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ESCURIDÃO CÓSMICA

Janeiro 2007

Como todo modelo científico, o Big Bang tem suas lacunas.


A maior de todas é o mistério sobre a matéria e a energia escuras

MARCELO GLEISER,
de 47 anos, é professor do Dartmouth College,nos Estados Unidos, e
autor de cinco livros sobre ciência e conhecimento

A cosmologia – a parte da física que estuda as propriedades do


Universo - tem passado por momentos emocionantes. O assunto,
como escrevi para a reportagem de capa de GALILEU de novembro, é
bem controverso. A origem do Universo, ou como surgiu "tudo", é algo
que mexe com as pessoas, despertando apaixonadas discussões.
Nos quase 8O anos desde que o astrônomo americano Edwin Hubble
descobriu que as galáxias distantes estão se afastando da nossa Via
Láctea, o modelo do Big Bang tomou corpo e aceitação na co-
munidade científica: o prêmio Nobel de 2006 foi para John Mather e
George Smoot, ambos responsáveis por observações que provaram
conclusivamente que o Universo teve, de fato, uma infância muito
quente e densa como prevê o Big Bang.

Porém, como todo bom modelo científico, o Big Bang também tem
suas limitações. Existem várias lacunas ainda não explicadas, tanto
nos primórdios da história cósmica, durante os primeiros centésimos
de milésimo de segundo após o "bang", quanto, pasme caro leitor, no
Cosmo atual.

Por incrível que pareça, não sabemos do que o Universo é feito. Ou


melhor, qual a composição da matéria que preenche o Cosmo. A
situação enfrentada pelos cosmólogos é semelhante à de um
cozinheiro que sabe que precisa de três ingredientes para fazer o seu
bolo, sabe a quantidade necessária de cada ingrediente, mas só
conhece um deles.

O ingrediente conhecido, claro, é a matéria normal, feita de prótons e


elétrons, que compõem tudo o que existe, das pedras e borboletas
aos anéis de Saturno e as estrelas. O problema é que medidas
obtidas nas últimas décadas indicam que essa matéria normal é a
minoria absoluta no Cosmo. Para ser mais preciso, apenas 5% da
matéria cósmica. E os outros 95%? Em torno de 1930, o astrônomo
Fritz Zwicky demonstrou que galáxias que coexistem em aglomerados
- grupos de galáxias que, atraídas pela própria gravidade, giram em
torno de si mesmas como moscas em torno de urna lata de lixo -
comportam-se como se atraídas por muito mais matéria do que
aquela visível. Mais tarde, ficou claro que em torno de 90% da matéria
em aglomerados e mesmo em galáxias individuais é invisível a olho
nu.

O estranho é que essa matéria não é composta de elétrons e prótons


como os nossos átomos. Sabemos que ela existe devido à sua força
gravitacional, mas não sabemos do que é feita. Por isso, essa matéria
foi batizada de "matéria escura". Medidas das velocidades de galáxias
em aglomerados e das propriedades da radiação de fundo cósmico a
radiação de microondas que banha o cosmo indicam que
aproximadamente 25% da matéria cósmica é matéria escura.
Somando com os 5% de matéria normal, chegamos a 30%. Faltam os
outros 70% ...

Em 1998, outra descoberta astronômica sacudiu o mundo científico.


Objetos muito distantes e brilhantes, conhecidos como supernovas do
tipo Ia, parecem estar se afastando menos rapidamente do que a
expansão prevista pelo Big Bang. Menos rapidamente com relação a
quê? A objetos mais próximos. Como a luz vinda de objetos distantes
deixou-os no passado remoto, a conclusão é fantástica: em torno de
10 bilhões de anos atrás, o Universo resolveu acelerar sua taxa de
expansão, como se uma espécie de antigravidade tivesse passado a
agir. A questão, claro, é o que pode causar esse efeito? Vários
candidatos foram propostos para descrever essa "energia escura",
que nem cara de matéria tem, não sendo formada por partículas, mas,
sim, espalhada pelo Cosmo como uma sopa de energia. Sabemos
que ela ocupa precisamente os outros 70% da receita cósmica. O
desafio agora é descobrir o que são essa matéria e energia escuras.
Quem acha que não existe emoção em ciência não sabe o que está
perdendo!

MARCELO GLEI5ER, de 47 anos,


é professor do Dartmouth College,nos Estados Unidos, e autor de
cinco livros sobre ciência e conhecimento
Fonte:
Revita Galileu – edição 186, janeiro 2007, página 27 – coluna
Horizontes