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CURSO DO PROF. DAMÁSIO A DISTÂNCIA

MÓDULO XII

DIREITO INTERNACIONAL
Jurisdição no Mercosul - Competência da Justiça
Brasileira/Cooperação Judiciária Internacional -
Provas - Outras Figuras Jurídicas

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DIREITO INTERNACIONAL
Jurisdição no Mercosul - Competência da Justiça Brasileira/
Cooperação Judiciária Internacional - Provas -
Outras Figuras Jurídicas

1. JURISDIÇÃO NO MERCOSUL (Mercado Comum do Sul)

O Mercosul é uma integração regional. Visa transformar-se em mercado


comum e se encontra hoje sob a forma de união aduaneira. Essa definição é
importante porque, não sendo supranacional, como é o caso da União
Européia, os Estados-partes do Mercosul optaram pela cooperação e
harmonização de normas em todos os campos, incluindo o campo processual.

Até o presente, temos os seguintes protocolos (protocolo é uma espécie


de tratado de natureza complementar; no caso, os protocolos, no âmbito do
Mercosul, complementam o Tratado de Assunção, que é o tratado principal):

• Protocolo de Buenos Aires sobre Jurisdição Internacional em Matéria


Contratual, de 5.8.1994;

• Protocolo de San Luis sobre Matéria de Responsabilidade Civil


Emergente de Acidente de Trânsito entre os Estados-partes do
Mercosul, de 25.6.1996;

• Protocolo de Santa Maria sobre Jurisdição nas Relações de Consumo.

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O primeiro – Protocolo de Buenos Aires – é relativo aos contratos


internacionais de natureza civil ou comercial celebrados entre particulares,
pessoas físicas ou jurídicas. Com relação à jurisdição pessoal, o Protocolo de
Buenos Aires exige que haja um acordo de eleição de foro em favor de um juiz
de um Estado-parte para as pessoas que tenham domicílio ou sede social em
diferentes Estados-partes ou, no caso de somente uma das partes do contrato
ter sede ou domicílio em um dos Estados, também exige que exista uma
conexão razoável, segundo as normas desse tratado.

O Protocolo de Buenos Aires adota o princípio da autonomia da vontade


das partes, reconhecendo, também, a jurisdição prorrogada, como, por
exemplo, o demandado admitir voluntariamente e de forma positiva a ação
interposta. Quando não houver jurisdição voluntária, nem jurisdição
prorrogada, o Protocolo aplica vários critérios para fixar a jurisdição
internacional, chamada, nesse caso, jurisdição subsidiária: 1) o local de
cumprimento do contrato; 2) o domicílio do demandado; e 3) o domicílio ou
sede social, quando ficar demonstrada que cumpriu a sua prestação. Conforme
o princípio do actor sequitur forum executionis reconhece-se a jurisdição
internacional do país do cumprimento da obrigação.

O segundo – Protocolo de San Luis –, reconhecendo o elevado número


de acidentes de trânsito, com a intensificação das relações entre os quatro
países, buscou determinar a jurisdição internacional e a lei aplicável nos casos
de responsabilidade civil emergente de acidentes de trânsito ocorridos em
território de um Estado-parte, com relação a pessoas domiciliadas em outro
Estado-parte. Esse protocolo adota os critérios tradicionais do local do
acidente, do domicílio do demandado e do domicílio do demandante. Ainda
não está em vigor.

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O terceiro Protocolo de Santa Maria referente às relações de


consumo, adota o critério do domicílio para a determinação do âmbito espacial
e o conceito de residência habitual para a qualificação deste. Com relação à
determinação da jurisdição internacional, o Protocolo de Santa Maria adota o
critério do domicílio do consumidor, visando à conveniência deste.

O pedido de homologação, para o reconhecimento ou para a execução de


sentença, é feito por meio de carta rogatória e da autoridade central.

