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SUMÁRIO O Debate Criação X Evolução na Escola

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Haller Elinar Stach Schünemann

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A Coluna Geológica e a Paleontologia

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Marcos Natal de Souza Costa

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A Evolução na Biologia

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Marcia Oliveira de Paula

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O Registro Fóssil e o Dilúvio

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Arthur V. Chadwick

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Mudança nas Espécies: Uma realidade?

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  • L. James Gibson ..........................................................................................................................

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Uma Visão Criacionista da Diversificação e Mudança nas Espécies

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  • L. James Gibson ..........................................................................................................................

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A Similaridade Biológica e a Teoria da Evolução

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  • L. James Gibson ..........................................................................................................................

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Alguns Métodos da Física em Datação

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Urias Echterhoff Takatohi

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Planejamento Inteligente - Parte I: História até 1986

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Earl Aagaard

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Planejamento Inteligente - Parte II: 1991 até o Novo Milênio

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Earl Aagaard

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Considerações Sobre as Origens da Espécie Humana

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Antonio V. Cremades

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OO DDeebbaattee CCrriiaaççããoo XX EEvvoolluuççããoo nnaa EEssccoollaa

I- O Debate Histórico

Haller Elinar Stach Schünemann

Centro Universitário Adventista de São Paulo

Julho de 1925, a pequena cidade de Dayton, Tennessee, tornou-se palco de um julgamento famoso na história dos Estados Unidos. Conhecido popularmente como o "julgamento do macaco", o caso Scopes versus Estado de Tennessee trouxe fama para a pequena cidade relacionando-a como emblema da grande polêmica entre os segmentos religiosos protestantes mais conservadores e as correntes liberais e secularizadas da sociedade estadunidense. O julgamento se instalou quando um 'professor' de ciências foi acusado de ensinar a evolução na escola da localidade. O professor acusado foi condenado pela corte do condado, alguns anos após sem muito alarde ele foi absolvido, devido a justificativa de erro na condução do processo que resultou em sua condenação.

Este episódio têm sido focalizado no debate entre Ciência e Religião, como um fato da oposição à Religião às verdades científicas, principalmente, quando estas, como no caso da teoria da evolução, põe em xeque algumas crenças firmemente estabelecidas, como a Criação Especial e a Queda. Normalmente, o "julgamento do macaco", é relembrado quando existe a vitória de movimentos religiosos sob movimentos anti-religiosos. Muito citado, pouco compreendido, este "julgamento" é símbolo da arena onde o debate pró ou contra a religião tem sido muito importante: a escola.

O "julgamento do macaco" ganhou grande destaque nos jornais da época. De um modo geral a grande impressa estadunidense satirizou o evento como um bizarro comportamento dos sulistas, visto como ridiculamente conservadores. Boa parte das manchetes e charges dos jornais ironizavam sobre o 'atraso' intelectual da tentativa de proibir o ensino de evolução nas escolas públicas dos estados do Sul estadunidense.

Antes que o evento fosse esquecido, em 1958, o filme Inherit the Wind, relembra o episódio dando um novo fôlego para a polêmica desconhecida da nova geração. Como costuma acontecer, a versão cinematográfica deu alguns coloridos ao julgamento que não correspondiam aos fatos históricos do evento. No filme, os religiosos são apresentados como fanáticos, belicosos, desejosos de linchar o acusado, um simples professor promovendo o ensino da evolução, além de serem incentivados por um pregador fanático.

A consideração do caso é importante para uma reflexão atual, quando desejamos focalizar o debate criação X evolução no contexto escolar. O episódio foi armado com o intuito de testar a força das leis proibindo o ensino da evolução nas escolas públicas do Sul dos Estados Unidos. Após a Primeira Guerra Mundial, o movimento fundamentalista protestante marcou uma definida oposição as idéias que foram identificadas por muitos líderes como sendo as causadoras da horrível guerra européia. Vários líderes afirmavam que o expansionismo alemão estava fundamentado em Nietzsche e na doutrina evolucionista. Esta idéia, no fundo equívoca, cooperou para dar a força a cruzada fundamentalista, que conseguiu que a partir da década de 20 que vários estados do Sul proibissem o ensino da evolução nas escolas públicas. O Estado de Tennesse promulgou esta lei em 1925. Esta foi considerada a mais abrangente das leis anti-evolução que estavam sendo aprovadas pelos legislativos estaduais. A ACLU - American Civil Liberties Union- contrário a qualquer proibição legal que tivesse motivação religiosa decidiu organizar um teste da força da lei anti-evolucionista. George W. Rappelyea, membro da ACLU no Tennessee e editor de um jornal local ofereceu apoio legal para aqueles que ousassem desafiar a lei. O jovem John T. Scopes aceitou o desafio. Em pouco tempo, foi

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formulado uma queixa contra Scopes, e começou o famoso julgamento, que tornou por doze dias a pequena Dayton, Tennessee, a localidade mais importante dos Estados Unidos.

O promotor da causa fundamentalista foi William Jennings Bryan, que já havia participado do governo do presidente Woodrow Wilson. Destacou-se como um dos grandes defensores do movimento fundamentalista e favorável as leis de proibição do ensino da evolução. Do lado oposto, estava Clarence Darrow, conhecido advogado e feroz combatente do movimento fundamentalista, que aceitou defender gratuitamente ao jovem Scopes. O julgamento durou alguns dias, porque várias testemunhas foram alistadas para o debate. O caso não foi centrado sobre Scopes, mas realmente sobre o valor da Bíblia em oposição ao valor do conhecimento científico, no caso a evolução. O resultado foi a condenação de Scopes a multa por desobediência a Butler Act, a lei anti-evolução. Este acontecimento não foi uma vitória do fundamentalismo. Após isto nenhum outro estado mais aprovou leis contra o ensino de evolução, na realidade apenas, Mississipi e Arkansas, mantiveram a força de lei similares por muitas décadas. O debate do tema parecia ter sido encerrado, pelo constrangimento dado aos fundamentalistas pela grande imprensa, pela tentativa de barrar por força de lei o ensino de evolução na escola pública.

A partir da década de 60 o debate Criação x Evolução ganhou novas forças nos Estados Unidos. A fundação do movimento do Criacionismo Científico , junto a publicação da obra Genesis Flood, em 1961, deu uma nova diretriz ao debate. Na década de 80 e 90, surgiram nos Estados Unidos novas controvérsia sobre o ensino nas escolas públicas do tema das Origens nos cursos de Ciências. A situação, agora estava inversa, poderia ser ensinada a Criação Especial no curso de Ciências, ou este é um tópico religioso? Os casos ocorreram em Louisiana, Arkansas e até na California. Apesar de algumas vitórias iniciais o movimento criacionista perdeu o direito de igualdade de tratamento para a Criação e Evolução, nos cursos de Ciências, por decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos, em 1991. Mesmo assim, após este ano o movimento Criacionista Científico ainda obteve algumas vitórias parciais, em âmbito das juntas educacionais dos condados.

A controvérsia entre Evolução e Criação tem encontrado um espaço privilegiado na Escola. Qual é a razão desta controvérsia estar na escola? Qual a implicação e a postura que a escola cristã deve ter neste tema? Este tema deve ser estendido para a escola pública aqui no Brasil? Na tentativa, de responder estas questões precisamos considerar a história do movimento criacionista nos Estados Unidos, e seus reflexos no Brasil.

II - As relações entre Criacionismo e Fundamentalismo.

É impossível estudar corretamente o Criacionismo sem compreender o Fundamentalismo. Esta palavra está carregada de sentido pejorativo, sendo usada como sinônimo de radicalismo ou atraso intelectual, aplicando-se muito freqüentemente aos islâmicos. No entanto, o Fundamentalismo em sua acepção original é um movimento essencialmente cristão protestante e estadunidense que marca o pensamento cristão diante essencialmente do século XX.

O Fundamentalismo surge progressivamente a partir de um sentimento de ameaça que invade a vida religiosa nos Estados Unidos no fim do século XIX e início do século XX. Na Europa o século XVIII é marcado pelo Iluminismo. O Iluminismo é o movimento filosófico, científico, histórico, artístico e até teológico a favor da Razão humana, em oposição ao papel da religião revelada e eclesiástica no domínio da vida humana. A oposição do Iluminismo não era a qualquer tipo de religião, mas essencialmente àquelas que pretendiam ter verdades reveladas, como no caso do Cristianismo. O conceito de Deus do Iluministas foi denominado de Deísmo, caracterizado por retomar o deus racional dos gregos como causa primeira, e se afastando do Deus teísta, isto é, pessoal da tradição judaíco-cristã. As idéias iluministas chegaram aos Estados Unidos e foram

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decisivas para a Independência e a elaboração da Constituição. A marca fundamental da Constituição dos Estados Unidos é a separação entre Igreja e Estado. Princípio defendido pelos iluministas e por uma parte dos protestantes menores na formação inicial dos Estados Unidos, como batistas e quakers. (Johnson, 1999)

Apesar da presença do Iluminismo nos Estados Unidos, a principal característica deste perído foi a forte presença de movimentos religiosos reavivacionistas, que colaboraram para manter o pensamento bíblico tradicional como uma importante força política e intelectual. Enquanto, a Teologia européia, principalmente a da Alemanha centralizava-se nos problemas textuais e históricos da Bíblia, a teologia nos Estados Unidos voltava-se mais intensamente para as questões da experiência religiosa subjetiva e pessoal. Os movimentos reavivacionistas são o produto mais importante desta teologia prática. De um modo geral este movimentos foram muito intensos, sendo que apenas a questão da abolição da escravatura provocou uma pausa de cerca de duas décadas nos reavivacionistas. No período pós guerra civil, o movimento reavivacionista esteve centralizado na figura do grande pregador Moody, e sua teologia excessivamente individualista e subjetiva. Ao mesmo tempo o surgimento da Teologia do Evangelho Social, que apresenta uma visão de ênfase social e não individual na religião recebe vigoroso ataque do segmento que se organiza em torno dos "fundamentos da verdadeira fé cristã". Estes "fundamentos" foram crenças percebidas pelos conservadores como sendo essenciais para manter a genuinidade e integridade da fé cristã, diante da força do liberalismo intelectual. Começa em torno disto se organizar um movimento em que vê no desenvolvimento da alta e baixa crítica grandes ameaças as verdades bíblicas.

Uma importante força contra as crenças bíblicas veio das idéias darwinistas da origem das espécies, por um processo de evolução naturalista. Assim, o movimento de oposição ao liberalismo religioso, que aceitava parcialmente o Evolucionismo, foi organizado naquilo que denominaram de Fundamentalismo. O ataque à evolução biológica, passou a ser a bandeira de proa do Fundamentalismo e ficou conhecido como Criacionismo. ( Numbers, 1992).

O Fundamentalismo protestante embora possa ter crenças muito diferentes entre si, podemos afirmar que seu matiz central é a crença que "a Bíblia é o seu próprio interprete". Esta premissa é apresentada no Fundamentalismo, como sendo um conceito que pode ser compreendido a partir da leitura da própria Bíblia. No entanto, de uma perspectiva da Filosofia, está sendo assumido a priori alguns elementos que são trazidos pela filosofia do Senso Comum. Este dado é significativo, pois indica a aceitação de uma epistemologia ingênua, que não se ajusta as epistemologias contemporâneas.

Tomando "a Bíblia como seu próprio intérprete", o Fundamentalismo defende categoricamente não apenas a Criação, como também exige que esta Criação siga com rigor, o apresentado no texto bíblico, isto é uma Criação em uma Semana Literal. Entendendo-se que todas as obras foram feitas em seis dias, uma vez que o sétimo dia constitui-se em um "sábado" e este se reveste de um caráter moral e espiritual indispensável para o crescimento da Humanidade.

O Criacionismo não segue apenas a lógica da defesa da idéia de Deus, como Criador, questão que não é negado essencialmente pelo Evolucionismo, mas insiste que Deus criou conforme a narrativa bíblica. O Criacionismo deve e precisa ser reconhecido não apenas como um movimento que tenta defender o papel do conceito de Deus no conhecimento científico, mas verdadeiramente, como um movimento que tenta defender a veracidade da Bíblia como revelação divina para o homem, apresentando um Deus Criador e que revela a Sua Criação.

Por esta razão, o Criacionismo tem centrado seu ataque em todos os aspectos da

evolução biológica ou de qualquer outra ciência que possa por em xeque a literalidade da

Bíblia ..

As considerações e bandeiras do Criacionismo estão organizados em duas

vertentes básicas. A primeira, defende rigorosamente que todo o conhecimento necessário está na Bíblia, e o conhecimento científico, é essencialmente, uma oposição

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ao conhecimento revelado. Este grupo se manifesta intensamente em grupos radicais, que negam qualquer possibilidade de que a ciência sobretudo as sociais, possam estabelecer verdades confiáveis. A outra vertente, defende que existe uma harmonia entre a Ciência e a Bíblia, uma vez, que a natureza - objeto de estudo da Ciência e a Bíblia teriam o mesmo Autor- Deus, assim todas as incompatibilidades seriam aparentes ou decorrentes do equívoco do conhecimento científico ou eventualmente da interpretação de algum texto bíblico, usado fora de seu contexto. Este segundo grupo apresenta uma atitude mais integradora, e boa parte deste reconhecem o valor do conhecimento das ciências, pelos menos o das ciências naturais. (Brand, 1996).

Em suma, o Criacionismo é um movimento essencialmente religioso, que deseja opor-se não a ciência em si, mas a todo conhecimento que reduza o papel da Bíblia na definição de verdades. Os grandes defensores do Criacionismo, normalmente tem se organizado em sociedade criacionistas, para organizar uma visão de mundo compatível com a Criação bíblica, e algumas poucas destas sociedade tem realmente desenvolvido o que se poderia chamar de pesquisa científica a partir do modelo criacionista. O maior destaque deste modelo é o Geoscience Research Institute, mantido pela IASD, no Estado da Califórnia, EUA. Até a década de 1920, o Criacionismo assumia plenamente sua origem e proposta religiosa. Quando após a Segunda Guerra Mundial, a separação entre Estado e Igreja nos Estados Unidos passou por um intenso processo de secularização, o movimento criacionista reorganizou-se como a proposta de um Criacionismo científico, onde as bandeiras do movimento passaram a ser defendidas por especialistas em ciências e não mais por religiosos que se opunham à evolução. É importante, porém, ressaltar que a motivação intrínseca do Criacionismo é religiosa, na defesa dos valores da fé cristã e da Bíblia.

III - A

Ciência na Escola - ensino

materialista?

do pensamento científico ou do pensamento

O papel relevante que as Ciências possuem hoje no currículo escolar, pode obscurecer o fato de que até talvez um século atrás, o papel atribuído as Ciências fosse muito menor. O aumento do conhecimento científico nos últimos 150 anos, principalmente associado ao desenvolvimento tecnológico e ao emprego nos empreendimentos de poder, quer capitalista, ou comunista, tornou a Ciência um aspecto central do ensino. Hoje presente no currículo de, provavelmente, qualquer país. O ensino de Ciências passa a merecer um lugar de destaque visto como um elemento fundamental na capacitação do educando para o trabalho, bem como a importância de construir a racionalidade do pensamento moderno.

Calcado em uma ótica positivista e materialista, o ensino de Ciências passou a ser visto como um elemento fundamental na superação do conhecimento religioso - normalmente tido como superticioso e obscuro. A Ciência, a aplicação da racionalidade ao estudo experimental da Natureza, foi percebido como estabelecendo um novo paradigma para o sucesso da Humanidade. É verdade que as duas grandes guerras do século XX colocaram em dúvida a possibilidade da Ciência ser sempre bem empregada, mas não erradicou o sentimento de confiança na Ciência e de sua superioridade em relação à Religião.

O pensamento da Evolução segue uma trajetória quase paralela a expansão da Ciência a ponto de alguns confundirem os dois conceitos. A palavra Evolução, significa literalmente "progredir, aperfeiçoar", visto como o antônimo da palavra "involução". O surgimento de idéias evolucionistas são bastante antigas, remontando pelo menos os atomistas na Antiga Grécia, em tempos mais recentes podemos falar que a "evolução" começa a ser um conceito usado a partir do século XVIII. Os Iluministas viam a possibilidade do uso da razão, sobrepujando a fé na revelação, como fonte de evolução social e do ser humano. A crença no progresso da Humanidade, isto é evolução já está presente bem claro no pensamento filosófico do século XVIII. Algumas destas evidências podem ser ricamente

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encontrados no campo da Filosofia em autores como Hegel, Feuerbach, Hume, Kant,

Marx, entre outros

A primeira influência destes conceitos foi a própria Teologia, em

... especial a alemã, que assume o conceito de uma evolução religiosa, de coleção de tradições diferentes, na composição da Bíblia, e a desconfiança quanto a experiência objetiva da Revelação. Hume, por exemplo, propõe que a religião teria surgido a partir do medo dos primeiros seres humanos em relação as forças irracionais e assustadoras da natureza, a qual sua vida estavam completamente sujeitos. Hegel, concebe a realidade dialeticamente em um movimentos de tese, antítese e síntese, onde esta síntese constitui o sentido da História e do desenvolvimento humano.

Enfim, a idéia de Evolução social antecipa em parte as idéias da Evolução biológica que logo são desenvolvidos, por cientistas como Lamarck, e depois Darwin. A proposta da Evolução biológica proposta de Darwin, era bem mais elaborada do que a de Lamarck, e progressivamente foi ganhando aceitação no meio acadêmico, mas especificamente o que propôs Darwin? As propostas de Darwin podem ser sintetizadas da seguinte forma:

(1) a grande diversidade de seres vivos é resultado de processos naturais, na interação do ser vivo com o ambiente,

(2) as mudanças são gradativas e lentas, e aquelas que não são úteis para o ser vivo, são eliminadas pelo processo de seleção natural,

(3) estes processos podem explicar toda a variedade de vida existente na Terra. (Ratzsch, 1996).

Se a proposição 3 é verdadeira, então Deus está dispensando como explicação necessária para a origem da vida. A proposição 3 passou a ser um elemento importante para um grupo crescente de cientistas, que reconheciam no materialistmo, a única possibilidade de construção do pensamento científico. Assim, a evolução passou a ser vista para este como uma demonstração fundamental, da "dispensabilidade" de Deus, nos processos biológicos a serem estudados pela Ciência.

Progressivamente o ensino de Ciências, incorpora não apenas os conceitos e descobertas da Física, Química ou Biologia, mas passa a trabalhar com pressupostos evolucionista na formação da vida e do Universo. Progressivamente, nas aulas de Ciências, boa parte das idéias materialistas são passadas como sinônimo de Ciência. A forma do ensino tradicional de Ciências, pode ser visto da seguinte forma: as grandes descobertas científicas estavam aguardando para serem 'descoberta', os cientistas responsáveis pela 'descoberta' cooperara para retirar a humanidade da ignorância. De certa forma, ridiculariza o pensamento anterior como não-científico (Brand 1996).

O ensino de Evolução, notadamente nos cursos de Biologia, História e Geografia, tem marcado por apresentar a palavra evolução de forma vaga e imprecisa, mas sempre presumidos como válidos e científicos. Na Biologia atual, evolução está mais para simples mudança, de que mudanças para melhor. O sentido da evolução na História, é muitas vezes, percebido como um fluxo de acontecimentos na formação de uma civilização, cada vez mais complexa, embora esta não seja uma garantia de sobrevivência. A evolução passa em muito momentos a ter um sentido estrito de mudança, e em outras ocasiões trata deste conceito como sendo necessariamente de um aperfeiçoamento inevitável ao qual a "Natureza" estaria sujeita.

O ensino de Ciências passa a ocupar um espaço de endoutrinamento anti-religioso muitas vezes. Na realidade, quando as diversas descobertas científicas e experiências são colocadas descontextualizdas da perspectiva histórica e social, acaba produzindo uma "obviedade" da verdade científica, que não havia sido descoberta ainda pelo conhecimento não científico, justamente pelos obstáculos da religião. Um exemplo, que ilustra bem está situação é a questão do Geocentrismo X Heliocentrismo no século XVI e XVII. Normalmente, a colocação deste episódio a religião é demonstrada como se opondo ao conhecimento científico. De fato, o caso de Galileu foi mais que um simples

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confronto entre ciência e religião. (Brand, 1996, Rossi, 1992). A proposta geocêntrica defendida pelos religiosos e astrônomos até o século XVI, não consistia em uma tese religiosa, mas científica, ainda que validada pela Teologia, fato normalmente obscurecido nos textos do ensino de Ciências ...

Outra constatação, porém, que os psicólogos da educação tem feito, é que apesar do ensino científico ser ministrado desde as séries iniciais as crianças, estas de um modo geral, mesmo após a conclusão do ciclo básico de educação formal ainda, costumeiramente mantém, posições muito mais próximas do senso comum, do que o pensamento científico. (Gardner, 1994). Um exemplo básico desta situação, é identificar a baleia, como "peixe" ao invés, de mamífero, devido ao seu habitat, ser aquático e não terrestre. Outro aspecto pode ser visto como atribuindo intencionalidade no funcionamento de um órgão. A questão levantada pelos educadores têm demonstrado, que embora seja possível ensinar as crianças a pensarem científicamente, isto é, estabelecendo hipótese, e realizando experimentos para verificar estas hipóteses, de um modo geral, o educando recebe a informação científica, com o mesmo grau de arbitrariedade, que recebe qualquer outra informação. Evidentemente, este processo impede a correta compreensão do conceito. Além do mais, à medida em que o conceito científico está mais distante do "senso comum", mais dificilmente ele é compreendido. Este aspecto não se restringe apenas ao conhecimento científico das Origens, mas a todos os segmentos da ciência. Este é um aspecto importante, porque o Ensino de Ciências, mais do que levar o aluno a crer na Evolução ou na Criação, precisa levar o aluno a compreender a essência do conhecimento experimental e da observação sistemática, e por extensão, seus limites e competências. A preocupação expressada por muitos evolucionistas que o ensino de Ciências em um viés criacionista pode impossibilitar o progresso do conhecimento científico, carece de uma fundamentação sólida. Primeiro, que na avaliação do conhecimento científico entre educandos de nível médio, não se encontrou co-relação entre a abordagem evolucionista ou criacionista no ensino de Ciências e o baixo nível de compreensão. Segundo,a maior partes destes ataques, partem de cientistas ateistas ou agnósticos, que vêem a ciência, como um campo de defesa, da suas ideologias particulares, o que evidentemente, também, é um uso equivocado.

O uso da Ciência como uma ferramenta ideológica quer para difundir o Materialismo ou o Criacionismo, não nos parece adequado. Embora, não exista ciência neutra, a força do uso da ciência, esta em sua possibilidade de maior objetividade vêm pela discussão científica e não pelo trabalho do cientista em si. (Popper, 1993). Assim, a recusa prévia de uma discussão honesta sobre o trabalho científico empobrece as Ciências e o seu ensino. O ensino de Ciências deve ser capaz de estabelecer no educando a noção do 'fazer' ciência. Elaborar o conhecimento científico, não com base em "mitos" modernos, mas sim no manuseio correto do pensamento e do instrumental científico na busca da verdade. O ensino de Ciências que permita a compreensão histórica do pensamento do cientista e como ele pode interpretar os resultados de seu experimento são fundamentais, para a formação da mentalidade científica abrangente e crítica.

IV - A Batalha das Origens

Crer que Deus está do seu lado em uma guerra é uma fator fundamental para a agressão ao oponente. Crer que o oponente está ao lado do diabo é um fator consequente do primeiro. Tomamos, esta idéia em um sentido figurado, a medida em que o debate da Criação X Evolução, tem sido uma batalha entre fundamentalistas cristãos e ateístas. Supor que todo evolucionista está do lado do diabo, e que todo o criacionista está ao lado de Deus, tem produzido uma batalha intensa, sobretudo, nos Estados Unidos, mas acima de tudo, uma guerra onde quase todos os ideólogos de ambos os lados demonstram pouco conhecimento da causa que combatem, principalmente tomando

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como critério a Filosofia da Ciência, o campo onde se insere com propriedade debate.

este

Em nossa opinião a apologia parece estar na base do erro. Embora todo pesquisador, no fundo, seja um apologista, identificamos um tipo de apologia a priori, marcado pelo maniqüeísmo, que normalmente rejeita qualquer reconhecimento de erros em sua argumentação para averiguar mais intensa a questão debatida. A literatura de livros criacionistas combatendo a Evolução, e livros evolucionistas combatendo a Criação, mostram um constante mal-uso da ciência, da filosofia da ciência, e da própria lógica. Estes abusos são feitos porque cada um tem certeza de que "Deus está do seu lado", e portanto, sendo o seu lado verdadeiro, tudo é válido para provar sua tese. Há falsas provas desenvolvidas por ardorosos evolucionistas, como também por apaixonados criacionistas. Consideramos fundamental para evitar que este ciclo se perpetue, esclarecer alguns dos equívocos usados por ambos os lados na "guerra das origens" para em seguida propor um papel construtivo sobre as Origens no ensino escolar confessional e, quiçá, no público, também.

Críticas equivocadas dos Criacionistas a Evolução (1) Evolução é uma mera teoria - não fato; (2) Evolução não pode ser provada; (3) Evolução não "é falsificável"; (4) Grande quantidade de fatos anômalos que a evolução não pode explicar; (5) Processos evolutivos não são observáveis; (6) Ciência não pode investigar as origens; (7) Evolução não pode ser reproduzida ou repetida. (Ratzsch, 1996) Críticas equivocadas dos Evolucionistas ao Criacionismo (1) Se há uma referência a um conceito sobrenatural fere-se o limite da ciência; (2) Criacionistas são todos iguais, têm conceitos ultrapassados e não entendem o processo evolutivo, por esta razão discordam da evolução;

(3) A Bíblia, por ser um livro religioso, não pode ser usado como fonte de idéias para a ciência;

(4) Criacionistas não compreendem o funcionamento das regularidades e desejam voltar ao Deus-das-brechas.

