Penny Jordan

RESUMO: “Como te amo Harriet! Desejo tanto tocar seu corpo, ver em seus olhos o
brilho de paixão. Sentir o pulsar do meu coração em harmonia com o seu. Minhas mãos
aprendendo ávidas, o caminho das curvas dos teus seios, da suavidade dos teus
quadris...” Harriet vibrava com as reações que Rigg lhe despertava. De repente, abriu os
olhos e viu-se sozinha no imenso leito, acordando de um sonho quase real...
Copyright: 1990 by Penny Jordan
Publicado originalmente em 1990 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Todos os
direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada por acordo com a Mills & Boon Ltd. Todos os personagens desta
obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera
coincidência.
Título original: Breaking away
Tradução: Clyara Sagan
Copyright para a língua portuguesa: 1991 EDITORA NOVA CULTURAL L TDA.
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento no Círculo do livro S.A.
Digitalização: Márcia Gomes
Revisão: Andresa Bastos
CAPÍTULO I
Harriet ficou preocupada ao perceber que não chegaria à cidadezinha antes do

anoitecer.
Era culpa sua. Atrasara-se ao partir de Londres e fizera uma parada na estrada durante
à tarde. Agora o sol já se punha e ainda faltava uma boa meia hora antes de alcançar o
vilarejo e seu novo lar.
Louise a achava louca ao saber de seus planos.
- Deixar Londres por uma pequena e remota aldeia perdida na fronteira com a Escócia?
- a irmã indagara, perplexa.
Harriet estremecera ao comentário. De qualquer forma, ela e a irmã jamais haviam
partilhado os mesmos gostos.
Pensar em Louise fazia Harriet sentir-se desconfortável e ansiosa. Desde a morte dos
pais, assumira o fardo da irresponsabilidade da irmã como se fosse sua filha.
Havia apenas quatro anos de diferença entre ambas. No entanto, parecera natural que
ela abandonasse seus planos de ensinar no exterior, quando os pais faleceram. Assumira
um posto em Londres, que lhe permitia tomar conta da moça e sustentar a casa.
Tinha então vinte e dois anos, e Louise, dezoito. A irmã se mostrara sempre rebelde e
voluntariosa.
Harriet decidiu usar a parte da herança que recebera, comprando uma pequena casa
numa área residencial de Londres, onde imaginava formar um lar para a caçula. Esta
decidiu usar todos os seus recursos para pagar um dispendioso curso de modelos.
Harriet suspeitava que a irmã se sentia atraída por uma vida charmosa, e que a carreira
de modelo seria fácil e divertida. Não havia como negar que Louise era bonita. Faltavamlhe, porém, a aplicação e a disciplina necessárias para obter sucesso num mundo tão
competitivo.
Louise recusara-se a ouvi-Ia. Depois de um ataque de nervos, saíra de casa. A despeito
de todas as tentativas para encontrar a moça, Harriet nada soube dela por seis meses.
Foi um período de ansiedade e preocupação. Sentia-se culpada por não ter con seguido
conduzir os problemas de modo mais satisfatório.
Aos poucos, no entanto, começou a organizar a própria vida. Conseguiu firmar-se
profissionalmente no grande estabelecimento onde lecionava inglês, sendo mesmo
promovida. Sua vida social se enriqueceu com um ou dois novos amigos e passou a sair
com um colega, Paul Thorby.
De repente, como caída do céu, Louise reapareceu, anunciando que estivera vivendo
na Itália, onde exercera a profissão de modelo.
Sentia-se muito à vontade, falando apenas de si mesma, dos planos para o futuro. Em
nenhum momento preocupou-se em se desculpar por ter sumido tanto tempo sem dar
notícias. Harriet, porém, estava tão aliviada que silenciou.
Louise contou que ia se casar com um rico italiano que encontrara em Turim e que só
voltara a Londres para comprar o vestido de noiva.
Quando Harriet soube que os noivos se conheciam há apenas seis semanas, rogou à
irmã que esperasse um pouco mais. Louise, como sempre, recusou-se a ouvi-Ia.
Casaram-se em Turim dois meses depois de terem se conhecido e, embora Harriet
apreciasse bastante o novo cunhado, sentia-se preocupada quanto à capacidade de
adaptação da irmã, a viver tranqüila no seio da enorme família de Guido.
Paul Thorby lembrou-a de que Louise era adulta e capaz de tomar as próprias decisões.
Apesar do bom conselho, aquele belo homem podia tornar-se petulante se não obtivesse
atenção integral. Era filho único, mimado. Levou Harriet para conhecer a mãe, e a moça
reconheceu imediatamente que ela e Sarah Thorby jamais se dariam bem.
Tinha, então, vinte e quatro anos, e a consciência de um vago sentimento de
insatisfação com a própria vida. O que acontecera com todo os sonhos brilhantes de
viajar ou explorar um pouco o mundo, antes de se dedicar à carreira?
A morte dos pais alterara todos os planos. Mas não havia razão para que não os
realizasse agora. Louise estava casada. Ela só precisava se preocupar consigo mesma.

Talvez no fim do ano escolar...
Seis meses depois, quando se empenhava em explicar a Paul que o relacionamento
entre ambos não era permanente como ele parecia pensar, e que ela gostaria de viajar,
sem prévio aviso, Louise retornou, comunicando o fim de seu casamento.
Desolada, Harriet quis persuadir a irmã a voltar para o marido, mas Louise foi
categórica. Encontrou um advogado, iniciou o processo de divórcio e comunicou a Harriet
que viveria em sua companhia. Quando Guido veio a Londres procurá-Ia, trancou-se no
quarto, recusando-se a ver o marido. Foi a cunhada quem precisou lidar com o enfurecido
italiano.
Mas Guido não se mostrava muito preocupado com o divórcio, sob a justificativa de que
não se sentia mais apaixonado. Nenhum dos dois, de fato, parecia muito preocupado com
o fim do casamento.
Guido voltou a Turim e Louise continuou a ocupar o maior dos dois quartos da casa de
Harriet.
Paul, que não gostava da moça, sugeriu que ela encontrasse outras acomodações, e
não foi nem mesmo ouvido. Louise não estava bem. Adoecera e começava a parecer
abatida e pálida... Ela que fora sempre bela, cheia de saúde e energia desde que
nascera.
Harriet invejara, durante a adolescência, a beleza da irmã mais nova. Louise se parecia
com a avó paterna, com seus cabelos espessos e dourados, olhos azuis e uma pele
impecável.
A primogênita saíra ao lado materno. Não era tão alta quanto Louise; tinha estatura
mediana, mas bem estruturada. Os cabelos escuros mostravam aqui e ali alguns reflexos
avermelhados. Uma vez Paul lhe perguntara, com ar desaprovador, se tingia os cabelos.
Apenas a cor dos olhos evidenciava o parentesco, de um azul-escuro que contrastava
com a brancura translúcida da pele.
Harriet não mantinha ilusões sobre si mesma, consciente de não ser tão atraente aos
olhos masculinos como a irmã. Isso, entretanto, não a incomodava. Reticência natural e
timidez a impediam de aceitar os convites que lhe eram feitos durante a adolescência e os
anos de universidade.
E agora havia Paul em sua vida. Mas o relacionamento entre ambos, mantido numa
base não sexual, carecia de excitação e de paixão. Nos românticos sonhos que nutria, e
que reconhecia como tolos, ansiava por um homem que a despertaria de modo
arrebatador. Passou a reprimir os próprios sentimentos e a considerar que um
compromisso emocional que a envolvesse por inteiro não era para ela.
Imaginava quando poderia dar a Louise a notícia de que pretendia vender a casa e
viajar para o exterior, por um período indefinido de tempo, quando a irmã informou-a que
estava grávida. Não tinha intenção de cancelar o divórcio e nem mesmo pretendia permitir
a Guido conhecer sua condição.
Quando Harriet tentou aconselhá-Ia a refletir melhor sobre o assunto, tornou-se
histérica. Louise ainda vivia com Harriet e, após e nascimento dos gêmeos, deixou bem
claro que pretendia continuar ali.
Como podia expulsar a irmã? E ainda com dois bebês? Nem as sugestões bem
argumentadas de Paul a demoveram da idéia de que devia manter unida a família.
Paul andava furioso com a situação. Um dia brigaram e deixaram de se falar por quase
um mês!
Afinal, ela terminou o relacionamento. E, nos anos que se seguiram, não havia tempo
em sua vida para nada mais que não estivesse ligado a seu papel de principal suporte
financeiro da irmã e de suas crianças.
Como mãe, Louise era tão irresponsável quanto como irmã.
Num momento, estragava os gêmeos, mimando-os com exagero. No outro, ignoravaos. Não mais voltara a trabalhar após o parto, embora parecesse ter sempre dinheiro

suficiente para comprar roupas novas e sair com os vários homens que a convidavam.
Harriet amava os gêmeos, no entanto, precisava admitir que não se tratava de crianças
fáceis de lidar. Louise não lhes incutia nenhum tipo de disciplina e recusava-se a permitir
que outros o fizessem.
A vida não era fácil para Harriet, embora nunca se queixasse. Além de tudo, por alguma
obscura razão, Louise parecia censuráIa pelo próprio casamento precoce e pela chegada
dos gêmeos.
Quando as crianças completaram nove anos, algo totalmente inesperado ocorreu. Ou
melhor, duas coisas inesperadas.
A primeira, e mais surpreendente, no que dizia respeito a Harriet, foi o fato de que um
editor finalmente aceitara o livro infantil que ela desejaria ver editado.
Desde muito tempo se acostumara a escrever o que chamava suas "histórias". Mas fora
um artigo que lera numa revista que a encorajara a passar as longas tardes de inverno
aperfeiçoando a história de aventuras que escrevera para os gêmeos.
Incrédula, soube que ia ser publicada e, ainda mais, solicitavam lhe que escrevesse
outras quatro histórias.
Surpreendente foi também o anúncio de que Louise ia se casar novamente, com um
americano que a levaria e aos gêmeos para a Califórnia.
Harriet sabia da última aventura amorosa da caçula, mas tinha havido tantas, que ela
não imaginava que esta seria mais séria que as precedentes. A irmã procurava
admiração, do mesmo modo que um viciado precisa de drogas ou álcool. Assim, quando o
homem com quem se relacionava momentaneamente falhava em admirá-Ia, ela o
abandonava.
Desta vez, ao que parecia, encontrara um homem forte para dobrá-Ia.
Harriet assistiu ao casamento ainda sob o efeito das novidades. Nem tivera tempo de
anunciar as próprias boas-novas. Louise, como sempre, só se importava com o que lhe
dizia respeito, concentrada demais para prestar atenção nos que a rodeavam.
Por quase dez anos, sustentara a irmã e seus filhos, e agora, de repente, se via livre
dessa carga. Enfrentara o fardo de boa vontade, em parte por amor, em parte por culpa;
culpa que provinha da crença de que Louise havia saído de casa e se envolvido cedo
num casamento inadequado por sua causa. Se os pais não tivessem morrido, a caçula
teria continuado a viver no próprio lar.
Agora Harriet estava livre!
Ela nunca gostara de viver e de trabalhar em Londres. De fato, não apreciava a vida da
cidade, preferindo o campo. A fronteira entre a Inglaterra e a Escócia sempre a atraíra. No
primeiro fim de semana depois da partida de Louise para a Califórnia, com o novo marido
e os gêmeos, Harriet dirigiu-se para o Norte, com a intenção de passar uma semana
gloriosa vagueando pelas pacíficas estradas da fronteira, usufruindo a primeira liberdade
pessoal de sua vida, aproveitando o tempo para pensar no futuro. Planejar!
A decisão de vender a casa de Londres e mudar para o Norte foi tomada rápido, talvez
até demasiado rápido, mas Harriet estava ansiosa por uma nova vida.
Por acaso, encontrara a casa, numa tarde dourada, enquanto dirigia através da
minúscula aldeia de Ryedale. Avistara a placa "à venda" à beira da estrada e fora
investigar, seguindo o caminho que era pouco mais que uma trilha para carro. Encontrara
a casa de campo aninhada e escondida atrás de uma enorme cerca viva. Era o típico
cottage inglês.
Dirigira de volta ao hotel e telefonara aos agentes imobiliários. No final da semana, tinha
se comprometido a comprar o cottage.
O corretor a advertira de seus inúmeros defeitos: o isolamento da casa, a falta de
sistema de esgoto, o jardim abandonado e a necessidade de completa verificação nas
instalações elétricas e hidráulicas. Mas nada a fez demover da decisão de se mudar para
lá. Estava apaixonada e, como qualquer pessoa nesse estado perigoso, recusava-se a

admitir quaisquer falhas na aparência de sua amada casa.
Contudo, mandou fazer uma completa reforma. Construída de pedra, pequena e
compacta, com pequenas janelas e quartos de teto baixo, a casa não tinha nenhum
problema de estrutura.
A força do mercado imobiliário em Londres permitiu-lhe vender a própria casa de
imediato, pelo que parecera uma fortuna. Investiu uma parte do dinheiro para se
assegurar do futuro. Isto lhe permitiria uma certa folga até poder descobrir se seria
possível viver como escritora ou se o primeiro sucesso editorial fora apenas um acaso
feliz.
Não tinha nunca abandonado seu trabalho na escola. O diretor, ao tomar conhecimento
de seus planos, apertou os lábios e franziu a testa, apontando-lhe os riscos de tal
decisão. Conseguir lecionar não seria fácil nos lugares onde ela pretendia viver. E estava
prestes a ser promovida...
Ela recusou-se a prestar atenção. Toda a vida tinha sido cautelosa. E sempre
sobrecarregada pela necessidade de colocar outros à frente de si própria. Agora, o
destino lhe estendia uma chance afortunada; se se recusasse a tomá-Ia... mas não ia
recusar.
Sentia-se tão feliz como jamais o fora antes. E também nervosa.
Através do agente, empreiteiros foram contratados para consertar os defeitos no
encanamento e na fiação elétrica. Uma nova cozinha foi instalada no cottage, um novo
banheiro, e aquecimento central. E agora, no início do outono, Harriet dirigia para o Norte
rumo à sua nova vida.
Num gesto final de libertação, dera todas as roupas que costumava usar: as saias e
blusas sem graça que vestia para lecionar. Comprara outro tipo de roupas. Jeans e
malhas de lã espessas, exibindo motivos alegres e de cores brilhantes, faziam agora
parte de sua bagagem.
Recusara a sugestão da vendedora de comprar botas de pesca de cano alto e optara
por um par de botas de um vermelho brilhante, que combinavam com seu casaco de lã
felpudo com capuz. Nunca mais o sombrio e correto verde-escuro. De agora em diante,
iria ser ela mesma e não se conformar no que se esperava dela ou às idéias de outras
pessoas.
Sorriu para si mesma enquanto dirigia. Sentia-se bem e livre. Próxima dos trinta e cinco
anos, seria tarde para se rebelar contra a sociedade? Mesmo que a rebelião fosse apenas
muito pequena... De qualquer modo, afastada, em seu pequeno cottage, duvidava que
pudesse ver muitas pessoas, especialmente aquelas que desaprovariam sua vívida
escolha de cores.
É claro que seria bom fazer amigos novos, admitiu para si mesma. Em Londres, nunca
parecia haver tal oportunidade. Os outros professores, ou eram mais jovens que ela e
determinados a se divertirem quando não estivessem trabalhando, ou mais velhos e
envolvidos com as próprias famílias. Louise ficava sempre de mau humor quando
lembrava que precisava de tempo livre. Por fim, ficara tão difícil ter uma vida própria,
independente da irmã e dos gêmeos, que acabara desistindo da idéia.
Sentiu-se culpada por não sentir nenhuma falta deles. Louise a deixara sem nem
mesmo sugerir que os visitasse. Esperava que desta vez Louise permanecesse casada.
O cottage tinha apenas um grande quarto, depois da reforma.
Transformara dois pequenos quartos num maior, e o terceiro fora convertido num
banheiro.
Sim, pela primeira vez desde a morte dos pais, era livre. Para escrever... para sonhar...
para desfrutar o campo... fazer todas as coisas que quisera por tanto tempo.
Seus pensamentos se desviaram abruptamente e ela brecou quase por instinto,
sentindo seu pequeno VW protestar enquanto parava, quase atropelando o homem que
emergira de repente das árvores, sombreando a estrada, e que agora se inclinava para

ela.
Reagira como qualquer motorista o faria diante do aparecimento inesperado de uma
pessoa à sua frente, brecando para evitar o atropelamento. Mas, agora, enquanto ele se
aproximava, ela percebeu dois fatos perturbadores ao mesmo tempo.
O primeiro é que fora loucura brecar o carro assim, sem mais nem menos, e o segundo,
mais assustador, é que o homem parecia quase nu, à exceção de uma sunga bastante
exígua.
Tanto quanto podia perceber na penumbra que se adensava, ele estava também
completamente molhado, e muito zangado.
Demasiado tarde ela tentou alcançar a fechadura da porta do carro. Ele já estava
abrindo a porta, a voz dura e furiosa.
- Trixie, o que pensa estar fazendo? Já fez sua piadinha. Agora, se não se importar,
devolva minhas roupas...
Duas mãos poderosas a alcançaram, agarrando-lhe os braços. Ela ficou tensa e
paralisada pelo medo. Logo em seguida as mãos se afastaram e uma voz bem modulada
pediu-lhe desculpas.
- Sinto muito. Tomei-a por outra pessoa. Ela dirige o mesmo modelo e cor de carro...
Ele se interrompeu, num esforço evidente de reprimir a raiva, a testa mostrando um
vinco profundo.
Era um homem alto, com mais de um metro e oitenta, e bem estruturado, como Harriet
tinha oportunidade de ver. E também deveria ser bastante agradável quando não
estivesse zangado.
Tinha cabelos escuros, colados à cabeça, como se tivesse estado nadando, o que
poderia explicar a água que gotejava de seu corpo e a quase nudez. Mas qual o homem
normal que estaria nadando naquele lugar, sozinho, no escuro?
Perdida nos próprios pensamentos, Harriet percebeu de repente que ele se desculpava,
aliás, de modo brusco, explicando que a confundira com outra pessoa. Alguém que dirigia
o mesmo tipo e cor de carro...
Ela o encarou, desconfortável, sentindo-se ruborizar, enquanto seu cérebro fazia
ligações automáticas entre o corpo sem roupa e a referência em acreditar que ela fosse
outra pessoa. Alguém que, com certeza, seria sua amante, e que teria estado com ele
antes de ir embora, abandonando-o naquele estado.
Um estranho calor invadiu-a. Desajeitada, e sentindo um estranho vazio no seu íntimo,
conscientizou-se de que nunca estivera e, com toda probabilidade, jamais estaria
envolvida nesse tipo de interlúdio. Jamais se envolveria numa discussão apaixonada, tal
como a que provocara a ira do homem à sua frente.
Julgou que ele devia ser uns cinco ou seis anos mais velho que ela, a despeito da
esbeltez do corpo firme, e imaginou como seria a amante... atraente, com certeza. Que
idade teria? Vinte e poucos anos? Percebeu então que ele lhe pedia carona.
A cautela que se acumulara durante toda a sua vida apareceu em seu cérebro,
obrigando-a a recusar. Ele parecia de confiança, mas...
- Desculpe-me - ela começou indecisa, desejando não ter-lhe permitido abrir a porta do
carro - tenho certeza de que sua... sua namorada voltará logo. - Tentou suavizar a recusa.
Sua tentativa de parecer segura tinha sido prejudicada pela maneira como pronunciara
as palavras, gaguejando; e o que dissera, em vez de acalmá-Io, trouxe de volta toda a
irritação que ele tentava abafar.
- Minha o quê? - perguntou brusco, a boca ainda mais apertada. Continuou num tom
ácido: - Trixie não é minha namorada. É minha sobrinha. Esta não é uma briga de
amantes tolos, se é o que está pensando, mas uma armadilha deliberada.
A boca se contorceu ainda mais e seu olhar era de desgosto.
- Entendo que as circunstâncias não a encorajem a acreditar que eu seja um membro
respeitável da comunidade local, mas será que pareço o tipo de idiota que vai nadar com

a namorada numa tarde gelada de outono e depois a deixa escapar com suas rou pas?
Esse tipo de coisa é para adolescentes, não para adultos...
Para surpresa de Harriet, ele se revelava mais enfurecido com a interpretação errônea
da situação do que com a própria recusa em conduzi-Io. Agora que o olhava mais de
perto, notava que seu rosto era o de um homem acostumado a controlar situações, e não
a ser por elas controlado. Ao contrário dela... mas esta era uma ocasião em que tinha a
intenção de permanecer firme.
Não importava se ele parecia respeitável e se tinha uma desculpa plausível. Seria tola
se lhe desse condução... Estremeceu ao imaginar o tipo de destino que poderia ter se ele
não fosse tudo o que mostrava ser.
Por sorte, mantivera o motor ligado. Olhou nervosa para trás, desejando que
aparecesse outro carro na estrada sossegada. Ele captou-lhe os pensamentos ou o
temor.
- Pelo amor de Deus, mulher! - exclamou, irado - Será que pareço um estuprador?
A maneira de falar demonstrava que, mesmo que o fosse, dificilmente a escolheria
como vítima. Sensível ao que considerava sua falta de sex-appeal, em particular quando
se comparava a Louise, que atraía homens com a maior facilidade, ela animou-se, afinal.
- Como posso saber? Nunca encontrei nenhum. - Ao notar o olhar ácido, acrescentou: Desculpe-me, mas não posso dar-lhe condução. Deve entender. Poderia levar uma
mensagem para alguém, se quiser... à polícia local?
Um vento frio se levantara e, mesmo no conforto do pequeno carro, ela se sentiu gelar.
Não era de admirar que ele, em pé, do lado de fora, estremecesse, a pele se arrepiando
toda.
Nesse momento ela quase cedeu, a natureza vulnerável, que sempre se dobrara ante
os caprichos de Louise, pedindo-lhe para ajudar o desconhecido. Mas, enquanto as
palavras se formavam em sua boca, ele se endireitou, os olhos brilhantes de raiva.
- Não, isso não será necessário - ele respondeu. Depois, cumprimentando-a com um
ligeiro aceno insolente de cabeça, continuou sarcástico: - É o que aprecio, sobretudo, no
sexo feminino: sua compaixão e sensibilidade...
Quando ela, decidida, procurava fechar a porta do carro, ele levantou a mão e a fez
parar. O contato inesperado dos dedos frios e molhados provocou um impulso elétrico
através de seu corpo, imobilizando-a, enquanto o olhava, o coração batendo como o de
um coelho aterrorizado.
- Acha que se eu tivesse intenção de fazer-lhe algum mal, não poderia já, com a maior
facilidade, tê-Ia dominado? Você sabe muito bem que eu não tenho nenhuma intenção
escusa - acrescentou, amargo. - Como o resto das representantes de seu sexo, diverte-se
em atormentar apenas pelo prazer que isso lhe dá. Um pequeno ato de caridade humana,
foi tudo o que pedi.
Sentindo a culpa crescer a cada palavra que ouvia, Harriet se encontrava a ponto de
dizer que havia mudado de idéia. Porém, ele afastou as mãos e bateu a porta do carro
com força. Ela começou a se sentir desolada e ferida, sem entender a razão desse
sentimento.
O desconhecido já lhe dera as costas e desaparecia na direção da qual viera. Por um
momento, os faróis do carro iluminaram o corpo ágil, que exalava masculinidade, e, então,
ele sumiu de vista.
Sentindo-se estremecer, numa convulsão involuntária, ela se percebeu como que
hipnotizada.
Pôs o carro em movimento aos trancos e começou a dirigir pela estrada.
Meia hora mais tarde, quando o palpitar do coração voltara ao normal, ela atravessou o
vilarejo, guiando devagar, procurando o caminho que conduzia a seu cottage.
Hesitou, imaginando se não deveria reportar o incidente à polícia. Depois,
reconhecendo que causaria mais embaraços ao homem, não parou.

Estranho... ela tinha se sentido embaraçada, não ele, admitiu contra a vontade,
lembrando-se como ficara chocada ao perceber que ele estava virtualmente nu. Curioso
comportamento humano: a visão de homens na praia usando a mais exígua roupa de
banho não chocava. No entanto, a mesma imagem, num local diferente...
Engoliu ar, nervosa, lembrando como tinha sido difícil encarar o rosto do homem sem
trair seu desconforto tolo diante de eu estado seminu. Ele é quem deveria ter se sentido
desconfortável, não ela!
E quando a dizer-lhe que a sobrinha era a responsável pela situação difícil em que se
encontrava... Ela franziu a testa, forçada a admitir que tanto a zanga como as palavras
pareciam ter um fundo de verdade.
Tivera a impressão de que ele não mantinha uma opinião muito lisonjeira sobre o sexo
feminino. Por quê? ela se perguntou. Com a aparência que tinha, com certeza devia ter
sido cercado por admiradoras durante toda a sua vida adulta.
Afinal, os faróis do carro iluminaram a casa de campo. Já estava bem escuro, e ela
desejou não ter saído tão tarde de Londres. Era deprimente chegar sozinha e sem
ninguém para dar as boas-vindas, num novo lar às escuras.
A pequena casa fora parte de uma enorme propriedade e nela habitara o guardacaças. Após a morte deste, permanecera vazia. Segundo o agente imobiliário, a divisão
das terras e dos imóveis desse enorme bem ocorrera dezoito meses atrás.
Dois fazendeiros locais haviam comprado a maior parte da terra. A casa principal e
seus arredores tinham sido vendidos para um homem de negócios da região.
Ao abrir a porta da casa e acender as luzes, Harriet respirou aliviada. O hall iluminado
ajudou a banir o senso de apreensão e culpa que sentia desde o desagradável episódio
na estrada.
Culpa... Por que deveria sentir-se culpada? Tinha oferecido ajuda... avisar a polícia...
Ficou imóvel, lembrando o amargo olhar que ele lhe lançara, a breve denúncia contra
seu sexo. Nesse momento, desejou que, não importava quem fosse ele, vivesse
bastante longe para nunca mais encontrá-Io.
Não era tão tarde. Apenas dez horas da noite. A despeito da longa viagem, a excitação
a levou a retirar a bagagem do carro, arrumar tudo e colocar a máquina de escrever na
mesa da sala confortável que também serviria como cozinha.
Começou a delinear o início de uma história que lhe ocorrera durante a viagem.
A mobília havia chegado e a transportadora instalara tudo exatamente como ela
indicara. Os últimos dias em Londres, num hotel, não tinham sido dos mais confortáveis,
mas como precisava ter uma entrevista com o editor na manhã do dia anterior, concluíra
que seria tolice se mudar e voltar a Londres para um encontro de duas horas.
Logo se concentrou no trabalho, e duas horas se passaram até que ela interrompeu a
datilografia. Seus pulsos doíam e sentia frio. Com um grande bocejo, ajeitou os papéis
datilografados e se levantou.
Hora de ir para a cama. No dia seguinte verificaria o que havia escrito.
Assegurou-se de que as portas se encontravam bem trancadas e subiu para o quarto
confortável, cujas janelas tinham beirais em declive. Delas poderia descortinar, durante o
dia, a vista maravilhosa das colinas da fronteira.
A cama moderna parecia fora de lugar num ambiente tão tradicional. Assim que tivesse
tempo, vasculharia as lojas de antigüidades procurando algo mais adequado.
O chão do quarto, em ligeiro declive, e as paredes desiguais, pediam algo pesado e fora
de moda, o tipo de cama em que se precisa subir, ornamentada como travesseiros
macios, cobertos de algodão rústico, perfumados com lavanda. Também caberia, decidiu,
um acolchoado antigo e meio desbotado.
Tudo era muito silencioso, ao contrário de Londres, onde o tráfego parecia ininterrupto.
Louise dissera com desprezo que o silêncio do campo a deixaria louca e que ela voltaria à
cidade em seis meses. Mas Harriet sabia que seria diferente. Já sentia algo indescritível

