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LANGIDILA

TRATAMENTO 2

roteiro de documentário

Abertura

SEQÜÊNCIA I

a idade de ouro para os portugueses/ o sistema dominante

Vemos uma seqüência de imagens da população portuguesa (colonizadores), no cotidiano de Angola na década de 50. O objetivo dessas cenas é traçar um parâmetro entre a vida tranqüila dos supracitados colonizadores e o dia a dia atormentado e oprimido do povo angolano. Clássicos carros europeus, belas mulheres bem vestidas fumando seus cigarros importados, crianças portuguesas felizes e jovens estudantes nas ruas de Luanda, tudo em velocidade reduzida para dar a idéia de uma brisa de bonança e tranqüilidade inabalável, imagens impregnadas de irrealidade e cegueira, enquanto nos guetos, os verdadeiros donos da terra passam por necessidades desumanas. Eis a mensagem central dessas imagens: de um lado a ideologia; do outro, a realidade social. Como disse nostálgico um português, “Quem é que pensava em ideologia quando se tinha o Mussulo e um bom boi para fumar.”

mas, onde estão os africanos?

A segregação, as divisões indígena-assimilado, a violência do sistema colonial, a alienação de quem o vivia.

CORTA PARA:

“Me veio parar às mãos um diário de uma combatente angolana, que, por sinal, foi minha irmã.” (Roberto de Almeida)

CORTA PARA:

Imagens generalizadas de musseques. Contraponto. Miséria, fome, desesperança. Preconceito e separação.

CORTA PARA:

DEOLINDA RODRIGUES “Na igreja há uma missa para os pretos e depois outra para os brancos. Não se misturam.”

Fotografias de missas.

Duas cidades coexistiam, a dos asfaltos e a dos musseques. Vemos fotografias de negros nas periferias de Luanda, nos Dembos, etc.

CORTA PARA:

Em Luanda havia bairros fronteiriços os quais separavam os musseques da parte baixa da cidade. Ali, os colonialistas punham uma barreira de polícia para cobrar os impostos e quando alguém não trazia os documentos

consigo, era preso e amarrado com cordas pelas mãos e cintura, como se fosse uma besta. Também eram presos aqueles que não tinham certificado de que trabalhavam. Os angolanos eram presos sob qualquer pretexto. Dessas prisões, podiam derivar trabalho forçado ou a deportação. (Limbânia Gimenez)

O historiador angolano Simão Souindoula e Irene Pimentel, uma historiadora portuguesa, falam dessa ampla deformação da sociedade angolana nessa época. Em seus depoimentos, será importante expressar a evolução gradativa do conflito que surgiria; expor, em forma embrionária, a evolução do que se tornaria uma luta armada.

LIMBÂNIA JIMÈNEZ RODRIGUEZ Nunca esquecerei aquela manhã de Dezembro de 1966, momento em que nos despedimos dos combatentes. Não se apagarão jamais da minha memória os rostos de Irene, Engrácia, Teresa, Lucrécia e Deolinda.

CORTA PARA:

DOMINGAS PAIM (irmã de Lucrecia) Enviaram as cinco meninas mais brilhantes numa operação que tinha riscos de fracassar. Eu não as deixaria ir para Nambuongongo, porque eu sabia do perigo.

CORTA PARA:

Vemos flashes de posicionamento de microfones, regulagem de potenciômetros, ajustamento do equipamento e todo aparato técnico simulando uma emissão de rádio antiga, que se prepara para ir ao ar, num ambiente com fracas lâmpadas vacilantes.

Ouve-se o chiado do receptor.

LOCUTOR em off Angola Combatente. (ouve-se chiado e interferências). Comunicado. Grupo do Esquadrão Camy, destacamento enviado à primeira região, detido em Kamuna pelas tropas da FNLA. Estão sob o poder dos guerrilheiros as seguintes camaradas: Lucrécia Paim, Engrácia dos Santos, Irene Cohen, Teresa Afonso e Deolinda Rodrigues.

Vemos a fotografia das 5 heroínas, empunhando armas durante o último dia do treinamento militar.

A voz off-screen do locutor é sobreposta à imagem do PANFLETO original com suas fotos onde se lê “SUAS VIDAS ESTÃO AMEAÇADAS”.

FADE OUT A voz do locutor se funde com ca voz do ator.

