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REFLEXÕES A PARTIR DE UMA NOTA DE RODAPÉ: IMPLICAÇÕES PARA O ESTUDO DE EMOÇÕES EM ANIMAIS

Emma Otta Departamento de Psicologia Experimental Instituto de Psicologia da USP

Resumo: Uma nota de rodapé (NR), originalmente submetida como um comentário ao artigo “Parsing Reward” me levou a escrever este ensaio. O comentário foi rejeitado pelo editor de um renomado periódico científico na área de neurociências com a sugestão de que seria mais apropriado para uma conversa de bar. Acredito que as questões essenciais envolvidas sejam significativas para um debate na área de fronteira das ciências humanas e biológicas. Os protagonistas envolvidos no didático episódio da NR, cujos artigos e livros venho acompanhando nos últimos anos, são lideranças na área de neurociências. Neste ensaio contextualizo o episódio historicamente e o discuto em termos de perspectivas potenciais para a etologia, a psicologia e a neurociência.

Palavras chave: emoção, animais, etologia, psicologia, neurociência

Este ensaio foi suscitado por uma nota de rodapé do artigo “Affective consciousness: Core emotional feelings in animals and humans” publicado no periódico Consciousness and Cognition (2005, 14, 3080), visando a discutir o estudo de emoções em animais e as implicações deste tipo de pesquisa para a compreensão de processos psicológicos humanos. Não tendo sido formalmente publicado pelos editores do periódico Trends in Neuroscience (TINS) como um Ponto de Vista e tendo recebido a sugestão de que seria um tema apropriado para uma mesa de bar, o autor Jaak Panksepp publicou o texto como uma Nota de Rodapé (NR), para “fins de arquivo”. A meu ver, esta nota de rodapé oferece ideias importantes para nossa reflexão e não merece ficar num “arquivo morto”. Nada contra conversas de bar, como um espaço paralelo aos congressos científicos, onde certamente muitas ideias criativas surgem de conversas informais entre

cientistas, mais tarde desenvolvidas como experimentos, no ambiente sóbrio dos Laboratórios de Pesquisa, e resultando em artigos aceitos para publicação em periódicos científicos. No entanto, creio que um debate sobre esta NR (reproduzida a seguir) merece ser trazido para o espaço de um ensaio num periódico como Psicologia USP, que tem um papel de liderança acadêmica no cenário da psicologia brasileira, publicando debates significativos travados em áreas de fronteira das ciências humanas e biológicas. Hesitei em escrever este ensaio por vários motivos, incluindo o fato de o episódio ter ocorrido há alguns anos, mas decidi escreve-lo porque considero que as questões centrais envolvidas são significativas e continuam atuais.

A Nota de Rodapé instigadora ‘‘Pela minha leitura deste artigo os autores advogam que os animais apenas exibem comportamentos afetivos, enquanto os humanos têm experiências afetivas verdadeiras em virtude do seu desenvolvimento cortical. Alguns dias depois da publicação do artigo de Berridge & Robinson 1 , enviei a seguinte carta (referências excluídas) para o editor. Os autores não responderam (suponho que não tenham respondido porque tomar posição em relação a este assunto poderia deixa-los marcados com a letra Vermelha do Antropomorfismo) e o editor me enviou uma resposta depois

de aproximadamente meio ano: ‘‘Por favor, aceite minhas sinceras desculpas

acho que uma troca de correspondência em TINS seja o

local apropriado para a expressão das suas ideias

assunto devam ser apresentadas no debate após uma palestra ou no bar. Para fins de arquivo, o que argumentei na minha carta ‘‘conversa de bar’’ foi o seguinte: Uma reconceitualização de Berridge & Robinson da “recompensa cerebral” facilitada por dopamina em ‘Querer’ (desejo inconsciente?) vs. ‘Gostar’, tem representado memes bem aceitos. Eles correspondem aos conceitos clássicos de aproximação apetitiva e recompensa consumatória há muito tempo aceitos pelos psicólogos. Uma solução complementar para os paradoxos associados à estimulação cerebral como ‘recompensa’ foi a conceptualização de um sistema emocional apetitivo de BUSCA/expectativa impulsionado por dopamina – um ‘‘indutor sem uma meta’’ que energiza forrageamento e que medeia estados antecipatórios. Estes impulsos emocionais/motivacionais têm muitas propriedades, incluindo enviesamento sensório

