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CURSO DO PROF. DAMÁSIO A DISTÂNCIA

MÓDULO IX

DIREITO INTERNACIONAL

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DIREITO INTERNACIONAL

1. TEORIA DAS QUALIFICAÇÕES

Como já foi visto, os elementos de conexão são vias para a aplicação do


Direito substantivo, brasileiro ou estrangeiro, conforme principalmente a Lei
de Introdução ao Código Civil (elementos pessoais, reais, delituosos etc.).
Assim, necessário se faz examinar a Teoria das Qualificações, dada sua
importância no desenvolvimento do Direito Internacional Privado.

A referida Teoria foi desenvolvida pelos juristas Franz Kaltn, na


Alemanha (1891), e Etienne Bartin, na França (1897).

Qualificação é a técnica que visa enquadrar a questão jurídica dentro do


sistema legal de determinado país.

A norma de Direito Internacional Privado possui objeto de conexão e


elemento de conexão. O objeto alude a conceitos jurídicos (capacidade, bem
imóvel etc.), enquanto o elemento é a chave para a aplicação do Direito correto
(nacionalidade, domicílio etc.). A qualificação atinge apenas o objeto da
conexão. Isto é, a Teoria das Qualificações incide sobre o fato social, porque
os sistemas jurídicos são diferenciados quanto aos seus institutos. Caso assim
não ocorresse, não haveria necessidade de qualificar. Por exemplo, os
conceitos de personalidade, de bens imóveis e móveis não são os mesmos em
todas as partes do mundo.

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Dessa forma, qualificar é saber com clareza como e qual instituto é


aplicável à situação apresentada.

Tal necessidade é ainda mais premente quando se observa a existência


de institutos desconhecidos em um ou outro país.

Um famoso internacionalista francês, Bartin, entendeu por bem aplicar a


essas questões a lex fori (lei do foro). Desse modo, tudo seria resolvido pela lei
do aplicador da norma.

A Lei de Introdução ao Código Civil adotou três critérios de


qualificação: lex rei sitae (lex causae), lex obrigationis (lex causae) e, para os
demais casos, a lex fori.

Assim, quando há imóvel envolvido, a qualificação se faz pela lei do


lugar onde se situa o bem. Igualmente, o legislador optou pela lei da causa nas
obrigações. Quaisquer outros problemas com a qualificação dos institutos, com
a exata natureza dos mesmos, serão resolvidos pela lei do próprio território.

2. PRECEITOS BÁSICOS

Entre os preceitos básicos de Direito Internacional Privado estudam-se a


ordem pública, a fraude à lei, o reenvio e a questão prévia.

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2.1. Ordem Pública

O juiz deve atentar para a ordem pública quando julgar uma relação de
conflito em que exista um elemento estranho ao país, isto é, que implique a
utilização das normas de Direito Internacional Privado.

A afirmação acima não vale apenas para o Direito Internacional Privado,


e sim para todos os ramos. A ordem pública não pode ser desobedecida;
todavia, na referida matéria a questão ganha relevância, tendo em vista as
possibilidades de aplicação do Direito Estrangeiro.

A assertiva é: o juiz não aplicará o Direito Estrangeiro (embora haja


determinação legal para tanto) se essa aplicação significar ofensa à ordem
estabelecida.

O art. 17 da Lei de Introdução ao Código Civil é claro: “As leis, atos e


sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não
terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem
pública e os bons costumes” (grifo nosso).

A isso dá-se o nome de “reserva da ordem pública”. É uma cláusula de


exceção que se propõe a corrigir a aplicação do Direito Estrangeiro, quando o
resultado de sua incidência seja incompatível com os fundamentos do sistema
brasileiro.

O conceito de ordem pública é relativo no tempo e no espaço, cabendo


ser preenchido no momento da aplicação. Pode-se falar, ainda, em ordem
pública geral, especial, interna e internacional. Esta última é relativa aos
princípios, normas e costumes internacionais, imperativos, e que na maioria
das vezes estão consubstanciados em tratados.

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2.2. Fraude à Lei

Há fraude à lei quando o objetivo é o de evitar a aplicação de normas


imperativas.

Constitui uma forma de abuso do Direito e é caracterizada por três


pressupostos: evitar a aplicação das normas de Direito Interno ou
excepcionalmente do Direito Estrangeiro (quando assim determina o Direito
Interno); para tanto planeja-se uma manobra legal extraordinária e
normalmente a fraude se concretiza com a prática de direitos no exterior (fuga
do Direito Interno).

Cabe aqui um exemplo famoso para ilustrar o instituto: o casamento


entre Sophia Loren e Carlos Ponti. Ambos adquiriram a nacionalidade
francesa, para que Carlos Ponti pudesse divorciar-se de sua primeira esposa e
contrair núpcias com Sophia Loren, porque a Itália, na época, não permitia o
divórcio.

2.3. Reenvio

Reenvio significa retorno e o nosso Direito o proíbe. O Direito aplicável


será aquele que a norma brasileira determinar: o Estrangeiro ou o próprio
Direito Interno.

Reenvio significa conflito negativo de elementos de conexão. Assim,


teríamos o reenvio quando a lei determinasse a aplicação do Direito Nacional
(retorno).

O reenvio é classificado em graus:

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• 1.º grau: ocorre, por exemplo, quando um país “A” nega competência
à sua lei interna, considerando aplicável a lei de um país “B”; no
entanto, esse país “B” nega competência à sua lei interna e considera
aplicável a lei do país “A”, ou seja, a questão não se resolve;

• 2.º grau: quando envolve um terceiro país, com o retorno de


aplicação para o primeiro;

• 3.º grau: quando envolve, com retorno, um quarto país.

Normalmente essas questões se resolvem pela lex fori: aplicação do


Direito constante do foro.

2.4. Questão Prévia

Questão prévia significa que o juiz não pode apreciar a questão jurídica
principal, sem ter-se pronunciado sobre questão anterior. Por exemplo, em
matéria de sucessão, quando o de cujus deixa um filho nacional de outro país,
a questão prévia será a decisão sobre a capacidade desse filho suceder
(capacidade, lei do domicílio).

Para resolver a questão prévia aplica o juiz ou o Direito do foro ou o


próprio Direito Estrangeiro, aplicável à questão principal (dependendo do que
menciona a lei).

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