedade, mais difícil é o movimento das partículas. Assim, alterações na viscosidade dos fluidos biológicos condicionam importantes consequências:

A viscosidade sanguínea parece estar relacionada com a morbilidade cardiovascular:

o

Alguns factores de risco das doenças cardiovasculares relacionam-se com o aumento da viscosidade sanguínea;

o

A viscosidade sanguínea está relacionada com a resistência circulatória periférica, que interfere com o funcionamento cardíaco.

A viscosidade do muco cervical altera-se de acordo com o ciclo menstrual, durante a gravidez, e por ação de contracetivos. Os filamentos do citoesqueleto demonstram caraterísticas reológicas próprias:

o O ácido hialurónico, sulfato de condroitina, sulfato de dermatano e sulfato de queratano são responsáveis pela viscosidade do tecido conjuntivo e interferem com a capacidade dos microorganismos causarem infeções.

Note-se que a viscosidade relativa pode ser medida fazendo-se escoar um determinado volume de líquido através de um tubo contendo um capilar numa ponta - como o volume escoado é o mesmo, o tempo de escoamento, de um líquido (b) relativamente ao de outro (a) permitirá calcular a viscosidade relativa (η), conhecendo-se a viscosidade relativa do primeiro (ρ).

Emulsões e detergentes

η(a) = ()

() × ρ(b)

As emulsões são partículas grandes, normalmente formadas pela emulsificação de agentes como lipídeos anfipáticos, os quais formam uma camada superficial que separa a massa principal do material apolar da fase aquosa.

As emulsões são estabilizadas pela viscosidade e por detergentes. No que concerne aos detergentes (também designados emulgentes, tensioativos, anfifílicos ou surfactantes), estes constituem moléculas com caraterísticas anfipáticas. Sais biliares, colesterol, fosfolipídeos, e sabões (sais de ácidos gordos) constituem exemplos de detergentes.

De referir que a concentração micelar crítica define-se como a concentração de tensioativo a partir da qual os lipídeos se agregam, formando micelas. Corresponde a mudança de propriedades.

Equilíbrio Óleo/Água

Para medir a afinidade de um composto para a água ou para o óleo (muitas vezes a água e octanol ou água com lipossomas), avalia-se o equilíbrio óleo/água, calculando-se a constante de partilha. Assim, a constante de partilha permite avaliar o grau de hidrofilia e lipofilia.

Quanto maior o valor, maior afinidade para substâncias apolares (lipofilia). Quanto menor, maior a afinidade para substâncias polares (hidrofilia).

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Compostos inorgânicos do organismo

Sódio

Principal

catião

do

meio

extracelular,

sendo

mantido

em

concentrações

estreitamente

reguladas.

Importante na condução de impulsos nervosos, no transporte de nutrientes e na regulação da volémia.

Potássio

Principal catião do meio intracelular, sendo mantido em concentrações estritamente reguladas. Alterações da sua concentração extracelular provocam arritmias. A deficiência de insulina pode provocar hipercaliémia, enquanto a hipocaliémia pode provocar hipoinsulinémia.

Cálcio

Principal elemento da fase mineral dos ossos (hidroxiapatite) e dentes. A sua concentração é regulada por ação de várias hormonas, tais como a paratormona (PTH), a calcitonina e a vitamina D. Participa em processos fisiológicos, tais como a contração muscular, a transmissão de sinais celulares, a divisão celular e a coagulação. Para além disso, este ião é cofator de algumas enzimas. A hipocalcemia reduz a secreção de insulina, comprometendo a utilização de glicose.

Fósforo

Constitui parte integrante de vários biomoléculas, tais como o ATP (e todas as moléculas fosforiladas), ácidos nucleicos e fosfolipídeos. Forma um sistema amortecedor de pH muito importante (tampão fosfato). Juntamente com o cálcio, integra a parte mineral dos ossos. A sua regulação faz-se, pois, a par com a de cálcio, estando dependente da acção da paratormona e vitamina D. A hiperfosfatemia constitui um fator de risco para doenças cardiovasculares.

Magnésio

Constitui o 4º catião mais abundante no organismo e o 2º no meio intracelular. Actua como cofator de algumas enzimas, sendo ainda necessário para o metabolismo ósseo. O magnésio e o cálcio desempenham ações tecidulares conjuntas, principalmente, na contração muscular e condução nervosa. Neste último caso, o magnésio é essencial na estabilização dos axónios neuronais, actuando, por exemplo, num sentido de bloquear a activação dos receptores NMDA. Níveis baixos de magnésio estão associados a um aumento da prevalência de síndrome metabólica.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Ferro

Existe fundamentalmente em duas formas, nomeadamente, ião ferroso (Fe 2+ ) e ião férrico (Fe 3+ ). No organismo, o ferro encontra-se maioritariamente associado a proteínas (metaloproteínas contendo ferro) sob a forma de ião ferroso. Nessas proteínas, o ferro encontra-se frequentemente integrado em grupos heme (tal como se verifica na hemoglobina). Em termos simplistas, é possível referir que o ferro se encontra distribuído por três compartimentos, nomeadamente:

o

Compartimento funcional a maioria do ferro do organismo encontra-se no compartimento funcional; dentro deste compartimento, a maioria do ferro encontra- se associada à hemoglobina (a qual é essencial para o transporte de oxigénio), de tal modo que a maioria do ferro no organismo é usada na produção de eritrócitos. O compartimento funcional de ferro inclui ainda a sua ligação à mioglobina, uma proteína envolvida no armazenamento muscular de oxigénio;

o

Depósitos de ferro na sua maioria, o ferro em depósitos encontra-se complexado com a ferritina;

o Compartimento de transporte no sangue, a maioria do ferro é transportado ligado à transferrina. Para além de ser constituinte de várias proteínas, o ferro actua como co-factor em várias reacções enzimáticas, sendo essencial em enzimas da fosforilação oxidativa, enzimas do sistema imunitário e enzimas da família do citocromo P450. As mulheres apresentam menor concentração de ferro por comparação com os homens, mesmo após ajuste para o peso tal deve-se parcialmente ao facto de as mulheres apresentarem perdas menstruais de ferro, por contraponto aos homens saudáveis. A sua deficiência leva a anemia ferropénica, enquanto o seu excesso é característico das hemocromotoses, condições genéticas resultantes de mutações em moléculas envolvidas no transporte e metabolismo do ferro. Verifica-se uma forte correlação entre a diminuição das concentrações plasmáticas de ferro e o aumento da adiposidade.

Cobre

Cofator de enzimas.

Envolvido em processos de oxidação-redução, particularmente na fosforilação oxidativa.

Acumula na doença de Wilson.

Um estudo recente revela que a acumulação de cobre nos vasos sanguíneos contribui para a patogénese da doença de Alzheimer.

Zinco

Cofator e parte integrante de domínios de proteínas (e.g. zinc fingers) Essencial à síntese de proteínas (nomeadamente de colagénio) e de ácidos nucleicos Participa em vias anti-inflamatórias As células β das ilhotas de Langerhans possuem grânulos irregulares com um centro formado de cristais irregulares de insulina complexados com zinco. A deficiência de zinco pode estar implicada na intolerância da glicose, diabetes, insulino- resistência, aterosclerose e doença coronária.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Manganês

Associa-se à actividade de diversas enzimas relacionadas com a defesa imunológica e com o stress oxidativo, tais como a dismútase do superóxido.

Está envolvido no metabolismo energético, proteico e lipídico.

Selénio

Incorporado em proteínas sob a forma de selenocisteína. Importante no funcionamento de várias enzimas, nomeadamente da classe das peroxídases, tais como a peroxídase do glutatião, que está envolvida em processos de eliminação de oxidantes. Os seus níveis plasmáticos co-relacionam-se inversamente com o risco de hipertensão arterial.

Cobalto

Iodo

Elemento presente na vitamina B12 (também designada por cianocobalamina), cuja deficiência origina anemia megaloblástica. São pacientes de risco para carência de vitamina B12 os (I) vegans; (II) gastrectomizados; (III) pacientes com anemia perniciosa (condição auto-imune caracterizada por destruição das células parietais); e (IV) pacientes com ileíte terminal.

Componente das hormonas tireoideias Défices de iodo resultam em bócio carencial, constituindo ainda um factor de risco para o desenvolvimento de carcinoma folicular da tireóide. O excesso de iodo (por exemplo, associado à intoxicação por amiodarona) pode induzir hipotireoidismo.

Silício

Aumenta a proliferação osteoblástica e, por isso, poderá eventualmente ajudar a prevenir a osteoporose. Estimula a síntese de colagénio tipo I. Ajuda a prevenir o enfarte do miocárdio. A excreção de silício parece estar relacionada com a excreção de alumínio. A Silicose constitui uma doença ocupacional que atinge sobretudo mineiros e pedreiros, cursando com deposição de poeiras de silício nos pulmões.

Alumínio

Tóxico, principalmente na gravidez (para o feto) e nos insuficientes renais. Poderá estar implicado na doença de Alzheimer.

Chumbo

A intoxicação por chumbo leva a fadiga, anemia, dor abdominal, insuficiência renal, encefalopatia e morte. Em doses menores, está associado a problemas de aprendizagem, redução de QI e violência.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Mercúrio

Duas formas principais:

 

o

Inorgânica (o vapor é rapidamente absorvido)

o

Orgânica

As intoxicações por mercúrio caraterizam-se por sintomas neurológicos.

Bioacumula na Natureza

Cádmio

Interfere com a função do cobre e do zinco; causa danos no rim, pulmões e, possivelmente, ossos. Relacionado com o aumento do risco de doenças cardiovasculares e neoplásicas, diabetes e osteoporose.

Equivalentes

Um equivalente grama é a fração de uma mole que corresponde a uma unidade definida da substância que participa numa reação química. O peso equivalente é essa mesma fração de peso molecular.

Normalidade = Molaridade x nº de moles de partículas postas em jogo

As partículas podem ser eletrões caso se trate de uma redox ou ácido-base.

= (1)

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Componentes químicos dos seres vivos

Os elementos químicos mais abundantes no homem e restantes seres vivos são o hidrogénio, o oxigénio, o carbono e o azoto. Estes elementos são os mais abundantes, devido à sua reatividade, capacidade de partilhar eletrões e ligações covalentes. Também se vão organizar de diferentes formas,

sendo que, conforme essa organização, constituem os constituintes dos glicídeos, ácidos nucleicos, proteínas e lipídeos. Note-se que 70% de uma célula bacteriana é constituída por água, correspondendo

os

restantes 30% a compostos químicos (maioritariamente proteínas).

Os

seres vivos são, então, distinguidos de acordo com:

Elevada complexidade química/organização microscópica; Sistemas de extração, transformação e utilização de energia do ambiente; Funções especializadas dos seus sistemas e regulação da interação entre eles; Mecanismos de deteção e resposta a alterações do ambiente; Capacidade de reprodução e evolução.

Água

A água, para além de ser o principal componente dos seres vivos,

caracteriza-se por ser uma molecular neutra e polar ou seja, atrai

moléculas hidrofílidas (polares) e repele moléculas hidrofóbicas (apolares).

Os seus eletrões distribuem-se assimetricamente dipolo. As moléculas de

água estabelecem ligações entre si e com outras moléculas através de pontes de hidrogénio. Para além disso, devido à sua natureza (dipolo e constante dielétrica), as moléculas de água rodeiam iões e moléculas polares, dissolvendo-as.

de água rodeiam iões e moléculas polares, dissolvendo-as. A água reveste-se da maior importância, uma vez

A água reveste-se da maior importância, uma vez que a maioria das reações intracelulares ocorre em meio aquoso.

Carbono

O carbono ocupa um lugar central na constituição dos seres vivos, apresentando capacidade de formar

quatro ligações, as quais podem ocorrer entre outros carbonos, originando cadeias lineares, cadeias ramificadas e anéis.

quais podem ocorrer entre outros carbonos, originando cadeias lineares, cadeias ramificadas e anéis. Página 12 de

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa Glicídeos Os glicídeos são moléculas constituídas por

Glicídeos

Os glicídeos são moléculas constituídas por carbono, hidrogénio e oxigénio (CnH2nOn), possuindo grupos aldeído, cetona e hidroxilo. As unidades básicas dos glicídeos são os monossacarídeos, cuja ligação forma polissacarídeos. Os glicídeos actuam como fonte e reserva de energia, desempenhando ainda um papel estrutural.

Lipídeos

energia, desempenhando ainda um papel estrutural. Lipídeos Os lipídeos são constituídos essencialmente por

Os lipídeos são constituídos essencialmente por carbono, hidrogénio e oxigénio (mas também por azoto, fósforo e enxofre). Estas moléculas organizam-se em ácidos gordos, os quais, por sua vez, podem se agrupar três a três (e juntar-se a uma molécula de glicerol), formando triglicerídeos.

Os lipídeos, sobretudo os fosfolipídeos constituem importantes constituintes da estrutura membranar. Os glicolipídeos, contendo um grupo polar e caudas hidrofóbicas, também fazem parte das membranas citoplasmáticas, sendo importantes no reconhecimento celular como receptores. Por fim, os esteroides (colesterol, ácidos biliares, hormonas esteroides e vitamina D) desempenham uma série de importantes funções hormonais e metabólicas. Note-se ainda que os lipídeos constituem uma importante fonte e reserva de energia.