(5) O Conceito de Deus é intrinsecamente uma idéia religiosa. (Ratzsch, 1996)

A apresentação da comparação anterior permite nos perceber um terreno comum na confusão.

1) Definir o que é ciência e o que não é, constitui-se num exercício bastante desafiante e no fundo impossível de ser feito precisamente. A tentativa de limitar ciência ao puramente o factual, por um lado, ou somente dentro do naturalismo, é traçar limites indevidos. A Ciência é uma forma de conhecimento, com um centro metodológicos bem definido: a experimentação e a observação rigorosas. No entanto, a extensão do conceito de rigor pode ser aplicado de diversas formas. Além do que é muito difícil de definir corretamente o que é ciência. Muitas coisas nas áreas de fronteiras podem ser acusados de pseudociência, sem isto ser um título cabível. Além disso, a acusação de certas idéias como pseudociência, como o criacionismo científico, não invalidam necessariamente seus posicionamentos, por não serem estritamente científicos.

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2) Evitar que crenças tão fundamentais como a existência de Deus ou não, e Deus se revelar, ou não, levam a posicionamentos desfavoráveis a formação das habilidades científicas do educando, ao mesmo tempo, que produzem intolerâncias. A atitude de alguns evolucionistas que consideram que quem entende a evolução não pode ter dúvidas sobre elas ( Daniel Denett), apresenta já por si só, uma posição intolerante e pré- conceituosa, inaceitável em uma sociedade pluralista como a nossa.

3) O fato de a Ciência ter um compromisso na busca da verdade deve evitar se utilizar dela para defender questões já previamente estabelecidas, mesmo que possam ser indiscutivelmente verdadeiras para aquele que propõe, antes o uso na confecção dos dados deve aceitar os rigores do método, e saber quando se sai do âmbito estritamente científico, para o filosófico e perceber o valor do debate, procurando refletir de modo construtivo e não destrutivo sobre as diferenças.

4) Grande parte do debate só ocorre, porque os oponentes não estabelecem um diálogo coerente de modo a possibilitar uma compreensão mútua e a correção de definições pré- conceituosas. Desta forma poderiam perceber que há muito terreno comum entre as duas abordagens da ciência do que diferenças, afastando assim a presunção que se o outro entendesse seu lado, inevitavelmente mudaria de lado, erro presente tanto entre evolucionistas como criacionistas.

V. O Ensino de Ciências, de Religião e Origens de forma positiva.

O tema das Origens, complexo em sua natureza, pode estar presente na Escola? Como abordar? Se pensarmos, no caso da Escola Cristã precisamos considerar alguns fatos importantes e que são importantes para serem considerados, mesmo para o ensino não- confessional. A proposta do ensino de Ciências, é oferecer ao educando a compreensão da racionalidade dos processos encontrados na Natureza. Esta previsibilidade e possibilidade de estudo, é constatada e assumida por qualquer um que deseja "fazer ciência". O ensino de Ciências deseja apresentar as teorias, que permitem o uso positivo da Natureza para o ser humano, ao mesmo tempo que apresenta como estas teorias foram formuladas, pois é na sua formulação demonstrável, ainda que transitória, que resiste a grande força da Ciência, para a produção de técnicas e procedimentos favoráveis, ainda que a Ciência não tenha de ter um caráter utilitário para ser ciência. A proposta do ensino de Religião, é oferecer ao educando a compreensão do Sagrado e

do Transcendente. No caso da Escola Cristã, a mediação entre o finito e Infinito, é feito através da Bíblia, considerado como texto sagrado por excelência, por ser baseado em revelações divinas e na inspiração dos seus escritores. O estudo sistemático e minucioso constitui o guia mais seguro para que o Sagrado e o Infinito Deus, possa ser

compreendido

...

Esta

compreensão segue de deveres religiosos: adoração e deveres

morais: compromisso com o outro. O ensino da Bíblia assim deve não buscar também nenhuma posição prévia ( os famosos textos-provas), mas sim no aprendizado do texto

enquanto revelador do Infinito, como um convite para o ser humano compreender aquilo que O transcende, o Seu Criador.

As Origens apresentam um campo de intersecção entre a Ciência e a Religião seja qual for a abordagem que for seguida. Intersecção não significa igualdade. Assim há posicionamentos Criacionistas, que pertencem exclusivamente ao âmbito da Religião e dentro deste aspectos devem ser entendidos. Por outro, lado há posicionamentos Criacionistas, que pertencem ao âmbito da Ciência e que precisam ser entendidos dentro deste referencial.

Tomamos um exemplo, o Dilúvio é um posicionamento religioso do Criacionismo. A

crença em catástrofes ou uma grande castástrofe como explicação da atual paisagem

terrestre pertence ao âmbito da Ciência, e neste âmbito deve ser considerado

...

Talvez as

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diferenças sejam tênues, mas é importante as estabelecermos. Apenas na seqüência desta distinção, se a Arca de Noé, ainda existe, e se um dia for encontrada, em nada a descoberta provaria a veracidade do Dilúvio. Mesmo, que os modelos geológicos possam ser explicados em algum momento por uma única catástrofe, que no momento não o podem, ainda isto não provaria a veracidade do Dilúvio, porque este evento pertence ao mundo da religião, enquanto razão de ser: destruir a humanidade pecaminosa, e dar uma segunda chance, a humanidade. Este aspecto só faz sentido no âmbito da religião.

Insistir em ensinar a Semana da Criação em ciências é um equívoco. A Semana da Criação não pode ser provada pela ciência. Esta questão pertence ao universo religioso, a demonstração da impossibilidade de vida surgir a não ser da vida, pertence ao conhecimento da ciência. A vida como portadora de desígnio, ao mesmo tempo sujeito a eventos casuais, pertence a ciência.

Como construir um ensino de Ciência e um ensino de Religião bíblica, que coopere para o crescimento intelectual e espirtual do educando? Necessitamos primeiramente ter uma correta compreensão da Ciência e da Teologia. Ambos são conhecimentos humanos. A Ciência se debruça sobre a natureza e tenta compreendê-la. A Teologia se volve para os textos sagrados e procura interpretá-los fielmente. As afirmações de ambos tende a ser por um lado permanentes enquanto método, e são transitórias quanto a conteúdos. O reconhecimento de que não a religião sem Teologia, é fundamental, para evitar o equívoco fundamentalista que existe uma leitura da Bíblia, que não seja teológica, e portanto, fora do texto. Assim, ao mesmo tempo em que o ensino de Ciências, deve buscar o desenvolvimento do uso correto do método de compreensão da natureza, que requer uma permanente abertura aos problemas ainda não-resolvidos, também, o ensino de Religião, no caso da escola cristã, tendo como objeto de estudo a Bíblia, deve conduzir a uma compreensão da verdade bíblica em seu sentido histórico e depois na aplicação para os contextos atuais. A elaboração de um ensino de Origens, que respeite a Ciência e a Teologia, podem assim construir, um ambiente favorável para o desenvolvimento do educando e desta forma também auxiliar na despolitização do tema, e fortalecer a busca da verdade neste campo.

O tema das Origens só faz sentido quando deixa de se uma bandeira ideológica, e passar a ter um sentido pessoal dos compromisso decorrentes de como percebemos e cremos ser a origem da humanidade, e em certo sentido, a origem pessoal. A história da vida pessoal, dos traumas , das fantasias, e do cultivo da memória, só fazem sentido, quando ela nos ajudam a ser pessoas mais felizes e mais integradas, assim o ensino do tema das Origens só faz sentido se traz um significado pessoal ao educando, fora disto é um guerra com pouca razão de ser, a não ser a própria paixão dos belingerantes, na demarcação de um poder.

Em suma, a presença do ensino do Criacionismo na Escola só faz sentido, quando ele respeitando e construindo os saberes científico e religioso, permitir uma visão integrada do conhecimento, ao mesmo tempo que é humilde suficiente para reconhecer todas as suas limitações, mas oferecer o principal que é a visão integradora da vida para o educando, onde o debate Criação X Evolução, não apresenta em si mesmo nenhuma relevância. Portanto, ao mesmo tempo em que o estudo de Origens não é neutro, a mera endoutrinação é prejudicial. Acima de tudo consideramos que o Fundamentalista cristão no ensino do Deus Criador, não confie demasiadamente na ciência para firmar os seus crentes, afinal a fé necessita ser construida em outra base - a relação de obediência à Deus.

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Bibliografia:

BRAND, Leonard. Faith, Science and Earth History. Berrien Springs, Michigan, Andrews University Press, 1996. GARDNER, Howard. A Criança Pré-Escolar. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994. JOHNSON, Paul. A History of the American People. New York. Harper Perenial, 1999. NUMBERS, Ronald L. The Creationists. New York, Alfred A. Knopp, 1992. POPPER, Karl. A Lógica do Pensamento Científico. São Paulo, Cultrix, 1993. ROSSI, Paolo. A Filosofia e a Ciência dos Modernos. São Paulo, UNESP, 1992. RATZSCH, Del. The Battle fo Beginnings. Downers Groves, Illinois, InterVarsity Press, 1996.

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AA CCoolluunnaa GGeeoollóóggiiccaa ee aa PPaalleeoonnttoollooggiiaa

Introdução

Marcos Natal de Souza Costa

Centro Universitário Adventista de São Paulo

Muito pouca coisa pode se dizer sobre Geologia sem se referir a Escala de Tempo Geológico. Trata-se de uma forma padronizada utilizada pelos geólogos para ordenar e comparar eventos passados que teriam ocorrido no mundo inteiro.

Ela foi construída através da análise de vários tipos de rocha e do seu conteúdo fossilífero, funcionando como se fosse uma régua do tempo onde estão registrados a seqüência de eventos que contribuíram para a formação da crosta terrestre.

Sua história reflete mudanças significativas nas formas de pensamento sobre a origem e idade da Terra. Assim, qualquer renomado cientista do século XVII que fosse perguntado sobre a idade da Terra e como ela teria se formado diria que a Terra teria 6000 anos e que sua história estaria narrada nos primeiros capítulos do livro de Gênesis. Se a mesma pergunta fosse feita a outro cientista do século XIX ele diria que a Terra seria bem mais antiga, que o Dilúvio de Noé teria sido local ou nem mesmo teria ocorrido e que a história da Terra estaria registrada nas rochas.

Através da coluna geológica é possível prever o conteúdo fossilífero de uma determinada camada de rochas em qualquer lugar da Terra. Isto porque, de acordo com a biologia convencional, a evolução dos seres vivos teria ocorrido de forma irreversível, ou seja, os organismos que viveram em uma determinada época, deram origem a outros organismos mas nunca reverteram a formas primitivas. Para o criacionismo científico ela também é de grande utilidade uma vez que nos informa sobre a paleogeografia e a paleoecologia do mundo pre-diluviano, ou seja, sobre a distribuição e as interrelações entre as comunidades bióticas.

Neste trabalho faremos uma breve revisão histórica de como se formou a escala de tempo geológico, quais seus fundamentos e que tipo de informações podem ser dela extraídas. Esta revisão tem por base o trabalho de Teixeira et al., 2000. Em seguida discutiremos também qual o significado das divisões do tempo em Eras, Períodos e Épocas segundo as proposições da geologia convencional.

Concepções Iniciais Sobre a Origem da Terra

A idéia de que a Terra poderia ser muito antiga só emergiu nos dois últimos séculos em consequência de dois grandes movimentos da cultura ocidental:

  • - O Iluminismo: movimento intelectual europeu do século XVII através do qual o homem

passou a substituir as explicações sobrenaturais para os fenômenos da natureza por leis naturais;

  • - Revolução Industrial: movimento técnico-científico e socio-econômico observado na

Europa pela metade do século XVIII o qual incrementou fortemente a demanda por matérias-primas e recursos energéticos oriundos do subsolo.

Antes disto, porém, não se cogitava que o mundo pudesse ser muito antigo devido a grande influência religiosa no pensamento intelectual daquela época. Assim, o cristianismo primitivo já afirmava que a Terra teria apenas poucos milhares de anos. Idéia semelhante continuou a ser difundida na Idade Média e Renacença por sábios europeus que concebiam um mundo criado em conformidade com o relato bíblico de Gênesis, ou seja, há cerca de 6000 anos. Tal concepção foi consolidada no importante trabalho do Arcebispo Ussher (1581-1656), primaz da Irlanda, através de cuidadosa pesquisa nas

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Sagradas Escrituras e em outros documentos históricos. Ussher chegou mesmo a estabelecer o dia da criação, que segundo ele, teria ocorrido em 23 de outubro de 4004 antes de Cristo. Tal foi a influência do trabalho de Ussher que esta data permaneceu até o início do século XX como nota de rodapé nas Bíblias publicadas pelas editoras das prestigiosas universidades inglesas de Oxford e Cambridge.

Paralelamente aos trabalhos de Ussher, desenvolvia uma escola que, segundo Harter (1998), denominava-se Cosmogonia Especulativa. Esta nova concepção foi liderada por René Descartes cujo modelo de história da Terra influenciou sobremaneira o pensamento de sua época e deu origem a novas cosmogonias nos séculos seguintes. O sistema de Descartes postulava que a Terra teria se formado através de uma imensa bola de fogo que, após se resfriar teria originado uma crosta sobre o grande mar primitivo. Parte desta crosta teria entrado em colapso e liberado grandes quantidades de água para a superfície dando origem aos oceanos.

No clima intelectual dos séculos XVII e XVIII, que mantinha a idéia do ser humano como centro do Universo e a Terra como de seu uso exclusivo, começou a surgir a Geologia. Os princípios desta nova ciência foram enunciados pelo dinamarquês Nils Stensen, mais conhecido pela forma latinizada como Nicolau Steno (1638-1686). A grande contribuição de Steno foi o estabelecimento dos três princípios que regem a organização de sequências sedimentares, publicado em 1669 no seu livro Prodromus:

  • - Superposição: sedimentos se depositam em camadas, as mais velhas na base e as mais novas sucessivamente acima;

  • - Horizontalidade: depósitos sedimentares se acumulam em camadas sucessivas dispostas de modo horizontal;

  • - Continuidade Lateral: camadas sedimentares são contínuas, estendendo-se até as margens da bacia de acumulação ou se afinam lateralmente.

Apesar de simples, estes princípios são absolutamente fundamentais na análise das relações temporais dos corpos rochosos, embora sua aplicação indiscriminada possa levar a interpretações equivocadas. Hoje, eles parecem mais que óbvios, contudo, na Europa do século XVII, vivendo um período de transição entre os mundos medieval e moderno onde conviviam interpretações eruditas da história da Terra e Inquisições ao lado de grandes descobertas científicas como o telescópio, o microscópio e o cálculo, estes conceitos foram inovadores.

Por volta do século XVIII, o conceito bíblico da Criação ainda se refletia claramente nas primeiras tentativas de ordenar a história geológica do planeta. Entre 1750 e 1760, Giovanni Arduino (1713-1795) nos Alpes italianos e J. G. Lehmann (1719-1767) na Alemanha denominaram as rochas cristalinas com minérios metálicos, observadas no núcleo das montanhas, de primária ou primitivas e as rochas estratificadas bem consolidadas (calcários, folhelhos) com fósseis de secundárias; as rochas estratificadas pouco consolidadas com fósseis marinhos e intercalações vulcânicas foram denominadas de terciárias. Posteriormente surgiu o termo transicional para acomodar rochas intermediárias entre as primárias e secundárias e em 1829 o francês J. Descoyers cunharia o termo quaternário para sedimentos marinhos recobrindo rochas terciárias na Bacia de Paris. Os termos primário e secundário já foram abandonados, mas os termos Terciário e Quaternário ainda constam da escala moderna do tempo geológico, embora com conceitos diferentes dos originais.

Na segunda metade do século XVIII esta divisão simples foi interpretada à luz do relato bíblico da separação da porção seca das águas durante a criação. De acordo com esta idéia, quase todas as rochas, incluindo os granitos e basaltos, teriam se precipitado das águas do mar primordial, daí a razão do nome Netunismo, em homenagem a Netuno, o deus do mar da mitologia greco-romana.

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Os netunistas acreditavam que as rochas se formavam em quatro séries sequênciais a partir das águas do mar primevo, como relatado na Bíblia. Para eles, as duas séries mais antigas, incluindo rochas ígneas e metamórficas eram precipitadas em capas concêntricas sobre toda a superfície original da Terra quando este mar ainda cobria tudo. As outras duas séries, mais restritas geograficamente e caracterizadas por fósseis, marcas de correntes e outras estruturas indicativas de águas mais rasas eram originadas quando os continentes já se expunham acima do nível do mar (Fig. 1). Para explicar a descida do mar primevo os netunistas, como Steno, postulavam que as águas sumiam para dentro de imensas cavidades no interior da Terra.

O netunismo teve em Abraão Werner (1749-1817), professor durante 42 anos na Academia de Minas de Freiberg, Alemanha, seu proponente mais carismático. A influência de Werner se estendeu até cerca de 1840, já no berço na doutrina antagônica, o Plutonismo, que nascera no fim da século XVIII em Edimburgo, Escócia.

Enquanto Werner lecionava na Alemanha, o naturalista escocês James Hutton (1726- 1797) fazia as observações que serviriam de base para transformar a Geologia numa ciência já nas primeiras décadas do século XIX. Próximo à sua casa em Edinburgo, Hutton descreveu evidências de metamorfismo de contato entre basalto e rochas sedimentares e interpretou como intrusivo (e não precipitado) um granito que cortava calcário supostamente mais novo segundo os netunistas. Juntando estas observações, Hutton demonstrou a natureza fluida, quente e intrusiva das rochas ígneas, fundamentando assim o conceito de plutonismo (de Plutão, deus grego das profundezas), em contraposição ao netunismo de Werner. Em seu trabalho mais importante, Theory of the Earth, de 1788, Hutton articulou suas idéias modernas sobre a Geologia e a história longa e complexa da Terra. Para Hutton todo o registro geológico podia ser explicado pelos mesmos processos que atuam hoje, como erosão, sedimentação, vulcanismo, etc. Este conceito leva o nome de princípio de causas naturais.

Hutton ainda estabeleceu outro princípio fundamental da Geologia, ou seja: as relações entrecortantes de corpos rochosos. Este princípio pode ser desdobrado em duas partes, a primeira regida pela lei das relações de corte e a outra pela lei das inclusões. Assim, qualquer feição geológica (rocha ou fóssil) cortada ou afetada por outra (dique, sill, falha, dobra, atividade de organismos, etc.) ou contida em outra (um seixo num conglomerado, uma bolha de gás num cristal) é mais antiga do que a rocha que corta ou que a contém ou que a estrutura que afeta.

Entre 1830 e 1875, outro escocês, Sir Charles Lyell (1797-1875) popularizaria, em 14 edições de seu clássico Principles of Geology, o princípio de causas naturais sob o prisma do Uniformitarismo. Esta obra influenciou várias gerações de geólogos a começar pelo jovem Charles Darwin (1809-1882) que o levou consigo ao embarcar no Beagle em 1831 em sua fantástica viagem ao redor do mundo.

Na visão de Lyell, o presente seria a chave do passado sendo o passado igual ao presente inclusive em intensidade dos processos atuantes na dinâmica interna e externa. Hoje sabemos que isto não é totalmente verdade uma vez que nem todos os processos obsedavas atualmente como erosão, formação de solos, absorção e reflexo da energia solar, etc. correspondem exatamente e na mesma intensidade a aqueles que atuaram no passado. Assim, o rigor do Uniformitarismo proposto por Lyell passou por uma revisão conceitual dando origem ao Atualismo. Este princípio parte do pressuposto da constância das leis naturais que regem os processos geológicos, mesmo que no passado os produtos e a intensidade destes processos tenham sido algo diferentes daquilo que se observa atualmente.

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Nível do mar durante a: Primeira Série Segunda Série Rochas de Transição Terceira Série Rocas Quarta
Nível do mar durante a:
Primeira Série
Segunda Série
Rochas de
Transição
Terceira Série
Rocas
Quarta Série
Secundárias
Rochas Terciárias
Nível do mar atual
Rochas Primitivas
ou Primárias
Quarta Série
Terceira Série
Segunda Série
Primeira Série
Formações Parciais
geradas após a emergência dos continentes acima
do nível do mar
Formações Universais
precipitadas sobre toda a superfície original
da Terra
Rochas Terciárias
Rochas Secundárias
Material aluvial dos
terrenos baixos
Arenitos, calcários e
folhelhos muito
fossilíferos, com
intercalações de
rochas “precipitadas”
Rochas de
Transição
Calcários e
grauvacas até com
fósseis e marcas de
corrente, ainda com
rochas
“precipitadas”
Rochas Primitivas
ou Primárias
Granitos,
gnáisses, xistos,
ardósias e outras
de “aspecto
antigo”

Figura 1: A origem das rochas segundo os netunistas (Modificado de Teixeira et al.; 2000).

O Estabelecimento da Escala de Tempo Geológico

Estimulados pela curiosidade fomentada pelo Iluminismo e pela crescente demanda para recursos minerais, alguns naturalistas na Europa no fim do século XVIII e início do XIX notaram que o conjunto de fósseis apareciam sempre na mesma ordem no registro geológico. Entre 1799 e 1815, o inglês William Smith (1769-1839) e o anatomista francês Georges Curvier concluíram, independentemente, que esta constatação permitia estabelecer a equivalência temporal, ou seja, a correlação fossilífera ou bioestratigráfica entre faunas e floras fósseis iguais, mesmo que contidas em rochas diferentes e em sequências distantes entre si.

Estava enunciado, assim, o princípio da sucessão biótica que estabelece ser possível colocar rochas fossilíferas em ordem cronológica pelo caráter de seu conteúdo fossilífero, pois cada período, época ou subdivisão do tempo geológico possuiria um conjunto particular de fósseis, representativo dos organismos que viveram naquele tempo. Para explicar a curiosa sucessão de fósseis no registro, surgiram dois conceitos radicalmente opostos: o Catastrofismo de Curvier, que interpretava o registro fóssil como resultado de sucessivas extinções cataclísmicas globais, cada qual seguida pela recriação logo depois de uma nova fauna e flora e a Evolução Biológica de Charles Darwin, que explicava a diversidade do registro fossilífero como resultado da interação entre seres e o meio ambiente, com a sobrevivência e sucesso das formas mais bem adaptadas (seleção natural). Para Darwin, portanto, as extinções representavam eventos naturais, ao contrário de Curvier que advogava o sobrenatural para explicá-las.

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Com o princípio de sucessão biótica à sua disposição, geólogos da Europa puderam, no curto intervalo de 1822 a 1841, ordenar as principais sucessões geológicas destas regiões em uma escala de tempo geológico através da datação relativa das faunas e floras fósseis contidas nas rochas estudadas. Inicialmente, descreveram sistemas espessos de rochas, cada qual com seu conteúdo fossilífero distinto. Cada sistema de rochas teria sido depositado durante um período específico, identificado pelo conjunto de fósseis peculiares ao sistema e designado por um nome alusivo a alguma feição da região onde o sistema foi definido. Assim, por exemplo, o termo Cambriano se refere a Cambria, antigo nome romano para Inglaterra. Devoniano, da localidade de Devonshire, Inglaterra; Jurássico dos Montes Jura na Europa e Permiano da cidade de Perm, na Rússia. Nomes culturais também foram utilizados como Ordoviciano e Siluriano, das tribos Ordovices e Silures que habitavam o País de Gales. O termo Carbonífero se refere a uma sequência de rochas muito ricas em carvão enquanto que o Cretáceo, da palavra francesa cré (giz) se refere a grande quantidade de calcário fino encontrada em uma determinada sequência de rochas.

A correlação fossilífera ou bioestratigráfica, cada vez mais refinada, levou, mesmo antes de 1850, à subdivisão dos períodos e destes em Épocas e unidades menores. Ao mesmo tempo, semelhanças e distinções entre os fósseis de diversos períodos permitiram a agregação dos períodos nas Eras Paleozóica, Mesozóica e Cenozóica, delimitadas pelas maiores extinções na história da vida, no fim do Permiano e do Cretáceo, respectivamente. Modernamente, as eras tem sido agrupadas em intervalos de tempo maiores conhecidos como Eons: Arqueano, Proterozóico e Fanerozóico. Os eons Arqueano e Proterozóico são conhecidos, coletivamente, pelo termo informal Pré- Cambriano.

Como Entender a Coluna Geológica

A coluna geológica é uma forma padrão de agrupar as subdivisões do tempo geológico válida para toda a Terra. Como foi visto, inicialmente foram definidos os Períodos, que se constituem em sistemas de rochas formados numa mesma época no passado. A medida que novos dados foram sendo obtidos e que as rochas e seu conteúdo fossilífero foram sendo investigados em maior detalhe, os Períodos foram subdivididos em Épocas e estas em Idades. Os Períodos, por sua vez, foram agrupados em Eras e estas em Eons (Fig. 2). Assim, conforme a geologia convencional, o Eon Fanerozóico teria iniciado há 545 m.a (milhões de anos) e persiste até hoje, sendo constituído das seguintes Eras:

Paleozóica, Mesozóica e Cenozóica. A Era Paleozóica teria iniciado há 545 m.a e terminado há 250 m.a sendo formada de 6 períodos: Cambriano, Ordoviciano, Siluriano, Devoniano, Carbonífero (nos EUA dividido em Mississipiano e Pensilvaniano) e Permiano. A Era Mesozóica teria iniciado a 250 m.a e terminado a 65 m.a sendo formada pelos períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo. Finalmente, a Era Cenozóica teria iniciado a 65 m.a, se estendendo até os dias atuais sendo composta dos períodos Terciário e Quaternário. O termo Terciário tem sido substituído por Paleógeno, mais antigo e Neógeno mais recente.

