O amor sob a luz do oriente

Um romance entre um Padre Inquisidor e uma cigana
andarilha. E como cenário a velha Espanha e Turquia.

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O amor sob a luz do oriente

O amor sob a luz do oriente.
Era uma época não muito remota. Por volta do ano de mil e quinhentos.
Onde era massiva a inquisição espanhola sobre povos muçulmanos, indígenas,
ciganos, judeus e etc. O reinado era da rainha Isabel I de Castela, ou Isabel, a
católica. Espanha, Andaluzia. Algumas províncias formavam a parte meridional
do país com Sevilha – a capital - Granada, Córdoba e Jaén. Marcada por guerras
internas, coincidentemente era o recanto de refugiados de outros combates
pelo restante da Europa, principalmente no lado oriental. Não é à toa que nos
dias de hoje, Andaluzia, é uma comunidade autônoma, justamente por abrigar
diferentes povos, de diferentes costumes. Com isso já se tem mais ou menos a

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noção da vida daquela região: diversidade cultural, religiosa, étnica... Mas
deixando as guerras de lado e os outros povos, o meu interesse é lhes contar
sobre os ciganos. Em Andaluzia, geralmente, vinham do norte da Índia, Portugal,
Paquistão e Egito, milhares de ciganos. Trazendo à sua nova vida, alegria, magia,
música, dança, fartura e muito amor. Mas a Espanha viva sob um reinado severo
e com ele a temível inquisição. Durante a inquisição católica, vários ciganos,
vários povos, foram expulsos pelos tribunais do Santo Ofício, tendo de regressar
às suas terras, se reespalhando pela Europa e Ásia novamente. Verdadeiros
andarilhos, seu dilema era: "O Céu é meu teto; a Terra é minha pátria e a
Liberdade é minha religião". Contrastando a estas lindas palavras, eis uma
Espanha que, explorava as Américas, caçava os hereges e ainda defendia sua
monarquia, sua soberania a qualquer custo.
Nesta época eu era um padre. Um Inquisidor. Eu era muito respeitado
devido a minha disciplina e conduta religiosa. Eu fui um grande combatente de
irmãos que, infelizmente, se deixavam levar pelos costumes pecaminosos:
avareza, blasfêmia, ingratidão, infâmia, crueldade, etc. Muitos eram os casos de
abusos por parte de padres em confessionários. Chegavam aos meus ouvidos
relatos de jovens abusados sexualmente, moralmente; corrupção e interesses
pessoais. E eu os combatiam austeramente, quer seja líder religioso ou não. Mas
você se pergunta: “realmente, quem és tu para julgar abusos e corrupção?
Como se a inquisição fosse a justiça perfeita e exata!”; confesso que a inquisição
foi muito bárbara. Mas para mim, a inquisição era a grande verdade. Modesto e
inocente, eu fui. Entretanto quem fosse contra a nossa filosofia pagava por isso.
Eu visava somente a religiosidade.

Eu era muito fiel aos meus princípios. Inclusive eu era o padre preferido para
confissões da rainha, missas no castelo, etc. Quando alguém chegava à mesa
inquisitorial, era somente devido a fins religiosos. Eu cria na Igreja e queria
converter a todos. Pois eu achava que ali, todos estariam salvos e em paz,

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abraçando os ensinamentos do Mestre Jesus. Tudo bem! Eu sabia que eu
abusava da inocência das pessoas, certas vezes, de suas religiões e de sua
moral. Mas eu era estava obcecado por isso ao ponto de achar normal
converter os povos ao cristianismo e punisse quem fosse contra isso.
Já em confessionários, onde os católico iria ter com os padres as suas
lamentações e exporem suas culpas e pecados, acontecia algumas atitudes
abusivas, de subornos, criminosas, em que eu era obrigado a usar meu poder
para degredar o confessor* (* Padre ou sacerdote). Isso era inadmissível! Muitas
famílias reconheciam a eficácia da punição que era imposta aos malfeitores,
infelizmente líderes religiosos. Crianças e jovens eram o principal alvo. Com o
passar dos tempos, em Andaluzia, não se ouvia mais falar em abusos por parte
do clérigo. Ordem e fé! Era a ideia que a verdadeira igreja e a santa inquisição
passavam aos populares. Outros casos como corrupção e aliciação durante as
mesas inquisitórias, também foram apurados e levados à realeza, que tomavam
suas decisões com base em suas leis. Todos eram julgados e também
condenados. Em nome da Santa Igreja Católica e em nome da Rainha Isabel I.
Afinal, ninguém desrespeitava um padre. Não sei se por respeito ou medo. Um
padre era sempre estimado, sobretudo um inquisidor. Eu era muito bom no que
fazia e ninguém escapava de mim. Fiz muita coisa contra irmãos de sangue, sei
disso. Foram muitas vidas qual eu tive o poder de julgar. Mas guerreei contra os
corrompidos. Como eu tinha de “mostrar serviço” à rainha, eu ganhei um estilo
implacável de interrogatório e acusação, que me fizeram fama. Eu fiz a minha
escola de inquisidores. Muitos jovens, recém-ordenados padres, vinham ter,
para comigo, ensinamentos de filosofia, teologia, persuasão, dialética,
psicologia e exorcismo. Em toda a Espanha ganhei importância e consideração
por todos os verdadeiros na monarquia e na igreja. Fiz muitas viagens, muitas
delas com fins inquisitórios e outras com intuito de exorcizar espíritos malignos.
Visitei países da América Latina e Central. Inclusive a zona da mata amazônica,
divisa com Peru. Onde conheci a zona da mata, no Brasil e os seus nativos. No
fundo, era um povo que eu temia muito. Eram índios fortes e muito sábios. Mas,
eu nunca demonstrei isso. Pelo contrário: fiz-me a ponto de fazê-los temerem a
mim e a Santa Igreja Católica. Interesses à parte, eu devo muito aos índios desta
região do Brasil, a Amazônia. Os Caraíbas (do tupi Kara' ib; sábio, inteligente)
pertenciam à tribo dessa região norte do Brasil e nós, do fundo do coração,
sabemos que devemos muito a estes nativos. Por quê? Uma vez perdida, a
expedição na fronteira - hoje entre Brasil e Peru - fomos achados pelos índios
desta tribo, os Caraíbas. Fomos recebidos e muito bem tratados pelos nativos, e
com isso não nos dispusemos de tempo suficiente para convertê-los ao
catolicismo, aplicar-lhes a catequese. Apesar da boa recepção e os tratamentos
dados a nós, em questão da saúde, não estávamos habituados e, nem era
recomendado a ter qualquer contato com esses primitivos estando-se em
menor número. Praticamente meia dúzia três padres e três presbíteros e um

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capitão da caravela e sua tripulação, que ficaram atracados. Com isso a melhor
saída foi permanecermos em propósito de paz, a fins de estudarmos a mata
atlântica e que estávamos apenas de passagem para seguir viagem. Mas tive o
prazer de ter com um Pajé, uma conversa muito rápida, por intermédio de um
nosso interlocutor e guia de viagem, que lidava muito com as tribos locais e
falava o pouco da língua Caraíba, o idioma caribe, após idas e vindas depois de
Cristóvão Colombo. Pude aprender muitas coisas sobre vida após morte, ervas,
os animais, antepassados, etc.
Mas voltando à realidade, na Espanha, lá, eu vivia como um Rei! Mas eu
não era feliz. A inquisição se tornou um estabelecimento austero e uma
instituição milionária. O verdadeiro sentido foi derrocado. E parte de alguns
irmãos religiosos, que era uma minoria, já estavam incomodando bastante. A
banda podre da Igreja aproveitou a situação para induzir novas práticas ilícitas.
Além de religião, tratava-se, também, de política. Visando o trono Real
Espanhol. Os inquisidores estavam tão ricos quanto os reis. Inclusive eu. Mas e
minha riqueza espiritual? Enfim, eu não havia como lutar contra isso. E para eles,
isso era ótimo. Eu era como um cão adestrado na coleira. Um fantoche. Eu bem
que tentei negar tudo, mas fui ameaçado e forçadamente tive de aceitar a
minha condição. Juro que não procurei isso quando embarquei para Ordem dos
Frades Menores. Sim, eu era um Franciscano. Quanta ironia! Uma pessoa que se
abdicou de bens materiais, para viver na extrema pobreza, simples e fiel, me
tornei traidor, audacioso, nobre e maldoso. Afinal, eu sabia nos olhos de cada
“herege”, que eles estavam vivendo em paz dentro dos desígnios do Mestre
Jesus quando nos sentávamos à santa mesa inquisitória – mesmo eles tendo
outra religião e filosofia de vida. E eu sabia também que o posto da rainha
estava ameaçado e que havia muita conspiração no ar. Os que mais eram
perseguidos pela inquisição eram aqueles que iam contra o propósito da Igreja
Católica, somente isso, diga-se passagem, pelo menos no meu comando. Eu
não caçava ladrões, bandidos, e crimes comuns pessoais. Isso era coisa da lei, os
militares serviam a essa causa. Mas eu conseguia trazer alguns para debaixo de
minhas asas. Eu apenas tinha o propósito de mostrar o Cristianismo, a bíblia, a
verdade. Em se tratando de criminosos, era até louvável a minha atitude.
Entretanto, certas pessoas, de outras religiões, céticos, etc., eu sabia que elas
eram fracas e poderiam aceitar meus argumentos, e com isso aceitar a Igreja
Católica. Para mim isso era como salvar uma alma. Na maior inocência. Só que
eu precisava de mais poder, mais liberdade, tamanha liberdade que eu já estava
ultrapassando limites. Querendo, eu, a autoridade até mais que a realeza
espanhola. Alguns estavam de olho em minha cabeça, outros, em meu cargo.
Mas eu era intocável. Pois a cada inquisição, eu surpreendia até mesmo a
rainha. Adquiri mais respeito e mais poder, e claro, mais inveja. Eu era uma
máquina. Ateus, Judeus, muçulmanos, entre outros povos, estavam se
convertendo ao catolicismo. Minha missão vinha sendo cumprida à risca. Os

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inimigos se irritavam cada vez mais - os inimigos, digo, influentes do lado
renovador da igreja, ligados a uma escória que almejavam o poder real. Os
inimigos eram meus “amigos”. Eu convivia com eles, sentava-me à mesa com
eles, enfim... Eu já previa uma guerra interna, um golpe para tentar me tirar
aquele cargo. Isso me enfurecia a cada dia. Eu cheguei a ter seus nomes,
cheguei a tratar com certos insolentes que me perseguiam, dando lhes um
ultimato: “ou me aceitem, ou virarão ímpios e sentiram o verdadeiro gosto do
fel que escorre da máquina inquisitória”. Mas eles não iam parar. Não por serem
contra mim apenas, mas sim, pelo alto poder que eu conquistara. Era isto
queriam para si.
Certa ocasião surgiu uma acusação contra as minhas condutas perante a
igreja. Fui acusado de corrupção e traição. Nada fora descoberto. Dois dos que
me acusaram, bispos, de Portugal, que viviam conosco no convento, em Sevilla,
foram forçosamente levados de volta à Portugal. Só eu sei que eles não tiveram
sucesso até seu destino final; só eu sei que seus corpos foram jogados no mar
do oceano pacífico. Portugal não se manifestou. E este assunto, prefiro eu,
deixar junto à Relações Externas da Realeza Espanhola, que, com certeza, lhes
prestaram condolências e uma boa desculpa em relação ao sumiço dos seus
líderes religiosos. E claro, também, o sumiço da notícia do desaparecimento dos
dois. Alguns já tinham noção da minha derrubada, mas a questão era: se
contraporem ou lutarem a favor? Antes que esta guerra estourasse em
definitivo, eu armei um “exército cristão”, como faziam os cruzados, e segui
viagem ao oriente. Consegui reuni todos: os inimigos, falsos, porém temerosos
a mim. No meio da viagem, em terras africanas, atracamos na Líbia, para
recargas de provisão para a tripulação, entre outras coisas, até mesmo por
questão de saúde. Já no porto, fui em busca do governador da cidade,
primeiramente. E tendo com ele apresentações amigas ofertei-o algumas
“trocas de favores”. Prometi ao líder da província que apenas trataríamos
assuntos amistosos, passeios e estudos locais ao invés de buscar infiéis à Santa
Igreja e conversão de religião, catequese e etc. O qual, na verdade, tínhamos
total poder e esta era a incumbência. E que, em troca de nosso "passeio", se ele
podia dar fim aos meus “seguidores”. Realmente, “favores”. De imediato o
homem, que era uma espécie de ditador da cidade, aceitou e, claro, me cobrou
mais: riquezas, escravos e uma maior aproximação da Espanha. Pois sabia ele,
aonde a Santa Inquisição chegava era bom se juntar a ela.
Feitas as negociações... Armamos uma emboscada aos “colegas” de
embarcação e seguimos em frente. A desculpa que eu levei de volta a Espanha:
epidemia. Salvo um sacerdote que desde convento, quando éramos
capuchinhos, qual me acompanhava na viagem, os demais foram dizimados.
Enquanto isso, na Espanha, o plano para meu fim já estava tramado. Só estavam
esperando meu retorno. Então, quando cheguei, junto com o sacerdote e mais

