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GLOBALIZAÇÃO E CAPITALISMO: PROCESSO POLÍTICO...

GLOBALIZAÇÃO E CAPITALISMO
processo político e relações internacionais

TULLO VIGEVANI
Professor de Ciência Política da Unesp e Pesquisador do Cedec

D iscutir as modificações em curso no sistema ca- não existe nenhum ator com autoridade legítima para
pitalista em âmbito internacional, ainda que dizer a um Estado o que deve fazer” (Russett e Starr,
apenas sob o ângulo político, é tarefa por de- 1992:99).
mais gigantesca para ser enfrentada aqui. Porém, tendo A partir de então, surge uma questão que persiste até
em vista o objetivo proposto no título deste artigo, serão este despertar do século XXI e vincula-se diretamente ao
apresentadas, sob a forma de notas, algumas questões que tema que se procura aqui discutir: a da relação de um es-
parecem ser relevantes, iniciando-se pelos temas mais tado de sociedade vigente dentro do Estado e a de um
abrangentes para se chegar aos que atingem diretamente estado de natureza vigente nas relações entre os Estados.
a sociedade brasileira. Serão discutidos a própria defini- Desde Rousseau, há os que se preocuparam com o tema e
ção do mundo pós-guerra fria, a relação entre globaliza- têm tentado encontrar respostas. Agora, trata-se de dis-
ção e economia política, o que será chamado de aporia cutir se o mundo pós-guerra fria coloca pressupostos no-
nas instituições políticas, as dificuldades para a constru- vos que permitam supor a evolução das relações interna-
ção de instituições políticas globais e, finalmente, os pos- cionais para uma espécie de sociedade internacional de
síveis novos instrumentos de relações internacionais. caráter democrático, ou se, pelo contrário, de acordo com
a previsão de Aron, permaneceríamos apenas num siste-
DIFICULDADES PARA A DEFINIÇÃO DA NOVA ma interestatal, no qual o tema do poder permanece aci-
ETAPA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ma de qualquer outra consideração.
O sistema internacional tem sido, ao longo dos sécu-
Um grande número de autores, de longe a maioria dos los, uma associação prática, distinta conceitualmente de
que têm tratado o tema, considera que o fim da Guerra uma associação de objetivos. É evidente que, mesmo com
dos Trinta Anos, com a Paz de Westfália, concluída em guerras, lutas de todo o tipo, existiram regras reciproca-
1648, entre imperadores, reis e príncipes católicos e pro- mente aceitas. Não apenas regras, mas também convivên-
testantes, foi de grande importância, pois implantou o cia, expressa em inúmeras formas, pela interpenetração
princípio de que os Estados da Europa deveriam convi- de valores, pelo comércio, pelas migrações, etc.
ver tendo como base os valores de tolerância e de coexis- Os valores da associação de objetivos referem-se à
tência. O conceito de sociedade internacional parece ter cooperação, isto é, a fins que afetam o poder, o equilí-
surgido a partir daí. Caducava definitivamente a idéia de brio, a riqueza, as concepções de mundo. Neste caso, a
uma autoridade externa ao poder temporal, que até então cooperação implica interesses compartilhados. Portanto,
havia sido representada pelo Papa. Colocavam-se as ba- a cooperação, de acordo com o conceito de associação de
ses para o conceito de soberania do Estado, para o qual, objetivos, não pode estar ligada à idéia de constrangimen-
de Bodin a Hobbes, muitos haviam trabalhado. A sobera- to, nem à idéia de evitar riscos ou perdas maiores, como
nia, na definição aplicada às relações internacionais por sugere o conceito contemporâneo de regime internacio-
Russett e Starr, significa que “não existe qualquer autori- nal (Krasner, 1982). O sistema capitalista, como lhe tem
dade em condições de determinar ao Estado como agir; sido próprio ao longo da história, esboça um mundo de

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“liberdade, igualdade e fraternidade”, mas fica muito longe espaços cada vez maiores, por interesse econômico, polí-
de poder lhe dar conteúdo real. tico ou ideológico, é uma tendência que vem de longe, de
Com isso, chega-se a uma conclusão importante: o alguma forma inerente à lógica do poder e, por que não
mundo pós-guerra fria sugere um debate que se situa no dizê-lo, à lógica socialmente construída do ser humano.
