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A UNIFICAÇÃO DA FÍSICA

Agosto 2007

HORIZONTES

A unificação da física

Às vésperas da entrada em funcionamento do acelerador de


partículas LHC, na Suíça, nosso colunista faz um balanço das
expectativas entre a comunidade científica

Marcelo Gleiser,
de 47 anos, é professor do Dartmouth College,
nos Estados Unidos, e autor de cinco livros
sobre ciência e conhecimento

Esses são meses cheios de expectativa para


milhares de físicos. O gigantesco acelerador de
partículas suíço, conhecido pelo seu nome nada
romântico "Grande Colisor de Hádrons" (do
inglês "Large Hadron Collider", ou LHC), está esquentando os
motores, prestes a entrar em funcionamento. Na sua performance,
está depositada não só a esperança de prêmios Nobel como
carreiras inteiras. Milhares de artigos foram escritos sobre os
possíveis resultados dos experimentos. Outros milhares serão
escritos sobre a análise dos dados que virão a ser colhidos (veja
"Horizontes" de dezembro de 2006).

Afinal, por que essa máquina é tão importante? O LHC é um túnel


circular de 27 km de circunferência a 100 metros abaixo da
superfície, na fronteira entre a Suíça e a França. Uma colaboração
de dezenas de países, incluindo o Brasil, o acelerador visa
responder a algumas das questões mais fundamentais da física.

Qual a origem da massa das partículas elementares, como o


elétron? Por que um próton pesa 2.000 vezes mais do que um
elétron? Quantas dimensões existem no espaço, fora a altura, a
largura e o comprimento que conhecemos? Será que a física pode
ser reduzida a uma única teoria capaz de explicar todos os
fenômenos do mundo natural?
O sonho de unificação de todas as forças da natureza numa só, o
"campo unificado", é uma inspiração misteriosa que move a
pesquisa de ponta da física de altas energias. Einstein dedicou os
últimos 30 anos de sua vida procurando por uma teoria que
unificasse a gravidade e o eletromagnetismo. Acreditava que as
duas forças eram, na verdade, manifestação de apenas uma. Por
trás da sua busca, encontramos uma visão da natureza influenciada
por conceitos judaico-cristãos: a idéia de que o mundo, em todas as
suas manifestações materiais, decorre de um princípio único, uma
espécie de monoteísmo natural. Será que a natureza realmente
funciona assim?

Apesar de Einstein ter falhado em sua empreitada, a busca pela


unificação continua a inspirar milhares de físicos. À gravidade e ao
eletromagnetismo, juntam-se as forças nucleares forte e fraca, cujos
efeitos só são sentidos a distâncias subnucleares. Unificar quatro
forças cujos efeitos vão desde o interior do núcleo, a millhares de
trilhonésimos de um centímetro (10-15 cm) até distâncias
cosmológicas de trilhões de trilhões de centímetros (1024 cm) não é
nada fácil. Dentre as várias dificuldades está a formulação da
gravidade em termos consistentes com a física quântica, a física
que descreve o comportamento dos átomos e das partículas
subatômicas. Esse casamento da gravidade com o átomo ainda não
ocorreu. Mas idéias não faltam.

Dentre elas, a mais famosa envolve as "supercordas", tubos de


energia de dimensões imperceptíveis mesmo aos aceleradores
mais poderosos. No mundo quântico, tudo flutua; é impossível
determinar ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma
partícula. Como posição e velocidade definem a energia de uma
partícula, a própria energia flutua. Com a gravidade isso é um
problema. Segundo Einstein, a gravidade é explicada pela curvatura
do espaço-tempo, a arena onde ocorrem os fenômenos naturais.

Portanto, a distâncias muito pequenas, onde efeitos quânticos


influenciam a gravidade, a própria geometria do espaço flutua! Isso
acarreta resultados estranhos, que são aliviados pelas supercordas.
Essencialmente, elas introduzem uma distância mínima,
regularizando o comportamento da gravidade.

Se os físicos tiverem muita sorte, fora a questão da massa, o LHC


poderá ver efeitos relacionados com as supercordas. No momento,
nada podemos afirmar. Tudo vai depender dos dados colhidos no
acelerador gigante. Afinal, nem sempre a natureza corresponde às
nossas expectativas e sonhos.

Marcelo Gleiser, de 47 anos, é professor do Dartmouth College,


nos Estados Unidos, e autor de cinco livros sobre ciência e
conhecimento

Fonte:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG78248-8076-
1189,00.html
Revista Galileu – edição 193 – agosto 2007 – Horizontes