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três embarcações corsárias, Andaluzia ficou estupefata. Foram treze homens, só
voltaram dois – de nós - e mais uns cem estranhos. Os Corsários, na época do
Império Otomano, onde hoje é a região da Líbia, era tomada pelos Turcos, e
eles, nada tolos, arquitetaram um plano audaz, tanto para conseguir o que
queriam, quanto para pouparem minha própria vida, que já corria uma grande
risco. Então, fui forçado a concordar com o mudanças de planos dos turcos.
Com isso levei os piratas à terras espanholas. Contei que, em troca de cuidados,
hospitalidades, e a volta segura até as terras espanholas, eu lhes recompensaria
com pouco de nossas riquezas e bens. Ninguém da realeza gostou desse fato,
mas tiveram de aceitar por algumas razões. E foi mais fácil convencê-los da
"epidemia" que assolou a embarcação. E o pior, ainda agradeceram aos turcos,
corsários, por levar a mim e ao sacerdote com vida de volta. Afinal, a Inquisição
sofrera consideráveis baixas e a região de Andaluzia só contava comigo, um
padre, um sacerdote e os demais sem influencias no clero. A Espanha, ou o
Tribunal do Santo Ofício da Inquisição em comunhão com a realeza, me
projetava para ser um novo Cardeal. Após me olharem torto, os monarcas
interesseiros, tiveram de engolir a seco, toda história, e acenar para os corsários
cheio de ouros e mais alguns de nossos navios e a garantia de seguirem suas
crenças sem mais intervenções. Lembrando que meu acordo com o ditador
libanês foi o de dar sumiço aqueles que me acompanhavam, me manter vivo e
me levar até a Espanha, para reforçarem o relato da “epidemia”. E a proposta do
líder era simplesmente manter relação com a Espanha e seu povo livre de
inquisição. Levaram-me, tudo bem! Mas pediram algo a mais em troca: ouro e
escravos. Consegui que levassem somente o ouro e outras embarcações, com
dezenas de animais, provisões e etc.
Com essas mortes, o clero foi reduzido ao pó. Logo, a Inquisição, se
enfraquecera. A cidade respirava mais aliviada. Africanos, muçulmanos, árabes,
gregos, ciganos, tinham mais esperanças em viver cultural-socialmente,
religiosamente num estado com maior aceitação. Pelo menos, para mim, eu já
estava aceitando a esta ideia. Mas não sei o que quase convenceu a monarquia,
de que eu não estava seguindo os “padrões” da Inquisição. Eu não cria num
vacilo meu contra os hereges e outros povos, não! Não foi obra da população
contra minha imagem. Pelo contrário, eu era querido, pela maioria das pessoas,
principalmente os mais humildes e cristãos. Eu sei que era, muitas das vezes,
rígido e impiedoso, mas não afetava minha imagem pública. Essa denúncia foi
politicagem da época. Foi arquitetada pela oposição. E também, eu via ali uma
política de interesses e muita vontade de nadar na riqueza do clero. Mas ainda
assim, todos me temiam. Pois ao meu lado eu tinha o forte império espanhol,
diga-se o lado conservador - simplesmente a rainha Isabel I e o Rei Fernando II
de Aragão - e Tomás de Torquemada ou "O martelo dos hereges”. Foi o
inquisidor-geral e confessor da rainha. Este sim era um homem temível! Este

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sim apavorava quem quer que fosse, desde o pobre camponês até ao mais
próximo da rainha.

Após várias conversas com os monarcas da realeza, com influentes
próximos à rainha, eu ia tentando largar o hábito e viver livre de qualquer
responsabilidade do Santo Ofício. Sempre com insucesso. Prometeram-me um
pedaço de Terra no oriente e uma igreja, e nunca sequer pensaram em cumprila. Torquemada sempre me prometia, só pedia que eu ficasse sempre mais um
ano, na Espanha, e nunca cumpria sua palavra. De ano em ano, quase morri em
Sevilha sem ter minha paróquia. Mas após uma noite muito agitada e após
refletir muito, forçadamente eu deserdei essa vida. Larguei a Igreja, o Império
Espanhol, o Clero, e fui viver uma vida longe da Inquisição. Eu não estava
abatido, com a igreja ou com minha fé em Jesus. Não! Eu só não concordava
com meus superiores e as ações que eles tomavam - após minhas conclusões,
também distorcidas - ao julgar os hereges e os profanos. E os crimes em nome
de Deus, ou do Santo Ofício, já estavam amargos demais. Não é fácil você fugir
do império, de todo um país e seus pilares: religiosos, políticos, militares, etc.
Mas eu consegui! Pedi a um amigo de Roma que solicitasse a minha presença
numa reunião na Basílica de São Pedro e fugi do castelo real. Pra mim foi fácil
andar mundo afora com meu velho hábito* franciscano (*roupa usada pelos
padres da ordem). Mas incrivelmente não saí de Andaluzia. Fui me escondendo,
vivendo no submundo daquela cidade, nos cantos, nos esgotos; ora buscando
ajuda com amigos influentes que souberam da minha decisão, ora com alguns
cidadãos que, alegremente, me recebiam ao saberem que eu largara o império,
ou as vezes fingia uma visita ganhava uns dias, enfim... Nesta aventura, acabei
parando num prostíbulo.
Era uma casa muito requintada. Eu me espantei ao ver tanto luxo. Cercado
da cultura oriental mesclada com o flamenco e objetos tradicionais da região

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espanhola. Riquíssimas roupas hispano-árabes, assim como as mulheres que
trafegavam no recinto, todas lindas e misteriosas. Percebi belas louças de barro
de Granada; muito do artesanato marroquino; xailes e seda bordada e leques
espanhóis tradicionais, típicos do flamenco; filigrana em prata e ouro
proveniente de Córdoba e Granada; peças de mobiliário em mogno, de Cádiz;
trabalhos em ferro e metal, de Úbeda; artigos de couro e peças artesanais
vindas das Américas; cerâmica vidrada hispano-árabe; tecidos feitos à mão, etc.
Eu nunca havia sequer imaginado que estas casas possuíam tamanha abastança
em decoração e vestuário. Essas peças não eram adquiridas pela dona da casa,
quiçá pelas meninas que faziam seus serviços noturnos. Isso me cheirava à
aristocracia. A administração era muito bem levada, algo de muito superior
estava no ar. Não apenas o prazer em se estar com belas mulheres, comendo
do bom e do melhor, bebendo os melhores vinhos, não! Acima de tudo,
estavam ali, marcados, em selo nobre, detalhes daqueles que possuem títulos e
honrarias. Aos poucos fui adentrando e espiando o salão principal. Abismado,
fiquei, ao me deparar com toda a fidalguia, influentes, a nata. Homens do clero,
que se me descobrissem ali, me matariam na hora. Militares que, pelo que andei
sabendo, estavam tentando a derrubada da família real para tronar o filho de
um general e mais muitos homens que fazem e aplicam as leis. Olhando as
coisas com muita minúcia, eu não ia render muito tempo ali, pois logo iriam me
entregar. Desesperado, e escondido, com meu valho hábito, entre duas colunas
de mármore, eu procurei uma das mulheres da casa e confessei o motivo real
de eu estar ali. Muito assustada, por ver um padre em traje, naquele lugar, ela
não sabia o que fazer. Desde o susto até as risadas com a situação eu fui
tentando lha falar. Contei com a sorte e a tive e desabafei. Logo fui levado à
cozinha, onde saiam muitas bebidas, aperitivos e até jantares, regados de frutos
do mar, peixes, sopas e vinhos. E ali fiquei a espera da "dona da casa", para
saber o que ela podia fazer por mim. Mais uma vez, eu contando com o destino,
para que me soprasse bons ventos. Enquanto em tentava bolar uma fuga, eis
que se adentra na cozinha, uma cigana. Ela, simplesmente, irradiava beleza,
encanto e magia. Mais um milésimo olhando seus majestosos olhos verdes, eu
me transformaria em pedra – como na mitologia grega, a história da Medusa. A
jovem que me levou até a cozinha, muito educadamente, e mostrando total
respeito a esta cigana, que se exibia imponente, me apresentou à mulher:
 Esta é a ilustríssima, dona da casa, Senhorita Carmen.
 Já nos conhecemos, Laurine. Obrigada, - ordenou Carmen – pode deixar
este senhor comigo a partir de agora.
Eu fiquei sem palavras. E trouxe a mente uma cigana, maltrapilha que fora
levada à mesa inquisitória e aos meus cuidados fora condenada. Realmente, um
misto de alegria medo. Não me lembrei dela no primeiro momento. E tive medo
de retaliação. Tipo, se ela decide me entregar e também por parte da igreja, do
exército real que, parte deles se fazia presente no lugar. Carmen estava sendo
procurada, por atos ilegais e blasfêmia contra a igreja, mas digo, o lado

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conservador e justo da igreja. O lado podre estava todo próximo a mim nesta
noite. A igreja e a realeza estão em racha, há divisão e interesses por todos os
lados. Eu servia a Torquemada e a rainha, somente isso. Voltando a Carmen, por
ironia do destino, eu a julguei e expulsei-a da Espanha, justamente para não ter
de fazer coisa pior com ela. E agora estamos frente à frente, procurados pelos
mesmos acusadores. Mas pelo visto ela desacatou minha ordem, ou melhor, a
corte real. Ela, também, de uma forma, se refugiava neste cabaré. Em troca de
favores, alguns ainda a queriam-na ali realmente, dirigindo ou fazendo serviços
sujos. Aristocratas, nobres, entre outros que frequentavam e mantinham aquele
bordel em pleno funcionamento. Isso era claro!
 Que reencontro, heim, padre! – disse ela com muita ironia.
 Veja o que o tempo não faz com o destino das pessoas, heim? Ambos
agora fugitivos ou foras da lei.
 Admiro o senhor, que se julgava “semideus”, que era íntimo da lei e era a
justiça em pessoa...
 E vossa pessoa, que se viu livre da fogueira, graças a um padre, que
realmente era um “semideus” e que teve piedade para com a mulher
mais linda que ele havia visto na vida – retruquei sem mais delongas.
 Você é um padre muito esperto! – riu ela com elegância.
 Bela decoração aqui heim, senhorita...
Após as apresentações formais, fui levado a um quarto, ornado com muito
bom gosto, muito suntuoso. A dona da casa, Doña Carmen, me deu água,
comida, banheira e uma cama. Roupa nova também precisei e tempo para
descansar o necessário. Que relaxante e revigorante noite de sono! Porém fui
acordado por uma das meninas, a Laurine, que, esbaforida me contou o que
aconteceu na madrugada. Recompus-me e prestei-me a ouvi-la.
 O senhor é amigo da Doña Carmen? - perguntou ela.
 É... Bem... Sim! Por que, o que houve?
 Ela foi levada à força por um homem, ele é dono de toda Andaluzia.
Eu sorri da ingenuidade da moça, mas, curioso, eu quis saber quem era esse
homem tão poderoso assim que se apossara de Carmen.
 Capitán Carlos. Poderoso, influente militar de Granada.
 Ouço muito falar deste homem. Mas o que ele fez com doña Carmen
assim para tamanho desespero?
 Ele a usa! Ele a leva sempre que quer para sua casa de férias, em
Gibraltar. Ele a maltrata. Doña Carmen, não é o que o senhor pensa,
senhor padre. Ela é mulher direita, apaixonada pela vida, alegre e pura.
Ela só está aqui por causa deste homem e por causa da vida da sua irmã,
que está nas mãos dele também, vivendo lá em Gibraltar*. (* Esta é uma
pequena península localizada ao sul. É de uma perfeita posição estratégica
para manobra militares, principalmente a marinha, pois é um estreito que
tem nos seus arredores o Mar Mediterrâneo, Estreito de Gibraltar e Baía de
Gibraltar, já no Atlântico. Caminho para Inglaterra, África, Ásia, etc. Tanto

