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U NIVERSJDADE DO ESTADO DO RIO DF

Ricardo

Reiwr

Vicira lves dt: Castro

Vice-reitora

Maria C hristina Paixão Maio li

J.-\1\F

IRO

EDITORA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEI RO

Conselho Editorial

Antonio Augusto Passos Videira

Flo ra Süssekind

!talo Moriconi (presidente)

Ivo Barbieri

Luiz Antonio de Castro Santos

Pedro Colmar Gonçalves da Silva Vellasco

Ernesto Laclau

Emancipa ção e di ferença

Conrc/enaçiío e ret,úiío técnim gemi

Alice Casimiro Lopes

Elizabet h Mac edo

Rio de Janeiro

2011

J'íru kl n n gina l · /: n ;o n ctt'~ ll irulf\1

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D i rc l ll> > ced i do s p d o a t ll< l f r !f<l puhh~. •d•' e m hngua p Ntu g u

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EdU E RJ

Edito ra d a ü i'\ 1\' ER S ID A D E DO ESTA DO DO RI O D E JA :'-.E I RO

Rua São Franc isco Xavier. 52-l -

CE P 205 50 -0 13 -

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Maracanã

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Brasi l

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Ed11or Ex en lli•·o Coordenadora Adm inisumi•·a

Cuordenador de Pí•blicaçcics

Coordenadora de Produrtio Coordenador de Rewstio Re l"isào Capa Projelo e Diagramuçcio

lt:~lo iv l om: om

Ros~nc l.1ma

Renato C':~simtro

Rosania Rolins

F:íb io F h >ra

Shirley l •ma

·• Ca rlota

R oos

Emílio B •:;c:mh

CATALOGAÇAO NA FONTE

UERJIREDE SIRI USINPROT EC

Ll 4 1

Lacla u , Ern es ro , I 935-

Em a ncipação

e d iferença/ Ernes w Lacbu ; coorde-

nação e revisão técn ica geral, Alice Casimiro Lopes e

El iza beth M aced o.- Ri o d e Ja nei ro : EdUERJ , 20 11.

222 p.

ISBN 978-85-7511 - 199-4

Sum ári o

Sobre a o rganização e o s rr:1du ro res

Alice Casimiro Lopes Eliwberh Macedo

Prc rác!O

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1çao mg esa

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Ag radec im e nto s pub l ic a d o s n a e dição ingle sa

Ag r adeci m e nt o refe rent e à e

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1ção ~ as1 e 1ra

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a e m an cipação à liberdade

23

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n ive rsal ismo, particu larismo

e a qu estão d a identidade

47

Por que os significantes vazios são impo rtantes pa ra a po líti ca?

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Suj eito d a política, política do sujei to

67

8 1

 

" O tempo está deslocad o"

l 07

I.

C iênc ia po lítica - Filosofia. 2. Liberdade.

3.

Ide nti d ade (Con ceiro fil osófi co) . I. Tfru lo .

Pode r e represe ntação

129

C D U32

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I

I

Da emancipação à liberdade*

É possível ver a "emancipação" - uma noção que é parte de nosso imaginário político há séculos e a cuja desintegração hoje assistimos - organizada em wrno de seis dimensões dis.timas. A

primeira é a que poderíamos chamar de d .: u nsão dicotômica: en- tre o momento emancipawn ·· ' >cial que o precedeu,

há um abismo absoluto, u m a

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Jc~corttinuidade . A segunda

é o que se pode considerar uma dimensão holístíca: a emancipação afeta todas as áreas da vida social, e há uma relação de imbricação essencial entre seus vários conteúdos nessas diferentes áreas. A ter-

ceira dimensão pode ser referida como dimensão de transparência:

se a alienação em seus vários aspectos - religioso, político, eco- nômico etc. - é erradicada, existe apenas a coincidência absoluta da essência humana consigo mesma, e não há nenhum espaço para qualquer relação de poder ou de representação. Emancipação pressupõe a eliminação do poder, a abolição da distinção sujeito/ objew e a gestão - sem qualquer opacidade ou mediação - dos assuntos da comunidade por agemes sociais identificados com o ponto de vista da totalidade social. É nesse semido que, no mar-

Traduzido por Joanildo A. Buriry (Durham Universiry). Texro originalmente pu- blicado em Alexandrina S. Moura (org.). Utopir~ efonnttções sociais. Recife: Mas- sangana, 1994, pp. 29-45. Revisro pelo rraduwr especialmente para esra edição.

24

24 xis mo , por exemplo , o co munismo e a ex tin ção ca

xis mo , por exemplo , o co munismo e a ex tin ção ca m logica mente um ao ourro.

do Esta d o imp li-

Uma qu arra dimensão é a da preexistência daquilo que deve ser emancipado vis-à-vis o aro de emancipação . Não existe Gman- cipação sem opressão, e não há opressão sem a prese nça de algo

é tolhido e m seu livre descnvolvim e nro pelas fo rças o pressi-

Emancipa çã o n ão é, n esse se ntido , um ato d e: criaçã o, mas, ao conrrário, de libertação de algo que precede o aro libenador. O urra dimensão é a de fundação (ground), 1 inerente ao projeto de qualquer emancipação radical. Se o aro de emancipação é verda- deiramente radical, se ele vai realmente deixa:- para trás wdo que 0

nível da "fundação " do social. Se não

há nenhuma fu ndação, se o aro revolucionário deixa um resíduo que está pa ra alé m da cãpacidade rransformad o ra da práxis e man- cipatória, a pró pria ideia de uma emancipação radical se torna contraditória. Finalmente, podemos fal ar de uma dimensão racio- nalista. É neste ponco que os discursos -.:as escarologias seculariza- das rom pem com os das relig iosas. Para as escatologias religi osas, a absorção do real no interior de um sistema total de representação não requer a racionalidade deste último: basta que os desígnios

inescruráve is d e Deus nos sejam transmitidos por meio

lação. Mas numa escatologia secular isso não é possível. Como a ideia de uma representabilidade absoluta do real não pode apelar a qualquer co isa exterior ao próprio real, ela só pode co incidir com o princípio de uma racionalidade absoluta. Assim, emancipação integral é simplesmente um momento no qual o real deixa de ser

que

vas.

precedeu, rem de ocorrer no

da reve-

1 N. T.:. O termo grou~dao longo deste tcxro designa a ideia de um fundamento

a. pa_:m d? qual se enge, se explica ou se s ustenta um dad o discurso. Dada a dis-

nte e m português entre fundamento c fund ação, amb os impli cados

no concc tro deground, usaremos esses dois term os imcrca mbiave lmente, dando

a~enção _ao c~~texro da fr~se em _q ue oc~rre o t!quivaleme e m in g lês. O ge rún -

dio,

por fundação.

ou tnfinmvo, grormdmg seca traduz1do por fundamentação; e formdmion ,

nnçao ex stc

traduz1do por fundamentação; e formdmion , nnçao ex stc uma positi vidade o paca a nos

uma positi vidade o paca a nos con fronrar. e no qual a distúncia

entre esta

Até que ponto essas seis dimensões defi nem um todo logica- mente unificado? C onstituem elas uma cstrumra teórica coerente? T entarei mostrar que não, e que a afirmação da noção clássica de emancipação e de s uas muitas va ri antes envo lve a defesa de ló gicas incompatíveis. Isso não nos d eve levar, n o e nranro , ao simpl es abandono da lógica da emancipação. Ao co ntrário, é j ogand o-se no in terior do sistema de suas incompatibilidades lógicas que po- demos abrir caminho para novos discursos liberadores que não mais es tejam presos às antinomias e aos becos sem saída a que a

noção clássica d e emancipação levou. Começo com a dimensão dicotômica. A dicoto mia com

que deparamos aqui é de um tipo muiro particular. Não é uma

ou estágios que coexis- que, desse m odo, con-

e o racional é finalmente ca ncelad a .

simp les diferença entre os doi s elem entos tem contemporânea ou sucessivamente e

tribuem

para a co nstituição d e suas ~úru as idenridad es d i feren -

ciais. Se

estamos falando de e mancipação real, o "ourro" qu e se

opõe à identidade emancipada não pode ser um outro puramente pos iti vo ou neutro, mas um "ourro" que impeça a inteira cons- tituição da identidade do primeiro elemento. Nesse sentido, a dicoromia envolvida no ato emancipatório está numa relação de solidariedade lógica com nossa quarta dimensão - a preexistência da identidade a ser emancipada vis-à-vis o aro de emancipação. É fácil ver por quê: sem essa preexistência, não haveria qualquer identidade a reprimir ou impedir de se desenvolver inteiramente, e a própria noção de emancipação se tornaria sem sentido. Ora, um a conclusão inevitável segue daí: uma verdadeira emancipa- ção requer um "oucro" real - isco é, um "outro" que não possa ser reduzido a qualquer das figuras do "mesmo". Mas, nesse caso, entre a identi dade a ser eman ci pada e o "outro" que se lhe opõe, não pode haver qualquer objetividade positiva subjacente e que constitua a identidade de ambos os polos da dicotomia.