que a acalmava. Os sons vagos e abafados da casa a apaziguavam... estava
entusiasmada com a nova vida.
Franziu as sobrancelhas, lutando contra o sono. Desejaria jamais ter encontrado aquele
homem, na estrada. Sua irritação e desprezo pessoal por ela tinham atingido um ponto
fraco. A sensação habitual de sentir-se culpada a levou a imaginar se ela própria
provocara o desprezo dele; como se, ao olhá-Ia, a considerasse uma mulher em que
faltava algo. Sentimento ridículo pensou. Afinal, ele deixara bem claro que desgostava das
mulheres em geral.
Ainda tentava entender por que continuava a pensar no assunto, quando afinal
adormeceu.
Acordou de modo abrupto, confundida pelos sons não familiares e pela vivacidade de
seus sonhos. Sentia o rosto ruborizado enquanto lutava contra os pensamentos que seu
sonho provocara.
Sonhara que estivera andando ao longo de um rio, absorvida no ato de olhar a corrente,
olhos e ouvidos afinados com a vista. De repente, como saído do ar, quando ela virava
uma curva, avistou um homem aproximando-se. Vestia jeans e camisa de algodão e
olhava para ela. Com horror, ela percebeu que se exibia completamente nua.
O instinto exigia que ela se escondesse, mas era demasiado tarde, e, acima do som do
rio, ela distinguiu a voz caçoadora. "Agora é sua vez... veja como se sente...".
Estremeceu ao sentar-se na cama, tentando afastar o simbolismo do sonho. Chovia lá
fora, gotas pesadas atingiam as janelas. Talvez fosse essa a origem dos rumores do "rio"
que ouvira durante o sonho?
Zangada consigo própria por permitir que um incidente ainda ocupasse sua atenção,
quando já deveria ter sido esquecido, estendeu as pernas para fora da cama e decidiu
que já era hora de se levantar.
A companhia de transporte havia providenciado um pouco de alimento, mas necessitaria
de várias coisas para formar um pequeno estoque. Isto significaria dirigir até a cidade
mais próxima.
Primeiro, café da manhã; depois faria planos, decidiu, enchendo o filtro de café e
ligando a máquina.
Duas canecas de café e uma torrada, e ela estava pronta para enfrentar o tempo úmido
e investigar um pouco as imediações. Ao lado de seu jardim abandonado havia um campo
atravessado por um atalho que ia do vilarejo até acima, nas colinas. Harriet não pretendia
andar tão longe, mas decidiu que um pouco de ar fresco a ajudaria a começar bem o dia.
Vestindo as botas vermelhas e uma capa emborrachada amarela brilhante, com capuz,
saiu da casa.
O solo estava pegajoso e lamacento. Sentiu-se contente por ter adquirido as botas
apropriadas. O portão do jardim rangeu quando ela o abriu.
Começou a andar pela trilha no campo, subindo a colina.
CAPÍTULO II
Harriet caminhou durante cerca de meia hora sem avistar ou ouvir ninguém, o que era
pura bênção, comparado às ruas frenéticas e ocupadas de Londres, invadidas por
multidões. Havia muito tempo aprendera que era possível sentir-se solitária no meio de
uma multidão. Mas sabia bem que Louise jamais entenderia tais sentimentos.
Desejava que a irmã se desse bem na nova vida, e sentia que, desta vez, encontrara no
marido americano o homem que poderia ajudá-Ia a tornar-se ordeira e disciplinada.
Envolvida em sua brilhante capa amarela e com as botas à prova d'água, Harriet não se
incomodava com a chuva pesada e o vento frio. Deixando para trás sua casa, sorriu ao
lembrar como em Londres planejara passar as horas livres trabalhando no pequeno
jardim, para transformá-Io numa romântica área florida.
A chuva caía tão forte que tornava impossível distinguir o céu. Ela suspeitou que o

tempo continuaria igual durante o dia inteiro e que seria mais prudente, ao invés de perder
tempo andando, sentar-se à máquina de escrever. Para o primeiro dos quatro livros
encomendados pelos editores, recebera sugestões, que não seriam difíceis de realizar.
Isto não significava, contudo, que podia passar seu tempo andando sem rumo e
sonhadora debaixo da chuva, admoestou-se severa. Contra a vontade, mais por
obrigação, decidiu que era hora de voltar para casa. Haveria bastante a decorar nos
próximos doze meses, se quisesse transformar o cottage num verdadeiro lar, mas essa
tarefa reservara para os meses de inverno.
Jardinagem... decoração... solidão... transformava-se com rapidez na típica "velha
solteirona" que Louise a acusara com freqüência de se tornar. Dentro de três meses faria
trinta e cinco anos. Não era mais jovem; entretanto, a idade significava antes de tu do um
estado de espírito e, enquanto um homem de trinta e cinco e mesmo quarenta anos podia
ser considerado ainda jovem, uma mulher, mesmo nestes dias de liberação...
Parou de andar e percebeu que, de maneira insidiosa, a imagem de um homem alto, e
todo molhado, alojara-se em sua mente e se recusava a abandoná-Ia. Muito másculo...
muito zangado... um homem que, claramente, não a considerara uma mulher desejável, e
sim um objeto de irritação e desprezo.
Teria sido de fato arriscado dar-lhe condução? Um ato de boa vizinhança, significando
caridade e gentileza? Será que os anos vividos em Londres, solteira e solitária de
diversas maneiras, e com tantas responsabilidades, transformaram-na no tipo de mulher
tímida e de imaginação exagerada, que acreditava que todos os homens representavam
algum tipo de perigo?
Não gostava do quadro que seus pensamentos delineavam, e o afastou como irracional.
É claro que estivera certa em recusar o pedido. A polícia, através dos meios de
comunicação, estava sempre alertando as mulheres sobre os perigos inerentes àquele
exato tipo de situação em que ela se vira na noite passada. Não, nada tinha a se reprovar,
e no entanto... Seu devaneio foi interrompido pela aproximação de um cão da raça
labrador, todo enlameado, de cor marrom chocolate, perseguido por uma mocinha baixa,
magra e de cabelos ruivos, com a cabeça descoberta, apesar da chuva, e vestida numa
jaqueta bastante usada de cor verde, jeans velhos e botas de borracha de cano alto
verde-escuro.
- Venha já para cá, Ben - gritou para o cão, surpresa ao avistar Harriet. - Oh! Não sabia
que havia alguém por aqui; pensei que Ben estivesse perseguindo um coelho. Na
verdade, ele não os caça, apenas se diverte em persegui-Ios, mas já tenho problemas
suficientes para passar a manhã inteira atrás dele através do campo, Oh, não, Ben...
sente-se, cão malvado!
Demasiado tarde. Ben atirara-se com entusiasmo sobre Harriet, quase jogando-a ao
chão, e agora punha-se a lambê-Ia, a despeito das vãs tentativas da garota em chamá-Io.
Harriet não se importava. Amava cães. Tinha sido impossível, em Londres, possuir um,
mas talvez aqui...
- Oh, sinto muito - a menina se desculpou, aproximando-se para livrar Harriet das
carícias do animal.
Possuía olhos castanho-claros, nariz arrebitado e o tipo de sorriso caloroso que
iluminava todo o rosto. Aparentava dezesseis ou dezessete anos e provavelmente teria
um tipo de inteligência rápida que se harmonizava com seu jeito. Havia nela algo de
encantador que, no devido tempo, os homens logo perceberiam quando tivesse idade
suficiente para reconhecer seu próprio poder, Harriet refletiu, afastando com gentileza o
cão, e segurando-o pela coleira.
- Oh! Olhe o que ele fez em sua capa! - a menina exclamou, ansiosa.
À frente, o emborrachado amarelo se encontrava coberto de impressões lamacentas de
pata de cachorro, mas Harriet fez um gesto de cabeça, afastando qualquer desculpa.
- Será fácil de limpar, não é nada sério.

- Muito obrigada - a garota comentou, franca. - Só me faltava alguém se queixar de mim
para Rigg justo agora. Já estou em situação bastante difícil. - Rolou os olhos de modo
teatral e sorriu. - Bem, neste momento, eu deveria estar no quarto, contemplando meus
pecados. Já ouviu algo tão arcaico? Rigg é o fim. Já cansei de lhe dizer que sou adulta,
não uma criança.
De repente, a boca exibiu uma expressão teimosa e resoluta, trazendo uma vaga
lembrança a Harriet. Ela própria franziu a testa, mas, antes que pudesse dizer algo, a
menina falava novamente.
- Meu nome é Trixie Matthews, e este, como já deve ter adivinhado, é Ben.
Trixie. Um nome nada comum, e já era a segunda vez que o ouvia no espaço de vinte e
quatro horas... não seria mera coincidência? Seria esta a sobrinha à qual o homem que
parara seu carro na noite passada se referira com tanta fúria?
Não teria sido difícil descobrir, não com esta menina, de natureza aberta e dada a
confidências. Mas Harrie tinha algo como um código moral que a impedia de se aproveitar
da situação para fazer as inumeráveis perguntas que lhe atravessavam o cérebro. Além
disso, que importância tinha? O incidente da noite anterior já ocupara demasiado seus
pensamentos.
Dando à menina um sorriso ao mesmo tempo educado e "dispensador", virou-se
decidida a voltar para casa. Tal sorriso, aperfeiçoado por vários anos, mantivera as
pessoas a distância, mas com a menina não funcionou, pois passou a acompanhá-Ia na
volta. Ben; o cão labrador, tendo desviado a atenção de sua dona para a estranha,
passou à frente delas, farejando o solo.
- Pretende ficar na aldeia? - Trixie perguntou, interessada. - Não que tenhamos tido um
grande verão este ano. - Fez uma expressão amuada. - Já cansei de dizer a Rigg que
necessito de férias apropriadas. - Lançou a Harriet um sorriso travesso. Ele é tão
antiquado... Montes de jovens de minha idade já estão vivendo por conta própria. Que
importância há em sair de férias com uma amiga e sua mãe?
Harriet reconhecia que isso ocorria com muitas mocinhas, mas não com esta, cujas
palavras e gestos revelavam quão protegida e cuidada devia ser.
- Onde está se hospedando? No Staple?
O Staple era o pub antigo da aldeia. Sua história remontava aos tempos em que o lugar
servia como posto de parada para os pastores que criavam os rebanhos nas colinas da
fronteira e os conduziam ao sul da Inglaterra. Muitas vezes o pub, além de bar típico nas
cidades inglesas, oferecia acomodações para os viajantes.
- Não... na verdade, não sou uma visitante. Acabei de me mudar para cá, vinda de
Londres.
- Mudou-se para cá? - A expressão de Trixie mostrava óbvia surpresa. - Vinda de
Londres! Deve ter sido você quem comprou o velho cottage do guarda-caça. Rigg contou
que fora vendido. Para uma professora. - A menina franzia a testa.
- Costumava ensinar. Agora parei - Harriet respondeu, sem querer. De natureza
reservada, julgava que não devia se abrir ou se justificar perante estranhos.
Não comentou sobre sua atividade atual e a expressão de Trixie desapareceu,
substituída por um amplo sorriso.
- Ainda bem, caso contrário Rigg tentaria persuadi-Ia a me dar lições extras durante as
férias. - Novamente pôs-se amuada. - Ele quer me manter ocupada. Só porque meus pais
estudaram em Oxford. - Fez uma careta. - Estou sempre dizendo a Rigg que eles foram
brilhantes, mas que eu não sou. Você não acha que com quase dezoito anos, já tenho
idade suficiente para passar as férias com uma amiga e sua mãe, sem que Rigg
considere isso um ultraje? - perguntou, indignada.
Harriet, que suspeitava haver algo por trás de tudo, tentou oferecer uma observação
paliativa...
- Talvez seu tio tenha alguma razão para recusar a permissão...

- Recusar! Pensei que ele teria um ataque - Trixie relatou, sombria - e tudo por causa de
um tolo engano. Tentei explicar-lhe o que acontecera, só que ele não quis ouvir. Tentei
então mostrar-lhe como qualquer circunstância pode ser mal interpretada. Ele não quis
compreender o que eu estava tentando provar, ficou furioso comigo...
Os olhos cor de avelã brilhavam de indignação e Harriet sentiu uma súbita simpatia por
Rigg. A responsabilidade sobre uma garota como essa podia não ser muito fácil.
- Suponho que seja melhor eu voltar antes de ele descobrir que fugi. - Trixie suspirou. É claro que ele não seria dessa maneira se não fosse tão mis... tão miso... você sabe,
esse tipo de homem que detesta as mulheres - elucidou, deixando Harriet suprir a palavra
correta.
- Você quer dizer misógino.
- Mmm... e tudo porque uma mulher o abandonou anos atrás - Trixie contou, exibindo o
desprezo da juventude.
Harriet sabia que não deveria estar prestando atenção ao que a garota dizia. Nem devia
querer ou encorajar a próxima confidência.
- Bem... não deve ter sido muito agradável ser deixado à beira do altar, por assim dizer Trixie concedeu.
Abandonado no altar! Harriet piscou, imaginando se não se precipitara em conclusões
erradas quanto à identidade do tal Rigg. Não podia imaginar nenhuma mulher
abandonando o homem que vira na noite anterior.
Já avistava sua casa e, culpando-se por não ter interrompido as confidências de Trixie,
sorriu para a menina e comentou suavemente:
- Foi muito bom conhecê-Ia... Espero que Rigg não fique demasiado zangado quando
descobrir que saiu, apesar da proibição.
- Oh, ele não fica zangado. Ele apenas olha para você... sabe, como se fosse a mais
ínfima criatura. Suponho que, em verdade, eu o provoco um pouco. É o que a Sra.
Arkwright, nossa governanta, costuma dizer. Ela acha tudo de bom em Rigg. E de mim
pensa o contrário. Ouvi-a comentar com o marido, que é jardineiro, que Rigg era um santo
por tomar conta de mim após a morte de meus pais... Um santo! É mais um monstro Trixie acrescentou, ácida. - Parece que ele não entende que tenho quase dezoito anos.
Gosto muito de sua roupa, a propósito - acrescentou, inconseqüente. - Rigg teria um
ataque se eu comprasse algo do gênero.
Contemplou com rebelião as próprias roupas, bastante úteis e adequadas para a vida
no campo, e ocorreu a Harriet que, se estivesse usando suas roupas sóbrias normais, a
garota jamais teria sido tão franca com ela.
Sentiu uma pontada de culpa. Não deveria ter permitido a Trixie falar tanto. Rigg! Era
um nome incomum. Ela ansiava saber algo mais, e a menina responderia a qualquer
pergunta. Mas resistiu com firmeza à tentação.
Separaram-se no portão do jardim de Harriet. Mais tarde, trabalhando no esboço do
novo livro, Harriet não conseguiu impedir que uma trama secundária se inserisse,
envolvendo uma menina esguia de cabelos vermelhos e de olhos cor de avelã, aspecto
confiante, e um tio que era um verdadeiro bicho-papão.
Antes de o dia terminar, descobriu que o livro mudara de direção, e que a trama tinha
sido dominada pelos novos caracteres.
Às quatro horas da tarde, lembrou-se de que pretendera fazer compras.
O centro comercial ficava a pelo menos três quartos de hora de carro. Tinha comida
suficiente para a noite. Olhou para o telefone, tentando imaginar a diferença horária entre
a Inglaterra e a Califórnia, imaginando se devia telefonar a Louise e verificar se tudo ia
bem em sua vida. Depois desistiu, concluindo que Louise, uma mulher adulta, tinha
também um marido que podia tomar conta dela. Todas as vezes que pensava em Louise,
era em termos de protegê-Ia. No entanto, em verdade a irmã se revelara muito mais
resistente que ela mesma, mais adaptável e capaz de tomar conta de si própria. Ao

menos do ponto de vista emocional.
Enquanto Harriet afastava a máquina de escrever, um sentimento novo de felicidade a
acometia. Liberdade para ser o que quisesse, fazer o que bem entendesse, sem
pressões sobre seu tempo ou suas emoções, sem a necessidade de colocar outros em
primeiro lugar. Aproveitando essa sensação, pôs as botas e saiu para o jardim, onde
passou uma hora bastante proveitosa, removendo as ervas daninhas que invadiam o
caminho entre o portão da frente e a casa. Afinal, o anoitecer precoce forçou-a a entrar.
O trabalho no jardim lhe abriu o apetite. Tomou um banho e foi preparar uma refeição.
As pesadas nuvens de chuva haviam produzido penumbra mais cedo do que o
esperado e, tendo ouvido as notícias sobre a previsão do tempo, anunciando que a chuva
continuaria por alguns dias ainda, Harriet deitou-se. Abriu um livro de encadernação de
luxo de um de seus autores favoritos, com o qual se presenteara.
No entanto, desta vez, o autor falhou em ocupar sua atenção, e sua mente começou a
vagar... lembrava-se do encontro com Trixie Matthews e com o tio, este na noite anterior.
"Trixie", ele dissera, antes de perceber o erro, zangado, mas com voz resignada. Pobre
homem, não devia ser fácil assumir o papel do responsável por uma adolescente tão
espirituosa.
Começou a imaginar como uma garota empreendedora e imaginativa como Trixie teria
conseguido envolver o tio numa situação tal em que ele ficara quase nu e sem transporte,
numa noite fria e longe de casa! Acabou adormecendo, com um sorriso nos lábios.
Bem, todos os supermercados se assemelhavam em qualquer parte do país, Harriet
refletiu, cansada, enquanto pegava o recibo com a mocinha do caixa. Conduziu seu
carrinho para fora, no sombrio dia molhado de outono, aproximando-se do carro
estacionado.
Se o dia fosse mais agradável, ela se sentiria tentada a explorar um pouco mais a
cidade, mas a chuva caía pesada e ela gelava com o vento frio. Tanto melhor para as
frutas de outono, pensou, colocando as compras no carro.
As colinas da fronteira se exibiam geladas e estranhas no caminho de volta para casa e,
dentro do carro aquecido, Harriet estremeceu. Não invejava ninguém trabalhando nas
colinas num dia como esse. Os próprios carneiros se protegiam da chuva com a espessa
pelagem e a camada de pele oleosa. Mas os pastores e seus cães...
O vilarejo deserto recordou-lhe as palavras do agente imobiliário: às terças-feiras tudo
fechava cedo. Sorriu para si mesma ante a idéia de todo o comércio cerrar as portas.
Vivendo em Londres, quase se esquecera de que esse tipo de coisa existia. Brecou o
carro, permitindo que um senhor idoso atravessasse vagarosamente a estrada, e ficou a
observá-Io desaparecer dentro da antiquada cabine de telefone. Que bom viver ali,
pensou.
Em casa, por fim, estacionou o carro próximo à porta traseira, de forma a facilitar o
transporte das compras. Entrou, depositou a bolsa e a chave sobre a mesa e voltou
correndo ao carro para apanhar os sacos do supermercado.
A batida da porta, enquanto se dirigia ao carro, não significou nada, até que ela voltou,
os braços carregados de compras. Descobriu que não adiantava tentar mover a
maçaneta. A porta trancara-se por dentro ao bater.
Apoiou os sacos no chão e tentou de novo. Percebeu, tarde demais, que não destravara
a fechadura depois de abrir a porta. As chaves estavam trancadas dentro da casa, e ela e
as compras, fora.
Permaneceu alguns momentos contemplando, desanimada, a porta fechada, até
perceber que principiava a ficar completamente molhada. Olhar a porta e esperar que
abrisse pela simples força de vontade não ia funcionar e, treinada na cidade grande, tinha
se certificado, antes de sair, de que todas as janelas da casa ficassem bem trancadas.
O que deveria fazer agora?
O agente! Talvez tivesse uma chave extra. Se não, poderia recomendar um chaveiro...

Resmungando sozinha, apanhou os sacos encharcados e os recolocou no porta-malas,
agradecida por não ter tido tempo de guardar as chaves do carro junto com as da casa.
O telefone mais próximo ficava na aldeia e, ao pensamento de que, não fosse o carro,
teria de caminhar os três quilômetros para lá, debaixo de chuva, vestida apenas com uma
jaqueta de lã e sapatos mocassim, a fez estremecer.
O vilarejo parecia vazio. Precisou verificar na lista telefônica de uma cabine para
conseguir o número do agente. Por sorte, lembrava-se de seu endereço e do nome.
A secretária ouviu o problema com simpatia, mas contou-lhe que ele se encontrava fora
e não voltaria antes de uma hora.
- Espere um momento - pediu, antes de Harriet desligar. - Parece-me que havia uma
chave de reserva na mansão, pois costumavam visitar o lugar enquanto estava vazio. Por
que não telefona para eles e verifica?
Harriet agradeceu e disse que preferia ir direto para lá, de carro, acreditando que seria
mais rápido descobrir por conta própria.
Sabia onde ficava, pois o agente lhe havia apontado o impressionante portão de ferro
fundido, na frente da estrada principal, a alguns poucos quilômetros de sua casa.
Agradeceu à moça pela ajuda e correu para o carro, rezando para que na mansão
houvesse a chave de reserva, que não a tivessem ainda remetido ao agente. Ficou grata
por não ter trocado as fechaduras, como pretendera fazer.
Amaldiçoando-se pela própria estupidez, dirigiu de volta, ultrapassou a entrada do
cottage e dirigiu-se para os portões bem cuidados, com ponteiras douradas e um escudo
magnífico.
O homem que comprara a mansão, num estado de abandono completo, aliás, tinha sido
quase tão estranho na área quanto ela mesma. Era um homem de negócios de sucesso,
cujos ancestrais tinham vivido nesta parte do mundo. O agente também relatara que o
comprador não apenas se mudara para a mansão, como também transferira seus
negócios para a região, abrindo uma nova fábrica na pequena área industrial adjacente à
cidade comercial. Trabalhava no ramo de computação.
Harriet não tecera comentários sobre a maneira de ganhar a vida. O agente, apesar de
bem-intencionado, não resistia a discutir a vida de seus clientes, e ela se sentia ainda
muito insegura da própria habilidade como novelista. Só o futuro decidiria se poderia ser
considerada uma escritora e não apenas a autora de um único livro.
Precisava sair do carro para abrir os portões, mas ficou aliviada ao descobrir que não
eram eletronicamente controlados. Não se importou com o desconforto de ficar ainda
mais molhada.
Seu casaco fino, adequado apenas para usar no carro e no supermercado, estava
ensopado; a umidade penetrava a camiseta que usava embaixo, tornando a pele
pegajosa.
Também o jeans se encontrava molhado, o brim pesado, irritando as pernas cada vez
que ela mudava de marcha.
A mansão não se exibia como o edifício imponente que ela antecipava. O velho
casarão alongado e baixo, de período similar ao de sua própria casa, apesar das pedras
das paredes encharcadas pela chuva pesada, ainda exalava um ar de boas-vindas e
tranqüilidade.
A aparência acolhedora e a beleza da construção deixaram-na sem respiração por um
momento, no qual ela esqueceu o desconforto das roupas molhadas e até mesmo a
irritação de se trancar fora do cottage e o embaraço de anunciar sua situação aos
estranhos que ali viviam.
Enquanto saía do carro e se encaminhava para a antiga porta de carvalho, viu-se
invejando quem vivia em tal lugar, não por causa do tamanho da casa e da privacidade
que ofereceria a quem ali habitasse, mas pela maravilhosa aura de paz e felicidade que
irradiava.

Alguém abria a porta. O rosto familiar de Trixie, sorridente, a saudou. A mocinha não
parecia surpresa em vê-Ia aparecer.
Ben, o labrador, a saudou, barulhento, e Trixie o puxou para dentro.
- Que bom que tenha vindo - Trixie cumprimentou. - Andava tão entediada. - Virou os
olhos e riu. - Rigg proibiu de modo terminante que eu saia de casa.
Estavam em pé, num hall quadrado agradável, coberto de painéis de madeira, com uma
enorme lareira de pedra em que o fogo crepitava.
Ben, cumprida a saudação, afastou-se para frente da lareira, onde se deitou com um
suspiro de prazer.
Uma escada de carvalho antigo conduzia ao mezanino, onde havia uma galeria de
quadros. Ao longo da própria escadaria se alinhavam pinturas que pareciam originais e de
bom nível.
Cortinas de damasco pesado cobriam as janelas, o rico tecido acrescentando um
brilho extra de conforto à sala. Tardiamente, Harriet percebeu que permanecia em pé
sobre um antigo tapete que, com certeza, não se destinava a receber água de chuva ou
lama de sapatos encharcados.
Ela começou a gaguejar desculpas, mas Trixie apenas riu.
- Entre. Estou morrendo de vontade de apresentá-Ia a Rigg. Ele sempre se queixa de
que nunca faço amigos respeitáveis...
Harriet sentiu-se paralisar de embaraço. Assumira que o tio de Trixie não estaria em
casa, e sim no trabalho. Se se tratava do mesmo homem com quem tivera o difícil
confronto no outro dia, reencontrá-Io, em particular nestas circunstâncias, não
convidada e nem bem-vinda a seu lar, mas antes como uma suplicante...
- Oh, não, por favor, não há necessidade de perturbá-Io. Tenho certeza de que ele
está muito ocupado - ela protestou, apanhando o braço de Trixie e acrescentando,
desconfortável: - Na verdade, não vim fazer uma visita, Trixie. Nem sabia que você vivia
aqui. Embora devesse ter imaginado, pensou. Pela conversa podia já ter concluído que
ela provinha de uma rica ascendência. Tal fato, associado ao que o agente contara
sobre o proprietário da mansão, resultavam que aquela deveria ser a casa da garota.
Trixie olhou para ela com a expressão um pouco anuviada.
- Não veio mesmo para me ver?
Rápida, Harriet explicou como se trancara fora da própria casa.
- Telefonei ao agente de quem adquiri a casa e a secretária me disse que costumava
haver uma chave de reserva aqui. Nenhuma das duas notou que alguém entrava na
sala.
- Não sei nada a respeito. Preciso perguntar a Rigg.
- Precisa me perguntar o quê, Trixie? - a voz masculina fez se ouvir bem nítida,
provocando arrepios de desespero na coluna de Harriet.
Sem o desejar, voltou-se para a porta, e sentiu o coração parar de bater ao contemplar
o homem ali em pé. Ele parecia familiar e, ao mesmo tempo, muito diferente, no terno de
trabalho formal e na imaculada camisa branca.
Os cabelos negros, não mais úmidos nem colados à cabeça, mas bem cortados e
escovados, pareciam acentuar a masculinidade do rosto à luz do dia. Ela pensou notar
uma sombra de cinismo na expressão dele.
- É Harriet - Trixie apresentou-a. - Ela se trancou fora do cottage e pensou que
tivéssemos uma chave extra.
Por um momento, pela maneira como ele a olhou de relance, e depois se voltou para a
sobrinha, Harriet julgou que ele não a reconhecera.
Surpreendeu-se com a força da mágoa que sentia ao perceber que ele não se
lembrava, enquanto de sua parte a recordação era bastante viva.
- Tente uma explicação mais lógica, Trixie - ele sugeriu, calmo. Apesar de Trixie fazer
uma pequena careta, ficava óbvio que a menina respeitava muito o tio, pois, após uma

rápida olhada para Harriet, disse, rápida:
- Esta é Harriet, Rigg. Encontrei-a ontem... Ela vive no cottage do guarda-caças. Harriet,
este é meu tio.
- Obrigado, Trixie, a Srta. Smith e eu já nos encontramos.
Harriet sobressaltou-se. Enganara-se. Ele a havia reconhecido. Mas como descobrira
seu nome?
- Oh, já se conheciam? - Trixie olhou espantada para ambos e disse a Harriet: - Você
não me contou que já conhecia Rigg.
Foi Rigg quem respondeu, em voz suave:
- Talvez o incidente não seja do tipo que ela se importe de lembrar. A Srta. Smith foi,
receio, a vítima infortunada de seu comportamento maluco no outro dia. Ela tem a
infelicidade guiar um carro da mesma marca e cor que o seu. Quando emergi do rio, vi o
carro se aproximando, e pensei, por um momento, que você tinha retomado o bom senso.
Olhando para Trixie, Harriet percebeu que a mocinha, nada arrependida, tentava
reprimir uma risada. E era óbvio que o tio não partilhava da diversão. Ele as olhava com
ar sombrio.
- Oh, Harriet, não! Foi você quem recusou dar uma carona para Rigg? - Trixie
engasgou, antes que a alegria a sobrepujasse. - Veja, funcionou afinal, Rigg! - gritou em
triunfo para o tio. - Evidência circunstancial... e aposto que Harriet não acreditou...
- O que a Srta. Smith acreditou foi que eu era ou um lunático ou um estuprador, ou
talvez ambos - Rigg interrompeu, ameaçador.
- Oh, Harriet, que formidável de sua parte, recusar dar-lhe uma carona. - Os olhos de
Trixie exprimiam toda a alegria que sentia.
Mas Harriet não podia partilhar de sua inocente diversão. Então fora Rigg quem lhe
solicitara um favor e ela recusara, como também recusara ajudá-Io ou assisti-Io. Agora, as
posições de ambos estavam invertidas, quem necessitava de ajuda era ela.
Desejou que fosse qualquer outra pessoa a quem precisasse recorrer, e não esse
homem frio e austero. E, mais que isso, desejava que sua imaginação não escolhesse
justo esse momento para se mostrar rebelde e perigosa, insistindo em substituir a roupa
imaculada de negócios e a camisa branca pela vívida memória de como o vira iluminado
pelos faróis do carro, vestindo quase nada...
- Desculpe-me se os importunei - ela engoliu em seco, mas o agente disse que havia
uma chave de reserva do cottage aqui. Vocês ainda a possuem?
CAPÍTULO III
Harriet sabia da resposta antes de ouvi-Ia. Percebera no rápido brilho de satisfação que
iluminou os olhos de Rigg, provocando uma faísca dourada. Assim, não ficou surpresa
quando ele falou:
- Infelizmente foi devolvida ao agente por minha secretária alguns dias atrás. Com toda
probabilidade, está ainda no correio.
Ela não tinha a menor dúvida de que ele dizia a verdade. Não era um homem que se
degradaria para nenhuma finalidade, nem mesmo para retribuir algo. Harriet franziu as
sobrancelhas, sem perceber que o fazia, concentrando-se na insistência aguda das
sensações que a presença dele lhe provocava. Por que achava conhecê-Io tão bem? Não
era um conhecimento bem-vindo, ao contrário, demasiado perigoso, ameaçador...
Percebendo que tanto ele quanto Trixie a olhavam, sorriu polida a ambos, o "sorriso de
afastar estranhos".
- Oh, mas, Rigg! Com certeza, você pode ajudar! - Trixie insistiu, olhando de um para
outro, sentindo o atrito entre ambos.
- Não... - Harriet protestou rápida. - Não achei que haveria chance de ainda disporem da
chave, mas valia a pena tentar.
VoItou-se para partir, consciente de sua aparência descuidada, em contraste direto com

