AM 520 - Fotografia e Ciências Humanas

Aluna: Vera Maria B. C. Q. Guimarães

Pós-Graduação Multimeios - UNICAMP
1º semestre de 2002

Resenha
A Câmara Clara, de Roland Barthes (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984)

Introdução
Barthes em relação à fotografia, tem um desejo ontológico : quer saber o que ela é “em si”, qual
traço a distingue das outras imagens.
Para ele as classificações das fotografias são exteriores aos objetos e não têm relação com sua
essência.
A fotografia é inclassificável, porque ela reproduz um momento, que repete mecanicamente algo
que não se repetirá existencialmente. Ela não é a foto, mas tal foto. Ela traz consigo seu
referente. Este não se distingue de imediato dela, pois, para tanto, exige um ato segundo de saber
ou de reflexão.
O referente está sempre presente, o que leva a fotografia para todos os objetos do mundo – o
fotógrafo escolhe tal objeto, tal instante, tal lugar. E isto torna a fotografia inclassificável, porque
não há razão para marcar tal ou tal de suas ocorrências. A fotografia é privada do princípio de
marcação (para que haja signo, é preciso que haja marca), assim, “as fotos são signos que não
prosperam bem, que coalham, como o leite.”
O referente adere, e isto faz com que haja uma enorme dificuldade para acomodar a vista à
Fotografia. Os livros que falam das fotos são obrigados a acomodar a vista muito perto (os
técnicos), ou muito longe (os históricos ou sociológicos).
Barthes constatava que os livros não falavam nada sobre as fotos que o emocionavam, que lhe
davam prazer, pois ele só via o referente, o objeto desejado. As fotos resistiam a qualquer sistema
redutor. Resolveu tomar algumas fotografias, aquelas que tinham existência para ele. “Não um
corpus: somente alguns corpos”. Se fez mediador de toda a Fotografia: tentar formular, a partir
dele (Barthes) o traço fundamental, o universal que justificasse a existência fotográfica.

O Spectrum Barthes
Barthes observa que a foto pode ser objeto de três práticas (três emoções, três intenções) : fazer,
suportar e olhar.
O Operador é o Fotógrafo. O Spectator somos nós, espectadores das coleções de fotos. O
Spectrum, o que é fotografado, o alvo, o referente, o espetáculo.
Como não é fotógrafo, a ele escapa a emoção do Operator (a essência da Fotografia – segundo o
– Fotógrafo). A escolha do assunto, como olha, limita, enquadra e coloca em perspectiva o que
ele quer “captar” (surpreender).1
1

Flusser e Kossoy também referem-se às intenções do fotógrafo. Flusser (1985) coloca que, se a fotografia são
conceitos transcodificados que pretendem ser impressões do mundo, para compreender a sua mensagem, ela deve
ser decifrada. “Decifrar é entender as intenções do fotógrafo e do aparelho. A intenção do fotógrafo é de colocar
seus conceitos em imagens que eternizam nos outros. Kossoy (1999) coloca mais intensamente, a questão do