que suas ideias sobre este

monumental paciência

por sua

Não

Considero

1 Berridge, K. C., & Robinson, T. E. (2003). Parsing reward.Trends in Neurosciences, 9, 507513.

perceptual e associações cognitivas. Saliência de incentivo pode refletir pistas condicionadas facilmente incorporadas tanto na ação emocional quanto em componentes de controle do canal cognitivo deste sistema amplo instintoemoçãoaprendizagem. Sistemas de ação emocional comparáveis são críticos para diversos estados de sentimento, ajudando a esclarecer os conceitos multidimensionais de ‘recompensa’ e ‘punição’, que encapsulam nossa precária compreensão das estruturas de valor intrínseco no cérebro. Para esclarecer adequadamente o afeto, precisamos estudar psicobiologicamente muitas emoções, ‘recompensas’ sensoriais, assim como impulsos motivacionais/de regulação corporal (e.g., sede e fome). Sentimentos afetivos em animais temas que B&R estrategicamente, talvez neo-dualisticamente, minimizaram provavelmente são os verdadeiros aspectos da natureza animada. Uma questão ontologica chave, finalmente manejável neuro- epistemologicamente, é a extensão em que a ativação de sistemas emocionais básicos, como a ativação do sistema BUSCAR/Querer, é vivenciada em humanos e outros animais. Desde Freud, tem sido cada vez mais reconhecido que a experiência sentida é preparada num enorme caldeirão neural inconsciente. No entanto, é sensato, do ponto de

vista cultural e científico, negar, ignorar ou minimizar a provável existência de estados neuro-afetivos em outros mamíferos quando há tantas evidências de que eles têm estas experiências? Todos os seres humanos dizem que experiências afetivas são críticas para

a qualidade de vida. Considerando o peso da evidência relevante, não há razão em

princípio (apenas nosso desejo de prova que não existe na ciência), para marginalizar

a experiência afetiva nas vidas neuro-mentais dos animais. Considerando os abundantes

dados de movimentos expressivos, de preferência de lugar e de vocalizações, uma hipótese de trabalho coerente, bastante capaz de gerar previsões testáveis, é que outros

mamíferos têm sentimentos afetivos funcionalmente semelhantes aos nossos. Embora não tenhamos acesso direto à natureza precisa de suas cognições associadas e qualia, para otimizar o progresso é razoável atribuir um papel aos processos neuroafetivos básicos visando a compreender cientificamente o que os animais fazem. Se os afetos básicos surgem em larga medida de neurodinâmicas básicas, evolutivamente conservadas em todos os mamíferos, conseguiremos finalmente compreender a natureza das estruturas homólogas de valor que movem os seres humanos. Este passo criticamente importante pode nos permitir conceitualizar melhor desequilíbrios cérebro- mente em transtornos psiquiátricos. Conceitos como BUSCAR/querer são inícios

promissores, mas não vamos prematuramente transformar em inconsciente redes subcorticais geradoras de afeto. A evidência para isto continua fraca. De fato, estudos como o de Lamb e colegas informam pouco sobre motivações inconscientes. Por que reafirmar, ainda que implicitamente, o pecado cartesiano de conceder tão pouca vida experienciada a outros animais? Há uma quantidade enorme de evidências indicando que experiências afetivas brutas estão criticamente vinculadas à neurodinâmica de redes límbicas subneocorticais (homologas em todos os mamíferos) e não a re-representações neocorticais que regulam e refinam muito as emoções. Em que nível do neuroeixo aspectos profundamente inconscientes de muitas funções cerebrais se fundem com aquelas vivenciadas? Não sabemos. Afetivamente, o neocortex pode ser mais inconsciente do que regiões límbicas subneocorticais! Por mais essencial que a aprendizagem seja para navegar em ambientes complexos, como bem conceitualizado por B&R, não é parcimonioso especular que valores básicos só sejam vivenciados quando a leitura é feita por cognições superiores. Apesar da aversão da nossa disciplina a constructos neuropsicológicos fantasmagóricos, sentimentos podem surgir mais diretamente de sistemas emocionais, motivacionais e sensoriais em ação no cérebro, inclusive de ratos. Finalmente, deve-se notar que processos psicológicos podem emergir tanto de processos de ação motora (BUSCA) quanto de processos sensoriais-cognitivos (querer e gostar)’’.

Cenário atual e retrospectiva histórica Os protagonistas envolvidos no didático episódio da NR, cujo trabalho acompanho há anos, são lideranças da área de neurociências. Mas independentemente de quem sejam os envolvidos, o interessante, para os nossos fins, é contextualizar o episódio e refletir sobre ele em termos de perspectivas potenciais. A Etologia tem um histórico de pesquisa a respeito de comunicação e expressão de emoção em animais, inspirado pelo clássico de Charles Darwin (1872) “A expressão de emoções no homem e nos animais”. No entanto, tenho observado que vários etólogos qualificados têm dificuldade em responder a pergunta: “Animais têm emoções?” “O seu animal de pesquisa tem emoções?” Interpreto esta dificuldade como resultado de especialização da área. Como resultado do seu desenvolvimento nas últimas décadas, a etologia tornou-se cada vez mais especializada. Entre as novas especialidades que surgiram destacam-se ecologia comportamental, evolução do comportamento, neuroetologia, cognição animal, etologia aplicada, etologia humana e psicologia

evolucionista. Muito progresso factual e teórico vem sendo feito em cada uma dessas novas especialidades. No entanto, a especialização também teve como preço a redução da comunicação entre as especialidades. A história da ciência está repleta de exemplos de controvérsias devidas à dificuldade de um grupo de cientistas compreender os termos e os conceitos que outro grupo usa. Durante a sua permanência no Instituto de Estudos Avançados da USP, em 2013 e 2014, Jerry Hogan vem se dedicando a escrever o livro “O estudo do comportamento” visando a apresentar um referencial teórico para estudar o comportamento animal e humano que integre resultados e conceitos das várias áreas de especialidade da etologia. Há necessidade de textos que contribuam de forma