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que em 1462, há 38 anos, espanhóis católicos expulsaram os muçulmanos
deste rochedo. Ele é muito almejado por muitas nações. Nos dias de hoje,
século XXI, Gibraltar é o território de propriedade Inglesa).
Meus olhos estavam esbugalhados e meu coração pulsando na garganta,
saindo pela boca. Continuamos a conversa.
 Mas ela não faz o uso indevido de seu corpo?- perguntei.
 Não! Ela só administra e cuida disso aqui. Ela só faz sala para os
convidados e curiosos. E cuida de nós todas como se fosse uma mãe.
Tudo o que o senhor vê é deste homem e de seus colaboradores. Eles
que mantêm isso aqui. Eu sou a única que sei disso. E sei que a irmã dela
está passando maus bocados lá. Então, por amor a sua irmã mais nova,
doña Carmen se sujeita a isso.
 Deus! Escravidão, prostituição...
 Sim senhor, padre. Eu só estou nessa vida, porque não tenho para onde
ir, e nem o que fazer da minha vida. A sociedade não me aceita mais. Eu
sou a escória, padre - chorava a menina.
 Você não é nada disso! Você é uma mulher! Erga-se! Podes muita coisa, é
só tu quereres. És capaz de muita coisa. Surpreenderás a ti mesma. O que
você gosta de fazer? Quais seus dotes, seus dons?
 Não sei, padre... Ah... Eu gosto muito de pintar; queria tocar piano, fazer
lindas canções... Eu e meus pais, vivíamos em Sevilha. Lá éramos felizes.
Eu ouvia meus pais cantarem, dançarem e eu percebia o sorriso em seus
rostos. Verdadeiro e legítimo.
 Então, o que lhe impede? Use tua criatividade no papel! Lhe ajudarei.
Darei-lhe tintas e papeis para este trabalho. Tome aqui este anel, leve ao
único ourives lá em Sevilla, na rua do comércio. Ele entenderá! Só
anunciá-lo que estás lá em meu nome e lhe dará tudo o que precisas.
Saia daqui e seja feliz! Tens onde ficar lá?
 Retornarei à casa de meus tios. Eles me recebem sempre no verão,
quando donã Carmen me libera daqui.
 Faça isto! Mas o que queres que eu faça, em respeito a Carmen?
 Tire-a das mãos daquele asqueroso! Liberte-a!
 Novamente? ... - murmurei.
 O que disseste, padre?
 Farei isso. Verei o que posso fazer.
Estudando a situação, pois eu também me encontro em fuga e correndo
risco de morte até, pensei em usar a própria Laurine. Pedi a ela que fosse fazer
uns contatos em meu nome, que se encontrasse com alguns amigos meus e
que os convidasse para a casa hoje à noite. Sem Carmen, eu me encontrava
desprovido de tudo e completamente exposto. Permaneci, pois, no quarto até o
anoitecer. Laurine é realmente é uma menina iluminada. A noite caíra, os
festejos no salão nobre já estavam a todo gás, e a minha porta levemente é
tocada. Pela força do "toc-toc" percebi a sutileza e vi que poderia ser uma das

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meninas. Eu respondi com outras batidas e Laurine se apresentou: "Sou eu,
senhor padre. Abra!". Cuidadosamente abri a porta. E ela, abruptamente, entrou
no quarto me empurrando e com outra mão puxando um senhor, que me levou
a um murmuro meio que de espanto e alegria. Entrava no quarto com a moça,
ninguém menos que o capitão das embarcações reais da Espanha. Ele era
militar e cristão. Adepto dos antigos cruzados*. (* Movimentos militares cristãos
da Europa Ocidental. Partiam em busca de conquista da “Terra Santa” [atual
Palestina e Jerusalém]). Tudo o que os reis e o clero prezavam era este homem.
Inclusive sua ida às Américas, fora tudo engendrado também por ele, claro,
além de Cristovão Colombo e toda sua frota. Deste capitão, se originaram as
fortes influencias das navegações de Colombo.
 Meu amigo! - me abraçou fortemente Juan Pablo.
 Como ela lhe achou? Foi obra de Deus!
 Não importa agora. Irmão, as coisas não estão boas, mas preciso de um
sacrifício teu. A Espanha Real precisa de ti e Andaluzia também. Estamos
prestes a fazer uma revolução. O império esta sob uma forte corrosão de
poder. Uma divisão que poderá acabar com a monarquia. Muitos estão
interessados no matrimonio da filha da rainha, a Joana de Castela,
visando uma "parceria" quando ela vier a se tornar a nova rainha da
Espanha. Há muitos interesses. Pela Espanha, padre, se entregue!
 Não farei isso. Morrerei!
 Por favor, isso não acontecerá. Temos um plano. A rainha, Torquemada e
alguns antigos do clero, estão do teu lado, irmão, e eu também. Sabes
que tenho parte do exército em meu favor, não é?
 Só os mercadores, não me venha com essa, Pablo! Mas irão me pegar. E
como poderei confiar em todos, em Torquemada? Há muito tempo não
o vejo, não falo com ele. Ele é a ponte para eu ter ouvidos na família real.
E eu já estou com asco dele, do clero, e - que Deus me puna – de toda
realeza.
 Não digas uma coisa dessas! Por favor, vamos! Temos um plano, uma
emboscada e nesta você saíra vivo e livre. Tens minha palavra e de
Torquemada também.
 Não confio, meu irmão, não confio. Só em ti. Deixe me sair daqui ao
menos, na rua eu me viro. Preciso somente chegar ao porto, só isso.
 Sabes, tu, que não poderei lhe ajudar, pois estarei pondo risco minha
vida, minha carreira. Tenho planos, não afetará a ninguém do nosso lado,
venha comigo! - implorava meu amigo.
Mas eu não o segui, não acatei aos seus planos. Decidi, pelo menos uma
vez na vida, não seguir ordens de ninguém mais, de clero, de reis, de militares
ou sequer amigos. Apesar de eu ter mandado em muita gente também, mas eu
não queria mais isso. Decidi seguir por conta. E consegui. Mas antes de sair dali.
Ao olhar Laurine, li em suas lágrimas, que lhe desciam no rosto, um último

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pedido de socorro à Carmen. Contei ao capitão e este sem pestanejar acatou a
minha ordem e prometeu que iria salvar a doña Carmen das mãos de seu algoz,
Capitán Carlos, que, por sinal, um dia lhe traíra nas forças armadas da corte real,
ainda quando eram jovens.

Fuga após fuga fui aos poucos chegando à costa da cidade, região
litorânea, em Cádiz. Mas minha escapada não durou muito e o exército
espanhol (liderado por Capitán Carlos) conseguiu me capturar e fui levado de
volta à Sevilla. Fiquei alguns anos preso. Contudo não me arrependi em não ter
seguido os conselhos de meu amigo. A tortura era rotina em minha vida. Mas
eles não podiam e nem queriam me matar. Afinal, se eles quisessem me
destronar do cargo de inquisidor e braço direito de Torquemada, era só me
apunhalar e não esperar um ano me torturando, simples! Eles queriam
informações, rotas de navegações reais, documentos assinados, enfim,
burocracia, provas contra alguns bispos e todo o alto escalão monárquico.
Interesse em mudar todo o quadro real. Desde padres, até reis! Inclusive o
próprio Torquemada. Em contra partida, muitos temiam que eu explanasse os
lugares onde frequentavam durante a noite. Não ia ser digno: nobres e
religiosos assumindo um país, entretanto com seus pés sujos de lama, devido
suas famas em prostíbulos. Os reis e também o próprio povo não iria gostar de
saber disso. Não era, para eles, interessante me findar. E eles criariam um mártir,
justamente a igreja e a coroa real pregavam contra adoração de mártires e
mitos; Isso iria provocar uma guerra na província, no clero, no império. Guerra já
existia, era mais silenciosa. Eu estava prevendo um estouro de vez. Mas os meus
inimigos, souberam ter paciência e pouparem minha vida. Eles tentaram me tirar
todo o conhecimento, me esgotar ao máximo, me sugar tudo o que eu continha
no cérebro, tentaram! Eles queriam um novo Padre inquisidor. Eu até conhecia
muito bem o novo candidato. Mas meu nome já estava feito ia ser muito difícil
darem ao povo um novo líder religioso àquela comunidade à maneira como

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O amor sob a luz do oriente

eles estavam conduzindo as coisas. Decidiram me manter vivo, porém
encarcerado.
Por incrível que pareça, após alguns anos, conforme as notícias iam
correndo, a cidade se encheu de ímpios e de outros povos. Muitos se
revoltaram ao saber que eu estava encarcerado; outros lamentavam, e nada
podiam fazer. Mas de boca em boca a cidade inteira já sabia disso. E para a
igreja, não era bom. A igreja, que prega tanto a paz, o cristianismo, era justa,
como justificar manter um padre preso nos porões do santo ofício?
Muitos tinham interesse em minha volta. Inclusive meu amigo Juan Pablo e
rebeldes de outros países, alguns muçulmanos vivendo em Sevilla; padres que
souberam da minha captura e foram ver de perto este acontecimento. Pablo
conseguiu fazer valer seu segundo plano. Pois a igreja estava enfraquecida, os
reis estavam com maiores problemas políticos e perdendo a relação exterior.
Pablo cumpriu o prometido. E como eu tinha bastante amizades em outros
países, houve uma rebelião e estes amigos do oriente entraram em conflito com
soldados da rainha e nesta batalha eu consegui ser libertado. O exército nobre
foi exterminado, o lado podre. Infelizmente alguns soldados inocentes
perderam suas vidas nesta batalha. Apenas seguiram ordens. Ordens de um
homem inescrupuloso que os reis não haviam ainda enxergado. Os que lutavam
para Capitán Carlos e aqueles que almejavam o golpe à rainha perderam a
batalha. A emboscada, junto com a corte real corrupta foi realizada e eu não
acreditei. Em conjunto, uma Espanha liderada por Torquemada, Juan Pablo,
Cristovão Colombo, conservadores e o velho império. Os verdadeiros leais à
Isabel I. Os rebeldes que lutaram para Juan Pablo, piratas e violadores, saíram
novamente de Andaluzia, com mais cargas de ouros, animais para transportes e
embarcações, tudo pertencente ao estado real da Espanha, confiado à Carlos.
Estes invadiram a cidade, saquearam-na alguns comércios e me resgataram.
Embarquei num navio, velho e malcheiroso. Haviam muitos estranhos. Eu não
fazia ideia do que me aguardava aquela viagem. Ferido, doente, com um grupo
de ciganos, turcos, rumo ao oriente pelas águas do mar mediterrâneo, segui
viagem. Deixei tudo para trás. Levei comigo muita dor, lamentação, tristeza,
agonia, mas também muita sabedoria. Nada e nem ninguém podia me tirar o
que eu aprendi. No navio, estavam muitos daqueles qual eu ajudei a levar os
seus irmãos à desgraça, humilhação e ao linchamento público. E o pior, toda a
Europa Ocidental estava ao meu encalço. Eu sabia de muita coisa e a Inquisição
temia eu lograr esse conhecimento ao "inimigo". O oriente era meu novo rumo,
minha nova terra.