campo do conceito de associação de objetivos, mas a cons- Deixando de lado os impérios da Antigüidade e mesmo o
tante reprodução de valores realistas, ainda que atualiza- caráter inerentemente universal da cristandade papal, tem
dos para adequar-se a um mundo em profunda modifica- sido, nos últimos anos, seguidamente lembrado que, a
ção, permite afirmar que os valores da associação prática partir dos primórdios dos tempos modernos, existem si-
persistem em ter maior influência. Isto é perfeitamente nais de contínua expansão do capital. Era esse o papel
aplicável mesmo àquelas questões consideradas globais das caravelas, das companhias de comércio, dos piratas,
e reiteradamente citadas como exemplos que consolida- dos impérios coloniais, do livre comércio.
riam a tendência inexorável à cooperação: meio ambien- Ainda assim, não pode ser desconhecido o caráter novo
te, comércio, direitos humanos, fluxos financeiros e tec- do fenômeno da globalização. Ele corresponde a uma base
nológicos. técnica e produtiva antes inexistente, colocando, pela pri-
A indefinição política no campo das relações interna- meira vez na história, os pressupostos para a organização
cionais tem sido diagnosticada por inúmeros autores e da vida social, em suas diferentes dimensões, a partir de
atores significativos. Amorim, ao tentar caracterizar o uma escala global. As manifestações factuais são eviden-
mundo contemporâneo, reconheceu que o estado de per- tes em si mesmas. A informação é transfronteiriça, sendo
plexidade atinge o próprio quadro de referência. Decor- que nenhum Estado nacional pode realisticamente limi-
ridos anos depois dos momentos em que a guerra fria pa- tar. Os valores, mesmo quando têm reconhecidamente
receria ter chegado ao seu fim (queda do Muro de Berlim origem nacional e cultural, em alguns casos tendem a
ou fim da União Soviética), não surge qualquer definição universalizar-se mais do que outros, menos aptos à acei-
melhor para a nova etapa do que a indicada pelo nome de tação por outras culturas. A tecnologia, que sempre foi
pós-guerra fria (Amorim, 1998). Uma indefinição em sen- universal, estava protegida pela existência de fronteiras
tido estrito. nacionais que podiam tornar lenta sua difusão. Hoje, o
mercado global e a competitividade obrigam à rápida
GLOBALIZAÇÃO E ECONOMIA POLÍTICA absorção de tecnologia sob pena de marginalização e au-
mento da pobreza. Sobretudo a economia, não há nenhum
Nesta véspera de século XXI, discute-se muito o ter- de seus setores que possa desconhecer as formas como
mo globalização. A palavra foi cunhada nos anos 80 e vai organizando-se a produção, como vão distribuindo-
vinculava-se à idéia de Estados mercadores, tendo, por- se os fluxos de comércio, como alocam-se os recursos
tanto, uma matriz explicitamente econômica. As defini- financeiros. O índio da floresta amazônica, se quer ver
ções mais correntes sugerem tratar-se de uma aceleração aumentada a sua renda, patenteia produtos verdes que são
dos contatos e trocas internacionais, impulsionada pelas vendidos, através de organizações não-governamentais
questões econômicas e tornada possível pela redução das dos países ricos ou internacionais, nos mercados dispos-
dimensões espaciais e temporais das relações sociais em tos a pagar preços em razão do selo apresentado, valori-
conseqüência dos avanços da ciência e da tecnologia. zado pelo significado que a proteção ambiental tem para
Mesmo aceitando-se a definição, ela caracteriza um dos partes crescentes dos povos.
aspectos da globalização, mas não explica a complexida- A noção de capitalismo global não é nova. Tanto libe-
de do fenômeno e o fato de ele ter se tornado tão signifi- rais como socialistas, tanto conservadores como revolu-
cativo no imaginário popular e no senso comum. Decor- cionários, à medida que se pautam por uma concepção de
rida mais de uma década desde a publicação do livro de mundo, tendem a ver esta como tendo características uni-
Rosecrance (1986), que institucionaliza o termo globali- versais. A Revolução Francesa pretendeu que seus valo-
zação e lhe dá um conteúdo forte, surge a necessidade de res fossem aqueles válidos para o mundo todo. Os re-
relativizar o debate, colocando-o numa perspectiva de volucionários russos viam-se como o primeiro elo do
longo prazo. A globalização é, sem dúvida, um fenôme- socialismo em escala internacional. O livre comércio, na
no que apresenta características novas. Não passaria de concepção de Ricardo, era benéfico não apenas para a Grã-
uma atitude reducionista a busca de enquadrá-lo, apenas, Bretanha, mas para o mundo todo; por isso Gladstone pre-
como uma expressão contemporânea do desenvolvimen- tendeu falar em nome dos interesses universais. Conser-
to capitalista, que desde suas origens tende a encontrar vadores, liberais e socialistas reconhecem, ao menos em
no mundo inteiro o terreno de sua expansão. Ao mesmo termos de princípio e conceitual, o papel modernizador
tempo, não é possível desconhecer que a busca de ocupar da expansão supranacional do capital.