Uma con s ideraçã o muito s impl es pode ajuda r a c.:sclarccer esse

Uma con s ideraçã o muito s impl es pode ajuda r a c.:sclarccer esse pontO. Suponhamos que haj a um processo objetivo mais pro - fundo dando sentido a ambos os lados da dicotomia. Se é assim, o

abismo que constiwi a dicotomia perde seu caráter radical. Se ela

não é constimtiva, m as antes a expressão

o "outro" não pode ser um ourro real: dado que a d ico romia é

fundada numa necessidade objetiva, a dimensão oposiciona1 tam- bém é necessária c, no caso, é parte da identidade das duas forças que se confrontam. A percepção do ourro como um outro radi cal pode ser aparente. Se uma pedra se quebra quando se choca com o utra, seria absurdo dizer que a segunda pedra nega a idenci-

de um processo positivo ,

dade da primeira - ao contrário, ser quebrada em cenas circuns- tâncias expressa a identidade da pedra ramo quantO permanecer inaltera da se as c ircunstânc ias forem diferentes . A característica de um processo objetivo é que ele reduz sua própria lógica à to-

ser

o resultado de uma diferenciação interna do "mesmo" e, conse-

quentemente, é inteiramente subordinado a este úlêimo. Mas não é essa a alreridadc que o abismo do ato emancipatório requer. Não haveria nenhuma ruptura, nenhuma verdadeira emancipação, se

o ato co nstitmivo desta fosse apenas o resultado da diferenciação interna do sistema opressor. Isso pode ser exprimido de maneira ligeiramente diferente ao dizer-se que, se a emancipação for verdadeira, será incompatí-

vel com qualquer tipo de explicação "objetiva". Posso certamente

ex plica r um conjunto de c ircuns tânci as qu e tornaram possíveL a

siste ma op resso r. T ambém posso explicar como

emer gência de um

forças antagônicas àquele sistema foram constituídas e evoluíram. Mas o estrito m omento da confrontação entre ambas, se o abismo

talidade d e seus momentos constimtivos. O " outro" pode

for radicaL, será refratário a qualquer tipo d e explicação objetiva. Enrre dois discursos incompatíveis, cada qual constituindo o polo

qualquer ponto em

comum, e o momento exato do choque entre eles não pode ser

de um antagonismo en tre ambos, não existe

não pode ser de um antagonismo en tre ambos, não existe exp li ca do e

exp li ca do e m t e rmos o bjeti vo~ . i \ m e n o~. ~ ób' i< ~. 4 u e o mom e nto anragonístico seja purameme aparente l' o conr1m> entre as forças sociais seja assimilado a um processo narural - co mo no choque c.:ntre as duas pedras. Mas, como disse. isso ~incom pacível com a <tlreridade requerida pelo aw fundanrc de emancipação. Ora, se a dim e no dicotômica reque r a alreridade radical de um passado que rem de s<.:r lançado fora , ela é inco mpadvel com a ma ior parte d as o u tras que apresenrei como consriwrivas da noção clássica de e mancipação . Em primeiro lugar, o radicalis- mo dicotômico e o fundamento radical são incompadveis. Co mo vimos, a condição do abismo rad ical que a lógi ca emancipatória requer é a alteridade irredutível do sistema o pr esso' r ~ue é rej.eita- do. Então, não pode haver qualquer fundamento umco expltcan- do tanto a ordem que é rej eitada quanto a ordem que a emancipa-

cão inaugu ra.

, A alternativa é clara: ou bem a e man cipação é radical , e nes-

se caso ela tem de se r seu próprio fu~·damenro e confinar o que é excluído a uma alceridade radical constiruída pelo mal ou pela irracionalidade; ou bem ex iste um fundamenro m a is profund o que estabeleça as ligações racionais e nrre a ordem preemanciparória, a nova ordem "emancipada" e a transição entre a mbas -e m cujo caso a emancipação não pode ser considerada uma verdadeira fun-

dação radical. Os filósofos do Iluminismo foram

quentes quando afirmaram que, se uma sociedade racional fos~e uma ordem totalmente desenvolvida resultante de um rompi- mento radical com o passado, qualquer organização prévia àquele rompimento só poderia ser concebida como produto da ignorân-

cia e da loucura dos homens, isro é, como privada de qualquer racionalidade. A dificuldade, entretanto, é que, se o ato fundante de uma sociedade verdadeiramente racional for concebido como

forças que nada

cêm em com um com a nova ordem vitoriosa -, o ato fundante em

perfeiran1ente canse-

a vitória sobre as forças irracionais do passado -

si não p o de rá se r racion a l, m as el e

si não p o de rá se r racion a l, m as el e p ró prio se rá totalmente: contin- ge nre c depe nderá de u ma rdaç:í o de: p1>dcr. Nesse caso. a ordem

social emanc ipada ramb~m se rorna puramenre conringen re e não

pode ser co nsiderada a libertação de qualquer essência hum a na ve rdad e ira. C hegamos ao mesmo d ik:ma d e antes: se qui sermos

afi rmar a rac io nalidad e e a permant::n ci:t da no va orde m soc ial que

es tamos es tabelecendo, tc:remos d e esre nder a raci onalidade ao aro

fundanre em si e, como resultado, à ord em social qu e deve ser d er- rubada- e então o radi ca lis mo da dimensã o dicotôm ica desapare-

ce. Se, ao co ntrár io, afirmarmos

o aro fundanre quanto a o rdem so<.:ial resultante dele se tornarão

inrei ram enrc conringenres - isto é, as co ndições de um ex te ri o r

e~ rrutur al p e rma n e nt e estã o criad _a s c o que agora desa par ece é a

dtmensão d e fundação

o radi ca lismo desta última, ramo

d a noção cl áss ica de eman cip ação .