significativa para a comunicação entre cientistas dessas várias especialidades, promovendo novos insights como resultado dessa comunicação facilitada. Foi também com este espírito que organizamos em 2013 o XXXI Encontro Anual de Etologia, que teve como tema “A Fundação da Etologia Brasileira e Perspectivas Futuras”, homenageando o Prof. Walter Hugo de Andrade Cunha, fundador da Etologia no Brasil, como parte de um trabalho de recuperação da nossa história e de reflexão sobre o futuro. Esta foi também a motivação que me levou a escrever este ensaio. Enquanto estava escrevendo, lembrei que um artigo clássico do pioneiro da etologia brasileira Walter Hugo Cunha foi recusado para publicação pelos editores de Insectes Sociaux. A convite de César Ades, o texto foi publicado pela Revista de Etologia. Foi republicado como parte da coletânea Lições da Alameda Glete: coletânea de textos de Walter Hugo Cunha, Pioneiro da etologia no Brasil (Otta, Ribeiro & Bussab, 2013). Em “A originalidade de Walter Hugo Cunha: geração espontânea”, Fernando Ribeiro conta o que aconteceu:

para a revista

Insectes Sociaux. O artigo foi rejeitado porque um dos assessores da revista não entendeu nada do que leu. Os feromônios de alarme e marcação de caminhos eram descobertas importantes e estavam na moda. São recursos sociais, instrumentos de

comunicação. Com o feromônio de alarme, a formiga dá uma notícia que pode deflagrar respostas de pânico e desorganizar o comportamento de suas companheiras. Mas o artigo de Walter Hugo ia muito além dessa constatação simples, além de fazer uma sugestão originalíssima de criar uma taxonomia das reações de pânico. Assim, tristemente, um marco crucial da nascente Etologia Brasileira tinha sua

em 1974. O artigo tinha o título “On the panic

reactions of ants to a crushed nestmate: a contribution to a psychoethology of fear”.

publicação rejeitada. (

“Ele mandou um artigo com algumas de suas descobertas (

)

)

isso foi (

)

Imagino que esse título, por falar em uma psicoetologia,“a psicoetologia”, pode ter gerado uma reação de pânico no assessor, pois essa palavra também era nova, quase inédita. Em 2004, César Ades teve a bela iniciativa de publicar o artigo na Revista de Etologia. (Ribeiro, 2013, p. 24)

O behaviorismo tem um histórico de dispensar o estudo de emoções. Burrhus Frederic Skinner (1953) dizia que as emoçõessão excelentes exemplos das causas fictícias às quais comumente atribuímos o comportamento. A psicologia deveria preocupar-se com o comportamento observável de pessoas e animais, e não com eventos não observáveis que ocorrem em suas mentes. Toda explicação do comportamento dos organismos deveria ser buscada no ambiente, baseada em princípios gerais de aprendizagem a partir do estudo de um pequeno número de espécies animais, em geral ratos e pombos, em estudos controlados de laboratório. Pouca atenção era dada a diferenças entre espécies. Evidências de deriva instintiva, i.e., a tendência de um animal reverter para comportamentos instintivos que interferiam com uma resposta condicionada, eram de forma geral ignoradas (Breland & Breland, 1961). Não era necessário estudar a dinâmica intrínseca da “caixa preta”, bastando o estudo das entradas e saídas da caixa preta. Havia pouca interação entre áreas. Fred Keller 2 , em visita ao Departamento de Psicologia Experimental do IPUSP, diante da pergunta: "O senhor não leu Tinbergen 3 ?" diz: "Quem é Tinbergen, um poeta?".

2 Entrevista com o Professor Walter Hugo de Andrade Cunha feita por Cesar Ades, Marina Massimi e Roberto de Andrade Martins (1990) http://www.cle.unicamp.br/arquivoshistoricos/Walter_Hugo/ewalter.pdf

3 O etólogo Niko Tinbergen foi um dos ganhadores do Premio Nobel em Fisiologia/Medicina em 1973 por suas pesquisas sobre organização e eliciação de comportamentos individuais e sociais em animais.

Box 1 Em resposta a uma carta 4 de Jaak Panksepp de 7 de Setembro de 1987 (Anexo 1), o Professor Skinner respondeu em 22Setembro de 1987:

Caro Dr Panksepp,

Como ressaltei numa apresentação que fiz em recente reunião da American Psychological Association, uma explicação comportamental tem duas lacunas

inevitáveis entre estímulo e resposta e entre reforçamento e uma alteração resultante no comportamento. Estas lacunas podem ser preenchidas apenas pelos instrumentos e técnicas da neurologia. Uma ciência do comportamento não precisa esperar até que a neurologia tenha feito isto. Uma explicação completa sem dúvida é altamente desejável, mas neurologia e ciência do comportamento não são a mesma coisa; as duas ciências tratam de assuntos diversos. Um terceira disciplina pode desejar tratar da aproximação entre ambas, mas esta não é a minha área.