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O amor sob a luz do oriente

Paramos na Grécia. Uma ilha a oeste do país, a maior das ilhas jônicas
(Hoje, a linda e pacata Ilha de Kephallenia). Lá havia um padre amigo que nos
ajudou, a mim e aos amigos da embarcação. Santa Igreja Católica Aristotélica,
de São Tomás de Aquino. Onde que, mais jovem, aprendi filosofia e muito da
cultura grega, inclusive algo muito condenado pela Inquisição: Astrologia e
Mitologia. Ficamos por uns meses escondidos, nos alimentamos, tratamos
ferimentos e logo seguimos viagem. Estávamos há poucas horas do oriente,
onde ficaríamos mais tranquilos. Próxima parada, Turquia. Nosso porto seguro.
No decorrer desta longa viagem, aprendi muito com os ciganos, os amigos
muçulmanos e árabes. Com a gama de conhecimento que eu possuía, eu deixei
a todos muito curiosos também. Todos nós nos demos muito bem. Aprendi
desde a religião muçulmana, lslã, à dança cigana e seus vibrantes violões
flamencos. As mulheres dançavam! Era quase que uma interpretação dos anjos
de Deus bailando por entre as nuvens. A cada rodada das suas saias, suspiros e
gracejos cintilavam no porão daquela embarcação. Alegria total! Num desses
dias de festa, todos no convés, ao ar livre, fazia uma bela tarde de sol, eu me
flagrei apreciando a uma mulher, cigana, que dançava flamenco, na proa do
navio. Com suas típicas vestimentas, de cores negras e rubro, bailava solta à
brisa que era soprada por Deus. Seu corpo parecia ditar o balanço da
embarcação e do mar. Eu não via sua face, mas seu jeito me fascinou. Sempre
me vinha a imagem de Carmen, a cigana.
E assim seguimos rumo à nova vida. Os colegas árabes e turcos, já tinham
suas ocupações e preocupações também. Não me era conveniente segui-los ou
me acolher junto a eles. Mesmo que eu tivesse de trabalhar pesado, como o
fazem, esta não era minha intenção. O povo cigano me acolheu mais. Suas vidas
eram um tanto diferente da minha. Mas tínhamos uma coisa em comum, a
princípio. Eu andava peregrinando, estrada afora com a finalidade de passar a
palavra de Jesus e seguir os Seus passos. Um bom franciscano não negaria o ato
de dar de comer a quem tivesse fome, fazer sorrir a quem estivesse triste, cuidar

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O amor sob a luz do oriente

de todo e qualquer ser. Isso sozinho ou com irmãos de fé, de hábito e de
fraternidade. Isso era a vida de um franciscano e não enfeitado em meio à
realeza com todo aquele luxo e poder. Os ciganos não se diferem de mim, só
que eles tinham algo a mais em suas bagagens. Eram livres, mas uma tal
liberdade que não sei explicar. Olhei por uma fresta do navio, e pedi a Jesus:
Meu caminho está em tuas mãos, Senhor. Me aplique a justiça e dê correção,
pois eu não O desapontarei. E também: Amado mestre São Francisco de Assis,
dai-me forças para seguir-te. A resposta veio no ato: siga o povo cigano. Eles
vão lhe acolher.
Chegando em mares turcos, após cansativas viagens, descemos na antiga
cidade de Ancara. O comércio urgia naquela região. Eu não tinha nada de valor
e nem nunca tive nada de material valoroso em minha vida. Salvo o período
como a vida de padre na Espanha. Agora é só minha fé e meu amor em Cristo,
as minhas riquezas. Na verdade eu nunca a perdi. Eu falava muito pouco a
língua turca, isso devido minha estada na Grécia há uns anos. Como nesta
região era povoada por turcos e, também em Andaluzia, eu pude aprender um
pouco, mas não era tudo. Com isso eu fiquei limitado a realizar casamentos,
missas, batizados, etc. Ainda arrisquei umas missas em latim, mas não seria
lógico. Então apelei aos irmãos ciganos e lhes pedi abrigo. Um amigo, muito
alegre, me convidou para ir com eles em sua aldeia e que lá eu seria muito bem
vindo. Todos sabíamos falar espanhol. Pois estes ciganos, em específico, e seus
antepassados, têm passagens pela Espanha. No caminho, para a colônia cigana,
eu adoeci muito. Fiquei com problemas de saúde e mental. Já não falava coisa
com coisa. No caminho, passávamos por ricas florestas e eles sempre
arrumavam ervas para me tratar; águas de fontes de cachoeiras; orações para
uma santa; me assistiam de qualquer forma que lhes estivessem aos seus
alcance. Mas chegando na aldeia fui levado às pressas aos líderes da colônia. Os
velhos sábios logo viram meu problema: Infecção. E fui tratado a base de duas
ervas, quais não me recordo. Eu vivi o inferno na Terra, nestes dias, longos dias
que se passaram na tenda cigana. Como inquisidor eu também pensava da
mesma forma para este meu problema com a saúde: "Para se alcançar o topo
da montanha da glória, é preciso vir do inferno". Minha própria doença me deu
forças para me curar e ter outra visão da vida que eu ia ter pela frente. Só assim
me recordei de que eu era um ser humano. No castelo, na igreja, lá em Sevilha,
eu gozava de boa saúde. Eu tenho a consciência de que as ervas serviram para
eu olhar-me para dentro de mim novamente e até esquecer as atrocidades que
vi e vivi. Sou grato à natureza por isso, porque veio delas a minha cura. Tanto
material, quanto espiritual. Já recobrado dos problemas, das doenças, voltei à
vida e passei a conhecer mais a comunidade qual eu fazia parte. Por conta
própria eu deixava a aldeia para conhecer províncias vizinhas e tentar levar paz
ao próximo, e claro, aprender sempre mais com as culturas, como um
verdadeiro jesuíta. Eu era um padre ainda, apesar de a Igreja querer minha

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O amor sob a luz do oriente

cabeça a qualquer custo. Eu não ia deixar também meus costumes. Ou melhor,
ia deixá-los sim.

Numa dessas visitas à outras colônias, de longe eu avistei uma cigana, que
a princípio me parecia nativa daquele país. Não era a primeira vez que eu
avistava-a pelas redondezas. Mas como não era a minha rota programada, eu
deixei a ideia de entrevistá-la e tomei outro rumo. Mas fiquei com esta mulher
na mente. Pensei comigo mesmo: "Outro dia eu falo com ela, e aproveito
pergunto o que tem por trás daquela montanha". Duas ou mais vezes eu
avistei-a no mesmo lugar e na mesma hora, nos dias seguintes. Certa vez passei
tão perto dela, que eu senti uma suave fragrância de rosas. Nunca a enxergava
de frente. Ela estava sempre de costas ou com um cesto nos ombros, cobrindolhe a face. Como eu sempre a percebia, há uma considerada distância, achei
estar sendo perseguido. Decidi então, num certo dia, tomar a trilha que dá no
campo onde a mulher costuma colher flores, gravetos e outros afazeres. Mas fui
pego de surpresa. Na pequena trilha, que se formava naturalmente, no meio do
vasto campo a mulher apareceu. Ou ela estava escondida na floresta ou não sei
o que ela fazia por lá. Realmente pude confirmar que foi o brilho nos olhos mais
impressionantes que eu já havia visto na vida. E tive o prazer em reencontrá-lo.
Na senda, eu sempre caminhava com o aroma de flores no ar, achei ter roseiras
naquela vasta floresta, com árvores majestosas, mas não. Era ela que sempre me
acompanhava, com seu misterioso jeito.
"Mas, mais misterioso que eu, era o seu olhar.
Era seu jeito andar.
Parecia, ela, às nuvens bailar.
Seus pés eram leves
Ao tocar, silenciosamente,
O verde solo dos campos.
Ou, pareciam o balanço das águas

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O amor sob a luz do oriente

De um pacífico oceano.
Sob a luz do Luar."
Enfim, nos topamos no caminho. Ela sorriu, timidamente, para mim, e eu
fui ao encontro dela lhe desejar felicidade e prosperidade e, também, colher
maiores informações das cidades vizinhas. Eu mantive-me controlado e
educado, afinal e estava lhe dando com uma dama, em terras muçulmanas.
Quando ela falou, seu sotaque, sua língua, me era familiar. Eu a perguntei:
 Senhora, tu és provinda dessas terras, Turquia?
 Não, senhor padre. Sou da Espanha, Andaluzia.
Meu coração disparou que me causou nítida tremedeira e suor na face.
Aquele olhar e aquele tom de pele... Eu não me contive. Não pude mais enganar
a mim mesmo. Eu sabia! Jus a cor dos seus olhos. Doña Carmen.
Reconhecemos-nos e ficamos, com os olhos lacrimejando, por uns instantes em
silêncio, meditando neste tema: o que queria o universo, naquele momento, nos
reunir naquele lugar distante?
 Carmen! - exclamei.
 Sim, senhor. De novo. Eis aqui nós dois sozinhos. Eu, uma herege,
meretriz, e o senhor, pelo que vejo, ainda padre.
Ela, com uma lágrima escorrendo, esfregou-as com suas afetuosas mãos.
Eu fiquei emocionado, porém com uma angústia, com um aperto no coração.
Pois nossos encontros não haviam sido em situações agradáveis. Até já
esperava uma tragédia - Deus que me perdoe.
 Como você veio parar aqui? - perguntei.
 Uma longa história. Sofri muito, mas estou livre.
 Foi Pablo? Juan Pablo?
 Não sei, senhor. Sei que um bando de militares, em nome de Isabel I,
entrou na casa de meu senhor, dando-lhe voz de prisão, o levou preso.
Enfim, eu ia fugir com minha irmã, mas me detiveram. Todavia me
trataram com muito carinho e me deram tudo o que eu precisava. A mim
e a minha irmã.
 Foi Pablo! Mas que homem! Fico feliz que tenhas, conseguido sair ilesa e
com saúde. Deu tudo certo. Fiquei sabendo, pela jovem, Laurine, o que
estava acontecendo. Então...
 Fiquei feliz o que você fez por ela. Aquela casa era o inferno, mas era o
meu oxigênio. Eu era obrigada, como você sabe...
 E como está Laurine?
 Estudando música, no centro real de artes de Córdoba. Graças a ti, padre.
 Não há de que. Ela mereceu! E tua irmã?
 Ela ficou em Sevilha, mas se casou e foi para Portugal recentemente.
Inclusive quem a casou foi um aluno seu, um padre muito simpático. De
Roma. Seu nome é Artorius.
 Excelente aluno! Nota máxima em teologia.