a do homem que a observava. Também sentia uma intensa reação, muito feminina, que a
presença dele suscitava. Por um momento imobilizou-se, rejeitando tudo aquilo.
Consciência sexual de Rigg Mattews? Ridículo. Refletiu sobre sua vida passada,
ocasiões em que ansiara sentir exatamente aquele tipo de resposta aos homens gentis e
generosos com quem saía de vez em quando... que ela tanto procurara sentir por Paul e
nunca conseguira.
Decidira já, havia anos, que não se enquadrava no gênero de mulher muitas vezes
descrito em romances, aquelas que usufruíam, ou se permitiam, intensa correspondência
sexual. E de repente, do nada, nas circunstâncias mais inesperadas e indesejáveis, ali
estava tal sensação aguda e dolorosa, bastante poderosa para manter seu corpo imóvel.
O medo de que ele reconhecesse aquele breve momento de excitação foi suficiente
para fazê-Ia andar em direção à porta, ansiosa para escapar de sua presença tão rápido
quanto possível.
Mas Trixie a seguiu e, quando ela estava para sair, a garota, ofegante, segurou-a pelo
braço.
- Não, espere... tenho certeza de Rigg pode fazer alguma coisa para ajudar.
A mocinha olhou suplicante para o tio e Harriet percebeu que, apesar das críticas e da
rebeldia que manifestara no outro dia, ela o amava e confiava nele. O rosto expressava a
certeza de que quaisquer problemas poderiam ser resolvidos pelo tio. Harriet invejou-a
por um momento, pois em toda sua vida não tivera em que se apoiar.
Louise tinha sido a favorita dos pais e desde pequenina Harriet precisara enfrentar
sozinha seus problemas.
Reconhecia, porém, ser bom possuir autoconfiança e que saber resolver os próprios
problemas não criava dependência. Com maior polidez tentou recusar.
- É muito gentil de sua parte, Trixie, mas tenho certeza de que seu tio será o primeiro a
concordar que não pode fazer nada.
Adotara a voz ríspida e firme que costumava usar na escola para se manter isolada e
não permitir que os outros ousassem se aproximar.
- Vou tentar encontrar um chaveiro. Guiarei até Hawick e...
Uma série de súbitos e incontroláveis arrepios a sacudiu, seguida por espirros fortes.
Um resfriado! A última coisa de que necessitava, bem nesse momento.
Sem voz, procurou no bolso pelo lenço, e então ouviu Rigg comentar com frieza:
- Posso oferecer uma sugestão... Lembro-me de que o cottage tem uma pequena janela
no sótão.
- Sim - Harriet concordou. Voltara-se para ele e o olhava, arrependendo-se em seguida.
Apesar de toda a austeridade e aparência distante, ele era o homem mais bonito que
jamais encontrara. Imaginou a loucura da moça que o deixara esperando no altar e
admoestou-se. Um coração afetuoso e uma mente generosa eram atributos mais
importantes que boa aparência, e a evidência parecia demonstrar que Rigg não era
dotado de nenhuma dessas qualidades.
- Sim... sim, há - ela respondeu como um autômato, mas...
- Ia sugerir que seria uma idéia quebrar aquela janela. Poderia poupar tempo. - Ele a
olhou de alto a baixo, de uma maneira que a fez sentir-se humilhada. Seu nariz devia
estar vermelho, os cabelos escorridos, o jeans encharcado e colado às pernas.
Estremeceu uma segunda vez. E não pôde precisar se isso se devia ao fato de se
encontrar fria e molhada, ou... Percebeu a boca de Rigg se apertar, com desagrado, sem
dúvida, e então lembrou-se com desconforto de como o deixara em pé, quase nu, sem
abrigo próximo, numa noite fria e úmida.
Forçou-se a exibir outro sorriso polido.
- O sótão. Sim, bem, obrigado. Tentarei por lá.
O olhar que ele lhe lançou a fez sentir-se com a idade de Trixie.
- Não conseguirá nada sem uma escada e alguém para segurá-Ia - ele afiançou.

Depois, sem desviar os olhos, acrescentou: Trixie, vá à cozinha, por favor, e pergunte a
Sra. Arkwright se pode arranjar uma bebida quente para nossa convidada. - E então,
sabendo que ela ia protestar, continuou inexorável: - E, depois, talvez possa levar Harriet
lá para cima e encontrar algo seco para ela vestir. Enquanto isso, Tom e eu iremos até o
cottage e veremos o que se pode fazer para entrar.
Harriet sentiu-se enfraquecer. Com um golpe de mestre, fora reduzida à idade de Trixie
ou ainda menos, e também ficara bem evidenciada sua própria falta de solidariedade
quando se recusou a ajudá-Io.
Embaraçada e zangada consigo própria, imaginou se ele de início não a fizera crer que
se recusaria a ajudá-Ia por mera retaliação. Agira, porém, com o maior cavalheirismo,
deixando-a com sensação de culpa.
Ora, não tinha a menor intenção de aceitar sua caridade. Abriu a boca para recusar,
mas espirrou de novo.
Enquanto assoava o nariz, ele partiu e Trixie estava a caminho da cozinha.
Meia hora mais tarde, Harriet se observava na camiseta fora de medida que Trixie lhe
emprestara e no jeans ultra-apertado. Secara os cabelos e os deixara soltos, caindo sobre
os ombros, num desarranjo sedoso.
A Sra. Arkwright insistira em dar-lhe uma tigela de sopa deliciosa. Harriet não
conseguira resistir, sentindo-se grata e aquecida.
A governanta de Rigg se mostrava uma senhora agradável, de aparência caseira.
Confessou a Harriet que a Srta. Trixie às vezes dava trabalho, mas que o Sr. Rigg era o
empregador mais silencioso que conhecera.
Percebendo que a velha senhora estava curiosa sobre ela, Harriet sentiu-se obrigada a
relatar um pouco de sua história.
- Londres... - comentou, abanando a cabeça com desagrado. - Nunca pude
compreender como alguém quisesse morar num lugar como aquele. Aqui ainda se pode
respirar com decência, se entende o que quero dizer.
Harriet compreendia, e de repente viu-se confidenciando a simpática senhora como se
entusiasmara ao conseguir realizar o sonho de viver no campo.
Trixie, que deixava a cozinha para atender um telefonema de amigas, voltou quando
Harriet explicava de que modo o casamento de Louise a libertara, permitindo-lhe vender
o lar em Londres e se mudar para o norte.
- Deixar Londres? Você devia estar louca - Trixie afirmou sem hesitar, fazendo Harriet
sorrir e a Sra. Arkwright mostrar toda a desaprovação que sentia. - Era Eva ao telefone contou-lhes. - A mãe dela convidou-me a passar as férias de Natal com elas. Disse-lhe
que ainda estou tentando convencer Rigg.
- Ora, Srta. Trixie sabe muito bem que ele jamais dará permissão - a Sra. Arkwright
advertiu, acrescentando para Harriet: - Não o censuro, aliás. A Sra. Soames não é
companhia apropriada.
Trixie fez um muxoxo de desgosto.
- O problema com Rigg é que ele não entende o que é a vida moderna - ela se queixou
para Harriet. - Ele ainda vive na Idade Média - terminou com tristeza.
Lembrando as próprias disputas que tivera com Louise, Harriet sentiu uma simpatia
momentânea por Rigg. Não que desejasse tal sentimento, pois solidariedade por aquele
homem representava perigo. Quanto mais o conhecia, mais espaço ocupava em seus
pensamentos. Além disso, era óbvio que Trixie possuía uma natureza gentil e doce, que
em nada se assemelhava à de Louise.
- Não se preocupe - Trixie tentou confortá-Ia enganada por sua expressão. - Rigg
encontrará seu caminho de alguma maneira. - Olhou para fora da janela da cozinha e fez
uma careta.
- Olhe para aquela chuva. Nem tivemos quase verão e fui informada na semana
passada de que teremos logo um inverno bastante severo. John Beard foi quem me

contou. Ele costumava ser pastor, mas agora está aposentado - explicou a Harriet. Gostaria que Rigg me deixasse ir esquiar com Eva e a mãe. Necessito de férias!
Harriet riu, mas a Sra. Arkwright não se deixou tocar e falou com severidade:
- Se perguntar minha opinião, acho que é seu tio quem precisa de férias.
- Bem, nada impede que ele nos acompanhe. Já lhe perguntei se gostaria de vir, mas
sabe como ele é. Disse que estava muito ocupado!
- Não é de surpreender que Rigg não confie na Sra. Soames - a Sra. Arkwright explicou
a Harriet. - Deixar o namorado dela trazer Trixie para cá, dirigindo quando havia bebido!
Não censuro Rigg por ter se zangado, em particular quando a Sra. Soames prometera
que ela mesma a traria para casa às onze horas da noite. Já eram duas da manhã
quando você voltou - a senhora se dirigia diretamente a Trixie agora, e eu confiaria
naquele namorado dela tanto quanto num cão raivoso.
Houve um silêncio carregado. Trixie olhou desafiadora para a governanta, e, quase sem
perceber o que estava fazendo, Harriet interveio no silêncio desconfortável.
- Espero que tenha havido uma boa razão para a Sra. Soames não ter trazido Trixie de
volta na hora combinada - ela comentou, calma.
- Sim, havia - Trixie interrompeu, ansiosa.
- Mas também é fácil entender por que seu tio ficou zangado - Harriet completou.
O rosto de Trixie mostrou de novo desânimo. Dizendo a si própria que o assunto não
lhe dizia respeito, Harriet pôs-se alerta ao ouvir um carro chegar.
- Deve ser Rigg - Trixie anunciou, a zanga logo esquecida, enquanto corria para a porta.
- Espero que ele tenha conseguido entrar na casa.
Harriet também o desejava.
Quando os dois homens entraram na cozinha, ela olhou de relance para Rigg. Tinha um
pequeno corte na mão esquerda e um pouco de hera presa na manga do paletó. Sem
perceber o que fazia, mordeu o lábio inferior, sentindo a tensão no corpo endurecido.
- Conseguiu entrar, Rigg? - Trixie perguntou-lhe.
- Sim. - Ele se voltou para Harriet e disse, com dureza: Precisará colocar uma fechadura
na janela do sótão depois que a tiver substituído. Não tenho certeza se seu seguro cobre
esse tipo de reparo.
Colocou a mão no bolso e estendeu-lhe as chaves, sorridente agora.
- Pregamos uma tábua na janela que quebramos, o que poderá agüentar por uns
poucos dias. Mas aconselho-a a mandar reparar o mais rápido possível. O boletim
meteorológico rural prevê que a área será atingida por ventos fortes na próxima semana.
Harriet apanhou as chaves, sentindo-se como uma criança castigada. Precisou de
todas as forças e de um apelo à sua maturidade para conseguir dizer em voz firme:
- Obrigado pela ajuda. Foi estupidez trancar-me do lado de fora, mas não me falta bom
senso por completo. Mandarei consertar a janela tão cedo quando possível.
Ela ainda estava franzindo o rosto, e demorou a perceber que ele olhava seu corpo. De
imediato, tomou consciência do visual que apresentava nas roupas emprestadas de
Trixie, os cabelos soltos nas costas, mais como uma adolescente do que como uma
mulher sensata de quase trinta e cinco anos.
A garota começou a falar ao tio, relatando o telefonema que recebera. Ele se voltou
para ela, e Harriet aproveitou a ocasião e se afastou, encaminhando-se para a porta.
Quanto mais cedo voltasse à própria casa, longe daquela presença perturbadora,
melhor. Precisaria devolver as roupas de Trixie, mas telefonaria primeiro e tentaria se
certificar de que Rigg não estaria em casa.
Trixie o descrevera como um misógino. Era um homem inteligente, e com certeza sabia
do efeito que provocava nas pessoas do sexo feminino. Ela não desejava que ele
interpretasse suas visitas à casa como um modo de chamar-lhe atenção.
Sempre sensível ao que dizia respeito à própria aparência e ao que imaginava ser falta
de sexualidade pessoal, Harriet podia imaginar o que um homem tão másculo e rico

pensaria de uma mulher como ela. Desde que passara da casa dos trinta anos, sofrera
tantas insinuações de Louise sobre seu estado solitário e assexuado, que não alimentava
quaisquer ilusões sobre como outras pessoas a viam.
Programada pelos pais para se imaginar inferior em feminilidade à irmã, não tinha
consciência de que sua atitude fria é que a distanciava do mundo em geral e do sexo
masculino em particular. Fora sua conduta de extrema reserva que a levara ao celibato, e
não, como acreditava, falta de algo intrinsecamente feminino.
Quando descontraída, revelava-se muito atraente, sem ter a menor idéia, feminina e
delicada, com um tipo de vulnerabilidade que apelava ao básico instinto masculino de
conquista.
Rigg concentrara-se na conversa da sobrinha. Sem dúvida, ansiava que ela partisse,
refletiu, e precipitou-se para a porta, movendo a maçaneta.
Para seu assombro, ele comentou:
- Acompanharei você até em casa. Está ficando escuro, e, apesar de termos fechado a
casa o melhor que pudemos, nos dias de hoje nunca se sabe quem pode estar rondando
por aí. As madeiras que colocamos para tapar a janela não impediriam a entrada de um
intruso.
- Oh, não, estarei bem, com certeza. Já causei demasiado incômodo.
- Não adianta - Trixie a advertiu. - Rigg acha que as mulheres não são capazes de
tomar conta de si próprias.
Seu queixo o desafiava, agressivo, mas Rigg não se importou com o comentário e
seguiu Harriet. Ela não teve escolha, e se encaminhou para o carro.
Notou que ele possuía uma caminhonete prática e muito forte, um Range Rover. Ela
gostaria de ter a oportunidade de se desculpar por não tê-Io ajudado na noite em que se
haviam encontrado, mas não seguiriam no mesmo carro. E, de qualquer maneira, não
conseguiria articular nenhum som.
Na presença dele, sentia-se atrapalhada, como se trocasse os pés pelas mãos. Ele lhe
despertava sensações jamais conhecidas; apavorava-se com o fato de ele poder
identificá-Ias e defini-Ias. Não podia entender a si própria. Tão estranho, tão novo, esse
tipo de reação, que ela não sabia como se comportar. Ele, com certeza, não encorajara
nada do que ocorria, bem ao contrário.
Em circunstâncias normais, era motorista competente. Nervosa, deu a partida de mau
jeito e mudou de marcha com dificuldade. Seu rosto ardia à idéia de que Rigg a
observava. Afinal, colocou o pequeno carro em movimento e dirigiu em direção à sua
casa.
As nuvens pesadas de chuva haviam provocado uma penumbra precoce, e o cottage,
cercado de árvores, parecia escuro e solitário.
A primeira coisa que faria, no dia seguinte, seria providenciar algumas chaves de
reserva. Ao sair do carro, avistou Rigg também. Sentiu os joelhos tremerem enquanto se
forçava a agradecer-lhe pela ajuda providencial. Não conseguia encará-Io de modo
adequado. Ele tinha todas as razões para lhe negar socorro, e no entanto agira
generosamente.
Ele trouxera uma lanterna de seu Range Rover e dirigiu o foco de luz para o alto,
iluminando as tábuas que colocara na janela quebrada do telhado.
- Parece que está tudo em ordem - anunciou. - Mas se quiser que eu entre e verifique...
- Não, não, isso não é necessário - Harriet apressou-se em dizer, afastando-se dele tão
rápida que escorregou e perdeu o equilíbrio.
Rigg reagiu de imediato, largando a lanterna e ajudando-a a se firmar, segurando-lhe os
braços.
Além do choque do contato físico inesperado, ela sentiu de um só golpe sua força. Ele a
levantou sem esforço, como se ela fosse ainda uma criança. Então se lembrou do corpo
saudável abrigado no terno bem talhado. Era do tipo atlético.

Como se reconhecesse a reação dela, Rigg apertou-lhe por um momento os braços. Os
faróis do Range Rover iluminavam o perfil bem demarcado, inclinado para ela, a boca se
estreitando no que suspeitou fosse desgosto.
- Está segura - ele comentou, abrupto. - Apesar da impressão que minha sobrinha com
certeza lhe passou quanto à perfídia de minha natureza, asseguro-lhe que não tenho
inclinação para estuprar ninguém.
Deveria ter sido fácil para ela assegurar-lhe que não tinha a menor dúvida a esse
respeito. No entanto, por alguma tola razão, começou a tremer de modo incontrolável,
levando-o a franzir a testa e encará-Ia, indagador.
- Foi apenas uma brincadeira - comentou seco, e, de forma inesperada, acrescentou: Desculpe-me se a alarmei.
Soltou-a com cuidado e recuou um pouco, fazendo-a sentir-se ainda mais boba.
- Tenho quase trinta e cinco anos, não quinze - ela lhe disse, com voz rouca. - E não
sou tão tola. Embora tivesse lhe dado essa impressão...
Sua própria boca se contraiu um momento e ele pareceu examinar com interesse esse
movimento brusco. No mesmo espaço de tempo, seu coração pareceu parar de bater.
Ele levantou as sobrancelhas.
- Nunca me ocorreu que nos dias atuais a idade proteja uma mulher desse tipo de
ataque.
Ele a estava quase reprovando, e Harriet se exasperou.
- Não foi isso o que quis dizer! - deixou escapar.
- Não? O que queria dizer, então?
Como tinha ela se metido numa situação tão ridícula? Hesitou um pouco, depois
acrescentou, sem graça:
- O que quis dizer é que você não me parece o tipo de homem que necessitaria recorrer
à força para... para...
Confundia-se outra vez, mas por sorte ele não parecia perceber seu embaraço.
- Não foi o que pensou no outro dia - ele a lembrou, sombrio.
Ela ruborizou-se, detestando a própria vulnerabilidade ante as imagens evocadas pela
acusação.
- Aquilo foi diferente - protestou. - Você estava...
- Virtualmente nu? - ele completou.
- Era um estranho - Harriet acrestentou.
- E agora não sou mais. Então não é apreensão pela imprevisibilidade de meu sexo que
você objeta, mas, mais especificamente, a mim.
Harriet o contemplou, refletindo sobre como tinha entrado nesse tipo de conversa
perigosa. Não entendia como haviam passado da conversa informal para esta de teor tão
inseguro.
Reprimiu uma urgente necessidade de tocar os lábios com a língua, para descobrir se
se encontravam tão quentes e secos como pareciam.
- Não é nada disso - conseguiu replicar. Ele ignorou o protesto aturdido.
- Não precisa mesmo ter receio, ainda que você seja tão atraente. Asseguro-lhe que não
tenho o hábito de forçar atenções indevidas sobre pessoas de seu sexo.
Atraente, ele dissera que ela era atraente! Harriet o olhou, assombrada e muda. Então
ele se virou na direção da caminhonete e deixou-a ali, de boca alerta, como uma tola.
Atraente... por que ele dissera tal palavra? Intuía que não se tratava de um homem que
diria palavras gentis só para agradar. Ao contrário, só exprimiria o que pensasse de fato.
Por mais que tentasse esquecer, a pergunta continuou a importuná-Ia durante todo o
final daquele dia. Guardou as compras, preparou o jantar, acomodou-se com o livro que
pretendia ler. Nada, contudo, a absorvia tanto quanto o surpreendente elogio.
CAPÍTULO IV

Na manhã seguinte, Harriet teve a agradável surpresa de verificar que não apresentava
nenhum sintoma do resfriado que se manifestara na véspera, apesar de ter se
encharcado por completo e mantido por muito tempo a roupa molhada no corpo. Devia já
ser o ar do campo tornando-a mais saudável.
Parara de chover, mas o céu permanecia carregado. O outono chegara e o vento forte
arrancava as folhas das árvores, girando-as no ar.
Outono, e estação em que as frutas amadurecem. Tempo de nostalgia, que pressagia o
inverno. Talvez fosse a época do ano a responsável pelo que estava sentindo, e não,
afinal de contas, Rigg.
Era uma linha de pensamentos tentadora, mas perigosa. Decidira, na noite passada,
que não ia permitir que sua imaginação fosse tomada por Rigg. Tinha outras coisas para
fazer. Já era tempo de dirigir sua atenção mais sensata e produtivamente, antes que
fosse demasiado tarde.
Demasiado tarde para o quê? Enfrentou a pergunta com desconforto, enquanto tomava
o café da manhã. Demasiado tarde para não se apaixonar por ele? Apoiou a torrada, que
de repente perdera toda a atração, embora fosse de excelente trigo integral. Sentia-a na
boca com gosto de papelão.
Apaixonara-se na sua idade, e após apenas dois breves encontros? Impossível! Ela
deveria ser uma adulta amadurecida, não uma adolescente.
Uma boa caminhada e depois trabalho. Essa era a melhor maneira de banir as
emoções loucas e indesejáveis que pareciam se apossar de sua nova vida.
Ao sair de casa, sentiu-se contente pelo calor propiciado pelo casaco espesso de lã
rústica, ainda que sua cor escarlate brilhante agora lhe parecesse um gesto infantil de
desafio contra as convenções que sempre haviam dirigido sua vida. Talvez ali estivesse a
resposta. Talvez, emocionalmente, tivesse retrocedido à adolescente que jamais se
permitira ser. O pensamento a divertiu e aliviou o suficiente para fazê-Ia sorrir.
Respirou fundo, deixando o ar puro e frio invadir-lhe os pulmões. Era luxo, após
Londres. Um coelho atravessou correndo à sua frente, sobressaltando-a por um
momento, e depois levandoa a pensar em Ben, o cão de Trixie.
Um cão. Sempre desejara animais; talvez devesse arranjar um filhote... Louise era
alérgica a eles, o que significara que, quando crianças, não podia haver animais na casa.
Um cão. Sim, gostaria bastante.
Quando voltou ao cottage, a temperatura caíra diversos graus e o vento soprava forte.
O vidraceiro que contatara ao telefone, pela manhã, prometera reparar a janela quebrada
do sótão o mais rápido possível.
Preparou café, sentindo-se culpada pelo excesso de cafeína que ingeria e prometendose, como o fazia sempre, que mudaria para o tipo descafeinado, sabendo, embora, muito
bem, que com toda a probabilidade não o faria.
Poder sentar-se à máquina de escrever sem ser obrigada a tal, como se estivesse
envolvida em algo clandestino a secreto, revelava-se um prazer.
Agora a máquina de escrever estava apoiada na pesada mesa de cozinha, que
adquirira com o fim específico de ali trabalhar. Quando levantava a cabeça da máquina,
podia olhar através da janela para o jardim e a vegetação além.
Enquanto tomava uma sopa de cereais integrais, permitiu-se devanear sobre qual seria
o aspecto do jardim no próximo verão. Ansiava por limpá-Io e reformá-Io. O jardim de
Londres era demasiado pequeno. Sem pensar em si própria, deixara que as crianças ali
brincassem à vontade, pois necessitavam de espaço mais que ela mesma.
Na nova casa havia muito mais possibilidades. O cottage, cercado por quase um acre
de terra, possuía um trecho que aparentemente fora destinado, em outros tempos, a uma
horta, que ela esperava restaurar.
- Oh, mas ele gosta de você... garanto-lhe - Trixie disse sem hesitar.
Harriet suspeitava que a mocinha visse aquilo que queria ver e que se destinasse a

uma manipulação estratégica quando seus interesses entravam em jogo.
- Não posso dizer nada a seu tio - Harriet comunicou, firme. - Em particular porque,
Trixie, daquilo que você me contou, acho que ele tem razão de se sentir preocupado em
dar permissão para você sair de férias com a Sra. Soames.
Ela viu o rosto da jovem ficar desanimado, e tentou confortá-Ia.
- Seja honesta consigo mesma. Com certeza pode entender como ele deve ter ficado
preocupado ao descobrir que a Sra. Soames enviou você para casa com um homem que
Rigg não conhece... e que, ainda mais, estivera bebendo.
Houve uma pequena pausa e a mocinha então admitiu:
- Sim. Posso entender que tenha ficado tão aflito, mas ele nem me permitiu explicar o
que aconteceu! A Sra. Soames atrasou-se em voltar para casa, pois tinha ficado ocupada
com um cliente. Ela é decoradora de interiores e não pode dar-se ao luxo de ignorar um
negócio em vista. E, ao voltar, descobriu que só tinha gasolina para ir até ao posto no dia
seguinte. Por isso, quando Maurice, seu namorado, ofereceu-me uma carona, pareceu a
solução ideal.
Ela suspirou, os lábios num muxoxo.
- É claro que não ajudou o fato de Rigg ter decidido ir a ca sa da Sra. Soames para me
pegar, e Maurice quase bateu no carro dele... Ele acusou Maurice de ter guiado após ter
bebido muito. Ficou furioso. Maurice é mais jovem que a Sra. Soames, e acho que Rigg
pensou que ele ia tentar me paquerar... Tenho certeza de que ele não tinha nenhuma
intenção desse tipo. Fiquei tão zangada com Rigg! Ele me fez parecer uma criança, o que
eu não sou! Por essa razão, no domingo decidi dar-lhe uma lição, colocá-lo numa
situação em que as pessoas fariam um juízo errado sobre ele. Assim, poderia sentir na
própria pele o que significava passar por tolo!
Olhou Harriet com ar maroto.
- Ele me contou como se enganou a propósito de seu carro, pensando que fosse o meu.
Aposto que estava furioso. Adoraria ter visto sua expressão!
- Não creio que gostaria, não - Harriet assegurou, mas não conseguiu resistir a
perguntar: - De que modo conseguiu persuadi-Io a se despir e saltar no rio?
Trixie deu uma grande risada.
- Oh, foi muito fácil. Ele estava deitado de olhos fechados e eu simplesmente comecei a
gritar que vira alguém lutando nas águas do rio. Ele não hesitou. Aliás, eu sabia que
reagiria dessa maneira - completou.
Harriet imaginou se ela tinha noção do quanto era feliz por ter alguém em sua vida tão
preocupado e responsável.
- Assim que ele saltou no rio, eu fui embora no meu carro... Devo admitir que pensei que
seria encontrado por alguém da região. Nunca imaginei que fosse uma estranha. - Riu de
novo. - Você pensou, de fato, que ele era um estuprador? Ficou furioso com sua atitude!
- Posso imaginar - Harriet comentou, pronta a pregar um sermão na garota. Foi
impedida pelo som de um carro parando lá fora.
Desta vez ouviu o som da campainha e foi abrir a porta, acompanhada por Trixie.
Pelo jeito, a senhora era bem conhecida da moça, pois se cumprimentaram com
familiaridade.
- Sou Nora Fellows, a esposa do pastor - a visitante se apresentou e Harriet a convidou
a entrar. Soube no vilarejo que se mudou para cá. Somos uma pequena comunidade aqui,
e bastante dispersa. Por isso tentamos ficar em contato tanto quanto possível, mas, se
preferir ser deixada em paz, por favor não se acanhe em dizer. Pequenas comunidades
podem parecer meio claustrofóbicas, às vezes. Mas agora minha visita tem um propósito.
Esta semana meu marido completa sessenta anos e vamos dar uma grande festa na
paróquia para celebrar a data. Toda a aldeia está convidada, e isso, é claro, a inclui
também. Lamento apenas fazer o convite com tão pouca antecedência.
Tocada pela simpatia e bondade de Nora, Harriet agradeceu lhe e aceitou o convite. A

festa seria no sábado à tarde.
- Na aldeia há uma lista para comprar um presente - Trixie comunicou, depois que a
Sra. Fellows partira. Harriet decidiu então verificar na agência do correio se ainda havia
tempo de subscrever seu nome para o presente comunitário.
- O que está datilografando? - Trixie lhe perguntou, apoiando-se na mesa da cozinha e
brincando distraída com uma maçã da fruteira.
A jovem era tão amigável como um gatinho, Harriet refletiu, e, portanto, bastante
vulnerável. Não era de surpreender que Rigg sentisse que necessitava da proteção de
um adulto mais cauteloso e responsável do que a Sra. Soames aparentava ser.
- Estou escrevendo um livro - Harriet respondeu, e ficou um pouco assombrada pela
admiração provocada em Trixie.
- Você é uma escritora... Gostaria de escrever - ela falou sonhadora. - Mas pensei que
você fosse uma professora.
- Sim, sou, ou melhor, era - Harriet concordou. E acrescentou firme: - E, se não voltar a
trabalhar, suspeito que minha nova carreira como escritora será muito curta mesmo.
Trixie percebeu a insinuação, levantando-se da mesa e se encaminhando para a porta,
onde parou:
- Posso então dizer a Rigg que você está bem?
- Sim, por favor - Harriet respondeu, acrescentando: Ainda tenho as roupas que me
emprestou. Vou lavá-Ias e as devolverei assim que puder.
- Não se preocupe - Trixie comentou, sorridente, e desapareceu pelo jardim.
Que homem contraditório era Rigg Mathews, Harriet refletiu uma hora mais tarde,
admitindo afinal que a visita de Trixie rompera toda a concentração do trabalho. De um
lado, tão austero, remoto, distante, e ela ainda poderia ter jurado que o desagradava.
No entanto, se dera ao trabalho de enviar Trixie para se certificar de que ela se
encontrava bem.
Preocupação genuína por ela? Difícil crer. O mais provável é que fora movido pelo
profundo senso de responsabilidade que já vira na inquietação pela sobrinha.
Procurou imaginar se a moça que o abandonara diante do altar teria algum dia
lamentado tal decisão. Encontrou dificuldade em visualizar que tipo de mulher voltaria as
costas para um homem como Rigg.
Pare com isso, censurou-se. Se não deseja retomar à situação de enfrentar uma sala de
aula cheia de alunos, é melhor voltar a trabalhar.
O resto da semana decorreu sossegado e produtivo. Harriet recebeu a visita de Trixie,
a quem devolveu as roupas, já limpas e passadas, com os devidos agradecimentos.
Era óbvio para ela que Trixie se sentia solitária e, além disso, procurava suporte de um
adulto na campanha para persuadir Rigg a permitir-lhe ir esquiar com a amiga e a mãe.
Do que Trixie deixara escapar sobre a Sra. Soames e seu estilo de vida, entretanto,
Harriet se punha mais inclinada a apoiar a decisão de Rigg do que a opor-se.
Com muita gentileza, explicou a Trixie por que sentia que a decisão de Rigg era a mais
acertada.
- Mas logo farei dezoito anos - Trixie protestou. - Só porque a mãe de Eva tem uma
porção de namorados, isto não significa que pretendo imitá-Ia. Sou capaz de tomar
minhas próprias decisões sobre como quero viver - acrescentou, com um toque de
altivez que lembrava a atitude do tio.
- Tenho certeza de que é - Harriet concordou, e então acrescentou, calma: - Mas,
algumas vezes, não importa quanto nos consideramos adultos, podemos nos envolver
em situações indesejáveis, por não termos a experiência necessária para lidar com elas.
Trixie, uma garota inteligente, refletia sobre seus comentários.
- Quer dizer, como pegar uma carona com Maurice quando o que eu deveria ter feito
seria telefonar a Rigg e pedir-lhe para vir me buscar?
- Sim - Harriet concordou, esperando.

