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O popular que nos interpela a partir do massivo: Na

música gravada, no rádio, no cinema e na televisão.

“A noção de cultura é, sem dúvida, em ciência


social, a menos definida de todas as noções:ora engloba todo fenômeno humano
para se opor à natureza, ora é o resíduo onde se junta a tudo o que não político,
nem econômico, nem religioso”.(MORIN – 252)
As pesquisas elaboradas por toda nossa história
freqüentemente não ligam-se ao viés da cultura por considerarem esta uma área
pouco importante, e quando escrevem a respeito dela concebem-na como algo
pertencente a dominação ideológica e sua conseqüente hierarquização.
Novamente citando Edgar Morin, é pouco provável
que alguém contemple de forma completa o que é cultura, portanto ela “situa-se
na encruzilhada do intelectual com o afetivo”.
É preciso analisar a cultura como um elemento que
se liga aos processos econômico, social e político bem como os que articulam as
comunicações, portanto um importante aspecto a ser analisado.
As mediações ligadas aos aparelhos tecnológicos
devem ser analisadas em conjunto com estado social em que se insere; Na
América Latina temos que o popular se tornou massivo através de dois
movimentos.
O primeiro inicia-se nos anos 30 e estende-se até os
anos 50, anunciando junto com a política populista uma tentativa em se
homogenizar a população, criando uma identidade única para a nação.
Neste dinâmica de correlação de forças vê-se
nitidamente que o popular conquistou importante espaço de interpelação com os
demais setores elevando sua busca por identificação e certificação de cidadania;
Este processo foi reforçado graças a crise hegemônica em que se inseriu(crise do
capitalismo em frente ao socialismo e falta de definição política forte
internamente).
O que deu importante suporte para o reconhecimento
popular foram os aparelhos mediadores, como o rádio, o disco, a televisão e o
cinema; Eles veiculavam a formação da identidade nacional bem como sua
vivencia o que propiciou a deflagração do sentimento de pertencimento, criando
raízes que vão alem do sentido político que se atribui aos programas desta época.
Já esta outra etapa da construção do massivo liga-se
ao intenso progresso capitalista que busca mais consumidores e lucratividade,
fazendo com que o caráter econômico se sobreponha ao político (Vê-se a
massificação até mesmo onde não se tem massa).
O intenso movimento de padronização é a cada
momento mais visto, distribuindo discursos que tem o objetivo de englobar ricos
e pobres no mesmo sonho.
Esta integração provoca dois faces distintas perante
ao consumo: O primeiro refere-se a possibilidade de alcance assegurada pelo
poder monetário enquanto que, a segunda face é delineada pelo sonho de
consumo e a fermentação que provocam no imaginário desta população.
A televisão e o rádio passam a conter a essência de
divertir e proporcionar conselhos capazes de guiarem o espectador e resolverem,
ao menos aparentemente as preocupações por eles sentidas.
A música proporcionou a massa uma forma de
identificação muito grande, afinal sua intensa ligação com a oralidade transmitia
a ponte entre a tradição e a modernidade, ou seja, entre o rural e o urbano.
A música se constituiu como o objeto mais
corriqueiro e de maior consumo no cotidiano das pessoas, sendo que o disco
proporcionou as possibilidades de ouvi-la em qualquer lugar e tempo através do
toca discos, alem de promover o consumo antes muito restrito; Isto possibilitou
que as pessoas ouvissem as canções sem necessariamente se dirigir a bailes, o
que provocou um “banho musical contínuo”.
A música configura-se como um grande produto de
consumo já que ela difunde-se em todos os meios, classes e faixas etárias
adquirindo importante lócus na sociedade graças a sua capacidade de abranger
todos( a tendência homogenizadora de gostos é impulsionada pela industria
fonográfica, a qual possui como tendência um movimento progressivo em
relação a diminuição das diferenças).
