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ELOGIO DA LEITURA

Luiz Otávio Barreto Leite

Somos constituídos para ler o mundo, independentemente dos mecanismos ou

dispositivos de leitura de que nos valemos para atingir tal fim. Na atualidade, em que tanta gente anuncia, de modo. apressado, 'o dobre final da era do livro,

a leitura e;va escrita precedem e . sucedem fundamentalmente os meios

empregados para a sua gravação num determinado tipo de material. Assim sendo, a substituição desse suporte por outro (pouco importa que seja um CD,! um disco rígido ou um site .na]nternet) signifi~a.apenas um passo diferenciado ;.; rumo ao progresso e ao apnm ramento tecnológico,

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o que me motivou a escrever este artigo foi a necessidade de defender a cultura do livro nestes tempos em que se recorre incessantemente, no lugar deste, às chamadas multimídias interativas. A meu ver, substituir o livro por esses novos, utilíssimos e sedutores suportes informacionais não equivale a supera-lo, ou tê-lo por superado, O mesmo valendo para os artigos de fundo, as comunicações científicas e ensaios diversos que são divulgados por pei iódicos, a exemplo da nossa revista Nosso Caminho.

Nesta oportunidade, é justo lembrar - para louvá-la - a defesa da cultura do livro e dos valores da leitura realizada por Oscar Niemeyer em sua obra O ser e a vida, onde esclarece as razões de sua proposta de criação da Escola de Arquitetura e Humanidades) a ser instalada na sede da Fundação Oscar Niemeyer, que integra o Caminho Niemeyer, em Niterói. Uma Escola que irá oferecer cursos de Arquitetura apoiados em vigoroso programa de incentivo à leitura, capaz de contemplar distintas áreas de assunto como Filosofia, Literatura, História, Ciências Sociais, Cosmologia e Política.

Tal iniciativa tem, dentre outros méritos, o de tentar ultrapassar, em nível da formação dos alunos dessa Escola, os efeitos negativos de dois fenôr.nenosque continuam a afetar a vida acadêmica em nosso país - os especialismos exacerbados, que impedem o diálogo fecundo entre a área formativa do estudante e outros domínios de conhecimento, e um certo obscurantismo cultural. Este se faz presente no ambiente universitário, e se manifesta de vários modos, como é o caso da supervalorização das fontes de estudo e consulta disponibilizadas na Internet, muitas vezes de forma pouco rigorosa, em detrimento dos livros impressos. Não falta quem argumente que a rede

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mundial dos computadores, uma conquista fundamental da humanidade, se tornou o lugar da informação banalizada e ultramanipulada e, sobretudo, o do excesso de informação, conforme nos fez ver o Professor Paulo Vaz. Aliás, esse excesso pode ser "filtrado" ou minimizado através da atuação dos profissionais da área biblioteconômica, que são, por definição, instigadores e guardiães das práticas leitoras. E, por sua vez, os livros podem promover e assegurar uma melhor organização das informações geradas pelos homens, constituir meios extraordinários de difusão desse conhecimento produzido e elevá-lo ao patamar de um verdadeiro saber."

A leÚura é o processo complexo que possibilita a todos nós interagir com o

mundo, armazenar lembranças, repensar valores, desfazer ilusões e produzir novos conhecimentos. Sob tal prisma de compreensão, expresso em O ser e a vida de Niemeyer, o ato de ler pode ser qualificado como vital e não se vincula a um único dispositivo de leitura (seja este um livro, seja um texto a

circular na intemet). Esse meu pensamento não perde de vista a lembrança de uma passagem da Areopagítica de John Milton, uma das defesas mais radicais . da liberdade de expressão: "Muitos homens não passam de um fardo sobre a .Terra: Mas um bom livro é o precioso sangue do espírito superior, conservado e guardado com vistas a uma vida para além da vida."

Ler supõe uma disciplina relacionada com o tempo, uma vez que exige um amplo esforço de concentração. E no mundo contemporâneo o tempo corresponde, com certeza, a um recurso bastante escasso. Em contrapartida, a tela do computador se presta mais. a exibir imagens e, com uma certa limitação, a dar a conhecer textos relativamente curtos que não demandam esforço maior de compreensão. A mensagem na tela, sob o ponto de vista de Milagros del Corral, se apresenta como algo evidente que não requer fundamento racional nem tampouco análise dos antecedentes, não dispondo, ainda, de tempo para se tomar real. Daí, no dizer da autora, "a ruptura entre o livro e a tela, entre o espírito linear do discurso escrito e a percepção 'matizada', simultânea e rápida ao multimídia por tela interposta".

A paixão pelos livros, o reconhecimento do saber que eles podem conter sobre

as grandezas e a fragilidade básica do ser humano e sobre aquilo que a vida

revela de misterioso e indevassável, devem ser acompanhados de uma consciência dos múltiplos papéis desempenhados pela leitura: ampliar o nosso horizonte de compreensão do mundo, favorecer o diálogo intercultural, preparar-nos para o exercício da cidadania, essencial nestes tempos de

" indigência ética e política. Trata-se de.uma paixão impossível de confundir-se

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com o gosto da erudição, A esse propósito, vale recordar a distinção estabelecida pelo semiólogo italiano Umberto Eco entre erudição e cultura: a primeira não é cultura, mas antes uma forma particular e secundária que esta pode. assumir. Em síntese: cultura não é saber, a data de nascimento do monarca Francisco I; ser culto significa principalmente saber que este foi um rei da França no Renascimento e qual era o papel desse país no contexto europeu da época. No-tocante à sua data- da.nascimento, é a cultura que, segundo Umberto Eco, nos possibilita encontrar. tal informação, caso tenhamos necessidade

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Hoje vivemos o impacto dos e-books. Devemos ter certa cautela em não superestimá-lo como meio de acesso à cultura produzida. O decisivo é tirarmos proveito, de maneira combinada e bem consciente, deste e dos vários outros suportes informacionais .; livros impressos, revistas, jornais, internet, televisão e tudo o mais que venha a emergir. Cada um deles exerce uma função nada desprezível, e é mesmo- fundamental, nesta época marcada por um regime de tempo acelerado, que tais meios coexistam de forma harmoniosa. Faz-se necessário que eles subsistam e sejam aprimorados a fim de afastar das sociedades contemporâneas o perigo da nerda da memória ou do silenciamento de nossa capacidade de resistir, assegurando as condições de traçarmos horizontes de sentido para o futuro e de exercitarmos, com autonomia e respeito à diversidade cultural, o pensamento crítico.

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