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O amor sob a luz do oriente

"Carmen" me contou sobre como veio parar na Turquia, entre outras
coisas. Confessou-me seu verdadeiro nome. Esmeralda. Lindo, jus a cor dos seus
olhos. Entre nossa conversa, chegamos ao assunto de nosso primeiro encontro.
O encontro, em Sevilha, que fora decisivo, para o desenrolar desta nossa
caminhada. Se eu tivesse tomado outra decisão naquela época, não estaríamos
conversando, hoje na Turquia. Ela seria condenada e morta.
 O que te levou a fazer o que fez, padre? Logo eu, que cometi muitos
pecados, segundo a igreja, e segundo a lei. O que houve? Não quis e
condenar a morte?
 Também não sei. Em dado momento, algo soprou suavemente em minha
consciência. Esse lindo corpo, o verde profundo dos olhos teus, esses
lindos lábios que exprimem as mais doces palavras... Não seria justo ser
levada ao extremo calor da “santa” fogueira, ou amarrada fortemente e
esticada até a dilaceração. E quando vinha uma força maior, decidindo
por condená-la, eu te olhava e meu coração amolecia, as mãos suavam e
eu me afogava engolindo choro.
 Você chorou padre? Eu não vi isso.
 Por dentro eu chorava muito. Eu sei que fui muito malévolo, devo muito
à muitas vidas. Mas eu poupei a ti, não sei o que aconteceu Esmeralda,
porque eu vi em teus olhos um sentimento puro. Um olhar fascinante e
mágico, que me imobilizou. Eu te senti! Como se Maria sussurrasse em
meu ouvido: "Ela não merece! Reflita!". Saiba tu, que a inquisição pouco
recorria à tortura. Mas teu caso foi muito radical. Eu sabia disso. Você
estava indomável e virando a cidade de ponta cabeça. Era dada como
certa a tua condenação à morte. Mas não me contive e pela primeira vez
senti arder meu coração. Isso ficou guardado comigo. Ninguém, senão
Deus, sabe o que passei. Creio que muitos colegas de hábito, até bispos,
sacerdotes, tenham ou já tiveram uma paixão, um carinho especial por
uma mulher. Costume crer que eles, no íntimo lutam com isso.
Principalmente depois dos votos. Isso acontece, é normal. Cabe a nós nos
comportarmos e mantermos-nos firmes nas nossas promessas e
propósitos. Ninguém é forte o suficiente para impedir a chegada do
amor. Eu fraquejei aquele dia, confesso, não sei o porquê.
 Isso é lindo, padre. Você está se confessando. Está soltando esse bolo,
essa angustia que lhe incomoda tanto, que lhe tira o sono todas as
noites. Fale mais!
 Como você tem ciência de que eu não tenho boas noites de sono? Como
sabes disso? – perguntei curioso.

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O amor sob a luz do oriente

 É nossa sintonia, querido. Tudo o que você sentiu, naquele interrogatório,
no castelo, na mesa inquisitória, quando tu ias me condenar, eu senti
também, algo inexplicável. E até hoje, depois que nos vimos pela
segunda vez também.
 Mas eu era um homem terrível!
 Não! Você se achava. Você tinha de mostrar-se respeitável e achavas que
demonstrando zanga, rigor, iria conseguir respeito da realeza e do clero.
E conseguiu pelo visto. Mas a mim, nunca me enganastes. E não só a
mim, como algumas colônias ciganas provindas do oriente.
 Quer dizer que você sentes paixão por mim? – perguntei à Esmeralda.
 Sim, padre. Tenho, por ti, um sentimento que vai além das estrelas que
cintilam neste céu.
Estávamos apaixonados. Isso desde o primeiro dia em que nos vimos. Mas
eu, como padre, fiz votos. Ainda, relutei muito para não largar o hábito. Vivi
ainda com esta colônia de ciganos, entre eles, aprendendo seus costumes, sua
cultura e seu modo de vida. E a cada dia que se passava, eu me atraia mais e
mais por Esmeralda. Encontrávamos-nos escondidos pelas montanhas que nos
cercavam, vivemos momentos extraordinários! Ela me ensinou muita coisa e eu
também passei tudo o que sabia para ela: missas, batizados, casamentos,
catequese, exorcismo, leitura da bíblia, inclusive os bastidores do que ocorria
nos julgamentos da inquisição. Era uma arte! Era quase que um jogo de xadrez,
mas o adversário era sempre um cidadão humilde e sem malícia. Para mim,
inquisidor, era fácil desdobrá-lo e fazê-lo concordar com o que eu impusesse. Ai
dele, se não concordasse! Esmeralda ficava estupefata com as histórias. Era algo
realmente incrível, mas infelizmente era uma imposição mal-intencionada e eu
tinha de cumpri-la. Até mesmo em nossas conversas, eu e Esmeralda, tínhamos
desavenças e eu, por natureza, me sentia ameaçado, acuado, e rebatia com
perguntas e objeções que beiravam a ofensa, só por ela ter uma opinião
diferente à minha. Eu, por costume, achava que ela estava contra mim, em
qualquer circunstancia. Ela, e quem quer que fosse. Que horrível de minha
parte! Esmeralda era muito calma e compreensível. E tinha de se esforçar muito
para me deixar tranquilo e ciente de que ela era minha paixão.
Em um desses debates, conflitamos ideias sobre religião, óbvio, conceitos
totalmente díspares, entre eu, católico, e ela amante da natureza, agnóstica –
apesar da colônia que estou integrado, terem adotado o islamismo como
religião local, qual mais se adaptaram, de procedência Turca. Mas eles não eram
tão fanáticos. Geralmente fazem essas escolhas para se integrarem à
comunidade nativa. Contei a Esmeralda uma das técnicas usadas por mim no
interrogatório, na mesa da inquisição.
 O que você usava para as pessoas saírem condenadas nestas horas, onde
você mesmo diz saber que muitas delas eram até inocentes?

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O amor sob a luz do oriente

 Primeiro, eu tinha sob mim a verdade. A verdade se chamava Santa Igreja
Católica Apostólica Romana. Nada era superior, melhor ou verdadeiro
frente à igreja. Ou a aceita, ou será julgado. A partir daí, eu sempre levava
duas coisas em mente: Ou a pessoa está a meu favor, ou contra mim.
Óbvio! Podemos usar como exemplo os "lados". Eu, esquerda, e a
pessoa, direita. Tudo eu dividia assim. Minhas opiniões e imposições. Em
tudo me baseava nesta analogia: lados opostos que não se misturam. A
outra coisa que eu usava, vinha através da filosofia. Uma técnica de um
diálogo forçoso em que eu aplicava muito contra pessoas que possuíam
pouco conhecimento das coisas, dotadas de certa de ignorância.
 Continue - falava ansiosa Esmeralda - conte-me detalhes.
 Pois bem. Um exemplo fictício. Tendo em vista que o céu é rosa para a
inquisição e para o herege o céu é azul. Conflito de opiniões ou crenças,
ok?
 Sim senhor.
 Então, pergunto eu, o que o faz crer nisso, que o céu que ele vê, é azul?
De onde vem sua fonte? Quem lhe disse tal coisa? Não pode ser somente
porque ele vê, tipo, uma questão apenas fisiológica ou cinemática. Pois
eu também vejo o céu, gozo de boa visão e reafirmo não ser essa a cor.
Só que, na presença de um padre, palavra contra palavra, eles sabiam
que não podiam ir muito longe. Então, articulavam: "eu li que o céu é
azul". Outros contavam: "ouço dizer por ai." Ou "basta olhar pra cima,
verás que é azul". Mas eu lhes retrucava, com base nas escrituras - não é
qualquer escritura, é a bíblia - que tal fato não corresponde. Seja
religiosamente ou não. E eu lhes perguntava: "você me dê tal prova, que
lhe deixo ir”.
 Mas não bastava que alguém, padre, afirmasse que o céu é azul por que
a sua religião o ensinou? Ou, também, apenas que a intuição aflorou na
mente do coitado? Não bastava isso para o senhor? - perguntou-me a
cigana.
 Não no que diz respeito à intuição. A intuição é sujeita a falhas. É
fantasiosa, às vezes não acompanha a razão. Geralmente, a razão vem
dotada de instintos empíricos* (* Coisas que são baseadas na experiência).
Por exemplo, esta experiência: Você pode ter a intuição, depois de ver
uma árvore ser escavada pela raiz, de que esta árvore irá desabar para
“frente”. Mas ela lhe ilude e por questões físicas ela tomba pra “trás”.
Você teve uma intuição, dentro de uma situação que você já viu na vida,
logo, uma experiência. Mas teve uma conclusão errada, não é?
 Perfeitamente!
 A intuição só se vê livre de dúvidas quando se trata de Deus, da fé e das
questões que não podemos ver ou tocar, apenas sentir, como a energia
espiritual, etc. Assim a intuição é até aceitável como alguma justificativa.
 Sim senhor.

21

O amor sob a luz do oriente













Então, vamos recomeçar a reformular as coisas?
Sim! – disse Esmeralda um tanto animada.
Você afirma o céu ser azul. Certo?
Confere.
Eu também afirmo, mas... Que o céu é rosa! Estamos em lados opostos
numa balança, ok?
Concordo.
Justifique-me, plausivelmente, o motivo de o céu que vedes, é azul? E
veremos pra onde a balança pesará.
Eu não tenho religião, mas farei uso dela para me justificar, padre. Tudo
bem?
Sem problemas. Simule desta forma.
Eu me baseio na minha religião. Onde diz nas figuras e nas escrituras...
Eu também lhe digo que, a minha religião, qual me fez padre da Ordem
dos Frades Menores, ou franciscano, por deliberação superior que me
obriga ao cumprimento e onde me ofereceu ensino superior de
qualidade irrefutável, me tornando apto a preencher o posto sacerdotal,
diz que o céu é rosa e nela eu acredito e ela - minha religião - inclusive, é
a verdade e o caminho para a salvação. A bíblia onde encontro todas as
respostas diz que o céu...
Padre! Assim você me atropela. Calma! – ria Esmeralda. Tudo bem. Isso
não quer dizer que, o céu, pra mim, seja rosa. Tens outras afirmações,
padre?
Cientificamente. O tenho! – afirmei - A ciência com seus estudiosos,
filósofos, que são incontestáveis e muitos deles cristãos, também prova
que o céu é rosa devido aos gases quais circulam a atmosfera. Elas
Formam uma malha com pequenas partículas vivas, que ao se chorarem
e se misturarem com a radiação solar, que atingem a atmosfera, mudam
de cor e, certamente, tais partículas que são de origem espacial, dão a
cor específica, o tom rosa, que nós observamos aqui da Terra.
Mas meus olhos enxergam-no azul, padre.
Forço-te a aceitar que o céu é rosa, porque só o católico de verdade tem
essa visão. Pois quem crê em Jesus, na Igreja Católica, possui uma mente
com maior capacidade de percepção da natureza. Os hereges devem ser
convertidos, pois estes tipos de crença os cegam, de maneira que o
fazem enxergar coisas distorcidas ou fora da realidade. Sendo assim
forço a dizer que o céu, para mim, e para todo católico, servos de Deus, o
céu é rosa.
Estou ficando sem saída – brincava a cigana.
Com isso estou te coagindo e lhe farei uma última pergunta: Aceitas a
Igreja Católica e a Jesus como único salvador, O Caminho, A Verdade e A
Vida? Diga em voz alta.