. Essa incompatibilidade do discurso da ema ncipação em re

fund ação cria duas matrizes funda-

ment ai s em to r~o das qu a i s r odas as ourras dirnen s'ões são organi -

zadas . Com o dtsse, a preexistên cia dos oprimidos vis-à-vis a fo r-

radicalismo do abismo requerido os oprimidos não preexisrissem à

a dtmensão dicotômica e a de

ça opr~ssora é um corolário do pela dtrnensão dicotômi ca - se

o rdem opressora, seriam um efeito d es ca, e, nesse caso, 0 abismo

não seria consr iru.ri v?. (Outra questão é se o ab ismo não é re pre- semad~ p elos opnmtdos por m eio d e formas de id e ntificação qu e pressupoem a presença do opressor. Voltarei a esse pomo.) Mas rodas as outras dimensões requerem logicamen te a p rese nça d e um fundam~nt~~osirivoe são, consequentemenre, incompadveis c~m. a consm~ttvtdade do ab ismo r e qu e rido pela dimensão dico - to~t~. O ho!tsmo ser i a impossível, a m e nos qu e um fun dam emo posmvo do social unificasse numa rorali dade aurossufic iente a va- ried ~ de d e seus processos pa r cia i s- antagon i smos e dicoto mi as in - clustv~.M as aí o abismo rem de ser interno à ordem social, e não uma lmh~ d~visóriaseparando a ordem social de algo fora dela. TransparencJa requer plena representabilidade, e não há q ualque r

l ).t CIIJ.1 1h rp.n,.tP .1 li!·

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p ossib ilid ad e de alcançá- la se a o pacidad e im:rc: n rç à alcer idade radical for const itutiva d as relaçõ es sociais. hn.1lmeme . co mo vi-

mos, n as

escarologias secu larizadas roral re presenrab ilid adc é equi-

enrendido co mo roral redução

for

reduzido ao mesmo. E ntão, p odemos ve r que os discu rsos de e mancip ação têm

sido histOricamente constituídos por meio d a junção d e duas li- nhas incompatíveis de pensamento: urna, que pressupõe a ob- jetividade e plena represem abilidade do social; e outra, que só se suste nta sob re a de monstração de que h á um abismo qu e ror- na qualquer objetivid ade social, em última a n á lise, imposs ível. Ora, o pomo importante é que essas duas linh as de pensamento opostas não são simples erros analíticos demre os quais podemos escolher um e formular um discurso ernancipatório livre de in- consistências lógicas. É afirmando ambas as linhas que a noção de emancipação adqu ire significado. Emancipação significa ao mesmo tempo fundação (/oundation) radical e exclusão rad ical - isto é, ela postula ao mesmo tempo um fund am ento d o social e sua imposs ibil idade . É necessário que urna so ciedade emancipada

e q ue essa transpa-

seja plena mente transparente para si mesm a

rência seja constituída pela dema rcação de uma opacidade es- sencial- resultando disso que a linha demarcatória não pode ser pensada desde o lado da transpa rência e que a própria transpa-

rência se rorna opaca. É preciso que urna sociedade raciona l seja urna ror a li dade fechada em si mes ma, que subordine a si rodos os seus processos parciais; porém, os limites dessa configuração

forma alguma -

holísrica - sem os qu a is esta não existiria de

podem ser estabelecidos pela diferenciação entre ela (a configura- ção) e um exterior irracional e informe. C oncluímos assim que as duas linh as de pen sa mento são log ica mente incompatíveis e que, no entanro, requisitam-se mutuamente: na ausência de ambas,

roda a noção de emancipação des moronaria.

valente a conhecirncnro do real ao racio nal -, e

absoluto -

iss o só p o d e se r alcan çad o se o o utro

30 Em,tncip.t~:Í<'' difcr<·nç:t

O qu e resulta, n o <:ma mo , d<.:ssa inc omp :-nibilidad e ló-

gica ? D e que man eira a noção de emancipação desmorona e m decorrência daquela? Está claro qu e eb só se desinteg ra num ter reno lógico, mas isso não quer di zer de modo alg um que iss o

sc: ja sufici e m e para rorn á- 1~ inop eranre socialmente - a mt.:n os ,

n:Huralmeme, que adoremos a hipó tese absurda d e que o terreno social seja es truturado como um te rreno lógico c que proposi- ções contrad itórias não possam ter cfc rividade soc ial. Dcv~.:m os distinguir cuidadosamence a esta altura duas afirmações muito diferemes. A primeira é a de que o princípio da comradição não se apiica à sociedade e, em decorrência, alguém pode estar e não

estar no m esmo lugar ao mesmo tempo, ou o m esmo projeto de lei ten ha sido promulgado e não promulgado etc. Não acho que

alguém teria coragem de formular esse tipo de proposição. No entanto, é uma proposição rotalrnenrc diferente afirmar que as práticas sociais constroem conceiros e instituições cujo funcio- namento inrerior seja baseado na operação de lógicas incompa- tíveis. E não há obviamente aqui qualquer negação do princípio da comradição, porque dizer o contrário seria afirmar que é

logicamcme con traditório formular proposições

o que certamente não é o caso. Agora, se a operação de lógicas

comraditórias pode perfeitamente estar na raiz de muitas ins- tituições e práticas sociais, surge o problema de até que ponto tal operação é possível. Seria o caso de lógicas incompatíveis operarem no interior da sociedade, mas não se estenderem à

sociedade como um todo? O u seja, formular proposições con- traditórias seria em cenas circunstâncias um requisito lógico para que a sociedade corno um todo não fosse contraditória? Estamos aqui próximos à astúcia da razão de Hegel. E é claro que aqu i estamos lidando com urna hipótese ontológica, e não com um requisiro lógico. Essa hipótese ontológica não é nada mais do que uma nova formulação da "dimensão de fundação" que discuti anteriormente.

contraditórias,

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L\ 1.1<; o que dizer da hipótc\ C em si? É ~.:la l og i camcntt.: im -

pecável, sc:ndo nossa rardà apen.1~ dcrcrmin:u se c:sr:i c\.·n

rada? Evid t: nte qu<.: n ão. po rq ue :

do fund am ento e s ua s dimensó t:S c oncomit a nt es cia, holi s mo erc. - apl ica-se inrt: iramcnrc a qui. A co m o vimos, constitui -se num n .:rreJJ O p do aro d

opacidade:. E o que dizer sobre o ato de exclusão em si, a difêrença

constitLJLi va entre transparência <.: opacidade: ~ ela rran s part:nte ou opaca? Está claro que a alternativa é indccidíveP e q ue os dois movimemos igualmente possíveis- tornar o opaco transparente e

o rranspare nre, opaco- rurvam a

Toda essa digressão sobre o status de cont radições lóg icas na

importante para nos ~o nscientiza r t!e dois aspe cros que

rêm de ser levados em coma ao se lida r com os jogos de lingua-

sociedade é

rr:=tn:-.parl: nc ia,

e exdu~:i.o da

tr C: n -

ou er-

tudo o qu e foi clico sobr~: ;.~ lóg ica

-

rr amp.

limpide<. da alrernariva.

gem que podem ser jogados dentro da lógica da emancipação. O primeiro é que, se o re rmo "emancipação" ainda pode ter sentido, é impossível renunciar a qualquer um de seus do1s lados incompa-

tÍveis. Antes, devemos jogar um contra

o ourro de modo a sere m

especificados. O segundo aspecto é que esse duplo e contraditório

requisiro não é simples mente a lgo que tenhamos de afirm a r se se rem de manter eman cipação como um termo po lítico relcva nre. Se

o problema rodo fosse esse, podería mos evirá- lo apenas negando que emancipação seja um conceito válido c afirmando a validade

N . T.: Na faha de um c:quivalenre em ponuguês qm: co rrespondesse fielmcnre

aos m:ologismos inglcsc:s undecidability, undecidttb!e, opt:~mos, neste li vro, por

trad uz indo- o d e: forma um ramo c:s tranha

tr:1du1.imos o substantivo com o indecidi-

biLidade. C laro esd que os te rmos não implica m um a suspensão da capacidade de decidir, um imobilismo, mas a situação em que, por um lado, não é possível

fundame ntar racional e radicalmente as razões de uma decisão, senão pelo re- conhecimento da contin gê ncia de tal decisão, e em que, por o utro, o co nteúdo da decisão não está predeterminado por nenhum processo objetivo subjacente a cada uma das alternativas entre as quais se decide. Em tal siwação, hes itação e decisão são duas dimensões do mesmo processo. Por exemplo, quer-se salienrar

e não usual - indecidível-, e nquanto

m:~nter o neo - logism o para o adjetivo,

a impossibilidade d e se oprar enrrc universalismo e particularismo, de m:mei ra racional c fundamentada, como será discutido no próximo capírulo.