Mas por que a Era Paleozóica teria iniciado há 545 m.a e não antes ou depois? Por que Era Mesozóica teria encerrado há 65 m.a e não em outro momento? São perguntas que, a primeira vista, podem chamar a atenção do leitor. Como veremos, as grandes divisões do tempo geológico estão relacionadas a grandes catástrofes, normalmente associadas a explosão ou extinção em massa de seres vivos. Para os objetivos de nosso estudo, vamos rever a passagem do Pré-Cambriano para o Cambriano e os limites entre as eras Paleozóica e Mesozóica e Mesozóica e Cenozóica.

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O Limite Pré-Cambriano/Cambriano

A separação entre o Pré-Cambriano e o Fanerozóico é feita em função da quase ausência de fósseis no primeiro e na abundância deste registro no segundo. O Pré- Cambriano é subdividido em dois Eons: o Arqueano, mais antigo e o Proterozóico, mais novo. As primeiras formas fósseis razoavelmente definidas são supostamente encontradas na parte superior do Arqueano, quando os estromatólitos se tornaram relativamente comuns no registro geológico.

Eon

Era

Período

Época

     

Holoceno (recente)

Quaternário

Pleistoceno

Cenozóico

   

Plioceno

Neógeno

Mioceno

Terciário

 

Oligoceno

 

Paleógeno

Eoceno

Paleoceno

Fenerozóico

Mesozóico

Cretáceo

Jurássico

 

Triássico

 

Permiano

Carbonífero

Paleozóico

Devoniano

Siluriano

 

Ordoviciano

Cambriano

Pré-Cambriano

Proterozóico

 

Arqueano

 

1,8 m.a

65 m.a

250 m.a

545 m.a

Figura 2: Escala de Tempo Geológico.

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O Pré- Cambriano, segundo a interpretação convencional, é algumas vezes referido como a era da vida microscópica ou da vida procariótica tendo em vista a variedade de formas microscópicas, unicelulares e coloniais, muito simples e em grande parte atribuíveis aos procariontes (microrganismos sem núcleo e organelas intracelulares e com cromossomas circulares e apenas formas simples de reprodução assexuada). Desta forma, seria possível falar de seis categorias distintas de fósseis Pré-Cambrianos: 1) estromatólitos, estruturas biossedimentares resultantes de processos sedimentológicos e da dinâmica de ecossistemas microbianos bentônicos; 2) microfósseis orgânicos, permineralizados por sílica em carbonatos ou preservados por compactação e carbonização em folhelhos; 3) fósseis químicos, compostos orgânicos de origem biológica encontrados sob forma “insolúvel” (restos de microfósseis e carvão) ou “solúvel”; 4) filmes carbonosos, principalmente os restos carbonizados de fragmentos de esteiras microbianas ou, eventualmente, algas multicelulares; 5) raros icnofósseis (vestígios resultantes da atividade de um organismo como pistas, escavações, perfurações, excrementos, etc.) e 6) raras impressões (moldes) dos corpos “moles” de invertebrados primitivos sem carapaças (Anelli et al., 2000).

Ainda no Vendiano, situado no topo do Proterozóico, já no final do Pré-Cambriano, são encontrados fósseis mineralizados incluindo espículas de esponjas, tubos de vermes e a famosa Fauna de Ediacara, formada por impressões variadas de organismos que parecem incluir celenterados e anelídeos. De qualquer forma, a carência de fósseis nas rochas pré-cambrianas constitui, desde os tempos de Darwin, um problema sério da Paleontologia, embora algumas hipóteses tenham tentado, sem muito sucesso, resolver esta questão.

O Cambriano, por sua vez, marca um importante período na história da vida na Terra sendo o momento em que a maior parte dos metazoários aparecem no registro fossilífero. Este evento é muitas vezes referido como “Explosão Cambriana” devido ao período relativamente curto de tempo para o qual uma grande diversidade de novas formas apareceram.

Com exceção dos Briozoários que surgiram no Ordoviciano, todos os demais filos de metazoários surgiram no Cambriano como os cnidários, celenterados, braquiópodes, moluscos, artrópodes e equinodermas. Embora estes filos ainda componham a fauna marinha atual, muitas grupos foram extintos ou encontram-se drasticamente reduzidos. Os braquiópodes articulados (Subfilo Linguliformea e Craniiformea) por exemplo, encontram-se presentes nos mares atuais enquanto os inarticulados (Subfilo Rhynchonelliformea) apresentam ordens extintas no Paleozóico como os Pentamerida (extintos no Devoniano), os Strophomenida e Orthida (extintos no Permiano) e os Spiriferida (extintos no Jurássico).

A passagem do Pré-Cambriano para o Cambriano marca, portanto, o registro indiscutível da vida sobre o planeta sendo assim um importante marco na escala de tempo geológico. Este evento teria ocorrido, segundo a geologia convencional, há cerca de 545 m.a. De acordo com uma interpretação Criacionista, estes animais representariam a fauna de invertebrados marinhos que habitavam os mares pré-diluvianos e foram formados durante a Semana da Criação narrada nos capítulos iniciais do livro de Gênesis.

O Limite Paleozóico/Mesozóico: a crise permiana

Outro marco importante na coluna geológica encontra-se na passagem da Era Paleozóica para a Era Mesozóica, no final do Período Permiano (Fig. 2). Esta época foi marcada pela maior extinção de seres vivos registrada na história da vida sobre a Terra atingindo muitos grupos de organismos de diferentes habitats. Quase todos os invertebrados do Paleozóico desapareceram. Cerca de 95% das espécies encontradas

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no Permiano não apareceram mais no Terciário, logo acima, incluindo vertebrados e invertebrados.

Entre os vertebrados, 75% dos anfíbios e 80% das famílias de répteis desapareceram do registro geológico. Alguns grupos que sobreviveram à extinção permiana reduziram drasticamente e nunca mais alcançaram o domínio ecológico que possuíam anteriormente. Dentre os grupos mais afetados estão os foraminíferos fusilinídeos, trilobitas, corais rugosos e tabulares, placodermes, entre outros. Dentre os grupos drasticamente reduzidos estão os briozoários, braquiópodes, crinóides, amonóides (moluscos), euripterídeos, ostracódes e equinodermas.

Com respeito ao reino vegetal, a crise observada no Permiano e mais tarde no limite Mesozóico/Cenozóico é bastante controvertida. Algumas hipóteses admitem que tanto os reinos animal e vegetal foram afetados da mesma forma. Contudo, embora a crise permiana esteja bem documentada no registro fóssil dos animais e segundo alguns evolucionistas, forneça uma base coerente para a teoria da evolução, tem se questionado bastante qual o seu impacto no registro fóssil das plantas.

Estudos plublicados a partir da década dos anos oitenta (Knoll, 1984, 1986; Boutler et al., 1986; Traverse, 1988) sugerem que não existe evidência segura de extinção em massa no registro fóssil das plantas, um aspecto largamente ignorado nos recentes debates sobre a teoria evolutiva. Mas se não houve extinção em massa no registro das plantas, por que as ginmnospermas ou as pteridospermas não são dominantes nos dias atuais? Neste caso, mudanças importantes devem ter ocorrido no reino vegetal, embora não no mesmo momento nem com a mesma intensidade que aquele observado no registro fóssil dos animais (Stewart et al., 1993; Grane et al., 1995).

Uma das hipóteses é que a substituição da flora Paleofítica caracterizada por grupos mais primitivos de plantas vasculares (licófitas, esfenófitas, progimnospermófitas e pteridospermófitas), pela flora Mesofítica, iniciada com o declínio das licófitas, esfenófitas e pteridospermas e a ascensão das coníferas e outras gimnospermófitas (caytoniales, cicadófitas, gingkófitas, etc.) seria em função não de processos de extinção em larga escala mas de seguidas adaptações a novas condições ambientais.

Na falta de evidências mais consistentes de extinção em massa para explicar estas mudanças Knoll (1984, 1986) sugere dois mecanismos que teriam conduzido a evolução das plantas: um fator relacionado à competição e outro representado pela seleção de linhagens ao nível de espécie. Para Wills & Bennett (1995) esta hipótese seria um simples retorno aos princípios darwinianos, só que ao nível de espécie e não de indivíduo. Isto, por sua vez, teria implicações importantes com respeito ao criacionismo científico, reforçando a tese de que muitas variedades de plantas podem ter se diferenciado por processos microevolutivos em períodos de tempo bem mais curtos que os milhões de anos normalmente exigidos pela macroevolução.

O que teria causado a crise permiana?

Embora as causas da crise permiana ainda permaneçam matéria de amplo debate, inúmeras teorias tem sido formuladas para explicá-la. Para os nossos propósitos vamos citas três das hipóteses mais aceitas: glaciações, formação do mega-continente Pangea e erupções vulcânicas.

Glaciações

Uma das teorias mais aceitas para a crise permiana seria a mesma responsável pelas crises do Ordoviciano e do Devoniano, ou seja, a glaciação do continente Gondwana (África, América do Sul, Índia, Austrália e Antártida). Este evento seria resultado de um resfriamento global de Gondwana seguido do abaixamento geral do nível dos mares (regressão marinha), redução dos habitats e consequente extinção em massa.

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Uma variante desta hipótese seria flutuações climáticas severas provocadas por eventos glaciais rigorosos nos pólos norte e sul. Nas zonas temperadas existe evidência de resfriamento associado a sedimentação em clima semi-árido representado por espessas sequência de dunas e evaporitos. Já nas zonas polares o registro é de eventos glaciais mais rigorosos. Estas flutuações climáticas teriam provocado a instabilidade dos habitats resultando em extinção.

Formação do Continente Pangea

Outra teoria que procura explicar a extinção em massa do Permiano seria a redução da área das plataformas continentais devido a formação do mega-continente. Esta redução, da mesma forma que na hipótese anterior, também resultaria no aumento da competitividade por espaço entre os seres vivos, o que provocaria extinção em grande escala.

Erupções vulcânicas

A terceira hipótese que se tem formulado para explicar a extinção permiana seria um extenso derrame de lavas basálticas na Sibéria. Este evento teria emitido quantidades enormes de sulfato para a atmosfera além da formação de enormes nuvens de cinza por todo o globo. A combinação destes fatores resultaria no abaixamento geral da temperatura sobre a Terra provocando extinção em massa.

Das hipóteses acima mencionadas, a que se refere à glaciações e erupções vulcânicas são amplamente compatíveis com o dilúvio universal proposto pelo criacionismo científico. Chadwick (2001) sugere que a temperatura geral da Terra teria reduzido consideravelmente sob a influência de espessas nuvens de cinzas vulcânicas acumuladas na atmosfera em função de intensa atividade vulcânica ocorrida já nos estágios iniciais do dilúvio de Gênesis. No caso do Brasil, este evento glacial estaria registrado na Bacia do Paraná, nos depósitos sedimentares da região de Itú/Salto, 100 km a sudoeste de São Paulo. Algumas evidências que sugerem atividade glacial e sua preservação no registro geológicos são: morfologias típicas de abrasão (rochas moutonnées, pavimentos estriados) indicando a passagem de espessa capa de gelo sobre o substrato rochoso; depósitos do tipo till (sedimento inconsolidado, mal selecionado, constituído por matriz argilosa/siltosa/arenosa, contendo fragmentos rochosos caoticamente dispersos e de tamanho variado); clastos (seixos) isolados, dispersos em sedimentos finos, laminados, indicando a presença pretérita de icebergs em um determinado corpo de água.

O Limite Mesozóico/Cenozóico: a crise K/T

A passagem da Era Mesozóica para a Cenozóica também foi assinalada por uma grande extinção em massa no registro geológico denominada crise K/T (Cretáceo/Terciário). Esta crise é mais conhecida por ter exterminado os dinossauros da face da Terra. Cerca de 85% de todas as espécies de setes vivos desapareceram tornando a crise K/T a segunda maior no registro geológico.

Contudo não foram apenas os dinossauros as vítimas deste evento. Outras linhagens de répteis marinhos tais como os ictiossaurus, plesiossaurus e mesossaurus também teriam sido extintos, bem como os pterossaurus (répteis voadores). Entre os invertebrados, muitas espécies e foraminíferos, alguns grupos de moluscos (amonóides, belenmnóides) também foram extintos. Dentre os grupos bastante afetados estão os foraminíferos planctônicos, dinoflagelados, braquiópodes e equinóides. Os grupos menos afetados foram as plantas com flores, os gastrópodes, pelicípodes, anfíbios e mamíferos.

Causas prováveis da crise K/T

A crise do final do Cretáceo tem gerado considerável interesse público nos anos recentes em função do controvertido debate na comunidade científica sobre as causas que teriam desencadeado este evento. A hipótese mais aceita pressupões a ação de forças

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exógenas, tais como o impacto de meteoritos ou cometas. Outras hipóteses procuram explicar o fenômeno através de causas endógenas como atividade vulcânica e glaciação.

Impacto de meteoritos

Alguns pesquisadores acreditam que a presença de altas concentrações de irídio em uma fina camada de sedimento depositado no limite K/T só pode ser explicada considerando-se a ação do impacto de meteoritos. O irídio é um elemento só encontrado no manto terrestre ou em corpos celestes como os meteoritos e cometas. Esta fina camada tem sido encontrada em sedimentos marinhos e continentais em inúmeras localidades em torno da Terra.

A presença de estruturas de choque em grãos de quartzo (finos grãos com estruturas de impacto de alta pressão) também vem corroborar a hipótese do bólido assassino. Estas feições, da mesma forma que a presença anômala de irídio, tem sido encontradas em sedimentos situados no limite K/T. Pesquisas tem indicado que a região do impacto teria sido a Península de Yucatan no México.

Erupções vulcânicas

As evidências de que as erupções vulcânicas foram o agente mais importante no desencadeamento da crise K/T também são relativamente fortes. Como foi visto anteriormente, o irídio é um elemento presente quase unicamente no manto terrestre e em corpos celestes do tipo meteoritos. Este fato tem levado alguns cientistas a especular que o irídio teria se originado de erupções vulcânicas maciças como evidenciado no planalto de Decan, na Índia e Paquistão. No local são observados extensos derrames de lava basáltica no limite Cretáceo/Terciário ocupando atualmente uma área de 500.000 km 2 . Este derrame teria produzido enormes quantidades de cinzas, alterando o clima global da Terra e a química dos oceanos. Assim, tanto as erupções vulcânicas como os impactos de meteoritos são mecanismos viáveis para explicar a extinção em massa verificada no limite Cretáceo/Terciário e como já foi visto, todas eles são compatíveis com um evento catastrófico semelhante ao dilúvio universal narrado no livro de Gênesis.

Extinções em Menor Escala

Embora os eventos acima mencionados tenham deixado evidências incisivas de uma catástrofe global, não foram os únicos a serem reconhecidos no registro geológico. Extinção em massa de menores proporções são registradas no final do Ordoviciano, no final do Devoniano e no Paleoceno (já na Era Cenozóica) e são utilizadas como marcadores de tempo.

Segundo alguns autores, o Estágio Hirmantiano, (final do Ordoviciano) marca o que teria sido a primeira das cinco grandes crises do Fanerozóico. Dentre suas vítimas estariam os trilobitas pelágicos, alguns graptozoários, braquiópodes e bivalves (Hallam & Wignall, 1997). Este evento teria ocorrido em dois pulsos intercalados por uma fase de expansão caracterizada pela fauna Hirnantia, uma associação de braquiópodes e trilobitas de águas mais frias (Rong & Harper, 1988). Estes dois pulsos apresentam características distintas: o primeiro tendo eliminado trilobitas pelágicos e organismos bentônicos das baixas latitudes enquanto que o segundo teria afetado a fauna Hirnantia e muitos outros grupos de águas mais profundas. Segundo Brenchley et al. (1994) a crise ordoviciana coincide com um dos principais períodos de oscilação do nível do mar, sendo portanto a causa principal desta crise.

A extinção do final do Devoniano apresenta um dos padrões mais seletivos de todas as crises bióticas. Os placodermes, grupo de peixes dominantes neste período, foram totalmente extintos. Os goniatites (uma ordem de moluscos) também foram muito afetados restando somente poucas espécies. Entre os trilobitas, somente um pequeno grupo teria resistido. Contudo, embora tenha sido uma crise rigorosa entre os organismos

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pelágicos, a crise Devoniana teria afetado muito pouco os organismos bentônicos como demonstrado no registro dos briozoários e corais rugosos e tabulados.

Finalmente, a crise do final do Paleoceno foi um dos eventos mais notáveis durante o Cenozóico resultando, entre outras, na extinção de 50% das espécies de foraminíferos bentônicos de águas profundas. Segundo alguns autores, este evento tem sido amplamente reconhecido nas regiões batial/abissal de todo o mundo e por isto se constituiria em uma crise global. As espécies da epifauna, mais dependentes de águas bem oxigenadas foram as mais afetadas. Entre os especialistas, existe um consenso de que esta crise teria sido provocada pela desoxigenação de inúmeros habitats devido a um aumento significativo da temperatura registrado no final do Paleoceno.

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Introdução

AA EEvvoolluuççããoo nnaa BBiioollooggiiaa

Marcia Oliveira de Paula

Centro Universitário Adventista de São Paulo

Atualmente a teoria da evolução ocupa um papel central na Biologia. Isso pode ser visto nas Diretrizes Curriculares para o Curso de Ciências Biológicas do MEC. Na Justificativa/Histórico, pode-se ler: “O estudo da Biologia deve possibilitar a compreensão de que a vida se organizou através do tempo, sob a ação de processos evolutivos, tendo resultado numa diversidade de formas sobre as quais continuam atuando as pressões seletivas”. Nos Tópicos de Estudo, em Conteúdos Básicos, lê-se: “Os conteúdos básicos deverão englobar os conhecimentos biológicos e das áreas das ciências exatas, da terra e humanas, tendo a evolução como eixo integrador(ênfase acrescentada).

Para Stebbins, “A biologia moderna tem dois conceitos unificadores. Um deles é o

conceito de organização

O outro conceito unificador da biologia é o da continuidade de

.... vida através da hereditariedade e da evolução. Segundo este conceito, há semelhança entre organismos porque estes receberam de algum ancestral comum elementos

hereditários, fundamentalmente os cromossomos de seus núcleos

Quando organismos

.... aparentados diferem uns dos outros, isso significa que, em linhagens distintas da sua descendência de um ancestral comum, ocorreram mudanças nos elementos hereditários e essas mudanças se fixaram em populações inteiras”. Também, segundo Dobzansky, “nada em Biologia faz sentido exceto à luz da Evolução”. Infelizmente, essa é a perspectiva atual e provavelmente nós, como criacionistas, dificilmente iremos reverter essa situação.

O que podemos fazer então? Os professores de Biologia criacionistas devem se esforçar no sentido de compreenderem, da melhor forma possível a teoria da evolução. Em primeiro lugar, porque é necessário que se tenha uma ampla compreensão do assunto antes que se tome uma posição favorável ou contrária. Em segundo lugar, porque eles devem estar preparados para ensiná-la a seus alunos. Não adianta enterrar a cabeça na areia como faz a avestruz. Os nossos alunos precisam conhecer a teoria da evolução, e nada melhor do que um professor criacionista bem preparado para ensiná-la. Logicamente o professor deve não só ensinar a visão evolucionista, mas também, ao mesmo tempo, a visão criacionista sobre o assunto.

Eu tinha uma amiga que estudava em Belo Horizonte, em uma escola adventista. Quando ela foi para a 5 a série, em um dos primeiros dias de aula, a professora de Geografia disse que o primeiro capítulo do livro era sobre um assunto que não interessava aos alunos, por ser algum tipo de heresia e que por isso eles não deveriam lê-lo. A primeira coisa que a minha amiga fez ao chegar em casa foi ler o capítulo proibido. Vocês já podem imaginar sobre o que era: evolução da terra. Assim, minha amiga aprendeu sobre o assunto sem ter o apoio de um professor criacionista, que lhe mostrasse também uma outra visão das origens: a visão criacionista.

O meu objetivo nesta palestra não é defender o ponto de vista criacionista ou evolucionista das origens (isto será feito em outras palestras durante este evento), mas sim apresentar uma visão geral sobre a evolução e as principais teorias evolutivas. No final apresentarei uma teoria criacionista das origens para que possam ser vistos os contrastes.

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O que é Evolução?

Segundo Moody, evolução orgânica seria a subdivisão da evolução que trata das mudanças sofridas pelos seres vivos – plantas e animais. Evolução orgânica é a teoria de que as plantas e os animais são descendentes modificados de plantas e animais um tanto diferentes que viveram em tempos passados. Esses ancestrais, por sua vez, são considerados como os descendentes de predecessores diferentes deles e, assim por diante, passo a passo, de volta a um início oculto e misterioso.

Para Futuyama, a evolução biológica (ou evolução orgânica) é a mudança nas propriedades das populações dos organismos que transcendem o período de vida de um único indivíduo. A evolução biológica pode ser pequena ou substancial; ela abrange tudo, desde pequenas mudanças na proporção de diferentes alelos dentro de uma população, às alterações sucessivas que levaram os primeiros proto-organismos a se transformarem em caramujos, abelhas, girafas e dentes-de-leão.

Histórico das Teorias Evolutivas

Muitas pessoas pensam que as idéias evolutivas começaram com Darwin. No entanto, as idéias evolutivas antecederam bastante a Darwin. Os filósofos gregos antigos fizeram as primeiras tentativas de dar uma explicação para a origem da terra e de seus habitantes. Anaximandro, que viveu no século VI a.C., pensava que os homens foram formados primeiramente como peixes; com o tempo perderam a pele de peixe e iniciaram a vida em terra firme. Xenófanes viveu no século V a.C. e a ele foi atribuído o mérito a ser a primeira pessoa que reconheceu que os fósseis representam restos de animais que existiram algum dia. Também no século V a.C. viveu Empédocles, que foi chamado por alguns o “pai da idéia da evolução”. De acordo com este filósofo, as plantas surgiram da terra e, subseqüentemente, os animais. Os animais surgiram com órgãos e partes separados, que se juntavam ao acaso. A maioria desses conglomerados eram aberrações e monstros incapazes de viver, mas ocasionalmente aparecia uma combinação de órgãos que podia funcionar como um organismo vivo bem sucedido. Tais combinações bem sucedidas sobreviveram e povoaram a terra, enquanto as que não o eram morreram. Aristóteles, que viveu no século IV a.C., afirmou que existe uma gradação completa na natureza. O estágio mais inferior é o inorgânico. O orgânico surgiu do inorgânico por metamorfose direta. Aristóteles concebia o mundo orgânico como consistindo de três estágios: (1) vegetais; (2) vegetais-animais e (3) animais. Dentro do grupo animal, ele construiu uma série genética que ia desde as formas inferiores até o homem, colocado no ápice. Conseqüentemente, pode-se considerar Aristóteles como pai das “árvores genealógicas” que são usadas nos livros de evolução.

De acordo com Moody, o pensamento evolucionista estacionou durante mais de dois mil anos, os que separam Aristóteles de Lamarck. Realmente, nesse período acreditava-se que o planeta terra era muito jovem, tendo sido criado por Deus há poucos milhares de anos e que os seres vivos, igualmente, eram criações divinas.

Lamarckismo

Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829) propôs, em sua obra intitulada Philosophie Zoologique (Filosofia Zoológica, 1809) que as formas de vida progridem, por transformação gradual, em direção a uma maior complexidade e perfeição. Lamarck não afirmou que os seres vivos tinham descendido de ancestrais comuns, mas sim que as formas de vida inferiores surgem continuamente a partir de matéria viva inanimada por geração espontânea e progridem inevitavelmente em direção a uma maior complexidade e perfeição, através de “poderes conferidos pelo supremo autor de todas as coisas”. Ele sustentou que o caminho da progressão é determinado por uma “força interna” influenciada por “circunstâncias externas”, ou seja, mudanças no ambiente trazem a

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necessidade de alterações no organismo. Dessa forma, o organismo responde usando alguns órgãos mais do que outros. Segundo ele, o “uso e o desuso dos órgãos” alteram a morfologia destes, a qual é transmitida para as gerações subseqüentes.

Um exemplo clássico, segundo o próprio Lamarck, seria a evolução do pescoço da girafa. De acordo com sua teoria, os ancestrais da girafa poderiam ter sido animais de pescoço curto, que, na tentativa de alcançarem as folhas mais altas das árvores para se alimentarem, esticavam seus pescoços. Este comportamento intencional e repetitivo fez com que, geração após geração, os pescoços fossem se tornando gradativamente mais compridos, devido ao esforço. Assim foi atingido o estágio de desenvolvimento do pescoço das atuais girafas. Lamarck, deste modo, enfatizou a adaptabilidade e a transmissão de caracteres adquiridos.

Vários experimentos realizados posteriormente demonstraram que características adquiridas ao longo da vida não são hereditárias. O biólogo alemão August Weismann (1834-1914), por exemplo, ao cortar a cauda de camundongos por várias gerações sucessivas, constatou que os camundongos desprovidos de cauda sempre davam origem a descendentes com cauda.

Atualmente, a teoria de Lamarck não é aceita, pois foi comprovado que as características adquiridas durante a vida não são hereditárias. Apenas mudanças ao nível genético podem ser herdadas pelos descendentes.

Darwinismo

A história sobre a concepção do Darwinismo iniciou-se com a viagem de Charles Darwin, entre 1831 e 1836, a bordo do navio inglês Beagle, na qualidade de naturalista. A partir de suas observações acerca da diversidade da fauna e da flora, constatadas durante essa viagem, Darwin voltou à Inglaterra com a idéia de que os seres vivos se modificam com o tempo. Em 1838, Darwin leu o ensaio sobre população escrito por Malthus. Este propunha que a população cresce geometricamente (por multiplicação), enquanto os alimentos para a população crescem aritmeticamente (por adição), um processo bem mais lento. Obviamente, nessa situação haveria afinal uma escassez de alimentos. Darwin notou que, na natureza, as populações de seres vivos se mantêm num nível mais ou menos constante. Por outro lado, ele observou que os indivíduos dessas populações apresentam variabilidade, inclusive em características essenciais à sua adaptação ao meio ambiente. Ele constatou também que, devido a esta variabilidade, muitos indivíduos morriam precocemente, outros não eram bem sucedidos reprodutivamente e alguns eram longevos e capazes de produzir muitos descendentes férteis. Desta forma, concluiu que deveria existir uma luta pela sobrevivência (i.e. competição), onde apenas os mais aptos seriam selecionados ao longo do tempo, transmitindo suas características vantajosas aos seus descendentes. A esse processo ele denominou seleção natural, em contraponto à “seleção artificial”. Em 1859, Darwin publicou o seu famoso livro, A Origem das Espécies, no qual explicou sua teoria. É importante ressaltar que Wallace (1823-1913) desenvolveu, independentemente, a idéia da seleção natural, embora seja bem menos conhecido que Darwin.