TEXTO POÉTICO SOBRE A DOR E O ORGULHO

(DEOLINDA) “ Sou descendente direto”

JUSTIFICATIVA DA 1 a SEQÜÊNCIA A colocação da seqüência da prisão das meninas no início do filme acontece como um clímax, como uma explosão para já estabelecer, de imediato, o

envolvimento

personagem.

SEQÜÊNCIA II

SCREEN BLACK

FADE IN:

emocional

do

espectador

com

a

Surgindo no corredor do Museu das Forças Armadas, ROBERTO DE ALMEIDA percorre o caminho até uma sala onde apresenta o antológico diário de Deolinda Rodrigues.

o

condutor desse documentário, lê os trechos que considera mais importantes. Consequentemente o interesse do espectador por esse personagem está

ROBERTO

DE

ALMEIDA,

em

posse do

diário,

será

sempre subordinado à realidade do diário.

o diário

O diário de Deolinda será personagem onipresente no filme. Irá pontuar, interromper, sublinhar e fazer contraponto aos depoimentos. Sua sensibilidade determina todos os acontecimentos do filme.

doía o corpo e o orgulho dos angolanos

Ouvimos uma canção cantada à capella por homens de voz entristecida. O solista é um velho trabalhador. Uma canção “pletórica de sentimento, de desconsolada tristeza” simulando os cânticos de lamentos que entoavam os “trabalhadores” obrigados ao labor

forçado, que passavam, abarrotados em caminhões pelas ruas do país.

DEOLINDA lembra dos lamento a dor desses “trabalhadores”.

CORTA PARA:

como esse sentimento surge

A rebeldia em Deolinda manifesta-se sempre como tipo de fome que foi constatada logo na infância.

DEOLINDA RODRIGUES “O que nós somos aqui em Luanda? Tudo, menos seres humanos. E até quando esta merda de vida?”

um tempo de inquietude

A possibilidade de comunicação e um diálogo com o colono parecia cada vez mais remota. Portanto o povo, já insatisfeito com a maneira que era tratado, com a negligência e o cruel sistema racial imposto pelos portugueses (que, com a divisão entre assimilados e indígenas, criou uma sociedade ainda mais segregada), sentiu que era hora de mostrar sua indignação e já se organizavam em movimentos anti- coloniais.

CORTA PARA:

DEOLINDA RODRIGUES “Um capataz branco estava a sovar selvagemente um dos presos que estão a abrir valas. A

quitandeira e eu éramos as únicas pessoas perto e o sol era de matar. Reclamávamos para o ngueta deixar de bater, mas ele ameaçou. A quitandeira disse-me para continuar a gritar até virem homens patrícios. Finalmente o ngueta parou, talvez só por estar cansado.”

CORTA PARA:

SEQÜÊNCIA III Família de Deolinda

A relação com seus pais e irmãos. Seus pais também tinham uma atitude combativa em relação a opressão dos portugueses.

adolescência em luanda

DEPOIMENTO DE FAMILIARES Deolinda viveu com a mãe de Agostinho Neto, sua tia, na sua adolescência em Luanda.

Essa seqüência é importante para focar para o público o desenvolvimento da personalidade de Deolinda.

SEQÜÊNCIA IV

a igreja metodista e os movimentos nacionalistas rebeldia e juventude (ingenuidade)

Entrevista coletiva com antigos amigos e parceiros do grupo jovem Metodista se encontram, revelam fotografias, segredos, dessa época. Começa a surgir,

aos 15 anos, o espírito revolucionário na alma de Deolinda.

CORTA:

DEOLINDA RODRIGUES “A Missão serve-nos de lugar do Movimento Clandestino (no escuro e no 1 o andar) e com o padre Andrade (essa batina atrapalha-me). Até nas reuniões de oração, nossos olhos falam política, mas a D. Dorotéia pensa que estamos a meditar na “palavra do Senhor”.

prisões indiscriminadas

A Polícia Portuguesa prendia pelos motivos mais banais. FOTOS.

Nessa época Deolinda, entre os 16 e 17 anos, já não dormia em casa com receio da PIDE. Sua presença em Luanda já se tornava um risco. Deolinda negociava sua ida ao Brasil enviando e recebendo cartas do Instituto Metodista em São Paulo.

TEXTO POÉTICO “Sangue Aguado”.

SEQÜÊNCIA V

Militância

Seu espírito de liderança já se manifestava na adolescência. Deolinda sentia-se na obrigação de engajar o povo, os conscientizando de sua situação de colonizados, explorados, oprimidos. Distribuía panfletos, conversava com a população, para que

pudessem compreender as circunstâncias a que eram submetidos.