Grandes exemplos de identificação através da música
estão evidentes e sacralizados pela sociedade graças a substancia que a envolve,
que vem a ser o seu ritmo e suas palavras.
O Jazz tornou-se um importante espelho da situação
do negro norte americano; Ela absorve a sensibilidade das ruas levando o mundo
do trabalho exploratório e do racismo através de uma linguagem musical que
reflete o sofrimento desta população proporcionando identificação, visibilidade e
um meio de ascensão econômica e social demonstrando que a massa quer ser
reconhecida.
A obra “História social do Jazz” do historiador Eric
Hobsbawm, foi escrita em uma época em que este estilo é ouvido apenas por
uma minoria, sendo este um detalhado estudo sobre a musicalidade, os efeitos e
metamorfoses experimentadas pelo Jazz e seu emblema de originalidade, aspecto
o qual Theodor Adorno discorda.
O pós anos 50 marcou a ascensão do rock, através de
seu ritmo mais frenético e o frenesi existencial motivado pela rebeldia
adolescente, e o declínio do Jazz e seu ritmo mais pausado.
O que de fato ocorreu foi que o público ouvinte
envelheceu e não surgiram novos adeptos, provocando uma estagnação; Isto não
significa que o Jazz morreu e que o rock será eterno.
Sua popularidade atual concentra-se em núcleos mais
intimistas e mais letrados e desviou-se também da hegemônica rota EUA-UK em
busca de outros lugares mais lucrativos visto que o declínio na venda de discos é
assustador: 1,3% Jazz contra 75% rock; Desta forma vê-se que a uma
transformação do Jazz em um produto de consumo intelectual enquanto que ele
nasceu no popular.Esta “ascensão de intelectualidade” marca também a
passagem de algo voltado para o entretenimento para algo da esfera considerada
séria.
Mesmo estando em franca decadência, o Jazz passa a
ser reconhecido como elemento oficial da cultura norte americana, sendo que sua
prova de amor está presente em diversos filmes e símbolos, até mesmo através da
figura de Lisa Simpson, saxofonista apaixonada pelo Jazz, criada por Matt
Groening que faz parte do elenco de “Os Simpsons”, o desenho animado de
maior longevidade da história.
O que vemos é a invasão do mundo branco no
universo negro, sendo que apesar de todas as discriminações promovidas em
torno desde estilo, ele transforma-se em objeto de grande consumo, permitindo
que os negros se estabelecessem socialmente em um ambiente racista por
excelência.
Desta forma temos que o Jazz nasce no popular é
absorvido pela industria e massifica-se através da gravação de discos,
extrapolando as demarcações classistas.
Este popular é sempre reforçado pela oralidade que
se infiltra na musica e liga-se espiritualmente ao popular.
É graças a sua massificação, que o Jazz consegue
firmar sua face afro, ao trazer em suas melodias acontecimentos do dia-a-dia,
buscarem a liberdade e reconhecimento, sendo que apesar de ser
fundamentalmente ligado ao negro, o Jazz ganhou força e reconhecimento em
diversos segmentos sociais.
Segundo Hobsbawm temos, em relação ao Jazz :
“Ele conquistou espaço como música que as pessoas fazem e de que participam
ativa e socialmente, e não como uma música de aceitação pacífica”.
Nesta argumentação temos evidenciado o papel da
recepção contemplando o ouvinte e não o considerando mero depositário.O autor
também nos elucida sobre dois caminhos que o Jazz tomou, sendo estes distintos
e não menos importantes.
O primeiro como objeto de entretenimento e o
segundo como uma “arte isolada” tendo como espectadores pessoas, muitas
vezes contrarias a faceta pop do Jazz; Desta forma temos que a industria do
entretenimento não cria, ela reproduz e adapta as manifestações populares quase
sempre a adulterando.
O problema em relação a industria da música atinge
dois aspectos, um ligado a técnica e outro a lucratividade. Em relação a técnica
temos que preferiu-se “sacrificar o aspecto humano em favor da qualidade
técnica”, e em relação a lucratividade que é favorecida pela divulgação massiva
através de rádio e juke-boxes.