as duas emoções: a do sujeito olhado e a do que olha. nas demais fotos. um “afeto médio”. então. dos cenários. que tiram dele. Barthes tem “uma espécie de interesse geral”. em Barthes. dores). o marca. “Tal foto me advém. sinto. sente e faz sua própria leitura do documento. o que encara na foto. O Spectator Barthes Dentre as muitas fotos. quer como testemunhos políticos. Como sujeito olhado (Spectrum). então. dividido. a Nicarágua. e todos os signos delas (combatentes pobres. são nomeados por Barthes. pois ela é pesada. A palavra mais adequada para designar a atração foi aventura. O punctum contraria. Ver-se a si mesmo é um ato recente. ruas em ruínas. -2- . imóvel. olho e penso. uma espécie de investimento geral. algumas exercem. A reconstituição histórica ou pessoal de uma imagem fotográfica implica em um processo de criação de realidades. “O punctum de uma foto é esse acaso que. aquele que eu me julgo. quer como quadros históricos: “pois é culturalmente (essa conotação está presente no studium) que participa das figuras das caras. então. das ações”. nela fotógrafo no processo de produção da fotografia. E que para decodificá-la deve-se ir além da própria imagem. Barthes nota a sua existência e percebe que há uma regra estrutural nela. “essas marcas. 2 Kossoy (1999) chama de receptor aquele que vê. mas é ele que parte da cena e o fere. quebra o studium . por elas. de sua manipulação e interferências ao nível da expressão. ou decifrar os conceitos. Embora não tinha uma marca. intenções e omissões nela contidos. aquele que eu gostaria que me julgassem. disperso. Dois elementos. então. e este ato novo causa distúrbio. o gosto por alguém. da insurreição na Nicarágua. “mas a aplicação a uma coisa. ao mesmo tempo. É pelo studium que Barthes se interessa por muitas fotografias. Na Foto-retrato quatro imaginários se cruzam: “Diante da objetiva. Nesse instante Barthes é o sujeito que se torna objeto: vive uma microexperiência da morte (do parêntese). obstinada.Barthes tem. Ele diz que imagem fotográfica é uma representação resultante do processo de criação/construção do fotógrafo. e seu eu é leve. que de imediato. “A Fotografia é o advento de mim mesmo como outro: uma dissociação astuciosa da consciência de identidade”. sou. punctum. traz um pequeno buraco. Tal foto o anima outra não: é o que toda aventura produz. Barthes quer a História dos Olhares. pois é elaborada a partir dos referentes do receptor. cuja presença funda o interesse que tem pelas fotos: Studium e Punctum. Studium. ardoroso. A Fotografia transforma o sujeito em objeto. não significa estudo. tinha uma homogeneidade cultural. Dessa extensão de campo são feitas as fotos e. será a do Spectator2. vai encontrá-la. palavra latina. dos gestos. uma pequena mancha. aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte”. não é Barthes que o procura. A sua vontade é de chegar à essência da Fotografia por sentimento: “vejo. Barthes. Ao ver a foto de Koen Wassing. seu “eu” não coincide com sua imagem. é a Morte : a Morte é o eidos da Foto. portanto noto. uma certa atração. mortes. essas feridas são como pontos”. O segundo elemento. As fotos trazem uma identidade que remete sempre a uma informação: a insurreição.” Sua análise. mas sem acuidade particular”. tal outra não”.

Trata-se de uma co-presença.a ênfase é uma força de coesão . fotografado por Avedon: a essência da escravidão está ali colocada. É o que ocorre com a foto de William Casby. viver os intentos que fundam e animam sua prática. Ao observar a foto de William Klein . ela fornece de imediato detalhes. do desejo indolente”. Barthes a sente como fora de sentido. Esse detalhe é o punctum.” O punctum. um detalhe sobressai. Nenhuma análise é feita para perceber o punctum. A fotografia é contingente.” Para Barthes. Tem . me fere). mas sempre compreendê-las. nenhum punctum: estão investidas somente do studium. onde Barthes reconhece pequenas cidades da Hungria e Romênia.tem unidade na composição. material de saber etnológico. tem seu sentido claro e nu desviado – é consumida esteticamente e não politicamente. virtualmente. cego.”. dota aquela de funções: informar. Outro exemplo. este. mas quando é pensativa. discuti-las em mim mesmo. às vezes. É unária quando transforma a realidade sem duplicá-la . porém. dar vontade. pois a cultura (que tem a ver com o studium) é um contrato feito entre os criadores e os consumidores. deste modo. onde Warhol esconde o rosto com as mãos. um pouco repelentes. “Reconhecer o studium é encontrar as intenções do fotógrafo. O studium é encontrar o Operator. Nesse espaço unário. A fotografia subverte. que representa um rabequista cigano. tendo alguma existência para ele . um objeto parcial. e a Fotografia só significa quando assume uma máscara. é um “detalhe”. “Primeiro de Maio de 1959” em Moscou. surpreender. fotografado por Duane Michals. Barthes diz que o punctum não leva em consideração a moral ou o bom gosto: “o punctum pode ser mal educado”. fazer significar. que Barthes chama de fotografia unária. O studium e o punctum O studium quando não é ferido por um punctum gera um tipo de foto muito difundida. conduzido por um garoto. porém. aprová-las. muitas fotos. “O studium é um campo vasto do interesse diversificado. Na fotografia de Kertész (1921). Para Barthes. Não existe regra de ligação entre studium e punctum. a região difícil da Fotografia é a máscara. O punctum são as unhas. uma força de expansão. Exemplo de fotos unárias são as de reportagens – a foto pode gritar e não ferir. não quando aterroriza.” A Fotografia carrega os mitos do fotógrafo e. são as fotos pornográficas (não as eróticas) porque homogêneas. o punctum é a rua de terra batida. entrar em harmonia com elas.me punge (mas também me mortifica. Barthes identifica uma coleção de detalhes e objetos parciais que permitem acesso a um infra-saber. ao mesmo tempo moles e sem cutícula. Já que toda foto é contingente. a foto cujo sentido causa muita impressão. muitas vezes. “vivê-las segundo meu querer de Spectator. representar. em plena página e “eu a recebo em pleno rosto. provocam apenas algum interesse. A imagem está lá. é sempre alguma coisa representada. do gosto inconsequente. perturba. Elas são recebidas de uma só vez. quando este está presente. -3- . Outra foto é a de Andy Warhol. desaprová-las. pois.