22

O amor sob a luz do oriente

 Sim, meu querido padre. E estou adorando nossa conversa. Apesar de eu
crer que você, de coração não quer isto para as pessoas. Essa imposição.
 Eu também estou feliz em estar conversando com você. Viu o que uma
explicação bem posicionada, com palavras preparadas, com adjetivos
desconhecidos, força ao ignorante a concordar com a mentira? Ele
concorda sem saber do que se trata, justamente, por ele não dominar o
fato. Logo, se ele não tem propriedade do diálogo, não possui também o
direito de escolha. Não tem a noção do que é certo e o que é errado. Se
ele não sabe de nada, como pode escolher algo o como a verdade?
 Certamente.
 Contando com o ambiente, com todo um cinismo, a mesa inquisitorial
em si, leva a pessoa ao medo, e com medo, ninguém pensa direito.
Como lhe falei: é uma arte!
 Nossa! Conte-me mais. O que respondiam as pessoas? Depois de uma
pressão dessas?
 Muitos boatos, confirmações incoerentes. Como fizemos, eu agia
também com base em comprovações científicas e religiosas e esta com
maior peso. O que era verdade eu falava a verdade e tratava como a
absoluta razão. No caso do "céu rosa", eu sabia que não era a verdade
absoluta, mas eu não ia admitir. Então eu forçava a pessoa a crer numa
verdade que eu inventava, em alguns casos. O que não é nada justo e até
mesmo ético.
 Você articula, padre. Você heim... Mas e ai?
 Eu investigava o porque deles acharem o céu azul e que me apontasse
uma prova cabal. Só que minhas perguntas eram prontas e eu as fazia
me prevenindo. Não fiz com você, mas perceba neste exemplo: Quantos
são 4? Mas não me venha dizer que é a soma de dois mais dois; nem que
são oito divididos por dois; ou que é o resultado de dezesseis divididos
por quarto; ou oito menos quatro. Assim a pessoa era obrigada a
responder o que eu queria ou simplesmente se calavam. Muitos não
apresentavam uma resposta suficiente, tecnicamente falando que, o céu,
por exemplo, é azul. Com isso, eu já lhes replicava forçando-os a aceitar
minhas afirmações.
 Entendi.
 Eu, nesta brincadeira, já lhe expus dois meios de que a cor que eu vejo no
céu é a verdadeira. A balança está pesando pro meu lado. E você, o que
me disse de o céu ser azul?
 Que minha religião era a fonte e além dela a minha intuição.
 Somente isso? Certo... Mas a minha religião também é fonte confiável.
 E quem diz que a tua é melhor que a minha? É a grande detentora da
verdade?
 Nós, católicos, possuímos a bíblia e nela contém todo o ensinamento de
Jesus Cristo.

23

O amor sob a luz do oriente

 Mas, e os ensinamentos dos outros líderes religiosos, as crenças orientais,
africanas, existem há milhares de anos, como ficam?
 Ficam somente em um passado...
 O que? Padre! Olhe para mim!
 Não, não posso dizer isto. Desculpe-me. Não estou servindo a nenhuma
rainha mais, eu sou livre e nem o clero está mais no meu encalço. Vou lhe
dizer de coração, cá entre nós, Esmeralda, eu sei que a minha religião
não pode ser melhor que a tua religião, entendo. Considere! Devido a
minha criação dentro da igreja, monastérios e tudo o que eu aprendi,
não consegui aceitar senão o catolicismo como a verdade suprema.
 Muito bem. Bonito de sua parte reconhecer isso.
 Mas tente entender. Eu, como inquisidor, não podia vacilar. Ainda mais
perante à marginais, pessoas sem rumo e sem credo. Metade da cidade
querendo minha posição, muitos inimigos, muitas intrigas... E quanto aos
vagabundos e ralés, a conversão destes ao Cristianismo, eu vejo como a
melhor saída. Livrava-os da cólera, dos crimes e do submundo. Tudo bem
que isso nos remete a questão política, econômica, enfim... Outro
assunto.
 Sim! Concordo... Que estes incrédulos devem buscar um caminho e
também que há envolvimento, interesses lucrativos em trazer estas
"ovelhas" para seus pastos.
 Realmente. Eu estava atento a isso e lutava muito pela ordem.
 Mas apesar de ficção, você quase me levou a crer nisso. De que o céu é
rosa. Até olhei para me certificar – brincou Esmeralda.
 Enfim, como eles não apresentavam nenhuma prova, de que, o céu que
eles viam era azul, ou onde eles liam tais afirmações, ou se liam, mesmo
assim, era fácil bater o martelo e condená-los ou catequizá-los. Até
surgiam com a questão religiosa, por exemplo, para outros assuntos, mas
a Igreja Católica estava acima de tudo naquele lugar.
 Eles acreditavam?
 Eram forçados, no mínimo. Outro exemplo: a existência de Jesus como o
messias, salvador. Eu entendo que o muçulmano O tem como apenas
um Profeta. Os judeus também. Que eles não criam em Jesus como O
Mestre dos Mestres e Pai de todos os milagres. Então, eu apresentava O
Mestre, ao interrogado, mas deixava esclarecido para ele: "Não me
venhas com essa história de que Jesus foi apenas um profeta, pois está
escrito aqui (Bíblia) todos os seus feitos e suas máximas; nem que ele não
existiu, pois temos provas de seu legado e de sua vida em Jerusalém."
Muitos, claro, mesmo assim não aceitavam. O negavam. Mas ficavam sem
respostas. E bastava que se calassem, para eu força-los, sob esse gesto,
como aceitação. Outros materialistas, ou ateus, tentavam relutar. E eu
lhes perguntava: Dê-me uma prova de que o materialismo salva, cura,
trás a paz e o verdadeiro amor? Inclusive, prove-me que o materialismo

24

O amor sob a luz do oriente



acalenta o ser humano na hora da perda de seu ente querido, o que tens
a dizer? O materialismo pode trazer um morto de volta? Jesus o fez, tu te
lembras? Mas, claro, eles contavam seus testemunhos. Em vão. Eles
concordavam com suas próprias contradições. Eu os forçava a cair neste
erro. Exemplo: O amor, esse amor que vocês conhecem um pouco, creio
eu, ele vem de Deus. Criador de tudo e de todos - ponto. Pois o amor
não foi criado por nós seres humanos, pobres, humildes pecadores. O
amor é um sentimento, é algo intocável, incolor, inodoro, imaterial. É
intocável, mas podemos senti-lo. Não é? E Deus, criou a tudo e a todos. E
a esse sentimento. E também até mesmo a matéria, onde entra vosso
materialismo, foi, inclusive, criação de Deus. Logo, negar a Deus é negar
a tudo, inclusive até a própria matéria, o sentimento de amor. E isso é um
contrassenso.
Arriba! – vibrava Esmeralda.
Em outros casos, eu partia para a prática usada no exorcismo, a fins de
que o interrogado era forçado a crer que ele estava possuído. Pois, só
quem nega a Cristo é, na verdade, um anticristo, o diabo. E irritando o
interrogado, eu levava minhas mãos em suas frontes, forçando-lhes a
têmpora e os empurravam para trás. Na verdade ninguém, nenhum ser,
iria deixar um inimigo lhe botar as mãos, ninguém ia se sentir confortável
com isso. Em seguida a pessoa iria responder com certa violência e
agressividade. Com um tom de voz mais alterado. Daí, para mim, já era
um motivo, então, de condená-lo imediatamente. "Estás possuído e estás
contra os desígnios da Santa Igreja Católica. Precisa ser catequizado!"
Meus Deus! - espantou-se Esmeralda.
Aquele que, por um lado, conseguia me convencer de que estava crente
em Cristo, e suas máximas, iria me comprovar no mesmo instante
fazendo uma oração em voz alta. Principalmente o credo. Esta oração,
também provoca aos "não católicos", pois o credo, no final, incita ao
orador a sua crença na Santa Igreja Católica. A pessoa era obrigada a
falar: "Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Católica..." E muitos se
emudeciam. Nesta hora eu voltava ao diálogo forçoso, e o lembrava: Tu
havias aceitado a Cristo, quando lhe perguntei: Você concorda que Jesus
Cristo é o Rei dos Reis? Você aceita a Igreja Católica como a única e a
salvadora de todos nossos males? Você concordou! Então, em voz alta,
repita comigo: "Creio no Espírito Santo; Na Santa Igreja Católica... Caso
não faças, irei te condenar". Nessa hora poucos eram os que falavam
estas palavras. Quando não o faziam, eu os encaminhava ao exercício do
exorcismo, passando por oras a finco em orações; catequeses; se
benzendo com água benta toda manhã. Isso era a imposição da Igreja.
Infelizmente a pessoa, por vontade própria não aceitava a religião, ela era
forçada. Eu entendia que era normal, pois eu acreditava na religião. Mas
era ingênuo.

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O amor sob a luz do oriente

 Mas há aqueles que mentem? Que dizem ser católicos só para se virem
livre da Inquisição, não é?
 Sim. Alguns mentem. Mas eles se esquecem de que devem aceitar a
Igreja, ou a Cristo em todos os momentos de sua vida; nos seus lares; nos
locais de trabalho; até nas ruas, seus modos, costumes a igreja deve estar
presente. E a frequentarem-na, rezar, praticar catecismo, etc.
 Quem não o fizesse?
 Pagaria com uma punição mais severa. Que a maioria das vezes era
expulso da Espanha.
 Vocês matavam muitos?
 Não. Poucos eram os que ardiam na fogueira. Só em casos muitos
extremos. Alguns passavam pela tortura até aceitar a nossa condição
imposta: aceitar a Igreja. Alguns rebeldes, que apareciam, criando boatos,
criando caos e promovendo a profanação, estes sim eram pegos.
 Nossa! Muito triste tudo isso.
 Também lamento muito. Sei que irei pagar por isso. Mas descobri que eu
estava errado ainda em tempo de mudar.
 E o que mais tinha? O que você fazia, além disso?
 Eu estudava muito o exorcismo, em paralelo ao cargo de inquisidor.
Estive em Roma, em várias convenções sobre o tema, palestras e cursos.
Fiz muitos amigos - e inimigos também - ri. E também pude comprovar
muitos casos reais.
 Você via as pessoas possuídas?
 Não só as via como eu trava-as, esconjurava-as de todo o mal. Um caso
recente, foi de uma mulher, uma jovem, que não se alimentava mais, não
dormia - salvo pelas manhãs - raras as vezes e tinha uma tendência a
suicida. Sophie era seu nome.
 Mas isso não era problema psiquiátrico? Problema pessoal?
 Primeiro analisamos isso tudo antes de assistir ao suposto endemoniado.
Eliminamos todas as provas de charlatanismo, problemas pessoas, saúde,
e qualquer outro quesito material.
 Mas e se a pessoa melhorar e depois voltar a ter esses problemas?
 Vou lhe explicar esse caso. Foi passado a mim e ao meu assistente, que
esta menina, apesar de alguns problemas de saúde, estava com perda
consciência. Nada descarta também questões de ordem psíquicas. Tudo
bem. Mas o que mais nos intrigou, foi o fato de a menina, de uma
cidadezinha pacata, humilde, na região montanhosa entre Roma e
Pescara, acordava aos berros, de madrugada, falando coisas
incompreensíveis. A família não podia se comunicar, por justamente não
falarem a mesma língua.
 Isso é caso de psiquiatria. Está claro!
 Ouça! Ela foi levada para hospitais, passou meses dormindo sob cuidados
de médicos, e passou bom tempo também longe de casa, em Roma, na