Protídeos

Os proteídeos são constituídos por carbono, hidrogénio, oxigénio, azoto, fósforo e enxofre. A sua unidade é o ácido aminado. Os protídeos desempenham funções muito variadas no organismo (estrutural, enzimática, imune, hormonal e de sinalização, e constituição do osso e do músculo).

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Ácidos nucleicos

Os ácidos nucleicos são constituídos por carbono, hidrogénio, oxigénio, azoto e fósforo. A sua unidade é o nucleotídeo. Constituem funções dos ácidos nucleicos:

Formação de ácidos nucleicos (DNA/ RNA)

Transporte de energia química (ATP, GTP)

Participação em co-enzimas

Participação em processos de sinalização celular

(ATP, GTP) Participação em co-enzimas Participação em processos de sinalização celular Página 14 de 65

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Estrutura e papel biológico dos glicídeos

Estrutura bioquímica dos glicídeos

Quimicamente, os glicídeos são derivados aldeídicos ou cetónicos de poliálcoois, ou seja, poliálcoois, onde um grupo hidroxilo foi oxidado, perdendo dois átomos de hidrogénio. Dessa forma, podemo-nos referir às oses, ou monossacarídeos, unidades constituintes dos glicídeos, como sendo aldoses (quando

a oxidação ocorre ao nível do grupo hidroxilo do primeiro carbono) ou cetoses (quando a oxidação

ocorre ao nível do grupo hidroxilo do segundo carbono), com vários grupos hidroxilo e pelo menos três átomos de carbono (com apenas dois átomos de carbono não conseguimos ter vários grupos hidroxilos

livres, apenas, quando muito, um).

O grupo dos glicídeos subdivide-se em oses e osídeos. As oses, ou monossacarídeos são as unidades básicas dos glicídeos. São exemplos de oses a glicose, a galactose, a manose e a frutose. Os osídeos consistem em oses ligadas a outra coisa, podendo ser outras oses (holosídeos) ou algo que não seja uma ose (heterosídeos). Dentro dos holosídeos temos homopoli(oligo)sacarídeos, caso as unidades que se ligam sejam todas iguais ou

heteropoli(oligo)sacarídeos, se não forem todas iguais (ambos podem ou não ser ramificados). Relativamente aos osídeos, podemos classificá-los como dissacarídeos, de que são exemplo a sacarose,

a maltose e a lactose; oligossacarídeos, se tiverem entre 3 e 10 monossacarídeos, sendo que a maior

parte não é desdobrada pelas enzimas humanas e polissacarídeos, se deles fizerem parte mais do que

10 monossacarídeos. O amido e o glicogénio são polissacarídeos.

O amido e o glicogénio são polissacarídeos. As oses encontram-se frequentemente sob a forma cíclica,

As oses encontram-se frequentemente sob a forma cíclica, mais do que sob a forma linear. Para que estas moléculas passem à forma cíclica, dá-se uma ligação semiacetal (no caso de estarmos perante uma aldose) ou cetal (no caso de estarmos perante uma cetose), em que o grupo carbonilo reage com o grupo hidroxilo. Forma-se um carbono anomérico, visto que um carbono que não era assimétrico passou a sê-lo. Duas oses reagem, formando uma ligação acetal e libertando uma molécula de água. Essa ligação acetal estabelece-se entre o semiacetal e um álcool. Referimos que um determinado composto tem poder redutor, sempre que existe um carbono anomérico livre.

Classificação dos glicídeos em termos químicos e funcionais

A forma de classificação das oses já foi referida. Contudo, podemos ainda classificar as oses em termos

químicos e funcionais, ou seja de acordo com o número de carbonos e com a presença de um aldeído/cetona respectivamente. Dessa forma, as estruturas podem ser classificadas em trioses, tetroses, pentoses, hexoses e heptoses, de acordo com o número de carbonos presentes e aldoses ou cetoses, caso apresente um grupo aldeído ou cetónico. As duas classificações podem ser aplicadas simultaneamente a um monossacarídeo, por exemplo, a glicose é uma aldo-hexose.

Existem ainda os açúcares-álcoois (que ocorrem naturalmente nos alimentos) em que o grupo carbonilo foi reduzido, tendo sido originado um grupo álcool. Derivados dos glicídeos incluem os ácidos urónicos, ácidos aldónicos e aldáricos.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa Isomeria verificada nos glicídeos Existem vários tipos de

Isomeria verificada nos glicídeos

Existem vários tipos de isomeria verificada nos glicídeos. A glicose consegue formar 16 isómeros! As formas mais comuns de isomeria verificadas nos glicídeos são as que se seguem:

Isomeria D e L

As oses normalmente apresentam-se sob a forma D, embora também haja algumas que estejam naturalmente na forma L (nomeadamente a arabinose, a fucose e a xilulose). Esta isomeria

quiral (porque as moléculas D são as imagens espelho das imagens L) é fácil de detectar pela orientação do grupo hidroxilo do último carbono assimétrico. Quando este está orientado para

a direita, temos uma molécula do tipo D, por outro lado,

quando está orientado para a esquerda, temos uma molécula do tipo L. Todos os isómeros que não são quirais são diastroisómeros (o que inclui os epímeros). Existem estruturas D (-), D (+), L (-) e L(+), prendendo-se o + e o com a orientação que os carbonos assimétricos tomam quando iluminados com luz polarizada, representando o + a rotação para a direita (dizem-se destrógiros) e o para a esquerda (dizem-se levógiros). A frutose existe sobretudo sob a forma de D(-) e por isso também é designada por levulose, enquanto a glicose ocorre sobretudo sob a forma de D(+), sendo por isso designada por dextrose.

sob a forma de D(+), sendo por isso designada por dextrose. Piranose e furanose Quando os

Piranose e furanose

Quando os monossacarídeos assumem estruturas cíclicas, podem se dispor em estruturas pentagonais como furano, ou hexagonais como o pirano. A glicose ocorre em 99% sob a forma de piranose.

Anómeros α e β

O carbono anomérico é aquele em que, após se ter

instituído uma ligação semiacetal ou cetal passou a ser assimétrico, não o sendo anteriormente. A classificação de um monossacarídeo como sendo um anómero α ou β prende-se com a orientação do grupo OH no carbono

anomérico. Nos monossacarídeos do grupo D, temos estruturas α, quando o grupo OH está para baixo e β quando está para cima. Nos monossacarídeos do grupo - L é ao contrário.

OH está para baixo e β quando está para cima. Nos monossacarídeos do grupo - L

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Isomeria aldose-cetose

Isómeros em que uma das moléculas é uma aldose e a outra uma cetose. Por exemplo, a frutose e a glicose têm a mesma fórmula molecular, mas diferem na fórmula estrutural, visto a frutose ser uma cetose e a glicose ser uma aldose.

Epímeros

Epímeros são isómeros, onde a orientação dos grupos OH e H num dos carbonos 2,3 ou 4 (no caso das hexoses) difere, sendo inversa. Por exemplo, a glicose é um epímero da manose, devido a diferenças no carbono 2.

Principais formas de glicídeos nos alimentos

no carbono 2. Principais formas de glicídeos nos alimentos O amido é um polissacarídeo, mais propriamente

O amido é um polissacarídeo, mais propriamente um homopolissacarídeo ramificado, constituindo por

resíduos de glicose, e que se encontra frequentemente em cereais, batatas, leguminosas e outros vegetais, visto ser um importante polímero vegetal de reserva. O amido tem dois constituintes principais a amilose, com uma estrutura não-ramificante, constituída por ligações α 1->4 e a amilopectina,

consistindo em cadeias ramificantes, por ligações α 1->6.

A frutose está presente em elevadas concentrações na fruta, bem como em alguns vegetais. Contudo,

este monossacarídeo é igualmente a base de muitos adoçantes, estando presente em refrigerantes e

outros doces.

A sacarose (dissacarídeo constituído por resíduos de glicose e frutose, ligados por uma ligação

glicosídica α 1->2 e sem poder redutor), dado ser a molécula presente no vulgar “açúcar de mesa” está presente em muitos doces, sobremesas, refrigerantes… sendo também usada como conservante.

Naturalmente, a sacarose também se encontra no sorgo, nalgumas frutas e vegetais.

A lactose, por seu turno, é um dissacarídeo formado por resíduos de glicose e galactose (ligadas ligação

glicosídica β 1->4, sendo do tipo osídeo-ose), presente no leite e seus derivados.

ligação glicosídica β 1->4, sendo do tipo osídeo-ose), presente no leite e seus derivados. Página 17

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Digestão dos glicídeos

A digestão de glicídeos é feita por hidrólise (AB + H 2 O → A + B), permitindo libertar oligossacarídeos e posteriormente dissacarídeos e monossacarídeos, através da quebra das ligações glicosídicas, que ocorre mediada por enzimas. O índice de glicemia é o aumento dos níveis de glicose no sangue após uma dose de teste de glicídeos. A glicose e a galactose têm um índice de 1, algo que acontece também com a lactose, maltose, isomaltose e trealose, visto que por hidrólise estes oligossacarídeos originam os monossacarídeos acima referidos. A frutose, a sacarose e os açúcares-alcoóis dado serem absorvidos mais lentamente, têm um índice glicémico mais baixo. O índice glicémico do amido varia entre 0 e 1, algo que resulta dos níveis variáveis da hidrólise deste polissacarídeo. Os alimentos com menor índice glicémico são considerados mais benéficos para a saúde, visto provocarem menores flutuações nos níveis de secreção de insulina. O amido resistente e os polissacarídeos sem amidos fornecem substratos para a fermentação bacteriana no intestino grosso e o butirato resultante e outras pequenas cadeias de ácidos gordos fornecem energia para os enterócitos intestinais.

A hidrólise do amido é catalisada pelas amilases salivar e pancreáticas na cavidade oral e no intestino delgado, que actuam aleatoriamente nas ligações glicosídicas α(1->4) estabelecidas (sendo necessárias outras enzimas para quebrar as ligações α 1->6), resultando como produtos finais, maltotriose (trímero com 3 resíduos glicose ligados por ligações glicosídicas α-1,4), maltose, glicose e dextrina limite da amilopectina (oligossacarídeo formado por vários resíduos glicose sendo que dois deles estão ligados por uma ligação α->1,6).

Na cavidade oral, a amilase salivar transforma o amido em maltose e dextrina, após sucessivas quebras de ligação. Esta enzima funciona a um pH óptimo situado entre os 5.6 e os 6.9, sendo que o baixo pH existente no estômago inactiva a sua actividade.

No duodeno, os sucos pancreáticos libertados são ricos em amilase pancreática, que catalisam a hidrólise aleatória das ligações glicosídicas α(1->4) da amilina, resultando em maltose, maltotriose e dextrina. No lúmen do intestino, também o pH óptimo para as enzimas é próximo de 7. No intestino encontramos duas enzimas - maltase ->1,4 glicosídase) e a isomaltase ->1,6 glicosídase), que catalisam a hidrólise da maltose, maltotriose e dextrina limite. Já no lúmen intestinal, mais propriamente, próximo dos enterócitos, encontramos várias enzimas, nomeadamente a lactase -1,4 galactosídase, sendo que deficiência nesta enzima leva à ocorrência de intolerância à lactose, algo relativamente comum na população portuguesa) e a sacarase, que catalisam a hidrólise da lactose e da sacarose. Estas últimas enzimas são designadas ecto-enzimas, por actuarem fora dos enterócitos, apesar de serem enzimas da sua membrana citoplasmática.

Alguns glicídeos complexos que são componentes de plantas não são digeridos pelas enzimas presentes na saliva, no estômago ou no intestino delgado e não são absorvidos. Passam para o intestino grosso (cólon) onde podem ser parcialmente digeridos pelas bactérias do intestino e são importantes componentes das fezes. Estes glicídeos são colectivamente designados por fibras.

Absorção de glicídeos ao nível dos enterócitos

Os enterócitos são as células que ao nível do intestino delgado realizam a absorção dos monossacarídeos. Como estes são substâncias muito hidrofílicas e de dimensões consideráveis, não atravessam a membrana celular por transporte simples, sendo necessário o recurso a transportadores, neste caso por transporte activo. A glicose e a galactose são absorvidas graças a um processo de transporte activo secundário, dependente de sódio, sendo transportadas pela mesma proteína transportadora presente no pólo basal dos enterócitos (SGLT 1 - Sodium dependent GLucose Transporter

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

1) e competindo pela absorção intestinal. Assim, a glicose e a galactose podem entrar para o meio intracelular contra o gradiente de concentração pelo transportador SGLT1 (este é um simporter, porque só funciona se transportar duas substâncias diferentes na mesma direcção mas o transporte só é possível se, pelo menos, o transporte de uma das substâncias ocorrer a favor de gradiente, o que neste caso acontece com o sódio).

simporter está então

neste caso acontece com o sódio). simporter está então Este dependente da presença de um gradiente

Este

dependente da presença de um gradiente de sódio, algo que é gerado pela bomba de sódio e potássio, que expulsa sódio para o meio extracelular, permitindo que o sódio depois entre para o meio intracelular a favor do gradiente. Como o

transporte de glicose só ocorre à conta da bomba de sódio e potássio, diz-se que estamos na presença de transporte secundário. Por seu turno, o transporte ocorrido ao nível da bomba de sódio e potássio é transporte primário. Relativamente à frutose, este monossacarídeo entra a favor do gradiente de concentração por difusão facilitada, através de uma proteína, o GLUT5.