Movimento análogo é experimentado pelo samba no
Brasil, que migrou do terreiro de candomblé e rodas de samba, típicas do
universo rural para o universo urbano através do disco e do rádio
“Estabilizar uma expressão musical de base popular,
como forma de conquistar uma linguagem que concilie o país na horizontalidade
do território e verticalidade das classes”. Com essas palavras Mario de Andrade
imprime o lugar da música no projeto nacionalizador dos anos 30, ou seja um
lugar de expressividade e destaque em amplito nacional.(BARBERO – 238)
A incorporação social do gesto produtivo do negro
que é formado pela crescente urbanização através do processo da ida as cidades,
refletindo o que antes era do plano rural no ambiente urbano; Seus gestos trazem
a tona algo desconhecido pelo branco: a mistura entre dança e trabalho que
funcionava como estratégia de sobrevivência do escravo, e funcionava como “
uma embriaguez sem álcool”.(BARBERO – 239)
A crise de 29 e a crise da hegemonia interna
proporcionaram o reconhecimento destas práticas e da classe que a produzia, já
que ele passou a ser um dos itens de preocupação do governo.
Entretanto esta busca pela identidade essencialmente
nacional através do interior provocou a diferenciação entre a boa música popular,
aquela que mantinha-se rural e não apresentava mudanças e nem se incorporava
ao ambiente urbano e a musica ruim praticada na cidade.
Isto foi fundamental para o reconhecimento do negro
através da musica e sua divulgação através dos rádios e discos, mostrando que o
reconhecimento não foi concedido e sim conquistado.
Perdendo sua essência de identificação popular, o
samba foi incorporado pela industria cultural que o massificou, tendo como o
carnaval a exemplificação máxima do negro em nossa cultura.
A intensa simbiose entre rádio e música foi
estimulada pela massificação dos discos decorrente do processo de crescimento
da industria.Desta forma temos na ascepção de Edgar Morin que "toda canção
moderna se tornou satélite da industria do disco".Ainda em relação ao rádio o
autor diz:"As estações do rádio emitem continuamente discos: o gira-disco
permite a audição generalizada do disco.O transítor permite a audição do disco
em toda parte, quer seja no gira discos, quer na rádio”.( MORIN – 237)
Refletindo acerca destas duas colocações temos que a canção ganhou
abrangência devida a sua massificação que possibilitou maior abrangência e
acesso tendo a música como consumo a todo momento, em qualquer lugar.
A autora Maria Cristina Matta discute em seu texto "Rádio: memórias da
recepção" a influencia do rádio no cotidiano das massas, tendo como base,
sobretudo, relatos de ouvintes de diferentes faixas etárias e temporalidades
demonstrando a face de diferentes sujeitos na cidade de Córdoba,na
Argentina(Jesus Martin Barbero utiliza-se também deste país em sua obra "Dos
Meios as mediações" ao falar sobre a influencia e formação do rádio na América
Latina). O enfoque dado a Argentina é extremamente pertinente visto que este
país foi pioneiro no uso e propagação deste aparato, mesmo sendo coberto por
diversas críticas provenientes da elite letrada, que tradicionalmente liga-se naos
livros.
Com a programação voltada para o popular, o rádio possuía estratagemas como
a oralidade sempre voltada para o idioma falado, veiculando informações úteis
aos trabalhadores, festas eram anunciadas, o migrante mantinha uma ponte com
sua terra natal alem de ser a companhia das donas de casa, que se emocionavam e
se informavam sobre o espaço público, garantindo um saber a respeito deste
lócus o qual ela não tem muito contato.Ao arquitetar seu pensamento
contemplando relatos de ouvintes, ou seja mostrando que diversos sentimentos
foram instigados graças ao rádio e a flexibilidade imaginativa que este
proporciona( já que o ouvinte idealiza a voz por ele escutada);
A possibilidade de ascensão, não só econômica como social através do rádio ou
da música, sucinta nos ouvintes a esperança de que ocorra o mesmo com
eles.Abordando esta temática Alcir Lenharo proporciona a oportunidade de
enxergar nas trajetórias de vida as similaridades com a música que por sua vez
nos elucida a respeito deste mundo, para que se estimule uma maior
compreensão sobre o mesmo e o efeito sobre o popular.