- Bem, eu não queria na verdade que Maurice me levasse para casa. - Mostrou-se
contrariada. - Há algo nele. Não posso descrever o que seja, ele é, bem... meio estranho,
se entende o que quero dizer, mas não havia necessidade de Rigg agir daquela maneira.
Fazendo-me parecer uma completa tola... Eva disse que Maurice e a mãe morreram de
rir. Eva diz que ele é arcaico, o que não deixa de ser inacreditável em nossos dias.
- Eva diz? - Harriet perguntou, levantando um pouco as sobrancelhas. - E o que pensa
Trixie? É seu próprio juízo das pessoas e das situações que mais importa, Trixie, ou ao
menos deveria ser assim. Rigg pode parecer a você um pouco duro, contudo, acrediteme, ele quer o seu bem.
Ela viu que Trixie se sentia desamparada e continuou:
- Não, não faço parte de nenhuma conspiração adulta contra uma adolescente. Se
achasse que ele estava sendo demasiado sério, eu diria, mas reflita sobre o assunto,
Trixie. Fica claro que não se sente muito feliz a respeito do estilo de vida da mãe de Eva.
- Não - Trixie concordou, um pouco relutante. - Mas isto não é razão para que Eva e eu
não sejamos amigas. Elas se mudaram para cá há apenas alguns meses e Eva não tem
muitos amigos. Além disso - acrescentou, pensativa - sempre desejei ir esquiar. Rigg
costumava ir todos os invernos, até meus pais morrerem. Ele estava com eles, ou ao
menos teria estado, pois naquele dia não os acompanhou, porque esperava uma
importante chamada telefônica... Meus pais esquiavam fora da pista e houve uma
avalanche.
Compadecida, Harriet apertou as mãos da menina.
- Deve ter sido terrível para você.
- Foi, mas ainda pior para Rigg... Precisou identificar os corpos e tudo o mais. Eu o amo,
sabe? - Levantou-se e começou a andar agitada pela cozinha. - Ele precisa sair muito. A
Sra. Arkwright é ótima, mas às vezes gostaria que Rigg fosse casado. Desejaria ter
primos... uma tia.
Estavam entrando em terreno perigoso, e por instinto Harriet sabia quanto Rigg
reprovaria uma intrusão indevida em sua privacidade. E Trixie, sem perceber, fazia
confidências particulares...
- Bem, seu tio não está exatamente na segunda infância ela tentou desviar o assunto. Talvez ainda se case.
Tinha sido a coisa errada a dizer. A jovem agarrou-se ao comentário com uma negação
vigorosa.
- Não... não, não creio. Quando Gemma o abandonou, quebrou seu coração, e ele jurou
que nunca mais confiaria em outra mulher.
Harriet pestanejou. Tanta emoção parecia conflitar com a imagem do homem frio e
controlado que conhecera.
- Foi antes de meu nascimento, logo depois que mamãe e papai se casaram. A mamãe
me contou tudo - Trixie falava, ignorando as tentativas de Harriet de fazê-Ia calar-se. Gemma era modelo e ele se apaixonou por ela. Viviam em Londres nessa ocasião.
Mamãe e papai eram recém-casados e Rigg terminara a universidade. Mamãe disse que
Gemma era de uma beleza surpreendente por fora, só que no seu interior... Acho que ela
ficou contente quando não se casaram. Ele contou a meus pais que não iam mais se
casar. Mais tarde, um pouco antes da data marcada, revelou que Gemma se casaria com
outra pessoa, alguém que encontrara enquanto participava de desfiles... uma pessoa
mais velha que Rigg e com toneladas de dinheiro.
De novo, Trixie fez um muxoxo.
- A mamãe disse que Rigg ficou desolado. Acho essa história ultra-romântica, não acha
também?
- Romântica? Não, não acho - Harriet refutou, áspera. Se quer saber minha opinião,
penso que seu tio teve sorte em escapar. Se ele tivesse se casado com essa tal de
Gemma, com toda probabilidade agora se sentiria miserável.

Trixie a encarou.. surpresa.
- Já esteve apaixonada, Harriet? - perguntou curiosa. Quero dizer, apaixonada de
verdade.
- Não - Harriet admitiu, concisa. Não pretendia revelar a Trixie os aspectos íntimos de
sua natureza nem admitir que não era o tipo de mulher que inspiraria profunda emoção
num homem.
- Não pretendo me apaixonar antes de completar trinta anos - Trixie falou, com ares de
importância. - Acho que nenhuma mulher deveria se comprometer com um homem antes
de ter organizado a própria vida, não acha? - perguntou.
- Por certo não penso que seja uma boa idéia, para ninguém, seja homem ou mulher,
comprometer-se com outra pessoa, numa relação de longa duração, ante de adquirir um
bom autoconhecimento de si próprio - Harriet concordou, cautelosa.
- Bem, o que quero é me estabelecer em minha carreira Trixie explicou, séria. - Hoje
em dia uma mulher precisa ter certeza de que pode se sustentar sozinha em vez de
confiar em outra pessoa para mantê-Ia, não concorda?
- Acho que é sensato uma mulher ser apta a manter-se sozinha, se necessário - Harriet
anuiu.
- Pretende se casar um dia? - Trixie indagou, pegando-a de surpresa com a mudança
súbita de assunto.
- Não deveria ter expectativas desse tipo - Harriet respondeu, honesta. Não pretendia
admitir que o problema era que, embora tivesse chegado a uma idade em que casar-se
com alguém de gostos similares e ideais idênticos pudesse ser bastante confortável, uma
parte no seu íntimo se rebelava e ansiava por uma relação apaixonada. E já que não tinha
esperanças de alcançar esse tipo de relação intensa, preferia ficar solteira.
Depois da partida de Trixie, voltou ao trabalho. Mas fragmentos da conversa que haviam
mantido continuaram a flutuar em sua mente. Ela reconheceu que formavam uma nova
corrente de pensamentos que a afastavam do trabalho em curso, incitando-a a tentar algo
diferente.
Ficção para adultos? Demasiado ambicioso? Talvez, contudo, o desafio já lhe excitava a
imaginação.
A estação outonal se instalara na região. Os ventos fortes que Rigg previra como
iminentes chegaram nas primeiras horas da manhã de sexta-feira, fazendo bater as
portas e janelas do cottage, acordando-a. Aproveitou o calor das pesadas cobertas,
sentindo-se aconchegante na cama antiga e fora de moda que adquirira. Havia um prazer
quase infantil, nada familiar, em ficar ali deitada, sentindo-se segura e aquecida, enquanto
fora o vento agitava e despedaçava o mundo.
Esperara com ansiedade a mudança de Londres, mas não imaginara como seria
prazerosa a nova vida. Apesar da auto-induzida pressão provocada pelo trabalho, sentiase mais saudável e feliz que nunca. Podia entender bem a razão que fizera Rigg transferir
os negócios de Londres para o campo.
Rigg. A serpente no novo paraíso. Ou, antes, seu próprio hábito traidor de permitir que
ele invadisse seus pensamentos é que se constituíra na serpente.
Após tomar o café, encaminhou-se à aldeia para comprar seIos. A encarregada da
agência cumprimentou-a pelo nome. Harriet já se apresentara no início da semana,
indagando sobre a lista de presente de aniversário do pastor.
A pergunta produzira um sorriso aprovador e a informação de que ainda dava tempo de
contribuir.
- O que o pastor deseja, mesmo, é um computador. E é o que pretendemos lhe
presentear - a moça acrescentara, sorridente - e, com certeza, não teríamos conseguido,
sem a ajuda de Rigg. Ele até arranjou um curso para o pastor se familiarizar com o
assunto... Então, irá à festa, também? - perguntou.
Harriet anuiu. Louise teria escarnecido do prazer que sentia em ser incluída na vida de

uma aldeia como aquela. O tipo de festas que sua irmã apreciava ocorria em lugares
luxuosos, com pessoas trajadas por grandes costureiros e de preferência famosas.
Seus gostos tinham sido sempre tão diferentes! Escrevera duas vezes a Louise desde
seu casamento, e ainda não recebera nenhuma carta em resposta. Não sentia saudades
da irmã ou dos gêmeos. As visitas de Trixie lhe traziam muito mais alegria do que jamais
encontrara na companhia da irmã.
Trixie lhe confiara que esperava entrar para a universidade ao deixar a escola, mas
ainda não tinha certeza sobre o curso que escolheria.
Rigg tivera muito mais sucesso em orientar Trixie para a maturidade do que ela
conseguira com a irmã, Harriet refletiu.
Voltou para o cottage, desfrutando o vento zunindo, notando as mudanças sutis na
paisagem, que anunciavam a proximidade do inverno.
Para celebrar o feriado de 5 de novembro dariam uma grande festa na aldeia. Bilhetes
estavam sendo vendidos na agência postal e, agindo por impulso, Harriet adquirira um.
Nunca se sabia. Talvez ali encontrasse inspiração para seu trabalho.
A rápida caminhada parecia ter reativado sua imaginação e ela trabalhou toda a tarde,
sendo forçada a parar de datilografar quando seus pulsos doloridos a lembraram de que
era hora de descansar.
No correio, comprara várias revistas de capas brilhantes, e passou a noite folheando-as.
Na casa, embora o trabalho básico tivesse sido completado, havia ainda muita coisa a
ser decorada.
As revistas especializadas apresentavam sugestões que ela não queria aproveitar, que
não iam de encontro ao que tinha em mente. Fechou os olhos, imaginando sua pequena
sala de estar com sofás confortáveis, encorajando de modo sutil ao relaxamento. A sala,
de face norte, necessitava de cores quentes e ricas, ferrugem e terracota. Mobiliando-a
mentalmente, os olhos semicerrados, enfureceu-se quando, como saído do nada, Rigg
tomou forma num dos sofás... Exasperada, abriu os olhos. Que estava lhe acontecendo,
deixando-se levar por fantasias estúpidas?
Já não tinha o suficiente para ocupar a mente? Qual a razão desses ridículos
devaneios?
Aborrecida consigo própria, levantou-se. Em ocasiões anteriores, quando Louise e os
gêmeos abusavam de sua paciência, encontrava algum alívio em tarefas simples como
esfregar o chão da cozinha.
Talvez desse certo para banir Rigg de seus pensamentos.
Meia hora mais tarde, o chão da cozinha brilhava e ela disse a si própria que esse tipo
idiota de anseio devia parar. Se ia começar a sonhar com algum homem inatingível, na
idade supostamente madura de trinta e quatro anos, por que precisaria escolher um
homem como Rigg?
Por quê? Precisava mesmo propor tal questão? Nenhuma mulher que tivesse visto
Rigg, como ela o avistara no primeiro encontro na estrada, ficaria imune à sua
masculinidade. No passado, ela sempre considerara homens muito másculos como
intimidativos. Com Rigg era diferente. Ele fascinava, compelia, enfurecia e a absorvia. E,
quanto mais sabia sobre ele, a partir das confidências espontâneas de Trixie, mais crescia
seu interesse.
Cada vez com mais freqüência, sua mente evocava a imagem daquele homem, como
levada por uma profunda e oculta corrente. Demasiado freqüente, aliás. Mas isso
precisava parar. Os sinais de perigo eram bastante claros para serem ignorados, e ela
não era tola. Rigg não se interessava por ela, e mesmo que se desse o contrário...
Começou a andar inquieta pela cozinha, resistindo à tentação de imaginar como seria ser
desejada, amada por um homem como Rigg.
Nessa noite, pela primeira vez desde que chegara, dormiu mal, o sono diversas vezes
interrompido por perigosos sonhos que seu inconsciente voltava a abrigar quando ela

despertava. Não se lembrava de nada. Apenas não repousara.
Sábado de manhã acordou sentindo-se exausta e irritável. O telefone tocou
enquanto ela tentava sem muito sucesso tomar o café da manhã. Tinha dificuldades
em engolir o que quer que fosse.
Pensou que se tratava de Trixie. Sentiu-se congelar ao distinguir a familiar voz
masculina, anunciando, ríspido:
- Harriet, é Rigg. Penso que você vai ao aniversário do pastor hoje à tarde. A Sra.
Fellows nos pediu para lhe dar uma carona. Eles têm muito pouco espaço. O
estacionamento é pequeno na paróquia, por isso, é aconselhável que as pessoas
viajem juntas, tanto quanto possível. Tem alguma hora em mente para sair?
Ela precisou de vários segundos para se recompor. O choque de ouvir a voz tão
freqüente em seus perturbadores sonhos, as sensações que reverberavam em seu
corpo, a excitação de prazer em saber que o veria, e a realização de que se tratava de
um encontro solicitado por outra pessoa, não de sua iniciativa, tudo a fez calar-se.
Consciente das emoções que a invadiam, não conseguiu responder nada.
- Harriet? Ainda está aí?
- Sim - respondeu fraca, e então reuniu todas as forças para continuar com calma
aparente: - Não tenho nenhuma hora particular em mente. Ficarei contente com o que
decidirem.
Se ele não tivesse referido o problema da área de estacionamento, teria recusado a
oferta. Ela podia ter se apaixonado loucamente, tola como era, mas ninguém saberia
desse fato. Nem ele. Tinha seu orgulho, afinal de contas. E era apenas o que possuía
para impedi-Ia de parecer uma completa tola. Orgulho... não era esse um sentimento
negativo, não uma virtude?
- Bem, nesse caso, vamos marcar três e meia? - ouviu Rigg propor.
- Estarei pronta - assegurou-lhe.
Ao recolocar o receptor no gancho, viu que o apertava com tanta força que os dedos
estavam brancos. Aos dezessete anos, Trixie possuía mais sangue-frio e sofisticação que
ela. Talvez fosse a idade, ela se disse, enquanto afastava o que preparara para o café da
manhã, sentindo o estômago se contorcer.
Sua idade, sim, devia ser esta a razão, decidiu desesperada quando se serviu, sem se
dar conta, de uma xícara de café. Atravessava uma crise típica da idade madura, talvez
uma tentativa emocional de experimentar agora o que não tivera na juventude.
Sentindo-se um pouco melhor por ter encontrado algum tipo de explicação para os
sentimentos tão estranhos que a assaltavam, subiu ao quarto e vestiu o casaco.
Deveria ter ido a Hawick na véspera para fazer as compras, mas não tivera coragem
para tanto. Agora não podia evitar mais.
Precisava ir hoje, sem mais tardar.
O vento amainara, limpando o céu das nuvens. Um pálido sol iluminava-lhe o azul,
fazendo brilhar as folhas.
Hawick estava cheia de gente, e teve sorte em encontrar um lugar para estacionar.
Fazer compras na pequena cidade se mostrava muito mais agradável do que em
Londres. Mesmo nos supermercados, as moças da caixa pareciam conhecer os nomes
dos clientes e trocavam palavras de cortesia com eles. O sotaque suave da região era
apaziguante para seus nervos.
Andou devagar de volta ao carro, desfrutando o brilho do sol e a solícita agitação dos
outros compradores. Ao dobrar a esquina, a vitrine de uma pequena loja atraiu-lhe a
atenção. Parou, admirando o escarlate brilhante do traje de duas peças tricotadas. A parte
superior, longa, havia de cobrir quase por inteiro a saia. A lã era trabalhada num padrão
atraente e uma larga faixa de cetim ia dos ombros até a bainha na parte da frente.
O traje tinha um apelo rico e, enquanto Harriet o admirava, outra senhora, mais velha,
apareceu a seu lado, também a admirá-Ia.

- É lindo, não? - comentou calorosa, com a mesma cordialidade que Harriet já sentira
nos outros habitantes. - Jan tem sempre roupas maravilhosas, mas devo admitir que esse
vestido tem uma classe especial. Feliz é você, que tem a tez exata para usar essa cor... e
também o manequim certo. - Ela suspirou, olhando de relance para a própria forma
rechonchuda.
Com outro sorriso, seguiu seu caminho, deixando Harriet a hesitar fora da loja. Não
necessitava de novas roupas, e o traje devia ser muito caro. Aliás, não estivera pensando
em comprá-lo até a outra mulher dar-lhe tal idéia. Não era o tipo de roupa que costumava
usar, e... sem nem saber como, viu-se dentro da loja. Uma vendedora de lindos cabelos
bem penteados, de sua idade, se aproximou para ajudá-Ia.
- O duas-peças da vitrine? É o único que temos, receio, e é tamanho pequeno. - Olhou
avaliadora para Harriet e acrescentou: - Não sei, vamos ver.
O casaco de lã, rústico e felpudo, acrescentava volume à figura de Harriet. Quando o
retirou, os olhos da outra mulher brilharam.
- Oh, sim, deve servir à perfeição - exclamou, e, antes que Harriet pudesse protestar, a
outra removia o traje e a orientava para uma acolhedora sala que funcionava como
provador.
Serviu muito bem, Harriet reconheceu, estudando-se ao espelho. A cor realçava a pele
clara e acrescentava luminosidade ao casaco de gola alta com a saia ultrajusta.
Não era um traje provocante, entretanto havia algo nele que não o deixaria passar
despercebido. Mereceria um segundo olhar.
Ignorando a voz fria da razão que a advertia não se comportar de maneira louca,
mudou de roupa e, sem resistir ao impulso que a dominava, comprou o vestido.
Precisou justificar o ato da compra logo em seguida: roupa cara, certamente, mas,
afinal, possuía poucas para uso em ocasiões sociais. Assegurando a si própria que não o
comprara para que Rigg o visse vestida nele, encaminhou-se para o carro. Passara mais
tempo em Hawick do que tencionara. Cantarolou acompanhando o rádio enquanto guiava
para casa, recusando-se a admitir que seu bom humor se relacionava ao fato de que
encontraria Rigg.
CAPÍTULO V
Às três horas, Harriet estava vestida e pronta, sentindo o estômago revolver-se, nervosa
pela tensão. Lavara e secara os cabelos, usando rolos grandes, resultando um penteado
com ligeiro volume. Seu reflexo no espelho lhe devolvia uma imagem muito diferente da
habitual. Seria apenas a esperança que a fazia parecer mais jovem, e mesmo mais
suave?
Repreendendo-se mentalmente pela tolice, desceu ao andar debaixo.
O cartão que havia comprado e escrito se encontrava sobre a mesa, junto à bolsa.
Verificou se as chaves estavam na porta. Suspeitava que Rigg não apreciava esperar
quem quer que fosse.
As três e meia ninguém aparecera. Sua tensão aumentou ainda mais. As vinte para as
quatro, perguntava-se se devia ou não telefonar à mansão, quando o fusca de Trixie
apareceu na subida.
Disciplinando o rosto para esconder o profundo desapontamento que a agitava, Harriet
abriu a porta.
- Desculpe-me pelo atraso - Trixie escusou-se. - Rigg não pôde vir - acrescentou, e já
Harriet trancava a casa e a seguia de volta ao carro. Houve um problema na fábrica.
Enquanto prendia o cinto de segurança, Harriet esperava ansiosa que nada do que
sentia pudesse ser visto em seu rosto ou voz. Não se permitiu o luxo de perguntar se Rigg
apareceria na festa mais tarde. Era culpa sua sentir-se dessa maneira, censurou-se.
Advertiu-se contra a loucura de deixar-se levar por sonhos estúpidos. Rigg não se
interessava por ela.

- Rigg pediu-me para apresentar a você seu pedido de desculpas - a mocinha relatou,
mudando a marcha com tal desenvoltura que Harriet a invejou.
Trixie se exibia como boa motorista, confiante e cuidadosa. Com certeza, Rigg jamais
lhe permitiria dirigir se não estivesse seguro de sua habilidade. Lembrou-se sorrindo do
comentário de Trixie de que, quando ela dirigia, o tio ficava de olhos fechados. Rigg!
Rigg! Sentiu o estômago queimar e fechou os olhos.
- Sente-se bem? - a garota perguntou, ansiosa. - Está muito pálida.
- Estou bem - Harriet mentiu.
- Gostei muito de seu traje - Trixie comentou. - Essa cor lhe cai muito bem. Gostaria de
poder vestir vermelho, mas com os meus cabelos! Segunda-feira é dia de volta à escola suspirou, enfastiada. Ao menos não nos obrigam a usar uniforme na sexta série.
Harriet precisou de todas as forças para corresponder a conversa sem deixar
transparecer nada. Logo se aproximaram da casa paroquial e dos carros já estacionados.
- O pastor é formidável - Trixie comentou, enquanto se dirigiam à porta de entrada. - Às
vezes meio distraído, mas nada religioso, se entende o que quero dizer.
Harriet não pôde evitar sorrir ante tal descrição, e foi no exato momento em que sua
boca se suavizava num sorriso caloroso, o vermelho brilhante do vestido contrastando
com o cinza das pedras do lugar, que a porta se abriu e um homem em pé ao lado a
avistou.
Seus olhos se apertaram de modo apreciativo, um brilho de interesse fazendo faiscar o
profundo castanho. Sorriu para Harriet.
- Alô, Trixie - foi logo dizendo. - E Rigg? Não importa. Entrem... mas, primeiro,
apresente-me sua amiga.
- Harriet, este é Dan, o filho do pastor. Dan, esta é Harriet, nossa nova vizinha.
- Uma nova vizinha? Excelente... então, não estarei invadindo o território de Rigg se
roubá-Ia, Harriet?
Era um pouco mais jovem que ela mesma, Harriet julgou. Homem atraente e
autoconfiante que, ela suspeitava, devia ser bem versado sobre as vulnerabilidades de
seu sexo. Se o tivesse encontrado em Londres, teria ficado nervosa, boca fechada,
impressionada. No entanto, nesse momento, pode notar, distraída, que se tratava de um
sedutor, embora um tanto juvenil para um homem já entrado nos trinta anos, ela não
sentiu nada mais. O rapaz passou a lisonjeá-Ia, desenvolto, insistindo em acompanhá-Ia e
apresentá-Ia ao pai.
O pastor as saudou, caloroso, e Harriet pôde verificar que Trixie o apreciava muito. Ele
tinha uma solicitude e uma gentileza espiritual que se irradiavam, contagiantes. Tentou
imaginar de que modo um casal tão simples produzira um filho tão mundano.
Dan foi buscar para ambas uma bebida e, na sua ausência, Trixie aproveitou para
confidenciar depressa:
- Dan é professor na Universidade de Newcastle. A Sra. Fellows está sempre dizendo
que gostaria de vê-lo casado, mas Rigg diz que ele se diverte ensinando suas estudantes
a se apaixonarem por ele e que não está nem de longe interessado em se prender a uma
mulher. Acho que ele gostou de você um bocado.
Harriet sorriu-lhe.
- Acho que é sua maneira de agir costumeira. Afinal, se está acostumado a provocar as
estudantes, seria difícil que se interessasse por mim, não acha?
Por alguma razão, Trixie não parecia aprovar o fato de Dan demonstrar interesse por
ela. Harriet julgava que aquele homem flertaria com qualquer mulher, quase por instinto.
Prestando atenção ao que ele dizia apenas em parte, enquanto ele a elogiava, ela
estudava Trixie, aliviada ao perceber que não era interesse pessoal por Dan a razão pela
qual o olhava desaprovadoramente.
A festa progredia e Dan e Trixie se colavam a ela como dois cães no mesmo osso.
Exasperou-se. Tinha certeza de que Dan irritava Trixie de modo deliberado, e não

entendia o motivo dessa atitude. Parecia óbvio que Trixie não prendia deixá-Ia sozinha
com Dan, e este, de sua parte, por alguma razão só dele conhecida, fazia todo o possível
para se livrar da moça mais jovem.
Decidindo que já agüentara o suficiente, Harriet estava a ponto de sugerir a Trixie que
talvez fosse uma boa idéia partirem, quando a esposa do pastor se aproximou e
perguntou à garota se poderia ajudá-Ia a recolher os pratos vazios e os copos usados.
Com as boas maneiras que Harriet já havia observado, Trixie atendeu ao pedido,
afastando-se, não sem antes lançar a Dan um olhar lúgubre.
- Obrigado, mãe - Dan comentou, irritante, quando ficaram sozinhos. - E agora que nos
livramos de seu guarda-costas pessoal, diga-me, foi Rigg quem a mandou tomar conta de
você?
- Rigg? - Harriet o olhou espantada, sentindo-se enrubescer. - Você a estava arreliando
de propósito - acusou-o. - Não pode censurá-Ia por se defender...
- Ou guardando a propriedade pessoal e privada do tio? ele sugeriu, provocador.
Harriet sentiu-se ainda mais corada. Seu rosto queimava de embaraço e raiva.
- Está tirando conclusões apressadas... - rebateu. - Rigg é meu vizinho, e isto é tudo.
Não sou, com certeza, propriedade, nem dele nem de outro homem.
A zanga que transparecia em seus olhos mostrava o que ela pensava da observação
machista. Como podia um homem, nos dias atuais, e ainda mais alguém que lidava com
jovens, ousar sugerir que uma mulher era uma peça de propriedade masculina?
Olhou-o, irritada, suspeitando que ele a provocava do mesmo modo como agira com
Trixie. Ele, porém, não a olhava. Enxergara alguma pessoa além de seus ombros.
- Acho que está mentindo para mim. - Dan voltou-se para Harriet. - Se não há nada
entre ambos, por que Rigg me olha tão zangado, como se quisesse enfiar uma faca em
minhas costas?
Rigg aqui... Seu coração saltou desesperado, e a custo ela conseguiu se controlar para
não se virar. Fechou os olhos, as pálpebras impedindo que o homem que a observava
percebesse o que sentia.
- Está imaginando coisas - disse com voz rouca e dando de ombros. - Rigg não está
interessado em mim.
- Bom. Prove-o... jante comigo amanhã à noite.
Jantar com ele. Ficou de queixo caído e olhou distraída ao redor da sala, para se
certificar se era a única mulher ali, com menos de cinqüenta anos e acima da idade
mínima, para explicar seu interesse nela. Não era. Havia muitas jovens na festa. Fechou a
boca e o olhou.
Jantar com ele... Enquanto tentava assimilar o convite, percebeu que ele sorria e o
ouviu dizer, alegre:
- Como vai, Rigg? Conseguiu vir, afinal. Estava tentando persuadir sua deliciosa nova
vizinha a jantar comigo.
Mesmo sem se voltar, Harriet pôde sentir a frieza que emanava do homem em pé atrás
dela. Provocara a desaprovação dele?
Seria por não estar ao lado de Trixie? Mas com certeza a mocinha estava segura num
ambiente tão respeitável.
- As bebidas estão na sala de jantar - Dan dizia a Rigg.
- Infelizmente, não posso ficar. Só dei uma passada para desejar a seu pai feliz
aniversário. Trixie tem escola na segunda e acho melhor ir chamá-Ia, e então ambos
partiremos.
Eles partiriam... E quanto a ela? Harriet pensou zangada, ou ele esquecera que viera
com Trixie?
Com toda a calma que conseguiu reunir, voltou-se e o encarou, direta.
- Então é melhor eu me despedir também.
- Já vai embora? - Dan perguntou, franzindo as sobrancelhas com desagrado.