Seu desejo de mudança era ilimitado, renovava-se constantemente, empurrando-a para a frente, sem a conceder tranqüilidade nenhuma. Além de substituir totalmente o desejo de qualquer realização individual. Aumentava o cerco da PIDE num contexto brutalmente repressivo.

SEQÜÊNCIA VI Uma mulher no Movimento

Deolinda começou então a trabalhar em atividades clandestinas nas reuniões da Igreja Metodista e possivelmente em organizações subversivas anti- colonialistas.

mulher angolana

O papel da mulher na sociedade angolana, dando

destaque às mais influentes como a Rainha Jinga que

lutou contra o sistema colonial português ao longo

do

século XVII, durante mais de 40 anos.

no movimento

Em

Movimento, apesar da desconfiança de alguns “mais velhos”.

1957, Deolinda é oficialmente aceita no

SEQÜÊNCIA VII Fugir para Lutar

clandestinidade e a partida no cais

A hesitação e a perturbação tomam conta dela neste momento. Os receios são maiores que nunca. Enquanto as lágrimas lhe correm pela face, se despede de sua mãe e seu irmão. (MÚSICA)

Deolinda nutre uma espécie de carinho especial por Bigorna. A nota é dada em seu diário em sua despedida no cais.

DEOLINDA RODRIGUES O Bigorna não apareceu no cais. Coitado. Foi mais fácil assim para nós dois. (3 de fevereiro de 1959)

o movimento precisa de quadros/o abandono ao torrão natal

Jovens são enviados para estudarem fora do país.

SEQÜÊNCIA VIII Pelo mundo

Havia sempre um motivo estratégico e político nas passagens de Deolinda pelo mundo: Portugal, Brasil, Estados Unidos, URSS, China, alguns países do leste Europeu, até chegar ao Congo em 1962. Fosse estudando, panfletando, divulgando a situação de seu país, negociando bolsas de estudos, armas, dinheiro, estreitando relações com os soviéticos, povos asiáticos e principalmente tentando criar um diálogo com membros dos mais influentes partidos políticos

angolanos. Portanto nesse ponto serão acentuados suas atividades em cada um desses países, de modo que o espectador tenha dimensão de seu poder de articulação e de sua importância no Movimento.

bispo ralph e. dodge

A ajuda do Bispo Dodge na concessão de bolsas de

estudos para estudantes angolanos.

“A África despertou. O cristianismo não pode estar separado das aspirações do Povo, se libertar.” (Bispo Ralph Dodge)

SEQÜÊNCIA IX

O desencadeamento de uma revolução

4 de fevereiro e 15 de março

Certas passagens do diário foram um pouco menos comentadas em relação às cartas, um exemplo disso é o Levante de 4 de fevereiro. Mesmo assim, nesse momento, o tema se mantém.

SEQÜÊNCIA X

O Pessoal e o político

A personalidade forte de Deolinda, sua ironia, sua

ternura, sua

país.

diário, mostram sua fragilidade e ao mesmo seu seu

comprometimento permanente com a luta pela libertação.

emocionais em alguns textos do

tenacidade, e seu compromisso com o

As rupturas

DEOLINDA RODRIGUES Que merda de vida! O Pedrinho foi enterrado longe, sozinho hoje em Paris e o Adoula reconheceu hoje também o Governo do Holden. (29 de Junho de 1963)

O tom mórbido da

frase sobre o enterro do irmão

contrasta

com

a

racionalidade diante

do

fato

político.

SEQÜÊNCIA XI

o exílio

a euforia de voltar à áfrica

Quando ela deixa os EUA e chega na África, nos dá a sensação de que ela era um preso que, recluso há muitos anos, de repente é atirado para o tumulto da intensidade da vida.

Nessa altura, ocupava-se afincamente nas atividades do CVAAR, assistindo aos angolanos que fugiam dos conflitos para refugiarem-se no Congo.

SEQÜÊNCIA XII

A BATALHA PELO PODER ENTRE O FNLA E O MPLA

SEQÜÊNCIA XIII a guerra

Tão importante quanto o conflito em si, é explorar a importância dos sentimentos na vida política; os

ressentimentos

quando

as

alianças

frágeis de

desintegram;

códigos

morais

da

luta

pelo

poder

relativos e provisórios

com

as

suas traições

e

engajamentos problemáticos; a camaradagem, etc. A guerra como um assunto, uma metáfora onipresente e

estrutural.

o oponente

Garantir que os partidos políticos, apesar se oporem, tenham a mesma relevância proporcional na luta.

fome – e a miséria social

A preocupação de Deolinda sobretudo com a miséria social.