Os relatos apreendidos pelos ouvintes pelas "memórias da recepção"(título da
obra de Maria Matta) somadas a uma analise político-histórica permitiram que
autores como Maria da Matta e Martin-Barbero concluíssem que o rádio vincula-
se ao consumo material, ou seja a obtenção de um bem e o fascínio tecnológico
que se envolveu em torno do mesmo(mostrando uma melhoria financeira)
mostra o lugar de destaque deste aparelho no circuito familiar e a explicitação de
gostos e preferências coincidentes.
Antes de penetrar no amplito familiar o rádio foi elemento chave para a
constituição de alguns estabelecimentos e sagração dos mais tradicionais; O
efeito produzido nos gostos populares, que estão inseridos na década de
30("década das cadeias nacionais", traço populista evidente) ligam-se a maior
inserção do rádio e a expansão do mesmo de forma que este aparelho não mais é
algo ocasional no dia-a-dia.
Alem desses sentidos assinalados temos o ideal de consumo cultural que se
articulou na formação do rádio; Seguindo este sentido temos, segundo Maria
Cristina da Matta que :
“Sem dúvida alguma o rádio se faz meio popular a
partir de um imaginário de ascensão social e visibilidade pública que não está
desligado das condições objetivas que caracterizam social e economicamente as
décadas de 40 e 50, época que ainda se reconhece como um momento de ouro do
meio”.(MATTA – 295).
Dentro da dinâmica radiofônica temos que alem das músicas vários programas
se destacaram, entre eles o radioteatro, Martin Barbero coloca que há três
períodos definidos pelo radioteatro:
O primeiro é montado em meio as canções sendo que a argumentação fica em
segundo plano; Já a segunda etapa liga-se ao teatro e a temática gauchesca que
trás a tona o bandido e sua reivindicação social. A terceira etapa é formada pela
expansão do radioteatro que também passa a vincular programas policiais e
infantis.
O radioteatro representou um grande instrumento de reconhecimento das massas
já que inerente a seus temas, sempre estavam visíveis as temáticas populares que
provocaram a grande ligação do público com o radioteatro.
A fusão entre rural e urbano, popular e massivo que por sua vez será a chave
mestra para o acesso ao sentimento de pertencimento nacional, que é reforçada
pelos personagens e seus dramas ficcionais que se assemelham ao real(injustiças
sociais e preconceitos são estampados nestas produções) produzindo um
reconhecimento entre o ouvido e o sentido
O traço mais marcante do radioteatro localiza-se nas histórias de amor que eram
recheadas por elementos melodramáticos que possui em seu cerne uma intensa
capacidade de provocar a identificação do público com seus elementos,
sobretudo o público feminino.(o tema melodrama será posteriormente tratado);
“O radioteatro não foi, por certo, um gênero de consumo estritamente feminino,
no entanto, as memórias elaboradas permitem afirmar que marcou um peculiar
tipo de relação feminina com o rádio que até hoje está inscrito de maneira
residual no consumo radiofônico” ( MATTA – 290)
Outro ponto fundamental que tornou o radioteatro um programa de grande
audiência é a possibilidade de ver os atores que as pessoas ouviam, graças as
apresentações que eles realizavam pelo interior.
Os programas de vertente policial tornaram-se muito populares neste período;
As "histórias de crimes", sobretudo as narradas por Gil Gomes eram as de maior
audiência. Diferente do radioteatro que produz sua narrativa baseada na
experiência, estes programas possuíam uma forte técnica narrativa que misturava
o tom de voz enérgico a dramatização da vitima bem como o julgamento
ferrenho do culpado.