2. COMPETÊNCIA RELATIVA

O Poder Judiciário brasileiro tem competência relativa no que tange aos


litígios internacionais, ou seja, admite ser a autoridade judiciária de outro país
igualmente competente (art.12 da LICC e art. 88 do CPC).

São critérios de determinação da competência:

• Domicílio (LICC, CPC e CC): na falta deste, a residência habitual;


na falta de residência habitual, a residência simples e, esta inexistindo,
o lugar onde a pessoa física se encontre.

• Local do cumprimento da obrigação: quando o Brasil é o local do


cumprimento da obrigação, o tribunal brasileiro é competente para o
litígio internacional, como no caso dos litígios referentes à execução
dos contratos. Trata-se de critério alternativo quando o réu, apesar de
sua ligação com o Brasil, aqui não possui domicílio.

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• Local do ato ilegal: é o critério para o estabelecimento da


competência concorrente O Judiciário brasileiro exerce a sua
competência caso o ilícito tenha sido praticado no Brasil.

3. COMPETÊNCIA EXCLUSIVA

As hipóteses de competência exclusiva estão dispostas no artigo 89 do


Código de Processo Civil. Tal competência impede a eficácia de qualquer
decisão de um tribunal estrangeiro. Existem duas situações básicas em que
podem ocorrer:

• Local dos bens imóveis: a situação do imóvel determina a


competência internacional. É a chamada soberania territorial (lex rei
sitae).

• Inventário e partilha de bens situados no Brasil: mais uma vez, é o


critério da localização dos bens. Refere-se apenas à sucessão causa
mortis, e não inclui a partilha de bens do casal por ocasião de uma
separação (divórcio).

4. COOPERAÇÃO JUDICIÁRIA INTERNACIONAL E PROVAS

A necessidade de cooperação na colheita de provas, e aqui não estamos


falando apenas no âmbito do Mercosul, mas sim de todos os Estados da

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comunidade internacional, é um imperativo, sem o qual, no mundo moderno


de relações globalizadas, a justiça estaria impedida de atuar plenamente.

Nessa questão, o Brasil deixou de aprovar diversas convenções


internacionais, não demonstrando uma cooperação muito grande com os
demais países. De qualquer modo, para servir no processo, a coleta de provas
deve observar tanto a lei nacional como a lei estrangeira, porque seria uma
ofensa à soberania de outro Estado coletar a prova em seu território sem a
obediência de suas leis.

• Normalmente a coleta de prova testemunhal, ou mesmo a de prova


documental, é feita com a colaboração voluntária daqueles que podem
testemunhar e daqueles que possuem os documentos para a prova.
Caso não exista essa colaboração, torna-se necessária a assistência das
autoridades estrangeiras e o método tradicional para tanto é a carta
rogatória. Há um enorme número de tratados bilaterais para facilitar o
trâmite da rogatória, cada qual com objetivos específicos, quais sejam:

• Convenção de Haia sobre a Colheita de Prova no Estrangeiro em


Matérias de Direito Civil e Comercial – 1970: o tribunal envia uma
carta de requerimento à autoridade central do país requerido.

• Convenção Interamericana sobre Obtenção de Provas no Exterior


– 1975: a autoridade judiciária de um dos Estados-partes da
convenção poderá mandar diretamente carta rogatória para obter a
prova necessária;

• Protocolo de “Las Lenas” sobre Cooperação e Assistência


Jurisdicional em Matéria Civil, Comercial, Trabalhista e
Administrativa – 1992: o Estado requerido deve obrigatoriamente
cumprir as cartas rogatórias, só podendo denegar cumprimento

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quando a solicitação contrariar a sua ordem pública. Os documentos


públicos terão força probante entre os Estados-partes.