DEOLINDA RODRIGUES “A fome está a tornar-se aguda entre os nossos guerrilheiros.” (24 de dezembro de 1954)

“A fome é quase total entre os guerrilheiros! Que vontade de desaparecer de circulação.” (26 de dezembro de 1954)

ceticismo de deolinda

O trabalho político sem fruto aparente. Suas alusões obsessivas à morte, ao suicídio, ao povo “cujo sangue foi apodrecido pela tristeza”, reforçam a atmosfera de mal-estar sufocante que vivia em Brazzaville.

DEOLINDA RODRIGUES Estou com vontade de desaparecer para sempre! É que num ambiente destes a gente não pode desabafar com ninguém para evitar milonga.

A música tem me distraído muito (7 de novembro de 1954)

SEQÜÊNCIA XIV Arte e Política – Movimentos em simbiose

O modo habitual de expressão artística de Deolinda, era a poesia, simultaneamente frenética e solene. No filme, a música tem também a função de evocar um patriotismo estridente dessa época angolana, fazendo também referência à poesia de Deolinda, Agostinho Neto, etc. Apontar o elo entre o movimento político e os movimentos artísticos, que aconteciam em simbiose nesse momento: a literatura engajada, a música de protesto, a eficácia social da poesia. Um movimento inspirava o outro. E Deolinda encontrava consolo nas músicas que ouvia diariamente na Rádio Brazzaville.

angola combatente

Atenção ao programa diário de 15 minutos do MPLA e à atividade de Deolinda como locutora.

DEOLINDA RODRIGUES O “Angola Combatente”, dedicado às famílias dos presos foi bom, sentimental, mas ao mesmo tempo encorajador. (23 de dezembro de 1954)

jornalismo militante – mpla e upa

Os jornais do MPLA, a rádio da UPA.

Deolinda na luta Armada

treinamento militar

À caminho da base onde se realizou o treinamento militar do Destacamento Camy. Tudo será registrado, o trajeto, a complexidade de se chegar no local. Durante esse período, enquanto o carro se aproxima, chamar a atenção para o prazer, que Deolinda expressa no diário, em empunhar uma arma.

langidila – sentinela – o nome de guerra

Em busca da origem do nome heróico. Podemos nos perguntar que conjunção de fatos e sentimentos foram decisivos para lhe erigir a legenda de Langidila.

último dia de treinamento militar

Estamos em 1966. A câmera passeia pelos rostos das meninas na fotografia, como se procurasse ver compreensão em sua expressões.

esquadrão camy

O percurso do esquadrão decorrerá por todo o terceiro ato do filme, sem interrupção. As seqüências devem inserir-se umas nas outras de maneira absolutamente evidente. Esse momento se prolonga com monólogos em voz off em conjunção com closes dos guerrilheiros e fotografias da expedição.

os depoimentos aqui, conspiram para

intensificação de um suspense, tornando o espectador interessado pela anatomia do conflito e a maneira com

Todos

que as ações se desenrolam, transmitindo a todo tempo uma atmosfera de ameaça.

DOMINGAS PAIM Se elas passassem em minha casa, eu não as deixaria ir para Nambuongongo, porque eu sabia do perigo. Como é que vocês do MPLA vão passar no bureau, no quartel da FNLA? Vão ser presas!

Trabalhar aqui com a câmera imóvel. Colocá-la num só lugar, somente deslocar o zoom para frente ou para trás. A câmera apenas registraria, sem participar. Tenho a convicção de que quanto mais violenta é uma seqüência, menos a câmera deve participar, principalmente porque sabemos que a cena caminha para culminâncias emocionais.

As frases do diário surgem como legendas na tela junto aos depoimentos, como se pulsando num mesmo instante.

“Tudo parecia já tão bem e de repente, bumba: Kamuna!” (Langidila)

detenção das cinco guerrilheiras pelo fnla o que foi feito para libertá-las

Domingas Paim e líderes da OMA se empenharam, decisivamente, nesse sentido.

o encarceramento e a tortura

O filme é cercado por um prólogo e um epílogo que tratam do início da revolução, a captura de Deolinda

e sua morte. Com fragmentos que possibilitam uma construção narrativa linear e contínua visual.