Frente à foto ele induz. ou ainda em pessoa. “A vidência do fotógrafo não consiste em “ver”. A realidade e o passado. nesse passado entre o infinito e o sujeito (o operator ou spectator). Na fotografia a presença da coisa (em um certo momento do passado) jamais é metafórico.” As fotos investidas de um studium são lidas rapidamente e indolentemente. realmente. Na fotografia jamais pode-se negar a realidade (a coisa esteve lá) no passado . que ele não podia deixar de fotografar o objeto parcial ao mesmo tempo que o objeto total. como um traço que não precisa explicação. é possível encontrar o noema “Isso–foi“. É a interrupção que se constitui a pose. mas a coisa necessariamente real que foi colocada diante da objetiva. e o faz. existido. ou seja.O detalhe que o interessa não é colocado lá intencionalmente. o punctum não. o punctum não está no perfil degenerativo – o código diz antes. já que nenhum retrato pintado. duas determinantes que só existem na fotografia. trata-se de um suplemento: é o que acrescento à foto e que todavia já está nela. pensa no instante breve que uma coisa real se encontrou imóvel diante do operator – é a pose. não recalcado. advinha-se possibilidades de ocorrência. é a Referência. verdade e realidade em uma emoção única. sem a qual não haveria fotografia”. Barthes chama de “referente fotográfico. No meio das mil formas de interesse que uma foto pode suscitar. “pois aquilo que vejo aí foi escravo : ele certifica que a escravidão existiu. confunde. O noema é intenso. então. embora pareça “verdadeiro”. acredita-se que ele está vivo. pode dizer que o seu referente tenha. não deixa falar – o punctum está na gola do menino e no curativo do dedo da menina. a realidade de sua origem. Quando Barthes olha a foto. “O que intencionalizo em uma foto não é a Arte. como a própria essência. Em latim seria “interfuit”. O noema da Fotografia O referente da Fotografia não é o mesmo que o dos outros sistemas de representação. ou ainda. mas por uma ordem nova de provas – ele mesmo como referente. No momento em que há punctum cria-se um campo cego: por causa do detalhe. o noema da fotografia. nem a Comunicação. mas diz que o fotógrafo estava lá.” Barthes recita a foto de William Casby. cria-se a história para além daquilo que ela dá a ver. nela coloca a natureza da Fotografia. mas ao transpor o Real para o passado. já existiu e está morto. A imobilidade do fato resulta na confusão entre dois conceitos: o Real e o Vivo – ao atestar que o objeto foi real. O nome do noema da Fotografia será então : “Isso-foi” ou ainda: o Intratável. É essa indiferença que desperta a foto do Jardim de Inverno em Barthes. ordem fundadora da Fotografia”. O studium está sempre codificado. ele está no campo da fotografia como que inevitável. “o traço inimitável da Fotografia (seu noema) é que alguém viu o referente (mesmo que se trate de objeto) em carne e osso. Hine. “nascido escravo” (fotógrafo Avedon). da verdade da imagem. a que remete uma imagem ou signo.” -4- . Na fotografia das duas crianças anormais de Lewis H. isso que vejo encontrou-se lá . mas vivido com indiferença. mas a leitura do punctum é ao mesmo tempo curta e ativa. não a coisa facultativamente real. não por testemunhos históricos. a foto sugere que “isto-foi”. ele não atesta a arte do fotógrafo. Barthes diz: o punctum quer esteja delimitado ou não. mas estar lá. Assim.