Em meio a explosão de indignação, provérbios, palavras moralizantes e o clamor
por justiça estavam presentes neste formato que abordava alem de figuras de
identificação ele trazia a tona a cruel realidade.(este formado também se
transferiu para TV, sendo que suas técnicas e doutrinas eram análogos, tendo o
recurso da imagem como potencializador de sensações)
O ultimo sentido que se atribui ao rádio é o seu papel educativo e informativo. A
educação radiofônica foi utilizada como forma de veicular as novas práticas
modernas para que os trabalhadores naturalizassem a mecanização e as novas
práticas produtivas afim de que se evitasse futuros problemas.
Já a informação juntamente com o noticiário, são a fonte de respostas para o
trabalhador e também o migrante,sendo que desta maneira ele poderá manter-se
ligado a sua terra natal, alem de ser o veiculo que divulgava acontecimentos na
cidade lembrando que essas funções se adequavam de acordo com as
necessidades de cada localidade a que abrangia.
O radio, portanto, capta a densidade e as diversidades populares trasformando o
que Martin-Barbero chama de "gêneros derivados em matrizes culturais que
englobam temporalidades e memórias".
A citação abaixo de autoria de Jesus Martin-Barbero tem a finalidade de deixar
claro o papel do rádio como mediador do massivo:
"O rádio será outro meio que permitira conectar o que vem das culturas
camponeses com o mundo das sensibilidade urbana.Conservando suas falas,suas
canções e o traço de seu humor, o rádio mediara entre a tradição e a
modernidade”.(BARBERO-281).
Com o barateamento da televisão e sua massificação,a supremacia até então
experimentada pelo rádio foi quebrada colocando a como algo muito alem de
"mais um eletrodoméstico em casa" ela é "a peça central de sua casa". Ascensão
da TV foi motivada pela magia de poder ver o que até então somente se ouvia;
Ao analisar a televisão toma-se como categoria teórico-metodológica, o ambiente
familiar, a temporalidade social e a competência cultural como formas de analise
da interpelação do massivo perante a sociedade,desta forma Jesus Martin-
Barbero deixa de lado alegações que consideram a televisão um aparato de
contaminação burguesa e as que a consideram um reforço da repressão familiar.
“A casa fecha-se sobre si mesma mas abre-se para o mundo graças a televisão,
que garante uma nova ligação com o mundo, real e imaginário;mas a agressão
deste é transmutada em sua representação.” (MORIN – 256)
O discurso televisivo é arquitetado de forma que o espectador entenda
facilmente o vinculado através de elementos que intermediam o ficcional e o
real(outra função atribuida a esta facilidade é a de que apesar das distrações da
casa o telespectador não se perca).
Este encargo fica nas mãos do animador e/ou apresentador que vindos do
espetáculo popular eles dão o "tom" exigido para uma melhor compreensão.A
oralidade é algo fundamental sendo que ela se adequa ao idioma falado, afim de
que haja maior reconhecimento, alem de ser algo de simples compreensão.
Ao colocar em cena personagens que transitam pelo mundo real, temos a
construção de um interlocutor, que com seu linguajar simples chama o
espectador a participar consigo sendo que ela marca a proximidade do aparelho
com os espectadores levando-os a "magia de se ver".
A sensação de imediatez é também fundamental já que pretende-se aproximar o
cotidiano do público a veiculação televisiva familiarizando-os.Ao se portar como
um aparelho que seleciona seus conteúdos afim de conquistar vários públicos
colocando-os em um circuito homogenizador; temos que assim se atinge as
pessoas através de diálogos que servem como amalgador do cotidiano popular,
alem de unir os componentes da família, sendo algo muito alem de meras
ideologias já que vemos o estabelecimento de relações e uma espécie de
abrandamento no circuito familiar.
