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Presidente do Conselho Nacional Executivo

Lisboa, 14 de Maio de 2009

Exmos. Senhores,

Li com atenção a V. nota de imprensa e agradeço a confiança


implícita ao solicitarem que me pronuncie sobre matéria de
indiscutível relevância.

Porque não tenho por hábito refugiar-me no silêncio e acredito que a


tomada de posições claras é útil para todos, quer o nosso interlocutor
concorde ou discorde das nossas posições, também neste caso não
poderia deixar de responder.

Infelizmente não é possível assumir uma posição identificável com a


da Ordem dos Médicos sobre a questão concreta que colocam já que
nunca até hoje o executivo da Ordem se debruçou expressamente
sobre esta matéria. Diga-se, no entanto, que se o fizesse o faria
ouvindo o órgão técnico, neste caso, o Colégio da Especialidade de
Psiquiatria, ponderando as implicações éticas e políticas, ie, as
consequências na Sociedade da sua tomada de posição.

No caso que motiva o vosso comunicado e esta minha resposta, o


Exmo. Senhor Prof. Dr. José Marques Teixeira falou a título pessoal,
não vinculando o Colégio de Especialidade ou a Ordem. Assim, não
me cabe subscrever ou contrariar uma opinião do foro técnico que,
indubitavelmente, tem o direito de exprimir enquanto médico e
cidadão.
Enquadrando o assunto em termos éticos, sempre se dirá que a
Ordem dos Médicos e o seu Código Deontológico privilegiam os
princípios bioéticos tais como definidos por Beauchamp e Childress,
entre os quais os da beneficência, da não maleficência, da autonomia
e da justiça.

Fazendo convergir e sopesando os vários envolvidos dir-se-á:

- Não é possível considerar que a orientação sexual prefigure


qualquer forma de doença ou comportamento eticamente
condenável;

- Não se enquadra no princípio da beneficência tratar o que


manifestamente não é uma doença, nem se aceita, nesta
conformidade, que tal seja entendido como um imperativo ou mesmo
meramente como indicativo a qualquer indivíduo;

- Caso a ciência demonstre que a tentativa de reorientar sexualmente


um ser humano constitua para ele um dano inexorável ou altamente
provável, fazê-lo viola o princípio da não maleficência;

- O princípio de autonomia determina e, em meu entender, neste caso


prevalece, que qualquer ser humano é livre de aceitar ou negar a sua
orientação sexual e buscar ajuda médica quando dessa atitude lhe
resulta sofrimento.

Atendendo aos valores e preconceitos bem reais que por vezes


influenciam as sociedades ou os agregados familiares, é possível
identificar situações em que uma determinada orientação sexual
possa ser causa de sofrimento psicológico numa pessoa concreta.
Deverá nestas circunstâncias o médico a quem é solicitada ajuda,
diagnosticar a situação, estabelecer um plano terapêutico e discuti-lo
com o seu doente, respeitando o consentimento informado que
resulta do respeito pela sua autonomia. Ajudar o doente a aceitar a
sua orientação ou, pelo contrário, ajudá-lo a sedimentar ou definir a
orientação que pretende é matéria só apreciável em cada caso,
decorre da especificidade deste e inscreve-se no direito de cada
pessoa à liberdade e autodeterminação, direito que o médico é
obrigado a cumprir escrupulosamente.

Assim, se um indivíduo identificar como causa de sofrimento a sua


orientação sexual e manifestar vontade de a alterar, e o médico o
considerar como viável e não prefigurador de riscos excessivos,
aceder ao seu desejo não constitui uma violação ética.

Irei solicitar aos órgãos técnicos e éticos o estudo da situação para,


caso seja totalmente indiscutível uma determinada postura técnica
(quer no sentido de considerar ser correcto executar, quer sê-lo
abster-se de executar uma determinada terapêutica), inscrever tal
atitude como critério indicativo da boa prática pela Ordem dos
Médicos.

Aproveito o ensejo para apresentar os meus melhores cumprimentos,

O Presidente

Dr. Pedro M. H. Nunes