- Vim com Trixie - ela o informou, meio distraída. - É natural.
- Bem, posso levá-Ia de volta mais tarde.
Havia um copo cheio de vinho em sua mão e ela não tinha meios de saber quanto ele
já bebera ou ainda pretendia beber. Sorriu com firmeza e negou com um gesto de
cabeça.
- Não; é muito gentil, mas não gostaria de perturbar a festa. - Cônscia da presença
austera e silenciosa de Rigg ela se virou para partir, mas Dan a alcançou, segurando-lhe
a mão e impedindo-a de prosseguir.
- Não esqueça que temos um encontro amanhã à noite! ele comunicou, gentil. Passarei para apanhá-Ia às sete e meia, está bem?
Não desejando recusar em frente a Rigg, Harriet lançou-lhe um breve sorriso e nada
respondeu. Já podia sentir a impaciência dele em partir. Quando se libertou de Dan, ele já
lhe dera as costas e se dirigia decidido ao pastor e à esposa.
- Rigg, que bom ver você! - O pastor sorriu. - Uma visita breve, receio.
Trocaram amabilidades, enquanto Harriet ficava ao lado tentando localizar Trixie.
Avistou-a no momento em que também Trixie os percebia. O alívio no rosto da jovem ao
avistá-los a surpreendeu um pouco.
Desenvolta, Trixie se aproximou de Rigg. Parecia feliz em partir, passando uma das
mãos pelo braço de Rigg e a outra no de Harriet. Os três estavam ligados.
Fora, a temperatura caíra, a neve já cobria a beira das cercas vivas. O céu estava claro,
todo estrelado, o ar, puro. Harriet respirou fundo, saboreando-o, e estremeceu quando o
frio lhe atingiu a pele.
Ouviu o som familiar do motor VW, mas, para seu espanto, o pequeno carro já atingia a
saída.
Atônita, ficou imóvel, contemplando-o afastar-se.
- Tudo bem - Rigg comentou lacônico, aproximando-se. Disse a Trixie que eu a levaria.
Demasiado confusa para indagar a razão, Harriet o olhou, muda. A respiração deles
formava pequenas nuvens de vapor no ar frio.
Observando-a com o cenho carregado, Rigg se moveu, ficando entre ela e o vento frio.
Seu corpo esguio formava um reconfortante quebra-vento, mas ele se encontrava
demasiado próximo, e desta vez o tremor que percorreu Harriet nada tinha a ver com o
frio. Esperava apenas que Rigg não reconhecesse sua reação pelo que de fato era.
- Precisei deixar o Range Rover fora, na estrada principal. Pode andar ou preferiria...?
Ele olhava com ar duvidoso os sapatos de salto alto, e, ao lembrar do estado do acesso
à casa, Harriet pôde entender suas dúvidas.
- Posso andar - comunicou. Ao menos, caminhar aquela extensão a manteria mais
aquecida que esperar em pé que Rigg trouxesse o veículo.
Afastou-se determinada e partiu pelo caminho, provando que cumpria o que dissera. Só
não antecipara o que aconteceu. Rigg a alcançou com alguns rápidos passos e pegou-lhe
o braço. Automaticamente a conduzia contra a proteção de seu corpo, não de modo
sensual; mais do jeito como teria agido se segurasse Trixie, ela reconheceu, rangendo os
dentes devido à louca reação de seu corpo ante aquela proximidade.
Concentrava-se a tal ponto em ignorar os sinais de seu corpo e de sua intensa
consciência dele, que esqueceu-se de olhar o caminho por onde andava. Pisou numa
poça de água, o choque da água gelada nos pés a fez tropeçar, e Rigg apertou mais seu
braço para impedi-Ia de cair.
- Está se sentindo bem?
O brilho das estrelas fornecia luz suficiente para que percebesse que ele tinha o cenho
carregado. Também era mais do que suficiente para ter avistado a poça e tê-Ia evitado.
Muito embaraçada e sentindo-se culpada, ela se esquivou, tentando evitar o exame do
olhar indagador.
- Ótima - ela respondeu. - Foi tolice minha; não olhava para onde ia.

- Sem dúvida tinha outras coisas em mente - ele concordou, lacônico.
Harriet retesou-se e o olhou, o coração aos saltos. Com certeza ele não havia
adivinhado... não sabia... mas as palavras dele a tranqüilizaram.
- Bem, a menos que queira ir a seu compromisso de jantar amanhã à noite com o
tornozelo torcido, sugiro que se concentre onde pisa, e não em Dan.
O alívio que sentia foi logo sobrepujado pela raiva. Ele a estava tratando como se fosse
uma criança desmiolada. Reprimiu a vontade instintiva de mandá-lo embora, que
encontraria sozinha o próprio rumo para casa. Avistavam o fim do caminho e a sombra
familiar do Range Rover azul-escuro.
Seus pés estavam desconfortáveis no que havia sido um par de sapatos sociais
bastante dispendiosos. Ela duvidava que sobreviveriam à imersão na poça gelada, e
censurou-se.
O comportamento de Rigg era de um perfeito cavalheirismo, ela reconheceu quando ele
abriu-lhe a porta. Estacionara o carro em ângulo, e Harriet avaliou a distância até o
assento. Desejou não estar usando uma saia tão justa.
Esperava que Rigg se afastasse para a porta do motorista, não testemunhando o que
ela imaginava que seria uma subida bastante difícil. Mas ele já havia reconhecido o
problema.
Antes que pudesse se mover, ele comentou, brusco:
- Acho que será mais fácil se eu levantá-Ia.
Sem dar-lhe tempo para qualquer objeção, retirou-a do solo, as mãos apoiando com
firmeza ambos os lados da cintura. O gesto mostrava-se firme e assexuado.
Ela rezou para que ele não pudesse ouvir o frenético bater de seu coração, ou que ele
não percebesse o que provocava tal aceleração.
Harriet era magra, mas objetiva o suficiente para se divertir com situações em que os
antigos heróis galantes levantavam as damas nos braços sem aparente alteração na
respiração. As mulheres modernas já não podiam se imaginar como criatura tão
delicadas, pesando como plumas e sendo levantadas por homens fortes e viris. Ficou
atônita com a facilidade com que Rigg a apanhou. Em verdade, nada havia de romântico
em suas maneiras, mas o inesperado desembaraço de sua atitude a deixou ofegante.
Ao depositá-Ia no assento, um de seus sapatos caiu.
- Seus pés estão ensopados.
Parecia uma acusação.
- Sim - Harriet concordou. - Parece que isso tende a acontecer quando se patina em
poças sem botas de borracha.
Ela percebeu que ele sorria. Para ela... O bater acelerado de seu coração não era
compatível com o breve reconhecimento de sua observação.
- Assim que começarmos a nos movimentar ligarei o aquecimento. Deverá ser suficiente
para secar os pés, mas não os sapatos. Seria melhor retirá-Ios - ele a instruiu, enquanto a
deixava e se dirigia para a porta do motorista.
Harriet se sentiu enregelar, sem a proteção segura e cálida das mãos dele. Seus
pensamentos escorregaram, traiçoeiros, para uma curiosidade perigosa, de saber como
seria ser tocada por aquelas mãos na pele nua e não por um homem impaciente e
distante querendo realizar uma tarefa. Como um amante.
Repentinamente determinada, repeliu tais pensamentos e se concentrou em coisas
mais mundanas, como telefonar à casa do pastor no dia seguinte e cancelar o encontro
com Dan. Era um homem atraente, aquele, acostumado à admiração feminina, mas ela
não se sentia atraída. Pretendia passar o dia estudando sua sala de estar e decidindo
como ia decorá-Ia.
Nos dias em que sustentara Louise e os gêmeos, precisara pendurar papel de parede e
pintar portas. Descobrira que tais atividades podiam ser relaxantes e prazerosas.
A sala tinha dois grandes nichos, de ambos os lados da lareira, e ela desejava encontrar

alguém na localidade que pudesse construir armários ali. Uma vez prontos, tentaria pintáIos sozinha.
Com a caminhonete em movimento, começava a sentir o calor do poderoso aquecedor.
Esticou os pés no ar quente. Embora o cottage tivesse lareiras, tanto na sala de estar
como no próprio quarto, ela instalara também aquecimento central. Nessa noite, em
particular, estava contente em ter tomado tal decisão.
Um fraco luar se erguera, juntando seu brilho ao das estrelas, mostrando a pesada
coberta de gelo das cercas vivas nos campos vizinhos.
Olhou de relance para Rigg, notando a maneira confiante e firme como ele segurava a
direção, um motorista perfeito e cauteloso.
Trixie o chamara de misógino. Não teria havido mesmo mulheres em sua vida desde
que a noiva o abandonara? Parecia improvável. A despeito da frieza com ela, Harriet
suspeitava que era um homem capaz de intensa paixão. Talvez ele escolhesse manter
esse lado de sua vida oculto da jovem e impressionável adolescente sob seus cuidados.
Por que, afinal de contas, quereria se casar? Não seria o único homem a preferir
variedade na vida, e parecia suficientemente rico para se regalar com quaisquer prazeres
que escolhesse.
Já tinham atravessado o vilarejo e se aproximavam do trecho que conduziria a seu
caminho. A lama da entrada congelara. As luzes de segurança que ela havia mandado
instalar apareceram enquanto Rigg estacionava em frente à porta de entrada. Ele
contornou imediatamente o carro e abriu-lhe a porta.
Ela pusera de novo os sapatos úmidos e desconfortáveis. Desta vez não havia
necessidade de ele carregá-Ia. Mordeu os lábios, vexada ao reconhecer como teria
apreciado que o fizesse de novo.
Parecia uma adolescente obcecada pela imagem de um ídolo distante, admoestou-se,
ácida, reconhecendo, no entanto, que tal não era verdade. Estava começando a desejar
Rigg, e a ficar consciente de coisas que lhe diziam respeito, de uma maneira como nunca
antes desejara outro membro do sexo masculino. E quanto mais sabia, mais amava.
Amava... Uma palavra tão pequena para descrever a enormidade e complexidade de
tudo o que sentia por ele.
Agradeceu-lhe de olhos baixos, encontrou as chaves e começou a se afastar até que
ele a parou. A mão dele estava apoiada em seu braço, atraindo-a de volta.
- Quase esqueci - ele começou. - Na próxima semana será o aniversário de Trixie e, por
tradição, sempre jantamos fora. Ela apreciaria que você viesse junto conosco. Isto é, se
estiver livre...
As palavras de recusa educada já surgiam em sua boca quando ele a surpreendeu,
acrescentando:
- Significaria muito para Trixie se puder vir. Ela tornou-se muito afeiçoada a você.
- Mas, com certeza, sua amiga, Eva Soames... - Harriet protestou e viu Rigg mostrar
contrariedade.
- Não é programa para ela... Eva é muito sofisticada e prefere discotecas.
Ela queria recusar. E também queria ir. Justificou-se através de Trixie. À garota, não
podia decepcionar.
- Bem, se é o que Trixie deseja - disse, incerta.
- É.
Ele parecia prestes a partir. Mas hesitou um momento e disse:
- Acredito que lhe devo agradecimentos, a propósito. Harriet não estava segura sobre o
significado de tais palavras e franziu a testa.
- Por sustentar minha recusa em permitir que Trixie saia de férias com Eva Soames e a
mãe.
Harriet estremeceu, imaginando se ele pensava que ela queria agradá-Io com isso.
Afastou rapidamente tal idéia, exigindo de si mesma um pouco mais de segurança.

Poderia ter sido idiota a ponto de se apaixonar por ele, mas, não importava quais fossem
seus sentimentos, não alteraria a visão pessoal sobre outros assuntos, ainda que suas
idéias contrariassem as dele.
- Pelo que Trixie me contou sobre a Sra. Soames pude entender sua relutância em
confiar Trixie a seus cuidados, mas não poderá abrigá-Ia pelo resto da vida de todos os
perigos.
- É o que pensa que estou tentando fazer? - Ele fez uma careta. - Talvez eu seja
superprotetor, mas é uma pesada responsabilidade tornar-se pai de uma adolescente da
noite para o dia. - Lançou um olhar inquiridor para Harriet. - Ela lhe contou sobre a morte
dos pais, não?
- Sim - Harriet confirmou. - Pelo jeito, ela superou muito bem a tragédia. Teve sorte em
encontrar alguém que tomasse conta dela. Isso deve tê-Ia ajudado a enfrentar a situação.
- Sempre nos demos muito bem. Robert, meu irmão, era dez anos mais velho que eu e
suportamos uma situação similar, nós próprios. Nossos pais morreram quando eu ainda
cursava a universidade, num acidente automobilístico. Robert acabara de se casar com
Jen. Depois da partilha, descobrimos que não havia tanto dinheiro como sempre
imagináramos. Podia significar que eu deixasse a universidade, mas Robert insistiu que
eu continuasse. Ele e Jen não apenas me sustentaram todos aqueles anos, como se
certificaram de que eu tivesse um lar junto a eles.
Alguma coisa o movia a falar. Continuou:
- Não deve ter sido fácil. Um casal jovem, sobrecarregado com a responsabilidade de
um estudante de dezoito anos. Tudo isso nos aproximou ainda mais. Quando morreram,
perdi mais que um irmão e uma cunhada. Perdi meus melhores amigos também. Em
qualquer circunstância eu quereria fazer o melhor por Trixie, mas quando lembro do amor
e do apoio de Jen e Robert por mim... Se sou exagerado na proteção é porque sinto que
devo cuidar dela como teriam feito eles próprios.
- Ela é uma mocinha muito sensível e madura - Harriet comentou, tocada pelo que
ouvira. Sentia-se engasgada, os olhos úmidos pelas lágrimas que tentava reprimir. Ele
falara de modo tão direto e franco, sem nenhuma ênfase indevida ou emocionalismo, e
ainda assim as palavras lúcidas haviam ido direto ao seu coração.
- Talvez seja sensata e madura, mas há situações na vida que ela precisa ainda
experimentar para aprender a manejá-Ias. Não a desejo exposta ao tipo de vida que as
Soames deste mundo levam. Não sou tolo. Trixie é uma jovem muito atraente, que logo
desejará um novo tipo de comportamento e uma nova vida. Eu preferiria que esse tipo de
experiência fosse partilhado com pessoas de sua própria idade, e não com o tipo que
encontraria no círculo de amizades de Susan Soames. Ela se queixa que eu a trato como
criança. Tentei explicar... Não estava obtendo muito sucesso, como deve ter descoberto.
As coisas andavam bastante tensas entre nós nas últimas semanas, culminando no
incidente irresponsável e maluco junto ao rio.
Ele parou de falar um momento, olhando para o chão.
- Você tinha todo o direito de recusar ajudar-me - acrescentou - mas eu estava tão
zangado...
- E privado de sua presa... - Harriet completou, meio sorridente. - Deve ter ficado
furioso ao descobrir uma estranha no carro em lugar de Trixie.
- Furioso não dá para descrever a metade de como eu me sentia - ele concordou. - A
endiabrada me empurrava deliberadamente na situação mais embaraçosa que ela podia
imaginar!
- Ela pretendia provar um ponto de vista importante, segundo o que acreditava - Harriet
ponderou.
- Hum. Embora eu vá sentir falta dela, ficarei contente quando terminar este último ano
na escola. Na universidade fará novos amigos, alargará horizontes. Sei que ela acha
constrangedor viver aqui, às vezes. O problema é que, como sua escola fica a quarenta

quilômetros daqui, Eva é a única jovem de sua idade que vive suficientemente próxima
para vê-Ia numa base regular.
- Acho que está sendo injusto se teme que Eva influencie o julgamento de Trixie.
- Eva não, mas o modo de vida da mãe e seus namorados. Não acho que seja bom
Trixie se expor...
De novo ele se interrompeu ao perceber Harriet estremecer e se desculpou rápido.
- Estou segurando você aqui fora, no frio. Ficará congelada. Esperarei você entrar para
saber que está segura.
Harriet sentiu-se feliz. Pela primeira vez estavam conversando como amigos, não como
antagonistas.
Enquanto lhe agradecia por levá-Ia para casa e destrancava a porta, Harriet dizia a si
mesma para não dar demasiada importância à conversa. Obviamente, ele se preocupava
por Trixie, e nada mais natural que desabafasse, já que sabia que a moça gostava muito
dela.
Na cozinha, descalçou os sapatos molhados e os olhou com desgosto. Tinham sido
dispendiosos, mas ao lembrar da sensação das mãos de Rigg segurando-a decidiu que
tinha valido a pena arruinar um par de sapatos pela experiência do prazer de seu toque.
Louca, louca, resmungou. Estava se permitindo nutrir uma fantasia impossível, na base
de minúsculas migalhas.
Seria muito mais sensato parar de sonhar sonhos impossíveis e se concentrar na
realidade. E isto significava admitir que Rigg não sentia nenhum desejo por ela.
CAPÍTULO VI
Pela manhã, após ter tomado o café e recolhido seus jornais no vilarejo, Harriet
telefonou para a residência do pastor.
Conversou primeiro com a dona da casa, agradecendo-lhe o convite para a festa, e
depois pediu para falar com Dan. Ele saíra, a Sra. Pellows informou. Harriet pediu-lhe,
então, que transmitisse uma mensagem ao filho.
- Íamos jantar juntos esta noite - contou. - Infelizmente, não poderei ir. A senhora
poderia apresentar minhas desculpas?
Ao recolocar o telefone no gancho sentiu-se aliviada.
Passou o que restara da manhã de domingo lendo tranqüilamente os jornais.
Após um ligeiro almoço de massa caseira e dois pãezinhos integrais, saiu para limpar
seu carro.
Estava gelado, e um vento forte soprava do leste, arrancando as folhas que ainda se
penduravam às árvores.
Nos tempos antigos, em Londres, um domingo inteiro só para si mesma teria sido um
luxo raro. Não podia entender a razão de, neste momento, sentir-se inquieta e solitária.
Talvez devesse ir adiante com o plano de adquirir um cão. Que raça lhe seria
adequada? Recusando-se a ceder à tentação de pensar que Rigg fosse a pessoa
indicada para aconselhá-Ia, concentrou-se em realizar tarefas domésticas que
negligenciara durante a semana.
Às seis da tarde, ao ligar o rádio, não ficou surpresa ao ouvir que se previa neve no
norte da Escócia. A temperatura caíra muito durante o dia inteiro, e sentia-se reconfortada
por permanecer em frente à lareira com troncos em chamas, em vez de precisar se trocar
e sair para um compromisso indesejável.
Nesta noite, Trixie estaria se preparando para voltar à escola na manhã seguinte. Não
muito tempo atrás, ela própria estaria fazendo o mesmo. Apreciara lecionar, mas o
estabelecimento de ensino em Londres era imenso e de certo modo sufocante. Em bora
sentisse falta do contato com as jovens mentes ansiosas dos alunos, preferia seu novo
estilo de vida.
Com certo sentimento de culpa, planejou um jantar de pizza, daquela especialidade

carregada de calorias que Trixie recomendara, da mercearia de Hawick. Pretendia comêIa em frente à lareira, ouvindo a nova fita de Vivaldi que comprara antes de deixar
Londres.
Uma hora mais tarde, ao entrar na sala de estar carregando a refeição numa bandeja,
decidiu que o brilho quente do fogo seria suficiente como iluminação, e que não precisava
acender nenhuma luz. Já fechara as cortinas, e a sala em quase penumbra parecia
acolhedora e aquecida.
A pizza se revelava, em todos os sentidos, tão arruinadora de peso como Trixie
prometera, e o copo de vinho, delicioso, certamente acrescentaria mais algumas calorias.
Acomodou-se na poltrona, fechando os olhos, deixando a mágica da música envolvê-Ia.
- Trixie, você vai levar Ben para fora hoje à noite? Trixie voltou a atenção do livro que
estudava, franzindo a testa de leve.
- Já está na hora? - resmungou. - Eu preferiria... Por que será que um professor deseja
uma análise em profundidade da razão pela qual Trollope escreveu este ensaio, isso para
um projeto de meio semestre? Sádicos, é o que são.
- Está muito difícil? Quer que eu leve Ben por você? - Rigg ofereceu.
Ela devolveu um amplo sorriso.
- Você iria? Farei chá para você quando voltar.
Nos fins de semana arrumavam-se sozinhos, deixando a Sra. Arkwright livre para
passar seu tempo junto à família. Seus filhos eram adultos, mas tinha inúmeros netos cuja
companhia apreciava. Os Arkwright possuíam um pequeno cottage no vilarejo, e convinha
a Trixie e a Rigg que ali vivessem.
- Olhe para ele, cão preguiçoso - Trixie comentou, esfregando seu pé descalço nas
costas do cão que dormitava em frente ao fogo. - Acha que ele quer sair?
Ao ouvir tais palavras, as orelhas do cão se eriçaram.
- Pare de atormentá-Io - Rigg a advertiu, levantando-se. Venha, Ben - chamou o cão. Ande!
O cão se levantou de imediato, seguindo, ansioso, Rigg através da casa até o hall de
entrada. Rigg vestiu um pesado agasalho e calçou botas de borracha.
No momento em que saíram, Ben tomou a dianteira, farejando o chão e afastando
alguns pássaros.
Estava frio, e a noite era clara e gelada. O vento soprava cortante, e Rigg sentia-se
contente de dispor de um traje tão adequado.
Ben parecia saber exatamente onde pretendia ir, seguindo o caminho familiar através
do campo e dentro da pequena cintura de vegetação natural que escondia a casa da
estrada principal.
Do outro lado da pequena mata ficava o cottage de Harriet... Imaginou se ela estaria
aproveitando seu encontro com Dan.
Diversas mulheres haviam passado por sua vida, casos adultos, sem exigências, os
quais, enquanto satisfatórios do ponto de vista físico, nada tinham deixado do lado
emocional. Nunca planejara permanecer solteiro, mas a atenção que dedicava à empresa
ocupava-lhe todo o tempo e concentração. Mais tarde, houvera Trixie a considerar. Dentro
de dezoito meses faria quarenta anos. A idéia de casamento parecia apenas possível.
Podia ouvir Ben saltitando entusiasmado à sua frente. Chamou o cão de volta,
decidindo que já era hora de voltar para casa, antes que seus pensamentos tomassem
um rumo inadequado.
Quando Ben não reapareceu, ficou preocupado, e andou mais adiante.
Após uma ligeira subida, avistou, logo abaixo, através das árvores, a sombra da casa de
Harriet e suas luzes.
Seus sentidos ficaram alertas. Luzes... mas Harriet estava fora!
Chamando baixinho Ben, partiu em direção ao cottage, sua inquietação aumentando.
Parecia difícil que alguém tivesse arrombado a casa, mas crime e violência era

imprevisíveis, e podiam sempre ocorrer.
Mesmo essa parte remota do país, serena e tranqüila, tinha sua parcela de assaltos.
Alguns haviam ocorrido recentemente. Uma quadrilha de Newcastle, a polícia suspeitava,
andava invadindo de modo sistemático os pequenos vilarejos.
Diversas pessoas tinham ouvido Dan convidar Harriet para sair. Ela era recém-chegada
de Londres e, embora não fosse rica, também não era pobre.
Estes e outros pensamentos percorreram seu cérebro enquanto se aproximava do
cottage. Ben, obedecendo a seu comando silencioso, acompanhava de perto.
Rigg havia treinado o cão e, embora Trixie se inclinasse a estragá-Io, Ben sabia como
era importante atender ao chamado do dono.
Enquanto Rigg dava a volta em frente à casa, percebeu que, à excecão da cozinha,
tudo o mais se encontrava imerso na escuridão.
Espreitou por uma janela e não avistou evidências de intrusos.
Tentou a maçaneta da porta e franziu a testa quando ela girou, revelando que a porta
não estava trancada. Ainda preocupado, abriu a porta e entrou.
Foi o silêncio que despertou Harriet de seu preguiçoso dormitar, percebendo que a fita
teminara. Semi-adormecida, espreguiçou-se e começou a se levantar, paralisando
imediatamente ao ouvir sons inconfundíveis de alguém se movendo na cozinha.
Sentiu o sangue gelar nas veias ao se lembrar de que tinha deixado a porta de trás
destrancada, algo que não sonharia fazer em Londres. Seu telefone estava na cozinha.
Olhou apreensiva em direção à frente da casa, imaginando se teria tempo de escapar
através da porta trancada da frente antes que o intruso a alcançasse, e reconheceu que
não conseguiria. A chave da porta da frente, trancada, estava também na cozinha. Era
demasiado tarde para desejar possuir o cão que imaginara adquirir, o maior e mais feroz
possível.
Ouviu passos se aproximarem da porta da sala de estar e olhou apavorada ao redor,
procurando algo com que se defender.
A única coisa que avistou foi o atiçador da lareira. Apanhouo, segurando-o nervosa, a
boca seca pela tensão ao ouvir a porta ser aberta e uma figura masculina, com certeza
familiar, entrou.
Rigg! Deixou cair o atiçador das mãos, o alívio fazendo-a tremer com violência.
- Rigg!
- Harriet!
Ambos falaram ao mesmo tempo e depois calaram.
- O que você...?
- Pensei que houvesse saído...
Mais uma vez ambos se interromperam.
- Sinto muito - Rigg falou, breve. - Devo tê-Ia assustado até a morte, mas vi as luzes
quando passeava com Ben e, acreditando que tivesse saído...
- Está tudo bem - Harriet comentou, nervosa. - Sinto-me grata pela sua preocupação em
verificar. Cancelei meu encontro com Dan. - Deu-lhe as costas e disse em voz baixa: - Na
verdade, ele antecipou minha aceitação, e não quis embaraçá-Io, recusando em público.
Ela começava a pronunciar as palavras com dificuldade, não tanto pelo alívio do medo,
mas por causa de Rigg, ali, tão próximo, iluminado pelo fogo da lareira, na intimidade de
sua sala de estar.
Estremeceu de repente.
- Olhe, provoquei-lhe um choque feio. Sente-se por alguns minutos, vou preparar-lhe
uma bebida.
- Não, não, está tudo bem - Harriet sussurrou. - Graças a Deus percebi que era você. Olhou para o atiçador pontiagudo que jazia no chão e, ao se conscientizar de como
estivera perto de feri-Io, recomeçou a tremer. Enterrou o rosto nas mãos enquanto lutava
para controlar a onda de emoção que a assolava.