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Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a hegemonia instituições do Estado parecem sofrer um intenso proces-
do sentimento pacifista levou à criação de estruturas in- so de homogeneização. Percorrendo o mundo – países ri-
ternacionais particularmente preocupadas com a paz, o cos ou pobres –, parece que boa parte da agenda institu-
desarmamento, a busca de banir as guerras para sempre. cional e econômica se repete, ainda que em patamares
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, além da criação exasperadamente diferentes. Certamente, podem ser en-
de estruturas políticas de caráter internacional, constitui- contrados regimes internacionais em qualquer período
se um sistema, de Bretton Woods, que, de fato, permitiu histórico. A seu modo, Westfália também constitui um
o amadurecimento das condições da globalização. Fundo regime internacional, ao organizar as relações de paz e
Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (Bird), de guerra entre os povos europeus. A idéia contemporâ-
Acordo Geral de Comércio e Tarifas (Gatt), com todos os nea de regime internacional ganha, porém, conotações es-
seus problemas, constituem um instrumento poderoso pecíficas que aplicam-se a diferentes temas, entre outros
neste processo. O fim da guerra fria, durante a qual o blo- os da política.
co chamado socialista permaneceu em boa medida fora Trata-se hoje de constituir regras de tipo supranacio-
das regras válidas para o mundo capitalista, permitiu vi- nal, sem desconhecer a permanência do valor soberania
sualizar este papel mais claramente. Mesmo permanecendo nacional. A idéia liga-se à capacidade que alguns ou mui-
fora da Organização Mundial do Comércio (OMC), Rússia tos atores têm de elaborar procedimentos que, por con-
e China vão se adequando mais e mais às regras do mun- senso ou por coação, acabam reconhecidos como de inte-
do capitalista, em que os Estados Unidos são o pólo he- resse geral. Um deles é o valor democracia. Esta idéia
gemônico. liga-se à possibilidade de universalizar valores, na lingua-
A globalização representa, portanto, a vitória dos prin- gem contemporânea, de globalizá-los e estes seriam apro-
cípios liberais. Repete-se, no sentido de tentar prevenir priados por nações, Estados, classes. O reconhecimento
malentendidos, a idéia em si de globalização, ou ao me- tem várias razões; uma delas é a convicção, outra é a bus-
nos os elementos constitutivos dela, que estão presentes ca de evitar prejuízos. De qualquer forma, não haveria o
em diferentes formas de pensamento político. Trata-se dos constrangimento da guerra, como houve ao longo de toda
impérios da Antigüidade, da cristandade, do liberalismo, a história humana. Ou melhor, constrangimento haveria
do conservadorismo, do socialismo. A vitória dos princí- pelos riscos implícitos a ficar externo aos princípios he-
pios liberais reside nas formas como a globalização se gemônicos.
apresenta na última década do século XX e, certamente, A globalização do capitalismo produz, como um de seus
na primeira do século XXI. O livre comércio, o livre flu- resultados, a universalização de valores que pouco signi-
xo dos investimentos, as privatizações, a diminuição do ficavam para inúmeras culturas. Além dos valores relati-
Estado e a desregulamentação dos mercados financeiros vos à economia, universalizam-se outros no campo da
correspondem a uma visão de mundo e não a uma conse- moral e da política. Democracia, direitos humanos, direi-
qüência inexorável e predeterminada da expansão do ca- tos sociais, liberdade, meio ambiente, direitos da mulher,
pital. direitos das minorias, individualismo.