de u ma da:-. duas lóg icas romad as scpa rada memt:. ivlas prec isarne
de u ma da:-. duas lóg icas romad as scpa rada memt:. ivlas prec isarne

de u ma da:-. duas lóg icas romad as scpa rada memt:. ivlas prec isarne n-

será perfeira. sem quaisquer d ivisões imernas. qualquer opacidade

re isso não ~ po:-.;,ívd : nossa an <il ise nos k:vou :l u HJc\usão de: qu e

ou a lien ação; as vá rias a lternat ivas na luta comra as fo rças do

mal

os lados conrradi córios requerem a presença e

ao mesmo rempo .t

e

0 triunfo final d e D eu s são co nhecidos pela revelação. Ora,

nes -

e

xclusão um do ou rro: cada um é a condição ramo de possibi! icladc

se q:.taclro mundializame vemos su rgir uma dificu ldade que não

q

u anro de impos~ ibilidade do OLmo. A ssim, não e s tamos lid a nd o

é outra senão o reconhecimento teológico de nossas d uas dimen -

s

im p les mcnre com urna incompac ibil id adc lógica, mas a m es com

sões incompatíveis. D eus é todo-poderoso e infinitamente bom.

um a rea l in d ecicl ibi lid ade emre os d o is bel os. Isso j~í nos indica , 1 maneira pela qual a lógica ela emancipação re m ele ser abordada:

Como c r iador ex nihiw ele melo o qu e há, é a fo me e o fundamento absolutos ele todos os seres c riad os . Nesse caso, como ex pli carmos a

observa ndo-se os efeitos que resultam ela subversão de cada um de se u s lad os in co m~nrív e is p e lo ourro. A própri a p oss ibilidad e d es-

pr ese nça do mal no mund o? A a lternativa é cl a ra: o u D e us é. rocl~­ podcroso e fome de tudo o que há - e aí ele não pode ser mfint-

sa análi se resu lta do que foi diro anteriormente : a o peração soci a l

ra

bondade porqu e é resp o nsável pel a presença elo mal no mundo;

de duas lógicas incompatíveis n ão consiste numa anu lação pura e

ou ele não é responsável

po r aquela e, logo, não é todo -pode roso.

sim ples de seus res pectivos efeitos, m as num conj unto específico d e

Aparece aqui o mesmo problema que coloquei em termos não

deformações mútuas. É isso que em endo por subversão. Como se

teológicos: ou a dicotomia separando bem e

m al é radical, sem pon-

cada um a d as lóg icas

ração que a outra está negando, com o se tal negação levas se a uma sub ve rsão clesc ritível da esuurura interna ele ca da uma dc;as . Ao analisar esses efeitos subversivos, não estamos presenciando o sur- gimento de algo totalmente novo que deixa ambas as lógicas para trás, mas ames um afastamento sistemático daquilo que ele outra forma seria sua plena operação. Ames que passássemos a escreve r o padrão ge ral desse afas- tamento, tínhamos ele considerar, entretanto, a maneira pela qual discursos emanciparórios clássicos lid aram com nossas dimensões basicamente incompatíveis, que não passaram totalmente desperce- bidas. Um discurso de emancipação radical emergiu pela primeira

incompadveis pressupusesse uma roral ope-

vez com o cristianismo, e sua forma específica era a salvação. Com elementos parcialmente herdados elo Apocalipse judaico, o cristia- nismo apresentava a imagem ele um futuro d a humanidade- ou pós-humanidade - elo qual todo mal teria sido erradicado. Ambas as dimensões, dicotômica e ele fundação, esrão presentes aqui: a história do mundo é uma permanente luta entre os santos e as for- ças elo mal, e não há terreno comum entre eles; a sociedade futura

ro em comum enrre os doi s polos, ou existe um tal terreno co mum,

e nesse caso o radicali smo da oposição em re b em e mal é nublado.

O pensamemo criscão, con frontado por essa alternativa, osfllou en-

tre (a) a afirmação de que os desígnios de Deus são inesc rutáveis e o

de form a que o

problema foi posto de lado sem solução - e (b) a busca ele uma so- lução que, pa ra ser o mínimo consistente, só poderia manter a ima- aem de Deus como fome absoluta ao afirmar, ele uma maneira ou ele outra, o caráter necessário elo mal. Eriugena, ao defender, no re-

t>

dilema res ulrava elas limitaçõ es ela razão humana

-

nascimemo carolíngio, que Deus alcança sua perfeição por m eio elas

fases ele trans ição que envo lvem finitucle, conti ngência e o mal, d eu

início a um a tradição que, passa ndo pelo mi sticismo nórdi co, Ni- cola u ele Cu sa e Espin osa, c heg a ria a seu clímax em H egel e Marx. A visão cristã ela história também se defrontou com outro

problema- dessa feita sem contradição -, o ela incomensurabi lidade

existente entre a universalidade da tarefa a ser realizada e a limitação dos agentes finitos responveis por ela. A categoria da encarna-

ção

foi concebida a fim d e mediar e ntre essas duas realidades inco-

mensuráve is. O p a radigm a de toda enca rnação é, naturalmente, o

advenro d e próprio C risto, mas cada u m dos momenros uni ve rsais

advenro d e próprio C risto, mas cada u m dos momenros uni ve rsais na história do mundo é marcado por intervenções divinas nas quais corpos finiros têm de assumir tarefàs que não escavam de maneira nen huma predeterminadas por sua finirude concreta. A dialética da encarnação pressupõe a distância infinita entre o corpo encarname e a tare('l encarnada. É somente a mediação de Deus que estabelece uma ponte emre os dois, por motivos que escapam à razão humana. Voltando às nossas várias dimensões de emancipação, pode- mos dizer que, no discurso cristão, a transparência é assegurada no nível da representação, mas não no do conhecimento. A revelação nos dá uma representação da tOtalidade da história, mas a racio- nalidade que se expressa naquela história sempre nos escapará. É por isso que a dimensão racionalista tinha de estar ausente das narrativas teológicas da salvação. É esse abismo entre representação e racionalidade que as escatologias modernas tentarão preencher. Uma vez que Deus não mais se encontra em primeiro plano como garamia de plena repre- senrabilidade, a fundação tinha de demonstrar suas habilidades wralizadoras sem qualquer recurso a uma distância infinita em relação àquilo que ela incorpora. Assim, plena representação se torna possível como plena racionalidade. A primeira consequên- cia dessa guinada moderna é que o movimento insinuado nas ver- sões panteístas e semipanreísras do cristianismo é agora levado a suas conclusões lógicas. Se há um fundamento a partir do qual a história humana se mostra como puramente racional- e, portan- to, inteirameme aurotransparente -, mal, opacidade e alteridade podem ser o resultado de representações parciais e distorcidas. Quanto mais a dimensão de fundação se impõe, mais a alceridade irrecuperável do abismo inerente à dimensão dicotômica rem de ser descartada como falsa consciência. Mencionei anteriormente a "astúcia da razão" hegeliana. Mas as versões marxianas do mesmo princípio não fica m atrás. Basta lembrar a descrição de emergência e desenvolvimento de so-

r

l

J

J

l

1

de emergência e desenvolvimento de so- r l J J l 1 cied ades antagônicas: o

ciedades antagônicas: o com unismo primi ti\·o Linha de se desinre- orar < 1 fim de desenvolver as forç:as produti vas da humanidade; o desenvolvimemo destas requeria - como sua condição histórica e

lógica- a passagem pelo inferno de sucessivos reg im es explorad o -

res; e é sornenrc ao final do processo, quando a história atinge seu clímax num novo comun ismo - que representa um desenvolvi- mento a mais das forças produtivas-, que o sentido e a raciona li- dade de rodo o sofrimento anterior finalmenre se mostram. Como

Hegel disse, a história universal não é o terreno da felicidade. Tudo _ escravidão, obscurantismo, terrorismo, exploração, Auschwitz - revela, desde o ponto privilegiado da história universal, sua subs- tância racional. Rejeição radical, antagonismo, incompatibilidades éticas - em suma, qualquer coisa ligada à_dimensão dicotômica - perrencem ao domínio das superestruturas, ao modo pelo qual os arores sociais vivem (disrorcidamenre) suas relações com suas condições reais. Como foi clico num famoso rexro :

As mudanças nas bases econômicas levam cedo ou tarde à trans- formação de toda a imensa superestrurura. Ao se eswdarem tais transformações, é sempre necessário distinguir cmrc a transfor- mação material das condições econômicas de produção, que

pode ser distinguida com a precisão das c iências naturais, e as formas legais, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas - em síntese, ideológicas - pelas quais os homens romam consciência deste conflito e lutam contra ele. Assim como não se julga um indivíduo pelo que ele acha de si mesmo, também não se pode julgar um tal período de transformação por sua consciência, mas, ao contrário, sua consciência deve ser explicada a partir das con- tradições da vida material, a partir dos conflitos existentes entre as forças sociais de produção e relações d e produção. 3

3 Karl Marx. A contribution to the critique of political economy. Londres: Lawrence

and Wisharr, 1971, p. 24.