A sensação de Rigg alcançá-Ia, segurá-Ia, envolvendo-a nos braços, o queixo apoiado
no topo de sua cabeça enquanto a acalmava, balançando-a com gentileza, era
indescritível.
Ele comentou, sereno, contra sua testa:
- Pare de pensar nisso, não aconteceu nada.
A voz dele enviava minúsculas faíscas de energia que reverberavam sobre sua pele.
Tão agudamente podia sentir aquela presença que os finos cabelos de sua nuca se
eriçaram, elétricos, e seu corpo ficou tenso, como se lutasse contra o calor sensual que o
toque másculo provocava em seu corpo.
- Sinto muito - ela comentou com a voz pouco firme, levantando a cabeça de seu ombro
e tentando se afastar.
O agasalho que ele usava se mostrara frio ao contato, e de alguma maneira ela infiltrara
suas mãos por baixo, de modo que elas descansavam sobre a lã macia da blusa. Podia
sentir o vivo calor do corpo forte e cálido sob seus dedos.
Queria continuar e permitir a indulgência de explorar os músculos sob a camisa, traçar
a largura de seu pescoço e colocar os lábios contra a base de seu pescoço.
Ele trouxera para a sala a perturbadora atmosfera masculina contra a qual ela não
possuía proteção. Ele transpirava ar fresco, frio e puro, fumaça, e algo ainda mais
perturbador, muito viril. Queria enterrar o rosto em seu pescoço e respirar aquele perfume
mágico, saborear seu gosto com a língua e lábios.
A força do próprio desejo a deixou atônita, mantendo-a imóvel enquanto o encarava,
seus olhos obscurecidos pelo choque. Tentou retrair-se, aterrorizada que ele percebesse
o que ela sentia e a rejeitasse, mas ele não a soltava. As mãos dele deslizaram-lhe pelas
costas até a cintura, onde repousaram levemente.
Haviam deslizado de modo vagaroso e sensual? Segurou-lhe os braços com alguma
força, como apoio, enquanto tentava, desesperada, içar-se de volta à realidade. Uma
coisa era saber quanto o amava e desejava. Outra inteiramente diferente significava
começar a imaginar que ele podia desejá-Ia.
Ele fixou o olhar nas sombras escuras além de seus ombros e respirou outra vez, bem
fundo.
- Harriet.
Ele pronunciou o nome suavemente e ela respondeu à voz virando a cabeça para olháIo.
Tremeu ao observá-Io pronunciar seu nome pela segunda vez, seus próprios lábios se
abrindo.
Isto era uma loucura. Ela devia estar perdendo a razão, imaginando... Levantou a
cabeça e olhou dentro dos olhos dele, tentando controlar as emoções em turbilhão. Seu
coração quase parou de bater, ao notar o modo como ele a olhava. Soube, sem dúvida,
que ele ia beijá-Ia.
Podia tê-Io interrompido... podia ter evitado a descida lenta da cabeça, a pressão gentil
das mãos que a atraíram contra seu Corpo. Ela podia, mas por que o faria, quando
sonhara com um momento desses quando o encontrava pela primeira vez?
Sem dar-se conta, ela deixou escapar um som angustiado e, por um momento, Rigg
hesitou, a boca ainda parada contra a sua, mas então, quando ela não se esquivou, as
mãos deslizaram da cintura para cima até envolverem seu rosto, segurando-o, inclinandoo, acariciando-o.
Já fora beijada antes, mas nunca imaginara que fosse possível um simples beijo
desatar tantas sensações. Quando os dedos de Rigg se enfiaram por seus cabelos, ela se
agarrou a ele, abraçando-o, devolvendo a pressão exigente da boca sem nenhuma
intenção de esconder o que ele provocava nela.
Podia sentir a tensão ardente apoderar-se de seu corpo, a dor nos seios enquanto se
apertava a ele, tão próxima quanto possível.

A boca máscula a deixou, a mão afastando-lhe os cabelos, de modo a poder sentir o
gosto macio da pele de seu pescoço... Harriet gemeu ao sentir os lábios acariciando o
delicado cordão que ela usava. Os dentes atormentavam a carne sensível, fazendo-a
gritar e pressionar a própria boca na parte do pescoço visível, onde a camisa estava
desabotoada.
Foi apenas quando ele se esquivou, como se seu toque queimasse, que ela voltou à
razão e percebeu o que estavam fazendo.
Impulsiva, afastou-se de seus braços e virou de costas para ele.
Sentiu-o atrás dela, aproximando-se novamente, e seu corpo ficou tenso. Por favor,
Deus, não o deixe dizer nada, ela orava. Por favor, por favor, que ele parta, apenas...
Parecia que sua prece tinha sido atendida. Ele parou.
- Acho melhor ir embora. Não esqueça de fechar a porta depois que eu sair.
Harriet não se moveu até estar segura de que ele partira. Foi à cozinha para atender ao
que ele instruíra. Com a porta fechada, ela se inclinou, pressionando o rosto acalorado
contra a madeira fria, tremendo como se estivesse febril.
Como se deixara levar a tal ponto? O que ele devia estar imaginando? Não podia haver
engano na sua apaixonada resposta ao que ele provavelmente tencionava ser apenas um
simples abraço. Com certeza o embaraçara tanto quanto a si própria. Ele não reprimira a
impaciência para se retirar... Corresponder-lhe daquela maneira, como uma esfomeada
por sexo... Oh, Deus! Ela enterrou o rosto nas mãos, liberando as emoções.
Nesse domingo, Harriet mal dormiu. Acordou segunda-feira pela manhã com uma dor
que fazia latejar as têmporas.
Ao se contemplar ao espelho, enquanto se lavava, seu reflexo lhe provocou desgosto.
Inúmeras vezes sua mente passou, como num filme contínuo, os minutos nos braços de
Rigg. Repetidas vezes, reforçando o que ela já sabia: que sua reação, ao que da parte
dele com toda probabilidade só teria sido um impulso momentâneo, uma resposta
masculina automática ao fato de tê-Ia nos braços, fugira ao controle, fora exagerada.
Não era de admirar que ele tivesse saído às pressas, o rosto registrando o choque que
sentia. Ela o embaraçara e fizera de si própria uma tola.
Constrangera-o? Um homem que conseguira suportar com completo domínio a
armadilha que Trixie lhe armara?
Durante o dia inteiro, embora sabendo que a última coisa que poderia acontecer seria
vê-Io chegar à porta, esteve tensa, temendo o soar do telefone ou, ainda pior, uma batida
na porta.
Ao fim da tarde, sentia uma dor de cabeça lancinante e os músculos do estômago
apertados e tensos.
Não tinha idéia de como conseguiria encará-lo de novo. O melhor que podia esperar era
que ele educadamente ignorasse o que acontecera.
Todas as vezes que se permitia lembrar, seu rosto se acalorava de humilhação. Tentou
convencer a si própria da inutilidade de insistir em algo que deveria ser esquecido. Quis
também pensar que Rigg poderia interpretar de modo errôneo a razão da intensidade de
sua resposta, e atribuí-Ia ao fato de que ela passara por uma situação de pânico.
Por fim, percebeu que qualquer dessas alternativas seria falsa. No olhar chocado e
aturdido que ele lhe lançara durante os poucos segundos antes de se afastar, ela
percebera a verdade.
Estava contente por Trixie ter voltado à escola e, portanto, impedida de vir visitá-Ia,
embora sentisse falta da tagarelice da mocinha. No fim da tarde, quando precisou
reconhecer que qualquer trabalho que conseguisse realizar terminaria no cesto de papéis,
lembrou-se que prometera jantar com Trixie e Rigg no sábado próximo.
Com o olhar vazio, perdido no espaço, imaginou, desesperada, como enfrentaria Rigg.
Procurou frenética qualquer desculpa aceitável para se recusar a acompanhá-Ios.
Talvez uma visita aos editores? Mas isto significava passar o fim de semana em

Londres. E havia também Trixie. Rigg comentara que a moça desejava sua presença.
Afinal de contas, precisaria enfrentá-Io, cedo ou tarde. Se se concentrasse com muito
esforço e agisse como se nada houvesse acontecido, quem sabe o persuadisse de que
nada...
A noite inteira remoeu o problema do que deveria fazer, esquivando-se de seu covarde
desejo de enterrar a cabeça nos cobertores e nunca mais precisar enfrentá-Io. Mas o
forte senso de responsabilidade que fazia parte de sua natureza lhe dizia que não era
justo para com Trixie recusar-se a participar da celebração de seu aniversário.
Podia ser louca, louca de fato por ter-se apaixonado de modo tão profundo e
impensado em sua idade, no entanto, mantinha seu orgulho, e rangia os dentes ante a
idéia de ele suspeitar erroneamente que ela tentava persegui-Io.
Foi a segunda noite maldormida. Acordou outra vez sentindo-se indisposta e tensa.
Era uma manhã gelada e, a despeito do aquecimento central, parecia que o frio
penetrava-lhe até os ossos. Um olhar distraído ao espelho ao dirigir-se para o banheiro
mostrou que tudo o que sentia era traído pelo rosto pálido.
Fora, o sol brilhava num perfeito dia de outono. Tinha muito a fazer: comprar um
presente para Trixie, cartas a pôr no correio. Se pretendia redecorar a sala de estar,
então precisaria de tinta e papel. Seu trabalho progredia de modo satisfatório, ou ao
menos assim fora até dois dias atrás. Podia dar-se ao luxo de tirar algum tempo para
descanso.
Ao lembrar que um jornal local gratuito fora entregue junto com suas cartas na manhã
de sábado, procurou na cesta de arame que usava como bandeja e o encontrou.
Quando se mudara, não tivera a intenção de pesquisar a região e adquirir mobília
campestre confortável?
O jornal local trazia a informação de que havia um mercado de gado nesse mesmo dia
numa das pequenas cidades vizinhas. Nunca vira um mercado desse tipo. Podia ser
interessante.
Decidida, mudou de roupa, e, tendo verificado que a casa estava bem fechada, subiu no
carro. A cidadezinha para onde se dirigia se aninhava entre as colinas circundantes,
refulgindo à luz do sol, que dourava as pedras das casas. A cidade fervilhava e Harriet
sentiu-se grata por ter um carro pequeno, fácil de estacionar.
Ao passar diante de uma livraria, um exemplar exposto na vitrine da loja, sobre a
história da cidade, chamou-lhe a atenção. Entrou e comprou. Não soubera até então que
a cidade já fora o centro de um grande e rico priorado.
Folheou o livro saboreando uma xícara de café num pequeno e bonito pub,
aconchegado num canto de rua coberto de hera, e leu que a maioria das casas mais
velhas da cidade fora construída de pedras retiradas do próprio priorado em ruínas,
depois da destruição ordenada por Henrique VIII. Tal como inúmeras cidades da fronteira,
esta também tinha um passado violento e sangrento. Maria, rainha dos escoceses, ali
dormira uma noite, assim contava a lenda.
A moça sorridente que trabalhava no bar e que a atendera deu lhe indicações precisas
sobre como chegar ao mercado de gado.
- Lá também vendem queijo local e ovos, assim como legumes frescos - informou a
Harriet - e bem mais barato que nos supermercados.
Agradecendo-lhe, Harriet vestiu o casaco e saiu outra vez.
Uma pequena galeria de arte, algumas portas adiante, a atraiu, e ela parou fora,
contemplando o retrato na vitrine, o coração batendo loucamente.
O homem pintado no quadro, vestido de negro, o perfil duro e firme, poderia ser Rigg, a
despeito das roupas do século XVI.
Zangada consigo mesma, forçou-se a se afastar. Que ridículo; viera para excomungar
os pensamentos obsessivos sobre Rigg e voltava a pensar nele.
Encontrou o mercado de gado com facilidade, e vagou por ali, comprando queijo e os

ovos recomendados pela moça no café e, também, alguns legumes cultivados no local.
O suave sotaque da região a cercava, e a calma determinação do movimento dos
habitantes locais era relaxante após o impaciente burburinho das ruas de Londres.
Independente do que lhe poderia custar em termos emocionais o fato de ter ido para lá,
não havia como negar que o campo e sua gente tinham uma mágica especial. Nos
estandes onde comprou mercadorias, os expositores a receberam com sorrisos calorosos
e trocaram amabilidades.
Observou um senhor idoso a desfrutar do calor do sol do lado de fora do antigo pub que
dominava a pequena praça. Que tranqüilidade emanava dele! Harriet pensou que gostaria
de chegar àquela idade assim em paz. Sorriu das próprias fantasias e voltou a caminhar.
Notou um letreiro: "A casa dos condutores de gado", e pôs-se a cismar. Naturalmente,
esta cidade teria ficado ao longo da rota que os condutores seguiam quando vinham das
colinas com seus rebanhos.
Parou para olhar a vitrine de um agente imobiliário local e leu a notícia dos próximos
leilões. Um dos textos noticiava o leilão do mobiliário de algumas casas de fazenda da
região e ela guardou mentalmente a data.
Desejava uma cômoda fora de moda e, se possível, um serviço de jantar velho, no
estilo de casa de fazenda. Esse tipo de objetos alcançava preços fantásticos em Londres,
onde estava na moda misturar elementos novíssimos com outros de estilo campestre e
fora de moda. Talvez, neste lugar, não custassem tanto.
A cidade tinha um pequeno parque que se estendia sobre o que já fora o solo do
priorado e Harriet passou ali algum tempo, alimentando os patos à beira do riozinho.
Lembrou-se de que ainda não encontrara um presente para Trixie.
Esta parte do mundo era famosa por suas lãs e tweeds, mas Harriet suspeitava que
Trixie não receberia bem nenhum tipo de tweed. Lembrou-se de que a cidade possuía
uma fábrica de lã com loja própria.
Encontrou-a nas imediações da cidade, um edifício renovado com uma pitoresca roda
de água, lembrando o velho moinho que ali já existira. A pequena loja era bem exposta e
a atendente, muito solícita.
Harriet explicou o que desejava e a moça sorriu.
- Acho que temos algo que pode interessar. Eu mesma estive cobiçando esse tipo de
peça.
Devia ter vinte e poucos anos, pele clara, cabelos castanhos macios e olhos
amendoados, que dançavam quando sorria.
- São trabalhos de um figurinista local - contou a Harriet, abrindo a gaveta no armário. Não estocamos muitos, pois são peças individuais e bastante caras - explicou.
Retirou um suéter e estendeu-o sobre o balcão. Harriet encantou-se: uma maravilhosa
mistura de cores outonais, num padrão que atraía a atenção sem cansar.
- Sinta o material - a moça ofereceu. - É lã local, macia e leve.
Harriet reconheceu que assim era.
- Há gorro e cachecol que acompanham, fazendo um conjunto.
Já podia imaginar Trixie usando aquelas peças. Pareciam ter sido concebidas para ela e
seu tipo de pele e cabelos.
- Quanto custam? - Harriet inquiriu, sabendo de antemão que, por mais que procurasse,
nunca encontraria nada tão especial.
A moça estava certa: eram caros, mas sem exagero, dado o tipo de trabalho à mão e o
estilo.
Dez minutos depois, com as compras embrulhadas, deixou a loja e se dirigiu à rua
principal, para comprar papel de presente e um cartão.
Dezoito anos significavam um evento especial. Ficara um pouco surpresa que Trixie não
tivesse optado por uma festa com seus amigos, mas Rigg lhe contara que ela preferia
esperar completar vinte e um anos para dar uma grande festa.

Animada pelo prazer de ter encontrado um presente que, tinha certeza, Trixie amaria,
voltou ao carro, reconhecendo que tinha tomado a decisão correta em sair de casa. Já se
sentia mais relaxada, mais otimista sobre sua habilidade em se forçar a superar seus
ridículos sentimentos por Rigg.
Absorta em seus pensamentos, não mais percebia os passantes, até o momento em
que algo a despertou. Levantou a vista e achou que desmaiaria ali mesmo: Rigg andava
pela rua, próximo a ela, envolvido numa conversa com outro homem.
A urgência de se voltar e correr para o outro lado antes que ele a visse era poderosa.
Mas se sentia presa ao solo, as pernas trêmulas, a boca seca. Mais um momento, e
também ele a veria.
Segurou a respiração, os pensamentos a rodopiar em sua cabeça, a indecisão e o
constrangimento a paralisá-Ia. Então, sem um olhar em sua direção, Rigg e seu
companheiro entraram numa rua estreita e desapareceram de vista.
Piscando devagar, fitou ao redor a rua agora vazia. Teria sido imaginação sua? Não;
com o coração a estourar-lhe no peito sabia bem que tinha mesmo visto Rigg. Sentiu-se
doente e fraca.
De algum modo conseguiu voltar ao carro, mas, uma vez lá, precisou de diversos
minutos antes de poder ligar a ignição e dirigir de volta para casa.
Por que não conseguia controlar as emoções? Por que não podia simplesmente banir
esse amor indesejável e perigoso? Por que não podia agir como a mulher madura que
julgava ser? Na aparência, uma mulher de trinta e quatro anos; no íntimo, uma mocinha
vulnerável de dezoito... isso não podia continuar. Precisava encontrar algum meio de lidar
com aquilo, de preferência de forma adulta.
CAPÍTULO VII
Durante a semana inteira, Harriet manteve-se ocupada ao máximo, desejando dessa
maneira bloquear as lembranças indesejáveis de sua resposta apaixonada ao beijo de
Rigg e do auto desprezo e angústia que se tinham seguido.
Não funcionou, é claro. Todas as noites, ao se recolher, exausta pelas horas de
atividade frenética, ainda ficava deitada insone, lutando contra o desejo traiçoeiro de seu
corpo, a reviver aquele beijo e permitir à imaginação atingir intimidades mais profundas.
Desconhecia a si própria. Nunca havia se considerado uma mulher capaz de paixão
profunda. Os homens com quem saíra nunca haviam tocado nem de leve aquilo que Rigg
conseguira com a maior facilidade.
Bastava fechar os olhos e lá vinham as imagens: podia não apenas lembrar como se
sentira nos braços de Rigg, como também saber exatamente o que teria acontecido se ele
não a tivesse deixado...
Tratava-se de fantasias com certeza mais adequadas a uma mocinha prestes a
despertar sexualmente do que a uma mulher adulta. Na fase mais jovem, porém, nem
sequer imaginara ser possível sentir-se dessa maneira, querer, ansiar, sofrer a tal ponto
que aquilo a afetava fisicamente.
A única coisa boa que resultara do episódio miserável fora o fato de que tinha um novo
livro na tarde de quinta-feira.
Habitualmente lenta e cautelosa com o que escrevia, surpreendia-se com a atual
velocidade produtiva. Aquilo que antes não passara de uma vaga idéia, tomara corpo em
sua mente, e o texto da trama fluía. E quanto mais escrevia, mais o romance crescia, e
chegou um momento em que os personagens quase lhe escapavam do controle, tomando
vida própria.
Se continuasse dessa maneira, logo precisaria realizar uma grande pesquisa, e ainda
nem conversara com os editores para discutir com eles o que estava produzindo assim
febrilmente.
Talvez não mostrassem interesse por um romance longo, que não se destinava ao

mercado infantil, e sim ao adulto. Apesar de estar consciente de tal questão, já não podia
interromper o livro: ele parecia insistir em ser escrito.
Relendo o que escrevera durante a semana, ficou chocada pela similaridade de caráter
entre o personagem principal e Rigg. Culpou-se. Ao usar algumas das características de
Rigg para seu herói, embora o tivesse feito inconscientemente, sentia-se como se
estivesse se intrometendo na vida particular dele, desrespeitando-lhe a privacidade.
Tentou se tranqüilizar dizendo a si mesma que se encontrava por demais sensibilizada e
que, mesmo na remota possibilidade de o livro ser um dia publicado, as chances de Rigg
se reconhecer ali seriam mínimas.
O telefone tocou num momento em que o livro lhe exigia a maior concentração. De
início, tentou ignorar a chamada, mas, ao perceber a insistência, resolveu responder.
O som da voz de Rigg quase a fez deixar cair o receptor. Uma corrente elétrica de
prazer doloroso percorreu-lhe o corpo, enquanto ela procurava segurar o aparelho com
firmeza, incapaz de falar.
- Harriet?
Sentiu a boca seca, o coração pulsar freneticamente. A cabeça parecia leve, como se
tivesse febre.
- Sim, sou eu.
Como conseguira fazer a voz soar tão normal, tão calma e controlada, quando na
realidade tremia sob o complexo de emoções evocadas pela voz dele?
- Estou telefonando para combinarmos sobre sábado à noite. Não há razão para irmos
em carros separados quando você está tão perto, não acha? Podemos apanhá-Ia por
volta de sete e meia?
Harriet hesitava, sabendo que quanto menos tempo passasse na companhia de Rigg,
mais fácil seria suportar os próprios conflitos. De qualquer forma, não convinha insistir em
ir sozinha, sendo sua convidada.
Procurou imaginar o que ele estava pensando, se temia o sábado tanto quanto ela
mesma.
A rapidez com que se afastara dela na noite de domingo revelava que ele não recebera
de bom grado sua apaixonada resposta.
Teria ele reconhecido as emoções dela, ou achara que se tratava de uma simples
resposta física? Não gostava de nenhuma das alternativas. No entanto, pior seria se ele
soubesse que ela se apaixonara.
Apaixonada! Como soava ridícula e juvenil tal palavra.
- Reservei uma mesa para nós em um hotel nos arredores de Hanick - ele continuou a
falar. - Seus jantares dançantes têm boa reputação.
Harriet murmurou algo em resposta.
- Nós nos veremos no sábado, então, às sete e meia? Rigg indagou.
- Sim... sim. Sábado às sete e meia - Harriet concordou. Muito tempo depois de ter
desligado o telefone, ainda fitava fixamente o espaço, o estômago queimando, se
agitando convulsivo.
Um jantar dançante. Pensara que iam apenas jantar fora. Ansiava pegar o telefone e
dizer a Trixie que não poderia se juntar a eles, mas sabia que não podia fazê-Io.
Rigg projetava e vendia componentes para computadores em sua fábrica, a alguns
quilômetros do vilarejo, e costumava passar o dia ali, no horário comercial. Sabendo
disso, e como o aniversário de Trixie fosse na sexta-feira, Harriet tomou o rumo da
mansão à tarde.
Trixie acabara de voltar da escola e saudou Harriet com entusiasmo, mostrando-lhe os
cartões e presentes que recebera de colegas.
- Eva vai passar uma noite inteira numa discoteca para celebrar seu aniversário - contou
a Harriet, enquanto recebia seu presente. Trixie fazia um muxoxo. - Nenhuma chance de
Rigg permitir que eu faça algo do gênero. Costumava ir com mamãe e papai, você sabe.

Ambos gostavam muito.
Durante um momento ela pareceu muito deprimida, mas logo se animou, a tristeza
esquecida ao ver o que Harriet lhe comprara.
- Oh, Harriet, é maravilhoso - agradeceu, sentindo a lã macia com as mãos e depois
levantando-a à frente do corpo.
- Olhe o que ganhei, Sra. Arkwright - exibiu o presente para a governanta.
Começou a dançar ao redor da cozinha, segurando o suéter à sua frente.
- Há tempos queria uma roupa assim, mas custa uma fortuna - comentou. - Espere até
Eva ver o que ganhei! Oh, Harriet, você é maravilhosa! - exclamou, colocando a malha
sobre uma mesa, aproximando-se e abraçando a amiga.
Para sua própria surpresa, Harriet sentiu os olhos úmidos de lágrimas ao devolver o
abraço de Trixie.
Em sua própria família, demonstrações físicas de afeto tinham sido raras. O pai sempre
fora distante, quase desligado. A mãe, inquieta e impaciente. Mesmo Louise, que com
regularidade extraía dela somas de dinheiro que ela de fato não podia dispender para os
gêmeos ou para si mesma, nunca demonstrara gratidão, sequer um simples "obrigado".
- Mal posso esperar para usá-Ios - Trixie se regalava.
- Usar o quê?
O som da voz de Rigg fez Harriet se contrair imediatamente. Não o ouvira chegar, e
agora se arrepiava toda, como se ele tivesse trazido consigo o frio que fazia lá fora. Os
cabelos caíam-lhe pela testa, desalinhados pelo vento forte. Seus movimentos eram bem
coordenados, enquanto tirava o paletó e repetia:
- Usar o quê?
- Isto! - Trixie apanhou o presente sobre a mesa e o estendeu no ar. - Harriet me deu.
- Harriet?
Estaria imaginando a aguda nota de desgosto na voz quando ele se voltou, procurandoa?
Ela não conseguia encará-Io.
- Estou contente que tenha apreciado - disse a Trixie com voz rouca. - Agora devo partir.
- Oh, não, não ainda - Trixie protestou. - A Sra. Arkwright fez um bolo. Fique e coma um
pedaço conosco. Faça-a ficar, Rigg.
Faça-a ficar... Harriet tinha certeza de que seria a última coisa que ele desejaria fazer.
Devia estar tão ansioso pela sua partida quanto ela mesma.
Não podia imputar à imaginação o rápido franzir de sobrancelhas que marcou-lhe a
testa ao dizer, áspero:
- Não tenho nenhum poder sobre Harriet, Trixie. Se ela tem outras coisas para fazer...
- Oh, não tem, não é? - Trixie indagou, ansiosa. – Afinal de contas, é meu aniversário!
- Bem, eu...
- Bom, então você fica.
Harriet não pôde evitar de olhar na direção de Rigg, mas ele se encontrava de costas,
dizendo algo baixinho para a Sra. Arkwright.
- Vamos, então - voltou-se para as duas. - A Sra. Arkwright vai trazer o bolo para a sala
de visitas. .
- A sala de visitas? - Trixie estranhou. - Sempre tomamos chá no seu estúdio!
- Não hoje - Rigg falou com firmeza, atravessando a cozinha e abrindo a porta para
elas.
A sala de visitas ocupava quase toda a extensão da casa. Tinha grandes e graciosas
janelas que davam para os jardins. Um tronco repousava na enorme lareira, pronto para
ser queimado, mas Harriet percebeu que o ambiente também possuía aquecedores
colocados em posição discreta.
- Esta sala já estava decorada quando comprei a casa.
O som da voz de Rigg tão próximo... Será que ele não reconhecia como ela era

vulnerável a ele? Não podia perceber o efeito que provocava com sua simples presença?
Encontrava-se demasiado próximo, e ela reconheceu os movimentos de seu corpo
reagindo à proximidade, os músculos do estômago a se revolverem, a sensação dolorosa
nas coxas, ondas de calor pelo rosto.
- É muito bonita - comentou, desajeitada, repreendendo-se imediatamente.
Era óbvio que ele fazia o possível para ignorar o que acontecera no domingo, fosse por
boas maneiras, ou como um meio sutil, talvez, de adverti-Ia para não esperar nada. E se
ela tivesse um pouco de bom senso, teria respondido àquela conversa com idêntica
informalidade.
- Uma auto-indulgência que recomendo de coração - Rigg interrompeu, suave.
Agradeceu à Sra. Arkwright e, quando ela saiu, perguntou:
- Gostaria de dar-nos a honra de servir o chá, Harriet? Em outros tempos, teria sido
teste para a habilidade social de uma jovem ser solicitada a executar tal tarefa.
O bule de chá de prata pesava, entretanto ela o manipulou com graça. Reconhecendo o
perfume do líquido dourado, indagou:
- Earl Grey? - Tratava-se do chá mais requintado que conhecia.
- Que mais poderia ser? - Rigg replicou, sorridente.
- Pessoalmente, prefiro saquinhos de chá – Trixie provocou-os.
Ela trouxera seus cartões e presentes para a sala e ocupava-se exibindo tudo para
Rigg.
Podia se sentir deslocada e desconfortável, Harriet refletiu, observando-os enquanto
sorvia o chá quente e delicioso, no entanto acontecia o contrário. Passado o choque da
chegada de Rigg, e agora que o pulsar de seu coração se aproximara do normal, ela
relaxara num grande contentamento, com a sensação de encontrar-se em casa e de fazer
parte do grupo de pessoas cuja companhia a agradava.
Apesar dos comentários de Trixie sobre o apetite de Rigg, foi a moça quem mais
comeu, devorando um número enorme de sanduíches e docinhos. Era magra e de
energia inesgotável, e Harriet sentia-se bem ao vê-Ia comer com apetite. Louise, muito
enjoada para comer, queixava-se de que precisava manter o peso, inquietando Harriet ao
recusar partilhar as refeições.
- Bem, acho que está na hora de cortar o bolo - Trixie anunciou, ficando em pé, mas
Rigg a interrompeu, encaminhou-se à porta e saiu do aposento.
Enquanto Trixie franzia a testa, sem entender o que se passava, ele voltou,
acompanhado da Sra. Arkwright e do marido desta. Também carregava uma garrafa de
champanhe e a governanta trazia uma bandeja com cinco taças geladas para a bebida.
Harriet percebeu o rosto de Trixie se iluminar de prazer, enquanto Rigg, cerimonioso,
abria a garrafa e enchia os copos.
- A você, Trixie - ele se dirigiu à moça, brindando a ela, e todos levantaram os copos.
Harriet sentia que Rigg pensava no irmão e na cunhada, que não viveram para presenciar
a maturidade da filha.
Por um breve momento, a tristeza pareceu permear o ambiente, e Harriet sentiu a
garganta presa. Voltou-se para Rigg e seus olhares se encontraram. Pôde confirmar sua
idéia na expressão do rosto dele, e seu próprio autodesprezo e embaraço foram
esquecidos, enquanto o fitava com compreensão.
- O bolo... preciso cortar o bolo - Trixie dizia, e a voz dela pareceu banir a tristeza de
Rigg.
- Quer dizer que ainda há lugar para o bolo, depois de todos aqueles sanduíches? Rigg brincou.
Cumprimentaram Trixie, abraçaram-na, e a Sra. Arkwright e o marido lhe estenderam
um pequeno presente.
Uma mocinha tão querida, Harriet refletiu, observando a cena. Ela distribuía alegria e
vitalidade a todos, um dom raro, que Rigg com certeza reconhecia e apreciava.