As assimetrias, o poder, a capacidade de gerar valores
APORIA NAS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS e cultura, ao que se soma o espírito missionário, são to-
das referências que ajudam a compreender por que alguns
Aporia é definida pelo dicionário como “dificuldade, itens tornam-se universais e outros não. Porém, esta ex-
de ordem racional, que parece decorrer exclusivamente plicação não é suficiente. O consenso resulta da possibi-
de um raciocínio ou de conteúdo dele” (Holanda Ferreira, lidade de oferecer benefícios a quem adere aos valores
1974:118). Por que este recurso de linguagem? É o que oferecidos. Ao mesmo tempo, fator explicativo notável é
será visto neste item, com a discussão dos paradoxos da o fato de que o poder gera atração em si mesmo, mas nes-
política na atual etapa histórica e em sua referência às ta etapa histórica isto ganha conotações específicas. No
relações internacionais. século XIX e em quase todo o século XX, as alianças ti-
Também no campo da política, as formas que o capi- nham o significado de obter a proteção de um mais fraco
talismo vem tomando têm impactos crescentes. Poder-se- pelo mais forte. No fim do século XX, a adesão a deter-
ia pensar a questão da política no mundo da globalização minados valores significa, obviamente, a tentativa de não
como um regime internacional. Para Krasner, trata-se de ficar marginalizado no sistema internacional, mas signi-
“princípios, normas, regras e procedimentos de decisão fica também a possibilidade, mesmo se modesta, de
em relação aos quais convergem as expectativas dos ato- influenciá-lo. O regime democrático de um país sugere
res de um determinado setor” (Krasner, 1991:134). Da uma determinada possibilidade de comportamento frente
mesma forma que a política, também a democracia e as a outros países que não aquele permitido simplesmente

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pelas relações de poder, militar ou econômico. Isto é, a inclusive no Brasil, sobre como adaptar o Estado, nos
participação de diferentes atores nas diversas instâncias planos econômico e político, ao estágio da globalização.
das relações internacionais pode fazer com que estas se- Porém, não há debates significativamente amplos sobre
jam atingidas por inputs diferenciados (por exemplo, o as formas da institucionalidade política e democrática em
papel dos meios de comunicação na formação da agenda si mesmas. Há na literatura inúmeros debates sobre o pa-
internacional ou a presença de atores privados, não esta- pel das organizações não-governamentais, nacionais ou
tais, a qual pode pesar na determinação das políticas dos internacionais, como instrumentos de expressão da von-
próprios Estados ou de outros Estados). tade de segmentos do povo. As organizações internacio-
Vistas as questões relativas à universalização de valo- nais, assim como representam os Estados, o Parlamento,
res, vejamos o que se quer apontar com a idéia de aporia os partidos e as eleições, também dão forma à democra-
nas instituições políticas. A liberdade e a democracia, cia no seu locus clássico que é o próprio Estado. O está-
como ensina o pensamento político liberal clássico, são gio alcançado pelo capitalismo sugere, exatamente, a ne-
os instrumentos para alcançar o bem comum. Estes ins- cessidade, se se quer preservar um papel central à vontade
trumentos tomam a sua forma material por intermédio do popular, de instituições que possam controlar os atores
Estado. Para toda teoria democrática, o Estado materiali- privados, utilizando suas competências, mas sujeitando-os
za a vontade do povo. Em outros termos, para a existên- à soberania popular, seja esta exercida no plano nacio-
cia efetiva da democracia, o Estado tem que ser o Estado nal ou no internacional.
de direito, com o respeito à vontade da maioria, respeita- Alguns autores indicam, como resposta para o impasse, a
das as minorias. Mesmo na perspectiva liberal de Estado idéia de democracia cosmopolita. Para Held (1993:56), “uma
mínimo, a democracia é vital para o pleno exercício das estrutura cosmopolita de democracia, admitindo que seja
liberdades e para permitir o bem comum. possível indicar claramente as suas características, pode-
Dito isso, cabe acrescentar que, aparentemente, a glo- ria ter os recursos organizativos – procedurais, jurídicos,
balização, como visto, eleva a níveis inusitados o valor institucionais e militares – em condições de modificar a
democracia. A aporia reside no fato de que, justamente dinâmica da produção e da distribuição dos recursos, em
no momento em que este valor pareceria expandir-se para condições de criar e aplicar normas na era contemporâ-
os mais longínquos recantos da Terra, o papel do Estado nea”. Para pensar esta estrutura, colocam-se alguns pres-
como lugar apropriado de exercício da democracia pare- supostos, pelo momento de difícil equacionamento: um
ce enfraquecer-se. Portanto, a aporia está no surgimento deles é o da relação entre globalização e diversidade cul-
de uma contradição aparentemente insolúvel: de um lado, tural; outro é o do próprio entendimento de política. Muito
fortalece-se o valor democracia; e, de outro, esta perde dificilmente um entendimento cosmopolita de democra-
significado à medida que o seu lugar próprio de exercí- cia poderá derivar da extensão do atual constitucionalismo
cio, o Estado, debilita-se. Num exemplo simplificador, nacional para um constitucionalismo internacional. Esta
quando a vontade popular demonstra-se apta a condicio- perspectiva lembra as dúvidas de Rousseau no que tange
nar o Estado, este definha e torna-se incapaz de levar à à delegação de poderes aos representantes. Portanto, os
frente as tarefas que lhe são próprias, como a de garantir problemas ligados à praticabilidade da vontade de todos
um bem-estar mínimo para todos, de promover o desen- ganham dimensão relevante. Falk (1993) sugere a neces-
volvimento, etc. sidade de estudos relativos à representação global, inclu-
sive no quadro das Nações Unidas. Porém, como se sabe,
AS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS sugestões como estas não eliminam as preocupações re-
lativas à capacidade dos mais fortes condicionarem de
Os problemas apresentados nos itens anteriores suge- algum modo a formação da vontade da maioria.