Somos levados pela mata, onde possivelmente as levaram. Movimentos vertiginosos de câmera, usando uma variedade de ângulos pouco ortodoxos,

DOMINGAS PAIM Foram 5 meninas, mas o comandante delas era a Deolinda. A Deolinda se disse que não, elas também não pode fazer nada. A Deolinda disse “vale a pena ser morta e não me misturar convosco”. Eu vou seguir a ordem do Agostinho Neto.” E as meninas disseram, “Deolinda, valeria a pena a gente dar uma volta para salvar as nossas vidas”. Deolinda disse que “não”, “esses já fizeram muito trabalho. Por isso vale a pena a morte.” Holden Roberto contou-me isso.

Os depoimentos serão brutalmente realistas, mas são os reconhecimentos francos que garantem a profundidade da tenacidade de Deolinda.

DOMINGAS PAIM “Elas foram transportadas da base de Kinkouzu para o interior de Angola, onde o triste acontecimento teve lugar. (Holden Roberto)

A câmera aqui acompanha diretamente a ação.

DOMINGAS PAIM

“ uma

mulher do FNLA, já não lembro mais o nome, disse-me “as meninas já não conte mais com elas”.

Ouvimos um barulho confuso que denuncia o manuseio de armas. Ouve-se a crepitação de metralhadoras. A tela escurece. A violência exterior cessa imediatamente. Faz-se um silêncio prolongado eliminando a música, deixando um silêncio perturbador. Como se a guerra naquele instante se interrompesse, o tempo deixasse de existir. Como num intervalo de cinema em que um filme se interrompe, o sonho se interrompe e nos imerge no escuro mais profundo.

Alguns segundos transcorrem, o tormento termina e as conseqüências dele se revelam. Do breu total, surgem as fotografias que aos poucos distinguem o rosto de cada uma das meninas.

Ouvimos o ruído de rádio

Deolinda foi fuzilada por nós, conjuntamente com outras militantes do MPLA apanhadas na ocasião. (Holden Roberto)

Não deve haver a sensação de luto. Para que a morte de Deolinda não seja uma mera explosão de mágoas de um partido contra um partido homicida. Portanto a imagem não pode estar errada.

DOMINGAS PAIM E acabou, já morreram.

Se morreram em Kinkouzu, se morreram na água, não sei contar nada disso. Já não me importei mais com esse presidente do FNLA, já não tive mais contato com eles. Meu marido disse “chega”.

Vemos a fotografia de Deolinda, um modo de sorrir um tanto contido, mas muito terna e afável. Quanto mais o espectador penetra na mente de Deolinda, mais entra em contato consigo mesmo. Violência e ternura serão usados em contraponto no filme.

Ouve-se uma bela música tocada num piano.

Foi um acontecimento trágico e triste, só explicado a luz da guerra sem quartel, que grassava entre os Movimentos. (Holden Roberto)

o espírito de abnegação e sacrifício de deolinda

Ela abandona os estudos, sacrifica suas ambições mais profundas, para dedicar-se a uma causa coletiva.

DEOLINDA RODRIGUES África, Mamã África, tu que me geraste, não me mates não praguejes um rebento teu senão, não tens futuro, não sejas matricida. Sou Angola, a tua Angola. Não te juntes ao opressor, ao amigo do opressor, nem a teu filho bastardo, eles caçoam de ti.

(Deolinda Rodrigues)

a contribuição particular de deolinda que lhe concede o status de heroína

final em aberto

Acredito que as explicações que serão dadas nunca vão esclarecer aquilo que afinal desejamos saber. Inúmeros polêmicos fatos podem ter motivado a morte de Deolinda e todos sugerem algo. Provavelmente tentarão em vão determinar a verdadeira história. Esses fatos espalham ao redor de si uma rede de insinuações narrativas sobre o assassinato original, mas o relato do Holden Roberto pode ser, de fato, o mais próximo do real. Mas talvez a tênue linha que separe a realidade e a ficção, nesse momento seja por demais indiferente. Pode ser que seja uma armadilha encerrar o filme com insinuações. Enfim, mesmo assim, defendo que tudo deve ser registrado.

abordagem

entrevistados

Me baseando nas entrevistas já filmadas, mesmo os entrevistados que carecem da memória trazem consigo o

, tarefa que dilacera o coração. Mas que isso os deixe confusos, com medo, infelizes, nostálgicos, sentimentais – mas em condições de aceitar esse desafio emocional. É esse tumulto de sensações que nos diz respeito, e acredito que cada experiência com os entrevistados, por isso muito rica, e muito interessante.

O olhar para o passado é mesmo uma

sentimento que