Como exemplo de seleção natural, citado na maioria dos livros didáticos, está o melanismo industrial em populações de mariposas. Na mariposa Biston betularia, até a primeira metade do século XIX, a única forma conhecida era branco acinzentada, salpicada de pontos pretos. Exemplares escuros eram encontrados muito raramente. Em Manchester, Inglaterra, a primeira referência de um exemplar escuro data de 1848. Entretanto, em 1895, aproximadamente 98% dos exemplares coletados eram escuros. O que aconteceu para ocasionar essa mudança? Com a industrialização crescente de várias regiões inglesas, a fuligem produzida pelas fábricas enegreceu lentamente muros e troncos de árvores. Num ambiente sem fuligem, as mariposas claras confundem-se melhor com os troncos das árvores, que são cobertos por liquens. Ao contrário, as de cor

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escura são enxergadas pelos pássaros, predadas mais facilmente e têm menores chances de transmitirem seus genes a seus descendentes. Quando, porém, o ambiente fica enegrecido pela fuligem, a situação se inverte: as mariposas escuras se escondem melhor dos predadores, sobrevivem e se reproduzem com maior freqüência do que as claras. A cor escura, neste caso, acaba por predominar na população. Hoje já se sabe que a cor da mariposa é hereditária e depende de um par de genes, sendo a variedade escura condicionada por um gene dominante.

É muito importante se enfatizar que os evolucionistas atuais aceitam somente parte do pensamento de Darwin, ou seja, o Darwinismo não é a teoria da evolução aceita atualmente. Alguns criacionistas fazem críticas ferozes a partes do livro “A Origem das Espécies” que não representam o pensamento da ciência moderna.

A Evolução a partir de Darwin

Darwin, em sua teoria, não conseguiu explicar a natureza da herança das características nos organismos, ou seja, porque os organismos vivos de uma mesma espécie são diferentes. Na sua época, a observação de que os descendentes eram geralmente intermediários entre seus pais (em características tais como tamanho) era a base da crença defendida na “herança por mistura”. Mas uma hereditariedade desse tipo levaria a uma rápida redução da variabilidade das características nos organismos. Além do mais, a crença de que as variações induzidas pelo ambiente pudessem ser herdadas era amplamente difundida. Por isso Darwin incorporou, nas últimas edições de seu livro “A Origem das Espécies”, o conceito da herança dos caracteres adquiridos, defendido por Lamarck.

Nenhuma solução satisfatória foi encontrada até 1900, quando houve a divulgação do trabalho de Gregor Mendel, apresentado em 1865, que demonstrou a existência de fatores hereditários, os genes que, reunidos num indivíduo, devido à fertilização, separar- se-ão novamente nas células reprodutivas (gametas) do indivíduo. Mendel, através de experiências com o cruzamento de ervilhas, constatou que a variação genética pode ser mantida indefinidamente numa população com reprodução sexuada.

No princípio do século XX, De Vries estudou as flores de primavera e descobriu que nelas novos tipos podem surgir em uma única descendência. Ele chamou estas mudanças de mutações. Verificou-se mais tarde que as mutações que De Vries encontrou na primavera não eram resultado de nova variação genética, mas eram meramente um tipo peculiar de segregação. Mais tarde, Morgan e seus associados encontraram verdadeiras mutações nas moscas das frutas, Drosophila, que se perpetuavam. Graças ao trabalho de Morgan, o conceito de mutações como novas informações hereditárias foi sendo aceito.

A princípio, as descobertas das leis da hereditariedade e das mutações foram interpretadas como um golpe mortal para a teoria de Darwin. Hugo De Vries, Bateson e outros mendelistas pioneiros alegavam que, se a espécie pudesse surgir puramente através da mutação, sua origem não necessitaria de seleção natural. Deste modo, os princípios-chave de Darwin, a seleção natural e a mudança gradual, foram descartados.

Neodarwinismo ou Teoria Sintética

Após um período de divergência entre os geneticistas (mutacionistas) e darwinistas, o darwinismo ressurgiu, conjugado com os fundamentos da genética mendeliana. A partir de 1940, os trabalhos de Ronald Fisher, John Haldane, Sewall Wright, Theodosius Dobzansky, Ernest Mayr, Julian Huxley, George Simpson e G. Ledyard Stebbins reinterpretaram, à luz de novos dados provindos da genética e outras áreas do conhecimento biológico (botânica, zoologia, paleontologia e ecologia), os conceitos obtidos a partir do Darwinismo. Assim nasceu uma nova teoria evolutiva denominada

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Teoria Sintética da Evolução ou Teoria Neodarwinista. A teoria Darwinista, quanto à seleção natural, não sofreu alteração em nenhum aspecto essencial em virtude da teoria genética, mas sim foi enriquecida por uma teoria da hereditariedade que permitiu dar uma maior precisão ao conhecimento da evolução.

Os princípios fundamentais da síntese evolutiva são:

A unidade

de

evolução

é

a

população,

que

são

um

grupo de indivíduos

entrecruzantes da mesma espécie.

 

A matéria prima da evolução é a variabilidade genética observada entre os indivíduos. Esta variabilidade surge através da mutação ao acaso e é preservada pela reprodução sexual e pela recombinação.

As populações evoluem por mudanças nas freqüências gênicas, que são trazidas pela deriva genética aleatória, fluxo gênico e, especialmente, seleção natural.

A maior parte das variações genéticas adaptativas apresentam pequenos efeitos fenotípicos individuais, de modo que as mudanças fenotípicas são graduais.

A teoria sintética reconhece como causas da evolução os seguintes fatores evolutivos:

mutação, recombinação gênica, deriva genética, seleção natural, migração e endogamia.

Mutação: mutações são mudanças hereditárias no material genético (DNA). A mutação é a fonte básica de toda a variação hereditária. Por isso, as mutações têm sido chamadas de “matéria prima da evolução”. A mutação pode ser gênica (alteração de um gene) ou cromossômica (alteração do número ou estrutura dos cromossomos)

Recombinação gênica: é o processo que reorganiza os genes já existentes nos cromossomos. O mecanismo primário de recombinação gênica é a reprodução sexuada. Na hora da formação dos gametas, os cromossomos do mesmo par (cromossomos homólogos) trocam pedaços entre si (crossing-over). Além disso, a recombinação envolve também a segregação (separação) independente dos cromossomos homólogos nas células reprodutivas, durante a meiose. Ambos mecanismos possibilitam um grande número de combinações gênicas, dando origem a vários tipos de gametas que irão se unir na fecundação. Através da recombinação gênica, uma população pode ter sua variabilidade genética aumentada, sem adição de novos genes.

Seleção natural: é o principal fator evolutivo que atua na alteração da variabilidade genética de uma população. Qualquer condição ambiental que afete a capacidade reprodutiva de um indivíduo é um fator seletivo. Os fatores seletivos podem ser de dois tipos: abióticos (clima, alimento, espaço) e bióticos (efeitos causados pela presença de outros organismos no ambiente).

Deriva genética: é um caso especial de mudança na freqüência de alelos que ocorre em populações pequenas através do tempo, devido ao acaso e não à seleção natural. Nas populações pequenas as freqüências dos genes flutuam ao acaso, independentemente de sua contribuição para a adaptação. Pode haver a fixação de genes prejudiciais na população com eliminação de outros favoráveis.

Migração: à entrada e saída de genes numa população, devido à migração, dá-se o nome de fluxo gênico. A migração pode alterar as freqüências gênicas de uma população. Os imigrantes podem introduzir genes novos e assim contribuir para o aumento da variabilidade genética da população.

Endogamia: é a tendência, que se encontra em certas populações, dos acasalamentos entre indivíduos estreitamente aparentados ocorrerem com maior freqüência do que a esperada pelo acaso. A endogamia tende a diminuir a heterozigose de uma população.

A recombinação e a migração são fatores que aumentam a variabilidade genética, enquanto que a deriva genética, seleção natural e migração são fatores de redução da variabilidade genética.

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Especiação, Microevolução e Macroevolução

Entende-se por especiação os processos que estão envolvidos no surgimento de novas espécies.

Pode-se definir microevolução como o conjunto de pequenas mudanças evolutivas que ocorrem dentro das populações e que podem levar até sua diferenciação em espécies. Os criacionistas empregam mal este termo, para se referir a qualquer mudança nas espécies que eles consideram plausível. Atualmente, tanto evolucionistas como criacionistas reconhecem que ocorrem mudanças microevolutivas.

A macroevolução envolve processos que conduzem a formação de novos gêneros ou categorias superiores (famílias, ordens, classes e filos). A macroevolução também é conhecida como “evolução acima do nível das espécies”. Os criacionistas empregam mal este termo, com o significado de qualquer mudança nas espécies que parece grande demais para ser plausível. Isso é muito impreciso e não é o significado costumeiro.

Os criacionistas geralmente aceitam a especiação, a microevolução e certa macroevolução (geralmente até o nível de gênero ou família).

Equilíbrio Pontuado

Como visto acima, a evolução, para os darwinistas e neodarwinistas, é relativamente lenta e gradual. Por isso, a especiação segundo o modelo neodarwinista foi denominada de gradualismo filético.Segundo Elredge & Gould (1972) os principais postulados do gradualismo filético são:

A especiação se dá pela transformação de uma população ancestral;

caráter dessa transformação é lento e uniforme;

essa transformação abrange um elevado número de indivíduos (em geral, uma população inteira);

a transformação ocorre em toda a área geográfica ocupada pela espécie ancestral ou numa grande porção da mesma.

Se esses pressupostos fossem corretos, o registro fóssil apresentaria as formas que documentariam a passagem gradual de uma espécie para outra. O que se observa, entretanto, no registro fóssil é uma ausência quase total de fósseis de transição.

Para explicar estas descontinuidades, Elredege e Gould propuseram uma nova teoria, denominada Equilíbrio Pontuado. Segundo esta teoria, a evolução se dá por alternância de dois tipos de eventos. O primeiro tipo seria a especiação, caracterizado por mudanças rápidas e marcantes em pequenas populações. O segundo tipo de evento seria o período de equilíbrio ou estase, que seria um longo período de tempo em que não ocorrem mudanças significativas. Os autores estimam que a duração das fases de especiação seriam em torno de 1% do período de estase. A especiação seria um processo rápido, durando poucos milhares de anos, e o período de estase se estenderia geralmente por vários milhões de anos.

Neste modelo a especiação ocorreria em pequenas populações, periféricas às populações principais. Graças a esse processo de especiação, há possibilidade de uma das novas espécies migrar, posteriormente, para a área previamente ocupada pela espécie ancestral e ali se expandir com rapidez. Assim explica-se o fato de, nas seqüências de rochas sedimentares verticalmente contínuas, observarem-se mudanças bruscas morfológicas, em vez de passagens gradativas. Essas mudanças marcam a migração da espécie descendente vinda da área perifericamente isolada onde se desenvolveu, para a área da espécie ancestral.

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Se a especiação ocorrer rapidamente em pequenas áreas, distante do centro em que a espécie ancestral é mais abundante, muito raramente se encontrará uma evidência real desse evento no registro fossilífero.

Os criacionistas, de maneira geral, acreditam que o Equilíbrio Pontuado pode explicar bem a microevolução. O problema é explicar a falta de fósseis intermediários nos eventos de macroevolução. Existem descontinuidades muito maiores no registro fóssil (por exemplo, a origem de plantas com flores, as angiospermas, a partir de plantas sem flores) nas quais milhares de formas intermediárias deveriam estar presentes e elas não estão.

Após vermos os modelos que tentam explicar a evolução, é importante enfatizar que a maioria dos cientistas não questiona que a evolução tenha ocorrido. Alguns cientistas realmente consideram a evolução um fato. O que é discutido é por quais processos ou mecanismos naturalistas ela teria ocorrido.

A Evolução e os Criacionistas

Brand (1997) apresenta uma teoria criacionista (denominada intervencionismo informado) para explicar a seleção natural mudança biológica limitada. Considero essa teoria bastante interessante e vou citar alguns trechos que resumem os seus principais pontos, que podem ser vistos na Figura 1.

Figura 1. Comparação das implicações das duas teorias das origens. A árvore genética inferior mostra um aumento de complexidade com o passar do tempo. A árvore superior (para os mesmos organismos) mostra a origem independente dos grupos principais, seguida por especiação e certa diminuição da complexidade com o passar do tempo (segundo Brand, 1997).

28 Se a especiação ocorrer rapidamente em pequenas áreas, distante do centro em que a espécie

De acordo com a teoria intervencionista, no momento da criação da vida na terra, estavam presentes representantes de todos os principais grupos de plantas e animais existentes e extintos. Dentro de cada nível taxonômico, as formas iniciais eram pelo

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menos tão complexas, embora não necessariamente tão especializadas, quanto os representantes atuais daqueles grupos, em sua aparência externa, anatomia, fisiologia, comportamento e adaptação ecológica. Nestas primeiras populações, a quantidade de informação genética e o potencial para diversidade genética por espécie deveriam estar no nível mais elevado que se pode atingir. O ponto alto da complexidade da vida sobre a terra foi no princípio. A complexidade em plantas e animais foi o resultado de planejamento inteligente.

Dentro de cada grupo de organismos, a origem de novas variações morfológicas ou comportamentais envolve dois componentes básicos. O primeiro é a adaptação a mudanças de condições pela produção de novos alelos de genes existentes e seleção daqueles alelos melhor adaptados ao ambiente, pelo processo geralmente aceito de microevolução.

Um segundo componente de variação é a tendência de perda de informação genética nos organismos desde a sua origem. Como exemplo podemos citar a perda do vôo em algumas aves e insetos e a perda da visão em organismos de cavernas. Defendemos que os organismos hoje são, no todo, menos complexos e menos adaptáveis, e as interações entre os organismos nos ecossistemas são menos harmônicas do que no início da vida na terra. Na maioria dos casos, a seleção natural tende a reduzir a perda de informação através da eliminação dos indivíduos defeituosos, a menos que o ambiente permita ou favoreça a perda genética.

Com relação às mutações e seleção natural, tanto a evolução naturalista como o intervencionismo informado reconhece a seleção natural como um importante fator no processo microevolutivo, mas o papel específico da seleção natural difere nas duas teorias. O intervencionismo sugere que as mutações e a seleção natural não são capazes de produzir um aumento de complexidade pela geração de novos genes e órgãos. Elas são capazes somente de mudar os animais dentro dos limites do seu potencial genético original e diminuir a marcha para a destruição que poderia ocorrer se o acúmulo de mutações deletérias não fosse detido. A seleção natural é quase capaz de contrabalançar a maioria dos efeitos deletérios da mutação, mas a mudança evolutiva resultante é direcionada levemente para baixo. A seleção natural age como um freio para eliminar muitos indivíduos enfraquecidos pelas mutações e assim reduzir a marcha das forças destrutivas que vêm da mutação.

A diferença mais importante entre esta teoria intervencionista e a teoria da evolução é a fonte básica do potencial genético presente nos organismos. É realmente possível que complexos de genes estruturais e reguladores se originem através de mutação, recombinação e seleção natural? Isto requer que o DNA duplicado gradualmente acumule mudanças benéficas que possam ser selecionadas e que este processo possa produzir um novo gene com uma nova função. É possível que isto ocorra sem “investimento” inteligente, produzindo não somente um novo gene estrutural mas também um complexo de genes reguladores que o reconheça e o controle? Predigo que a resposta é não.

Outra diferença importante entre a teoria intervencionista e a teoria da evolução seria o tempo. Para os criacionistas, a vida na terra foi criada há poucos milhares de anos atrás. Para os evolucionistas, a evolução vem acontecendo há bilhões de anos.

Nós propomos que as mudanças evolutivas têm ocorrido somente dentro de limites definidos, mas os limites não são ao nível de espécie. Por causa da subjetividade envolvida em definir categorias superiores em diferentes grupos de animais, não é possível definir os limites dos grupos originais de animais e plantas em termos de um nível taxonômico específico, tais como família ou gênero. A análise preliminar sugere que quase todas as espécies modernas, provavelmente a maioria dos gêneros modernos e talvez algumas famílias resultaram de modificações das espécies originalmente criadas.

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Minha Perspectiva

Arthur V. Chadwick

Southwestern Adventist University

Tradução: Urias Echterhoff Takatohi Revisão: Marcia Oliveira de Paula Marcos Natal de Souza Costa

Ao lidar com um tópico sujeito a tanta controvérsia e interpretação quanto este, penso que é apropriado afirmar meus próprios pressupostos no início. Farei isto de forma abreviada. Quando cursava a faculdade, tornei-me convencido de minha necessidade de Cristo e entreguei minha vida a ele, unindo-me à Igreja Adventista do Sétimo dia, devido ao meu desejo de seguir a Verdade aonde quer que ela levasse. Parecia claro para mim naquela época, e assim é ainda hoje, que a Bíblia ensina intencionalmente lições que não podemos apreender por nós mesmos. Conquanto eu acreditasse que processos racionais fossem essenciais para o estabelecimento de uma filosofia de vida, reconhecia que a razão somente não seria suficiente.

A crença em um evento de Criação Divina literal em um passado recente é uma parte de minha filosofia. Não necessito de evidências científicas para dar apoio a esta posição, mas espero que, corretamente entendidos, todos os dados científicos irão finalmente fazer sentido dentro desta estrutura. Portanto, meu objetivo ao fazer ciência, não é "provar" que um dilúvio global ocorreu, ou que a criação foi um evento literal que ocorreu há poucos milhares de anos atrás. Estes fatos são assumidos como dados. Espero que, usando estas perspectivas singulares na ciência, eu e outros assim equipados, obteremos vantagens nos "insights" que podemos ter ao abordar problemas na arena da ciência.

Há muitas questões não respondidas sobre o mundo natural como o que, como e quando. Para os cientistas, possuir mais perguntas do que respostas não é uma situação desagradável. Afinal, o papel da ciência é buscar respostas a questões do mundo natural e o que poderia ser melhor do que estar rodeado de questões não respondidas e desafiadoras? Também entendo que nem todos partilham desta perspectiva. No artigo que se segue, tentarei colocar algo daquilo que sabemos, do que podemos saber, do que não sabemos, e talvez do que não podemos saber da Bíblia e da paleontologia, sobre a história da vida na terra.

Uma das áreas singulares a serem exploradas seria dirigir esforços para a construção de um modelo do mundo antediluviano, baseado no que é conhecido a partir da Bíblia e dos melhores esforços para interpretar o mundo natural em harmonia com a Bíblia. O esforço necessário para que um tal projeto seja viável é enorme. Alguns de nós apenas iniciamos a sondagem do Cambriano, com o objetivo de entender o que foi provavelmente o início do Dilúvio do Gênesis. Estamos usando padrões de depósitos sedimentares para discriminar áreas de origem potenciais de sedimentos e fósseis, o padrão de distribuição de fósseis para tentar reconstruir os tipos ou número de habitats, e dados de paleocorrentes para tentar reconstruir os padrões de fluxo e ajudar a localizar as áreas de origem. Fica claro que um empreendimento monumental como este só poderá ser bem sucedido por meio de um esforço conjunto, bem dotado de recursos, com tantos pesquisadores bem treinados e dedicados quanto possível. Naturalmente o objetivo seria entender melhor as circunstâncias que produziram o registro fóssil, e ser capaz de explicar alguns dos detalhes difíceis de entender. Antes de decidir se tal esforço é ou não necessário ou importante, vamos revisar o outro aspecto desta apresentação, a paleontologia.

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O que é Paleontologia?

Paleontologia é a investigação científica da história passada da vida na terra, por meio do estudo dos restos fósseis de animais e plantas. Esta disciplina é de considerável interesse para a comunidade cristã, porque tem a ver com a interpretação da história passada e particularmente a história passada da vida na terra. A paleontologia como profissão tem causado temor e desconfiança entre os cristãos, porque muitas das conclusões obtidas pelos paleontólogos são consideradas uma ameaça à integridade da Bíblia, e particularmente ao relato bíblico das origens. Assim, o título deste artigo pode ser entendido como sugerindo uma certa tensão entre os dois assuntos, como se a paleontologia e a Bíblia estivessem de alguma forma em contradição. Vou propor que esta atitude não é salutar e não deve ser cogitada por aqueles que mantém uma visão holística da revelação.

A Bíblia como um Registro da Vida na Terra

O que a Bíblia diz

Nossa preocupação é o relacionamento entre a revelação na Bíblia e a revelação no registro histórico da vida na terra. Vamos começar com uma excursão na Bíblia. O que podemos aprender sobre a história da vida na terra a partir da Bíblia? Podemos aprender bastante. Conquanto a Bíblia não fale virtualmente nada sobre os fósseis de forma direta, fala explicitamente sobre a origem das formas vivas e, tanto quanto as conexões cronológicas são mantidas, nos fala sobre quando se originaram. Iremos examinar esta fonte porque ela forma o fundamento e estrutura sobre a qual tudo mais será amarrado.

O relato do Gênesis descreve o mundo antes da Semana da Criação como escuro e coberto com água (Gên. 1:2).Esta ausência de luz exclui a existência de vida como a conhecemos atualmente, pois sem luz não pode haver plantas, e as plantas formam a base da pirâmide alimentar. Um mundo coberto de água também exclui a existência de formas de vida não adaptadas para viver na água. Consideradas juntas, estas duas frases fortemente sugerem um mundo sem vida. Quando Deus iniciou a criação de formas de vida no terceiro dia com as plantas, e no quinto e sexto dia com os animais das águas, céu e terra, Ele não deixou nenhum domínio de formas vivas vazio. Qualquer coisa que pudesse ter ocorrido no planeta antes do início da Semana da Criação, não poderia ter envolvido a vida e morte de miríades de formas de vida. Não havia nenhuma. Deus reivindica no capítulo inicial da Bíblia, e repetidamente ao longo das Escrituras, ser a causa de todas formas de vida. Na época de Noé, Deus afirma: "Disse o Senhor: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito”.(Gen. 6:7). João implicitamente reafirma em S. João 1:3: "Todas as coisas foram feitas por intermédio dEle, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez”.Isto dá a Ele soberania sobre as formas de vida representadas no registro fóssil também.

Os Fósseis se Originam com a Morte

Quando Deus criou a vida, uma ordem de relacionamentos inteiramente diferente existia entre os organismos de Sua criação. Como seria este mundo? Hoje não temos nenhum sistema de referência de tal mundo. Não podemos mais visualizar um mundo sem a morte, assim como Adão em seu estado não caído não podia visualizar um mundo com morte. As condições anteriores à entrada do pecado no Jardim do Éden, e presumivelmente em toda a terra, podem talvez ser precariamente reconstruídas pelas referências à Nova terra. É-nos dito que no Éden restaurado,

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"O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi”.Isaías 11:6, 7.

Outra vez, ao descrever a Nova Terra, Isaías escreve:

"Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus; porque morrer aos cem anos é morrer ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado. Eles edificarão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão o seu fruto. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque a longevidade do meu povo será como a da árvore, e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras das suas próprias mãos. Não trabalharão debalde, nem terão filhos para a calamidade, porque são a posteridade bendita do Senhor, e os seus filhos estarão com eles. E será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor”.Isaías 65:20-25

E no livro de Apocalipse João escreve:

"E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram”.Apoc. 21:4.

É difícil para nós sabermos hoje que nível de morte tem significado no plano de Deus. As mudanças afetaram apenas os mamíferos, ou vertebrados? O que os tamanduás comiam? O que se pode dizer sobre as plantas? E as bactérias? A ignorância alimenta a especulação. Nossa incapacidade de explicar, descrever ou entender como tal sistema pôde existir tem sido considerada por alguns como evidência de que ele não existiu, e que a morte é uma parte da "ordem natural”.Mas é tão inútil para nós hoje tentarmos entender como tal ordem pôde existir, como é para nós tentarmos entender o processo pelo qual Deus originou a vida no princípio. Não temos pontos de referência para um mundo assim. Nossa incapacidade de descrever ou entender tal sistema deve ser reconhecida como é: uma limitação de nosso conhecimento e compreensão. Naturalmente, é mais satisfatório e autogratificante, afirmar que tal sistema não poderia ter existido, do que admitir que a falha é nossa. Os detalhes terão que esperar nova revelação ou nosso retorno ao Éden.

Qualquer que tenha sido a ordem no mundo edênico, com a entrada do pecado, ele chegou ao fim, e a morte rapidamente se seguiu. Deus mesmo tirou a vida de animais preciosos para prover roupas para Adão e Eva, que serviriam de lembretes constantes das conseqüências de suas escolhas, e de sua necessidade de um Salvador. Com o pecado veio a morte (Gên. 2:17, Romanos 6:23). Paulo bem descreve a entrada da morte como conseqüência natural da desobediência em Romanos 5:12: "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”.Em Romanos 8:22, ele afirma:

"Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora”.Com a morte veio a possibilidade de fossilização, a preservação de restos de organismos anteriormente vivos. E com a fossilização vem a paleontologia.