Em relação a temporalidade social temos que a duração do programas é
calculado de forma que o espectador não se perca em meio a narrativa ou se
entedie.
A veiculação dos programas segue uma grade horária onde os programas
mantêm-se regulares, formando o que Martin-Barbero chama de "estética da
repetição".Por fim temos a questão da "competência cultural", a qual gera
profundas polêmicas, já que de um lado vê-se a funcionalidade cultural e por
outra a descarta colocando-a como apenas entretenimento.
Esta atitute provoca a configuração da TV como assunto não serio, provocando o
esvaziamento de conteúdo de caráter didático;Este formato de produção possui
uma rica significação social e atua culturalmente atrás dos gêneros que abarca.
Eles se ligam ao cotidiano através da linguagem, personagens e pela imediatez
formando uma mediação entre produção e consumo, dando conta das diferenças
sociais.
Outro ponto extremamente contundente a se tratar é sobre a regularidade das
abordagens temáticas.As abordagens são sempre recorrentes, o espectador sabe o
que esperar como desfecho e mesmo assim continua sendo um espectador
assíduo;Isto deve-se ao falso sentimento de controle instigada pelo "saber o que
vai acontecer" e pela sensação de inteligência motivada pelo mesmo motivo.
O melodrama também esta bastante presente na estrutura televisiva, sendo as
novelas mexicanas um grande ícone deste importante estilo.
Silvia Oroz abordou esta temática enfaticamente, analisando a ligação do
melodrama com a cultura de massas através de veiculações televisivas e
cinematográficas, sobretudo as produzidas no México; Ao realizar esta pesquisa
a autora analisou a recepção destas produções através de entrevistas em
diferentes faixas etárias.
A estrutura melodramática apóia-se em protótipos e arquétipos que ligam-se por
sua vez a ética, costumes e manifestações culturais do popular, os quais são
insistentemente explorados e mesmo assim não provocam quedas de audiência;
Em realidade esta aposta em formulas já consagradas asseguram a lucratividade,
esta “gratificante repetição ritual” alem de produzir a gratificação intelectual
sendo que desta forma vê-se que o melodrama não rompe com o já mitificado,
produzindo uma reafirmação de valores consagrados pela ideologia judaico-cristã
extremamente arraigada na América Latina.
Nesta dinâmica temos que as buscas de algo do lógico se dão na fantasia,
aumentando assim a dependência humana pela ficção; Na idéia de Gramsci a
fantasia localiza-se no fato de que é nesta esfera que se vê a justiça, a igualdade e
o triunfo do amor sobre o dinheiro e a glorificação de ações nobres.
A ligação com enredos sociais, históricos, culturais e políticos que sempre estão
ligados a realidade provocando reformulações, nem sempre perceptíveis ao longo
do tempo.
A fixação de gêneros se ligou a arquétipos já aceitos e cristalizados, que unindo-
se ao estrelismo provocou uma grande popularidade para o cinema, esta
possibilidade de ascensão social e visualidade é algo sempre almejado, seja na
televisão, rádio, cinema e música.
Este gênero foi particularmente melhor assimilado pela mulher que encontrou
nele uma válvula de escape para seus anseios românticos tradicionalmente
ligados a ela (chamado por Freud de “resíduo hereditário cultural”).
A temática amorosa típica do melodrama reflete a moral e os costumes da época
estando sempre de acordo com as manifestações pregadas pela maioria.
O amor idealizado é um tema recorrente sendo que ele se sobrepõe a qualquer
obstáculo, o mais explorado é o financeiro, ou seja a mulher pobre que se
apaixona pelo homem rico e após diversas peripércias vê o amor triunfar através
do casamento, a grande realização da instituição cristã e patriarcal.
O sacrifício também é extremamente vinculado,
onde a mulher o faz em prol da família, seja pelo filho para que este ascenda
socialmente ou para que a irmã tenha um futuro melhor.