do inesperado que o feria. além do detalhe. Ela não inventa.” Já que a fotografia (este é o seu noema) autentica a existência de tal ser. em essência. que é o Tempo. O que se vê não é lembrança e nem imaginação. Ela não é ficcional. a fotografia é uma representação a partir do real. o punctum. segundo eles. A imagem está lá. o poder de autenticação sobrepõe-se ao poder de representação. Barthes diz que essa sutileza é decisiva. -5- . A cena se cristaliza no papel. se insinua. A fotografia partilha a História do mundo. julgava poder distinguir um campo de interesse cultural. A Fotografia e o Tempo . “entre os comentaristas da fotografia (sociólogos e semiólogos) a moda é a relatividade semântica: nada de real. “a essência da imagem está toda fora. Porém. Como objeto antropológico novo deve escapar das discussões habituais sobre a imagem. é Real3. “tal que em si mesmo”. A fotografia não fala daquilo que não é mais. sem intimidade. Barthes não pode penetrar nela. ou seja. 3 Para Kossoy. outro no papel). 4 Barthes explica “camera lucida”: o nome do aparelho. com um olho no modelo. mas como uma emanação do real passado. não é um analogon do mundo. Ele não é mais da forma. mas jamais quanto a sua existência. apenas varrê-la com o olhar. há outro punctum (estigma). mas sobre o tempo. a não ser que me provem que essa imagem não é uma fotografia. É equivocadamente que. O que se deve dizer é camera lucida4. A fotografia é um documento do real. e é imagem bidimensional de objeto tridimensional. associam-na à idéia de uma passagem obscura (camera obscura). mas apenas daquilo que foi. tudo que ela representa é fabricado. pois nada pode impedir que a fotografia seja analógica. mas tem presente a essência da Fotografia: consiste em ratificar o que ela representa. o noema da fotografia não está na analogia. mas atesta que o que ele vê realmente existiu. o studium. é a própria autenticação. este é um debate em vão. “Perguntar se a fotografia é analógica ou codificada não é um bom caminho para a análise. que permitia desenhar um objeto através de um prisma.A foto é literalmente uma emanação do referente. apenas artifício. A Fotografia como objeto de estudo A foto pode mentir quanto ao sentido da coisa. Porém.” O importante é que a fotografia tem uma força constativa – ela constata algo não sobre o objeto. Na Fotografia. que grava a realidade em dado espaço e tempo. Dela partem radiações que atingem o Spectator. através da materialidade do registro. na medida de sua natureza tendenciosa. hoje. Ela não rememora o passado. anterior à fotografia. pois do ponto de vista do olhar. pois está submetida à perspectiva albertiniana. sem significação. do ponto de vista fenomenológico. cheia de intenções. A Fotografia. diz. Barthes quer encontrá-lo por inteiro. sua representação pura.o êxtase fotográfico Quando Barthes iniciou o livro.” A fotografia não pode ser aprofundada por causa da sua força de evidência – “esgoto-me em constatar que isso foi. A fotografia sempre espanta a cada visão. e no entanto. Diante de uma foto. Para Barthes. Barthes diz que. a consciência não tem a lembrança de algo. mas o real no estado passado. é a força do noema (“issofoi”). em virtude de sua origem técnica. pois não considera que seja uma cópia do real. mas invocando a profundidade de todo sentido possível – irrevelada e toda manifesta. inacessível. mas de intensidade.

para ultrapassar a loucura da Fotografia e torná-la sensata. a partir dela. Kossoy. -6- . Hucitec. realmente existiu. como imagem. B. Nela há sempre o esmagamento do Tempo: isso está morto e isso vai morrer. (1999). que pode-se assegurar que algo existiu no passado: “falsa no nível da percepção e verdadeira no nível do tempo. O noema da foto é simples: “Isso-foi”. A Fotografia.” Referências Flusser. como as do passado: “são mais liberais. procura fazer da Fotografia uma arte. assim. é a ausência do objeto 5. o intratável passa a ser tratável. fazendo voltar à consciência a própria letra do Tempo: movimento revulsivo. a imagem é um nada de objeto.daquilo que não é mais. A sociedade consome imagens e não mais crenças. porém. São Paulo. na fenomenologia. nos diz que.” As imagens que o tinham pungido (ação do punctum). daquilo que foi. 5 Barthes diz que. Para Barthes. não é mais louca (nenhuma arte é louca). apenas. Quando é arte. “Sensata se seu realismo permanece relativo. Uma das marcas do nosso mundo. é generalizá-la. Louca se esse realismo é absoluto e. O indivíduo busca viver segundo imagens esteriotipadas. o que vai morrer . a não ser por submissão ao modelo fotográfico. porém. original. que inverte o curso da coisa e que eu chamarei de êxtase fotográfico. pois sua essência não age mais naquele que a olha. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. Aqui ela não mais escandaliza. O outro meio de tornar a Fotografia sensata. perguntando se a Fotografia é louca ou sensata. menos fanáticas. faziam com que ele ultrapassasse a irrealidade da coisa representada e entrasse no espetáculo. é aqui que está a loucura. na imagem daquilo que está morto. O fotógrafo rivaliza com o artista. É o que ocorre na sociedade. as pinturas figurativas. (1985).Este punctum pode ser lido na fotografia histórica. Ateliê Ed. dispõe de dois meios. mas. apenas. E diz que ela pode ser uma e outra. mais falsas. Filosofia da Caixa Preta. é que ele vive segundo um imaginário generalizado. temperado por hábitos estéticos. São Paulo. pois seu noema é esquecido. A sociedade. onde a Fotografia esmaga as outras imagens: não mais as gravuras. o que se vê. O primeiro.” Barthes finaliza. submete-se ao quadro e ao seu modo de exposição. banalizá-la. pois é. V.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful