UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA

CURSO DE ENGENHARIA BIOENERGÉTICA

LEONARDO BORTOLUZI
MARCELO RODRIGO BASI
MAURICIO PRESTES GRIGOL

ASPECTOS TÉCNICOS DA PRODUÇÃO DE BIOGÁS EM UM LATICÍNIO

Xanxerê
2014

Curso de Engenharia Bioenergética. da Universidade do Oeste de Santa Catarina. como requisito de avaliação. Professor: Hugo Adolfo Gosmann Xanxerê 2014 .LEONARDO BORTOLUZI MARCELO RODRIGO BASI MAURICIO PRESTES GRIGOL ASPECTOS TÉCNICOS DA PRODUÇÃO DE BIOGÁS EM UM LATICÍNIO Trabalho apresentado na disciplina curricular de Tecnologia do Biogás.

RESUMO Palavras-chave: .

........... 10 2......................................................................................3..............1 OBJETIVO .................................................................................................. 12 REFERÊNCIAS ...............3 DIGESTÃO ANAERÓBICA ............ 10 2....................................1 Características dos Efluentes das Usinas de Laticínio ..............................1 USINA DE PROCESSAMENTO DE LATICÍNIOS ............................................................................ 5 2................................................................................................................................................................................................... 4 1........1 Hidrólise .................................SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................4 Metanogênese ...................................................................................................3......................................3 Acetogênese ..............3................................ 5 2........2 Acidogênese .................................... 11 3 CONCLUSAO .... 4 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ..... 13 ..........................................................3................................................. 10 2..................................2 PROCESSO PRODUTIVO DA USINA DE LATICÍNIOS .......................................................................................................................... 7 2.........3................................................... 11 2....................... 5 2..................................................

independente do processo utilizado ou produto produzido. devido às gorduras do leite e de outros produtos lácteos. alta condutividade. carboidratos (lactose) e proteínas (caseína). matérias primas auxiliares.000 mg/L. o efluente contém uma Demanda Química de Oxigênio (DQO) em torno de 3. 1. o coeficiente médio utilizado para estimativas das indústrias brasileiras de laticínios é de 2 a 5 litros de efluente gerados para cada litro de leite produzido (HAMERSKI. mas principalmente por sua alta carga orgânica. considerados fortes contaminantes se lançados diretamente nos corpos receptores.1 OBJETIVO Este trabalho tem como objetivo apresentar os aspectos técnicos do biogás da indústria de laticínios através da caracterização dos efluentes líquidos gerados nos processos produtivos deste tipo de indústria. Segundo Tommaso. Segundo Peirano (1995). . usados nas operações de lavagem. geralmente são resíduos de detergentes e sanitizantes utilizados na limpeza dos equipamentos.4 1 INTRODUÇÃO Os efluentes das indústrias de laticínios são caracterizados por apresentarem elevados volumes. lubrificantes empregados na manutenção dos equipamentos e despejos sanitários. devido à presença de substancias do leite. as características dos efluentes de laticínio são: alto teor de matéria orgânica. o mesmo autor cita que nitrogênio e fósforo são gerados em grandes quantidades pela indústria de laticínios. em uma indústria de beneficiamento de leite. Sua composição normalmente é relacionada à presença de leite. detergentes e desinfetantes. Segundo Hamerski (2012). além de acrescentarem às aguas residuais compostos de derivados do leite. contribuem com outros compostos estranhos à sua composição. grandes variações de pH. especialmente na produção de queijos devido ao resíduo de cloreto de sódio da salga e das variações da temperatura provocada por etapas produtivas específicas. Ribeiro e Chichello (2012). altos teores de nitrogênio e fósforo. as águas residuais resultantes da higienização são compostas de um caldo rico em gorduras. Segundo Brião (2007). Além disso. essas indústrias possuem diferentes estágios que geram resíduos líquidos. elevada concentração de óleos e graxas. basicamente das operações de limpeza. residuais de soluções ácidas e alcalinas. principalmente em função do uso de produtos para limpeza e desinfecção. Contudo. Esses compostos estranhos. 2012).