rem a necessidade de adequação das instituições políti-
cas para a etapa em curso. O desenho político-institucio- ADEQUAÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE
nal que se apresenta hegemônico parece defasado em RELAÇÕES INTERNACIONAIS
relação às novas realidades. Como afirmado no primeiro
item, a fase alcançada pelo capitalismo tem sido discuti- Na dinâmica atual do capitalismo, deve-se verificar
da no que tange às suas conseqüências econômicas, mas quais os possíveis instrumentos de que podem lançar mão
pouco tem sido debatida nos outros campos. os Estados para posicionar-se no cenário internacional.
A adaptação das instituições nos planos nacional e in- Também neste caso não é correta a afirmação de que tudo
ternacional vem se desenvolvendo a passos de tartaruga. está mudando. Para as relações internacionais, devem ser
Há debates no que se refere a algumas organizações in- considerados os tempos longos e os ciclos prolongados.
ternacionais, como as Nações Unidas. Há algum debate, Há, porém, sinais visíveis de novos instrumentos que

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podem ser utilizados, ainda quando muitos dos anterio- privados – organizações não-governamentais, associações
res mantenham sua validade. empresariais, sindicatos, grupos regionais, minorias ét-
Diante da perplexidade sugerida pelas diferentes opi- nicas – pode, como é próprio da democracia, compor um
niões sobre a estruturação internacional pós-Guerra Fria, todo que, de algum modo, contribui para a política exter-
é certo que os paradigmas Leste-Oeste e Norte-Sul pare- na. Dependerá da capacidade do Estado fazer com que as
cem modificar-se profundamente; e, do mesmo modo, a atuações particulares colaborem para o interesse nacio-
idéia de interesse nacional. Este subsiste e é um elemento nal ou o debilitem.
estruturante, mas seria perigoso acreditar que não tenha O Estado continua com sua centralidade reconhecida.
características novas, que devem ser adequadamente in- Para agir mais eficientemente, deve ter instrumentos para
terpretadas, até para agir ativamente em defesa deste perceber quais as áreas nas quais lógicas não estatais ga-
mesmo interesse. nham importância. Em outros termos, a pauta de algumas
De acordo com Lafer e Fonseca (1994), a globaliza- negociações internacionais, o direcionamento da opinião
ção não elimina os temas da hegemonia e da desigualda- pública, parte substancial das propostas, ainda que endos-
de, mas os torna mais complexos. É precisamente a com- sadas pelos governos, surgem da capacidade que grupos
preensão exata desta complexidade, de seu significado e de interesses manifestam na defesa de seus objetivos. Isto
das possíveis formas de atuação nestas circunstâncias que implica repensar a política exterior, ao menos quanto às
vai se tornando o tema decisivo nesta etapa. formas de sua implementação. Por exemplo, em temas
Nas relações internacionais, a desigualdade de poder como direitos humanos, meio ambiente e comércio, a
faz com que instrumentos de ação semelhantes possam, desigualdade de poder pode ser em parte compensada pela
às vezes, produzir resultados diferentes. Portanto, a ques- adequada participação dos atores interessados, em outras
tão proposta, a da existência ou não de instrumentos no- palavras, pela mobilização social, que ganha certo peso
vos a serem utilizados no mundo pós-guerra fria, exige no mundo globalizado em razão da discutida valorização
cuidado. Devem-se evitar conclusões apressadas, do tipo de valores.