Estes monossacarídeos (a glicose, a galactose e a frutose) vão ser expulsos do enterócito, do seu pólo basal, mas desta vez para os capilares sanguíneos, através de um processo de difusão facilitada operada pelo transportador GLUT2 (os GLUTs são transportadores uniporters).

A transcrição do gene que codifica o SGLT1 aumenta quando a concentração de glicose é elevada no lúmen intestinal. Ou seja, a síntese de SGLT1 aumenta (lentamente) após uma refeição que contenha glicose ou glicídeos que a possam gerar, mas não é afectada pela glicemia. O mesmo acontece no caso do GLUT5, aquando da ingestão de frutose. Dessa forma, aquando de uma menor ingestão de glicídeos, está presente uma menor quantidade de SGLT1. Ora, a não-entrada de sódio e glicose para os enterócitos, leva a que não ocorra, consequentemente, a entrada de água por osmose, para estas células, através de aquaporinas. Isto leva a que grandes quantidades de água sejam expulsas, por diarreias agudas, um importante factor de mortalidade infantil nos países sub-desenvolvidos.

Importância da flora microbiana

Alguns glicídeos complexos que são componentes de plantas não são digeridos pelas enzimas presentes na saliva ou no intestino delgado e não são absorvidos. Passam para o intestino grosso (cólon) onde podem ser parcialmente digeridos pelas bactérias do intestino e são importantes componentes das fezes. Essas bactérias, genericamente designadas por flora intestinal, estabelecem com os seres humanos uma relação simbiótica, permitindo a fermentação parcial de substratos para os quais não temos enzimas, transformando esses complexos em cadeias curtas de ácidos gordos, de extrema importância para as células (estas cadeias incluem ácido acético, propiónico, isobútrico, isovalérico e valérico), facilitam a distinção, pelo sistema imunitário, de bactérias patogénicas e produzem biotina e vitamina K. Podemos designar as bactérias da flora intestinal, na sua generalidade, como probióticas, por apresentarem frequentemente efeitos positivos para o hospedeiro. Para estimular o desenvolvimento da flora microbiana, ingerem-se frequentemente substâncias não digeríveis que se designam por pré-bióticas.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Estrutura e papel biológico dos lipídeos

Os lipídeos são um grupo heterogéneo de compostos, relativamente insolúveis em água e solúveis em solventes não polares. Estes desempenham funções ao nível da regulação térmica, do isolamento eléctrico dos axónios dos nervos mielinizados, da estrutura de membranas biológicas e de moléculas envolvidas na sinalização. Os lipídeos são armazenados no tecido adiposo, sob a forma de triacilglicerídeos, que constituem uma importante fonte de energia.

Os lipídeos são constituídos por ácidos gordos, cadeias de hidrocarbonetos que podem ser saturadas, caso não apresentem duplas ligações, ou insaturadas, caso apresentem uma ou mais duplas ligações, que no caso dos lípidos naturais apresentam-se sempre na configuração cis. As cadeias insaturadas têm efeitos mais benéficos para a saúde que as saturadas, nomeadamente os ácidos gordos das séries ω-3 e ω-6.

Comportamento dos lipídeos no meio aquoso

Como já foi referido, os lipídeos são geralmente insolúveis em água, contudo, os fosfolípidos, esfingolípidos e os sais biliares apresentam uma parte hidrofílica e uma parte hidrofóbica, sendo por isso consideradas moléculas anfipáticas. Isto permite que estes lípidos possam estar presentes ou ser transportados em meio aquoso.

Quando temos lipídeos “cilídricos”, como os fosfolípidos, temos a formação de bicamadas, que depois originam estruturas esféricas, por pressões hidrofóbicas. Já os lípidos em cunha tendencialmente

originam

nomeadamente, quando se atinge uma concentração de lípidos, designada por concentração micelar crítica. Os lipossomas são esferas de bicamadas lipídicas, que enclausuram parte do meio aquoso, podendo ser unilamelares ou multilamelares, dependendo do número de bicamadas que os constituem. Por último, as emulsões são partículas de maiores dimensões formadas por lípidos não-polares e que estão presentes em meio aquoso. Para ocorrer a formação de emulsões, é necessária a presença de agentes emulsionantes, como lipídeos anfipáticos.

micelas,

emulsionantes, como lipídeos anfipáticos. micelas , Triacilglicerídeos Os triacilglicerídeos (também

Triacilglicerídeos

Os triacilglicerídeos (também designados, de forma menos correcta, por triglicerídeos) são moléculas compostas por um glicerol e três ácidos gordos (sendo os ácidos gordos mais comuns, nos triacilglicerídeos ingeridos, o ácido oleico, o ácido palmítico e o ácido linoleico), ligados por ligações éster, sendo lipídeos particularmente importantes. Os monoacilglicerídeos e os diacilglicerídeos são igualmente passíveis de ser encontrados nos tecidos, contribuindo para a síntese de triacilglicerídeos.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Os

carbonos dos triacilglicerídeos são numerados através do sistema sn (stereochemical numbering),

ou

seja, referimo-nos a um dado carbono como sendo o sn-1, sn-2 ou sn-3. Isto porque as enzimas

distinguem os carbonos, sendo geralmente específicas para um determinado carbono (por exemplo, a

cínase do glicerol, fosforila o glicerol apenas no sn-3, originando glicerol-3-fosfato).

o glicerol apenas no sn- 3, originando glicerol-3-fosfato). Digestão e absorção de triacilglicerídeos A nossa

Digestão e absorção de triacilglicerídeos

A nossa alimentação inclui lípidos sob a forma de triacilglicerídeos, colesterol e, em menor

representatividade, fosfolípidos (nomeadamente a fosfatidilcolina, ou lecitinas moléculas formadas por glicerol, ácidos gordos, fosfato e colina). Encontramos lipídeos em óleos animais (nomeadamente os óleos de peixe, são ricos em cadeias de ácidos gordos insaturadas), óleos vegetais e na carne. Ao longo do processo digestivo, os lípidos são hidrolisados por estérases e emulsionados até à formação de

micelas, forma pela qual estes e as vitaminas lipossolúveis (vitaminas A, D, E e K) são absorvidos. De referir que, apesar das complicações que um excesso da ingestão de lípidos pode acarretar, estes são necessários na nossa alimentação, numa concentração mínima que facilite a absorção das vitaminas lipossolúveis.

A hidrólise dos triacilglicerídeos inicia-se ainda na cavidade oral, onde a lipase lingual quebra a ligação éster sn-3, levando à libertação de ácidos gordos livres e 1,2-diacilglicerídeos. Esta enzima é segregada pelas glândulas de Ebner, localizadas na língua e o seu pH óptimo situa-se entre o 4,5 e o 5,4. A mesma função é desempenhada pela lipase gástrica, segregada pelas células principais do estômago e cujo pH óptimo se situa entre o 3 e o 6.

A lipase pancreática é libertada ao nível do intestino delgado e, dado ser uma lipase alcalina, necessita

da presença de outra proteína pancreática, a colipase, de modo a poder levar a cabo a sua actividade (a

colipase é segregada na sua forma inactiva, como pró-colipase e a activação é levada a cabo pela tripsina). Esta lipase está então envolvida na hidrólise de ligações éster primárias (ou seja, nas posições 1 e 3 dos triacilglicerídeos), levando à produção de 2-monoaciglicerídeos e de ácidos gordos livres. Os 2-monoacilglicerídeos podem ser hidrolisados, originando glicerol e ácidos gordos, por acção da esterase dos ésteres de colesterol, uma enzima altamente inespecífca. Contudo, isto verifica-se numa

pequena percentagem de moléculas.

Quer os monoacilglicerídeos, quer os ácidos gordos livres são considerados produtos finais principais da digestão de triacilglicerídeos, pois os monoacilglicerídeos raramente são completamente hidrolisados (menos que 25% destas moléculas são completamente hidrolisados em ácidos gordos e glicerol).

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

A emulsão dos lípidos é possível graças aos sais biliares. Estes são produzidos no fígado e armazenam-se na vesícula biliar, sendo libertados para o intestino delgado. A emulsão (diminuição do tamanho das gotículas de gordura) ocorrida é possível, graças às lecitinas e colesterol presentes na bílis (que são, como referido, moléculas anfipáticas e daí poderem actuar como agentes emulsionantes). Como as micelas formadas, aquando desta emulsão, são solúveis (“micelas mistas”), é possível o seu transporte através do lúmen intestinal (um meio aquoso) e a sua absorção no pólo apical das células do epitélio intestinal (a passagem dos lipídeos para as células do enterócito faz-se sobretudo sem recorrer a transportadores proteicos). Dentro do epitélio intestinal, os 2-monoacilglicerídeos são reacilados, originando triacilglicerídeos, através da via dos monoacilglicerídeos.

O glicerol libertado no lúmen intestinal não é reutilizado, mas passa para a veia porta, enquanto o

glicerol libertado dentro dos enterócitos é reutilizado para a síntese de triacilglicerídeos, através da via dos ácidos fosfatídicos. Já os sais biliares, que foram necessários para a emulsão dos lípidos, passam

para o ílio, onde são absorvidos na circulação enterohepática.

Nas células da mucosa intestinal, os ácidos gordos de cadeia longa (ácidos gordos com mais que dez átomos de carbono) são esterificados, originando triacilglicerídeos e, juntamente com outros produtos

da digestão lipídica, são segregados na corrente linfática, sob a forma de quilomicra (grandes partículas lipoproteicas que consistem em triacilglicerídeos, fosfolípidos, colestrol e proteínas e que transportam

os lípidos dos intestinos até aos restantes tecidos do corpo), entrando para a corrente sanguínea através do canal torácico.

Já os ácidos gordos de cadeia curta e média são principalmente absorvidos ao nível da veia porta do

fígado, como ácidos gordos livres. Todavia, a presença deste tipo de ácidos gordos na dieta é rara e eles

são sobretudo produzidos ao nível das bactérias da flora intestinal, no cólon. Parte dos ácidos gordos de cadeia curta absorvidos ao nível do colonócito são utilizados para nutrição da própria célula, enquanto os restantes passam para a corrente sanguínea. Pensa-se que os ácidos curtos de cadeia curta desempenhem um papel importante na prevenção do cancro do cólon, ao impedir que os colonóctios se convertam em células tumorais.

Digestão e absorção de colesterídeos e fosfolipídeos

Na hidrólise de colesterídeos, temos a intervenção da estérase dos ésteres de colesterol, segregada pelas células acinares do pâncreas. Da sua acção resulta a formação de colesterol e ácidos gordos, contudo, a elevada inespecificidade desta enzima, leva a que esta actue na hidrólise de outros ésteres e das ligações amida dos esfingolipídeos. O colesterol é absorvido, dissolvido em micelas lipídicas e é esterificado principalmente na mucosa intestinal, antes de ser incorporado em quilomicra. O colesterol não-esterificado e outros esteróis são transportados activamente para fora das células da mucosa até ao lúmen intestinal. Os esteróis e estanóis vegetais competem com o colesterol pela esterificação, sendo, apesar disso, substratos pobres. Dessa forma, estas substâncias reduzem a absorção de colesterol e permitem a diminuição dos seus níveis séricos.

Já quanto à hidrólise dos fosfolipídeos, esta ocorre por acção da fosfolipase de tipo A2, que catalisa a

formação de ácidos gordos e lisofosfolipídeos (glicerofosfolipídeos, sem ácido gordo no segundo carbono). A fosfolipase do tipo A2 é segregada na sua forma inactiva, como pró-fosfolipase. A activação destas substâncias é levada a cabo, mais uma vez, pela tripsina.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

da Universidade do Porto Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa Página 23 de

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Estrutura e papel biológico das proteínas

As proteínas são biomoléculas essenciais ao funcionamento do organismo, desempenhando um papel vital em termos estruturais, enzimático e de sinalização celular. Estas são compostas por 21 aminoácidos standard, podendo estes sofrer alterações, após a síntese proteica, originando aminoácidos non-standard. Nos peptídeos, os aminoácidos estão ligados por ligações peptídicas, ligações amida entre um grupo carboxilo e um grupo amina, sendo que essas ligações têm de ser quebradas ao nível da digestão proteica.

têm de ser quebradas ao nível da digestão proteica. Relativamente aos aminoácidos standard presentes nas

Relativamente aos aminoácidos standard presentes nas proteínas, estes são todos de tipo L, com excepção a glicina o aminoácido mais simples que, como apresenta apenas dois carbonos, não tem enantiómeros. De resto, os aminoácidos contêm todos um grupo carboxilo (- COOH), um grupo amina (-NH 2 ) e uma “cadeia lateral”, que é muito variável.

Digestão de proteínas

A maior parte das proteínas por nós ingerida (na carne, peixe, lacticínios, ovos e vegetais) já apresenta poucas ligações acessíveis às enzimas que catalisam a hidrólise das ligações peptídicas, visto que o aquecimento dos alimentos (aquando da cozedura) e a acção do ácido gástrico, na cavidade estomacal, desnatura uma grande quantidade de proteínas.