1998). a produção de leite no mundo foi de 655 bilhões de litros de leite. 2012. 2012). No Brasil. A tabela abaixo mostra a média dos principais componentes químicos do leite: . Deve ser produzido de uma forma adequada. segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). 2012). duas vezes mais denso que a água. Já produtos lácteos é qualquer produto obtido mediante qualquer elaboração do leite que pode conter aditivos alimentícios e ingredientes funcionalmente necessários para sua elaboração (EMBRAPA. de sabor ligeiramente adocicado e de odor pouco acentuado. o setor obteve uma produção em torno de 30 bilhões de litros de leite. definese leite como sendo: produto integral da ordenha total e ininterrupta de uma fêmea leiteira sadia. MINAS AMBIENTE/CETEC. no que se trata do despejo inadequado de resíduos. aminoácidos. uma vez que a maioria das empresas do setor é em pequena escala. isento de substancias estranhas e não conter colostro. É um líquido branco. A receita da produção de leite foi da ordem de U$23 bilhões. o segmento de laticínios é o mais expressivo da indústria de alimentos. Segundo estes dados é evidente que o setor de laticínios tem um grande significado econômico. O leite é composto.5 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2. cerca de 9% do PIB nacional (EMBRAPA. além de pequenas quantidades de lecitina.2 PROCESSO PRODUTIVO DA USINA DE LATICÍNIOS Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA. de lactose. 2012). somente em 2011. 2. ácido lático. sendo o 6º maior produtor mundial. que estão cada vez mais restritivas. político e social. em solução. não tendo recursos suficientes para instalar um tratamento de resíduos que possa atender a tais normas (EMBRAPA. opaco. ureia. sais minerais e orgânicos. O que restringe essas empresas são as políticas ambientais.1 USINA DE PROCESSAMENTO DE LATICÍNIOS Em 2011. matérias proteicas. entre outros. Onde. bem nutrida e não fadigada.

soro. 1998). respectivamente.6% Lactose 4. entre vários outros (MINAS AMBIENTE/CETEC. 2012. leite em pó. leite condensado. gerando produtos como creme de leite. A indústria de produtos lácteos apresenta uma grande variação no processo de entrada da matéria-prima utilizada nos produtos fabricados e dos sistemas operacionais da produção de resíduos.7% Fonte: Hamerski.6 Tabela 1 – Média dos principais componentes químicos do leite Água 87. Tem-se o leite como matéria-prima. Os diagramas de fluxo para os vários processos empregados na fabricação dos produtos lácteos são mostrados nas Figuras 1 e 2.6% Sais minerais 0. Figura 1: Processo básico de recebimento do leite Fonte: Hamerski (2012) .5% Gordura 3.6% Proteínas 3. que mostram a plataforma de recebimento de leite e o processo básico de fabricação do leite fluído.

chegando a 80% da demanda de água nestas agroindústrias (BRIÃO. Com isso. limpeza e sanitização dos equipamentos. Já Schoeninger (2005) comenta que a exigência de água para as operações de lavagem e limpeza é da ordem de 2 a 5 litros por litro de leite processado. quantidades significantes de leite diluído. o manuseio incorreto de recipientes pode resultar em um aumento na produção de resíduos. vazamentos.1 Características dos Efluentes das Usinas de Laticínio Segundo Hamerski (2012). . o setor de laticínios tem um grande problema: o alto consumo de água para a limpeza dos equipamentos e da própria fábrica. cujos valores são bastante representativos. materiais sólidos flutuantes (principalmente graxas). Além disso. Além disso. porém.7 Figura 2: Processo básico de beneficiamento do leite fluido Fonte: Hamerski (2012) 2. purga de linhas durante a mudança no processo de fabricação. Consequentemente. 2007). a maioria das indústrias produzem resíduos resultantes das áreas de produção e embalagem envolvendo derramamentos. a quantidade de efluentes é bastante elevada. as limpezas dos diferentes estágios da usina acrescentam às águas residuais. com um controle adequado. este pode ser minimizado. com alta concentração de matéria biodegradável.3. desperdício de subprodutos. lavagem.