daquelas que afirmam que a crise do Estado implica a Na série de conferências internacionais patrocinadas
inviabilização da ação diplomática e de uma política ex- pelas Nações Unidas nos anos 90 – meio ambiente, direi-
terior de defesa dos interesses nacionais. O nó da questão tos humanos, população, mulher, políticas sociais, habi-
reside em compreender como coloca-se hoje o interesse tat – a lógica interestatal de poder esteve presente, mas
nacional e como atuar da melhor maneira para sua pre- os grupos não-governamentais tiveram papel relevante.
servação. Esta idéia não menospreza o fenômeno da glo- No mundo pós-guerra fria, este papel poderá vir a ser
balização, não desconhece a nova dinâmica do capitalis- potencializado e suas conseqüências ainda não são bem
mo, nem deixa de perceber que a hegemonia do processo avaliadas.
em curso é liberal. Reconhece a existência crescentemente Foi dito anteriormente que se alguma coisa em relação
importante de interesses universais, mas reconhece que à globalização não é adequadamente debatida, é a ques-
podem ser instrumentalizados, dificultado o desenvolvi- tão da alocação do poder político num contexto de debi-
mento político, social e econômico dos setores mais dé- litamento do Estado. Por isso mesmo, a responsabilidade
beis da humanidade. de última instância do poder público continua. Ao mes-
Um passo para o reconhecimento, por parte do Estado mo tempo, os Estados com a vontade política de maximi-
nacional, da existência de novos instrumentos de política zar suas posições buscam alavancar a ação social em fun-
internacional pode ser dado se houver uma explícita com- ção de seus próprios objetivos. Para que isso seja eficaz,
preensão de que os atores atuantes são múltiplos e pos- exigem-se credibilidade e, ao mesmo tempo, efetiva au-
suidores de legitimidade. Isto tampouco é de todo novo. tonomia frente ao próprio Estado. Isto é, as ações de po-
Há muito sabe-se que interesses setoriais, privados, cor- lítica internacional de atores não estatais devem ser efeti-
porativos, de classe e regionais contribuem na formação vas, de acordo com projetos próprios. A complexidade
de políticas. Trata-se agora de seu surgimento na esfera da questão não pode ignorar os perigos implícitos e ex-
pública, nem sempre mediada pelas instituições nacionais. plícitos. Em outros termos, a capacidade nacional de in-
Significativo: os atores atuantes, por diferentes razões, fluenciar a opinião pública de outros países, questão re-
desenvolvem capacidades próprias, com possibilidade de levante na globalização, passa a ser um instrumento de
influenciar na vontade interna de outros povos. Muitas política exterior. Para esse objetivo, a ação do Estado é
vezes isto deve-se ao tipo de tema objeto de interesse, reconhecidamente insuficiente.
quando tem a ver com as pautas globais. Foi dito que a A capacitação para levar, a médio e a longo prazos,
desigualdade de poder faz com que instrumentos seme- atores não-governamentais e subnacionais a atuarem na
lhantes produzam resultados diferentes. A ação de atores cena externa é a novidade possível para a adequação dos

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instrumentos de política exterior. Esta participação tam- justiça, e as assimetrias reproduzem antigas formas de
pouco seria inédita, mas sim o seria o reconhecimento de dominação.
que esta atuação passa a ser parte constitutiva das rela-
ções externas do Estado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BREVE CONCLUSÃO
AMORIM, C. “Reforma da ONU”. Conferência no Instituto de Estudos Avan-
A inexistência de um estado de sociedade nas relações çados da Universidade de São Paulo. São Paulo, IEA/USP, 2 de abril de
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atual, ainda que com o risco de reprodução das velhas
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estratégias de poder. Saber atuar no cenário internacio- ARCHIBUGI, D.; FALK, R.; HELD, D. e KALDOR, M. Op. cit., 1993.
nal implica não desconhecer os novos caminhos. HOLANDA FERREIRA, A.B. de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio
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A associação prática, uma globalização em razão de
KRASNER, S. D. “Structural causes and regime consequences: regimes as
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rido sobre o papel da política – sobre as instituições que
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surgem como necessárias no século XXI – permitiria vis- (ed.). The theory and practice of international relations. Englewood Cliffs,
lumbrar os caminhos percorríveis para levar à associação Prentice Hall, 1991.
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parece que nos afastamos mais um pouco dos valores da choice). Bologna, Il Mulino, 1992.