As proteases (enzimas digestivas proteolíticas) são segregadas como zimogénios inactivos (um zimogénio, também designado por proenzima, é um precursor enzimático, que se encontra sob a forma inactiva e que, para se tornar numa enzima activa, requer uma mudança bioquímica), onde o centro activo da enzima se encontra “camuflado” por uma pequena cadeia peptídica. Esta cadeia é removida pela hidrólise de uma ligação peptídica específica, levando à formação de uma enzima activa.

específica, levando à formação de uma enzima activa. Existem duas grandes classes de proteases, que diferem

Existem duas grandes classes de proteases, que diferem no tipo de ligações peptídicas em que actuam. As endopeptidases hidrolisam ligações entre aminoácidos específicos, sendo as primeiras enzimas a actuar. Nesta classe inclui- se a pepsina, presente nos sucos gástricos e que catalisa a hidrólise de ligações peptídicas adjacentes a metionina, aminoácidos de cadeia ramificada e aminoácidos de cadeia aromática. A pepsina, cuja síntese é estimulada pela gastrina, é segregada sob a forma de pepsinogénio (um zimogénio), que é activado

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

pelo ácido gástrico e pela própria pepsina activa (quando isto acontece, dizemos que estamos na presença de uma autocatálise. Uma autocatálise é

entendida genericamente como um processo, em que o produto da reacção catalisa a própria reacção; neste caso, a forma activa da enzima activa a forma inactiva). De referir que esta enzima

é produzida pelas células principais do estômago

(assinaladas na imagem da direita com um “C”) e actua a um pH óptimo situado entre 1,5 e 2. Este pH é atingido graças à presença de ácido clorídrico nos sucos gástricos, por acção das células parietais do estômago (assinaladas na imagem da direita com um “P”), segundo o processo descrito no esquema seguinte:

“P”), segundo o pr ocesso descrito no esquema seguinte: A tripsina, a quimotripsina e a elastase
“P”), segundo o pr ocesso descrito no esquema seguinte: A tripsina, a quimotripsina e a elastase

A tripsina, a quimotripsina e a elastase são também endopeptidases, contudo, estas são segregadas pelo

pâncreas (pelas suas células acinares) para o intestino delgado (nomeadamente para o duodeno) e actuam a um pH óptimo mais alcalino (rondando os 8-8,5). A tripsina catalisa a hidrólise dos ésteres de lisina e arginina; a quimotripsina, a hidrólise dos ésteres de aminoácidos aromáticos e a elastase, a hidrólise de ésteres de pequenos aminoácidos alifáticos neutrais. A tripsina é segregada sob a forma de tripsinogénio, que é activado pela enteropeptidase (também designada por enterioquinase), segregada pelas células epiteliais do duodeno (sendo por isso uma ectohidrólase). A tripsina, por sua vez, activa o quimotripsinogénio (levando à formação de quimotripsina) e a proelastase (em elastase).

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

O pH alcalino no duodeno deve-se à presença do bicarbonato nos sucos pancreáticos e biliar. A

produção de bicarbontato, nas células dos canalículos pancreáticos, deve-se à dissociação do ácido carbónico, produzido pela anidrase carbónica. A secretina estimula à secreção de bicarbonato e é produzida pelas células endócrinas do epitélio intestinal. Apesar de a secretina estimular também a secreção de enzimas digestivas, a enzima mais importante neste aspecto é a colecistocinina, também ela sintetizada nas células do epitélio intestinal e que adicionalmente também estimula a contracção da vesícula biliar, para se poder dar a libertação da bílis no duodeno.

Relativamente às exopeptidases, estas enzimas catalisam a hidrólise de ligações peptídicas, nas extremidades dos péptidos. As carboxipeptidases, segregadas nos sucos pancreáticos, libertam aminoácidos, a partir do terminal carboxilo, enquanto as aminopeptidases, que podem segregadas

pelas células da mucosa intestinal, ou actuar dentro do enterócito, gerando aminoácidos livres a partir

do terminal amina. As procarboxipeptidases e as proaminopeptidases originam, por activação (levada a

cabo pela tripsina), respectivamente carboxipeptidases e aminopeptidases (as proaminopeptidases só geram aminopeptidases, quando actuam fora do enterócito).

Já no pólo apical das células da mucosa intestinal encontramos dipeptidases e tripeptidases, que

catalisam a hidrólise de dipeptídeos e tripeptídeos, respectivamente, dado estes não serem substratos, quer para as carboxipeptidases, quer para as aminopeptidases.

De referir que as peptidases digestivas não catalisam apenas a hidrólise das proteínas que são ingeridas! Estas enzimas hidrolisam também as proteínas presentes nas células da mucosa, (de forma a assegurar a sua renovação) e a das próprias enzimas digestivas, como já foi referido.

Absorção de peptídeos

O produto final da acção das endopeptidases e exopeptidases é um conjunto de aminoácidos livres,

dipeptídeos, tripeptídeos e oliogopeptídeos, sendo todos estes produtos absorvidos. Os aminoácidos

livres são, na sua maioria, absorvidos ao nível do pólo apical dos enterócitos (cujas microvilosidades presentes na membrana são designadas por “bordadura em escova”), graças a um transportador activo dependente de sódio (os aminoácidos básicos são excepção, sendo o seu transporte independente do

de sódio), sendo o transporte assegurado por uma grande diversidade de transportadores (classificados

como simporters), de acordo com a cadeia lateral do aminoácido em causa (estes têm em conta as suas dimensões e o facto de serem ácidos, neutros ou básicos). O transporte aqui diz-se secundário, porque está dependente de um gradiente de sódio criado pela bomba de sódio e potássio (transporte primário). De referir que os diversos aminoácidos competem uns com os outros pela absorção e entrada nos tecidos. A saída da maior parte dos aminoácidos do pólo basal dos enterócitos é feita por uniporters e não depende do transporte de outros iões inorgânicos.

Relativamente aos dipeptídeos e tripeptídeos, estes entram pelo pólo apical dos enterócitos, através do transportador PEPT1, um simporter inespecífico, que acopla à passagem de di- e tripeptídeos, a passagem de protões para o interior dos enterócitos. De referir que os protões têm tendência para entrar para o meio intracelular, devido à presença de um trocador, que permite a troca de um protão que sai dos enterócitos, por um ião sódio, que entra. No interior dos enterócitos, os dipeptídeos e tripeptídeos são hidrolisados a aminoácidos livres, por peptidases, como já foi referido, entrando depois nas células hepáticas através da veia porta.

Os

peptídeos de maiores dimensões podem ser absorvidos intactos, por pinocitose, quer entrando para

as

células do epitélio intestinal (absorção transcelular), quer passando por entre estas (absorção

paracelular).

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

A absorção de peptídeos de maiores dimensões é um processo mais frequente nos bebés que nos indivíduos de idade adulta e muitas vezes, as dimensões destes peptídeos são suficientes para despoletar a formação de anticorpos, levando ao desenvolvimento de reacções alérgicas a alimentos. A maior parte dos peptídeos de grandes dimensões é destruída, contudo, parte é digerida e uma fracção chega ainda intacta à corrente sanguínea só assim é possível explicar que nos bebés que se alimentam do leite materno, ocorra passagem de anticorpos da mãe para a corrente sanguínea do filho.

alimentam do leite materno, ocorra passagem de anticorpos da mãe para a corrente sanguínea do filho.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Proteínas de ligação ao DNA e seus domínios funcionais

No núcleo celular, ocorre a replicação e a transcrição do DNA, processos dependentes da ligação a proteínas. Existem várias proteínas capazes de estabelecer ligação ao DNA (nomeadamente

à sua periferia), sendo estas genericamente designadas por DNA

binding proteins. Em termos estruturais, estas proteínas podem ter estrutura secundária em α-hélice, mas as folhas pragueadas β

e ansas de aminoácidos também conseguem reconhecer a dupla hélice de DNA.

As DNA binding proteins estabelecem ligações com as bases expostas no sulco maior da cadeia de DNA, dispondo, assim, de acesso às bases no interior da molécula de DNA sem necessitarem de a desnaturar. O DNA e as proteínas em questão estabelecem vários tipos de ligações (ligações iónicas, pontes de hidrogénio e interacções hidrofóbicas), as quais podem ser muito específicas, formando uma espécie de “velcro”. Note-se que a estrutura tridimensional do DNA pode variar ligeiramente conforme a sequência de nucleotídeos - a ligação das proteínas ao DNA pode alterar essa conformação.

Domínios de ligação ao DNA

alterar essa conformação. Domínios de ligação ao DNA A helix-turn-helix é um domínio comum de ligação

A helix-turn-helix é um domínio comum de ligação ao DNA, sendo composta por duas hélices α e um

grupo turn em ângulo fixo, sendo que uma hélice - a hélice de reconhecimento -, liga-se ao sulco maior do DNA. Um caso particular de helix-turn-helix é o homeodomain, observado nos repressores

bacterianos. O basic helix-loop-helix é uma variante de helix-turn-helix, onde duas hélices estão conectadas por um loop.

O zinc-finger é o motivo mais abundante de ligação nos animais. Tem um átomo de zinco a unir vários

resíduos de aminoácidos (entre 23 e 28), os quais tipicamente se organizam numa hélice α (presente no sulco maior e com funções de reconhecimento) e numa folha pragueada β. Existem, contudo, milhares

de zinc fingers já identificados.

O leucine zipper consiste em duas hélices α de DNA unidas por interações hidrofóbicas ao nível das

leucinas. Está associado à expressão de genes.

unidas por interações hi drofóbicas ao nível das leucinas. Está associado à expressão de genes. Página

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Os heterodímeros são o resultado da junção entre os leucine zipper e as basic helix-loop-helix, tendo diferente especificidade de ligação ao DNA. Contudo, o número de combinações em cada célula é limitado, dependendo sempre da sequência de aminoácidos em cada cadeia. Os heterodímeros expandem o reportório de sequências de DNA que as proteínas de regulação génica podem recorrer, sendo que diferentes combinações nos heterodímeros dos factores de transcrição aumentam as alternativas de regulação genética.

aumentam as alternativas de regulação genética. O AP1 constitui um exemplo de um heterodímero, na medida

O AP1 constitui um exemplo de um heterodímero, na medida em que é constituído por duas subunidades distintas c-Jun e c-fos. O domínio leucine zipper do AP1 interage com o NFAT tais interacções permitem que estas duas proteínas se liguem cooperativamente ao DNA, regulando a transcrição do gene que codifica para a interleucina 2.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Glicosilação e glicação de Proteínas

As glicoproteínas são proteínas que contêm cadeias de oligossacarídeos covalentemente ligadas a cadeias laterais de polipeptídeos. Existem variadas glicoproteínas com inúmeras funções associadas, tais como:

Modulação de várias propriedades físico-químicas proteicas, tais como a solubilidade, viscosidade, carga, conformação, desnaturação e locais de ligação. Protecção contra a proteólise: Muitas das proteínas que estão em circulação no sangue são ricas em ácido siálico, ou seja, são sialoproteínas. Ora, o ácido siálico protege essas proteínas da proteólise, na medida em que a sua perda em ácido siálico resulta na sua remoção com subsequente ligação a receptores hepáticos e degradação. Influência na inserção nas membranas, migração intracelular e secreção algumas proteínas (incluindo enzimas intervenientes na digestão) encontram-se ligadas às membranas por uma âncora de glicosifosfatidinositol (GPI). Nestes casos, as proteínas estão ligadas à membrana, mas não se encontram fixas, podendo ser recrutadas quando necessário. Influência no desenvolvimento embrionário e diferenciação, como evidenciado pelo facto de a gonadotrofina coriónica humana (hCG) ser uma glicoproteína. Possibilidade de alteração da capacidade e local de metastização de determinados carcinomas. Note-se que uma das formas dereconhecer as células neoplásicas prende-se com o tipo e quantidade de açúcares que lá estão presentes . Para isso, utiliza-se uma reação que envolve o reagente de PAS ou o reagente de Schiff e reconhece a presença de glicídeos, permitindo, assim, identificar as células neoplásicas.

Normalmente, a membrana

plasmática é assimétrica, ou seja, a distribuição dos elementos não é igual nos dois folhetos. No caso dos açúcares,

a parte glicídica está

normalmente voltada para o exterior, quer no caso dos glicolipídeos quer no das glicoproteínas. Isto explica porque é que os glicídeos actuam frequentemente como determinantes antigénicos, sendo reconhecidos por anticorpos e desencadeando

ligações antigénio-anticorpo. A

título de exemplo, destaque para o sistema sanguíneo ABO - a diferença entre os diferentes grupos

sanguíneos (grupo A, B ou O) prende-se com a existência e tipo de glicídeo expresso à superfície dos eritrócitos.

tipo de glicídeo expresso à superfície dos eritrócitos. Existe ainda uma outra glicoproteína importante presente na

Existe ainda uma outra glicoproteína importante presente na membrana dos eritrócitos - a glicoforina. A

porção peptídica da glicoforina encontra-se associada a vários resíduos de ácido siálico, os quais desempenham funções de reconhecimento e de prevenção da adesão celular.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa Estrutura bioquímica das glicoproteínas Os principais

Estrutura bioquímica das glicoproteínas

Os principais glicídeos encontrados nas proteínas humanas são:

Glicose

Galactose

Manose

Ácido N-acetilneuramínico (ácido siálico)

Fucose (desoxi-galactose)

N-Acetilgalactosamina

N-Acetilglicosamina

Xilose

Glicosilação

O processo de adição de um componente glicídico a uma proteína, que ocorre para a formação de

glicoproteínas, denomina-se glicosilação. Não obstante, a glicosilação também pode ocorrer em lipídeos, glicanos e outras moléculas orgánicas. A ligação de glicídeos a protídeos pode ser mediada por

um átomo de azoto da cadeia lateral (N-glicosilação) ou por um átomo de oxigénio (O-glicosilação). Note-se que o azoto habitualmente pertence à asparagina e o oxigénio normalmente encontra-se num residuo de serina.