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O amor sob a luz do oriente














casa de parentes com maiores condições e nada foi constatado. Ela viveu
tranquilamente e até achou que tivesse se curado. Mas quando voltou à
sua casa, nas montanhas, voltou ao tormento profundo, ódio de amigos
e familiares. Voltou a ter para com seus pais, diálogos incompreensíveis,
em outras línguas...
Nossa, o problema é na montanha. - ria Esmeralda.
Não brinque. Fomos solicitados e conversamos muito com a menina. Ela
me pareceu uma moça muito pacata, muito simpática e inteligente.
Inteligente demais até para chamar a atenção para si, forjando sintomas
se fazendo de vítima, enfim... Descartamos isso também. Após as
confirmações de que ela fora tratada, fora visitada por médicos, então
começamos a tirar a prova para ver se realmente isso procedia. E
também a primeira coisa que eu queria saber, e eu soube, era a religião
dela e dos familiares: todos católicos.
O que fizeram?
Orações com muita fé!
Só? - espantou-se Esmeralda.
Sim! Oração, feita com ardor, com sinceridade, do fundo do coração...
Olha, é o melhor meio de se conversar com Deus.
Eu faço isso também, mas com a natureza. E elas me respondem! Incrível
nossa conexão.
É assim para com tudo. Estamos todos conectados, todos numa malha,
tecida por Deus, sintonizados, interligados. Basta darmos ouvidos para
recebermos os sinais.
Como nós dois, não é? - perguntou ela olhando em meus olhos.
Mas, bem... - desconversei, timidamente - A oração é o meio mais prático
de se conectar a Deus, e com isso, implicitamente, expulsar qualquer mal.
Passaram-se alguns dias. E por mim iria àquela casa por toda minha vida
levar a família muitas orações e assistência religiosa.
Sim, mas e ai?
E ai, minha querida, que se realmente a moça tem fé na igreja, ela iria
aceitar sem problemas. Como o vimos. Ela crê em Jesus, é católica sua
família também. E com isso, com o tempo iríamos perceber sua melhora.
E se ela não aceitasse a igreja?
Mas ela era católica. Ou você se referia de no caso ela mesmo religiosa,
se negasse?
Isso. Corretamente. E ela, sendo uma católica, se negasse?
Ai iríamos partir para um princípio de que poderia sim haver influencia
do mal ali.
De repente ela não ia querer orar, isso é possível sim. Apesar de católica.
Não é?
Ela se dispôs a orar todos os dias em nossa presença. E outra coisa, um
católico, perder a fé, perder a vontade de orar, é muito suspeito. É como

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O amor sob a luz do oriente








se um marceneiro ficasse sem sua maior ferramenta de trabalho. Isso é
um sinal.
Então a família aceitou vossa presença?
Sim. Frequentamos exaustivamente o lar da família. Inclusive dormíamos
lá por longas datas. No começo conseguimos manter tudo em ordem.
Mas quando começou a se tornar rotina a coisa ficou complicada. Assim,
nós padres, exorcistas, ficamos atentos a quaisquer sinais. E logo iríamos
ter uma confirmação.
Qual?
Do diabo. Ele ia se cansar dessa vida feliz e ia se apresentar. Ia se cansar
de ver a família em paz, com harmonia, feliz e também de ver a moça
longe daqueles sentimentos primitivos que ele sempre jogava em sua
consciência, subjugando-a - o que não condizem com uma senhorita
católica. Ele não iria mais querer perder tempo no anonimato, como se
estivesse secando gelo, às escondidas. Trabalhamos também com o caso
de a menina ser uma problemática, mas descartamos. Ela esteve muito
bem em nossa companhia; não detectamos nenhum maus-tratos por
parte de seus pais; nesses dias tudo ficou em perfeita harmonia. Você
falou das montanhas, lembra-te? Que possivelmente o problema era a
região?
Lembro.
E também descartas isso agora, confere? E também descartas qualquer
problema psíquico, pois ela não demonstrou nenhum quadro em
período de nossa estadia. Meu amigo e eu estudamos um pouco de
comportamentos, psicologia e nada nos chamou a atenção. Pois quem
tem problemas, tem problemas. Seja na presença de qualquer um, ou até
mesmo de ninguém.
Descarto qualquer possibilidade material agora, Padre.
Então vamos tratar esse caso, a partir de agora, como exorcismo, tudo
bem?
Sim.
Uma de nossas primeiras "cutucadas" nos malfeitores é a insistência e a
pregação da religião ostensiva no exorcizado. Crucifixos nos quartos,
imagens religiosas, flores, roupas claras, um ambiente limpo. Isso
incomoda a eles. Assim começam a surgir os primeiros contatos, os atos
de revolta por parte deles, os primeiros sintomas de possessão.
Nossa. Até me arrepiei.
A primeira percepção foi numa tarde de almoço. Já no decorrer de mais
de um mês no lar da assolada família. Onde nos preparávamos para
almoçar, foi quando eu puxei uma oração e pedi a todos que
agradecêssemos a Deus, pela mesa posta, pela oportunidade, etc. Eu ouvi
o barulho de um talher se chocando contra o prato. Eu de olhos
fechados, já recebera em meu coração o sinal de que ele estava presente.

28

O amor sob a luz do oriente

 Ele quem?
 O mal. Quando estava no meio da oração, escutei o copo virar e cair,
sobre a própria mesa. Abri os olhos e Sophie, estava me fitando com um
olhar severo e raivoso. Pois estes barulhos são incomuns em oras em que
estamos orando. Tudo bem, acontece de cair alguma coisa. Mas não
duas vezes enquanto se está em oração. Uma pessoa católica não ia se
incomodar com uma oração antes de uma refeição, ok?
 Sim.
 Então, seguimos com o caso do ser sem luz estar se fazendo presente.
 Mas como você sabe?
 São sinais! Só quem vive isso é quem sabe. Não há como explicar. É o
universo se comunicando conosco, seja uma pessoa má, uma pessoa
boa. Todos transmitimos sinais. Percebendo isso, ali eu já me apresentei
em pensamento, para com o que quer que estivesse junto a ela.
 O que você pensou?
 "Prazer! Jesus está presente também." Foi só apresentações formais.
Almoçamos conversamos e tudo ocorreu como se nada tivesse
acontecido. Mas eu sabia que ali morava algo com má intenção. Nesta
noite, ficamos lá, eu e meu amigo assistente, recém formado, aquele a
que sobreviveu à "epidemia", na Líbia, junto com outros padres. A
história dos Corsários, lembra-te?
 Sim, lembro-me desta história. São e salvos: Você e o padre Ravello.
Muitos disseram que você foi o culpado pelas mortes. Pois ninguém
sobrevive a uma epidemia assim. Não era para ter havido sobreviventes,
mas... Sobreviveram sim, vocês dois, somente.
 É o que dizem. Mas Padre Ravello e eu, acordamos com a Sophie, aos
berros nos chamando. Corremos até lá e a menina estava desfigurada.
Completamente possuída, vociferando, com voz grossa e salivando.
Achei que fosse epilepsia. Mas ela estava querendo nos falar algo. Eu dei
ordem a quem quer que fosse que se calasse e a deixasse, em nome de
Deus. Expus meu crucifixo, e entrei em oração. Então surgiu uma risada
irônica por parte do obsessor. Foi que nos demos conta e findamos
mesmo caso de exorcismo. A moça começou a falar, em tom de voz mais
baixo, com uma expressão de ódio, mas nada era de nossa compreensão.
Era uma língua próxima a grega, eu não identifiquei direito. Ravello, que
ouviu uma palavra que lhe era familiar, apesar de ele ser italiano, me
falou que já ouviu tal expressão sim. E arriscou um dialeto eslavooriental.
 Mas como?
 Nada demais. Eles fazem isso somente para nos impressionar. Porque,
qual finalidade de aparecer, dizer que existe, que está possuindo alguém
e na hora de se comunicar, vir a falar uma língua que não nos é

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O amor sob a luz do oriente






compreensível? Sequestrar alguém, mas não querer negociar, ou
anunciar o preço do resgate? Não tem lógica.
Não tem cabimento, realmente. Descartas também, de a menina
conhecer este idioma, não é?
Perfeitamente. Retornamos à Roma, e com a bagagem, mais um caso de
possessão. Fomos autorizados a combater esse mal, e resolver este caso.
Tudo fora documentado e arquivado para futuras consultas. Numa
reunião foi constatado que a palavra que a jovem entoou, que o amigo
Ravello entendeu, era eslavo-oriental, e conseguimos um entendedor
deste idioma. Voltamos à região montanhosa, e pacata, mas levamos
conosco, um padre amigo, para entender alguma pronuncia eslava.
Chegamos dispostos a agir com mais dureza. Mas não encontramos
resistência. A menina parecia muito calma e agradável demais. Isso
também não me enganou.
Por que? - perguntou Esmeralda.
Porque há muitos lobos em peles de cordeiros. Começamos com as
orações e sentimentos de paz, de harmonia, conforme padrão. A tarde
foi tranquila. Mas a noite caiu e o mal se apresentou. Falando em
aramaico, nitidamente. Começamos então com nossos objetos pessoais,
cruzes, terços e a bíblia. Quando que para nosso espanto a moça,
possuída, articulou-se em latim. Todos nós entendemos unanimemente.
Ela falava essas línguas todas?
Ela não falava nada além do italiano. Quem se comunicava era o mal. Ele
estava apenas tentando tirar nossa paciência, nos amedrontar. Ou
mostrar que ele, não estava perdendo-a. Mas estava completamente
furioso. Orações repetidas, incomodam o mal. O mal não gosta de
adoração a Cristo. Isso o incomoda. O nome do Senhor tem poder. Um
objeto qualquer católico, água benta, um crucifixo, em punho firme, com
fé, irrita o diabo. Não é o objeto em si que tem poder, mas sim o infeliz
que deixa brechas e sinais de que está incomodado com tanta
religiosidade e rezas. Basta a nós entendermos que eles estão presentes
e, eles cientes da nossa, para que a guerra comece. Então uma "ave
Maria", em latim, um "credo", Salmos, ditos com perseverança e
autoridade batem forte no outro lado e eles reagem a isso com mais
raiva ainda.
Por Deus! Mas e ai, como a menina ficou?
Ela estava fora. Espécie de coma profundo. O obsessor quem comandava
seu corpo. Após muito trabalho, muita oração e espirros de água benta,
conseguimos a redenção do obsessor.
Água benta... Sempre tive curiosidade.
A água é o melhor meio condutor de energias. Pensamento é energia,
que igualmente é matéria. Oração é energia, em formas de ondas
sonoras. Vibrando em certas frequências. A água tem a capacidade de

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O amor sob a luz do oriente





carregar isso tudo, de conduzir. Uma água benzida é água energizada.
Esta energia ao se chocar contra um diabólico, mesmo estando em corpo
de uma outra pessoa, ele sente todo esse choque, essa vibração. Dizem
que chega a queimar!
E há mais uma "ferramenta"?
Sim, é um último recurso.
Qual?
A oração para São Miguel Arcanjo. Feita por mim mesmo no mosteiro em
Roma.
Padre! Recite-a, por favor?

Segui com a oração e a cigana, estupefata ouvia tudo com máxima
atenção, chegando os seus olhos brilharem:
"1. São Miguel Arcanjo,
2. Olhai por mim. Protegei-me. Cobre-me com tua graça.
3. Símbolo de humildade perante a Deus:
4. Misericordioso e fiel guardião.
5. Augusto General do Exército de Deus, líder das forças celestes.
6. Assim como em seu triunfo sobre as hostes infernais, clamo lutar por mim,
pecador.
7. Rogo-te, humildemente, para que, neste momento, tu o faças agora que me
encontro aflito.
8. Lança, com a tua vitoriosa espada, bênçãos ao inimigo.
9. Com tua balança justa e teu jugo, liberte-o!
10. Livra-o do peso da dor, da amargura, do ódio; eleve-o.
11. Eu perdoo e também peço o perdão ao inimigo.
12. Interceda, Arcanjo, trazendo-me esperança e força, neste momento sublime;
14. Abra caminho aos teus soldados, anjos da guarda, em nome de Jesus Cristo,
para que cheguem a mim conforme meu merecimento.
15. Com a vossa ajuda, guia-me ao caminho reto, a serviço de Deus.
16. Enquanto que louvarei em teu nome, com júbilo, neste momento:
17. São Miguel Arcanjo, é com devoção e eterno carinho por tua obra, General dos
Anjos, que me ofereço, em plena paz e alegria, para a reforma íntima, como os
ensinamentos de Jesus.
18. Tenho fé de que minhas preces chegam ao Pai, por seu intermédio.
19. E sei que, quem em ti confia, jamais será abalado.
20. Tu, que nos protege, até o último filho, jamais nos deixarás.
21. Compreendo que não peso na tua balança, Arcanjo Guardião, pois ao teu lado
sou sereno e vencedor.
22. Agradeço pela paz que me trouxeste."
 Que isso! - Exclamou Esmeralda - que coisa mais linda! Guarde isso pra
mim padre, quero me fazer uso desta obra em momentos que eu me
sentir insegura, perseguida.