O Registro da Morte

Como a paleontologia está relacionada com a morte, olharemos para este aspecto da história da vida na terra. A crosta terrestre contém mais de 20 trilhões de toneladas de matéria orgânica armazenada como carvão, petróleo e carbono disperso. Há outros trilhões de toneladas de restos dos componentes inorgânicos dos fósseis, tais como conchas, ossos e outras formas. Há uma grande probabilidade de que pelo menos uma

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parte significativa deste material tenha sido produzida em conexão com a Semana da Criação. Por exemplo, Deus criou os recifes de coral, ou apenas pólipos de coral sem um lar? Havia matéria orgânica no solo ou era ele composto inteiramente de constituintes inorgânicos? Deve-se notar que, sem uma fonte de carbonato de cálcio, os oceanos não seriam um local adequado para o crescimento de muitos invertebrados marinhos. Aquários marinhos requerem um substrato de coral ou conchas no fundo para proverem um ambiente saudável. De qualquer forma, uma grande parte do material fóssil representa os restos de organismos que viveram na terra, e temos no registro paleontológico evidência de destruição em massa de formas viventes. Mais tarde vamos examinar detalhadamente a organização destes restos fósseis. Mas primeiro, o que podemos entender sobre este registro de morte em massa a partir da história bíblica? Já

vimos que a morte se seguiu ao pecado. O pecado foi, com toda probabilidade, uma aflição logo no início na terra. Adão e Eva ainda não tinham procriado, algo que foi um mandado explícito em Gên. 1:28. Isto nos dá um período de poucos milhares de anos, entre a entrada da morte e o catastrófico dilúvio mundial considerado a seguir. Durante este tempo, o período antediluviano, a morte de formas animais foi aparentemente uma ocorrência cada vez mais freqüente e violenta entre todas as categorias de organismos, incluindo o homem. Observando os resultados do pecado pouco antes do dilúvio, Deus

"Viu ...

que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente

mau todo desígnio do seu coração”.(Gên. 6:5). É até mais gráfica e inclusiva a linguagem nos versos seguintes:

"A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra. Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra." (Gên. 6:11-13).

Devem ter ocorrido mortes e destruição em larga escala, não apenas de seres humanos, mas também de cada forma de vida animal, como resultado da expansão do pecado na terra. A morte e destruição são o que fornecem material para a paleontologia, e temos evidência de que restos de formas de vida devem ter se acumulado antes da destruição da superfície da terra pelo dilúvio. Se estas formas foram realmente enterradas antes do dilúvio é um assunto sobre o qual se pode especular longamente. Ao final do dilúvio, aqueles restos que permaneceram foram enterrados e, ao menos em parte, preservados. Mas a morte e a destruição ocorridos no mundo antediluviano não podem ser comparados com o que ocorreu como resultado do dilúvio em si (o período diluviano). Lemos em Gênesis 6:

"Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem

que criei,

o

homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os

haver feito”.(v.7).

"Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está

cheia da violência

dos homens;

eis que

os farei

perecer

juntamente com a

terra”.(v.13).

"Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda

carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo

o

que

na terra

perecerá”.(v.17).

"Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem. Tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu. Assim, foram exterminados todos os seres que havia sobre a face da terra; o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus foram extintos da terra; ficou somente Noé e os que com ele estavam na arca”.(Gên. 7:21-23).

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A linguagem é inconfundível. O dilúvio foi um cataclismo colossal que afetou a terra toda. Nenhuma inundação local pode fazer justiça a este relato, e sugerir isto é ridículo, embora isso seja feito freqüentemente por aqueles que desejam preservar um sabor de historicidade para o relato do Gênesis, sem sacrificar a ortodoxia científica. Não está claro porque Noé e seus filhos teriam que gastar 120 anos construindo um barco por causa de uma inundação local, ou porque a preservação de animais na arca seria necessária no caso de uma inundação local.

"Nesse mesmo dia entraram na arca Noé, seus filhos Sem, Cam e Jafé, sua mulher e as mulheres de seus filhos; eles, e todos os animais segundo as suas espécies, todo gado segundo as suas espécies, todos os répteis que rastejam sobre a terra segundo as suas espécies, todas as aves segundo as suas espécies, todos os pássaros e tudo o que tem asa. De toda carne, em que havia fôlego de vida, entraram de dois em dois para Noé na arca; eram macho e fêmea os que entraram de toda carne, como Deus lhe havia ordenado; e o Senhor fechou a porta após ele”.(Gên. 7:13-16).

No relato do dilúvio, temos um registro de morte e soterramento de formas de vida em uma escala global. Este relato tem um profundo efeito sobre o que fazemos com a história registrada da vida animal na terra.

O terceiro período durante o qual animais e plantas morreram e foram preservados como fósseis é o período após a saída dos residentes da arca nas "Montanhas do Ararate”.Este período será referido aqui como o período pós-diluviano. Embora o próprio dilúvio tivesse terminado, as conseqüências do mesmo sobre a terra não haviam terminado, e por um período de centenas a milhares de anos, após o desembarque da arca, a vida na terra em recuperação estaria passando por uma rápida proliferação e modificação, para se acomodar aos novos ambientes resultantes da catástrofe. Estas condições, ideais para a criação de fósseis, são também as condições necessárias para uma rápida especiação: baixas densidades populacionais, rápida migração, altas taxas de reprodução e altas taxas de alterações geológicas. Mesmo hoje, podemos ocasionalmente testemunhar catástrofes geológicas que produzem a fossilização de organismos em grande e pequena escala. Um exemplo amplamente citado foi a erupção catastrófica do Monte Santa Helena no Estado de Washington em 1980. Nesta catástrofe, milhões de animais e plantas foram destruídos de uma forma que irá facilitar a preservação de alguns deles como fósseis pós-diluvianos.

Se nosso alvo como cientistas inclui tentativas de entender a história passada da vida na terra, o reconhecimento destes três períodos (antediluviano, diluviano e pós-diluviano) e a busca pela recuperação de seus limites deve ter uma alta prioridade. Voltaremos a este ponto mais tarde. Retornemos agora nossa atenção à paleontologia.

O Registro Fóssil

O que são os Fósseis?

Fósseis são quaisquer restos de organismos previamente existentes encontrados nas rochas ou sedimentos. Os fósseis podem variar desde películas de carbono em rochas pré-cambrianas atribuídas a bactérias, aos esqueletos gigantes de baleias completas enterradas em diatomita, que é uma rocha composta de minúsculos fósseis de organismos unicelulares. Um fóssil pode ser um molde da forma externa de uma concha, ou o preenchimento interno de um molde, com o organismo original completamente ausente. Os fósseis podem ser o resultado da substituição, um processo que substitui a matriz original do organismo, átomo por átomo, com minerais. Os organismos podem ser impregnados com minerais, consolidando o animal original como uma rocha. Os fósseis também podem representar as partes duras de organismos, essencialmente inalterados em sua química original, mas presos em rocha. No caso de ossos, por exemplo, a fossilização envolve a remoção das proteínas do osso, e recristalização dos minerais do

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osso em uma forma ligeiramente diferente. Qualquer que seja o processo, um registro do animal é deixado de forma que pode ser recuperado pelo paleontólogo para estudo e interpretação.

Condições para fossilização

Várias condições devem ser satisfeitas para formar um fóssil a partir de um organismo morto. A primeira destas é o soterramento. A maioria dos fósseis precisa ser soterrada dentro de um curto período após a morte, para que as partes de seu corpo possam ser encontradas juntas. Quando um paleontólogo encontra uma assembléia de fósseis, alguns podem exibir decomposição e desarticulação, mas com freqüência são encontrados, na mesma assembléia deposicional, organismos intactos ou mesmo organismos que foram enterrados vivos 1 . Estudos tafonômicos têm determinado o período de tempo necessário para que organismos de vários tipos se desarticulem. Este período é muito dependente das condições sob as quais os restos são mantidos. Em ambientes úmidos, a carne decompõe-se rapidamente e os ossos ou partes do corpo são rapidamente dispersos. Se o organismo está em um clima árido, a carne pode se desidratar, cimentando os ossos e impedindo sua dispersão por um longo tempo. Como para formas fósseis as condições pós-morte são raramente conhecidas com certeza, deve-se deduzir com cuidado qualquer conclusão a que possamos chegar com respeito à rapidez de soterramento. Geralmente, os organismos que vivem na água irão se desintegrar rapidamente, a menos que ocorra um soterramento num ambiente que favoreça a preservação. Depósitos que contém organismos intactos ou vivos no momento do soterramento exigem enterro e preservação rápidos e definem uma taxa mínima de soterramento.

Uma segunda condição para muitos tipos

de fossilização

é

a

presença de

fluido

carregado de minerais nos poros do sedimento. O tipo de mineral no fluido e a

composição do próprio fóssil irá determinar o tipo de fossilização que ocorrerá.

Uma terceira condição para muitos tipos de fossilização é a aplicação de uma pressão de confinamento significativa, e, em alguns casos, também de temperaturas elevadas. Há muito a ser aprendido sobre os processos de fossilização, sendo esta uma área de estudo com futuro promissor.

A Coluna Geológica

Na superfície da terra, rochas sedimentares estão expostas em muitos lugares. As explorações em busca de petróleo revelaram informações adicionais concernente às rochas abaixo da superfície da terra, e nosso conhecimento sobre estas rochas é considerável. Com o tempo, estas rochas sedimentares foram sistematizadas com base nos fósseis que contém e no relacionamento entre as camadas. Este registro sistemático é chamado de coluna geológica. Quando é feita referência à distribuição de fósseis na coluna geológica, o termo registro fóssil é usado com freqüência. O conhecimento da coluna geológica é valioso na busca pela compreensão da história passada da vida na terra. Um esboço de seus aspectos principais irá nos ajudar em nosso estudo.

O conjunto de rochas presentes na crosta terrestre é convenientemente dividido em duas unidades principais com base no conteúdo fóssil das camadas. As rochas contendo fósseis animais foram atribuídas às divisões do Fanerozóico. As rochas geralmente desprovidas de fósseis abaixo deste nível foram designadas como pré-cambrianas. O Fanerozóico é dividido em três eras. De baixo para cima são: Paleozóica, Mesozóica e Cenozóica. A Era Paleozóica é subdividida em seis períodos, de baixo para cima: o Cambriano, Ordoviciano, Siluriano, Devoniano, Carbonífero (Mississipiano e Pensilvaniano nos Estados Unidos da América) e Permiano. Nas rochas paleozóicas, o registro fóssil inclui membros de cada filo animal significativo, de esponjas aos

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vertebrados. Inclui também plantas vasculares e não vasculares afins aos grupos atuais. A Era Mesozóica é subdividida em três períodos, de baixo para cima: Triássico, Jurássico e Cretáceo. O registro Mesozóico é mais conhecido pelos espetaculares fósseis de dinossauros, mas também inclui os primeiros registros de mamíferos, e o aparecimento do último grupo principal de plantas fósseis, as plantas com flores. A Era Cenozóica é dividida no Terciário e Quaternário. Estes estratos registram a morte e soterramento de grande número de mamíferos, e a transição para o ambiente recente.

O Pré-cambriano

O Pré-cambriano contém todos os tipos de rochas presentes no Fanerozóico, mas geralmente sem fósseis multicelulares. O termo Pré-cambriano foi originalmente aplicado para todas as rochas sem fósseis que ficam na base de estrados definidos como cambrianos, com base nos fósseis de metazoários (animais multicelulares) que contêm. Rochas pré-cambrianas também são separadas das rochas fanerozóicas por uma grande discordância angular em muitos lugares do mundo.

Estudos contínuos têm revelado que, conquanto as rochas pré-cambrianas mostrem ausência de fósseis de metazoários (algumas exceções possíveis serão consideradas a seguir), elas contêm películas inorgânicas e estruturas complexas que, ao menos superficialmente, lembram células bacterianas e de algas modernas. Estromatólitos, estruturas litificadas, laminadas, de relevo domeado que lembram estruturas de algas com o mesmo nome, são também encontrados em algumas rochas pré-cambrianas. Na parte superior do Pré-cambriano (Vendiano), encontra-se uma variedade de formas descritas como cistos e acritarcos 2 , assim como um grupo de impressões fósseis complexas em arenitos, chamadas de Fauna de Ediacara (nome dado devido à localidade na Austrália onde foram encontrados pela primeira vez). Pelo fato de serem impressões em arenito, não há restos orgânicos, e podem ser vistos poucos detalhes na maioria dos espécimes. Eles têm sido considerados como animais invertebrados primitivos de várias afinidades, como seres unicelulares inflados, ou liquens, ou restos de grupos animais extintos. Estas estruturas têm simetria e superficialmente parecem ter estado vivas. Têm a aparência de folhagens penadas, bolsas ou discos. Os organismos com aparência de folhagem usualmente mostram ramos delicados, e nenhum destes organismos possui cabeças ou sistemas circulatórios, nervosos ou digestivos óbvios. Como não podem ser claramente associados a nenhum grupo existente, não podem atualmente servir de base para qualquer argumento forte.

Recentemente, outra descoberta foi anunciada em estudos de localidades do Pré- cambriano Superior na China. Estas localidades contêm camadas ricas em fosfato. Os depósitos de fosfato têm a capacidade excepcional de petrificar estruturas delicadas em detalhes mínimos. Uma análise microscópica de materiais destas camadas revelou a preservação do que foi descrito como embriões de animais e plantas. A datação indireta dos depósitos pode ser desafiada e eles podem bem ser cambrianos em vez de pré- cambrianos. Em qualquer caso, estão muito perto do limite do cambriano. Estes achados, se substanciados por mais trabalhos, são de grande interesse por causa dos detalhes de preservação. Os fósseis, alguns dos quais ao menos superficialmente lembram estágios primitivos de formas embrionárias animais, não são atribuíveis com certeza a nenhum grupo existente e pode ser que sejam de algas.

A explicação convencional para o registro pré-cambriano é que as formas orgânicas e inorgânicas, semelhantes a células, são os restos das primeiras células que se desenvolveram no planeta. Esta teoria também mantém que estas formas se originaram de material não vivo através de processos completamente naturais (isto é, nenhum Criador) durante o Pré-cambriano. Subseqüentemente, a evolução biológica ocorreu, levando à imensa complexidade revelada nas formas metazoárias do Cambriano. Esta afirmação absurda tem sido a causa de considerável consternação entre biólogos

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criteriosos. Werner Arber, biólogo molecular na Universidade de Basel, ganhador de um prêmio Nobel, assim resumiu a extensão do problema:

"Embora seja um biólogo, devo confessar que não entendo como a vida se

originou. . . .

Considero que a vida apenas se inicia ao nível de uma célula

funcional. A célula mais primitiva pode requerer pelo menos várias centenas de macromoléculas biológicas específicas diferentes. Como tais estruturas já bastante complexas podem ter se ajuntado, permanece um mistério para mim. A possibilidade da existência de um Criador, de Deus, representa para mim uma solução satisfatória para este problema." 3

Pelo menos duas posições alternativas podem explicar os dados observados sem serem atrapalhadas pela impossibilidade de explicar a origem da vida e de formas de vida complexas. Uma visão alternativa atribui as impressões em rochas pré-cambrianas a processos inorgânicos e atribui todos os seres vivos ao relato bíblico da Criação. Há pelo menos evidências indiretas de que todas as formas descritas como cianobactérias e outros Procariontes podem ser duplicadas em laboratório com compostos inorgânicos. Os estromatólitos também podem ter origem inorgânica. Uma terceira hipótese seria a possibilidade de as cianobactérias terem sido colocadas na terra antes da Semana da Criação. Ambas as hipóteses têm a vantagem de lidar satisfatoriamente com os dados, sem desculpar o problema de ter vida aqui em primeiro lugar. E ambas estão pelo menos dentro do espírito do relato das origens do Gênesis. As formas fósseis de Ediacara e outros exemplos de possíveis metazoários pré-cambrianos estão no Pré-cambriano Superior. Se forem mesmo restos de organismos vivos, poderão facilmente ser acomodados em qualquer destes modelos como seres não incluídos no Paleozóico, talvez soterrados durante o período antediluviano.

O Fanerozóico

O resto do registro fóssil é composto pelo Fanerozóico, as rochas nas quais a vida, em todas as suas formas, aparece na terra. Iremos cobrir o conteúdo das várias divisões do Fanerozóico com um certo detalhe à medida que continuamos. Voltemos nossa atenção para estes detalhes.

O Paleozóico

O Paleozóico é dominado pelos invertebrados marinhos. Quando se continua subindo a coluna, plantas e anfíbios são adicionados, seguidos de perto pelos répteis. O Paleozóico termina com o último registro fóssil da maioria destas plantas e invertebrados marinhos.

O Cambriano

Na base do Paleozó1ico, em muitas partes do mundo, estão as rochas do Cambriano. O Cambriano foi historicamente definido pela ocorrência das primeiras formas fósseis de metazoários, com freqüência trilobitas. Esta definição tem sido revisada na medida em que ficam mais intensos os esforços para encontrar ancestrais dos metazoários fósseis do Cambriano, e na medida em que foram encontradas algumas faunas que precedem estratigraficamente o primeiro trilobita. O limite inferior do Cambriano é atualmente definido pelo aparecimento de rastros fósseis (tocas), de Trichophycus pedum. A certa distância estratigraficamente acima disto aparecem os primeiros restos de animais metazoários. Estas faunas têm sido coletivamente chamadas de a "Pequena Fauna de Conchas”, uma descrição adequada para elas. Os fósseis são muito pequenos, tipicamente com alguns milímetros de diâmetro, e consistem de cones, tubos, espinhos e placas de afinidades desconhecidas. Estes são logo depois enriquecidos com espículas de esponjas, conchas de moluscos, braquiópodes e algumas formas desconhecidas,

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cujas afinidades ainda estão sendo pesquisadas. Estes são seguidos em rápida sucessão pelos trilobitas e outros artrópodes. Representantes de virtualmente todos filos aparecem como fósseis nos estratos do Cambriano Inferior. O único filo significativo do qual não aparecem fósseis no Cambriano é o Briozoa. Com o tempo, suspeito que seus restos fósseis também serão achados nestas rochas. O repentino aparecimento de formas vivas - representantes de virtualmente todas formas vivas - é amplamente referido como a "Explosão Cambriana”.As teorias para explicar o aparecimento catastrófico de todo o espectro da vida animal em sucessão tão rápida, são tanto numerosas quanto insatisfatórias. A maioria delas é composta apenas pouco mais do que gesticulação e pensamentos esperançosos. Geralmente as explicações incluem afirmações sobre o desenvolvimento de partes duras (mais ou menos simultaneamente em membros de cerca de 35 filos), possibilitando que organismos de corpo mole, já existentes previamente, repentinamente pudessem ser preservados como fósseis. Infelizmente para este cenário, o registro em rochas mostra belas preservações de formas de corpo mole no Cambriano (mais de 80% dos gêneros registrados no Folhelho Burgess, por exemplo, são de formas de corpo mole), mas estratos pré-cambrianos idênticos não contêm nenhuma evidência de tais formas. Além disto, há uma ausência geral, em rochas pré- cambrianas, de tocas e rastros que mesmo os animais de corpo mole são capazes de produzir atualmente. É o primeiro aparecimento deste tipo de rastro fóssil, Trichophycus pedum, que marca o início das rochas cambrianas.

As questões envolvendo a Explosão Cambriana têm muitas facetas. O aparecimento de membros de quase todos os filos num período que, em termos evolutivos, é muito curto, deixou a evolução na posição inviável do Rei em suas "roupas novas". Os sentimentos expressos num artigo recente na Internet são reveladores:

"O período Cambriano foi estranho e empolgante, mas foi também uma época de confusão. Uma confusão que dura 150 anos com os cientistas desconcertados sobre a explosão repentina do Cambriano. Não existe nenhuma teoria amplamente aceita que explique o surto de vida, e, portanto, é adequado que terminemos com estas questões. É possível achar respostas para os problemas? Qual a causa deste rápido Big Bang biológico? Por que não têm ocorrido repetições de evoluções bem sucedidas desde então? Por que não surgiram novos filos após o Cambriano?"

De um ponto de vista paleontológico há várias explicações possíveis para os dados. A hipótese naturalista geralmente aceita é que as formas cambrianas eram os descendentes evolutivos de precursores de corpo mole do Pré-cambriano, que se tornaram "pré-adaptados" para ocupar espaços em um novo ecossistema que se estabeleceu no início do Período Cambriano. Assim o "aparecimento repentino" é ilusório, e os animais meramente evoluíram de seus papéis anteriores no Pré-cambriano. Qualquer que seja a satisfação que tal teoria pode produzir nas mentes de seus adeptos, deve ser destruída pela ausência de qualquer dado que dê apoio a essa teoria. Além da ausência de precursores metazoários pré-cambrianos, a complexidade da biologia molecular das formas cambrianas primitivas se iguala a qualquer forma viva hoje 4 . É preciso responder ao desafio de toda a evolução da informação bioquímica complexa nos metazoários ter ocorrido no Pré-cambriano, onde não há evidência de metazoários. Tal posição requer um comprometimento de fé para com um modelo, que iguala ou excede o requerido em qualquer visão religiosa imaginável. Naturalmente os defensores desta teoria esperam que algum dia sejam encontrados os imaginários ancestrais pré- cambrianos. Mas, a despeito de esforços crescentes nesta empreitada, a lacuna permanece.

Uma segunda hipótese, a Deísta, bastante popular entre alguns cristãos, aceita uma criação divina de todas estas formas de vida no passado remoto. Numa hipótese variante (Teísta), Deus está envolvido ao longo do caminho. Os dois pontos de vista são baseados em pressupostos naturalistas, que interpretam os eventos discutidos em

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Gênesis 1 como figurativos, a fim de preservar um comprometimento com a escala de tempo radiométrica e com o paradigma naturalista (evolucionista). Uma terceira hipótese, a chamada Intervencionista ou hipótese Criação/Dilúvio, explica o repentino aparecimento de diversos fósseis complexos em sedimentos cambrianos como um registro da criação repentina de todo o espectro das formas de vida, associada com o dilúvio catastrófico descrito nos primeiros capítulos do Gênesis. A presença de um completo espectro de uma biota complexa, na ausência de evidência de ancestrais, certamente oferece um forte apoio para este modelo. As rochas abaixo do Cambriano teriam se acumulado na terra possivelmente antes da semana da criação de Gênesis 1, e assim não contém evidência de metazoários. As rochas do Cambriano representam ou os sedimentos acumulados na terra após a Criação, e antes do Dilúvio, ou são as primeiras rochas resultantes do Dilúvio.

Na hipótese Naturalista, não há um Criador. As hipóteses Deísta/Teísta e Criação/Dilúvio envolvem um Criador, e o Criador é o Deus da Bíblia. É difícil crer que indivíduos inteligentes e educados não consigam ver a mão do Criador na natureza. Como afirmou Werner von Braun:

"Não é possível ser exposto à lei e ordem do universo sem concluir que deve haver

planejamento e propósito por trás de tudo

Quanto mais entendemos a

... complexidade do universo e de tudo que ele abriga, mais razão temos para nos

maravilhar com o planejamento inerente sobre o qual ele é baseado

Ser forçado a

... crer em apenas uma conclusão -- de que tudo no universo aconteceu por acaso --

iria violar a própria objetividade da ciência

...

Que processo aleatório poderia

produzir o cérebro de um homem ou o sistema de um olho humano?

Eles (os

... evolucionistas) desafiam a ciência para provar a existência de Deus. Mas é preciso

acender uma vela para ver o sol?

Eles dizem que não podem visualizar um

...

Que raciocínio estranho

... Planejador. Bem, pode um físico visualizar um elétron?

faz com que alguns físicos aceitem o elétron inconcebível como real, enquanto se recusam a aceitar a realidade de um Planejador, dizendo que não conseguem

concebê-lo?

...

É com honestidade científica que apoio a apresentação de teorias

alternativas para a origem do universo, da vida e do homem nas salas de aula. Seria um erro deixar de lado a possibilidade de que o universo tenha sido planejado em vez de ter aparecido por acaso." 5

A decisão entre os pontos de vista Teísta/Deísta e Criação/Dilúvio deve ser feita levando em conta o que o próprio Criador nos disse. Estamos lidando com a história da terra, e, em história, um relato escrito de uma testemunha ocular é a informação disponível mais valiosa. Dados extracientíficos precisam ser usados ao tentar discriminar as duas hipóteses (ou outras que possam ser construídas) sobre as origens, e faz bastante sentido para quem afirma lealdade ao Deus da Bíblia, procurar respostas na Bíblia, sem sentir necessidade de se desculpar. Uma leitura direta do relato bíblico mostra que ele é claramente estruturado em poucos milhares de anos, favorecendo a hipótese Criação/Dilúvio. Este ponto de vista das origens não é isento de problemas no mundo natural, como veremos. Mas as conclusões finais a que se chega, em relação às origens, se apóiam em quem ou o que um indivíduo escolhe aceitar como autoridade. Nas duas primeiras hipóteses, a autoridade é o naturalismo e o racionalismo. O indivíduo afirma que a mente humana, agindo só, é capaz de discriminar toda verdade. Na terceira, a fonte final de autoridade é o Deus da Bíblia. É imperativo que indivíduos trabalhando nesta área reconheçam e admitam qual é sua fonte de autoridade. Até que isto possa ser estabelecido, há pouca base frutífera para uma comunicação construtiva. Na balança, a hipótese Criação/Dilúvio é consistente com uma leitura clara da Bíblia, enquanto a hipótese Deísta/Teísta não o é. A hipótese Criação/Dilúvio também se confronta satisfatoriamente com as questões mais urgentes na paleontologia: a origem da vida e a Explosão Cambriana. A hipótese Naturalista, mesmo com toda sua popularidade, não satisfaz nenhuma das duas. Conquanto haja outras hipóteses ou variantes que poderiam

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ser propostas e discutidas, vamos nos limitar a estas três. Ao continuar nossa avaliação do registro paleontológico, mantenha estas três hipóteses em mente.