.

Cordialmente

B. F. Skinner

O quadro da Figura 1, baseado em Panksepp (2011) ilustra as respostas que podem ser dadas à pergunta “Os animais têm emoções?” e os erros potencialmente decorrentes destas respostas. A maior parte do século XX foi gasta acreditando que o quadrante inferior direito seria o lugar correto para estar filosoficamente, podendo-se assim evitar erros de tipo I, ou seja, concluir algo que não é verdadeiro. Panksepp convida os pesquisadores a passar a situar-se no quadrante superior esquerdo, evitando assim erros de tipo II, ou seja, a incapacidade de detectar um fenômeno real, em virtude de falsas crenças ou métodos inadequados para avaliar a presença de um fenômeno.

4 A carta enviada a Skinner encontra-se em anexo e em Panksepp (1990, pp. 142-147).

 

A Natureza Real do Mundo

Nossos Julgamentos sobre o Mundo

Os animais vivenciam sentimentos emocionais

Os animais não têm sentimentos emocionais

Os animais vivenciam sentimentos emocionais

Antropomorfismo

Evitamos Erros Tipo I

Válido

Os animais não têm sentimentos emocionais

Evitamos Erros Tipo II

Antroponegação

Válida

Figura 1 – Respostas à pergunta “Animais têm emoções?” e possibilidade de erro associadas (Fonte: Panksepp, 2011).

Entrei em contato em 2004, e passei a acompanhar deste então (e.g., Berridge & Kringelbach, 2011, 2013), o trabalho de Kent Berridge, coordenador do Affective Neuroscience and Biopsychology Lab do Departamento de Psicologia da University of Michigan. Em 2004, ele publicou o artigo Motivation concepts in behavioral neuroscience, que começamos a referir na disciplina Motivação e Emoção no curso de graduação em psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. César Ades e eu discutíamos o ressurgimento da motivação como um tema relevante para a neurociência comportamental. Berridge, no seu artigo, tratava de um reconhecimento crescente da necessidade de conceitos de motivação combinados com pesquisas de neurociência do comportamento para compreender como o cérebro gera processos psicológicos e comportamento e para os modelos das neurociências explicarem mais do que meros fragmentos de comportamento.

ainda existem hoje muitos correspondentes contemporâneos ao behaviorista do século passado, que são os reducionistas da neurociência. Alguns destes reducionistas ainda aderem basicamente a um positivismo lógico ou a uma extrema convicção materialista segundo a qual todo o comportamento deve ser explicado sem recorrer a conceitos psicológicos, mas apenas em termos de eventos físicos diretamente observados: neurônios, neuro-transmissores, etc. Tal reducionismo extremo é um vestígio de tendências positivistas do século 20 baseadas em concretude explicativa a todo custo e, embora hoje seja relativamente

raro, ainda não desapareceu. Para os reducionistas modernos, assim como para os behavioristas tradicionais, motivação é um conceito explicativo difícil porque não pode ser observado diretamente como um evento físico." (p. 185)

"Tentar explicar como o cérebro controla o comportamento motivado sem conceitos de motivação é como tentar entender o que o computador faz sem conceitos de software. Erich von Holst (1963), um importante neurocientista comportamental do início, enfatizou que precisamos do que ele chamou conceitos de nível adequado para entender como o cérebro controla o comportamento. Nível adequado significa uma explicação que corresponde adequadamente ao nível de complexidade do que estamos tentando explicar. Conceitos de reação hedônica, motivação de incentivo, reflexo homeostático, hierarquia, heterarquia, etc, são todos de nível adequado no sentido de que são os conceitos mais simples possíveis para capturar adequadamente os aspectos correspondentes cruciais do que o cérebro realmente faz "(p. 205) .

No Affective Neuroscience and Biopsychology Lab são realizadas pesquisas neuroetológicas sobre os sistemas cerebrais (hedonic hotspots) envolvidos no impacto hedônico de um estímulo, como gosto doce, e na saliência de incentivo ou valor motivacional de incentivo da recompensa. Há interesse na análise da recompensa nos seus componentes psicológicos específicos: (1) aprendizagem (incluindo conhecimento explícito e implícito produzido por condicionamento associativo e por processos cognitivos); (2) afeto ou emoção (‘gostar’ implícito e prazer consciente) e (3) motivação (‘querer’ ou saliência de incentivo implícita e metas cognitivas de incentivo). O desafio está em identificar como diferentes circuitos cerebrais mediam diferentes componentes psicológicos da recompensa e como estes componentes interagem. Há interesse nas aplicações potenciais destas pesquisas para adição a drogas em humanos, escolhas racionais e irracionais e emoção consciente e inconsciente envolvida em prazeres e desejos cotidianos. O leitor interessado pode encontrar artigos representativos e material complementar no site http://www-personal.umich.edu/~berridge/. O quadro da Figura 2, baseado no artigo de Berridge e Robinson (2003) Parsing Reward”, que desencadeou o episódio da NR, distingue dimensões explícitas e implícitas dos componentes psicológicos da recompensa. Os aspectos explícitos são conscientemente vivenciados na forma de desejo explícito, prazer hedônico e

expectativa de recompensa, enquanto os aspectos implícitos são inconscientes, mas

podem influenciar de forma significativa o comportamento na forma de saliência de

incentivo implícita, ‘gostar’ e hábitos.

CATEGORIAS

COMPONENTES

 

EXEMPLOS DE MEDIDAS

PSICOLÓGICOS

 

Dimensão

Incentivos Cognitivos (Querer)

 

Avaliações

 

explícita

subjetivas

de

Planos

Dirigidos

a

desejos

Motivação

Metas

 

Dimensão

Saliência de Incentivo (‘Querer’) Imã motivacional CS ‘querer’ desencadeado por pistas

Aproximação

 

implícita

condicionada

 

Dimensão

Prazer

Consciente

Avaliações subjetivas de prazer

Emoção ou Afeto

explícita

(gostar) Sentimentos Hedônicos Explicitos

Dimensão

Impacto

Hedônico

Expressões

Faciais

implícita

Nuclear

Afetivas

(‘gostar’)

 

Afeto Implicito

 
 

Dimensão

Expectativa Cognitiva de Recompensa Compreensão da consequência da ação

Explicação verbal

explícita

de

uma

inferência

Aprendizagem

racional

 

Dimensão

Associativa Estímulo-Estímulo Estímulo Resposta Resposta-Reforçamento

Resposta

 

implícita

condicionada

Pavloviana

Resposta

 

condicionada

instrumental

Figura 2. Dimensões explícitas e implícitas dos componentes psicológicos da

recompensa envolvendo motivação, afeto e aprendizagem. Baseado em Berridge e

Robinson (2003)

Entrei em contato em 1998, e passei a rever e acompanhar deste então (e.g., Panksepp, J. (1992, 1998, Panksepp & Biven, 2012), o trabalho de Jaak Panksepp, Professor Emérito do Departamento de Psicologia da Bowling Green State University e da Washington State University. Li com muito interesse o livro “Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions”, que usamos na disciplina Motivação e Emoção, na medida em que vem ao encontro da abordagem psicoetológica que a norteia. Lembro das conversas com César sobre as pesquisas mostrando que ratos dão risada’ – emitem vocalizações ultrassônicas 50-kHz rápidas (< 0.3-s) que o ouvido humano não é capaz de identificar, mas que podem ser registradas por meio de equipamentos e submetidas a análise sonográfíca em circunstâncias afetivas positivas como brincadeira (Burgdorf et a., 2008, Knutson, Burgdorf & Panksepp, 1998, Brudzynski & Pniak, 2002), acasalamento (Burgdorf et a., 2008), em resposta a drogas de abuso, e.g. anfetamina ( Burgdorf et al., 2001; Thompson et al., 2006) e antecipação de recompensas (Burgdorf, Knutson & Panksepp, (2000). E também choramingam emitem vocalizações ultrassônicas de 22 kHz longas (> 0.3- s) em circunstâncias afetivas negativas, como encontro com um predador (Blanchard, Blanchard, Agullana, & Weiss, 1991), derrota por um conspecífico (Thomas, Takahashi, Barfield, 1983; Tornatzky & Miezek, 1994), durante a retirada de drogas como álcool, benzodiazepínicos, opiáceos e psicoestimulantes (e.g., Covington and Miczek, 2003; Vivian et al. 1994) e antecipação de estimulação aversiva (Choi & Brown, 2003; Lee, Choi, Brown & Kim, 2001). As vocalizações ultrassônicas de 50 kHz expressam estado positivo, apetitivo e servem como sinais sociais afiliativos, enquanto as vocalizações ultrasônicas de 22-kHz expressam estado negativo, aversivo, e servem como sinal de alarme (Brudzynski, 2013). Tendo a possibilidade, ratos se auto- administram playback de vocalizações de 50-kHz e evitam playback de vocalizações de 22-kHz (Burgdorf et al., 2008). Parsana et al. (2012) mostraram que vocalizações ultrasonicas de 22-kHz e 50-kHz estão associadas a respostas comportamentais opostas e a ativação ou deativação da amigdala. Panksepp (2011) postula sete redes emocionais de processo primário, sediadas em regiões subcorticais do cérebro BUSCA (SEEKING), RAIVA, MEDO, DESEJO SEXUAL (LUST), CUIDADO, PESAR e BRINCADEIRA que podem servir como

endofenótipos 5 emocionais para problemas psicopatológicos. Por meio de estimulação

eléctrica (EEC) em regiões subcorticais antigas do cérebro é possível eliciar respostas

emocionais incondicionadas poderosas em animais. Experimentalmente, dando

oportunidade de auto-estimulação, é possível verificar se os animais ‘gostam’ ou ‘não