esgoto doméstico. De importância significativa no que diz respeito ao tratamento de efluentes. Tabela 2: valores da literatura para DBO. desinfetantes e produtos químicos lubrificantes (BRAILE & CAVALCANTI 1993). detergentes. nitrogênio. constituintes inorgânicos. pH. temperatura.1 51 ni Danalewich et al Queijos* 1466 2909 1910 62 13 ni Danalewich et al 4 Queijos** 1887 2817 853 83 68 ni Danalewich et al Queijos*** 1175 1570 326 74 52 ni Danalewich et al Embalagem de 1500- 1000- 200- 50-60 4-6 300-1000 Anderson et al leite 5000 3000 700 Produtos 4500 2300 816 56 33 ni Rico Gutierres et variados1 Queijos al. 1995). DQO. resíduo que apresenta uma elevada concentração de matéria orgânica. óleos e graxas e pH de efluentes líquidos da indústria de laticínios Produto DQO DBO SST NTK P Gorduras Fonte Sorvete 4934 nm 1120 350 nm 610 Monrroy et al. PEIRANO. os parâmetros mais críticos dos despejos de indústria de laticínios são os seguintes: DBO5 (20°C). 8925 2423 5066 ni ni 2882 Janczukowicz et al. 0 Processamento 3470 14639 3821 ni ni Janczukowicz et térmico do leite Manteiga al. Produtos diversos 18045 8236 7175 329 63 4890 Arbeli et al.8 detergentes. Ponto de recepção 2542 797 653 ni ni 1056 Janczukowicz et . desinfetantes. sólidos totais. e no caso da fabricação de queijo. lubrificantes. tem-se o soro. 7 Queijo cheddar 2309 826 696 40. onde os principais contribuintes à carga orgânica deste tipo de efluente são lactose. 60000 2500 830 28 ni Gavala et al. Os valores literários das características dos efluentes gerados em função dos produtos de laticínio são apresentados na tabela abaixo. sólidos. gorduras e proteínas (BRAILE & CAVALCANTI 1993.

como os normalmente encontrados nos laticínios. 17645 2599 3375 ni ni 950 Janczukowicz et cottage Soro doce al. Chichelo (2012) Legenda: *cheddar.9 de leite Produção de al. 11753 3456 939 ni ni 330 Janczukowicz et queijo Produção de al. soro doce. 2012). Dentre os processos biológicos normalmente utilizados para o tratamento de efluentes. tais efluentes são nutricionalmente desbalanceados em relação a microrganismos envolvidos em sua degradação (Tommaso. Em geral. embalagem de leite (esterilizado e pasteurizado) 2 embalagem de leite. 73445 29480 7152 ni ni 994 Janczukowicz et al. Ribeiro. queijo. Fonte: Tommaso. principalmente em função da presença de gorduras emulsionadas em sua composição. manteiga. monterrey jack e queijo com teor reduzido de gorduras ** provolone e mussarela *** parmesão romano e cheddar **** hard cheese 1 iogurte. cottage. Ribeiro. Janczukowicz et al. todos os efluentes poderiam ser tratados de maneira combinada. colby. efluentes de laticínios são tidos como de difícil degradação. queijo (hard cheese). considerando-se processos aeróbios. realizaram extensa caracterização de efluentes gerados em diversas seções de um laticínio concluindo que. Soro de cottage 58549 26766 8314 ni ni 491 Janczukowicz et (soro ácido) Produtos al. torna-o uma opção extremamente . 4441 1748 1071 ni ni 573 Janczukowicz et variados2 al. com exceção do soro de queijo que deveria ser tratado em instalações separadas e apropriadas. soro ácido. Chichelo. a digestão anaeróbia é considerada a melhor opção para o tratamento de efluentes cuja composição contemple elevadas concentrações de matéria orgânica. Além disso. manteiga. associada às vantagens do processo anaeróbio sobre outras tecnologias disponíveis. A presença de compostos biodegradáveis.