O registro fóssil do Cambriano é de grande riqueza e incrível diversidade. Gould 6 o comparou a um arbusto de cabeça para baixo (o oposto de uma árvore filogenética normal), porque desde o princípio a diversidade é muito grande e há muitas formas que não são encontradas em níveis superiores do registro fóssil. Durante o Cambriano, a diversidade de trilobitas alcançou o seu máximo. Quando a deposição do Cambriano é superposta pelas rochas ordovicianas, a transição é mais uma questão de mudança de tipos de rochas do que qualquer mudança importante na fauna.

O Ordoviciano

As rochas ordovicianas exibem um aumento contínuo em diversidade, com muitas espécies de braquiópodes, trilobitas, corais, crinóides, cefalópodes e peixes sem mandíbula. O Ordoviciano se inicia com cerca de 150 famílias de organismos e termina com mais de 400. O único filo adicional ainda não registrado no Cambriano é o Bryozoa. Embora fósseis de plantas terrestres não sejam vistos senão em camadas superiores, há relatos de esporos de plantas terrestres no Ordoviciano. A diversidade de trilobitas ainda é grande em sedimentos ordovicianos. A "Extinção Ordoviciana" ocorreu próxima ao topo do período Ordoviciano. Neste ponto do registro fóssil, um terço de todas famílias de braquiópodes e briozoários desaparecem, assim como numerosos grupos de conodontes, trilobitas e graptolitos. Grande parte da fauna construtora de recifes foi também dizimada. No total, mais de cem famílias de invertebrados marinhos aparecem pela última vez. Estas famílias desaparecem do registro de uma forma ordenada e regionalmente consistente. Qualquer modelo com o propósito de explicar a história da terra com integridade deve acomodar estes dados.

O Siluriano e Devoniano

Seguindo-se à perda de diversidade (soterramento de habitats?) no fim do Ordoviciano, novos grupos aparecem como fósseis durante o Siluriano e o Devoniano. Os recém- chegados incluem os primeiros fósseis de plantas terrestres macroscópicas do Siluriano. Além disto, o registro Devoniano inclui os primeiros fósseis conhecidos de tubarões, peixes ósseos e cefalópodes, além de uma variedade de estromatoporóides e corais. Fósseis de formas terrestres que aparecem em estratos devonianos incluem anfíbios, insetos e muitos tipos de plantas terrestres.

O Carbonífero (Mississipiano e Pensilvaniano nos Estados Unidos)

Quando os últimos estratos devonianos foram depositados, o registro fóssil passou a incluir um grande componente de fósseis associados com águas rasas ou terra. O registro marinho continua a conter abundantes restos de briozoários, equinodermas (particularmente crinóides), braquiópodes, moluscos e artrópodes. A grande representação de insetos do Carbonífero atrai muito interesse. Muitas destas formas, incluindo baratas e libélulas, são familiares para nós hoje em dia, porém em tamanhos muito menores. O Carbonífero contém os primeiro grandes depósitos de carvão, e é deste aspecto que veio o nome deste período. Os carvões do Carbonífero são constituídos de plantas que não são familiares para nós hoje, embora haja representantes vivos da maioria dos grupos. As plantas dominantes são licopódios gigantes, fetos arborescentes, cavalinhas e outros, muitas vezes maiores do que qualquer de seus equivalentes modernos.

Uma objeção algumas vezes levantada contra a hipótese Criação/Dilúvio (de que o registro fóssil é em grande parte resultado de um único evento) é o volume gigantesco de

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material de origem orgânica na crosta terrestre. A grande quantidade de carvão, petróleo, gás e carbono disperso parece estar bem além do escopo do que um evento único possa produzir. Assim parece, pelo menos até que examinemos os dados.

A estimativa mundial de reservas de gás natural é de 5.000 trilhões de pés cúbicos. Isto poderia ser convertido em cerca de 94 bilhões de toneladas curtas de carbono (carvão). As reservas mundiais de petróleo são de cerca de um trilhão de barris. Isto seria equivalente a 180 trilhões de toneladas de carbono (carvão). Somando isto às reservas de carvão, estimadas em 1 trilhão de toneladas, teremos um total mundial de 1274 bilhões de toneladas de carbono fóssil a partir de fontes orgânicas (gás, petróleo e carvão).

Comparado com isto, a biosfera atual contém aproximadamente 829 bilhões de toneladas de carbono, cerca de 83% da massa do carbono fóssil preservada como carvão, petróleo e gás. Cerca de 243 bilhões de toneladas métricas de biomassa vegetal seca são produzidas por ano. Se a terra estivesse operando sob condições ótimas, poderíamos aumentar este valor em 10 vezes (maiores massas de terra, maior concentração de CO 2 , nenhum deserto, vegetação cobrindo os oceanos, biomassa ótima nos oceanos e mares ver abaixo). Permitindo esta otimização, poderíamos ter um acúmulo de 2 trilhões de

... toneladas de vegetação (peso seco) por ano. Se uma média de acúmulo de material orgânico representasse dez anos de crescimento, 20 trilhões de toneladas de material orgânico, vivo, morto e em decomposição poderiam estar presentes na superfície da terra na época do dilúvio, apenas provenientes de plantas. Além disto, também poderia haver na época cerca de 2000 anos de acúmulo de carvão, com cerca de 10 - 20% do carbono sendo preservado permanentemente como carvão disperso nos sedimentos e na coluna de água. Poderia haver também uma quantidade desconhecida de carbono orgânico adicionado a terra na época da criação, para preparar sua superfície para habitação.

Turfeiras atuais também fornecem um exemplo de como o ambiente pré-diluviano poderia ter possuído um reservatório de carbono muito maior do que a biomassa atual. Outros reservatórios podem ter incluído massas flutuantes de vegetação tais como as encontradas em certos pântanos modernos. A maior parte da vegetação paleozóica deve ter crescido sob estas condições, não apenas porque os representantes modernos destes grupos o fazem, mas porque mesmo uma análise superficial das estruturas de raízes associadas com estas plantas indicam que elas não poderiam ter crescido no solo. As plantas cresciam até 30 metros de altura, provavelmente em uma única estação de crescimento, e a maioria das formas era anual, possuindo pouca ou nenhuma madeira. As raízes eram estruturas de ancoragem singulares chamadas Stigmaria, que se ramificavam da base do tronco para lados opostos, dividindo-se imediatamente para produzir quatro raízes principais, que tipicamente se bifurcavam outra vez próximas ao tronco. Estas raízes cresciam de um broto terminal e enviavam para fora radículas de tamanho de um lápis num arranjo espiral, até meio metro do eixo principal. As radículas eram compostas de células grandes de parede fina, com pouco tecido estrutural. Desta aparência deduz-se que as raízes foram planejadas para penetrar restos vegetais, e certamente não poderiam ter crescido no solo. Devido a seu tamanho e volume, e ao rápido crescimento evidente, grandes quantidades desta vegetação poderiam ter se acumulado rapidamente, sob as condições de crescimento ideal do mundo pré-diluviano. Não é surpreendente que houvesse grande quantidade deste material disponível para ser soterrado e convertido em carvão durante o dilúvio. As raízes de muitos dos fetos arborescentes dominantes (e.g. Psaronius) mostram tecido aerenquimatoso, composto de células de paredes finas cheias de ar. Estes aspectos também são característicos de plantas aquáticas ou semi-aquáticas. Portanto, estas formas poderiam facilmente ter crescido sobre pesadas massas de vegetação flutuante, permitindo a possibilidade de um grande reservatório de carbono adicional. De qualquer forma, havia, pelo menos em teoria, carbono mais do que suficiente na terra pré-diluviana para justificar todo o carvão, petróleo, gás e carbono de origem orgânica disperso nos sedimentos.

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O Carbonífero também contém restos de muitos anfíbios, freqüentemente associados com as plantas produtoras de carvão mencionadas acima. Pode-se imaginar, e isso é inteiramente consistente com o estilo de vida dos anfíbios, que estas formas viveram entre as plantas nos pântanos flutuantes nos quais foram soterrados.

A deposição carbonífera termina junto com os carvões paleozóicos e muitas das grandes espécies de plantas carboníferas. Parece não haver uma boa explicação para esta perda nas hipóteses Naturalista ou Deísta/Teísta. Por que plantas que dominavam a paisagem, e obviamente eram muito bem sucedidas, iriam repentinamente deixar de existir? De acordo com a hipótese Criação/Dilúvio, esta perda pode ser explicada pela destruição do habitat do mundo pré-diluviano no qual estas formas viviam e subseqüente soterramento de seus restos por contínuo influxo de sedimentos.

O Permiano

O registro fóssil permiano contém muitas das formas de invertebrados presentes nas rochas abaixo, mas a flora reflete mudanças dramáticas. As principais extinções que marcam o fim das duas divisões principais do Fanerozóico, o Permiano (marcando o fim do Paleozóico) e o Cretáceo (marcando o fim do Mesozóico), apresentam mudanças dramáticas no registro de plantas em camadas bem abaixo de onde começam as grandes mudanças no registro animal. Porque isto foi assim, não está claro nas várias propostas de explicação. As plantas do Permiano, que parecem ser muito mais adequadas para clima seco do que as plantas produtoras de carvão do Carbonífero, são chamadas de Flora Glossopteris. Esta flora consiste de árvores coníferas e gimnospermas de diversas afinidades, a maioria das quais está atualmente extinta.

A diversidade do registro faunístico decresce gradualmente, até próximo do fim do Permiano, quando quase todos os invertebrados do Paleozóico desaparecem. Embora os números sejam controversos, estima-se que 96% das espécies encontradas no Permiano não aparecem mais no Triássico. Isto inclui invertebrados e vertebrados. Entre os vertebrados, 75% das famílias de anfíbios e 80% das famílias de répteis desaparecem do registro. Esta perda de tantos grupos taxonômicos é chamada de "Extinção Permiana", e muitos divulgadores de ciência tentaram explicar esta perda através de um evento catastrófico, tal como o impacto de um meteorito. A dificuldade encontrada em todas estas tentativas é que o desaparecimento de espécies continua através do Permiano ou, como no caso dos principais grupos de plantas do Carbonífero, já havia ocorrido antes do início do Permiano. Se a explicação correta é um dilúvio global, então é possível compreender o desaparecimento de grupos taxonômicos, e não são necessárias explicações fantasiosas.

O Mesozóico

As rochas mesozóicas são caracterizadas por uma mudança dramática na biota. Inicialmente as plantas tendem a ser similares às do Permiano. A maioria dos animais é diferente. Há mais formas terrestres e rochas marinhas possuem peixes fósseis, cefalópodes, bivalves e corais diferentes dos do Paleozóico.

O Triássico

As rochas do Triássico são caracterizadas por camadas vermelhas, assim chamadas devido à presença abundante de óxido de ferro, além de cinzas vulcânicas amplamente distribuídas. Nestas rochas estão os restos de répteis fósseis e os primeiros fósseis de mamíferos. As plantas são samambaias, fetos arborescentes, cicadáceas, ginkgos e gimnospermas de muitos tipos. A flora Glossopteris do Permiano é substituída pelo gênero Dicrodium do Triássico, encontrado em todo lugar. Todos os tetrápodes

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dominantes, incluindo os dinossauros e várias outras formas de répteis e mamíferos, aparecem primeiro nas rochas triássicas. Muitos insetos são conhecidos no Triássico, incluindo muitas espécies de libélulas. Formas marinhas incluem peixes, répteis marinhos e a maioria dos grupos modernos de invertebrados, incluindo uma crescente variedade de cefalópodes.

O Jurássico

Graças a Hollywood, o Jurássico é provavelmente o mais conhecido dos períodos geológicos. As rochas jurássicas contêm os restos dos maiores dinossauros que já viveram, incluindo os saurópodes gigantes. As rochas marinhas contêm uma abundância de restos de peixes, incluindo tubarões e raias e um crescente conjunto de cefalópodes, em sua maioria amonitas. Os padrões de aparecimento e desaparecimento de amonitas provêem o principal indicador estratigráfico para o Mesozóico. Este é um aspecto que precisa ser estudado cuidadosamente, pois este padrão contém muita informação útil para ajudar na reconstrução de processos sedimentares do Mesozóico. Embora os que trabalham sob as hipóteses Naturalista ou Deísta/Teísta aceitem que estes padrões sejam de origem evolutiva, os aparecimentos e desaparecimento não parecem representar linhagens evolutivas. Assim, os padrões podem conter outros tipos de informações compatíveis com a hipótese Criação/Dilúvio, que nos permitiriam o discernimento de aspectos do mundo antediluviano não acessíveis de outra forma. Plantas terrestres fósseis incluem samambaias, coníferas, ginkgo e cicadáceas. Pequenos mamíferos estão presentes, mas não são comuns. Ocasionalmente são encontrados restos fossilizados de aves, incluindo o famoso Archaeopteryx.

O Cretáceo

O Cretáceo se inicia de forma não auspiciosa e geralmente as rochas do Cretáceo Inferior apresentam os tipos de fósseis encontrados nos estratos jurássicos. Em contraste com as rochas vermelhas do Triássico, os estratos do Cretáceo incluem centenas de metros de folhelhos negros, indicativos de áreas fonte bem diferentes daquelas do Triássico.

No meio do período Cretáceo, ocorre uma mudança dramática. Começa a aparecer o registro fóssil de plantas com flores (angiospermas), e, no fim do Cretáceo, a maioria das principais famílias de plantas com flores estão representadas por pólen, folhas, frutos e/ou madeira. Esta introdução dramática de uma flora totalmente nova, chamada de um "abominável mistério" por Darwin, é de grande significado. Em face disto, o repentino aparecimento das angiospermas é uma explosão tão grande, no âmbito das plantas, como foi a "Explosão Cambriana" no domínio dos animais.

São numerosas as tentativas de explicar esta questão dentro do modelo evolucionista. Uma destas, feita por Daniel Axelrod, propôs que as plantas estivessem evoluindo em regiões montanhosas, longe das regiões onde os fósseis estavam sendo preservados, e por isso não temos o registro fóssil de sua evolução. Não é por acaso que esta explicação compartilha muitos aspectos com as explicações propostas para a fauna cambriana (i.e. não tinham partes duras para serem preservadas ou estavam evoluindo longe das bacias deposicionais). Uma segunda defesa da hipótese evolucionista atribui o desenvolvimento a mudanças evolutivas "graduais", asseverando que as angiospermas são introduzidas lentamente no registro fóssil após um período prolongado, sugerindo que tiveram tempo suficiente para "evoluir" a partir da(s) primeira(s) forma(s). Esta defesa é semelhante à outra feita para a Explosão Cambriana, sugerindo que aquelas formas animais apareceram lentamente durante o Cambriano Inferior.

Há dificuldades fatais nestas duas abordagens. As angiospermas são um grupo rico e diversificado, excedendo todas as outras plantas terrestres hoje por vinte a um. Esta

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diversidade entra no registro rapidamente, e requer uma explicação. É inconcebível, dadas as grandes diferenças existentes entre as angiospermas, que todo espectro de informação que representam pudesse ter se acumulado do nada durante um período infinito, quanto mais em um curto intervalo de tempo, como afirmado. Além disto, os dados sugerem que as plantas eram inteiramente funcionais e de aspecto completamente moderno quando apareceram pela primeira vez, da mesma forma que vimos com os invertebrados no Cambriano. Por exemplo, Tidwell relatou um ramo fóssil de bordo (Acer) no Arenito Dakota em Utah, que continha pólen, flores e sementes ligadas à madeira. O ramo foi encontrado em rochas consideradas jurássicas, e posteriormente reclassificadas como sendo do Cretáceo Inferior. O problema de haver fósseis que tem aparência completamente moderna em estratos cretáceos persiste. Onde a evolução aconteceu? Uma ciência peculiarmente revisora tem procurado aliviar o problema, reclassificando os fósseis de plantas com flores cretáceas, e mesmo terciárias, em grupos arcaicos. Pela mudança de nome para gêneros diferentes, ou mesmo famílias diferentes, têm-se multiplicado infinitamente e sem necessidade os gêneros de folhas e outras formas. Presume-se que, se uma folha de bordo é encontrada no Cretáceo, deve ser uma coincidência que se pareça com uma folha de bordo, porque como poderíamos ter o gênero Acer representado há 100 milhões de anos atrás? Assim, se eles chamarem este fóssil de Protoacer ou Pseudoacer, pensa-se que isto resolve o problema da origem repentina das angiospermas. Naturalmente não resolve.

Apenas a hipótese Criação/Dilúvio pode explicar o aparecimento repentino de angiospermas sem recorrer a reconstruções fantasiosas e elaboradas. E mesmo esta hipótese não explica com facilidade porque as angiospermas não são encontradas abaixo dos estratos cretáceos. Mas este aparente surgimento repentino de angiospermas é carregado de dados, e pode nos ajudar na formulação de um modelo científico que explique a distribuição de formas de vida na terra pré-diluviana, e os processos do próprio dilúvio. O modelo deve levar em conta isto e usar estes dados no desenvolvimento de uma visão da biota e da geografia pré-diluvianas que possa explicar a ausência de fósseis de angiospermas abaixo do Cretáceo.

Os fósseis animais dos sedimentos cretáceos passam por permutas com o aparecimento de novas formas, tais como os bastantes discutidos Tyrannosaurus rex, Triceratops e os dinossauros com bico de pato que dominaram o Cretáceo Superior. Os poucos mamíferos cretáceos são pequenos e constituem elementos excepcionais no registro. O ambiente marinho cretáceo continua a ser dominado por peixes e moluscos, especialmente amonitas. Durante o Mesozóico, os fósseis-guia, chave em sedimentos marinhos, são os amonitas, cefalópodes espiralados relacionados com os nautilus modernos. Estas formas alcançam seu zênite nos sedimentos do Cretáceo Superior. Nestas rochas no centro dos Estados Unidos, mais de 50 intervalos estratigráficos são definidos pelo que parecem ser espécies distintas de amonitas. Enquanto alguns destes podem não ser espécies distintas, muitos dos morfotipos estão presentes apenas por breves intervalos, e depois desaparecem do registro.

Quando as rochas cretáceas terminam, outra transformação incompreensível acontece. Todos os dinossauros desaparecem e, junto com eles, muitos outros répteis que não são dinossauros também não são mais encontrados como fósseis. Nenhum dos amonitas vai além do Cretáceo. As angiospermas, que surgiram antes, passam pela transição do Mesozóico para o Cenozóico com bem poucas mudanças. Esta grande extinção tem sido ligada a muitas teorias ricas e fantasiosas, tais como a colisão de meteoros, indigestão, o surgimento dos mamíferos, etc. Mas nenhuma destas teorias faz justiça às evidências. Se um impacto de meteoritos foi o evento final do Cretáceo, por que a maioria dos dinossauros já estava morta? De fato não há matança que possa ser diretamente atribuída a um evento que se pretende ter sido de magnitude indescritível e que parece ter feito pouco além de espalhar uns poucos centímetros de poeira enriquecida de irídio. E se um impacto foi a causa, por que não afetou as angiospermas, e por que destruiu todos os amonitas, mas não outras formas marinhas? Se as causas da extinção do fim do

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Cretáceo foram mamíferos, ou "constipação", etc., então por que os amonitas morreram? Certamente há lugar para uma catástrofe abrangente global que finalmente afetou o ambiente no qual estas várias formas viviam e, como um evento em progresso, o fim do Cretáceo marcou um conjunto de condições nos quais os amonitas e dinossauros não podiam mais viver.

O Cenozóico

As rochas do Cenozóico incluem todos os depósitos desde o Cretáceo até o presente. O Cenozóico é dividido em três partes, de baixo para cima: o Paleogeno, o Neogeno e o Quaternário. Estas rochas contêm os restos de uma fauna dominada pelos mamíferos, e registram uma flora que faz a transição de plantas representadas no Cretáceo para plantas específicas de várias regiões da terra atual. O registro marinho também inclui formas que seriam familiares para nós hoje. Os depósitos cenozóicos são mais locais e basinais do que os depósitos do Mesozóico ou Paleozóico. Restos de mamíferos, especialmente dentes, são usados como marcadores estratigráficos. Uma compreensão do registro cenozóico envolve ser capaz de explicar a notável mudança de camadas de rochas amplamente distribuídas e fósseis-guia do Paleozóico e Mesozóico, para as unidades de rocha e assembléias de fósseis muito mais localizadas do Cenozóico.

Outra vez, considerar a hipótese Criação/Dilúvio permite-nos explicar alguns dos detalhes que não são facilmente explicados pelo Naturalismo ou Deísmo/Teísmo.

Um dilúvio global deve ter um fim em algum ponto do registro nas rochas. Podemos esperar que o fim seja marcado por padrões de drenagem que permanecem até o presente, e aspectos da flora e fauna cada vez mais familiares. Um evento tão dramático como um dilúvio mundial deve ter tido repercussões que duraram até bem depois da saída dos animais da arca. Deste ponto de vista, o dilúvio deixou muitas bacias cheias de água, nas quais sedimentos e restos de animais e plantas mortos e em decomposição continuaram a se acumular durante algum tempo após o fim do dilúvio.

O repovoamento da terra com animais ocorreria rapidamente, e as criaturas e plantas se expandiriam em territórios vagos aparentemente sem fim. Variedades de plantas e animais nunca vistos antes na terra poderiam agora se desenvolver, expressando informação genética que teria se mantido não funcional nos genomas inativos de animais de um mundo diferente. Seria de se esperar que o ambiente logo após um dilúvio mundial tivesse condições ótimas para a seleção natural, incluindo nichos abertos, efeito “gargalo” nas populações, efeito do fundador e isolamento geográfico, que resultaram numa rápida proliferação de espécies para os muitos nichos vazios da terra. Um exemplo claro da magnitude destes efeitos ocorreu nas Ilhas do Havaí, onde os organismos foram capazes de se expandir sem as pressões competitivas normais de predação e doença. Aqui possivelmente uma única espécie de Drosophila aparentemente se tornou ancestral de mais de 600 espécies distintas de moscas das frutas. É importante notar que ainda são Drosophila, e que podemos apenas especular sobre o processo pelo qual elas se diferenciaram.

Embora o Cenozóico não tenha terminado, o passado recente foi caracterizado por glaciações continentais no Pleistoceno. Estes depósitos contêm flora e fauna que são geralmente reconhecidas como indígenas. São interessantes os relatos de grande número de paquidermes congelados em regiões árticas. Darwin calculou que um único casal de elefantes poderia produzir um milhão de descendentes em menos do que mil anos, de forma que isto não parece ser um problema para nenhum modelo.

Análise do Registro

O registro fóssil contém uma mistura de informações. Alguns destes dados, por exemplo, parecem, ao nosso nível atual de compreensão, favorecer idéias naturalistas das origens.

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Alguns destes dados parecem apoiar o conceito de uma origem Divina Criativa para a vida na terra, e um dilúvio global catastrófico. O método e o tempo não podem ser confiavelmente deduzidos pelos métodos naturalistas da ciência, e devem ser aprendidos pelas revelações do próprio Criador.

O registro fóssil exibe uma progressão ordenada de formas, muito diferente da que se poderia propor para a evolução sem um conhecimento prévio do registro. Também não é intuitivo o que um dilúvio global acarretaria. Muitas partes do registro parecem exibir um padrão de fósseis que sugerem que a terra pré-diluviana e o próprio dilúvio foram eventos bem diferentes do que geralmente se acredita. Se o registro fóssil se originou principalmente com o dilúvio, então se necessita de algum tipo de explicação delimitada ecologicamente ou fisiograficamente.

Em estratos do Paleozóico Inferior, os fósseis são organismos quase exclusivamente marinhos. Embora desde o início haja uma grande diversidade, esta diversidade muda na medida em que subimos a coluna. As mudanças são ordenadas e significativas. Tipos de plantas que parecem viver sobre a água são abundantes nos estratos do Paleozóico Médio e Superior. Tetrápodes associados com estas plantas podem também ter vivido sobre o terreno formado pelas plantas flutuantes. As primeiras plantas e animais verdadeiramente terrestres são encontrados no Permiano (Paleozóico Superior) ou nos depósitos mesozóicos, depois que as plantas formadoras de carvão desaparecem do registro. Estes dados são importantes para se chegar a um modelo de mundo pré- diluviano. Grande parte do mundo que foi soterrado durante o dilúvio já estava sob a água.

As formas marinhas do Mesozóico são muito diferentes das formas paleozóicas. Depósitos terrestres com formas de vida terrestre são o palco central. O aparecimento das angiospermas no Cretáceo Médio é um evento que dificilmente se enquadra com as expectativas evolutivas, e coloca limites severos e restrições importantes na construção de modelos para qualquer hipótese. O extermínio de dinossauros terrestres e amonitas marinhos quase simultaneamente obriga os modelos naturalistas a procurar explicações catastróficas. Os criacionistas alegremente se disporiam a prover estas explicações, se não tivessem que explicar onde os mamíferos e angiospermas estavam escondidos quando os dinossauros estavam sendo soterrados. O zonamento de amonitas no Mesozóico é outra oportunidade para os criacionistas coletarem informações para utilizarem na construção de modelos. Por enquanto, deve ser considerado outro desafio formidável para o modelo Criação/Dilúvio.

No Terciário os dinossauros não mais aparecem no registro fóssil, mas as plantas com flores continuam, tornando-se, ao longo do Terciário, cada vez mais específicas para as localidades onde são encontradas hoje em dia. Da mesma forma, os mamíferos modernos não aparecem até próximo ao fim do Terciário, em muitos grupos. Todos os grandes problemas para o modelo Criação/Dilúvio devem ser considerados dados para a construção de modelos. Isto sugere que, se queremos construir modelos, devemos tirar vantagem dos desafios e trabalhar intensamente com eles para obter mais dados.

Estes são os dados da Paleontologia que os construtores de modelos devem ter em mãos para reconstruir o mundo que havia antes do dilúvio. Este empreendimento vale a pena? É necessário?