, r11.:ss a le i tura . A ~ ,im . 1 dim<.:nsão dicotô mi

, r11.:ss a le i tura .

A

~

,im

.1 dim<.:nsão dicotô mi ca .,c m rn a uma

--~upcre~rrurura" da dirnen~ão de Fundaç~o. e a ema nc ipação se

transforma num m c: r o adorno retóri c o d<.: um proo.:~so substan- tivo q u e: deve se r cmcndido em termos inteiramen te diferentes .

Co m o r es ulcado di ss o. o s~.:gundo r equ i s it o lóg i co dL·ssa inv~.:rsã o

es

s c:n c ia lista é que remos

d e: ahandona r cotalm enre a c!i.déti ca

da

encarnação. Como vimos, a e n ca rn ação requ er uma li ga ção entre

os

ex terno a eles , de

ta l m od o que, cnrregues a si mesmos, há uma disrância intrans-

p o nível e ntre os do is primeiros elementos; isto é, se m o tercei-

ro elemenro não existiria nenhuma ligação entre eles. Assim, a

D e us e ra pane do

explanans; porém, se Ele recua para o fundo da cena , a cone- xão ent re universalidade encarnada e corpo e nca rn anrc torna-se

imposs íve l. Qu e r di zer, u ma escarolog ia plenameme rac ionalis ta

e secular rem

s.sU que es teja

unive rsalidade, ou melhor, um acor cuja parricularidade expresse direrameme, sem qualquer sistema de mediações, a pura c uni- versal essência human a. Esse aror, pa ra Marx, é o proletariado, cuja parcicularidade expressa a universalidade de ral modo dire- tamente que seu advemo é concebido como o fim da necessida- de de qualquer processo de represemação. N enhum a encarnação rem lugar aqui. Mas, se olharmos mais d e perco, veremos que esse ator, apresentado como o único que pode levar a cabo um verda- deiro processo de emancipação, é precisamente aquele pa ra quem "emancipação" se torna um termo insignificante. Como cons- truirmos a identidade desse ator? O agente da emancipação rem de ser um cuja identidade seja bloqueada em sua constituição/ desenvolvime nto pela existência de um regim e opressivo. Conru- d o , se o processo d e des integração do regime e o de forma çã o do ator "emancipatório" são o mesmo, então dificilme nte podemos

d e d e m o nstrar a possibi lid ad e de um aror un ive r- pa ra além d a contradição enrre particularidade e

enca rnação e ra possível na m edida

d o is elementos via a mediação d e um

terceiro

e m qw.:

d o is elementos via a mediação d e um terceiro e m qw.: -- I

--

I

I

1

I

I

l

~

I

dizer qu(. e le 15 oprimido pelo me :-mo reg im~ qw .~, o con~ritu i. Podemos. é cla ro, argumtma r que o proktanado e p roduto do

ckse nvnlvimenw cncre 0 p ro du tG r

mas isso s6 explica a e mergê ncia do proletariado como u ma posi-

ção d e s uj e ito

a emergência

ter este úl timo. precisam os demonstra r que o capl(ahsra nega no trabalhado r algo que não é me ro prod uto do capita lismo. Em nossos rermos: precisamos mostrar que há uma dime nsão a ma-

cronística que não é reducívcl a um funda mento único. O u
D

co ndi ção da ve rdad e ira emancipa ção é, como menc ion e •, opacidade constitutiva que nenhuma fundamentação pode erra-

di ca r. Isso sig nifi ca que as du as operações d e fech a m e nto que

fundara m o discurso po lítico da modernidade têm

feiras. Se a modernidad e iniciou-se por meio de um estritO en-

la ça m e nr o entre r e pr e scmabil id a d e c conhec~mento: a o~acidade -.

constiwti\'a resultante d a dialética da e manctpação Implica q ue a

sociedade não é mais transparente ao conhecimento e que- uma

ve z qu e D e u s n ão esrá

r eve la çã o - t oda repr es entação se rá necessanamem~ parcial e ter _a luvar cont ra 0 pano de fundo de um a essencial Irrc presentabt- lidade . Além di sso, essa opacidade co nstitutiva retira o funda - m e nt o qu e h av ia po ss ibilitado ir além da dial ét ica da enc a rnaçã~,

a

capitalista, pois som ente este cria a d ir em e a p ropried a d e d o s m e i os d e

separação

prod uçá~,

pa rticular no interior d a s?~iedade ca~iralista, não

do proletariado com o SLIJeiro e ma_nC1?ador. Para

seja,

.

u m a

.

de ser eles-

mai s lá pa r a subs tit~ir con h eci m ~ n ro p o ~

visto que não há mais uma socied ade transparente ~a~ualo

um -

versa! p ossa

mostrar- se de maneira dire ta c n ão m ediatJzada.

M as

nova m eme,

se D e us não está mai s lá , asseg ura ndo p o r Sua pala-

vra 0 conhecime nto de um destino universal que escapa à razão humana, a opacidade também não pode levar a uma restauração da dialética da encarnação. A morre da fundação parece levar à

m o rte do universal e à dissolução das Juras sociais em mero par-

dim ensão da lógica erna nciparória qu e

salicnrei anteriormente: se a ausência de uma fundação é a condi-

ticularismo. Essa é a oucra

ção da emanc ip ação rad ical, o radicalismo do a ro cm ancipa r6 rio

fundauo r n ã o pode <><.:r concebi do d e o urra m ane i ra sen um ato de fundamencação.

ã o co mo

Assin1, é como se. qua lquer que seja a direção qu e tomar-

impossível. No encanro, lanço uma

embo ra te-

nham sido exp loradas as conseq uênci as lógicas que segue m de cada um a d as alrern:u ivas se paradamente, ainda não foi dito

nada sobre os dciros que poderiam d erivar d a interação social dessas duas impossibilidad es simétricas. Consideremos a ques- rão cuidadosamente.

mos, a emanc ipação se torne dúvida ames de passarmos o

ates tado de óbito. Pois,

A emancipação está estritamente vinculada ao destino do universal. Quer a dimensão de fundação prevaleça, quer a eman- cipação venha a ser um verdadeiro ato de fundação radical, sua

perfo.rmanc~ não pode ser obra de qualquer agência social parti- culansta. VImos que estas duas dimensões - fundação e abismo r:o.Jical - são realmente inco mpatíveis, mas ambas as alrernativas requerem igualmente a presença do universal. Sem a emeraência do universal no terreno histórico, a emancipação seria impo~sível.

. No pensamenro teológico, como vimos, essa presença do

untversal era garantida pela lógica da encarnação, que mediava entre a finitude particularisra e a tarefa universal. E nas esca- r?logias secularizadas o universal tinha de surgir sem qualquer tipo de mediação: a "classe universal" em Marx pode realizar seu trabalho emancipacório porque ela se wrnou, precisamente, pu:a essência humana que abandonou qualquer filiação parricu- la:tsra. Ora,. a imp ossibilidade lógica Li lei ma, de um abismo que

sep verdadelfamente radical ou da dissolução da emancipação e~ algu~~ :ersão da "astúcia da razão", parece destruir a pró-

pna posstbdtdade de quaisquer efeitos roralizances. Com isso, o

Lin.ico

terreno em que o universal p oderia emerai r- a totalidade

.