gostam’ da EEC que evoca comportamentos emocionais instintivos incondicionados,

“Neuroanatomicamente, todos os sistemas primários estão situados

subcorticalmente e consistem de extensas redes que interconectam circuitos

concentrados em regiões mesencefálicas como a PAG e a área do tegmento

ventral (VTA), com vários núcleos de gânglios da base, como a amigdala e o

núcleo accumbens assim como o córtex cingulado e o córtex frontal medial, por

meio de vias que percorrem o hipotálamo lateral e medial e o tálamo medial. Cada

sistema tem muitos componentes descendentes e ascendentes que trabalham

juntos de forma coordenada para gerar vários comportamentos emocionais

instintivos, assim como sentimentos brutos normalmente associados a estes

comportamentos. Os afetos brutos gerados por estes sistemas são memórias

ancestrais (instintos) que promovem sobrevivência eles antecipam

necessidades de sobrevivência e são necessários para que os organismos

naveguem com sucesso pelo mundo. Também ajudam a mediar os processos

cerebrais ainda pouco compreendidos que são chamados “renforçamentona

teoria de aprendizagem behaviorista tradicional, baseados na associação temporal

de estímulos externos com as respostas afetivas incondicionadas do sistema

nervoso.

Em síntese

O que podemos ganhar aceitando o convite de Jaak Panksepp para sair da

posição predominante de negação de estados afetivos em animais para uma posição que

lhes atribui vivência destes estados?

Há hoje uma riqueza de dados observacionais embasando a inferência de estados

afetivos em animais à disposição dos estudiosos do comportamento e de suas bases

neurais. Pesquisadores como Jane Goodall (1990, 2000), Marc Bekoff (2002, 2007,

2009) e Cynthia Moss (2000), com base na sua experiência de décadas de estudo

5 Endofenótipos são neuranatômicos, neurofisiológicos, neuroquímicos, emocionais, motivacionais ou simples tendências de resposta.

naturalístico do comportamento de chimpanzés, canídeos e elefantes, respectivamente, não tem dúvida em afirmar que os animais têm vidas emocionais ricas, concordando com Jaak Panksepp. No capítulo “Animal emotions and animal sentience and why they matter: Blending ‘science sense’ with common sense, compassion and heartpublicado no seu livro Animals, Ethics and Trade, Marc Bekoff (2006) discute que os céticos são especialmente exigentes em relação a provas, muitas vezes usando duplos padrões, exigindo mais evidências do que em outras áreas. Como a experiência afetiva é privada, é fácil afirmar que nunca será possível ter certeza que os animais têm emoções e declarar o caso encerrado. No entanto, prova incontroversa é algo que poucos cientistas podem oferecer. Basta examinar estudos de comportamento animal, ecologia comportamental, neurobiologia e biomedicina para verificar que raramente se sabe tudo sobre as questões examinadas, o que não impede que sejam feitas previsões acuradas incluindo tratamentos para diferentes doenças. Considere os seguintes exemplos de duplo padrão de prova: 1) num simpósio, depois que Cynthia Moss apresentou seu trabalho sobre comportamento de elefantes, incluindo um vídeo maravilhoso, um líder da National Science Foundation perguntou ‘Como você sabe que estes animais estão sentindo as emoções que afirma?’ e Cynthia retrucou ‘Como Você sabe que não estão sentido?’; 2) Ray Dolan (2002) publicou o artigo “Emotion, cognition, and behavior” no prestigioso periódico Science. Ele é um neurocientista que coordena um Centro de Neuroimagem, estudando a influência da emoção na tomada de decisão por humanos. No seu artigo, conclui “Mais que qualquer outra espécie, somos os beneficiários e as vítimas de uma vivência emocional rica. (p. 1191)” Cabe perguntar a Ray Dolan: ‘Como Você sabe?’ É possível que outros animais experienciem emoções mais vívidas do que nós. Por que somos tão especiais, por que sentimos tão profundamente e os outros animais não? Somos levados a pensar em especismo, um termo cunhado pelo psicólogo Richard D. Ryder em 1970, que se refere à discriminação praticada habitualmente pelo homem contra outras espécies e que ignora ou subestima as semelhanças entre o discriminador e aqueles que são discriminados. A teoria da Neurociência Afetiva de Jaak Panksepp fundamenta-se no pressuposto de que os animais são seres sencientes, com capacidade de ter sensações e sentimentos e que são modelos importantes para que a neurociência avance na compreensão das bases neurais das emoções humanas. Esta é uma agenda de pesquisa inovadora, que não foi absorvida pelo mainstream da neurociência, que convida ao

aumento da interlocução entre psicoetólogos, analistas do comportamento e neurocientistas, ao aumento da atividade de Laboratórios de Pesquisa Comportamental Básica com Animais, com sofisticação de índices comportamentais e dos modelos teóricos. Dificuldades de comunicação entre cientistas existem, como ilustra o episódio da NR, mas problemas pontuais podem ser superados numa perspectiva coletiva. Eu arriscaria parafrasear Kent Berridge (2004) e diria que:

Conceitos de emoção são necessários para compreender o cérebro, assim como conceitos neurais são necessários para compreender a emoção. Conceitos de emoção podem ajudar a neurociência comportamental a cumprir seu potencial de explicar o comportamento emocional na vida real. Sem eles, os modelos da neurociência seriam fragmentos super-simplificados, distantes da realidade que visam a explicar.(p. 205)