• Tratados Bilaterais de Assistência Legal Mútua:

a) Convenção de Cooperação Judiciária em Matéria Civil,


Comercial, Trabalhista e Administrativa com a França – 1981.

b) Convênio de Cooperação Judiciária em Matéria Civil com a


Espanha – 1989.

c) Acordo de Cooperação Judiciária em Matéria Civil,


Comercial, Trabalhista e Administrativa com a Argentina – 1991.

d) Acordo de Cooperação Judiciária em Matéria Civil,


Comercial, Trabalhista e Administrativa com o Uruguai 1992.

e) Tratado Relativo à Cooperação Judiciária e ao


Reconhecimento e Execução de Sentenças em Matéria Civil com a
Itália – 1989.

f) Convenção de Viena sobre Relações Consulares – 1963: para


a validade de documentos, uma vez que define as funções
consulares que, entre outras, se tipifica pela ação do cônsul na
qualidade de notário e de oficial de registro civil.

Além desses tratados existem muitos outros, tornando o mundo


judiciário bem mais complexo, o que concretiza a idéia de que, em matéria de
Direito Internacional, o mundo é, na verdade, um extenso e intrincado
território.

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5. OUTRAS FIGURAS JURÍDICAS

Cabe aqui recordar e citar três figuras importantes para o Direito


Internacional Privado, quais sejam: imunidade de jurisdição do Estado,
imunidade diplomática e imunidade consular. Essas figuras, por certo,
influenciam na condução de eventuais processos.

Apenas um resumido exame:

a) Imunidade do Estado: refere-se à isenção da jurisdição


judiciária e executória pelo Estado, no seu território, sobre o Estado
estrangeiro e sua propriedade, com base na igualdade de soberania. O
esforço atual é para restringir as imunidades possíveis, cabendo a
atuação dos acordos multilaterais, regionais e bilaterais sobre a
matéria, incluindo-se tanto a imunidade judiciária como a imunidade
de execução. Os tribunais nacionais não podem exercer seu poder
jurisdicional sobre um Estado estrangeiro sem o consentimento deste.
Isto apenas é possível por meio da renúncia à imunidade, que pode
ser celebrada por acordo (tratado) ou no início do processo pelo
agente habilitado para falar em nome do Estado.

b) Imunidade diplomática: caracteriza-se pelo exercício de


função estatal de um Estado no território de outro, com a permissão
deste. Para tanto, será necessário que o Estado que recebe o
diplomata conceda alguns privilégios e imunidades, todos em torno
da função do diplomata, ficando, também, por conseqüência, em
virtude dessas mesmas funções, os locais da missão diplomática. O
diplomata, pessoa física, tem imunidade, quer dizer, possui
inviolabilidade do corpo. Excepcionalmente, como, por exemplo, se
o diplomata for encontrado no local de um crime, a polícia poderá
prendê-lo temporariamente, mas o mesmo não poderá ser forçado a
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acompanhar a polícia. A sua residência particular goza da mesma


inviolabilidade e proteção, assim como os seus documentos, suas
correspondências e seus bens. Goza o diplomata de imunidade de
jurisdição, que é absoluta com relação à jurisdição penal, existindo
exceções quanto às jurisdições civil e administrativa. No caso da
jurisdição civil as exceções se referem à ação real sobre imóvel, à
ação sucessória e à ação desligada das funções oficiais. A
interpretação, no entanto, é restritiva. O agente diplomático não é
obrigado a prestar depoimento como testemunha. Goza de isenção de
impostos e tributos, taxas pessoais, reais, nacionais, regionais ou
municipais. O Estado pode renunciar à imunidade diplomática, à
imunidade de jurisdição e à imunidade de execução (ambas). A
renúncia da imunidade de jurisdição não abrange a renúncia à
imunidade de execução.

c) Imunidade consular: o principal documento de imunidade


consular é a Convenção de Viena sobre Relações Consulares de
1963. No geral, o estatuto dos cônsules está equiparado ao dos
diplomatas. No exercício das funções consulares, os cônsules têm
inviolabilidade e imunidade; porém, não gozam de imunidade no
caso de ação civil resultante de contrato não-realizado ou que resulte
de acidente de veículo, navio ou aeronave. Podem os cônsules ser
chamados a depor como testemunhas em qualquer processo judiciário
ou administrativo.

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