. acabam sendo indisponíveis para os microrganismos. proteínas e lipídeos) é mineralizada através de uma série de reações ausentes de oxigênio. Ribeiro. acidogênese. sulfato (SO42-) e fosfato (PO43-). conseguindo assim penetrar pela parede celular bacteriana. Com isso. as bactérias presentes nesta etapa são estritamente anaeróbias. ocorre a formação de ácidos. de composição mais simples (açúcar. Parte da matéria orgânica degradada é utilizada pelas bactérias como aceptor de hidrogênio.3 DIGESTÃO ANAERÓBICA Hamerski (2012) comenta que a digestão anaeróbia é um processo biológico. Esses microrganismos utilizam sais inorgânicos como aceptores de elétrons. mesmo que poucas.1 Hidrólise Segundo Hamerski (2012). 2. No primeiro. como os sólidos orgânicos complexos são insolúveis.10 atrativa para a solução dos problemas ambientais causados pela disposição inadequada desse tipo de águas servidas (Tommaso. 2. Na grande maioria dos casos. aminoácidos e peptídeos).2 Acidogênese De acordo com Hamerski (2012). com a presença de algumas. ocorre a formação do metano através da metanogênese. 2. É uma reação lenta. pois vários fatores podem afetar o grau e a taxa em que o substrato é hidrolisado.3. A digestão anaeróbia pode ser simplificada em um processo de dois estágios. as quais são excretadas pelas bactérias. Chichelo. são intermediadas por vários grupos de microrganismos. bactérias facultativas. Essas bactérias facultativas são essenciais para garantir um equilíbrio redox. proteínas e lipídeos) em materiais dissolvidos. os produtos formados pela hidrólise são fermentados no interior das bactérias e excretados na forma de ácidos orgânicos simples com cadeias curtas (propionato e butirato). como exemplos têm nitrato (NO3-). e no segundo estágio. através da fermentação ácida e oxidação anaeróbia. 2012). onde a matéria orgânica (carboidratos. nesta etapa diminui. desde que contenham oxigênio em sua estrutura molecular. Essas enzimas hidrolisam esses materiais complexos (carboidratos. onde. o ataque é realizado por enzimas. o pH do meio. Devido a formação de diferentes ácidos.3.

além de monóxido e dióxido de carbono. Dos substratos produzidos nas etapas anteriores. metanol.3. metilaminas.11 2. que por terem uma taxa de crescimento baixo. os quais são: acetato.3 Acetogênese Segundo Hamerski (2012) é a fase responsável pela oxidação dos produtos gerados na acidogênese através das bactérias acetogênicas.3. resultando em produtos com acetato. Esse último influencia diretamente na cinética desta etapa. poucos são utilizados pelas bactérias como alimento.4 Metanogênese Segundo Hamerski (2012) as bactérias presentes nesta etapa do processo são estritamente anaeróbias. pois as reações que ocorrem se deslocam para a direita. onde a conversão dos compostos intermediários em acetato é considerada termodinamicamente desfavorável. CO2 e hidrogênio. há também o processo de formação de acetato através das bactérias consumidoras de hidrogênio. . que utilizam o CO2 como fonte de carbono. além de muito sensíveis à variação do ambiente. hidrogênio. 2. As bactérias mais importantes para a produção de metano são as que utilizam acetato e hidrogênio. tornam essa etapa como sendo limitante para o processo anaeróbio. Assim como o processo acima é realizado por bactérias acetogênicas produtoras de hidrogênio.

12 3 CONCLUSAO .

Giovana. RIBEIRO. CHICHELLO.br/ppgepro/attachments/article/125/2012%20%20Fernando%20Hamerski%20-%2001_08_2012.pdf> Acesso em 26 out.W. M. Fernando. 2007. Ultrafiltração como processo de tratamento para reuso de efluentes de laticínios.Nº 2. TOMMASO. de 2014 HAMERSKI. 1.ufsm.2 e 3. Disponível em: http://www. Gado de Leite. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Processos)-Universidade Federal de Santa Maria. Engenharia Sanitária Ambiental. Giovana Carolina Ventriglia. Gado de Leite. Partida de um Reator Anaeróbico de Fluxo Ascendente com manta de lodo (UASB) no Tratamento de Efluentes Proveniente de uma Industria de Laticínios.embrapa.cnpgl. Acesso em: 26 de out. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. E. Vol. EMBRAPA. 2014. Pesquisa tecnológica para controle ambiental em pequenos e médios laticínios de Minas Gerais: estado da arte. V.12 . Roger. 1979. Caracterização e Cinética do Tratamento Anaeróbio de Efluentes de Laticínios.13 REFERÊNCIAS BRAILE. Manual de tratamento de águas residuárias industriais. Estatísticas Agropecuárias. CAVALCANTI. 2012.Vol. Belo Horizonte. São Paulo: CETESB. J.. BRIÃO. Disponível em <http://coral. 1998. 2012.br/. . B. MINAS AMBIENTE/CETEC. et al.A. Unopar. P.