I

socta - aparentemente desapareceu. Isso significa que o uni- versal, na impossibilidade da emancipação como seu corolário

o

~

I

~

j

I

nec e ssário. no s de i xa num mu n do purament e parri cu lari s ra , c: rn

qu e os arares sociais perst

instante de rdlexão é has ranre pa ra nos mos(J'ar que essa conclu-

são não é adequada . ·' Pani cularismo'' é um co nceito ess<.:ncialmenre relaciona! :

algo é parti c u lar em relação a ou eras particu lar idades, e o conjunto delas pressupõe uma wral idadc social no interior da q ual elas são constituídas . Ass im, se a própr ia no ção d e wrali dade soc ial está em questão, a de iden tidades " particulares" é igualmeme ameaça-

da.

que derivam de sua ausência.

A categoria de wral idade cont inua nos rondando pelos efeiws

vos limirados ? U m

:guem

a penas objt

:ri

Essa última co locação abre cam inh o para um a fo r ma d e conceber a relação entre parricu larismo e universalisn:o que difere canto da encarnação de um no ouuo quanto do cancelamemo de sua diferença e que, de faro, cria a possibilidade de novos discursos de liberação . Estes vão, certamente, além da emancipação, mas são construídos por meio de movimentos que ocorrem no sistema

de alternativas gerado por aquela. Consideremos , para começar, qualquer antagonismo social- por exemplo, uma minoria nacio-

nal que é oprimida por um Estado auroritário. Existe aqui um abismo enrre os dois, e já sabemos que h á em rodos os abismos uma indecidibilidade básica quanto a qual de seus dois lados a linha divisória pertence. Suponhamos que em cerro pomo as outras forças antagonistas - uma invasão estrangeira, forças econômicas hostis etc. - intervenham. A mi- noria nacional verá todas como ameaças equivalentes contra sua identidade própria. Ora, se há equivalência, isso significa que algo igualmente presente em todas as diferentíssimas forças an- tagônicas se expressa por meio delas. Esse elemento comum, no entanto, não pode ser algo positivo, porque, do pomo de vista de suas características positivas concretas, cada uma dessas forças diferem da outra. Logo, rem de ser algo puramente negativo: a ameaça que cada uma põe à identidade nacional.

40 Ema n c op.tc."ío ,. dikre11~.•1

cquivalcn~ia. cada um

um símbolo da ncgar;-

vidadc co mo tal , de cerra impo~sibiliJade unive rsal que pcnetra

a idemiclade em questão. Posw em outros termos: numa rdação

anragonísrica. aquilo qué· funciona como o polo negativo de c;na

ide ntid ad e é c on s titutiva mente Ji vi dido. Todos o s seus conteúdos

ex pr essa m uma ne gar ividadc ge r:-~1 que o s transc e nd e: . polo "positivo" tam bém não pode ser reduzido a seus

concretos: se o dade como t a l,

relação equivalencial a forma uni ve rsa! de plen iwde ou identi-

q u e s e lhes opõe C: a forma univ e r s al da ne g arivi-

esses conreüdos têm d e expressa r por m eio de sua

Por isso, o conteúdos

Conclui-se que, n u ma rct.1~o,iio de dos rermos cquivaknrcs funcion a como

d ade. N ão estamos lida ndo aqui com a "negação determinada''

no sentido hcgcliano: enquanto

tividade do concreto e "circula" por meio de conteLklos sempre

determinados, nossa noção de negarividade depende do fracasso de constiruição de roda dete rminação.

esta procede da apa rente posi-

Essa divisão constitutiva mos tra a em ergên c ia do uni ve rsal

n

o seio do ~ a rticular. Mas m osrra tamb é m que

a relação

e ntr e

p

a rticularidade e universalidad e é essenc ia lmenre instáve l e inde-

cidível. Que conreüdo panicular iria encarnar a universalidade era uma decisão de Deus, nas escarologias cristãs, e estava conse- quenre, inteiramente fixad o e predeterminado. C omo a univer- salidade aurorransparente era um momenro no alto desenvolvi- roemo racional da particularidade, que ator particular iria abolir sua distância em relação ao universal era algo igualmente ftxado por determinações essenciais na visão hegelo- marxista da histó ria. Todavia, se o universal resulta de uma divisão conscitutiva em gue a negação de uma identidade particular transforma esta no

símbolo d a identidade e p lenitude como tai s, então remos de con- cluir que: a) o universal não tem nenhum conteúdo próprio, m as

é uma plenitude ausente, ou melhor, o significame de pleniwde

em si, da própria ideia d e plenitude; b) o universal pode surcrir do particular, pois apenas a negação de um conteúdo particular

pois apenas a negação de um conteúdo particular tran-Jo 1 1 1 1 a esL~o.: no

tran-Jo 1 111 a esL~o.: no :>ímhnlo de uma univcrsalida <.k qu e o tra ns- cende; , ) como. no cnonto, o universal - romado em si mesmo um ;;ignificante vaz io. quaL comcú do particular o simbolizará é a l uo qu ,.- ~1áo pod e ser cktr ' rminado por um a análi se d o particular t.:l~ s i ne m do univer~alem s i. A relação entre os do is dep e nd e do conrexro do anta~onism o e é, n o es trito scmido do t e rmo, um a

se a linh a in decidível que sepa ra os

0

p

e ração hcgem o nicL É como

d

.

d

. l'

doi s po los da di cotomia rivessc expan . ido se us e re1ros 111 e_c tc tve~s

ao inte rio r dos próp rios polos, à própria relação entre umversali-

dade c particularidade. C o nsideremos. à luz dessas conclusões, o que aco ntece com as se is dimensões da no ção de e mancipação apresentadas no iní- cio. A dimensão de fun dação é inco mpa rível com a emancipação

c n os ~nvo lve e m a p o ria s lógi cas insuperáv eis . Será que isso , entre - tanto, significa que não podemos manter mais quaisquer ligações com a noção de "fundação", que esta tenha de ser merame nte

menos porque desagrega-

ção e panicu larismo - que co nstituem a única alternativa possível

- pressupõem e ao mesmo tempo negam a noção de fundação. É possível, no emamo, faze r d a interação dessas lógicas

incompatíveis o lugar mesmo de certa produtividade política.

A particularidade tanw nega quanto requer totalidade - isto. é,

fundação. Esses movimentos contraditórios se expressam naquilo

de roda ide ntidade

concreta. A totalidade é impossível c ao m esm o tempo requisitada pelo particular: nesse sent id o, es tá presente no particular co mo aquilo que esausente, como uma falta~constitutiva que força

c

.

.

aoandonada? Obviamenre não, q uando

qu e rem si do denominado divisão co n st itutiva

' N. T.: ·'Falta" traduz, neste livro, o termo laca niano /e manque, e m inglês lack. O n:rmo "f:'llta" tem origem na psicanálise lacani ana e indic~ ~ divi são fun_da-

mental qu e ao me s mo t e mp o poss ibilita a iden~i~c~ção do S LIJC!tO _e ~ tor~a Im - possível de se torali ur, de governa r tOdo o rernw_no de sua p~opna t~enudade.

para a simult a neadade de ~anos sentt_ do s : o de

uma falha ou fissura geológica. o d e um hiato entre a .'deaa d e to~alt~ade (o~ identidade) c suas "enc:una ções" con cretas e o de um vazto es rruwraJ (e tn rolera-

S ua urili z :t ç ão c hama a a t enção

42 Em ancip,u;5o <: dik renv

co nsra nremc nt<.: ~) parricular ,t se r mais d o que e le mesmo, a as- sumir um papel un ive rsa! que s<Í pode ser precário e n ão sutura-

po lírica democ rát ica: uma

suc e ssão de idenr id ad <::~ fin i tas e parti c ular e s que renram assumir

ta refas unive rsais que as ultra p assam,

do.