Dou como exemplo de uma pesquisa brasileira consonante com estas ideias o estudo do colega Newton Canteras do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (Gross & Canteras, 2012), recentemente publicado no Nature Reviews Neuroscience. Este estudo ilustra como uma pesquisa básica realizada com animais pode oferecer insights para aumentar nossa compreensão do medo e da ansiedade em humanos. Ampliou a visão tradicional de medo derivada de estudos com animais que usam condicionamento de pistas discretas a estímulos dolorosos para englobar uma gama maior de respostas etológicas de medo. O estudo mostrou que medo de dor (choque nas patas), medo de predadores (gato/cheiro de gato) e medo de conspecíficos agressivos em ratos são processados em três vias neurais independentes que incluem subnúcleos da amigdala, hipotálamo e substância cinzenta periaquedutal (PAG). É possível intervir especificamente em cada um destes circuitos. Por exemplo, lesões feitas no circuito de medo de predador fazem com que ratos deixem de temer gatos ou cheiro de gatos. Lesões do circuito de dor impedem a expressão do medo condicionado a choque das patas, mas não interferem com a expressão de medo de predador. Constata-se conservação anatômica da amigdala, do hipotálamo medial e da substância cinzenta periaqueductal (PAG) envolvidos no processamento do medo, sugerindo que circuitos semelhantes para diferentes classes de medo existam em outros mamíferos, incluindo humanos. Saber qual é o circuito de medo predominantemente afetado pode ajudar no desenvolvimento de intervenções psicoterapeuticas e farmacológicas

específicas que se distinguem de intervenções baseadas numa teoria que postule um mecanismo de resposta unitário para o medo. Em humanos, há evidências de que a estimulação elétrica da parte dorsal do núcleo ventromedial do hipotálamo (dmVMH) desperta sensação de pânico e morte iminente (Wilent, 2010) e que a estimulação da PAG dorsolateral desperta a sensação de incerteza e de ser perseguido por alguém

(Amano et al., 1982). Talvez subjacente a ataques de pânico, que tanto sofrimento causa

a algumas pessoas, esteja um circuito de medo de predador.

O convite de Jaak Panksepp oferece essencialmente uma agenda de pesquisa que

a meu ver, apesar das áreas de sobreposição, se distingue atualmente tanto da neuro-

etologia quanto da neurociência comportamental: a agenda de pesquisa da Neurociência Afetiva.

A neuro-etologia é uma especialidade que visa a compreender a base neural do

comportamento natural dos animais. Pesquisas de neuroetologia começaram no final da década de 1960 e início da década de 1970. A International Society for Neuroethology (ISN) foi criada na Alemanha em 1981. O leitor interessado pode ter acesso aos temas que vem sendo discutidos nos congressos da ISN no site http://psfebus.allenpress.com/eBusISNE/HOME.aspx. A neurociência comportamental

estuda sistemas cerebrais e processos biológicos subjacentes ao comportamento normal

e anormal, incluindo o uso de modelos animais não-humanos. A International

Behavioral Neuroscience Society (IBNS) foi fundada em 1992 nos USA. O leitor interessado pode ter acesso aos temas que vem sendo discutidos nos congressos da

IBNS no site http://www.ibnsconnect.org/. No Brasil, os neuroetólogos participam da Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt) http://www.etologiabrasil.org.br/sbet/?p=home

de

Neurociências e Comportamento (SBNeC) http://www.sbnec.org.br/site/. A Neurociência Afetiva, criada por Panksepp em 1992, é o estudo dos mecanismos neurais da emoção, com ênfase no estudo de modelos animais para compreender os sistemas emocionais básicos humanos e os distúrbios afetivos humanos. Considera que sentimentos emocionais estão estreitamente relacionados aos processos instintivos dos animais. O objetivo da pesquisa é estudar sentimentos de processo primário e mecanismos cerebrais em animais com o objetivo de compreender processos psicológicos básicos humanos. O questionamento da posição convencional de que os animais só exibem comportamentos afetivos, enquanto os humanos têm experiências afetivas reais em virtude do seu desenvolvimento cortical é essencial na proposta da

e os

neurocientistas

comportamentais

estão

filiados

à

Sociedade

Brasileira

neurociência afetiva, como uma nova proposta para o estudo da organização das emoções no cérebro e para o estudo de processos de aprendizagem e processos cognitivos.

Compreendendo estes sistemas de processo primário, poderemos finalmente ser capazes de assegurar uma definição geral de emoções cientificamente sólida. Estes sistemas mantêm sua integridade em animais decorticados (Merker, 2007; Panksepp et al., 1994), mas eles provavelmente controlam e são controlados por vários processos cerebrais superiores que são difíceis de analisar psicologicamente em modelos animais, assim como é quase impossível estudar eticamente em qualquer detalhe os sistemas subcorticais inferiores em humanos. Há tanto trabalho functional a ser feito sobre estes sistemas, especialmente no que diz respeito à modelagem preclinica de sofrimento emocional (emotional distress), mas relativamente pouco está sendo feito. Isto poderia ser considerado lamentável em virtude da probabilidade destes sistemas terem importância crítica para todos os transtornos psiquiátricos caracterizados por turbulência afetiva (Panksepp, 2006). Na verdade, considerando seriamente estes sistemas afetivos, poderemos avançar no sentido de modelos animais mais precisos de transtornos psiquiátricos”.