Ele esperou até que o champanhe e o bolo fossem servidos, depois tirou do bolso do
paletó um pacote achatado que poderia conter uma jóia.
Trixie o pegou, incerta.
- Você já me deu seu presente! - ela comentou. - Disse que o carro era pelos meus
dezoito anos.
- E é isso mesmo - Rigg aquiesceu. - Mas este não é, de fato, meu. - Ele apontou a
etiqueta que acompanhava o presente.
Trixie leu o cartão em silêncio e Harriet viu sua boca tremer de leve enquanto abria o
pacote com dedos pouco firmes.
- Oh! - exclamou, surpresa, quando viu o conteúdo da caixa. - São as pérolas de minha
mãe...
Havia lágrimas em seus olhos e Harriet se sentiu também comovida.
Quanta gentileza de Rigg ter escolhido esta ocasião!
- Mandei limpar as pérolas e realinhar o colar - Rigg relatava. Trixie atirou-se nos braços
dele.
- Oh, Rigg, amo você - disse, rouca.
Observando-o abraçar Trixie e confortá-Ia, Harriet soube que nunca mais haveria um
segundo em sua vida no qual esse homem não estivesse presente em seu coração.
Deu alguns passos para trás e voltou-se de costas para os dois, na tentativa de
recompor a expressão emocionada antes que notassem.
Logo, a alegre tagarelice de Trixie enchia a sala novamente. Mas Harriet não se
recuperara ainda dos próprios pensamentos.
Quisera poder manter a idéia de que seus sentimentos, embora dolorosos, equivaliam a
uma gripe virulenta, desagradável e passageira. Sabia agora que estivera errada. Não
havia nada de transitório no que sentia.
Amaria Rigg até o final de sua vida.
Estremeceu com tanta força que o copo em sua mão se desequilibrou.
- Acho que Harriet apanhou um resfriado - Trixie comentou, inocente.
Com o rosto pálido de angústia, Harriet percebeu o rápido franzir da testa de Rigg.
- Não, estou muito bem - mentiu, corajosa - mas devo mesmo partir. Só vim trazer o
presente de Trixie.
- Oh, não, por favor, fique... - Trixie começou a rogar, mas Rigg a impediu de continuar.
- Trixie!
Quando a mocinha o olhou, ele acrescentou:
- Harriet tem sua vida própria, você sabe disso. Tenho certeza de que ela tem coisas
mais importantes a fazer do que passar a noite conosco.
Harriet quase negou, mas o bom senso a impediu, e, embora Trixie lhe lançasse um
olhar pensativo, não continuou a pedir que ficasse.
As boas maneiras ditavam a Rigg acompanhá-Ia até o carro.
Harriet respirou aliviada, quando Trixie veio junto.
Sentia-se ainda demasiado vulnerável para enfrentá-Io a sós, ainda que por um tempo
mínimo.
Abriu-lhe a porta do carro, os braços se tocando enquanto ela se acomodava no
assento. Inclinou a cabeça na direção de Harriet para se despedir e ela se lembrou da
sensação do instante em que ele se abaixara assim... para beijá-Ia.
Ainda tremia quando chegou em casa, desejando que houvesse alguma maneira de
não jantar com os dois no dia seguinte.
Dormiu como o fizera a semana inteira, em curtos intervalos, a se debater em sonhos
nervosos que envolviam Rigg e dos quais não se lembrava ao despertar. Seu
subconsciente os tragava temporariamente, para devolvê-los quando adormecia. Pela
manhã, sentia-se esgotada, os olhos escurecidos pela falta de sono adequado, o cérebro
aturdido pelo esforço contínuo de afastar os sonhos sem esperança que a atormentavam.

Na manhã de sábado reconheceu que, se ia a um jantar dançante, precisaria de algo
apropriado para vestir. Não havia nada em seu guarda-roupa adequado para esse tipo
de ocasião.
A vaidade, e nada mais, é que insistia na compra de algo novo. Afinal, havia a saia
justa de veludo, preta e bem-comportada, que usara durante vários anos.
Não fosse Rigg, ela iria se dar a tal trabalho? perguntou a si própria uma hora mais
tarde, enquanto dirigia para Hawick. Apertou as mãos na direção, mas não retrocedeu e,
em Hawick, também não perdeu tempo. Foi direto à mesma loja onde adquirira aquele
primeiro traje.
A mesma moça se adiantou para ajudá-Ia, reconhecendo-a e saudando-a com um
sorriso caloroso.
Incerta, Harriet explicou o que procurava, contando à moça onde ia.
- Não quero nada exagerado - acrescentou. - Não sei o que será apropriado.
- Bem, nesta época do ano as pessoas tendem a se vestir melhor - a moça comentou. E nesse hotel, em particular, os clientes são muito elegantes.
Percebeu a expressão de Harriet e sorriu simpática.
- Sei o que pretende, não se preocupe. Não quer nada tão chamativo que não possa
usar novamente. Meu estoque para o Natal acaba de chegar e tenho muito a lhe mostrar.
No final, Harriet optou por um vestido de um vivo azul de veludo de seda que se
ajustava ao corpo dos ombros até os quadris, onde se iniciava uma saia franzida de tafetá
farfalhante.
A princípio achara que o vestido era muito curto e jovem demais, mas a moça rira tão
divertida pelo comentário que Harriet se permitira convencer de que estava errada.
Apesar do decote redondo junto ao pescoço e das mangas longas, havia algo no traje
que o tornava provocante. Talvez em demasia para alguém como ela? Bem... a moça já
embrulhava o vestido com cuidado e o colocava numa sacola.
- Se precisar de sapatos, há uma loja adiante que tem uma boa seleção - a vendedora
aconselhou-a.
Suspirando ante a extravagância, Harriet precisou reconhecer que necessitava de
sapatos. O único par de que dispunha para a noite era preto.
Como a moça sugerira, encontrou uma excelente variedade na sapataria. Optou por um
par de sapatos altos de cetim azul-escuro e uma bolsa de noite combinando.
Tudo isto para uma única ocasião! Mas não teria podido ir com a saia de veludo preta,
justificou-se. Afinal, um jantar dançante era bem diferente das festas escolares para as
quais comprara a saia.
Por mais que tentasse racionalizar, no fundo do coração sabia que comprara tudo em
função da presença de Rigg.
Harriet estava descobrindo que as emoções e impulsos que, ingenuamente, atribuíra
aos anos de adolescência, não desapareciam com a maturidade, e que era tão capaz de
se apaixonar como uma moça da idade de Trixie. Talvez ainda mais, reconheceu.
Apesar de ter começado a se arrumar bem cedo, às sete e vinte não se encontrava
ainda pronta. Lavara e secara os cabelos, maquilara-se e se vestira. Ao estudar-se no
espelho, a imagem refletida deu-lhe a impressão de que queria imitar uma moça de vinte
anos.
Com firmeza, escovou os cabelos, determinada a prendê-Ios num coque comportado na
nuca, como usava na escola. Mas seus dedos se negavam à tarefa. O resultado foi que
ao ouvir o carro de Rigg chegar ainda brigava com o penteado.
Nervosa, consciente do cuidado especial que tivera com a aparência, receando que
Rigg a olhasse e descobrisse sua vulnerabilidade, assim ela se sentia. Permitiu finalmente
que os cabelos caíssem em liberdade até os ombros, apanhou a bolsa e desceu
apressada as escadas.
Enquanto trancava a porta, ouviu Rigg tocar a campainha. Como não possuía casaco

de noite, apanhou um abrigo de lã que tricotara para Louise. A irmã não gostara da cor
creme. Como se tratava de lã muito cara, aliás, escolhida pela própria Louise, Harriet
ficara com o casaco.
Inconsciente do quanto a lã macia realçava-lhe a tez, e dava-lhe uma ar de feminilidade,
jogou o casaco sobre os ombros. Saudou Rigg com um sorriso tenso.
Apressou-se a entrar no Range Rover, temerosa de que ele se sentisse obrigado, por
educação, a elogiar sua aparência. Sentia como se houvesse um aviso sobre o vestido,
"novo em folha", e que ele adivinhasse a razão de ela ter-se dado a tal trabalho.
Aproximou-se da porta de trás do carro, descobrindo que ao lado de Trixie sentara-se
um jovem desconhecido.
Hesitou, confusa com a presença de um quarto membro inesperado no grupo. Rigg
abriu-lhe a porta da frente.
Enquanto ele se encaminhava de volta à porta do motorista, Trixie a saudou,
entusiasmada, e apresentou o companheiro.
- Harriet, este é Jonathan Walker. Começou a trabalhar para Rigg e ainda não conhece
muita gente por aqui. Acaba de sair de Oxford.
O rapaz apertou a mão de Harriet calorosamente.
No caminho, ouvindo a conversa espontânea no banco de trás, Harriet permaneceu
silenciosa.
Jonathan Walker parecia um jovem agradável, entusiasmado pelo primeiro trabalho e
aparentemente bem adaptado ao novo ambiente.
Alojara-se num vilarejo próximo à fábrica.
Não havia ocorrido a Harriet que seriam quatro, o que aumentava a intimidade para os
casais.
Ambos os homens usavam roupa de noite e, pelo que pôde perceber, Trixie vestia um
lindo vestido de vívido azul e preto, com uma saia parecida com a sua. Em lugar do tafetá,
entretanto, havia um tecido negro com salpicos de brilho azul. Usava também as pérolas
da mãe.
Viajaram três quartos de hora até chegaram a seu destino, uma casa de campo no meio
de magníficos jardins.
Rigg conseguiu estacionar próximo à porta e todos puderam entrar juntos. Como Trixie
acompanhava o passo de Jonathan, pegando-lhe a mão em sinal de companheirismo,
Harriet viu-se obrigada a andar ao lado de Rigg, certificando-se de que havia uma
distância conveniente entre ambos.
Enquanto caminhavam silenciosos para a entrada iluminada do hotel, Harriet não pôde
evitar se perguntar que tipo de tormento a aguardava na noite à frente.
CAPÍTULO VIII
Harriet logo soube que a noite ia ser dolorosa. Depois que ela e Trixie entregaram os
casacos no vestiário, foram acompanhadas para uma sala de luxo discreto, onde seriam
servidos os aperitivos.
A sala não tinha bar, apenas cadeiras e sofás ao redor de mesas, todas dispostas de
modo que seus ocupantes pudessem desfrutar do calor do enorme tronco que ardia na
lareira.
A iluminação suave e uma rica mistura de cores aumentavam a aura de calor e conforto
do ambiente.
Um garçom atencioso trouxe-Ihes a carta de bebidas.
Harriet reprimiu um sorriso quando Trixie escolheu um coquetel de frutas com pouco
álcool. Ela própria optou por água Perrier. Com certeza beberiam vinho durante a
refeição, e não desejava arriscar perder o autocontrole. Seu estômago protestou à
lembrança do que dois copos de vinho haviam produzido na festa do pastor.
Rigg também pediu água francesa, e Jonathan acompanhou a escolha de Trixie.

Os jovens falavam com liberdade, e Trixie perguntou a Jonathan sobre seu lar e amigos.
Não se perturbou ao descobrir que ele tinha uma namorada em Oxford.
- Seu tio me contou que você pretende ir para a universidade
Harriet ouviu o jovem dizer.
- Sim, mas não creio que escolha Oxford - Trixie respondeu.
Jonathan se virou para Rigg e lhe perguntou sobre seus estudos na universidade,
enquanto Trixie se voltava para Harriet.
- Seu vestido é lindo - comentou com admiração. - Você o comprou em Londres?
- Não... não comprei lá - respondeu hesitante, rezando para que Trixie não lhe
perguntasse quando e onde o comprara. Respirou aliviada quando o garçom chegou com
suas bebidas e Trixie esqueceu o assunto.
O hotel servia jantar à americana, Rigg os informou, e não um menu à Ia carte. Logo o
bar se encheu de outros clientes.
Às oito e meia o maitre entrou na sala anunciando que o jantar estava para ser servido
e todos começaram a se dirigir para as portas duplas que davam acesso ao salão de
jantar. Enormes janelas ao longo da parede permitiam avistar um terraço iluminado.
- No verão, abrem as janelas francesas e as pessoas podem andar no terraço - Rigg
informou a Harriet.
Haviam formado dois pares e, enquanto o maitre indicava a mesa, Harriet sentiu Rigg
segurar-lhe o braço, guiando-a, polido.
Mesmo através do espesso veludo, o toque queimava-lhe a pele, fazendo-a esquivarse.
Ele retirou a mão, a boca formando uma linha dura, e se afastou dela.
As mesas exibiam o cardápio escrito à mão, mas Harriet não conseguia partilhar do
entusiasmo de Trixie pelos pratos. A última coisa que desejava era comer. Mas não podia
estragar a reunião de Trixie. Assim, a despeito dos protestos de seu estômago turbulento,
forçou-se a comer cada prato que se sucedia.
Ao menos Trixie se divertia, Harriet observou. Jonathan passaria o Natal com a família
e, no regresso, traria a namorada e a irmã. Após um rápido olhar para Rigg, sugeriu que
Trixie poderia gostar de lhes mostrar um pouco do campo.
Rigg certamente convidara Jonathan por considerá-lo companhia mais adequada que
Eva Soames. Harriet não o censurava. Trixie já divulgara que Eva não pretendia ir à
universidade, e que a amiga procuraria um emprego.
A refeição parecia interminável. Harriet estava ansiosa pelo fim. A cada segundo ficava
mais consciente da presença de Rigg, e cada vez mais tensa.
Após o café, foi anunciado que o salão de baile se encontraria à disposição dos
clientes.
Trixie levantou-se, impaciente, os olhos brilhantes, chamando Rigg.
- Venha, estou morrendo de vontade de dançar - ela pediu, mas ele a segurou com
palavras firmes.
- Harriet ainda não terminou o café, Trixie.
Rápida, Harriet afastou a xícara, anunciando que não pretendia tomá-Io. Não queria
mesmo prolongar a noite; melhor que dançassem logo. Forçando um sorriso, levantou-se.
Os músculos de seu rosto doiam pela tensão. Rigg mal lhe dirigira a palavra durante a
refeição. Essa atitude confirmava-lhe a idéia de que sua presença era-lhe indesejável. No
entanto, quando se levantou, Rigg fez o mesmo, e enquanto se dirigia ao salão de baile
no andar superior, subindo uma elegante escada, ele a segurou pelo braço. Havia ainda
um bom espaço a separá-Ios. Já Trixie e Jonathan, caminhando à frente, se tocavam sem
se intimidar.
O silêncio entre ambos era como o espaço que os separava, Harriet refletiu, triste.
Estava infectado pela estupidez de seu comportamento na semana anterior. Se não
tivesse reagido como o fizera, ela e Rigg poderiam ter se tornado bons amigos.

No princípio daquele relacionamento, ele havia começado a se aproximar, desejoso de
partilhar com ela sua preocupação com Trixie. Agora tudo se perdera. Olhou-o de
esguelha e viu-lhe a expressão dura e quase zangada. Supôs que também ele lutava para
manter uma aparência controlada.
Aquilo denotava receio de que ela fosse estúpida o suficiente para alimentar alguma
fantasia romântica sobre um beijo? Será que ele acreditava que ela não tinha inteligência
para reconhecer a rejeição?
Ficou contente ao alcançarem o topo das escadas, afastando-se dele.
Por alguma razão, seu movimento o irritou. Ela piscou ao perceber os olhos lançarem
faíscas, cujo calor parecia aquecer seu próprio corpo.
O conhecimento de que ele podia afetá-Ia tanto emocionalmente quanto fisicamente a
assustava, mas só quando Trixie se voltou, chamando-os, ela se libertou do magnetismo
daquele olhar e continuou a andar.
A sala já se encontrava ocupada por vários casais, sentados ao redor de pequenas
mesas dispostas ao redor da pista de dança.
As outras mulheres, muitas de sua idade, se vestiam tão bem que sua saia de veludo
teria parecido um andrajo em tal ambiente.
Havia grandes grupos, abrangendo famílias, e a orquestra tocava músicas de todos os
tipos, atendendo a todas as faixas de idade.
Trixie dançou com entusiasmo, primeiro com o tio e depois com Jonathan, que insistiu
em ser parceiro de Harriet. Era um jovem muito agradável, que sentia falta da família e
dos amigos, e Harriet suspeitou que Rigg o convidara não apenas para benefício de Trixie
como também pelo próprio rapaz.
Outros jovens vieram convidar Trixie para dançar. Entre dois parceiros, Trixie se dirigiu a
Rigg:
- Ainda não convidou Harriet para dançar.
Antes que Harriet pudesse dizer qualquer coisa, Rigg se levantou.
- Uma omissão que pretendo remediar - ele disse, calmo, se Harriet me permitir.
Da parte dela, impossível recusar. No entanto, também ele tinha sido forçado ao gesto;
Trixie não lhe dera opção.
Para seu nervosismo, enquanto ele a conduzia à pista, o tempo da música mudou para
um número lento, as luzes diminuíram. Os pares dançavam mais próximos. Música para
amantes dançarem, Harriet reconheceu, tentando aumentar a distância de Rigg.
- Que há de errado? - ele perguntou, ao notá-Ia arredia.
- Eu... não podemos dançar isto. - Sentia o rosto arder.
- Bem, não podemos voltar à mesa, não é? - ele rebateu, impaciente e irritado.
Antes que pudesse replicar, ele a atraíra a seus braços e a mantinha próxima a seu
corpo, acompanhando a música.
Revelava-se um bom dançarino e, se as circunstâncias fossem diferentes, a sensação
dos corpos juntos, movendo-se de modo tão íntimo, teria sido o paraíso. Mas ela
precisava contrair cada músculo para impedir sua carne traidora de se apertar contra ele.
Seus braços, ao contrário do das outras mulheres, se mostravam endurecidos, as mãos
achatadas nos ombros, e o corpo rígido, para preservar algum espaço entre ambos.
Rigg ignorava, aparentemente, sua tensão. Parecia também não avaliar como sua
atitude poderia ser interpretada por ela, mantinha os braços a seu redor, uma das mãos
apoiadas atrás, na cintura, e a outra segurando-a de tal modo que seus dedos roçavamlhe a nuca sob os cabelos.
O esforço de contrair os músculos começava a incomodá-Ia. Moviam-se em direção às
janelas francesas, e Harriet percebeu o início de um tremor percorrer-lhe todo o corpo.
Nesse lado da sala, mais escuro, algumas janelas estavam abertas, revelando um longo
balcão. De repente, o tremor interno explodiu e ela nada podia fazer para interromper os
movimentos convulsivos.

Por um segundo, parecia que Rigg a apertava com mais força, e justo quando ela se
dizia que estava imaginando coisas, ele a afastou, deixando um enorme espaço entre
ambos.
Os músicos haviam começado a tocar um segundo número, tão íntimo quanto o
primeiro, e Harriet pensou que Rigg a soltaria por completo e voltariam à mesa, dever
cumprido. Para sua surpresa, ele continuou a dançar.
Então, foi demais para ela. Vencida pelas emoções, afastou-se dele e disse, tremendo:
- Olhe, vamos voltar à mesa, sim? É óbvio que não quer dançar comigo.
Oh, Deus, por que dissera aquilo, como uma criança petulante, implorando segurança?
Por que não dissera apenas que estava cansada?
Já começava a virar-lhe as costas quando ele a segurou pelo braço.
- Meu Deus, essa é boa. Eu não quero dançar com você. Como lhe veio tal idéia?
Durante toda a noite observara nele um sentimento qualquer que ela decodificara como
raiva, raiva dela, certamente, e achava que sabia a razão. Bem, não era culpa sua se ali
estava. E se ele pensou por um momento que ela ia embaraçá-Io por esperar demais de
um beijo que escapara ao controle...
- Não me respondeu, Harriet - ele lembrou. - Disse que é óbvio que não quero dançar
com você. Mas acho que acontece o contrário. Por que é tão claro que não a quero como
acompanhante?
Como entrara nesse tipo de conversa? Ela, sempre cautelosa, agora brincava com fogo.
Ele parecia amargo e furioso. Talvez tivesse o direito de se sentir assim. Ela agira como
uma tola.
- Olhe para os outros que dançam... - ela disse com voz rouca, levantando a cabeça. Esta música é para... para amantes. - Sentia o coração doer. - Eu... nós...
- Para amantes. O que não somos, como você deixou bem claro, mantendo distância
entre nós dois.
- Você fez o mesmo - ela replicou. - Agora mesmo, antes de pararmos de dançar, você...
Ele praguejou entre os dentes. Nunca o vira tão zangado, nem mesmo na noite em que
haviam se encontrado e que ela recusara ajudá-Io.
- Quer mesmo saber por que agi daquela maneira? - ele perguntou, com voz cortante. Bem, então venha aqui e lhe mostro.
E, antes que pudesse sequer pensar, ele a atraíra de volta a seus braços e a moldava
contra seu corpo.
Mesmo através do veludo do vestido, podia sentir o calor que emanava daquele corpo
desejado. Seu coração começou a bater errático... ou era o coração dele que podia
sentir? Seus seios, apertados contra o peito másculo, respondiam ao toque, todo o corpo
a atormentava.
- Esta é a razão pela qual coloquei distância entre nós - Rigg disse sombrio a seu
ouvido, enquanto as mãos apertavam suas costas, moldando-as contra ele, de tal forma
que não havia meio de ela não notar a forte excitação do corpo dele.
Em vez de relaxar o modo como a apertava, moveu-se contra ela tão deliberada e
eroticamente, que ela o fitou com olhos incrédulos.
- Chocada? - ele perguntou, ácido. - Por quê? Não posso ter a reação normal de um
homem que acha uma mulher desejável? Ou é porque pensa que evidências desse tipo
deveriam ser reservadas à cama? Desejo físico é inconveniente? Justo quando achamos
que alcançamos a idade em que podemos controlar nosso corpo, acontece algo que nos
derruba. É por isto que pus alguma distância entre nós, Harriet... porque já deixou bem
claro como me acha desagradável, como homem, e eu não desejava embaraçá-Ia...
- Não o acho desagradável - Harriet o interrompeu. – É você quem não me quer...
- Meu Deus! - Rigg disse, tremendo. - Se estivéssemos em qualquer outro lugar eu a
sacudiria para... - Ele se interrompeu ao ver que ela deixava a tensão escapar numa
suave risada. O que acha que eu ia dizer? - ele perguntou, rouco. - Que ia lhe mostrar

como está errada?
Seu rosto a denunciou.
- É o que faria mesmo - ele continuou. - Meu Deus, Harriet, tem alguma idéia de quanto
a quero? Aqui... agora... neste minuto.
Ele gemeu e ela viu o desejo expresso nos olhos dele, sentiu-o em seu corpo.
- Toda a semana estive pensando em você... querendo-a... mas foi tão fria comigo. - Ele
franzia a testa agora.
A dança terminara e nenhum dos dois havia percebido, até que as luzes se acenderam,
fazendo-a piscar.
- Não podemos discutir este assunto aqui. Necessito vê-Ia sozinha, para podermos falar.
- Amanhã? - Harriet arriscou, incerta. - Ou na próxima semana, quando Trixie voltar à
escola?
- Não... hoje à noite. Posso ir à sua casa e vê-Ia mais tarde, após deixar Jonathan e
levar Trixie para casa? Só para conversar - ele acrescentou, suave.
Os impulsos em seu corpo lhe diziam como ela desejava partilhar muito mais que uma
simples conversa.
- Sim... sim, está bem - concordou, ignorando com firmeza a voz interna que a advertia
da loucura.
Rigg a desejava!
Durante o resto da noite, sentiu-se como se flutuasse. Enquanto os outros falavam e
dançavam, ela revivia aqueles momentos nos braços de Rigg, quando ele exibira quanto
a desejava. A lembrança a excitava tanto quanto o gesto dele.
À uma hora da manhã se retiraram. Desta vez, enquanto se encaminhavam ao carro,
não havia distância separando-a de Rigg, e, quando ele se inclinou para apertar-lhe o
cinto de segurança, a sensação da respiração contra sua pele, as mãos roçando-lhe o
corpo, aquilo era como fagulhas a picar-lhe o corpo.
No momento em que ele afastava a mão, tocou por acaso o seio. Harriet o ouviu
segurar a respiração. Estava contente pela escuridão no Range Rover, escondendo tanto
seu rubor quanto o fato de que, sob o corpete de veludo, seus seios tinham se
intumescidos, os bicos duros, a ereção visível sob o veludo. Foi o que atraiu a atenção de
Rigg, que se inclinou um pouco sobre ela. Se estivessem sozinhos, nada o teria impedido
de roçar as mãos na carne macia e explorar a ansiedade que antecipava o toque. Talvez
não apenas com as mãos, mas também com a boca.
Um longo tremor a atravessou. Como podia saber quão intenso seria o prazer que
sentiria quando sua boca a explorasse, se jamais conhecera a intimidade de tal carícia?
Como podia saber como seu corpo responderia?
Desta vez o silêncio entre ambos se mostrava muito diferente do anterior, pleno de
antecipação e excitamento. Tudo era novo para ela, mas sentia que Rigg não acharia
estranho ou inaceitável o fato de ser seu primeiro amante.
Deixaram primeiro Jonathan em Hawick. Quando alcançaram o cottage, Rigg a
acompanhou até a porta da frente, pegando a chave para abri-Ia. Não a tocou, e, como se
adivinhasse o que ela pensava, disse com voz rouca:
- Não ouso... Se a tocar agora não conseguirei parar. Espere por mim, sim? Não
demorarei.
Ela permaneceu parada no meio da cozinha, alguns minutos fitando o vazio. De
repente, agitou-se. Acenderia um fogo na lareira... mas primeiro precisava trocar de
roupa. De quanto tempo dispunha? Devia apressar-se.
CAPÍTULO IX
Meia hora se passou, e depois outra. O fogo se extinguia e precisou ser reativado.
Onde estava Rigg? Por que demorava tanto?