A O-glicosilação ocorre após a tradução proteíca no complexo de Golgi e, dependendo do açúcar

adicionado, pode ser de vários tipos, tais como O-glicosilação, O-xilolisação, O-manosilação, e O-N- acetilgalactosaminação.

Por seu turno, a N-glicosilação ocorre durante a tradução proteíca, no retículo endoplasmático rugoso (ou citoplasma) e complexo de Golgi. Neste processo, intervem o dolicol, o qual é uma cadeia alifática ramificada contendo ligações duplas. O dolicol actua como um suporte, ancorando uma série de monossacarídeos que vão sendo progressivamente adicionados através de processos enzimáticos. Uma

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

vez formado um oligossacarídeo contendo 14 monossacarídeos, este é transferido em molécula da molécula de dolicol para a um resíduo de aspargina de uma proteína recém-formada (permitindo assim a sua glicosilação).

recém-formada (permitindo assim a sua glicosilação). Glicação Contrariamente à glicosilação, a glicação

Glicação

Contrariamente à glicosilação, a glicação (globalmente também chamada de reação de Maillard) constitui um processo não-enzimático de adição de glicídeos, por exemplo, a proteínas. A reação de Maillard foi descrita em 1908 por Ling & Malting, que estudaram a formação de cor na cerveja. Em 1912, Louis-Camille Maillard descreveu a reação entre açúcares redutores e grupos amina que leva ao aparecimento de cor castanha, tendo sido o primeiro autor a perceber a sua importância.

A hemoglobina, uma proteína presente nos eritrócitos, pode ser alvo da reacção de Maillard, originando uma forma glicada. A hemoglobina glicada (HbA1c) foi considerada inicialmente um artefacto, sendo que apenas em 1967 foi estabelecida a sua relação com a diabetes. De facto, é possível estabelecer uma relação entre a percentagem de HbA1c e os valores glicémicos médios nos últimos três meses assim, a percentagem de HbA1c permite ao médico avaliar o controlo glicémico do paciente nos últimos três meses.

de HbA1c permite ao médico avaliar o controlo glicémico do paciente nos últimos três meses. Página

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Fases da glicação

Fase inicial Condensação

- Grupo amina e grupo carbonilo

- Formação da Base de Schiff (horas)

Rearranjo de Amadori (Cetosamina) (dias) Fase avançada -

-

Degradação do produto de Amadori (semanas) - Formação de Carbonilos reativos (RCC reactive carbonyl compounds) Fase final

- Carbonilos reagem com aminas

- Formação de melanoidinas

- Formação de AGE’s

AGE’s

Formação de melanoidinas - Formação de AGE’s AGE’s A reação de Maillard está envolvida na formação

A reação de Maillard está envolvida na formação de AGE’s produtos finais da glicação avançada -, os quais podem estar envolvidos em:

Angiopatia diabética

Aterosclerose e doença cardiovascular

Retinopatia diabética

Doença de Alzheimer

Nefropatia diabética

Envelhecimento

Outras complicações da diabetes

Complicações da insuficiência renal

Alterações de colagénio Carcinomas

da diabetes Complicações da insuficiência renal Alterações de colagénio Carcinomas Página 33 de 65

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Para além disso, os AGE’s podem levar à alteração da estrutura do colagénio e elastina (por aumento do os cross-links) e provocar a interação com recetores de AGE’s (RAGE), desencadeado uma resposta inflamatória ou a libertação de factores de crescimento.

Defesa contra AGE’s

Filtração renal

Ação de enzimas

- Glioxálase I

- Redútases dos aldeídos

- Desidrogénsases de aldeídos

- Cínase do fosfato-3 de frutosamina

Amadoriase (oxídases de frutosamina) Recetores para AGE

-

-

RAGE

-sRAGE (esRAGE (endógeno + sRAGE (por quebra proteolítica)))

Dieta (glicose e AGE’s)

Antioxidantes Inibidores de AGE -Piridoxina (Vit B 6 )

- Carnosina (antioxidante e bloqueia RCC)

- Metformina (baixa glicemia e ativa anti-oxidantes)

- OPB 9195

- Benfotiamina (derivado Vit B 1 )

- Aminoguanidina

Destruidores de ligações cruzadas (crosslink breakers)

- Sais fenaciltiazólicos (ALT-711 Alagebrium)

- Derivados 1,3 - tiazólicos Recetores solúveis para AGE (sRAGE) Antagonistas do RAGE (TTP488 e TP4000)

Não obstante, os AGE’s também desempenham papéis benéficos:

AGE-RAGE via NF-kB

- Regeneração de fibras musculares

- Regeneração nervosa

RAGE

- Mixed bag of injury and repair

- Essencial para o funcionamento dos linfócitos T

Síntese de colagénio?

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Enzimas e química clínica

Em termos genéricos, a acção enzimática pode ser descrita pela seguinte equação:

Enzima (1) + substrato (2) ↔ enzima +produto

Os processos enzimáticos são ubíquos no organismo, de tal modo que algumas condições patológicas (e.g. defeitos enzimáticos genéticos) se caracterizam por alteração dos mesmos. Não admira, por isso, que na prática clínica seja recorrentemente necessário proceder ao doseamento de enzimas ou de substratos. Contudo, a abordagem a seguir difere:

(1)

Quando se pretende avaliar a enzima, doseia-se a própria enzima

(2)

Quando se pretende avaliar o substrato, doseia-se COM a enzima (ou seja, utiliza-se uma enzima para avaliar o substrato presente)

utiliza-se uma enzima para avaliar o substrato presente) Os ensaios quantitativos utilizando enzimas como marcadores

Os ensaios quantitativos utilizando enzimas como marcadores (enzyme immunoassay; EIA) foram desenvolvidos no início dos anos 70 do século XX como alternativa à radioimmunoassay (RIA). Nestes ensaios, mede-se a atividade enzimática, sendo que os substratos podem ser coloriméricos, fotoméricos ou quimioluminoméricos. Por seu turno, as enzimas usadas podem ser competitivas ou não competitivas e incluem:

Peroxídase do rábano Fosfatase alcalina Galactosidase

Oxidase da glicose Catálase

Enzimas doseadas na prática clínica

Enzimas usadas na rotina clínica:

Fosfatase alcalina na suspeita de doença óssea ou hepática Fosfátase ácida na suspeita de cancro da próstata Amílase- na exclusão de pancreatite aguda

Enzimas doseáveis:

Fosfatase alcalina Fosfatase ácida

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Alanina aminotransferase (ALT) A ALT transfere o grupo amina da alanina para o 2- oxoglutarato (para formar piruvato e glutamato). O piruvato participa numa reação com o NADH, produzindo lactato e NAD + . A redução da absorvância devido ao consumo de NADH é medida a 340nm e é proporcional à atividade de ALT na amostra. Aspartato aminotransferase (AST) A par com a ALT, a AST constitui um marcador não- específico de lesão hepática Amílase

Lípase: A par da amílase constitui um marcador de lesão pancreática. Colinesterase Desidrogénase lática

Enzimas no sangue

Enzimas específicas do plasma:

Proteases pró-coagulantes: trombina, factor XII, factor X, enzimas fibrinolíticas Percursores de proteases pró-coagulantes: plasminogénio.

Enzimas segregadas:

Lípase e amílase (produzidas nas glândulas salivares e pâncreas), colinesterase, antigénio específico da próstata (PSA).

Enzimas celulares:

Aminotransférases (AST e ALT), desidrogenase láctica (DHL), fosfátase alcalina.

Enzimas da urina

Aminopeptidase alcalina (AAP), gamma- glutamyl transferase (GGT), acid phosphatase (ACP) e N-acetyl- beta-D-glucosaminase (NAG). Estas enzimas originam-se nas células tubulares renais proximais.

Enzimas cardiovasculares

Inicialmente, demonstrou-se que as transaminases estavam aumentadas no enfarte agudo do miocárdio (EAM). Contudo, como são encontradas em muitos outros tecidos, são poucos específicas para o EAM. Posteriormente, demonstrou-se que havia elevação dos níveis séricos das enzimas creatina cínase (CK), creatina cínase-fração MB (CK-MB) e desidrogénase do lactato (DHL), mas também estas são pouco específicas:

(1)

Creatina cínase (CK) Enzima dimérica composta por duas subunidades polipeptídicas de massa molar aproximada de 43000 g/mol denominadas M (muscular) e B (cerebral). Isoenzimas:

o

CK-BB (CK1) predomínio no cérebro e músculo liso.

o

CK-MB (CK2) predomínio no músculo cardíaco.

o

CK-MM (CK3) predomínio no músculo esquelético.

Eleva-se 4-8 horas após o início do processo isquémico, mas não constitui um marcador cardioespecífico.

Localizada no citoplasma ou associada a estruturas miofibrilares.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

(2)

Creatina cínase fração MB (CK-MB) Elevada sensibilidade diagnóstica a partir de 4-6 horas pós-enfarte. A sua concentração plasmática mantém-se elevada durante as 48 horas seguintes. Ainda que localizada basicamente no miocárdio, foram detetadas baixas concentrações desta enzima noutros tecidos. Maior percentagem de falsos positivos: falta de especificidade dos métodos analíticos (valorização comum da fração BB alterações da musculatura lisa e patologia cerebral). Presença de variantes de macro-CK.

Marcadores de lesão cardíaca utilizados ao longo dos anos:

Troponina I, Troponina T as troponinas constituem os marcadores mais importantes. Contudo, apenas devem ser pedidas perante suspeita de enfarte agudo do miocárdio. Indivíduos com outras condições, tais como insuficiência cardíaca, podem apresentar de per se níveis elevados de troponina sem que tal implique a ocorrência de um enfarte.

Aspartato aminotransferase Creatina cínase MB

Desidrogénase do lactato

O tromboembolismo pulmonar resulta em elevação da desidrogénase do lactato (DHL). A necrose

alveolar resulta na elevação de DHL-3, enquanto a insuficiência cardíaca leva à elevação de DHL-5. Aumentos da DHL-1 podem ter origem eritrocitária.

Enzimas musculares

As miopatias do músculo esquelético estão associadas à subida dos níveis séricos de várias proteínas específicas, tais como a CK, CK-MB, DHL e a aldolase. A aldolase é uma enzima que ajuda a converter a glicose em energia, encontrando-se ubiquamente expressa por todo o organismo, e verificando-se um aumento dos seus níveis plasmáticos aquando de uma lesão ou doença muscular ou hepática. No passado, o teste da aldolase era solicitado para diagnosticar ou controlar algumas situações relacionadas com doenças musculo-esqueléticas e/ou hepáticas. Atualmente, a sua avaliação foi substituída pela de outros marcadores enzimáticos, tais como a CK, a ALT e a AST, que são indicadores mais específicos de lesão muscular ou hepática. O teste da aldolase ainda tem algum uso no seguimento de pacientes com distrofia muscular.

Enzimas pancreáticas

A amílase é utilizada para estudar as doenças do pâncreas, nomeadamente a pancreatite. A lípase

também é usada sobretudo nas pancreatites agudas por ser mais sensível. Em situações de pancretite aguda, verifica-se um aumento dos níveis plasmáticos de amílase, os quais permanecem elevados até a causa ser tratada eficazmente. Isto explica porque é que são pedidos os doseamentos da amílase e lípase (no sangue ou na urina) para diagnosticar e monitorizar a pancreatite aguda ou crónica. Os níveis destas enzimas também podem aumentar significativamente nos doentes com obstrução do ducto pancreático, cancro do pâncreas e patologia biliar. Estes aumentos dos níveis enzimáticos são, contudo, transitórios, obtendo-se valores normais uma vez terminado o episódio patológico.

Níveis baixos de amílase e lípase no sangue e na urina podem indicar lesão permanente das células do pâncreas exócrino (as quais são secretoras de amílase).

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Enzimas hepáticas

A fosfatase alcalina e a γ-glutamíl transferase (GGT) estão localizadas na membrana, verificando-se um

aumento dos seus níveis em situações de colestase. A AST é citoplasmática e mitocondrial e a ALT apenas mitocondrial, pelo que os seus valores sobem nas situações de hepatite com necrose. Por seu turno, a GGT deve ser utilizada na avaliação de doença hepática mas nunca como teste de avaliação

inicial. Assim, a GGT deve ser utilizada para ajudar a caracterizar um valor elevado de ALP, como registado no alcoolismo crónico.

Citocromo P450

O citocromo P450 (CYP450) consiste numa família de enzimas hepáticas que contêm heme e que

catalisam a conversão de substâncias lipofílicas em moléculas hidrofílicas, de modo a possibilitar a sua excreção renal. O sistema CYP450 tem evoluído para uma família de genes expandida, os quais se

encontram dispostos em tandem em múltiplos loci cromossómicos. Estes genes são altamente polimórficos, de tal modo que as várias isoformas CYP450 conhecidas nos humanos, bem como as suas variações genéticas, podem ser utilizadas como um grande conjunto de marcadores biológicos preditores de suscetibilidade para toxinas específicas. As variações individuais de enzimas da família do citocromo P450 são parcialmente responsáveis pela diferente susceptibilidade inter-individual a fármacos diferenças na capacidade enzimática condicionam diferenças na metabolização dos fármacos

o que, em última instância, se traduz por diferenças nos efeitos e toxicidade dos fármacos. Assim, a

avaliação de enzimas específicas desta família por testes farmacogéneticos previamente à administração

de alguns fármacos tem-se vindo a revelar, cada vez mais, uma realidade.

Doseamento com enzimas

As seguintes substâncias são doseadas com base em enzimas:

Bicarbonato carboxílase do fosfoenolpiruvato Colesterol esterase do colesterol, peroxidase Glicose hexocínase e desidrogénase V da glicose -6-fosfato Lactato peroxidase Triglicerídeos - lípase Ureia- urease Ácido úrico uricase

Doenças do metabolismo enzimático

Esfingolipidoses

As esfingolipidoses compreendem um grupo de doenças hereditárias causadas por defeitos genéticos

no catabolismo dos lipídeos contendo esfingosina. Mais concretamente, registam-se defeitos ao nível

das hidrólases capazes de degradar os esfingolípideos lisossomais.

Uma vez que as enzimas em défice se encontram nos lisossomas, os substratos das mesmas acumulam-

se nestes organelos. Assim, as esfingolipidoses pertencem ao grupo das doenças lisossomais (também

designadas por doenças de acumulação). Para cada enzima em défice, existe uma doença específica correspondente, sendo que doenças diferentes cursam com acumulação de substâncias diferentes em órgãos diferentes (um dos locais mais afetados é o cérebro por ser muito ricos em esfingolipídeos). Obviamente, tal diversidade reflecte-se também numa grande diversidade de sintomas e sinais clínicos.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Constituem

esfingolipidoses:

características

comuns

das

Constituem esfingolipidoses: características comuns das Existência de um defeito enzimático na via de degradação

Existência de um defeito enzimático na via de degradação lisossomal dos esfingolípideos; Acumulação de lípidos complexos contendo ceramida nas células, causando neurodegeneração; Normal velocidade de síntese dos lipídeos armazenados; Redução, em grau semelhante, da atividade da enzima afetada em todos os tecidos.

Como referido anteriormente, existem vários tipos de esfingolipidoses, sendo as mais emblemáticas:

de

Gaucher:

Defeito

Doença

enzimático na β- glicosídase (glicocereborsídase), que cursa com acumulação de glicosil- ceramida. Em termos clínicos, caracteriza-se por hepato-esplenomegalia (aumento das dimensões do baço e fígado), atraso do desenvolvimento intelectual e erosão dos ossos longos.

Doença de Niemann-Pick: Defeito enzimático na esfingomielinase, que cursa com acumulação de esfingomielina. Em termos clínicos, caracteriza-se por hepato-esplenomegalia, atraso do desenvolvimento intelectual e morte prematura. Doença de Farber: Defeito na enzima ceramidase com subsequente acumulação de ceramida. Em termos clínicos, caracteriza-se por deformação esquelética, morte prematura e atraso do desenvolvimento intelectual.

Os tratamentos possíveis para estas condições passam pela terapia de substituição enzimática e transplante de medula óssea.

Glicogenoses

As glicogenoses são doenças genéticas secundárias a um erro no metabolismo, cursando com

concentrações alteradas de glicogénio no organismo. Existem mais de dez tipos diferentes, dependendo

do

defeito enzimático encontrado.

O

glicogénio está presente em todas as células animais, sendo mais abundante no fígado e nos

músculos. O glicogénio constitui a forma através da qual armazenamos a glicose da dieta (a glicose chega ao fígado pela veia porta), sendo que, quando há necessidade de uso da glicose, regista-se quebra do glicogénio por meio de um processo enzimático, ocorrendo então a libertação de glicose para a

circulação sanguínea. Desta forma, o fígado proporciona a libertação de glicose para vários órgãos, incluindo o cérebro.

Quando o glicogénio não consegue ser quebrado, devido à deficiência de alguma das enzimas envolvidas, este acumula-se nos órgãos, despoletando uma série de consequências:

Glicogenose tipo I (doença de von Gierke): Resulta de deficiência da glicose-6- fosfatase, que catalisa a reacção glicose-6-fosfato→glicose (logo, esta enzima é responsável pela libertação de

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

glicose para a circulação), verificando-se acumulação de glicogénio nas células tubulares dos rins e no fígado. Consequências: hipoglicemia, acidose láctica e hiperlipidemia. Glicogenose tipo VII causada pela deficiência da enzima fosfofrutoquinase nos músculos e enterócitos. Consequências: anemia hemolítica. Glicogenose tipo III (doença de Cori) - Causada pela deficiência na enzima amilo-1,6- glicosidase Consequências: hipoglicemia, hepatomegalia e atraso do crescimento.

Porfirias

As hemoproteínas, como a hemoglobina e os citocromos, contêm heme. O heme é um composto de ferro-porfirina em que quatro anéis de pirrol estão ligados por pontes de metina. Os outros grupos laterais nos quatro anéis pirrólicos do heme estão dispostos numa sequência específica.

Anomalias geneticamente determinadas das enzimas envolvidas na biossíntese do heme são responsáveis pelas porfirias hereditárias. Existem diferentes tipos de porfirias, classificadas de acordo com as suas deficiências enzimáticas. Os eritrócitos e o fígado constituem os principais locais de expressão metabólica das porfirias, sendo que estes distúrbios cursam com fotossensibilidade, complicações neurológicas e dor abdominal. Note-se, contudo, que nem todas as porfirias são de carácter hereditário - a ingestão de determinadas substâncias pode causar porfirias adquiridas.

Em termos clínicos, quantidades aumentadas de porfirinas ou dos seus precursores podem ser detetadas no sangue e na urina, facilitando o diagnóstico das porfirias.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Célula: conceito e evolução

Organização hierárquica dos sistemas biológicos

Genes -> Proteínas -> Células -> Tecidos -> Órgãos

Todas as células têm DNA como material genético, estão cercadas por uma membrana plasmática e usam os mesmos mecanismos básicos para obtenção de energia metabólica. As semelhanças fundamentais entre os vários tipos de células permitem a extrapolação e generalização de experiências.

Algumas células sobrevivem como seres independentes e capazes de se reproduzirem. Contudo, os organismos complexos são compostos por conjuntos de células que funcionam de modo coordenado, com algumas células a realizarem tarefas especializadas. Apesar dos tipos básicos de moléculas terem sido conservados ao longo dos anos, a forma como se juntam e interagem para formar células e organismos funcionais mudou consideravelmente.

Segundo Stanley Miller, a primeira célula surgiu há 3,8 milhões de anos, na sequência de uma descarga elétrica numa mistura de gases que compunham a atmosfera de então tal descarga, na presença de vapor de água, levou à formação de uma variedade de moléculas orgânicas, incluindo aminoácidos. Admite-se que as macromoléculas surgiram espontaneamente a partir da polimerização perante as condições da altura. Acredita-se ainda que as macromoléculas terão necessitado de se autoreplicarem para se reproduzirem e evoluírem - de entre as macromoléculas existentes nas células, apenas os ácidos nucleicos são capazes de replicar por complementaridade de bases; de facto, em 1986 foi demonstrado que o RNA se autoreplica, sendo este o material genético primitivo mais provável. Assim, presume-se que a primeira célula surgiu quando uma molécula de RNA foi rodeada por uma membrana primitiva formada por fosfolipídeos; tornando assim possível a síntese de proteínas catalisada por RNA.

Contudo, posteriormente, o DNA substituiu o RNA como molécula para guardar a informação genética. O processo de replicação semi-conservativa assegura que as moléculas de DNA são capazes de gerar moléculas exatamente iguais à cadeia-mãe, sendo, assim, possível passar o código genético à descendência de determinada linha celular. Atualmente, todas as células existentes têm genomas de DNA, enquanto as moléculas de RNA assumem outras funções como, por exemplo, serem traduzidas em proteínas. A alteração do metabolismo celular modificou a atmosfera da terra primitiva, condicionando a evolução das células.

metabolismo celular modificou a atmosfera da terra primitiva, condicionando a evolução das células. Página 41 de

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

O que é uma célula?

Teoria Celular (1858) por Schleiden e Schwan

Caraterísticas das células:

Todas as células armazenam informação genética no DNA. Todas as células replicam o seu genoma. Ao replicar, o DNA dá origem a novas moléculas idênticas à inicial. Todas as células transferem a informação genética do DNA para o RNA transcrição Todas as células usam proteínas com ação enzimática, as quais, por sua vez, são responsáveis por catalisar a formação ou quebra das ligações covalentes existentes na célula. Todas as células precisam de energia (fornecida, em parte, pelo ATP) Todas as células são limitadas por membrana fosfolipídica. Os precursores das biomoléculas (nucleotídeos, aminoácidos e monómeros açucarados) são comuns a todas as células. Estas biomoléculas são fundamentalmente constituídas por hidrogénio, carbono, oxigénio e azoto. Note-se que as macromoléculas representam cerca de 26% da massa total das células, enquanto 70% corresponde a água.

As células produzem moléculas com caraterísticas químicas que lhes permitem organizar-se nas estruturas necessárias à sua existência. As proteínas nas células (codificadas por transcrição dos genes - unidades de DNA em RNA, com subsequente tradução) ditam não só a composição química, mas também a forma e função. As proteínas variam significativamente entre células de diferentes tipos (acredita-se que as proteínas determinam o fenótipo da célula).

Uma célula terá de ter, no mínimo, cerca de 200-300 genes, sendo que existem 60 genes que comuns a todas as células vivas, sem exceção. O estudo comparativo destes genes muito conservados permite estudar a evolução de diferentes células a título de exemplo, destaque para a sequência que codifica parte da subunidade pequena do ribossoma, uma vez que o mecanismo molecular da tradução encontra-se muito conservado em todas as células.

No caso das células eucarióticas, como o seu genoma é muito vasto, em cada célula existem genes não- transcritos. A expressão destes genes depende de sinais exteriores à célula e de outros genes que codificam proteínas reguladoras da atividade dos primeiros.

Domínios de classificação dos seres vivos: Dos procariontes aos eucariontes

As células classificam-se de acordo com a sua organização estrutural e complexidade:

Células procarióticas não têm núcleo individualizado Células eucarióticas têm núcleo individualizado

No que concerne aos seres vivos procariontes, estes podem ser divididos em:

Eubactérias: mais semelhantes com os eucariontes nos processos de conversão de energia e mecanismos metabólicos. Arqueobactérias: apresentam maiores semelhanças com os eucariontes na maquinaria genética.

As células eucarióticas poderão, pois, ter resultado da fusão de arqueobactérias com eubactérias. De facto, os fósseis e a simplicidade estrutural e funcional das células procarióticas sustentam a hipótese de os seres procariontes terem estado na origem da diversidade biológica. Acredita-se os seres eucariontes

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

terão surgido 2000 milhões de anos após os procariontes, existindo duas hipóteses para explicar tal surgimento.

Hipótese Autogénica

A hipótese autogénica assenta na ideia de que cada procarionte realiza a sua própria evolução de modo

independente dos restantes. Assim, os seres eucariontes são o resultado da evolução gradual dos seres

sistemas

endomembranares resultantes da invaginação da membrana plasmática. Algumas dessas invaginações rodearam o DNA e formaram o núcleo (primeiro acontecimento). Outras membranas deram origem a organelos semelhantes ao retículo endoplasmático rugoso, complexo de Golgi et caetra.

procariontes.

Segundo

esta

hipótese,

inicialmente,

as

células

desenvolveram

No decurso da evolução algumas porções do material genético abandonaram o núcleo e evoluíram sozinhas dentro de estruturas membranares, originando as mitocôndrias e cloroplastos. Isto resultou na divisão interna das funções.

Este modelo é apoiado pelo facto de as membranas intracelulares das células eucarióticas manterem a mesma assimetria que se verifica na membrana plasmática a face voltada para o interior é semelhante

à face externa da membrana da citoplasma e vice-versa. Contudo, esta hipótese é pouco apoiada, pois não esclarece a forma como decorreram os fenómenos nem a causa que os desencadeou.

Hipótese Endossimbiótica

A hipótese endossimbiótica foi formulada quando os cientistas se aperceberam das semelhanças entre

organelos eucariontes e seres procariontes. A hipótese endossimbiótica admite que o núcleo tenha surgido por invaginação da membrana plasmática, enquanto as mitocôndrias e os cloroplastos resultaram de organismos autónomos que terão entrado em células procarióticas de maiores dimensões. Essa entrada permitiu o estabelecimento de relações de simbiose entre as células, as quais beneficiaram mutuamente dessa associação, pois um elemento fornecia alimento, enquanto o outro fornecia proteção. Note-se, contudo, que todos os organismos eucariontes possuem mitocôndrias, mas nem todos possuem cloroplastos. Daqui se deduz que a endossimbiose que ocorreu entre uma eubactéria aeróbica e a archaebacteria, levando ao desenvolvimento de mitocôndrias, foi anterior à endossimbiose que resultou no desenvolvimento de cloroplastos. De acordo com esta proposta, a associação entre uma eubacteria e uma archaebacteria foi seguida da fusão dos genomas procarióticos, dando origem ao genoma primitivo dos eucariontes.

foi seguida da fusão dos genomas procarióticos, dando origem ao genoma primitivo dos eucariontes. Página 43

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Em suma: Uma célula procariótica de grandes dimensões capta outras mais pequenas que resistem à digestão -> Estabelecem uma relação de simbiose -> A interdependência faz com que constituem um só organismo -> Células hóspedes evoluem para organelos.

Argumentos que fundamentam a hipótese endossimbiótica

Mitocôndrias e cloroplastos assemelham-se a bactérias na forma, no tamanho e nas estruturas membranares; Cloroplastos e mitocôndrias apresentam as suas próprias membranas internas e dispõem dos seus próprios sistemas genéticos (ou seja, contêm o seu próprio DNA em moléculas circulares e não associado a histonas, que codificam alguns dos seus componentes). Mitocôndrias e cloroplastos dividem-se independentemente da célula (“bipartição”). Os ribossomas dos cloroplastos e mitocôndrias são muito mais semelhantes em tamanho e em caraterísticas bioquímicas aos dos procariontes do que aos dos eucariontes. As relações de endossimbiose são comuns e verificam-se em organismos atuais. Os cloroplastos e as mitocôndrias possuem duas membranas; na membrana interna, localizam- se enzimas e sistemas de transporte semelhantes àqueles encontrados na membrana citoplasmática dos seres procariontes atuais. A aquisição de uma bactéria fotossintética teria proporcionado independência nutricional ao hospitaleiro.

O modelo endossimbiótico encerra, contudo, algumas falhas, não explicando de forma clara a origem do núcleo da célula eucariótica, nem de que forma o DNA nuclear controla a atividade das mitocôndrias e dos cloroplastos.

Qualquer que tenha sido o modelo registado, a evolução celular foi possível graças ao aparecimento de um mecanismo altamente eficiente capaz de sintetizar ATP - quimiosmose. O ATP fornece energia necessária ao estabelecimento enquanto células capazes de se auto-replicarem. Uma célula eficiente seria capaz de remover electrões de um dador (H 2 ), usar energia redox para estabelecer um gradiente protónico, e sintetizar ATP a partir do gradiente de protões. Os seres que são capazes de realizar este processo de obtenção de energia através de compostos minerais (H 2 S) designam-se por quimioautotróficos. Por oposição, os seres fotoautotróficos realizam fotossíntese, em que a água é o dador de eletrões, verificando-se concomitante libertação de O 2 .

Da unicelularidade à multicelularidade

Os organismos multicelulares evoluíram dos eucariontes unicelulares. Um organismo maior pode movimentar-se mais rapidamente, o que facilita a sua alimentação e fuga. No entanto, os organismos não podem aumentar indefinidamente o seu tamanho porque à medida que o volume da célula aumenta, verifica-se um aumento proporcional do metabolismo, mas a superfície não aumenta de modo diretamente proporcional. Por não haver um aumento proporcional da superfície estão dificultadas as trocas com o exterior. Assim, um indivíduo pequeno apenas pode sobreviver de duas formas, nomeadamente, adoptando um metabolismo reduzido ou passando a ser multicelular.

Os seres eucariontes unicelulares constituem por vezes agregados. Quando estas associações se estabelecem entre seres da mesma espécie, os agregados denominam-se agregados coloniais ou colónias. A título de exemplo, a volvox é uma colónia esférica, oca, com capacidade de movimento, em que não ocorreu diferenciação (com excepção das células reprodutoras), pelo que não se considera este agregado de algas verdes um ser pluricelular, mas sim um agregado colonial.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Admite-se que a multicelularidade teve origem nos agregados coloniais. As células destes agregados sofreram diferenciação e passaram a desempenhar funções especializadas, comportando-se como um só indivíduo. Verifica-se, então, comunicação, coordenação, especialização e divisão de tarefas, o que confere ao indivíduo capacidades superiores do que as verificadas em cada uma das células eucariontes de per se.

em cada uma das células eucariontes de per se . Vantagens da multicelularidade Grande impulso na

Vantagens da multicelularidade

Grande impulso na evolução dos seres vivos - a origem dos eucariontes e a evolução da multicelularidade estiveram na origem de uma explosão de diversidade biológica; A grande diversidade de formas que foi surgindo permitiu uma adaptação a diferentes ambientes; Foi possível a sobrevivência de seres de maiores dimensões sem comprometer as trocas com o meio externo, pois o volume e a superfície aumentam de forma proporcional; Graças à especialização, foi possível aumentar a eficácia na utilização de energia e desempenho de determinadas funções; Possibilitou aos organismos uma maior independência em relação ao meio externo, pois os vários sistemas de órgãos passaram a contribuir para a manutenção do meio interno em condições favoráveis à vida homeostasia.

Seres multicelulares

Plantas

As plantas são constituídas por três tipos de tecido:

Ground Tissue células de parênquima clorofilino que participam em reações metabólicas (fotossíntese); Collenchyma e sclerarch suporte estrutural por células robustas. Dermal Tissue cobre a superfície, conferindo proteção à planta e atuando na absorção de nutrientes Vascular Tissue floema e xilema sistema vascular

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Animais

Os animais são constituídos por quatro tipos de tecidos:

Tecido epitelial tecido de revestimento, que cobre a superfície do corpo e de vários órgãos internos, sendo constituído por células dispostas de modo adjacente. Revela-se essencial para proteção, absorção e secreção.

Tecido conjuntivo tecido no qual se encontram células dispersas numa matriz. Inclui o tecido ósseo, o tecido cartilagíneo e o tecido adiposo. De acordo com diferentes autores, o sangue pode ser considerado um tipo de tecido conjuntivo, uma vez que as células sanguíneas encontram-se dispersas no plasma (matriz fluida).

o Sangue assegura, entre outras, funções de transporte (de oxigénio, nutrientes, factores, hormonas…), e resposta imune. Tecido Nervoso Tecido Muscular Implicado na força e movimento.

Estrutura e organização celular

Células procarióticas

As células procarióticas são anucleadas. Embora não disponham de núcleo, estas células possuem um nucleóide DNA disperso no citoplasma não associado a histonas, sob a forma de uma única molécula (um cromossoma) circular. Algumas bactérias contêm plasmídeos DNA celular extracromossómico com replicação independente do nucleóide. Estas estruturas são muito usadas em contexto laboratorial como vetores.

As células procarióticas são geralmente mais pequenas e simples, apresentando um genoma menos complexo, em termos estruturais, destaca-se ainda:

Parede celular rígida e porosa, composta por polissacarídeos e péptidos peptidoglicano, mureína ou muco. Esta parede permite o isolamento da bactéria, contribuindo para a manutenção da homeostasia. Contudo, a parede constitui também o local de ação de alguns antibióticos. Membrana plasmática A membrana é formada por proteínas, lípidos e glícidos. A constituição da membrana celular é semelhante em todos os organismos, de tal modo que, mesmo nos procariontes, esta é formada por uma bicamada de fosfolípidos com uma cabeça hidrofílica e uma camada hidrofóbica (molécula anfipática). Note-se que, como a parede é porosa, é a membrana que faz a verdadeira separação entre o meio interno e o externo. Nos procariontes, a membrana plasmática constitui a sede da atividade respiratória, ou seja, constitui o local ao qual se encontram acopladas as enzimas respiratórias e fotossintéticas. Cápsula: Algumas bactérias e cianófilas possuem, externamente à parede celular, uma cápsula constituída por polissacarídeos, polipéptidos e complexos. Normalmente, esta cápsula possui antigénios que conferem resistência à fagocitose, sendo importante na adesão de células a substrato e na proteção contra a disseção. Citoplasma: no citoplasma dos procariontes não se encontram organelos membranares (não possuem endomembranas) nem citosqueleto. Existem granulações que correspondem aos ribossomas procarióticos (constituídos por rRNA e proteínas, tal como nos eucariontes), existindo ainda vários tipos de inclusões citoplasmáticas. Ribossomas Granulações constituídas por rRNA e proteínas.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Pigmentos fotossintéticos - Nas bactérias fotossintéticas, os pigmentos fotossintéticos (clorofilas bacterianas) localizam-se na membrana de vesículas. Nas cianófilas, o aparelho fotossintético é constituído por lamelas (sistemas de membranas sobrepostas, semelhantes ao Gram, derivados de invaginações da membrana plasmática). Entre essas lamelas, encontram-se grânulos cinaossomas que contêm os pigmentos fotossintéticos. Note-se que as cianófilas cuja estrutura da parede celular é semelhante à das bactérias Gram- (vide infra). Estas bactérias possuem um invólucro gelatinoso. Algumas células bacterianas apresentam prolongamentos de superfície:

o

Flagelos (polímeros de flagelina): filamentos que se ligam a um grânulo basal intracelular. O seu número e implantação são muito variáveis podendo nem existir bactérias atípicas. O sentido de rotação do flagelo determina a direção de movimento da bactéria.

o

Fimbrias (ou pili): são filamentos análogos aos flagelos, embora sejam mais curtos, finos e numerosos que os flagelos. As fímbrias não estão associadas à locomoção, servindo sim de adesão ao meio, forma de partilha de material genético (e.g. material codificante para resistências) ou meio de absorção de certos fagos.

As células procarióticas dividem-se por

divisão amitótica - a molécula de DNA sofre replicação semiconservativa (uma molécula de DNA produz duas moléculas filhas idênticas à molécula original, cada uma delas contendo uma das cadeias da molécula original e uma

nova cadeia recém-sintetizada). Segue-

se uma divisão que origina uma nova

célula. Essa divisão ocorre por bipartição perante a ausência de um aparelho mitótico. Note-se que a taxa de crescimento celular é determinada pela taxa metabólica (menor tamanho condiciona maior taxa metabólica).

Coloração Gram

tamanho condiciona maior taxa metabólica). Coloração Gram A maioria dos procariontes apresenta parede celular (algumas

A maioria dos procariontes apresenta parede celular (algumas bactérias não têm, outras perdem-na permite mudança de forma; maior elasticidade), a qual se revela muito útil dado o seu desenvolvimento preferencial em meios hipotónicos. O peptidoglicano (também designado por mureína) constitui o principal constituinte da parede celular, permitindo o isolamento da bactéria para manutenção da homeostasia.

O peptidoglicano é constituído por dois tipos de amino-açúcares em alternância (NAG e NAMA),

formando camadas lineares, as quais se unem entre si através de aminoácidos, alguns deles típicos dos

procariontes (ligações β1,4). As unidades monoméricas das mureína são produzidas no interior das células, sendo transportadas para o exterior através da membrana citoplasmática, para ocuparem o seu lugar na parede celular. Subsequentemente, ocorre ligação de monómeros no exterior da célula. Note-

se

que substâncias como o peptidoglicano, que são sintetizadas com monómeros diferentes, designam-

se

por heteropolímeros.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

A parede celular apresenta diferenças consoante o tipo de bactéria. Essas diferenças são evidenciadas pela reação das paredes à coloração de Gram. Esta coloração permite distinguir o tipo de bactérias

conforme fiquem coradas de roxo (Gram+) ou de vermelho (Gram-).

O primeiro procedimento passa por corar as bactérias com roxo de metilo e, depois, adicionar lugol. O

lugol actua num sentido de precipitar o corante nas células, ajudando a sua fixação. De seguida, faz-se uma lavagem com álcool-acetona (desidratação) e, por fim, adiciona-se fucsina ácida (corante vermelho) que apenas vai ficar nas bactérias que não foram capazes de fixar o roxo após a lavagem (diferenciação).

capazes de fixar o roxo após a lavagem ( diferenciação ). Gram + (roxo) Ficam coradas

Gram + (roxo)

Ficam coradas de roxo 90% peptidoglicano Durante a diferenciação por álcool-acetona desidratam, “murcham” e retêm o roxo no peptidoglicano, ficando impermeáveis e impossibilitando que a fucsina ácida as core Mais peptidoglicano -> Mais denso -> Mais rígido -> Mais esféricas (cocos). Existem também, contudo, bacilos Gram positivos. Parede não possui lípidos, mas proteínas, ácidos ficóicos e feicubónicos.

Gram - (vermelho)

Como o global do peptidoglicano é menor, o álcool-acetona retira o roxo de metilo, deixando a parede permeável e possibilitando que a fucsina preencha os poros vazios, corando a bactéria. Menos peptidoglicano -> Menos densa - > Menos rígida -> Mais elipsóide (bacilos). Existem também, contudo, cocos Gram negativos. A parede possui um elevado teor de lípidos ajudam a fazer ligação entre a membrana e o peptidoglicano no espaço periplasmático.

Os antibióticos β-lactâmicos (classe na qual se inclui a penicilina) inibem a acção das PBPs, responsáveis pela união dos polipéptidos, levando à diminuição da produção de peptidoglicano. Assim, estes fármacos são preferencialmente usados em bactérias Gram +, nas quais a diminuição da produção de peptidoglicano torna-as menos resistentes a rutura por choque osmótico. Por seu turno, as bactérias

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Gram - são menos afetados por este tipo de antibiótico. As bactérias podem, contudo, desenvolver resistência aos β-lactâmicos, nomeadamente através da produção de β-lactamases, enzimas que degradam o anel β-lactâmico dos antibióticos em questão. Assim, é comum co-administrar um antibiótico β-lactâmico com um inibidor das β-lactamases (e.g. amoxicilina + ácido clavulânico).