Dentro do universo melodramático temos a paixão carnal, que é demonizada
através do idéia de que ela é um pecado; Nem sempre presente no casamento, a
paixão não deveria determinar o fim do casamento, visto que esta união é
indissolúvel, lembrando que o divorcio era um tabu.Portanto a felicidade não
deve se sobrepor a instituição do casamento.
Esta permanente castração do desejo provocou o “triunfo do principio do
rendimento, ilustrado pela figura de Tanatos, sobre o principio do prazer,
ilustrado por Eros”.
O incesto também faz parte do melodrama, sempre ligado ao horror e repudio,
seja pelo não conhecimento dos praticantes, seja pelo disfarçamento das relações
entre homem mais velho/ mulher mais nova, pela indeterminação do amor
fraternal. Este tema é mais comum do que se pensa, sobretudo no campo
constituindo assim mais um dos inúmeros reflexos da realidade.
As nuances femininas, caracterizadas pelos protótipos de mãe,
irmã,namorada,esposa e a amada somada pelas faces negativas da má e prostituta
são as figuras que causam profunda identificação com a realidade mostrada ,
deixando evidente o machismo arraigado pela sociedade patriarcal.
O melodrama possui estrutura de fácil compreensão alem ser simples, já que não
necessita de grandes reflexões alem de vincular pessoas comuns que sofrem,
lutam e choram causando os mesmos sentimentos no espectador, que chora
graças a motivação destes sentimentos, não por ser alguém alienado, já que não
deve-se zombar desta linguagem universal que são as lágrimas.
A utilização dos temas se ligam a realidade social, ou seja, temas raciais,
prostitutas e doenças são recorrentes já que ligam-se a realidade dos
espectadores.
Seu estilo narrativo, em terceira pessoa, causa a impressão de espontaneidade
envolvendo o espectador em uma falsa impressão de continuidade e factualidade,
fazendo menção a alegorias nacionais fundando um universo análogo ao do
espectador.
O uso de imagens e o plano musical também são recursos explorados que criam
grandes ênfases contemplando também intertextualidades com outros títulos da
mesma espécie.
A bondade é primordial na construção melodramática, já que esta qualidade
ligada ao pobre situa-se como indiferente a relações econômicas, projetando o
pobre como bom e o rico como ruim. Esta estrutura e os acontecimentos que o
comportam compactuam com a visão popular e suas ações.
A cultura de massas possui identificação com o cinema sobretudo com o
mexicano; A empatia entre povo e cinema se dá graças a sua estrutura que
possibilitou o reconhecimento do povo com o que se vincula na tela, já que ela
adotava códigos de costumes e hábitos já conhecidos em seu dia-a-dia, bem
como a visualização de novos.
Tendo como estilos de filmes são os para rir (comédias) e os para chorar
(melodrama) o cinema passa por três momentos específicos.
O primeiro refere-se aos anos 20 e 30 é dominado pela reformulação do
bandidismo, que se embasa por ideários românticos, como a bondade
rivalizando-a com a violência do bandidismo. O segundo momento inicia-se sob
a édige dos governos populistas dos anos 30, onde se tem a comédia rancheira
que traz a tona o machismo, que compensa a pobreza e a inferioridade social. Já
a terceira etapa é vista nos anos 40 e tem como foco a construção do ambiente
urbano, onde há a formação do bairro em substituição do ambiente rural,
montando-se um intenso descompasso entre a vida espiritual e a vida do trabalho.
O reconhecimento através de ideários já consagrados, somado as novas
sensações promoveu um reconhecimento popular que só pode ser proporcionado
pelo encontro da vivencia coletiva promovida pela expansão da mediação.
“O cinema vai assim ligar-se a fome das massas por
fazerem visíveis socialmente”.(BARBERO - 232 )
Ao provocar a identificação através do cinema vê-se que as pessoas “vão ao
cinema para se ver”; Ao permitir que o povo se veja temos que o cinema
nacionaliza os modos de sentir diferente da outorga promovida pelos estados
populistas.