Considerações Finais

Como podemos acomodar o registro paleontológico com a Bíblia? Que podemos fazer com os sérios desafios apresentados à nossa fé por alguns aspectos do registro fóssil? O que podemos fazer para tornar conhecidos os sérios problemas das hipóteses Naturalista e Deísta/Teísta? É suficiente dizer que “A Bíblia diz assim, e eu creio nisto, e isto é suficiente para mim?” Devemos continuar explorando a ciência, sabendo que podemos

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ser levados a conclusões que não são compatíveis com a nossa fé? Estas questões são sérias e dignas de serem estudadas e consideradas cuidadosamente.

Se nossa abordagem da ciência é adequada, podemos reconhecer que ainda há muitas perguntas não respondidas em todos os pontos de vista, e não devemos temer uma investigação mais profunda. Na ciência os dados não são tudo. Mas devemos reconhecer que a visão de origens apresentada na Bíblia é clara acerca da Criação. As plantas foram feitas no terceiro dia, os animais aquáticos e voadores foram criados no quinto dia e os animais terrestres, incluindo a espécie humana, foram criados no sexto dia, três tardes e manhãs após as plantas. A Bíblia também é razoavelmente clara sobre os eventos significativos para a fossilização destas formas de vida que aconteceu desde então. Há muitas coisas não reveladas sobre o mundo antediluviano. Se soubéssemos mais, penso que poderíamos responder muitas das questões que, no momento, estão abertas ou que nos causam perplexidade. Deveríamos estar tentando resolver estas questões? Podemos continuar a esconder nossa cabeça na areia quando questões de paleontologia aparecem?

Nós tradicionalmente ensinamos e pensamos que o mundo físico era um componente indispensável da totalidade da revelação de Deus para nós. Versos tais como Romanos 1:20, Salmo 19:1-4 e muitos outros tornam isto claro. Se mantivermos esta abordagem holística da Revelação, seria inconsistente ignorar um enorme componente deste testemunho no registro fóssil. Deveríamos ser mais agressivos em nossos esforços para procurar a harmonia com a Revelação na Bíblia, usando os princípios colocados pelas Escrituras como um filtro para testar as idéias. Penso que isto não é uma opção, mas um mandato da mais alta ordem. Se escolhermos ignorar os esforços para encontrar harmonia entre a Bíblia e a paleontologia, poderemos perder aquela grande oportunidade de receber a revelação de Deus através da terra. O salmista escreve:

"Escutarei o que Deus, o Senhor, disser, pois falará de paz ao seu povo e aos seus santos; e que jamais caiam em insensatez. Próxima está a sua salvação dos que o temem, para que a glória assista em nossa terra. Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o seu olhar. Também o Senhor dará o que é bom, e a nossa terra produzirá o seu fruto. A justiça irá adiante dele, cujas pegadas ela transforma em caminhos”.Salmo

85:8-13

Devemos estar preparados e abertos para receber aquela Verdade. A questão não é se podemos crer no que Deus disse na Bíblia. Esta questão precisa ser previamente resolvida com base em nossa fé. Pois nos é dito especificamente que:

"Pela fé entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de

maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem. [

] De

... fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”. Hebreus 11:3, 6

Mas iremos aplicar com sucesso esta fé para problemas reais no mundo físico? É aqui que podemos fazer a diferença, se escolhermos esta opção.

Penso que nossa visão da revelação no mundo físico, como um componente da revelação total de Deus para nós, exige que busquemos alcançar um nível satisfatório de compreensão do mundo físico. Não devemos “servir este princípio apenas com os lábios” sem implementar esforços sérios para buscar a compreensão que cremos que está aí. Estou seguro de que Deus não quer que esta revelação seja feita de um modo que venha a exaltar o homem. Mas Deus pode confiar numa mente preparada e numa vida comprometida. Com certeza o objetivo deste trabalho deve ser aquele que Deus já estabeleceu, que:

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"Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som”.Salmo 19:1-3.

E:

“Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”; Rom. 1:20.

Espero, com grande expectativa, o tempo quando estas novas revelações serão recebidas de forma mais completa.

Enquanto isso, podemos começar a ajuntar observações do registro geológico, que possam nos ajudar na tentativa de montar um modelo preliminar do que pode ter ocorrido durante a história passada desta terra.

A Construção de um Modelo

Introdução

As camadas de rocha sedimentar e, de forma menos extensa, todas as rochas da superfície da terra, contém um registro, embora incompleto e sujeito a ambigüidades, dos processos envolvidos em sua formação. Este fato se estende de forma menos clara a outros tipos de rocha na superfície da terra. Este registro pode ser interpretado e uma leitura cuidadosa e iluminada deve lançar luz sobre os processos envolvidos, e abrir, de certa forma, uma janela para a história passada da terra. Como a história registrada nos fósseis considerada anteriormente, esta história registrada da terra, como representada nas rochas (chamada de "registro geológico), pode ser dividida nos mesmos quatro intervalos principais mencionados anteriormente. Vamos rever estes termos, desta vez de olho no caráter geológico das rochas.

Pré-cambriano

Em muitos lugares na superfície da terra, as primeiras rochas depositadas contêm pouca ou nenhuma evidência de vida. Embora estas rochas sejam, em outros aspectos, similares às camadas acima delas, esta falta geral de fósseis e a posição basal das camadas atribui a elas o status de pré-cambrianas. Nesta discussão considera-se que tais rochas estavam presentes na terra antes do dilúvio.

Paleozóico

Freqüentemente depositadas sobre os sedimentos pré-cambrianos, mas também às vezes depositadas diretamente sobre o embasamento 7 , encontram-se camadas de rocha contendo fósseis em abundância de representantes marinhos de cada grupo principal de animais. Muitos arenitos e clásticos grosseiros no Paleozóico basal são seguidos de folhelhos e calcários mais acima. Conquanto a maioria das formas fósseis contidas nestas rochas esteja agora extinta, como já mencionado, elas eram tão complexas quanto qualquer forma viva equivalente. As rochas contendo estes fósseis são chamadas de paleozóicas (vida antiga) em referência à suposta antigüidade dos animais fósseis.

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Mesozóico

As rochas mesozóicas geralmente superpõem-se às rochas paleozóicas, mas em alguns casos encontram-se sobre as rochas pré-cambrianas. Estas rochas também se iniciam com abundantes arenitos e clásticos mais grossos, que são sucedidos por folhelhos e calcários mais acima. As rochas contêm plantas e animais de muitas variedades diferentes, que podem ser melhor descritos como uma mistura de ambientes terrestres e marinhos. As plantas e animais são formas muito diferentes, embora dos mesmos filos presentes no registro paleozóico, sugerindo uma substituição quase completa das formas do Paleozóico.

Cenozóico

A seqüência de rochas superiores pode estar, em muitas áreas, sobre as rochas mesozóicas ou sobre rochas de qualquer dos outros intervalos. Estas rochas consistem de uma variedade de litotipos, mas apresentam em geral menos carbonatos e mais clásticos. As rochas contêm os restos fósseis de mamíferos terrestres e tipos modernos de plantas terrestres, além de uma ampla variedade de outras formas fósseis, tanto de grupos existentes como de extintos.

A Terra Pré-diluviana

Os geólogos têm feito sérias tentativas de reconstruir a face da terra em várias épocas na sua história passada. Muitos dos dados para gerar estas reconstruções vêm do estudo do paleomagnetismo 8 . Os paleogeógrafos 9 têm tentado modelar a superfície da terra passada usando dados paleomagnéticos, junto com outros indicadores. O resultado deste trabalho tem sugerido que a superfície da terra, no início do Paleozóico, consistia de um único grande corpo de água salgada, que neste documento chamaremos de Oceano. Este corpo de água continha um continente granítico individualizado 10 , de contorno mais ou menos uniforme, com dimensão aproximada da soma de todas as áreas de terra do planeta hoje, cobrindo metade ou mais de sua superfície. O Oceano envolvendo a terra servia para moderar o clima e a atmosfera, preservando o ambiente das flutuações do dia e da noite e também de qualquer mudança sazonal. Por esta e outras razões 11 o clima da terra era ameno de pólo a pólo.

A configuração do continente original sobre o globo em rotação é incerta. Poderia ter se localizado próximo ao Pólo Sul, como os paleogeógrafos sugerem, ou poderia estar mais próximo do equador. As duas possibilidades têm conseqüências interessantes. Se a massa de terra estava distribuída no equador, provavelmente teria uma distribuição mais ou menos circunglobal. Se estivesse centrada no Pólo Sul, a distribuição de luz apresentaria um problema interessante.

Este continente exibia três aspectos geográficos proeminentes. A linha de costa do continente com o oceano era limitada por planaltos marginais, cadeias de montanhas junto à costa servindo para separar o interior continental do oceano. No interior dos planaltos marginais, sobre o próprio continente, havia vastos mares de água doce. Emergindo dos mares para o interior continental, a terra juntava-se num amplo platô central.

O platô central consistia num planalto elevado extenso, uma área que agora compreende os escudos 12 de vários continentes. Este platô era o coração verdejante do planeta, contendo uma variedade aparentemente sem fim de plantas e animais. A flora desta região era dominada pelas angiospermas (plantas com flores), e era também a habitação da maioria dos mamíferos, incluindo o homem. A grande variedade de plantas e animais, representados mais tipicamente como as formas fósseis das rochas sedimentares do Cenozóico, habitavam originalmente neste platô central. Este platô era pontilhado com lagos e riachos, e servia de fundamento para uma rede complexa de drenagens 13 . Nesse

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planalto central, grandes rios nasciam e fluíam para os quatro pontos cardeais e regavam a terra. Os rios eram contíguos com os mares de água doce e eram circulados por algum mecanismo, talvez envolvendo forças de coriolis ou a atração gravitacional de uma lua mais próxima.

Circulando a borda do continente, planaltos marginais separavam a terra do oceano. Estes planaltos marginais 14 eram geralmente mais áridos do que o platô central, que se beneficiava de forma diferente do sistema hidrológico. Os planaltos marginais mais áridos eram o lar de uma variedade de plantas mésicas (capazes de viver com menos água) e animais, dominados pelas formas reptilianas. Havia também muitos sedimentos destinados a formar os depósitos mesozóicos.

Entre os planaltos marginais e o platô central, sobre o próprio continente granítico, ficavam vários, talvez quatro ou mais, grandes mares de água doce 15 . Esses corpos de água, amplamente reconhecidos pelos geólogos como um aspecto proeminente da paisagem paleozóica, são chamados de mares epicontinentais 16 . Vivendo dentro desses mares haviam representantes de vários grupos 17 de vertebrados e invertebrados encontrados freqüentemente em rochas paleozóicas. Uma extensa vegetação variada, típica da flora paleozóica, cobria a costa imediata e se estendia sobre a superfície dos mares na forma de ilhas flutuantes 18 . As plantas incluíam principalmente samambaias terrestres herbáceas de propagação rápida do Paleozóico, fetos arborescentes gigantes, licopódios e calamitas (formas extintas das cavalinhas modernas) muitas vezes maiores que seus equivalentes modernos. As plantas dominantes alcançavam alturas de mais de 35 metros, com diâmetros de tronco de um metro ou mais. O crescimento destas plantas, particularmente os licopódios arborescentes e calamitas, provavelmente se completava em uma única estação, com taxas de crescimento vertical de 10 a 20 centímetros por dia. As ilhas, construídas com troncos caídos e folhas destas formas gigantes, ficavam sobre acúmulos de dezenas a centenas de metros deste húmus e restos de plantas. Estas ilhas eram habitadas pelos tipos de quadrúpedes encontrados nas rochas sedimentares do Paleozóico, principalmente anfíbios 19 . Esses vários mares epicontinentais são representados no registro de rochas pelos geossinclinais 20 , onde os extensos depósitos dos sedimentos paleozóicos são encontrados hoje nos continentes.

O próprio oceano era um corpo salino, com fundo constituído de rochas basálticas. As águas eram povoadas por peixes, baleias e outras criaturas marinhas, representando formas de vida similares às encontradas no oceano atual, além de muitas formas atualmente extintas, mas geralmente dos tipos encontrados no Mezozóico e a partir deste.

O Dilúvio: No início do dilúvio, as águas da chuva se acumularam por muitos dias, foram absorvidas pelo solo, e fluíram para os mares. À medida que a enchente continuou, as regiões baixas adjacentes aos mares epicontinentais ficaram inundadas, e os próprios mares, com os animais neles contidos, foram inundados por sedimentos, talvez trazidos também pela água, e sedimentos resultantes da ruptura do sistema hidrológico 21 .

Uma das ferramentas disponíveis para os geólogos considerarem uma catástrofe global é a informação derivada do estudo de paleocorrentes, os indicadores do fluxo direcional da água preservados nas rochas da crosta terrestre. Esta ferramenta, baseada em aspectos sedimentares tais como estratificação cruzada, marcas de ondas, orientação de fósseis e outros indicadores, fornece informação confiável sobre os padrões de fluxo das correntes de deposição e sobre áreas fonte potenciais para os sedimentos e fósseis. Os padrões de paleocorrentes observadas no Paleozóico e em outras divisões da coluna geológica serviriam de modelo para os tipos de processos envolvidos, assim como as direções de movimento das águas carregadas de sedimentos sobre a superfície da terra durante cada período sucessivo. Temos acumulado e estamos ainda acumulando ativamente dados para toda coluna geológica, em todo mundo, num esforço para reconstruir os processos em larga escala na terra. Os resultados já obtidos têm esboçado um quadro notável de processos suprabasinais em todo globo. Estes resultados serão

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mencionados mais adiante. Para o Paleozóico, vemos um padrão notavelmente consistente refletido não apenas nos cratons modernos, mas também aparentemente supracratonicamente. O padrão observado na América do Norte e também do Sul é de um fluxo predominantemente para o oeste, com áreas fonte ao leste dos limites cratônicos atuais.

À medida que os sedimentos se acumularam nos mares, mudanças na salinidade 22 (talvez devido à atividade vulcânica crescente, ou à exposição de depósitos de sal), aumento de turbidez (devido ao transporte de quantidades de sedimento para a água) e/ou alterações de temperatura (resfriamento devido à oclusão do sol por muitos dias ou aquecimento devido ao aumento de tectonismo), resultaram na destruição precisa e sucessiva de várias formas de vida na coluna de água, à medida em que seus limites de tolerância eram alcançados. Estas formas teriam então sido enterradas de forma ordenada e sucessiva em cada bacia geossinclinal onde habitavam anteriormente. Na superfície da água, as ilhas de vegetação flutuantes, fragmentadas pela tempestade, foram deslocadas pelas correntes de maré para ambientes rasos, onde as massas saturadas de água ficaram embebidas em sedimentos. As águas em contínua ascensão, movidas por correntes de maré, repetiam este ciclo, trazendo e soterrando camadas adicionais de vegetação acumuladas dos mares epicontinentais, produzindo as grandes quantidades de carvão do Carbonífero 23 .

A temperatura global diminuiu sob a influência de uma cobertura de nuvens contínua. No platô central, começou o acúmulo de neve e gelo, formando grandes capas de gelo cercadas por floras e faunas de regiões montanhosas do platô central. À medida que as placas de gelo moviam-se pelo platô, o substrato foi sendo “raspado” até o alicerce rochoso. Aqui extensas regiões do interior continental foram desnudadas de todo sedimento. Como conseqüência, o platô central, uma região que depois se converteria nos escudos da África, América do Sul, América do Norte e outros continentes, ficou exposto. Os sedimentos derivados de geleiras fizeram contribuições significativas para as bordas continentais inundadas abaixo.

O fim do Paleozóico e início do Mesozóico foi assinalado pela ruptura das margens costeiras pelas águas do oceano 24 em ascensão. Durante o Paleozóico, estas águas foram restringidas pelos planaltos marginais. Mas agora, sob a influência de chuva contínua e subsidência do continente, as águas transbordaram para o interior, carregando muitos sedimentos e a biota dos planaltos costeiros. Estas águas se espalharam pelas bacias, agora cheias, dos mares epicontinentais, cobrindo o continente com sedimento adicional, e destruindo os últimos vestígios das formas de vida paleozóicas intolerantes ao sal, numa extinção em massa. Estes grupos foram rapidamente substituídos por organismos da fauna oceânica 25 e organismos das zonas de vida mésica dos planaltos marginais, incluindo dinossauros e outras formas de répteis. Recifes de coral com faunas inteiramente novas e outras formas de vida sésseis do Mesozóico foram trazidas dos ambientes da costa do oceano para as margens continentais, enquanto os continentes em expansão avançaram sobre o fundo do mar ou foram soterrados junto com as margens continentais por sedimentos lavados dos planaltos costeiros ou foram transportados para as bacias por processos catastróficos. Por dias ou semanas as regiões rasas continuaram a manter vivos alguns grupos terrestres, e os animais terrestres sobreviventes migraram para terrenos mais altos. Sob a incansável investida das águas em contínua ascensão, mesmo estas formas ficaram logo em perigo. A erosão contínua dos planaltos marginais forneceu sedimentos tanto para o interior continental como para depósitos marinhos da costa, que logo seriam incorporados às margens continentais em avanço.

Todo continente está agora ameaçado de inundação. Correntes marinhas poderosas correm sobre as terras submersas, distribuindo sedimentos e organismos pelos continentes, tomando e afogando grupos inteiros de criaturas terrestres sobreviventes. Essas correntes mesozóicas são distintas das correntes paleozóicas. As últimas estão claramente relacionadas aos mares epicontinentais, geralmente dirigidas para fora dos

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continentes. As correntes mesozóicas são menos relacionadas a bacias, sendo dominadas por fluxo para o interior continental, a partir das bordas. As águas marinhas em avanço transformaram a superfície da terra em uma vasta expansão de água não interrompida ao cobrirem gradualmente até os pontos mais altos da terra. Os restos de vegetação em decomposição e carcaças animais entulhavam a superfície do oceano.

No fim do Mesozóico se inicia a grande quebra continental. As paleocorrentes continentais indicam uma tendência para as bacias abertas recentemente do proto- atlântico, no interior do que era a Pangea. Os continentes começam a se soerguer isostaticamente e o vulcanismo associado gera grandes quantidades de cinzas e lava. O calor perdido devido à cobertura de nuvens é substituído por calor liberado pela extrusão magma durante o trincamento dos continentes. Grandes blocos de gelo se fundem depositando os restos de plantas e animais do platô central próximo da superfície da terra. Os continentes emergiram das águas do dilúvio, dissecando bacias com a água contida e restos de plantas e animais. As próprias bacias começam a acumular sedimentos. Os restos de plantas e animais afundam e são soterrados nos sedimentos, enquanto os processos catastróficos diminuem de intensidade. Mas agora os padrões dominantes de paleocorrentes são basinais, com contribuições substanciais das principais drenagens continentais em desenvolvimento, tais como as da bacia do Mississippi. O recuo das águas no final do Cenozóico escavou cânions ao drenarem os continentes que se levantavam, levando enormes volumes de detritos para as bacias oceânicas modernas. Enquanto isso, as formas continentais familiares emergiam, acompanhadas pela formação de montanhas com deslocamentos e dobramentos continentais em larga escala. Processos anastróficos (catástrofes locais) resultaram na "lavagem" de grandes áreas dos continentes e soterramento de restos encalhados do dilúvio. Carcaças flutuantes de aves e mamíferos se decompunham, provocando a queda de detritos nos sedimentos acumulados. As plantas começaram a brotar outra vez enquanto alguns dos peixes sobreviventes se multiplicaram nos lagos e populações de insetos germinavam.

A Recuperação: Durante algum tempo após o fim da catástrofe a terra continuou a se recuperar dos seus efeitos. As chuvas continuaram em quantidades exageradas, o clima oscilava entre o frio glacial e o calor que, por sua vez, provocava a retração de geleiras. A própria terra continuou se ressentindo destas influências.Os animais, encontrando um ambiente aberto, rapidamente se irradiaram pela terra. As taxas de reprodução eram altas. A disponibilidade de nichos abertos em todos lugares incentivava a especiação, que ocorreu com taxas sem precedentes. Gradualmente as flutuações climáticas se tornaram menos evidentes e a terra se acomodou para um período menos catastrófico.

Explicações e Testes do Modelo

Este modelo é baseado diretamente em várias observações relativas à história pretérita da terra. Elaborei-o baseado em algumas das observações abaixo, no contexto de sua significância para o modelo.

Bacias Oceânicas Modernas

As bacias oceânicas modernas aparentemente não contêm, em nenhum lugar, sedimentos mais antigos que o Mesozóico. Isto é, os sedimentos recuperados do fundo oceânico hoje não contêm fósseis dos tipos encontrados em rochas paleozóicas. Isto levou os teóricos da Tectônica de Placas 26 e os paleogeógrafos a suporem que todo o fundo oceânico foi subductado 27 , removendo convenientemente o que seria um grande problema para o modelo evolucionista 28 . Por outro lado, o modelo apresentado aqui oferece uma explicação para a ausência de fósseis paleozóicos nas bacias oceânicas, sem ter que recorrer a uma remoção completa do fundo oceânico. Isto é importante à luz das conseqüências térmicas do movimento das placas. Quando o fundo oceânico é

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subductado de um lado do continente, ele deve ser regenerado do outro lado. Esta regeneração pode envolver o cavalgamento do continente sobre o fundo oceânico ou a extrusão de grandes quantidades de magma fundido do assoalho oceânico. Em qualquer dos casos, considera-se que o processo envolva a produção de calor ou de magma. Este magma iria alterar consideravelmente o equilíbrio térmico do oceano 29 .

Este modelo também explica o que tem sido uma grande dificuldade para os geólogos convencionais. Quase todo sedimento das bacias oceânicas modernas é do Cenozóico Superior (cerca de 95% é do Mioceno-Plioceno). Desconsiderando estes sedimentos, existe no fundo dos oceanos apenas um pequeno registro de sedimentos derivados do continente. Embora eu nunca tenha ouvido alguma explicação convincente para este dado dentro do paradigma evolucionista, ele se ajusta perfeitamente a um modelo no qual os continentes atuais emergiram das águas do dilúvio no Cenozóico Superior, com escoamento continental maciço estendendo do Cenozóico tardio até o presente.

Padrões de Geossinclinais

Uma série de bacias deposicionais cortam muitos dos principais continentes e servem como depositários da maioria dos sedimentos paleozóicos. Essas "bacias marginais" ou geossinclinais representam os remanescentes dos mares epicontinentais antediluvianos. Os padrões que formam na superfície fornecem informações importantes sobre o arranjo preciso dos continentes pré-diluvianos e os sistemas hidrológicos. A informação é prontamente disponível, indicando onde esses geossinclinais situavam nos vários continentes. Isto é de grande ajuda em nossas tentativas de reconstruir a geografia pré- diluviana, localizando os mares e ajudando-nos a descobrir onde estariam as áreas fonte das plantas, da vida animal e os sedimentos do Mesozóico e Cenozóico.

Planaltos Marginais

Estamos acumulando mais informação sobre o tipo de rochas presentes nos cinturões marginais (freqüentemente chamados de "cinturões móveis”) que limitavam os continentes e delimitavam os mares epicontinentais do oceano. Estas montanhas devem apresentar os tipos de rocha encontrados nos fundos oceânicos e devem ser não fossilíferas ou, se contiverem fósseis, estes devem ser mesozóicos. Aparentemente este é o caso no momento.

Paleocorrentes

Os padrões de paleocorrentes estão provendo informações chave sobre os movimentos de água e de sedimentos no continente norte americano através do tempo. Estamos acumulando dados semelhantes de outros continentes, de forma que possa ser efetuado também nestes locais um trabalho de reconstrução. Isto é crucial para se reconstituir a forma do supercontinente original. Baseado nos dados atuais, parece provável que todo o fluxo durante o Paleozóico foi a partir dos planaltos centrais, como o modelo prediz, e que a direção do fluxo durante o Mesozóico foi no sentido contrário, novamente como o modelo prediz. No Cenozóico, a regra parece ser de correntes basinais, outra vez como o modelo prediz.

Distribuição de Fósseis

Se o modelo provê uma representação acurada dos eventos do dilúvio, então deveríamos ser capazes de predizer as fontes das várias faunas e floras através da comparação da distribuição de fósseis com os padrões de paleocorrentes. Por exemplo, a distribuição de fósseis de dinossauros deveria ser prevista se comparamos os padrões de distribuição de

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paleocorrentes com os planaltos marginais continentais, nos quais se propõe que os dinossauros tenham vivido.

Reconstrução da Protopangéia

Estamos procurando entender melhor os dados paleomagnéticos a fim de determinar que "latitude" temos para o posicionamento dos continentes não usualmente considerados como parte integrante do supercontinente proto-pangeano do Paleozóico Inferior. A América do Norte (Laurentia), Europa e Ásia (Laurasia) e Rússia (Sibéria) são descritos como estando vagando pelo planeta durante a maior parte do Paleozóico, enquanto o supercontinente Gondwana permaneceu mais ou menos intacto. Atualmente parece que os dados para reconstruções paleogeográficas são bem acomodáveis. A idéia de manter um único supercontinente paleozóico não parece muito forçada, pois a longitude não pode ser derivada dos dados paleomagnéticos. Assim, as massas continentais podem ser mais ou menos posicionadas em qualquer longitude. A latitude também é, com freqüência, determinada por outros dados inferenciais que não o paleomagnetismo, e até preferidos em relação aos dados paleomagnéticos.

Recifes de Coral

O modelo explica a presença de corais paleozóicos nos continentes. Também prediz a ausência geral de corais mesozóicos e mais jovens nos continentes. Parece ser mantida a predição do modelo de que os corais pós-paleozóicos (corais porque, ao contrário de outras formas marinhas, eles não podem nadar, caminhar ou voar e crescem lentamente) deveriam ser encontrados nas proximidades das margens do oceano, ou deveriam ser derivados destas margens por algum processo sedimentológico ou tectônico. Os principais escleractíneos e outros biohermas mesozóicos e mais recentes (recifes compostos de restos de organismos vivos) são encontrados ao longo de margens continentais ou em zonas de colisão (anteriormente margens continentais), com poucas exceções.