F. por isso que: podem.o s ter uma

mas que, e m decorrên cia,

nunca são capazes de ocultar inn.:iramente a distância emre rarefa

e idenridadc - e podem sempre ser substituídas por g rupos aher-

nativos. lncomplerude e proviso riedade pe rte ncem à essência da d<.:mocrac ia.

Não é preciso dizer que a dimensão holística move-se na mesma linha que a dim ensão de fundação: as duas são, de faro ,

a mes ma dimen são, vi s ca de âng ulos diferenres. Quanto à dim e n-

virad a sec ula rista

da moclemidade envolveu ramo a afirmação de que o sentido da história não deve ser e ncontrado fora da história m esm a, de que não há nenhum poder sobrenatural operando como origem últi-

m a d e rud?. que existe, q uanto a afirmação, muiro dife reme, de que essa sucessão p uramente mundana de eventos é um processo

seres humanos são capazes de do -

minar imelectualm eme. Assim, a razão reocupa o terreno que o cristianismo havia atribuído a Deus . Mas o eclipse da fun dação priva a razão de sua capacidade totalizante, e apenas a primeira afirmação (ou ames compromisso) - o caráter inrramundano de roda explicação - se

m antém. A razão é necessá ri a, mas também impossível. A presen-

ça de sua ausência se mostra naquelas várias tentativas de " racio-

nalizar" o mundo levadas a cabo por agentes sociais finiros. Preca-

ri

sucesso por meio de um velho padrão racionalista) são certamente destino dessas tentativas, m as por meio desse fracasso ganhamos

o

são rac ional ista, d evemos leva r e m conra que a

inteiramente racional, que os

edade

e fracasso em último recu rso (se persiscirmos em m edir o

vel) que precisa ser preen chido por algum princípio ou

t imponame m:tn[Cr-sc essa múhipla re ferência sem pre em mente.

conteúdo de[Crminado.

r

re ferência sem pre em mente. conteúdo de[Crminado. r t.l . lv . ç 1 ·

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~n.:cioso do <.1UC: a L;c ' rrcza que ~.:sra mos p er dc:n-

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.

,

se aplica à dimens:io de rransparenc ta: pl~na reprcs~.:n­ n ão es r<i mai s lá co mo possibili~ade, mas tsso nã o que r

. Esse abismo inrranspo nível entre posstbiltdade e neces~t-

.

a g:o

\.tb ·rd -.J·- \'l. ~-:1-vi~ 1) di h::n.:nr<.:S rormas de tdemthcaçau ,

o : cena impotc:nres para nos prender nas redes de t~m::logtcl mapelavd.

0 mesmo

rabilidade

d izer que sua n ece:.sidad e Lenha s id o erradJCada

I

d ~

dade leva direram e nre ao que N ietzschc.: ch amou de ''gu erra de

co nhecer o

·

eraço-es"

'

Se seres flniros e limi tados tentam

·

d

10rerpr

mundo e rorná- lo rrans parenre a si mesmos, é impossível que essa

tml ·tacão e Ftnirude não sejam transmitidas aos producos de sua

I

.

-

.

atividade íntelecmal. Nesse senrido, o abandono a asptraçao a conhecimento "abso lu ro" rem efeiros esrimulanre s : p o r ~m

um lado, os seres human os podem se reconhece r como ver a

cn ·adores e não mais como recipienres passivos de uma estrutura d

o utro , c omo ro~ os o_s a gentes soc_ia i s ~em e

reconhecer sua flnitude concreta, nmguem pode asptrar a ser a verdadeira~onsciênciado mundo. Isso ab re caminho para uma interação sem-Ftm enrre várias perspectivas e rorna ainda mais dis-

predeterminada; por

d d

.

etros

~

tante a possibilidade de qualque r sonho to ralirário. Que dizer daqueles aspeccos que são incompanvets com a

dimensão de fundação e dos que dependem dela? Como remos visro, a dimen são dicotômica pressu põe a loca lização estrutural de uma funda ção e, ao mesmo tempo , a rorna dispe n sáve l. Só há

esse lucrar no nível d e

c on s tit~ ti a di c ocomi a

for r a di ca l do ponro de vista d e sua lo cali-

fundam ento d o social se o abismo que

,

.

um

zação; mas a operação que a dicotomi a real iza - a separação enrre

emancipação e um passado totalmente alheio - é incompatível com a noção de uma localização estrumral. Ora, como no caso das ouuas dimensões, algumas conse-

quências positivas resultam sicionamento e retirada d o

que, se, por um lado, nenhuma dicotomia é absoluta, não pod e

maiS Importante e

desse duplo movim~nt? de autopo~

fundam ento. O

44

44 h a v e r nenhum aro d ~: Fu nd ação inr c ir

h

a v e r nenhum

aro d ~: Fu nd ação inr c ir amcnte r

·.-oluc ion ~ír io : se .

p

o r ourro,

t:'>S a dic o romi7.ação não resulta dt: uma ~: lim i nação da

al cerid a d e

mi ::~s p arc i ais e p re cá rias

tê m d e se r co n st iruti vas d o tecido socia I. Essa precariedade e in-

co mple rude d as Írome iras qu e cons ciru c.:m a di visão socia l es tão

n a ra iz da possibilidade contem porâ nea de um,t au tono rnização

os vez de subo rdiná-las a um a fronteira una que seria a úni ca fo nte

das Iucas sociais -

d e su a w

ra dica l. m as . ao conr rúi o, da p róp r ia imposs ibi li dade

ra l e rr ad ic ação, e nr 5o di com

cha m ados novos mov im encos socia is -. e m

d

e divisão social. Fina lme nte, a preexistência d::~ ide mida d e a ser

e

mancipada vis-à-vis as forças opressivas também é subvertida

e

submetida ao mesmo m ovimento contraditó rio que as out ras

dimensões expe rimentam. Em discursos clássicos, as idenridades

e manc ipadas tinham d e preex isrir ao a ro d e cmancip~ção e m

decorrência d e sua alterid ade radica l vis-à-vis as fo rças que se

lhes opunham. Ora, é verdade que isso é inevir;ivel em qualquer

luta

a ntagonística; m as se, ao mesmo tempo, a dico romização

não

for radical -

cori'ro acabamos d e ver que

não pode ser -, a

identidade das forças opressivas terá de estar de alguma forma inscrita na identidade em busca de emancipação. Essa situação contraditória é expressa na indecidibilidade entre a inrernalidade

e a externalidade do opressor em relação ao oprimido: ser o pri-

mido é parte de minha identidade como um sujeito lutando por emancipação. Sem a presença do opressor, minha identidade se- ria diferente. Sua constituição requer e simultaneamente rejeita

a

presença do outro. As Iucas sociais co ntempo râneas estão po ndo em p rim e iro

p

lano esse movimento contraditório que os discursos emancipa-

tórios ranco das escatologias religiosas quanto das modernas secu- larizadas haviam ocultado e reprimido. Estamos hoje admitindo nossa própria finitude e as possibilidades políticas que ela enseja. Este é o ponto em que os discursos potencialmente libera- tórios de nossa era pós-moderna têm de ser iniciados. Podemos

I >.t .: Jl .llh lp.H,.IO •• lt h. d.td<:

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raho d i zn que hoj~: ,·,t .llllO ~ nu Fim da unancipaçáo

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.m i go foi nng i n. ll mc:ntc· fHt~ li L,ltlo , <: 111 1 992 . um

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que <.: llt <.: n d n

por li h~:rcla d e n ão~ u m.t

p lenitud e pos itiv a e s em n uan c~:s,

ma s

.tl go c:ssc:rlcialnh.:mc· .1mh1guo. P.tr.l deixar is~o hem cla ro. reprodu zo .1 ü

h ima

p~:rgunca ( ju ntamente co u1 m in kt r~:,;po,t:t) qu e David H owa rch c Alc tt a N or va l

m<.: flzer.u n n uma encrevi ~r.t rccentc par a a revi ~ta / l n ge ln k

r.ldoxe!> of contcmporary politics. An incc:rvi~:wwith Ern estO La cbu". Angelaki,

Ox fo rd , 1994.

