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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO

HAUB2

Artigo: O Alvo do olhar estrangeiro. O Brasil na historiografia da arquitetura moderna. TINEM, Nelci, p.193-214 Aluna: Michaela F. Alves

Introdução:

O texto avalia o processo de formação de uma imagem historiográfica da arquitetura moderna brasileira, avaliando as diferentes publicações, tanto nacionais quanto estrangeiras, acerca do tema e apontando os objetivos, as visões e as omissões de cada, enquadrando-as em vertentes ou períodos distintos e ressaltando a importância da busca por tramas alternativas, resgatando a diversidade da produção arquitetônica do modernismo brasileiro e a sua inserção no panorama geral.

1. Contribuições estrangeiras à construção da história da arquitetura moderna brasileira

A autora avalia a importância das publicações estrangeiras na difusão

e na construção historiográfica da arquitetura moderna brasileira. Dentre

essas publicações, destacam-se Brazil Builds, de Philip Goodwin (1943), e

o manual de história da arquitetura brasileira escrito por Bruand (1971). A contribuição estrangeira também está presente desde as primeiras tentativas de introdução do modernismo no Brasil por meio da participação de arquitetos europeus, como na Semana de Arte Moderna 1922, que, assim como o Neocolonial, não trazia ainda uma arquitetura moderna. As primeiras casas modernistas brasileiras foram projetadas pelo arquiteto russo Warchavchik, que assinou junto com Rino Levi os primeiros manifestos em favor do modernismo. A vinda de Le Corbusier (1929 e 1936) e a exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York também contribuíram para atrair atenção internacional, cujas críticas levantavam a irresponsabilidade em relação à funcionalidade do projeto,

a ausência de projetos de habitação social, o formalismo amoral e a

monumentalidade da arquitetura oficial em contraposição à importância

do lugar, à simplicidade e à leveza etc.

2. Diversidade de pensamento: artigos e manifestos dos arquitetos que buscavam implantar uma nova arquitetura no Brasil

Expõe a diversidade de produção e de atuação dos arquitetos brasileiros, que difundiam o ideário moderno e as suas preocupações particulares por meio de documentos, importantes por oferecerem subsídios a novas interpretações da historiografia. “Cada um a seu modo

representa um matiz – um subgrupo, um momento, um lugar, uma circunstância – da multifacetada produção arquitetônica desses anos”. Na década de 20, sob a resistência dos estilos históricos, Warchavchik, por meio do primeiro manifesto, Rino Levi e Flávio de Carvalho escreveram em defesa do ideário moderno. A partir de 1936, com foco nas construções oficiais, Lúcio Costa defendia a conciliação da identidade moderna à tradição colonial, enquanto Niemeyer justificava a escolha pelo formalismo e Affonso Eduardo Reidy defendia uma arquitetura mais democrática e coletiva. A partir da década de 50, após a expansão do campo de atuação às construções privadas, foi questionada a função social do arquiteto: Artigas propôs uma arquitetura menos elitista e Eduardo Reidy, junto com Carlos Frederico Ferreira, projetaram algumas habitações sociais.

3. As tramas insinuadas nos ensaios monográficos

A publicação de Brazil Builds (Goodwin, 1943) trazia, dentre as suas afirmações, o clima como vínculo entre a arquitetura moderna e a arquitetura colonial e destacava o caráter oficial da produção moderna brasileira. Na tentativa de definir essa produção, Goodwin enfatizou a questão dos mecanismos de controles da luz solar. Enquanto negava a influência norte-americana, explicitou o vínculo que poderia ser estabelecido com a arquitetura de Wright devido à afirmação da relação da arquitetura brasileira com o espaço externo, com a paisagem. A publicação de Modern Architecture in Brazil (Mindlin, 1956) buscou preencher as lacunas deixadas pela obra de Goodwin, que omitiu as demais obras que não estavam “no foco do olhar estrangeiro nem do brasileiro” (algumas apareciam em publicações anteriores a 1943 como