Por seu turno, a enzima lisozima quebra as ligações entre os amino-açúcares da mureína, fazendo com que as bactérias percam rigidez e morram por choque osmótico. A lisozima é parte do sistema imune inato, encontrando-se presente em inúmeras secreções, tais como as lágrimas e a saliva assim, a lisozima participa na “primeira linha de defesa”, evitando a entrada de agentes patogénicos no organismo.

A pressão osmótica é muito elevada nas células bacterianas, devido à abundância de catiões,

macromoléculas e aminoácidos. A ausência de parede celular em algumas bactérias provoca o aumento

de volume celular por entrada de água, a sua turgescência e posterior lise celular.

Se a parede celular for destruída

Gram + → protoplasto

Se a parede celular for destruída Gram + → protoplasto Gram - → esteroplasto As formas
Se a parede celular for destruída Gram + → protoplasto Gram - → esteroplasto As formas

Gram - esteroplasto

As formas L são bactérias que perdem a parede celular, mantendo o crescimento e a capacidade de se propagarem, pois adquirem uma pressão osmótica reduzida (passam a ser insensíveis a antibióticos, ou seja, estes causam-lhe perda de parede celular, mas as bactérias desenvolvem adaptações que lhes permitem sem parede). São revertíveis à forma bacteriana normal.

Os microplasmas são análogos à forma L, uma vez que não possuem parede celular. No entanto, isso deve-se ao facto de terem um DNA peculiar, e por isso, não são revertíveis (não ganham parede celular).

Células Eucarióticas

As células eucarióticas surgiram há 1,5 biliões de anos. Estas células possuem organelos celulares membranares, incluindo um núcleo envolvido por uma membrana nuclear dupla e contendo nucléolos. De facto, nas células eucarióticas, o material genético está organizado em cromossomas, nos quais o DNA está associado a histonas.

As células eucarióticas dividem-se por mitose e meiose, apresentando aparelho mitótico. Para além

disso, estas céulas possuem ribossomas, os quais apresentam maiores dimensões que os ribossomas procarióticos.

Nas células animais, não há parede celular nem plastídeos. A divisão celular faz-se por constrição do citoplasma e da membrana celular. Por oposição, nas células vegetais, existe parede celular celulósica e plastídeos. O seu aparelho mitótico não possui centríolos e a divisão celular faz-se por crescimento centrífugo de uma placa.

Vírus

Os vírus não se incluem nos procariontes nem em eucariontes, e conseguem infetar todos os domínios

sendo que diferentes vírus podem infetar um mesmo organismo. Os vírus são constituídos por uma nucleocápside proteíca que contém DNA ou RNA, mas nunca os dois ácidos nucleicos em simultâneo. Note-se que, na maioria dos RNA vírus o RNA é convertido directamente em material proteico no interior das células “parasitadas”. Nos retrovírus (como é o caso do HIV), contudo, é necessário que esse

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

RNA seja inicialmente convertido em DNA, o qual posteriormente é transcrito em RNA e traduzido em proteínas.

A organização dos vírus varia, de tal modo que, quanto à sua morfologia, os vírus podem apresentar:

Forma Icosaédrica: nucleocápside com 20 faces constituídas por unidades de estrutura capsómeros proteícos Simetria helicoidal: alongados e bastonetiformes. As unidades de estrutura dispõem-se em hélice, envolvendo interiormente o ácido nucleico, que também se dispõe em hélice, de forma que o interior do vírus fique oco.

Os vírus podem ainda apresentar uma estrutura mais complexa, que

inclui, para além da nucleocápside

e material genético (cabeça), uma

cauda que serve para fixação do vírus à célula hospedeira. Em muitos vírus, a proteína da nucleocápside é circundada por um envelope (também designado por invólucro), o qual é constituído por uma bicamada de membrana lipídica associado a proteínas. Os vírus com envelope adquirem-no por um processo através do qual abandonam a célula hospedeira sem romper a membrana celular (e por, conseguinte, sem lisar a célula em questão). Assim, uma parte da membrana celular dessa célula

acaba por se desprender, rodeando a partícula viral. As proteínas do envelope viral são, contudo, codificadas pelo genoma viral, e não pelo da célula hospedeira.

pelo genoma viral , e não pelo da célula hospedeira. Os vírus são considerados “parasitas intracelulares”,

Os vírus são considerados “parasitas intracelulares”, dado serem incapazes de se reproduzir fora da célula hospedeira. Para se replicarem, os vírus são capazes de colocar os sistemas de replicação, transcrição e tradução do hospedeiro na subordinação do seu genoma.

Vírus Animais o seu genoma é muito mais manipulável que o das células hospedeiras (são endocitados pela célula e dentro dela libertam o ácido nucleico). São um importante instrumento na biologia molecular sistemas simples com genoma pequeno e cuja reprodução depende do metabolismo da célula hospedeira.

Replicação dos vírus

Os vírus necessitam de infectar células para se replicarem são parasitas intracelulares obrigatórios.

Os vírus aderem à superfície das células através das fibras caudais e da placa caudal, injectando subsequentemente o seu DNA ou RNA no meio intracelular (caso as células-alvo sejam bactérias, os vírus “são forçados” a digerir as ligações do peptidoglicano através de uma enzima presente na sua cauda). Posteriormente, há desorganização total do metabolismo celular - o material genético viral começa a ser replicado e transcrito e traduzido em proteínas (capsómeros do capsídeo). Assim, os vírus subvertem os mecanismos energéticos das células para seu proveito, e exploram o metabolismo para se multiplicarem, acabando a bactéria por sofrer lise.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa Os bacteriófagos (vírus que infetam as bactérias)

Os bacteriófagos (vírus que infetam as bactérias) injetam na bactéria apenas os ácidos nucleicos, sendo que as proteínas do capsídeo não penetram na bactéria. A sua replicação implica as seguintes etapas:

1-

O vírus é endocitado pela célula hospedeira;

2-

O capsídeo abre libertando o ácido nucleico;

3-

Primeiro produz-se mRNA viral e só depois ocorre produção de DNA;

4-

Novas nucleocapsides são formadas, sendo exocitadas muitas vezes sem provocar morte celular no hospedeiro, e podendo adquirir envelopes.

Em termos médicos, os bacteriófagos foram utilizados como alternativa à antibioterapia, na terapia de algumas infecções bacterianas. Actualmente, esta prática permanece em alguns países da ex-União Soviética.

Priões (PrPc)

Os priões não são vírus nem bactérias, pois não possuem DNA nem RNA. Os priões são, pois, partículas infectantes constituídas por proteínas modificadas na sua estrutura terciária. Estas estruturas possuem a mesma sequência de aminoácidos que as proteínas normais, embora tenham sofrido alterações no processamento pós-tradução que origina a estrutura terciária proteica. Esta descoberta derrubou o dogma de que a sequência de aminoácidos é que determinava a função da proteína.

Os priões constituem os agentes patogénicos de uma série de doenças relativamente raras, tais como a insónia familiar fatal e a doença de Creutzfeldt-Jakob. No caso desta última doença, uma sua variante de carácter mais indolente (popularmente conhecida como “doença das vacas loucas”) constitui um importante problema de saúde pública desde os anos 90.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

Metodologia de estudo da célula: Microscopia

O microscópio permite não só ampliar aquilo que vemos, mas também ver mais pontos como pontos

distintos, pois permite uma resolução maior que uma simples lupa. Existem dois grandes tipos de microscópio, nomeadamente o microscópio de luz, onde é possível ver até ao nível subcelular, e o microscópio electrónico, que teoricamente possibilita ver até aos átomos.

Limite de Resolução

O limite de resolução de um microscópio consiste a distância mínima entre dois pontos de um objecto

em que estes são possíveis de ser observados como pontos distintos, exprimindo-se em subunidades do

metro. O limite de resolução de um microscópio óptico é calculado pela fórmula:

=

, ×

×

, sendo λ o valor do comprimento de onda utilizada, e correspondendo

abertura numérica (vide infra).

η

x

sin

α

à

O

limite de resolução mínimo do microscópio óptico, por causa da radiação, é de 200 nm, ou seja, não

se

conseguem observar estruturas que distam menos de 200 nm, correspondendo esta distância àquela

que aproximadamente existe entre os organelos. O microscópio electrónico tem um limite de resolução

teórico de 0,1 nm, mas, na prática, o limite de resolução é menor que 1 nm.

A abertura numérica (NA) corresponde ao tamanho do raio de luz que entra na lente depois de passar

pelo espécimen - a luz é dirigida para o espécimen pelo condensador e, depois de passar pelo espécimen, recolhida pela objectiva. Como referido anteriormente, NA corresponde ao denominador da fórmula do limite de resolução, em que η corresponde ao índice de refracção do meio e ao ângulo de

incidência.

O limite de resolução é inversamente proporcional ao poder de resolução, sendo que um elevado LR é

ineficaz, pois cursa com visualização de menos pormenores (menor poder de resolução). Por outras palavras, perante um elevado LR, maior será a distância necessária para individualizar dois pontos.

A imagem de um microscópio óptico é obtida pelo contraste resultante da absorção diferencial da luz

pelos diferentes componentes celulares. Os corantes aumentam este contraste, na medida em que proporcionam a ocorrência de diferentes atrasos na propagação da luz (cujos raios são absorvidos e retransmitidos de modos diferentes consoante o corante) que são traduzidos em diferentes brilhos,

aumentando o contraste resultante da absorção diferencial da luz e permitindo a visualização e diferenciação das estruturas.

Preparação de lâminas de microscopia

Fixação

A fixação consiste na paragem de processos metabólicos e autolíticos com conservação de morfologia;

endurecendo as células e os tecidos e aumentando a afinidade das estruturas para os corantes citológicos. A duração da fixação depende da natureza do tecido, do tamanho do bloco de material e da temperatura à que é feita. Temperatura ambiente possibilita uma fixação mais rápida, enquanto temperaturas mais baixas (na ordem dos 4ºC) permitem uma fixação mais homogénea.

Sebenta de Estrutura Molecular da Célula Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Bernardo Sousa Pinto; Eugénio Gonçalves; Isabel Vieira; Margarida Costa

coagulantes

provocam a precipitação das proteínas, desnaturando irreversivelmente as proteínas solúveis por aglutinação. Por seu turno, os fixadores não-coagulantes formam ligações cruzadas reversíveis entre

grupos reactivos das proteínas (formaldeído, glutaraldeído), ou oxidam fosfolípidos (tetróxido de ósmio). Estes fixadores preservam a estrutura secundária e terciária das proteínas, permitindo uma maior precisão na observação do pormenor. Como o nome indica, os fixadores não-coagulantes criam ligações entre as proteínas, não potenciando a sua coagulação.

Os

fixadores

podem

se

classificar

em

coagulantes

e

não-coagulantes.

Os

fixadores

Inclusão

A inclusão permite aumentar a dureza do material a observar, para que depois se possam fazer cortes finos. Consoante o tipo de microscopia, a inclusão processa-se em diferente material:

Microscopia Óptica: parafina líquida a partir dos 55ºC Microscopia Electrónica: resinas EPON, porque, como os cortes são mais finos, é necessário que o material de inclusão seja mais duro.

Corte

No corte podem ser usados os seguintes instrumentos:

Micrómoto (para cortes em parafina) O micrótomo tem um regulador da espessura de corte. Os cortes, ao sair, formam uma ténia (encarrilhada). As fatias são postas num banho a 37ºC para desencarrilhar e puxadas para a lâmina onde são coradas com cola de albumina. Ultra-micrómoto (para resinas) O ultra-micrótomo assegura cortes ultrafinos, usando focais especiais de vidro ou diamante. O corte ultrafino fica em água e refracte. É puxada para uma grelha de microscopia electrónica em cobre.

Desparafinação

A desparafinação consiste na remoção da parafina do corte, sendo levada a cabo em cortes

hidrofóbicos. Este processo consiste na introdução dos cortes em xilol (o qual faz a interface entre

parafina e etanol) e, subsequentemente, em concentrações decrescentes de etanol.

Coloração

Os corantes usados em microscopia são usados em função das diferentes afinidades com as estruturas

celulares. As lacas aumentam a afinidade entre o corante e as estruturas a corar.

Os corantes auxocrómicos são corantes hidrofílicos que contêm radicais ionizáveis corados, podendo

ser básicos (tais como a hematoxilina, azul de metileno e azul de toluidina) ou ácidos (tais como a eosina e fucsina ácida). Os corantes básicos têm afinidade para os componentes basófilos dos tecidos (ou seja, ácidos, tais como os ácidos nucleicos), enquanto os corantes ácidos têm afinidade para as estruturas acidófilas (ou seja, básicas, tais como algumas proteínas). O corante de Wright (usado particularmente nas células sanguíneas) e a coloração de hematoxilina + eosina constituem exemplos

de colorações auxocrómicas com uma componente ácida e uma componente básica.

Por seu turno, os corantes lisocrómicos dissolvem-se nos componentes da célula (e.g. os sudões dissolvem-se nos lipídeos). Estes corantes são usados para microscopia electrónica para elementos de elevado número atómico que dispersam os electrões (tais como o urânio, chumbo)