O

c~d:1 ' '{ '1

que ' o <ks l ocamento C: a l~>ntc (b li be r dade'. V : irias ques t ões s ur gem aqui so br e a

rdação cm re dcslocamcnco

Nossa p rincipal preoc upaç:io é com .1 narure·w do movimentO d o dcslocame nro à ' liberdade'. Como devcm os entender .1 nawrcza d~:ssa liberdade~ Você se d is-

ta n c ia muito claram e nt e de o mr as ab o rd agc.:ns q ue t: nfarizam a ' lib e rdad e

sujeitO dor;.•do de idenrid.ldt· posiriva' (fvew n:Jl~ctions on rhe revolwion of our

rime. V~:rso. 1990, p. 60), .t rgum<.:nrando que a li berdade aqui s<.: refc.: re

'f:tl ha ~:srruwral'. A<>s im . ,, libe rdade n:io poss ui contd1do positi vo, mas é um a

'mera possibilidade'. Co ntudo, vista de~dt.:a per~pectivado deslocamento. não h:í Jibc.:nladt: alguma aqui. A 1:1lha d a esrnuura <.:nt consriruir p lenam ente o sujeiro forç.1 o sujeito a ser sujciw. a romJr um.1 decisão, a agir, a se id emificar de novo.

Nós temos qu e res po nder. não somos livres. Pa rece, po rranco, que a relação d es- locarnen rolliberd a d e po d er ia ser mais produ tivamente pe n sada e nfa tiza ndo -se t:tnro a di mensão da possibilidade quanro a de sua impossibilidade. Q ue r dize r, <.:fll vc·t d e sim p les m e nt e rc.:r liberd ade para ag ir, esco lher, num se nrido sa rrrean o ,

o mome nto da liberdade e da possibilidade é si m ultaneamente o momento de

mi n ha m aior restrição; d a não

li be rdade. Levar em conta esta última dimensão

pod e ri a - para voltar à n ossa s ituação co ntem po rânea-

cxperic;ncia de deslocam ento como n ão se ndo ipso focro

cc l<.:bra ção . Em our ras pal av ra s, v oe.:: conco rd::~ria qu e e nf à rizar o re rror e a for ç a no ;\rna~o d a l ibc r dade t em que se r parte de no ss a própria abo r dagem das po ss i -

aj u da r a faze r sentido d a algo posit ivo e d ig no de

i ("N e go ri ming t he pa-

I : 3. pp . tí5-'i 0 ) :

.li. c 1\.N . : Em seu rr:to.1lho. a ca regori .1 desloc:~mcnw rem assumido um p apel

ma i s cc nr ra l.

l s<>o o c orn.: cs p~:cialm entc em

re l ação à s u a a firm aç ão d e

- liberd:tde. c sobre: a natu reza da próp ria libcrd ade.

de um

a

um a

b ilidades que se originam num d eslocamento profundo? E. L: Eu n ão poderi a es ta r m ai s de acordo com s ua conclu são . Co m o vocês co n - vincen temente ressaltam , a e xpe riê nc ia do deslocame nto nã o é ipso focto 'algo positivo e digno de celebração'. Mas isso também sig nifica que, se a liberdade e

o deslocam ento estão relacionados da for m a como sugeri - o que vocês parecem

aceitar - , endo a própria experiência da liberdade é ambígua. Por essa razão, embora com o cu disse, eu concorde com sua co ncl usão, não posso os seguir nas

e ta pas i nte rm ed iárias d e sua a rg um e ntação ,

q ue a

qua ndo vocês afirma m q ue, po r- su je ito ' , quan do so mos fo rçad os a

fa lha d a es trutura 'fo rç a o s uj e ito a ser

responder, não som os livres. Se assim o fo ra . cerram ence estaríam os

responder, não som os livres. Se assim o fo ra . cerram ence estaríam os no mdhor

d os mund os possíveis: o vilão

berdade', como tota l ausé:l;cia

positivo in conraminado. Mas, com o vocês mc:smos reconhecem, essa solução im- pecável é impossível : a liberdade é o deslocarne nro n ão podc.:m ser separados d essa maneira. Por um lado, uma liberdade a que o deslo ca mento não força a escolher não seria minha liberdade, mas a libcrdade da estru tura que.: me construiu co mo sujeitO. Po r o u tro. urna liberdade que é minha li berdade, q ue evita os defeiros tanto da liberdade espinosiana , reduzida à consciênc ia da necessidade, quam o da liberdade sanrea na, de escolher sem ter fundarnencos para fazê-l o. só pode ser

da história seria o 'd cslocam cnro', enquanto a ' li-

d e li miraçâo. pode ria ser manrida co mo um valor

a liberdade de uma f:-llha es tru tural - is co é, um d es locamc.:nro. Mas, neste caso,

a ambiguidade do deslocamento (o que vocês chamam de 'o terror e a força no âmago da liberdade') conramina a pró pria liberdade. A liberdade é cão liberra-

d ora quanco escravizance, revigorante e traumá tica, capacitadora e desrrur iva.

Nu ma sociedade fragmentada e heterogênea, os espaços da liberdade certamen- te aumenta m. M as esse não é um fen ôme no uniformc::mente p os it ivo, porque também instala naqueles espaços a ambiguidade da liberdade. Como resultado, surge a possibilidade de tentativas mais radicais de renunciar à liberdade do que

aquelas que con h ecemos do passado. Se a liberdade e o d es locament o cam inham juncos, é n o te rreno de uma liberdade generalizada que experiências como as do

assim, isso s ignifica que

a busca por uma liberdade absolura para o sujeito é o m esmo que uma busca por um deslocamento irrestrito e a total desintegração do tecido social. Também significa que uma sociedade democrática que se torno u uma ordem social viável não será uma sociedade inteiramente livre, mas uma que negociou de maneira específica a dualidade liberdade/niio liberdade.

cocalicarismo contemporâneo to rnam -se possíveis. Se

é

Universalismo, particularismo e a questão da identidad e ·

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I

I

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'

Muim se fala hoje sobre idenridades sociais, nacionais e po-

líricas. A "morre do sujeita" , que, não faz muiw te mpo , foi o rgu-

lhosamente anunciada urbi et orbi, foi sucedida po r um novo e di-

fundido inte resse

e proliferando no mundo

não es tão , enrreranw , e m

si,

do Sujeito (com

para esse renovado inreresse na questão da subjetividade. Talvez seja a própria impossibilidade d e se re mete re m as expressões co n - cretas e finitas de uma subjetividade multi facéti ca a um centro uan scendenre que p ermita concentrarmos nossa a ten ção sobre a multiplicidade em si. Os gestas fundantes dos anos 1960 ainda estão conosco, possibilitando as explo rações teóricas e políticas

nas quais nos engajamos hoje. Se, no encanto, surgiu esse hiatO temporal emre o que se havia coroado teoricamente concebível e o que efetivamente se

11 conseguiu, foi porque uma segunda e mais sutil te ntação cercou o

j

nas múltiplas identidades q ue es tão e mergindo

conremporâneo . Esses do is m ovimentos cão marcado e dramático contras te e ntre

tenta4:>s a crer à primeira vista. T alve1. a morre S m ai ús cu lo) tenha s ido a p rincipal precondição

co mo so mos

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I

Traduzido por Joanildo A. Burity (Durha m Unive rsiry). Texto

 

blicado em Ernesto Laclau. "U niversal is mo, parricul arismo

c a

questão d a rdenn ·

dade". Revisra Novos Rumos, São Paulo, 1993, ano 8, n. 21. Revisto pelo tradutOr

especialmente para esta edição.