obras isoladas), e difundir uma produção mais ampla. Contudo, não constavam as experiências de habitação social das décadas de 30 e 40. Os artigos de Costa, diferentemente dessas publicações, tinham a intenção de constituir uma historiografia e de afirmar o vínculo entre a arquitetura moderna e a colonial (correspondente à arquitetura portuguesa adaptada ao clima), reforçando a importância do lugar. Ferraz

e Lemos propuseram visões alternativas. Ferraz (1965) definia as origens

da nova arquitetura como parte de um movimento internacional que incluía Warchavchik e as iniciativas paulistas. Lemos (1979) também questiona a supremacia da vertente carioca e aborda a arquitetura de Artigas e da escola paulista. O estudo de Bruand (1971) oferece uma versão ampla, embora apresente contradições e considere Le Corbusier,

a influência francesa e os parâmetros clássicos como definitivos. As obras

são agrupadas em cinco vertentes: a arquitetura vinculada à tradição (1),

as investigações plásticas de Niemeyer e dos irmãos Roberto, entre outros (2), a continuidade racionalista (3) e a corrente orgânica (4).

4.

As questões propostas pelas revistas de arquitetura de difusão internacional

As revistas de difusão internacional publicadas nas décadas de 40 e 50,

embora ainda enfatizassem a produção oficial e a escola carioca, traziam uma visão diversificada e ampla, sem o estigma da orientação hegemônica, e, embora sem intenção histórica, se tornaram fontes importantes para as versões historiográficas posteriores. Cada revista tinha objetivos específicos, contudo destacava-se “a tradição construtiva portuguesa na origem do desenvolvimento no Brasil da arquitetura, alinhada ao estilo internacional”, a boa convivência da modernidade com a tradição. Além da adaptação da tradição ao clima, a harmonia com o entorno e a unidade do conjunto, a conciliação entre as referências estrangeiras e nativas, os riscos do formalismo, os mecanismos de controle da luz solar e a responsabilidade social eram questões que integravam os debates intensos presentes nessas revistas. As questões urbanísticas também eram discutidas: as críticas incidiam sobre a

ausência de medidas de planificação urbana e de controle urbano e o poder dos proprietários fundiários, enquanto eram elogiadas as ações do SPHAN (como a intervenção no Morro do Castelo).

5. O que se afirma e o que fica no esquecimento

O tópico trata da versão hegemônica os manuais que abordavam a arquitetura moderna brasileira seguiram, que, a exceção de Benévolo e Hitchcock (cuja versão era mais ampla e diversificada), tinham Niemeyer como protagonista, acompanhado às vezes por Costa, Reidy (habitação social) ou Burle-Marx (paisagem). “O Ministério da Educação e Saúde é marco fundamental dessa história em que a influencia le corbusieriana só encontra adversário na tradição construtiva colonial portuguesa”. Nesse panorama, Brasília se destaca como plano que realiza os princípios do urbanismo moderno propagados por Le Corbusier (CIAM 1933, com a Carta de Atenas) e como fim do movimento brasileiro de arquitetura moderna. O apoio governamental é representado por Kubitschek e por Capanema, responsáveis pelo caráter oficial da arquitetura moderna brasileira. Os mecanismos de controle da luz solar são características recorrentes nos manuais enquanto o planejamento urbano é debatido superficialmente. Questiona-se a liberdade plástica em oposição à responsabilidade política e profissional.

Conclusão: os nós significativos de uma constelação historiográfica

O processo de consolidação de uma imagem historiográfica da

arquitetura moderna brasileira passou por diferentes etapas até o desinteresse dos historiadores nos anos 60, após a construção de Brasília. Inicialmente, antes da eleição de obras e protagonistas, os primeiros

documentos (o livro de Goodwin e as publicações nas revistas de arquitetura) registravam com uma visão ampla uma arquitetura de destaque no cenário internacional sem a intenção de se compor uma historiografia. As publicações de Costa, Mindlin e, inclusive, de Goodwin avançaram na composição das bases para essa historiografia e, aos poucos, foi emergindo uma visão hegemônica e limitada, que colocava importantes experiências na periferia e destacava protagonistas, demonstrando omissões e preconceitos. Essa imagem fixada pelos manuais predomina até os anos 80, quando surgem as primeiras investigações e se dá um passo no sentido da interpretação historiográfica.