Como um corolário, o modelo prediz que as zonas de sutura das colisões continentais deveriam conter sedimentos do fundo oceânico mesozóicos e recifes de coral mesozóicos, (i.e. corais escleractíneos, etc.). Uma análise dos tipos de fósseis encontrados nos Pireneus, nos Alpes, nos Himalaias, nos Cárpatos, nos Urais e outras zonas de colisão hipotéticas, deveria conter sedimentos do fundo oceânico. Isto foi verificado para os Alpes, e para outras zonas que foram avaliadas.

Terrenos Acrescionados

Considera-se que áreas significativas de vários continentes foram incorporadas às margens continentais quando a placa continental cavalgou a placa oceânica. Algumas vezes estes terrenos acrescionados ou "exóticos" são de origem oceânica e devem conter fósseis do Mesozóico ou mais jovens. Algumas vezes eles representam fragmentos de outros continentes acrescidos por colisão. Neste caso, os restos de uma bacia marginal podem ser incluídos, contendo principalmente fósseis paleozóicos. Estamos testando a hipótese de que, em geral, terrenos acrescionados de origem continental conterão fósseis dos tipos paleozóicos, enquanto terrenos acrescionados com fósseis mesozóicos ou mais recentes serão de origem oceânica. Terrenos acrescionados de origem oceânica que contenham recifes de coral mesozóicos serão consistentes com o modelo. Já foram descritos mais de 200 destes terrenos identificados na América do Norte, 20 ou mais na América do Sul e outro tanto da Nova Zelândia e, em sua maioria, eles são consistentes com o modelo. As poucas exceções ainda não foram analisadas em detalhe para ver se podem ser acomodados no modelo.

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Microfósseis Marinhos

Os radiolários são encontrados tanto nos mares paleozóicos como nos depósitos meso- cenozóicos. Hoje os radiolários são conhecidos apenas em ambientes marinhos. Supõe- se, portanto que, no passado, os radiolários eram apenas marinhos. Há numerosos depósitos de rochas paleozóicas contendo chertes (sílica precipitada quimicamente) com radiolários. Entretanto, as formas paleozóicas foram quase que inteiramente eliminadas no fim do Paleozóico, como seria esperado, se formas de água doce fossem expostas a condições salinas. Deve-se procurar alguns dados substanciais para a existência de radiolários de água doce. Alguns outros microfósseis planctônicos e bentônicos podem ser encontrados tanto em água doce como em ambientes salinos, mas as formas exatas devem ser diferentes.

Sedimentação Mesozóica

A distribuição de sedimentos mesozóicos deve se estender bem além das margens dos mares epicontinentais paleozóicos. Os padrões mesozóicos devem refletir as diferentes fontes de sedimento, assim como o fluxo para o interior do platô central. Isto parece ser verdadeiro nos continentes onde dados suficientes estão disponíveis, e mais dados estão sendo obtidos. O modelo prediz que dados adicionais de outros continentes irão refletir esta tendência.

Pesquisa Tafonômica

O modelo também sugere uma área frutífera para experimentação em tafonomia 30 . Ambientes contendo uma biota complexa poderiam ser submetidos a mudanças na salinidade, temperatura e/ou turbidez de modo a determinar se poderia ser possível modelar uma mortalidade ordenada que pudesse explicar a seqüência no registro fóssil.

Conclusões

Há muito tempo os criacionistas têm sido criticados de que não possuem um modelo para explicar o paradigma da história da terra que eles defendem. Esta crítica tem sido difícil de suportar, pois implica que o conceito seria ao mesmo tempo inferior e menos científico, já que nenhum experimento pode ser projetado para testar um modelo que não existe. Embora a mesma crítica possa ser aplicada ao "modelo" evolucionista, a percepção de que havia algum tipo de modelo se mostrava uma vantagem significativa para os evolucionistas. Uma vantagem tática adicional foi obtida pelos evolucionistas pelo fato de que seu modelo era, em grande parte, uma descrição das coisas como elas são e, portanto, consistente à revelia com as observações da natureza. Os criacionistas que geralmente se sentiam compelidos a basear seu modelo na Bíblia, e tentavam ajustar os dados geológicos ao seu modelo, estavam assim expostos a uma severa desvantagem lógica e de procedimento.

A elaboração de um modelo, mesmo que seja inadequado para explicar cada detalhe 31 , parecia ser uma necessidade crítica para os criacionistas. Neste modelo, tentei ser tão descritivo quanto possível, tecendo as observações geológicas baseadas na estrutura da Bíblia. Como resultado, o modelo é também, em grande parte, uma descrição das coisas da forma que são, e, portanto, naturalmente mais consistente com os dados observados da ciência. Este modelo proposto tenta explicar tantos aspectos do registro fóssil quanto possível, dentro dos limites providos pelo relato da Criação e o do Dilúvio relatados no Gênesis. À medida que mais informação se tornar disponível, o modelo será modificado de forma correspondente. Caso se demonstre que este modelo não ajude na compreensão da história passada da terra, ele poderá ser substituído por um melhor.

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Enquanto isso, ele oferece as oportunidades para rigorosa avaliação científica e testes que devem ser aplicados a qualquer modelo antes que seja adotado ou rejeitado.

Espero que este

modelo

ofereça

a

oportunidade

para

se

fazer

progresso

na

harmonização de dados da ciência com as informações que nos foram dadas na Bíblia.

Notas

  • 1. Simoes, M.G.; Kowalewski, M.; Torello, F.F.; Anelli, L.E. Long-term time-averaging despite abrupt burial: Paleozoic [bioturbation?] obrution deposits from epeiric settings on Parana basin, Brazil. GSA 1998.

  • 2. Butterfield, N.J., and R.H. Rainbird. 1998. Diverse organic-welled fossils, including "possible dinoflagellates," from the early Neoproterozoic of arctic Canada. Geology 26 (November): 963.

  • 3. Citado em: Henry Margenau and Roy Abraham Varghese, eds., *Cosmos, Bios, Theos* (La Salle, IL: Open Court Publishing, 1992), 142

  • 4. Trabalho de Chadwick e trabalho de Morris.

  • 5. von Braun, Wernher. A citação foi retirada de uma entrevista, original em “Applied Christianity” da revista Bible Science Newsletter de maio, 1974, p. 8

  • 6. Gould, Stephen J. 1989. Wonderful Life. W.W. Norton & Company, New York. 347 pp.

  • 7. Embasamento se refere às rochas graníticas ou metamórficas "originais", compreendendo a placa continental atual, em contraste com, por exemplo, outras rochas sedimentares, etc., que por sua vez estão sobre o embasamento.

  • 8. O paleomagnetismo é uma evidência do pólo magnético da terra no passado, estando preservado em rochas ígneas (que estiveram fundidas, tais como lavas, etc.), ou em rochas sedimentares. Pressupõe-se que o registro do campo magnético terrestre esteja preservado na forma de dipolos magnéticos (em geral minerais de ferro como a magnetita, orientados na direção do campo magnético da terra) em rochas sedimentares e ígneas, e que estes dipolos indicam as linhas de campo magnético da superfície da terra, na época em que a rocha ígnea foi solidificada ou que o sedimento se depositou. Usando magnetômetros sensíveis, estes pólos magnéticos antigos podem ser reconstituídos através de medidas de rochas cuidadosamente orientadas, obtendo-se e a direção e distância até o referido pólo. Supondo-se que o trabalho tenha sido feito com precisão, e que a interpretação esteja correta, pode-se mapear, em função do tempo, a direção que estas medidas sugerem para o norte e a distância ao Pólo Norte. A partir destes dados pode-se reconstruir a localização e orientação de qualquer continente, baseando-se nos pólos magnéticos das rochas depositadas naquele continente durante o intervalo em questão. Geralmente se supõe que o pólo magnético da terra não se desviou muito de sua posição atual, embora este pressuposto não possa ser verificado facilmente.

  • 9. A paleogeografia é a ciência que tenta reconstruir a geografia da superfície da terra e a localização de seus continentes etc., através de sua história passada, usando principalmente as evidências contidas nas rochas.

10. Por exemplo, veja as últimas reconstruções paleogeográficas disponíveis na internet. Tal interpretação é também consistente com Gênesis 1:9 e, tanto quanto eu sei, não é negada por nenhum dado físico. Como todos continentes modernos, o Grande Continente está sobre uma base granítica. O granito (SIAL - rochas ricas em silício e alumínio) é pouco denso e flutua sobre o manto, agindo como uma fundação para os continentes. O basalto (SIMA - rochas ricas em silício e magnésio) é denso e afunda no manto, estando, portanto, sob as bacias oceânicas de todos os oceanos atuais.

11. Entre "outras razões" estava uma concentração significativamente maior de dióxido de carbono na atmosfera, talvez de 10 a 100 vezes o nível atual, que é de 0,03%. Embora a existência de água acima do firmamento, em qualquer forma, a chamada "abóbada", seja diretamente relevante aqui, uma consideração da mesma será deixada de lado no momento a fim de evitar o preconceito que este conceito gera.

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  • 12. Regiões de rochas do embasamento pré-cambriano (rochas graníticas e metamórficas) despidas de sedimentos. Tais escudos estão presentes na África Central, norte da América do Norte, oeste da América do Sul, Austrália e outros lugares.

  • 13. É especulativa a natureza do ciclo hidrológico antes da ocorrência de chuvas. A circulação da água pode ter envolvido um processo diário, tal como a influência gravitacional da lua. Se a lua estava mais próxima da terra no Paleozóico, como alguns geólogos postulam, e também é sugerido pela inspiração, as marés lunares poderiam ser suficientemente fortes para forçar uma elevação periódica do lençol freático, expelindo ar saturado de umidade do solo, o qual teria se condensado para formar um orvalho e trazer a água ao alcance das raízes das plantas. O mesmo princípio está envolvido na hidropônica de substrato, onde o umedecimento periódico do substrato (em geral um agregado de rocha), pelo elevar e abaixar do lençol de água, parece prover as condições ideais para o crescimento das plantas.

  • 14. Tal cinturão móvel de montanhas marginais é um aspecto proeminente das margens continentais das placas móveis em movimento, resultando de forças compressivas associadas com o movimento sobre placas oceânicas. Estes aspectos estão presentes, por exemplo, sobre o que teriam sido as margens expostas (compressionais) do supercontinente de Gondwana, mas não são encontrados em nenhuma das margens extensionais de continentes resultantes da fragmentação do supercontinente, tais como as bordas do Atlântico, da África e da América do sul.

  • 15. A escolha de água doce em lugar de água salgada contraria a sabedoria convencional, mas há

razões que compelem a esta hipótese

por exemplo, este pressuposto pode explicar por que

... quase todas formas marinhas paleozóicas estão extintas, já que, neste modelo, a conversão repentina dos mares epicontinentais em água salgada no início do Mesozóico (ver abaixo), eliminaria a maioria das formas paleozóicas. Há boas razões para se pensar que os quadrúpedes dominantes (anfíbios) e as plantas do Paleozóico não poderiam sobreviver na água salgada, já que as formas ainda existentes dos dois grupos não toleraram a salinidade. O conceito de mares epicontinentais de água doce é útil, mas não necessário neste ponto. É interessante que o relato da criação babilônico (Pritchard, Ancient Near Eastern Texts) que, como o relato babilônico do dilúvio, parece preservar certas semelhanças com o grande evento original, representa a criação como uma batalha entre dois mares primitivos, um com água salgada e outro com água doce. Em relação a certos grupos de peixes paleozóicos, Romer afirmou "Em geral, os membros primitivos do grupo eram tipos de água doce" (Alfred S. Romer, Vertebrate Paleontology, (Chicago U, 1945), p. 121.

  • 16. Estes mares epicontinentais têm sido postulados pelos geólogos há muito tempo para explicar a presença de animais marinhos no registro fóssil continental. É significativo e consistente com o modelo que estes grandes mares epicontinentais sejam um aspecto dominante do Paleozóico.

  • 17. As formas de vida animal do Paleozóico são predominantemente marinhas. O termo marinho aqui significa que habitam na água.

  • 18. Estas ilhas flutuantes têm um análogo interessante no ambiente moderno, onde as únicas parentas sobreviventes das plantas paleozóicas produzem pântanos que flutuam sobre a superfície de corpos de água. Além disto, vários aspectos das plantas paleozóicas, tais como raízes arenquimatosas nas Psaronius, ou radículas obtusas, com tamanho de lápis espiralando de um grande eixo cilíndrico com um botão terminal, como nas Lepidodendron e outros gêneros, tornam claro que estas formas gigantes dominantes só poderiam ter crescido num ambiente assim ou, pelo menos, não poderiam ter crescido sobre solo. Um verme marinho incrustante, comumente achado preservado com estas plantas fósseis, vem de uma família encontrada hoje somente em água doce.

  • 19. Várias formas de répteis e anfíbios paleozóicos viviam sobre estas ilhas flutuantes. Fósseis destes animais são encontrados às vezes associados com restos desta vegetação, tal como nos troncos ocos de licopódios. Os anfíbios modernos não podem tolerar água salgada (com a possível exceção de uma espécie moderna de rã que vive em regiões rasas de maré), e não parece haver base para pressupor que seus ancestrais paleozóicos fossem diferentes.

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muito satisfatória. Por que não há evidências em nenhum lugar de sedimentos paleozóicos nas bacias oceânicas modernas? Veja abaixo sobre terrenos exóticos.

  • 21. Estes últimos podem ter incluído sedimentos associados com o sistema de filtração dos aqüíferos pré-diluvianos.

  • 22. O sal (NaCl) é liberado em grandes quantidades durante erupções vulcânicas. Alguns autores têm sugerido que os depósitos de sal do Paleozóico têm esta origem. Aparentemente, depósitos de sal geotermais modernos do fundo do Mediterrâneo associados com zonas de rachaduras também têm esta origem.

  • 23. O nome usado na Europa e Grã Bretanha, etc., e em outros lugares num sentido geral, para representar a maior parte do Paleozóico Superior. Estes depósitos são tipicamente caracterizados pela presença de quantidades significativas de carvão.

  • 24. Segundo Niles Eldridge e outros, a grande extinção permiana resultou primariamente de um aumento na salinidade, acoplado a alterações de temperatura. Conquanto esta análise seja baseada em critérios diferentes, é significativo que os dois modelos concordem neste ponto.

no Triássico,

  • 25. ... quando os celacantos eram comuns e variados, os encontramos em depósitos marinhos [aqui, água salgada, em oposição às formas de água doce do Paleozóico]. O grupo sobreviveu neste

Romer continua, em relação aos grupos de peixes mencionados antes "

novo ambiente

...

”.Ibid.

  • 26. Tectônica de Placas, a teoria de que os continentes estão sobre placas litosféricas que têm se movido sobre a superfície da terra através do tempo geológico.

  • 27. i.e. o fundo oceânico basáltico (mais denso) foi sobreposto pelas placas continentais graníticas (menos densas) em movimento e o fundo oceânico foi empurrado sob os continentes, para o manto, para ser assimilado pelo manto ou reciclado.

  • 28. Este termo denota o conceito de um registro geológico representando longas eras de acúmulo gradual de camadas de rochas, assim como o conceito de um registro fóssil de mudanças progressivas através do tempo, desde moléculas até o homem.

  • 29. Tem-se sugerido que, se estivermos lidando com uma escala de tempo diluviana, o excesso de calor rapidamente ferveria os oceanos até que secassem. Este argumento tem sido usado

contra os criacionistas como um problema auxiliar a datação radiométrica

...

ambos indicam que

6000 anos é um tempo embaraçosamente curto. Entretanto, se as bacias oceânicas não fossem completamente regeneradas no Paleozóico, mas se, em vez disso, tivéssemos um único episódio de movimento de placa num estágio final do dilúvio e, numa extensão menor, por algum tempo após o dilúvio, como este modelo sugere, então a dissipação de calor pode se tornar um problema manejável. Por exemplo, vários cálculos diferentes da quantidade de fluxo térmico recebido pela terra da radiação solar chegam a um valor de 10 24 calorias por ano. Considerando-se um calor específico de 1 (relativo à água em 4) e uma densidade média de

3,2 g/cm 3 para o basalto, uma perda desta energia devido a um aumento notável no albedo (que mesmo atualmente pode refletir mais de 95% da radiação incidente), poderia permitir que a terra mantivesse sua temperatura atual, mesmo absorvendo o calor de 1 milhão de quilômetros cúbicos de basaltos resfriado a 100 graus, em um ano, somente desta fonte. Acrescentando a isto a grande vantagem obtida com o resfriamento pelo ciclo hidrológico do magma subaquoso e a radiação de corpo negro, e haveria uma saída razoável para o calor do fundo oceânico pós-Cretáceo dentro de um período de tempo curto.

  • 30. Tafonomia é o estudo das condições de morte e soterramento de animais (e plantas).

  • 31. A mais evidente omissão é nenhuma consideração significativa dos dados das técnicas radiométricas. Esta omissão é deliberada. Creio que é essencial que todos leitores estejam cientes de que a estrutura de tempo proposta neste trabalho é inconsistente com a interpretação convencional das idades radiométricas. Alguns poderão considerar que esta omissão seja suficiente para rejeitar o modelo sem uma devida consideração. Conquanto simpatize com tal atitude, penso que é uma atitude míope. A datação radiométrica, qualquer que possa ser seu significado final, é apenas um tipo de evidência. Pessoalmente, prefiro ter reservas ao julgamento de seu significado, devido à clara inconsistência entre o significado aceito atualmente para tais idades e o testemunho não ambíguo da Palavra de Deus. Minha esperança é que outros estudem rigorosamente esta questão e busquem uma resolução dentro do paradigma.

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MMuuddaannççaa nnaass EEssppéécciieess:: UUmmaa rreeaalliiddaaddee??

L. James Gibson

Geoscience Research Institute

Tradução: Urias Echterhoff Takatohi Revisão: Marcia Oliveira de Paula

Organismos vivos mostram uma maravilhosa variedade de formas, cores e planos corporais. Apesar de suas diferenças, cada espécie parece bem adaptada para algum papel específico no esquema da natureza. O Criador modelou diretamente cada detalhe de cada organismo? Ou ele os planejou para serem capazes de mudar quando o seu ambiente mudasse? Este artigo e o próximo irão explorar a questão da mudança nas espécies.

As Espécies se Modificam?

Não há dois indivíduos idênticos em qualquer espécie em todos os detalhes. Certas características parecem particularmente variáveis, tais como tamanho, cor e proporção relativa dos membros. Diferenças em suas biomoléculas não são tão óbvias para o observador casual, mas a análise bioquímica freqüentemente mostra que são tão variáveis como características externas. Estas variações são suficientes para explicar as diferenças nas espécies? Em alguns casos, a resposta é sim. Diferenças entre espécies semelhantes são freqüentemente semelhantes ao tipo de diferenças entre indivíduos da mesma espécie. Tais casos sugerem que as espécies têm a capacidade de mudar e produzir novas espécies.

Evidência Experimental de que as Espécies Mudam

A seleção experimental provê mais evidências de que as espécies têm a capacidade de mudar. Numerosas linhagens de animais e plantas domésticos têm sido produzidas por meio de cruzamentos seletivos. Por exemplo, cães apresentam muitas variedades, diferindo em tamanho, cor, comprimento do pelo etc. Mesmo a forma do crânio difere em raças diferentes. Diferenças em tamanho e proporção do crânio entre raças de cães são tão grandes quanto as diferenças entre alguns gêneros de canídeos selvagens. 1 Portanto, parece possível que espécies suficientemente diferentes para serem classificadas em gêneros diferentes possam ter uma ancestralidade comum.

Espécies Naturais Sugerem que Mudanças Ocorrem

Populações naturais provêem mais evidências de que espécies podem mudar. Muitas espécies de animais vivendo em ambientes isolados perderam alguma informação genética. A perda da capacidade de voar é um exemplo comum. São conhecidas muitas espécies de frangos d'água não voadores em ilhas remotas 2 embora a maioria dos frangos d'água seja capaz de voar. O cormorão não voador das Ilhas Galápagos é classificado em um gênero separado. Outros órgãos podem também estar sujeitos à degeneração. Peixes de caverna cegos do leste dos Estados Unidos perderam sua capacidade de ver. Certos lagartos e salamandras têm apenas duas pernas virtualmente inúteis, e alguns não têm nenhuma perna. Exemplos de degeneração entre os vertebrados geralmente resultam em sua classificação em espécies ou gêneros separados. Embora ninguém tenha observado de fato as mudanças que levaram à perda da capacidade de vôo em certas aves, ou a perda de membros em certos lagartos, é razoável supor que estas espécies se transformaram a partir de ancestrais que tinham as

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habilidades que faltam nas espécies que vemos hoje. Somos levados a concluir, portanto, que as espécies têm mudado desde a criação original.

O Processo de Mudança nas Espécies

O processo pelo qual as espécies mudam é complexo e apenas parcialmente compreendido. A explicação tradicional tem sido que modificações nas espécies ocorrem à medida que mudanças no DNA se acumulam com o tempo, gradualmente (mas não necessariamente de forma contínua) convertendo uma espécie existente ou uma população isolada de uma espécie existente em uma nova espécie.

Embora possamos ver que as espécies mudam com o tempo, sempre há algumas dúvidas de que as grandes diferenças morfológicas que distinguem grupos taxonômicos diferentes possam ser explicadas pelo acúmulo das variações menores observadas nas populações vivas. Outras explicações têm sido procuradas, especialmente na área da genética do desenvolvimento. O conhecimento científico da genética do desenvolvimento está crescendo rapidamente, mas a conexão entre os genes e a morfologia ainda não está compreendida. Não se conhece mecanismo algum que possa explicar a origem de novos tipos de órgãos ou novos tipos de organismos. Portanto, iremos focalizar em mecanismos que são razoavelmente bem compreendidos, embora a variação que eles produzam seja relativamente pequena.

As Causas Genéticas da Variação

A informação genética está guardada em moléculas de DNA, cada uma das quais é composta de uma cadeia dupla de unidades submoleculares conhecidas como nucleotídeos. A informação para codificação de proteínas está contida em unidades de três nucleotídeos, conhecidos como códons. Códons diferentes especificam aminoácidos diferentes usados para fazer uma proteína.

Alterações na seqüência de nucleotídeos são chamadas de mutações. Há vários tipos de mutações, que variam em suas causas e em seus efeitos. Mudanças em um único nucleotídeo são chamadas de mutações pontuais. Outros tipos de mutações ocorrem quando seções de DNA são perdidas, duplicadas acidentalmente, ou transportadas de um lugar para outro. Como será observado posteriormente neste artigo, mudanças genéticas podem também resultar de fatores epigenéticos, sem uma mudança na seqüência do DNA.

Os efeitos de uma mutação dependem de que parte do DNA é afetada. Algumas partes do DNA não codificam proteínas, e mutações nestas partes podem ter um efeito pequeno ou não detectável. Mesmo mutações na parte codificadora de um gene (exon) podem resultar em efeitos bem diferentes. Por exemplo, uma mutação pontual irá converter um códon em um novo códon. Se os dois códons representam o mesmo aminoácido, a mutação é denominada uma mutação silenciosa. Mutações silenciosas não têm nenhum efeito sobre a função da proteína. Se o novo códon especifica um aminoácido diferente, a mudança é uma mutação de sentido trocado. Se as propriedades químicas do novo aminoácido são semelhantes às do aminoácido anterior, a proteína resultante pode ainda funcionar, talvez com uma eficiência alterada. Se um aminoácido com propriedades químicas diferentes for usado, a proteína produzida pelo gene pode não ser capaz de funcionar.

O efeito de uma mutação também será determinada pela parte da molécula da proteína que é afetada. As proteínas têm uma estrutura interior que dá forma à molécula e uma superfície que determina suas propriedades de ligação. Algumas partes de uma proteína são mais sensíveis a mutações do que outras.

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Além dos fatores discutidos, os efeitos de uma mutação irão depender do tipo de gene que é afetado. Alguns genes codificam proteínas reguladoras envolvidas no controle da atividade de outros genes. Estes genes são chamados de genes reguladores. Mutações em genes reguladores podem ter efeitos abrangentes. Por outro lado, alguns genes podem ter papéis menos importantes nas células, e as mutações neles terão efeitos menores.

O desenvolvimento embrionário é controlado geneticamente, e mutações em genes que regulam e controlam o tempo dos eventos durante o desenvolvimento do embrião, podem causar mudanças morfológicas significativas. O termo heterocronia é usado para diferenças na marcação do tempo de eventos do desenvolvimento. Os cientistas têm muito a aprender acerca do controle genético do desenvolvimento, mas a heterocronia tem sido considerada como um importante mecanismo de mudança morfológica. 3 Por exemplo, diferenças no tempo relativo da ossificação das suturas do crânio podem explicar a origem de algumas variações morfológicas tais como as observadas em alguns gêneros de cães ou peixes. 4

O ponto de vista predominante descrito acima é baseado em mudanças nas seqüências do DNA, mas atualmente acredita-se que outros fatores, "epigenéticos," desempenham um papel importante na criação de variação. 5 Por exemplo, os genes podem ser ativados ou reprimidos por vários fatores, tais como mudanças químicas nas proteínas cromossômicas que estão associadas com o DNA. Mesmo o tipo e quantidade de proteínas e RNA no ovo podem influenciar a expressão dos genes.

Além disso, variações podem resultar do embaralhamento de genes já existentes, criando novas combinações de genes. A maioria das variações que são realmente observadas podem ser devidas a diferentes combinações de genes já presentes nos pais. Portanto, o leitor deve estar alerta para o fato de que novas descobertas podem mudar as idéias apresentadas aqui. Entretanto, parece provável que os processos descritos acima continuarão a ser considerados como fatores importantes na mudança nas espécies, talvez modificados por informações a serem ainda descobertas.

Causas de mutações

As mutações podem ser causadas por vários fatores, tais como radiação, radicais livres dentro das células, compostos tóxicos ou erros durante a duplicação do DNA. Elementos móveis são uma outra causa importante de mutação