Estes estímulos acabam amenizando o impacto de dos choques culturais e vêem
diante de si sua imagem; Há três tipos de ingredientes que compõem a
identificação do homem com a grande tela.
Eles são os elementos teatrais, que englobam não apenas atos mas também a
linguagem, elementos de degradação, que elevam o povo e o sentimento
nacionalista, rebaixando-se a conceitos e idéias até mesmo vulgares e também
aos elementos de modernização que atualizam os mitos afim de mantê-los
atuantes.
A grande sedução do cinema ao que se refere ao massivo institui-se no
melodrama, cujo estilo une a vontade de elevação social com o desejo de
inflamar espíritos heróicos.
O cinema promove também a sacralização de imagens e temas que nem sempre
são reais, ou seja a ênfase em aspectos de forma a melhorá-los ou mesmo
depreciá-los (A cenografia e a música unem-se neste movimento dando ênfase
aos diálogos ou mesmo as metáforas levantadas).
Os grandes ícones do cinema, ou seja os que ascenderam ao estrelato são
profundamente ligadas a caricaturas que elas representam, ou seja a imagem que
elas evocam em suas representações.
Em relação ao estrelato temos uma profunda analise
realizada por Edgar Morin que aponta que temos três espécies de estrelas que se
ligam a suas temporalidades.
A primeira refere-se a caricaturas do cinema mudo
(marcado pela ligação com os romances folhetinescos e os espetáculos de circo
que promovem a comedia) que ligam-se ao mundo dos mortais acrescentando em
sua esfera um teor mitológico; A segunda é marcada pela expansão da cultura de
massas e a evolução para o cinema sonoro( que de acordo com Adorno acaba
promovendo o triunfo da técnica sobre o talento, determinando o morte deste
como arte) que juntamente com o rádio passa a ser o lócus de satisfação de
pulsões humanas cada vez mais coibidas pela sociedade; As estrelas adquirem
uma “natureza humana e outra sobre-humana” localizando-se na “encruzilhada
da vida ideal e da vida real” realizando sobretudo a integração de todos em um
único molde abarcando sonhos iguais, mesmo que eles sejam acessíveis apenas
para uma pequena parcela, fazendo com que os outros os satisfaçam na esfera do
imaginário. (MORIN – 255)
A terceira etapa é marcada pela elevação de outras
esferas alem da do reconhecimento e do consumo pouco possível; As
extravagâncias vistas em filmes se concretizam e permitem o acesso de um maior
contingente; A esfera dourada das estrelas mostra sua face negra através da
humanização destes deuses que revelam o intenso vazio em que estão
mergulhadas; “A infelicidade dos Olímpicos torna-se uma fonte de rentabilidade,
e doravante toda uma imprensa especializada alimenta a saga das chorosas
Sorayas e outros destinos voltados a errância.” Dando inicio a assuntos ligados
ao mal estar.(MORIN – 256)
Esta profunda crise emocional que se evidencia
promove a instabilidade sugerida pela fase anterior e seu sentido integrador; Os
meios midiáticos passam a ser o reduto da formação de opinião e o lócus onde se
procura não só diversão mas também conselhos.

Bibliografia:
MORIN, Edgar – Uma nova era da cultura de
massas:a crise da felicidade, A industria da canção. In: Sociologia Publicações
Europa-América, 1996.
MARTIN-BARBERO, Jesus – Dos meios as
mediações
OROZ,Silvia – Melodrama e Cultura de Massas e Os
“filmes para chorar”: O melodrama cinematográfico In: O cinema de Lágrimas
da América Latina
LENHARO,Alcir – Os cantores do rádio
MATTA,Maria Cristina da – Rádio: Memórias da
recepção. In: Teorias do Rádio textos e contextos volume 1
HOBSBAWM,Eric – Introdução á edição de 1989,
Introdução, Como reconhecer o Jazz, Pré-história. In: História Social do Jazz