De acordo com Pankssepp (2010, 2011, 2012), a mente afetiva de processo primário surgiu muito mais cedo na evolução que nossas mentes cognitivas sofisticadas e os mamíferos compartilham este processo básico envolvendo afetos sensoriais, homeostáticos e emocionais (Tabela 1). Os sentimentos emocionais (afetos) e as regiões subcorticais do cérebro subjacentes a eles, que são anatomicamente, neuroquimicamente e funcionalmente semelhantes em todos os mamíferos estudados, informam como os organismos estão se saindo em tarefas importantes da vida, que promovem ou desafiam a sobrevivência. As funções emocionais de processo primário intensamente vivenciadas constituem a base para processos secundários de aprendizagem e de mecanismos de memória, com interface com processos terciários envolvendo funções cognitivas de ordem superior da MenteCérebro. O kit básico de sobrevivência, com que a natureza presenteia os organismos, é refinado por meio de mecanismos básicos de aprendizagem (processos secundários) e por cognições/pensamentos de ordem superior. As setas ascendentes na Tabela 1

indicam influências ‘bottom up’ e as setas descendentes, regulações ‘top down’. Os

processos primários influenciam de forma significativa os mecanismos de aprendizagem

(i.e., o desenvolvimento de respostas condicionadas Pavlovianas e respostas

condicionadas instrumentais) e motivam processos superiores de tomada de decisão.

Nesta perspectiva, o aparato cognitivo é com frequência subserviente aos sentimentos

emocionais, sem se dar conta disto.

Tabela 1 Funcionamento da MenteCérebro com níveis encaixados de regulação ‘bottom up’ e ‘top down’. (Baseado em Panksepp (2011, 2012)

up’ e ‘top down’. (Baseado em Panksepp (2011, 2012)   Funções Executivas Cognitivas: Pensamentos &
up’ e ‘top down’. (Baseado em Panksepp (2011, 2012)   Funções Executivas Cognitivas: Pensamentos &
 

Funções Executivas Cognitivas: Pensamentos &

Cognições de

Planejamento (Córtex frontal)

Processo Terciário

Ruminações Emotionais & Regulations Emotionais

(em larga medida

(regiões frontais mediais)

neocorticais)

‘Livre Arbítrio’ (funções superiores de memória de

trabalho — Intenção-para-Agir)

trabalhoIntenção-para-Agir)

 

Condicionamento Clássico (e.g. MEDO via amigdala

Aprendizagem de

basolateral & central)

Processo Secondário

Condicionamento Instrumental & Operante (BUSCA

(Aprendizagem via

via nucleus accumbens)

Gânglios da Base)

Hábitos Comportamentais & Emotionais (em larga

medida inconscientes — striatum dorsal)

medida inconscientesstriatum dorsal)

 

Afetos Sensoriais (sentimentos de prazer e

Estados Afetivos

desprazer/nojo desencadeados por estímulos

Básicos de Processo

exteroceptivos)

Primário (em larga

Afetos Homeostáticos (os estímulos desencadeadores

medida Subcorticais)

são internos ao organismo: fome, sede, etc.)

Afetos Emocionais (sistemas emoção ação Intenções-

em-Ações)

No nascimento, o neocortex, é em larga medida uma tabula rasa, em que as

funções são programadas em tecidos equipotenciais, que inicialmente lembram

Memória RAM (Random Access Memory). Mas depois de aprender como regular o

afeto (e.g., desde encontrar comida ao ter fome até controlar a impulsividade ao ter raiva, etc), surgem processos mentais superiores que gradualmente são transformados em Memória PROM (Programmable Read Only Memories). Nesta perspectiva, em vez ‘penso logo existo’, a ênfase passa a ser ‘sinto, então penso’.

De acordo com este ponto de vista, muitos dos pressupostos da psicologia, da ciência cognitiva e neurociência podem ser virados de ponta cabeça. Muitas de nossas habilidades mentais superiores são relativamente inconscientes, ou seja, não vivenciadas, por exemplo, aspectos-chave de funções cognitivas do cérebro, como os mecanismos básicos de aprendizagem e memória. Em contraste, as bases afetivas são intensamente vivenciadas uma vez que podem servir como "recompensas" e "punições" na aprendizagem embora esses estados psicológicos sejam às vezes difíceis de traduzir em palavras, símbolos que descrevem de forma mais eficaz habilidades sensório-perceptuais externas do que os emocionais”.

“(…) Sem uma sólida base neurocientífica comparativa pode ser difícil dar sentido aos desenvolvimentos mentais subsequentes da nossa espécie e.g., como nosso aparato cognitivo muitas vezes é subserviente aos nossos sentimentos emocionais. Isto é inerente na visão hierárquica aninhada do funcionamento cerebral”. (Panksepp, 2011,

e21236)

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