Harriet esperou até as três da manhã antes de admitir que ele não viria e, então,
arrastou-se para a cama.
Fora um sonho, uma quimera. Imaginara tudo. Ele não a queria; montara uma cruel
piada para se divertir com ela, disse a si própria enquanto se acomodava na cama.
Divertira-se a sua custa.
No íntimo, sabia que devia ter ocorrido algum problema com eles. Mas Rigg nem ao
menos telefonara. Olhou para o aparelho... não, não ligaria.
Uma hora mais tarde, quase adormecida, ouviu o ruído do carro.
Não havia tempo para trocar de roupa. Vestiu apenas o robe e correu para baixo,
descalça, para abrir a porta e recebê-Io.
Ele tinha as sobrancelhas franzidas e Harriet percebeu quão pouco o conhecia. De
repente, tomou consciência de que ele podia interpretar de modo errôneo sua aparência.
- Pensei que não viesse mais, por isso me deitei - disse, apressada. - Seu carro me
despertou.
- Desculpe. Talvez não devesse ter vindo, é tarde. Houve uma chamada telefônica. Meu
agente nos Estados Unidos queria conversar sobre um grande pedido. É importante para
nós vendermos lá.
- Isto podia ter esperado - Harriet replicou, suave, ao perceber-lhe o cansaço.
- Talvez sim, talvez não. - Ele sorriu.
Quase sem perceber, aproximaram-se um do outro ao mesmo tempo e se abraçaram.
Ela teve apenas tempo para se surpreender com a força das batidas de seu coração
antes que ele a beijasse. Desta vez era diferente. Não um beijo experimental, mas
profundo e intenso, um homem exigindo o que já sabia ser seu.
Sentiu as pernas fraquejarem sob o calor do prazer. Jamais soubera que era possível
sentir-se assim. Como pudera imaginar viver sem tais sensações? Abriu a boca em
reação ao que pensava e Rigg tomou vantagem, a língua passando entre os lábios
abertos, explorando, procurando, excitando seus sentimentos.
Deslizou as mãos por seus longos cabelos, segurou-lhe a cabeça e aprofundou o beijo,
que agora significava um íntimo reconhecimento de sua necessidade de possuir-lhe o
corpo, da mesma maneira que possuía a boca.
Os braços ao redor dele, o corpo se contraindo, ansioso, Harriet estremecia em ondas,
antecipando um prazer selvagem. Rigg a apertava tanto que ela podia sentir
integralmente a evidência do desejo dele. Cada movimento de seus corpos reforçava o
mesmo desejo de ambos. E ele viera apenas para falar!
Então ele se afastou um pouco dela, embora ainda a segurasse.
- Você me faz reagir como um garoto de dezessete anos, não como um homem de trinta
e oito que sou - ele comentou, rouco. - Não tenho o hábito de agir dessa maneira, você
sabe.
Harriet reconheceu o tom sério sob as palavras.
- Nem eu - ela admitiu. - De fato...
Estremeceu de leve.
- Está frio aqui. Está tremendo.
Estivera tremendo ao ser beijada, e não de frio. A diferença entre a experiência sexual
dele e a sua própria a assustava.
- A sala ainda deve estar aquecida. Podemos conversar lá... Ele apertou-lhe a mão e o
contato dos dedos a arrepiou. Se aquele tão leve roçar a excitava, imagine se então...
O fogo permanecia aceso e Rigg o reavivou, acrescentando mais troncos.
O aroma agradável da lenha crepitando encheu a sala. Eles ficaram em silêncio, a
princípio. Em tal atmosfera, ela devia sentir paz. Contudo, foi acometida de uma urgência
que se manifestava em dor. Se ele a tocasse de novo...
Mas Rigg não o fez. Sentou-se numa cadeira oposta à dela e começou sem
preâmbulos:

- Não posso fingir que não tenha me surpreendido. Julguei que já se iam longe os anos
em que reagia a uma mulher e o faço diante de você.
Harriet se moveu, desconfortável. Não era o que queria ouvir, a simples admissão de
um desejo físico. Não, o que queria era uma declaração apaixonada de amor, ouvi-Io
dizer de sua necessidade, tanto emocional quanto física... Tais palavras a libertariam para
admitir os próprios sentimentos. Rigg falava da reação, e queria ouvi-Io falar de amor.
Levantou-se inquieta da cadeira e começou a se mover ao redor da sala, enquanto ele
a observava. Não podia encará-Io. Se o fizesse, contaria tudo o que sentia.
- Não acho que seja uma boa idéia, Rigg - disse tremendo. - Eu aceito que você... que
me queira...
- Mas? - ele a desafiou, antecipando-se.
- Estou assustada, Rigg. Não estou acostumada a este tipo de relacionamento. Eu...
- Não percebe que se dá o mesmo comigo? – interrompeu-a, zangado. - Pelo amor de
Deus, tenho trinta e oito anos, bem longe da idade em que antecipei ser possível
experimentar algo do gênero.
Agora também ele caminhava pela sala, como um gato numa gaiola.
- Tirou o tapete debaixo de meus pés. Apaixonei-me à primeira vista, e... - Ele abanou a
cabeça, de costas, enquanto Harriet absorvia a maravilha que ele dissera. Apaixonarase... ele a amava. Não se tratava então apenas de desejo físico! - Pensei que ia
enlouquecer, sofrendo de algum tipo de loucura da maturidade...
- Mas não pode me amar - Harriet protestou, incerta, fantasias a atravessar-lhe o
cérebro.
- Oh, mas amo - ele contou-lhe com doçura, voltando-se para fitá-Ia.
- Rigg... - Harriet enrubescera.
- Olhe, vamos parar de tentar analisar, vamos desfrutar o presente que nos foi dado?
Deixar-nos levar?
- Para onde quer que nos leve? - Harriet modulou a voz.
- Já sabemos aonde nos levará - Rigg comentou, após breve pausa.
- Você sim, Rigg - ela sorriu, trêmula - mas não sou experiente neste tipo de coisas.
- E você pensa que eu seja - ele deixou escapar. - Desde a chegada de Trixie em minha
vida, tenho sido um completo celibatário. Não há nada como a responsabilidade de
educar uma adolescente para reprimir o desejo sexual. Só que isto é algo que não pode
ser reprimido ou controlado. É diferente... é especial. - Ele a alcançou, seus dedos
entrelaçando-se, enviando apelos de tensão sexual por todo seu corpo. - Algo que
nenhum de nós experimentou por muito tempo - ele acrescentou, suave.
- Algo que jamais experimentei antes - Harriet admitiu. E isso me aterroriza, Rigg. Não
estou habituada a esse tipo de sentimento... Nunca houve ninguém em minha vida antes
que me fizesse sentir assim, e não é justo que... Sei que deve soar estranho, mas nunca
tive experiências prévias...
Quando o olhou, ele sorria, gentil. Ela pôde identificar mais que o sorriso, que a
confissão lhe agradara.
Sentia-se nervosa, insegura, querendo deixar claro que para ela não se tratava de uma
aventura. Mas, orgulhosa e reservada, não conseguiu induzir as palavras de segurança
pelas quais ansiava.
- Não tenho experiência para enfrentar esse tipo de coisa.
- Nenhuma experiência a prepara para isso, Harriet. - Rigg se mostrava gentil. - Amo-a
e desejo-a. Quero ter você. Quero tocar seu corpo e descobrir em seus olhos que
também estou tocando-lhe o coração. Quero ver seus olhos se fecharem de paixão e
sentir seu corpo vibrar sob minhas mãos. Quero aprender a tocar cada contorno de sua
pele, a curva de seus seios, a onda de seu estômago, a suavidade de seus quadris, e
sentir tudo de novo com minha boca.
Harriet sentia o corpo doer com tanta intensidade que era como se ele já a tocasse.

Ele começou a beijá-Ia, e a realidade excedia a mais erótica de suas fantasias.
Não protestou quando as mãos fortes encontraram a maciez dos seios. Não tinha o
corpo de uma mocinha, mas era macio e firme. Ele abaixou as alças da camisola até a
cintura, expondo os seios intumescidos.
Quando começou a acariciar uma das aréolas, ela estremeceu em resposta. Seria
imaginação ou seus seios inchavam e se estendiam para ele, implorando pelo toque? O
próprio corpo a surpreendia.
O seio acariciado pulsava em visível resposta erótica.
- Rigg... - Sua voz soava estranha, mais como uma súplica. Com a boca ele começou a
percorrer-lhe o pescoço, provocando gemidos.
Continuava a acariciar-lhe os seios e pareceu localizar o exato momento em que ela
perdia o autocontrole, deixando-se cair num sofá e levando-a consigo, sem soltar-lhe a
boca. Ela arqueou o corpo em direção ao dele, num apelo instintivo e mudo, e foi atendida
pelo forte calor da mão masculina a acariciar-lhe o ventre e tocá-Ia onde ela mais ansiava
ser tocada. A boca de Rigg se comprimia, erótica, no sensível pulsar do seio.
A natureza então se manifestou, mostrando-lhe para o que fora destinada, para o que
nascera.
Nua, deitada sob ele em frente ao fogo, recebia as carícias de mãos e boca que
aplacavam a urgência de suas necessidades.
Libertara-se, não havia necessidade de desviar os olhos da nudez masculina. Era um
belo corpo de homem, pujante no desejo. Não estava embaraçada pela própria hesitação
em tocá-Ia. Ele parecia saber com exatidão o que ela sentia, pois tomou-lhe a mão e a
colocou lenta e deliberadamente sobre seu corpo, esticando os dedos curvados e
mostrando-lhe que ele era apenas humano e que também o toque dela o fazia tremer e
gritar.
Com tal desejo expresso, ela julgou que ele seria rápido e impaciente. Em vez disso,
seduzia-a com gentileza, excitando-lhe o corpo ao ponto de fazê-Io chegar a pulsações
rítmicas de prazer, tocando-a com habilidade muito tempo até penetrá-Ia, afinal. Mostroulhe o mesmo prazer, investindo com calor dentro de seu corpo.
- Não quero machucá-Ia - ele disse, suave. - Mas não posso prometer ser sempre tão
gentil. Você me excita ao máximo, e nem sei como explicar, Harriet...
Ela chocou tanto a si mesma quanto a ele ao lhe pedir, rouca:
- Mostre-me então... mostre-me quanto me deseja.
Mais tarde, exultante sob a feroz investida do corpo dentro dela, sentiu as rápidas
convulsões de prazer inesperadas.
Nua e saciada, aconchegada em seus braços, desejando assim permanecer para
sempre, isolada do resto do mundo... Sozinhos e juntos. Mas Rigg já se afastava.
- Preciso ir - ele comunicou, entristecido. - Não há nada que apreciaria mais do que ficar
com você... abraçá-Ia a noite inteira e vê-Ia acordar em meus braços. Mas receio que seja
impossível.
Ela observou-o vestir-se, enfiando também sua camisola, sentindo frio ao vê-Io partir,
experimentando uma depressão incompreensível.
Rigg parecia entender. Inclinando-se, envolveu-lhe a cabeça com as mãos e olhou-a
nos olhos.
- É normal essa sensação - disse-lhe, e, após um beijo gentil, levantou-se. - Preciso ir à
fábrica verificar se temos estoque suficiente para o pedido americano. Assim que estiver
livre, telefonarei.
Um outro beijo, um pouco mais demorado, que provocou-lhe nova excitação, e ele
então se afastou.
Quase seis horas da manhã... Quantas horas faltavam para revê-Io?
Subiu ao quarto e deitou-se, a mente e o coração nele. Fora um amante maravilhoso,
preocupado com seu bem-estar, generoso.

Pequenas manchas começavam a escurecer alguns pontos de sua pele, os lugares que
marcavam o desejo dele. Não doíam, mas faziam-na recordar como se sentira.
Adormeceu ansiando por ele.
Nenhum dos dois tomara precaução contra uma possível gravidez. Ela se julgava
segura de que, nesse período do mês, seria difícil conceber. E mesmo assim, se
acontecesse...
Estremeceu com violência, imaginando um filho de Rigg, o estômago revirando de
prazer ante a idéia.
A criança de Rigg. Rigg! Como o amava. Seria por ele amada com tal intensidade?
É claro que ele a amava. Dissera bem claro.
Será que a amaria a ponto de querê-Ia de modo permanente em sua vida? Como
esposa? Ou simples amante?
Impossível tornar a dormir. Ansiedade e medo encheriam seu tempo até Rigg telefonar.
Não bastava que fizessem amor com ternura. Ela também precisava das palavras, de
ouvi-Io dizer que a queria para todo o sempre, como mulher... como mãe de seus filhos.
Quanto tempo precisaria esperar pelo telefonema? Tentou calcular o tempo. Talvez na
hora do almoço, dependendo de como estivesse ocupado.
Tempo longo demais... uma vida. Mas precisava agüentar.
CAPÍTULO X
A manhã inteira decorreu e Rigg não telefonou.
Depois do almoço, que pouco conseguira engolir, pôs-se a zanzar pela casa, ansiosa.
No meio da tarde já se sentia doente sob o fardo da suspeita.
Ao crepúsculo, forçou-se a aceitar a idéia de que Rigg não telefonaria.
Em menos de vinte e quatro horas mudara do desespero para a euforia, através de toda
a gama de emoções, da angústia ao êxtase, e agora voltara à angústia. Pior, desta vez:
rejeição, autodesprezo, solidão e conhecimento de que amava sem ser correspondida.
Quis controlar a onda de pensamentos negativos: tentou imaginar que haveria uma
razão séria qualquer a impedir Rigg de se comunicar, algum urgente problema de
trabalho, talvez. Contudo, o senso comum a impedia de encontrar desculpas para ele.
Rigg não telefonara porque, tal como muitos outros homens, à fria luz do dia, repensara
as ações da noite anterior e as promessas implícitas no ato.
Harriet já se julgara inteligente o suficiente para distinguir entre o desejo de um homem
e seu amor. Um tempo atrás, quando adolescente, soubera discernir com facilidade o que
os jovens com quem saía esperavam dela, os beijos desajeitados, as tentativas de pôr as
mãos debaixo da blusa. Depois, durante os longos anos de maturidade, acostumara-se à
idéia de que não seria jamais desejada e perdera todas as defesas.
Além do mais, para ser honesta, amara Rigg a tal ponto na noite anterior que não se
incomodara em conhecer seus motivos reais.
Era culpa sua e de mais ninguém se se enganara, acreditando que ele a amava.
Ao escurecer, abandonara qualquer frágil esperança que pudesse ainda restar.
Rigg devia saber o que ela sentia e suportava nesse momento. A única interpretação
possível para não tê-Ia contatado é que esta fora a forma que encontrara para deixar bem
claro que ele não desejava prosseguir naquele relacionamento.
Apesar de tudo, de se sentir rejeitada emocionalmente, não podia lamentar o ato do
amor. Se voltasse atrás no tempo, faria o mesmo. Talvez ele não pudesse dar-lhe amor,
mas lhe dera prazer além do que ela jamais imaginara existir. Ajudara-a a descobrir
orgulho e prazer no próprio corpo, e em sua habilidade para agradá-Io. Despertara-lhe a
feminilidade e as profundezas de sua sensualidade. Não era culpa dele se ela esperara
por algo mais.
Se não podia amá-Ia, talvez afinal fosse melhor o silêncio. Ele falara de amor, no
entanto, quem sabe a concepção de tal emoção fosse diferente da sua própria, ou talvez

temesse seu desejo de compromisso. Afastara-se dela, afinal, e jamais saberia, portanto,
a verdadeira razão.
Mais tarde, ao preparar-se para dormir, reconheceu que a dor de perder Rigg não
desapareceria da noite para o dia. Soube que passaria a noite em claro, relembrando tudo
o que haviam feito e falado.
De repente ocorreu-lhe que eram vizinhos. Teriam de se rever. Se temera revê-lo antes,
agora seria muito pior. Muito antes de a aurora aparecer nas distantes colinas, sabia que
o único meio de não mais encontrar Rigg novamente seria vender o cottage e mudar-se
da região.
À simples idéia de partir, lágrimas cobriram-lhe os olhos. Precisava encontrar outro
lugar para morar, de qualquer forma.
As seis da manhã já se levantara, e agora tomava uma xícara de café. Sentia-se doente
e desorientada, como se tivesse sofrido um choque.
O tempo parecia ter parado. Afinal, às nove horas, ligou ao agente de quem comprara o
cottage.
Percebeu surpresa do outro lado do fio, quando lhe comunicou que venderia a casa.
Harriet não podia censurá-lo por mostrar-se surpreso. Revelara se tão entusiasmada
sobre a nova moradia...
- Estou me sentindo meio isolada - tentou dar uma explicação plausível. - O cottage fica
afastado de tudo. Acho que preferiria viver próxima a outras pessoas.
- Bem, entendo suas razões - o agente concordou. - Mas receio que não seja a hora
mais propícia para vender. A situação do cottage, mesmo com as melhorias que
introduziu, requer um tipo especial de comprador. Nesta época do ano não conseguirá
recuperar o que investiu. Já na primavera...
Harriet sentiu o coração saltar como se tivesse recebido uma sentença de morte.
Ansiava ficar. Porém, seria fatal para se recuperar da tristeza de ter perdido Rigg.
Não devia enfraquecer. Ficando até a primavera, talvez acabasse ficando para sempre,
enredada na esperança impossível de que um dia Rigg voltasse e a amasse.
Não, não se permitiria tal situação.
- Não quero esperar até a primavera - comunicou, firme. - Estou preparada para ter
prejuízo com a venda.
Podia sentir que o agente, um senhor antiquado e cauteloso, se preocupava.
- É claro, se prefere que eu procure outro agente... - Harriet contrapôs.
- Não, não. Não estarei no escritório nos próximos dias. Poderíamos marcar um
encontro? para tirar as medidas e outros detalhes, na sexta pela manhã?
Harriet queria gritar de impaciência. Com certeza ele tinha todos os detalhes da casa
que adquirira por seu intermédio, mas pressioná-lo podia ser contraproducente. Aceitou o
encontro.
Restavam ainda cinco longos dias antes de sexta-feira. Dias para lembrar, sofrer e
ansiar por Rigg. Atormentar-se lembrando como haviam feito amor na pequena sala de
estar.
Decidiu sair. Trancou a casa, apanhou as chaves do carro e saiu. Passou o dia inteiro
dirigindo sem rumo, através de minúsculas aldeias de pedra e grandes cidades
comerciais, ao longo de estradas vazias que subiam pelas colinas barrentas. Quantos
quilômetros viajou não tinha idéia, e embora estivesse examinando a região, procurando
outro lugar para morar, tinha certeza de que fugia mesmo de Rigg.
Na hora do almoço parou num pequeno vilarejo, entrando no pub local. Mas não
conseguiu comer os sanduíches que pedira.
Na quarta-feira, seu reflexo no espelho a advertiu de que o sofrimento a enfraquecia
física e emocionalmente.
Perdera peso. O rosto exibia fundas olheiras, e os ossos da face pareciam realçados.
Se não quisesse que os outros começassem a imaginar o que lhe acontecia, devia tentar

com todas as forças recompor-se.
O problema é que, por mais que tentasse, não conseguia comer nem dormir. Parara de
esperar o som do telefone. Quando soou, quebrando o silêncio na manhã de quarta-feira,
fitou-o com olhos vazios por diversos segundos antes de responder. Parecia uma
sonâmbula ou alguém sob a influência de drogas.
Apanhou o receptor, ouvindo a voz ansiosa de Trixie.
- Harriet, é você? Oh, por favor, venha logo! Preciso de sua ajuda desesperadamente. Houve um som semelhante ao de um soluço e Trixie repetiu ansiosa: - Harriet...
O apelo reanimou-a. Nem perguntou o que ocorria; disse que iria imediatamente, em
menos de dez minutos.
Ao parar o pequeno carro sobre o cascalho fora da mansão, em frente à porta, estava
consciente de ter dirigido de modo inadequado.
Não sabia o que havia de errado, mas suspeitava que Trixie teria tido algum tipo de
confronto com Rigg, talvez pela amizade com Eva, e que necessitava desabafar com
alguém. Devia ter ocorrido algo muito grave para ela não ter ido à escola. Harriet não se
surpreendeu ao ver Trixie sair correndo pela porta afora e cair em seus braços.
- Oh, graças a Deus, você chegou! Rigg me proibiu de lhe contar, mas não havia
ninguém mais. A Sra. Arkwright e Tom estão fora... consegui levá-Io para cima, ele está
adormecido. Bem, ao menos, acho que ele está dormindo.
Harriet não entendia.
- Oh, por favor, depressa - Trixie implorou, segurando-lhe o braço. - Harriet, estou tão
preocupada com ele... No hospital disseram que poderia haver alguma concussão
residual.. deixaram que ele viesse para casa. E ao chegar teve um colapso.
Harriet não sabia quem tremia mais, se ela ou Trixie.
- Foi terrível - Trixie contou. - Acordei no domingo de manhã e encontrei o bilhete
dizendo que fora à fábrica. Depois veio a polícia anunciando que houvera um acidente.
Alguém tentou arrombar a fábrica, julgando que estivesse vazia. Rigg foi ferido ao tentar
impedi-los de entrar. Quis telefonar-lhe, mas a polícia não me deu tempo... E no hospital
esperei muito antes de ver o médico, e então ele me contou que Rigg se encontrava
inconsciente.
Rigg ferido! Inconsciente... imóvel num leito de hospital, incapaz de lhe telefonar! Oh,
Deus, parecia mentira.
- Por que não me telefonou em algum momento, Trixie?
- Rigg não me permitiu - Trixie explicou. - Voltou a si na segunda-feira e, quando me
deixaram vê-Io, perguntou-me se você havia ligado. Disse que não e perguntei-lhe se ele
queria que lhe contasse o ocorrido. Não quis, Harriet! Acho até que ficaria furioso comigo
se soubesse que está aqui agora. Eu não sabia a quem recorrer... Estava tão assustada...
Disseram no hospital que ele...
- Bem, devemos chamar o médico - Harriet decidiu, comovida ao ver os olhos de Trixie
se encherem de lágrimas.
- É melhor você vê-Io primeiro... talvez não necessitemos de um médico.
- Mas, Trixie, se ele está sofrendo de uma concussão...
- Ele detestou ficar no hospital - Trixie relatou. - Ficou furioso quando o detiveram para
testes. Acho que devemos esperar um pouco, ver se ele volta a si. Sinto-me melhor com
você aqui, Harriet.
- Ele lhe disse por que não deveria me avisar?
- Oh, algo como não incomodá-Ia, que você tinha sua própria vida.
- Acho que devíamos chamar o médico - disse, com firmeza. Então, ao ver a expressão
teimosa no rosto de Trixie, acrescentou mais suave: - Se ele tem uma concussão, Trixie,
devemos avisar o médico.
- Talvez seja apenas um desmaio. Por que não sobe e verifica? Por favor! - implorou.
- Não entendo nada de questões médicas!

- Eu me sentirei bem melhor se for vê-Io. Estava no quarto ao ter o colapso. Consegui
levá-Io para a cama, mas seu braço esquerdo parece meio estranho.
- Está bem - Harriet suspirou. - Prometa-me que depois chamará o médico, pois, senão,
eu mesma o farei.
- Tudo bem - Trixie aquiesceu. - Venha, é por aqui.
A jovem se recuperava rápido, Harriet refletiu. Dez minutos antes se debulhava em
lágrimas, agora parecia toda feliz.
Receava invadir a privacidade de Rigg enquanto ele se encontrava insconsciente. Ele
não a queria em sua vida, deixara bem claro. Encolheu-se ante a possibilidade da
humilhação, dele afastá-Ia e ela forçando entrar num espaço que ele não queria dividir.
- É este quarto - Trixie a empurrou para dentro. Podia distinguir apenas o corpo de Rigg
deitado com o rosto para baixo.
Ao se aproximar da cama, ouviu a porta fechar-se. Voltou a cabeça e começou a querer
falar com Trixie. Então perturbou-se, estava sozinha no quarto. Fitou espantada a porta
fechada e ouviu o som alarmante da chave sendo girada na fechadura, trancada por fora.
Trixie teria enlouquecido? O que tentava fazer?
- Trixie, que está fazendo? - perguntou.
Da cama veio o som de uma tosse ligeira e uma voz sonolenta, chamando Trixie.
Quando Harriet se voltou, viu que Rigg se sentava.
- Você! - ele exclamou com voz gutural, não escondendo o choque.
- Trixie me chamou - contou, desanimada, incapaz de encontrar outra coisa para dizer. Ela me contou que havia tido um colapso. Assustou-se com seu estado, e...
- Ah, sim! E isso a trouxe para cá?
Ele parecia zangado e amargo. Sentiu-se enrubescer ao adivinhar que ele pensava que
ela se aproveitara do acidente para forçar sua presença.
- Trixie parecia desesperada e eu não tinha idéia do que se passava... pensei que
haviam brigado.
- Por isso veio... solidariedade feminina? Pensei conhecer você, Harriet, mas enganeime.
Ele se sentara na beira da cama e, à exceção de um curativo numa área inchada da
têmpora, não havia evidências de nada errado. Não parecia nem se comportava como
alguém que tivesse sofrido um colapso devido a uma concussão.
Ocorreu a Harriet a suspeita de que se tratava de uma armadilha de Trixie para trazê-Ia
junto a Rigg.
- Pensei que você fosse privilegiada entre seu sexo. Uma mulher que preferia viver
sozinha a partilhar a vida com alguém a quem não pudesse entregar por inteiro seu
coração. Não podia acreditar em minha sorte ao encontrá-Ia... Não deveria ter fantasiado
sobre você, não é? Apaixonei-me por uma miragem, uma mulher que não existia.
Somente um louco não percebe que uma mulher que já passou dos trinta e não é casada
não assumiu compromisso desse tipo por decisão própria. Meu erro foi acreditar que sua
razão era do coração, quando na realidade lhe importa a liberdade...
Harriet o fitava, incapaz de entender o que ouvia. Acusações tão estranhas, aquelas...
de onde Rigg tirara aquilo?
- Não compreendo... você prometeu me ligar - A voz saía pouco firme. - Eu esperei...
Ele não a deixou terminar e irrompeu explosivo:
- E foi o que fiz. Ou ao menos pedi no hospital que telefonassem a você e contassem o
que acontecera. Dei-Ihes seu número, 872302.
Harriet pensou que ia desmaiar, ou flutuar...
Com cuidado, como se temesse quebrar algo, corrigiu-o:
- Não, Rigg, o número é 872303.
Por um momento, ambos se entreolharam.
- Mas não tentou se comunicar - Rigg acusou. - Perguntei a Trixie se havia ligado.

- Como poderia? - Harriet devolveu. - Suas últimas palavras foram que entraria em
contato. Só podia encontrar uma razão para não ter me ligado.
- E qual foi? - ele indagou.
- Pensei que tivesse mudado de idéia... ou percebido que eu queria mais do que você
pretendia.
- Achou que eu a seduzira e depois ia deixá-Ia? - Ele se mostrava furioso. - Após
termos ficado juntos daquela maneira... você pensou mesmo...
Harriet não conseguia pronunciar qualquer palavra.
- Mesmo que eu não lhe dissesse que a amava, mesmo que o modo como fizemos
amor não tenha deixado claro meus sentimentos, um mínimo de decência comum deveria
prevalecer... Pensou que eu ia fazer amor com você e depois sumir! Harriet!
- Achei que só então você teria percebido quanto eu o amava e que desejaria um lugar
permanente em sua vida, não um temporário - conseguiu se exprimir. - E então, quando
não telefonou.. .
- Oh, meu Deus - Rigg disse, rouco. - Venha cá. Ela se aproximou tremendo.
- Amo você - ele afirmou. - Quero partilhar o resto de minha vida com você... quero-a
como minha mulher, mãe de meus filhos. Quero-a de todos os modos possíveis e ainda
mais, Harriet. Se não lhe disse tudo isso antes, sinto muito. Mas estava lá quando fizemos
amor. Não posso lhe contar como me senti ao readquirir os sentidos no hospital e
descobrir que você não ligara. Tinha certeza de que ao abrir os olhos veria você. E então
Trixie começou a falar em lhe contar... esfregando sal na ferida... Pensei que você
soubesse.
Beijou-a com gentileza e depois menos gentil.
- Você pode agir assim - ela se afastou um pouco - depois do colapso?
- Que colapso?
- Trixie me chamou dizendo que tivera um colapso devido à concussão. Quis chamar o
médico e ela não permitiu...
- Não me surpreende - Rigg comentou. - Não tive nenhum colapso. Deram-me um
analgésico que me deixou sonolento e me aconselharam a dormir. Só que não funcionava
para o tipo de dor que eu sentia.
- Trixie sabe... sobre nós? - Harriet perguntou olhando a porta trancada.
- Acho que sim. No hospital, falei dormindo. Suspeito que toda a região já sabe que eu a
amo...
Ela contou-lhe então como Trixie manipulara a ambos. Em vez de ficar furioso, ele deu
uma grande risada.
Harriet pensou que, se tivesse procurado conhecer Rigg meIhor, e não desse vazão às
próprias inseguranças, nunca teria acreditado que ele não se importava com ela.
- Quando podemos nos casar? - ele perguntou. - Acho melhor que seja logo... Estou
muito velho para expedições noturnas à sua casa e, além disso, quero acordar a seu lado
pela manhã.
- Antes do Natal - Harriet sugeriu - mas com uma condição. Uma lua-de-mel esquiando
depois do Natal, e com Trixie. Ela bem merece, após todo o duro trabalho que teve, como
prêmio de consolação.
Dez minutos depois ainda riam quando Trixie entrou carregando uma bandeja com a
garrafa de champanhe e três copos.
Mais tarde Harriet perguntou a Rigg sobre a moça com quem ele ia se casar tempos
atrás.
Para sua surpresa, ele riu. Não fora abandonado. Após um breve romance, haviam
terminado de comum acordo.
- Só amei uma mulher em minha vida, e é você - ele confessou.
No dia de Natal, Rigg e Harriet já estavam casados há uma semana. Harriet nunca vira
tantos presentes de Natal sob a pesada árvore que haviam escolhido juntos.

O último presente entregue foi um envelope, para Trixie, que sorriu, encantada, ao ver
do que se tratava.
- Vão me levar junto! - gritou, abraçando os dois.
- Bem, Harriet achou que você merecia uma recompensa após sua intervenção - Rigg
contou.
- Harriet, você é a melhor tia do mundo! É a maior! - Trixie comentou, magnânima.
Rigg comentou ao ouvido da esposa:
- Sentimentos com as quais concordo de coração, Sra. Matthews.
FIM

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