31

O amor sob a luz do oriente

 Obrigado. Com certeza.
 Mas como vocês sabem que ele se foi, que ele se entregou?
 Pelo arrependimento. O choro bem chorado, não engana. Você não se
engana quando choras por arrependimento, não é? É sutilmente sincero.
O choro, seja de alegria, ou qualquer tipo de emoção, não é tão simples
assim de se encenar. Ainda mais a mim, inquisidor, que já viu muita coisa
nessa vida.
 O que foi dito por parte desse obsessor?
 Eu me arrependo e aceito a Jesus Cristo em minha nova vida. Grato por
me apresentar o caminho; não quero mais essa vida para mim. Perdoeme!
 Fizemos ainda algumas vizitas e não nos fora relatado mais nenhum
problema do tipo com a Sophie e sua família.
 Que lindo! A moça viveu em paz?
 Sim. Ficamos uns bons tempos em contato com a família e nenhum caso
mais ocorreu. Nós temos o costume de sempre estar acompanhando a
todos os que sofreram e sofrem deste mal. Levando religiosidade,
buscando o compromisso entre a igreja e a família. Para que estas nunca
se esqueçam de ter em seus lares a presença de Jesus Cristo. Só ele salva,
só ele cura. Quando fores pedir algo, Esmeralda, quando fores expulsar
algum mal, não peça ao "senhor" ou a outra coisa qualquer, por que
"senhor" tem muitos por ai, mas Jesus Cristo só há um.
 Lindo! Você está mudando a minha vida para melhor, Padre. Desde o
primeiro dia. Cada minuto ao teu lado, minha vida se eleva.
Após esta longa conversa que tivemos, trocamos olhares, em silêncio. Eu
sabia que eu poderia, no passado, com uma simples carta, ter mandado-a para
tortura, mas meu coração não quis. Ela me olhava e havia vivacidade em seus
olhos, como se quisessem dizer: "sempre acreditei em você, em sua doçura." Eu
peguei as mãos suaves de Esmeralda e levei a em meu coração. Uma energia,
uma coisa tremenda eletrificou meu corpo todo. Eu fechei os olhos, e quando
abri - não foi por querer - foi por que esmeralda vinha em meu encontro, para
me beijar. Eu me assustei e ela sentiu isso. Ela riu de mim, e mandou eu me
acalmar. Nunca havia pensado em que chegaríamos a este ponto. Sei que a
partir daí eu iria jogar toda minha vida como religioso, padre, devoto, meus
votos de castidade, enfim, tudo iria pelos ares. Seria por uma boa causa. Mas eu
nunca havia parado pra pensar e também o que iria ser de mim, sem a batina.
Mais vezes nos encontramos, mais vezes ficávamos horas conversando,
trocando olhares. Ela me tentava, me deixava nervoso e tímido. Mas eu não cedi
o beijo. Mantive-me firme. Levando esta vida na aldeia, e em outras vizinhas,
pequenas províncias, eu ia fazendo amigos, e fiéis. Não abusei de autoridade,
não forcei ninguém a nada. Os muçulmanos me aceitaram muito bem. Vivíamos
em plena harmonia. Cheguei a exorcizar alguns maus espíritos, casei muitos
ciganos. Só somei, nesta minha nova vida. Apesar de estar muito feliz e em paz,

32

O amor sob a luz do oriente

uma coisa me tirava do sério. Era Esmeralda. Ela era completamente apaixonada
por mim. Ela não conseguia ficar um dia sem me ver, sem me desejar um bom
dia, enfim... Pequenos gestos que iam me tornando mais materialista, me
trazendo mais ao "ser humano" que vive no mundo e nas tentações carnais. Eu
passei minha vida inteira na espiritualidade, no devotamento, no não
materialismo. Exceto em Andaluzia, como inquisidor, nas horas em que eu me
defrontava com os hereges, profanos, etc. Fora do meu "trabalho" eu voltava ao
meu retiro espiritual. Viajava, estudava, enfim. Isso tudo o que Esmeralda está
me proporcionando é novo e muito tentador. E era recíproco, segundo ela se
manifestava. Várias vezes flagrei Esmeralda em prece, de joelhos e mãos
cerradas, agradecendo por mais um belo dia de paz. Já a vi de se benzendo,
conforme eu a ensinei. Ela aceitou o catolicismo por amor, por vontade própria.
Aquilo abrira meu coração, meus olhos quanto a liberdade que as pessoas
necessitam ter e viver em paz nestas condições. Apesar de, em terra Islâmica,
eu, um padre católico, era muito bem tratado e respeitado. Ela, uma cigana,
agnóstica, estava rezando, com os joelhos no chão. E o que de mal há nisso? pensei. Por que na Espanha todos têm de ser católicos? Ou melhor, o mundo.
Por que o mundo tem de ser imposto às condições da rainha ou da inquisição?
Devemos nos unir, nos comunicar com a finalidade de paz e harmonia para um
futuro melhor e não nos destruirmos. E termos ciência de que vivemos como
milhões, em milhões, em milhões, em milhões de gotas de orvalhos num
mesmo oceano. Fazemos parte de um todo, fazemos parte de Deus.
Alimentamos-nos do mesmo alimento; nos banhamos da mesma água; o sol
que brilha em nossas frontes, brilha para todos. Esmeralda é uma pessoa com
costumes bem diversificada dos meus. Todavia somos irmãos e temos algo em
comum: a paixão. Além disso o amor e carinho pelo próximo. Tudo bem que eu
fiz mal a algumas pessoas - isso não se beira o amor pelo próximo. Em conversa
com Esmeralda, muito me questionei e ela me acalentou com sua sabedoria e
amabilidade.
 Eu fui uma pessoa perversa, Esmeralda – declarei em prantos.
 Não diga isso! Não se culpe! Isso já é passado.
 Mas na minha mente continua presente.
 E mesmo que você seja considerado algoz por algumas pessoas, tu tens a
capacidade de amar a uma pessoa, não é? A ti mesmo que seja, certo?
 Sim, claro. Amor por Cristo, por São Francisco de Assis e por ti,
Esmeralda.
 Olha! O amor constrói, se ele tem capacidade de fazer isso, então você
não está perdido assim como pensas. Se tu amas a uma pessoa que seja
- ou somente a ti mesmo - por que é que tu não podes amar a duas, três,
dez ou mais pessoas, não é? O amor que é dado a um, é o mesmo que se
dá para todos. Basta querer. Padre, você é e sempre foi uma pessoa
bondosa, um ser amorável. Se te desvirtuaste desse propósito foi por má
influência, força maligna maior, meu querido. Recomponha-se! Ande

33

O amor sob a luz do oriente

para frente de cabeça erguida e negue esse pensamento que estás
agora!

Sábios conselhos de uma mulher que não sabia o que era religião a fundo.
Coração imaculado, digno de Maria, mãe de Jesus. Uma pessoa não necessita
da religião para ter uma consciência limpa, reta e caridosa. Agora mesmo pude
sentir isso. Sua consolação, seu carinho, sua afabilidade... Mais e mais eu a
queria perto de mim. Com estas palavras, dignas de tocar minha essência, algo
estalou em minha cabeça para carregá-la comigo em missões nas províncias
vizinhas e até na nossa própria aldeia, presenteando tenaz conforto e fé às
pessoas. Com o poder que ela possui com as palavras, será uma excelente
doutrinadora, expulsando qualquer mal que venha se aproximar das pessoas.
Esmeralda era uma cigana muito firme, combatente, determinada, envolvente e
com vigor incrível. Pela facilidade dela ser capaz de se mudar, andarilha nata,
não vive fixa num mesmo lugar, isso facilitará muito nossa convivência. Como
ela adorava temas e assuntos novos, apaixonada por viagens, mudanças de
cidade, tive a compreensão de ela ser a parceira ideal para minha vida.
Descobri também que Esmeralda fazia poesias, adivinhações com cartas de
baralhos e leituras dos traços que possuímos na palma das mãos. Sinceramente,
eu já até havia ouvido falar nisso, em minhas viagens a Turquia e Grécia, mas
nunca havia lhe dado com isso e nunca acreditei fortemente numa coisas
dessas. Até em alguns interrogatórios inquisitoriais, eu livrei alguns desse hábito
- indevidamente, hoje eu sei, injustamente. A cigana é uma mulher fantástica!

34

O amor sob a luz do oriente

Leu minhas mãos, jogou cartas para mim. Como num belo dia, estávamos
recostados a uma estrondosa árvore descansando após um longo dia.
 Vou abrir o baralho para ti, padre, vou ler tua sorte.
 Não precisa, querida. Já possuo a sorte que é estar ao teu lado.
 Assim você me deixa embaraçada e pode atrapalhar o jogo. Fique quieto.
Usarei um método simples, de três cartas, a fim de sabermos sua vida num
geral. Embaralho-as, e você divide este monte em três partes.
 Como quiser, querida - falei sem muito interesse.
 Pronto! Agora tire três cartas e deixe-as aqui na minha saia, nesta ordem.
Cartas abertas, e Esmeralda começa a lê-las para mim, uma a uma, da
esquerda para a direita.
 Vejamos... A primeira carta, nossa um caixão, veja!
 Ei, pare com isso! Estás insinuando ai, que eu irei morrer?
 Não, meu amor - ria a cigana - as cartas nunca nos dão o poder de tirar a
vida de alguém. Ela não anuncia isso diretamente.
 Traduza isso para mim, anda, estou nervoso.
 O caixão, nesta posição, como sendo a primeira carta, eu conto como um
passado significativo para a pessoa. Ele quer dizer sim, a morte; o fim.
Também o recomeço, renascimento, renovação. Algo que teve de se findar
para que outra coisa renasça, enfim, se transforme.
 Menos mal. Continue.
 Olha! Uma Cruz!
 Eita! Queres que eu morra, Esmeralda!
 Padre, não brinque - não me faça rir. Também não é assim. Esse é o teu
presente. E esta Cruz, indica sacrifício, peso, fardo, alguma dificuldade no
teu caminho, que estejas encontrando hoje. Mas ela é positiva por que a
vitória irá sorrir para ti no final. Ela é a carta que indica a maior proteção
espiritual. Na igreja a cruz significa a glória, não é?
 Sim. A cruz é vista como a glória de Cristo. A sua glorificação começa na
Cruz, sinal da nossa salvação.
 E sempre estará, padre. E agora, esta carta! Olha, que lindo! Para mim, a
carta mais bela deste baralho. Um coração. Viu? Não há nada de morte,
nem de coisas trágicas nos baralhos. Tudo se encerra com um coração.
 O que isso significa? Conte-me.
 Claro, ela pode trazer algumas coisas negativas sem tanta importância sim.
Mas não vejo isso em ti.
 O que você vê?
 Amor, afetividade, compaixão, solidariedade, sentimentos positivos e
romantismo.
 Muito bom - respondi alegrando-me.
 Hum, despertando sentimentos nos coraçõezinhos da damas.
 Pare! Não sou disso - ri da situação.

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O amor sob a luz do oriente

 Resumindo. Algo, padre, que teve um fim, foi enterrado e se renovou em
tua vida. Alguma coisa em mente?
 Claro! Meu passado como inquisidor! Me livrei disso, dos reis da Espanha,
de tantas perseguições, crimes, enfim... Consegui acabar com aquilo tudo e
seguir rumo a uma nova vida.
 Mas sem perder a fé na Igreja, em Jesus e São Francisco de Assis, não é?
 Sim, claro! Realmente, agora tudo está claro.
 E o coração, Padre. Interprete-o para mim. O que diz o teu coração,
homem?
 Eu, fico sem jeito, eu sou um tanto tímido e não sei se...
 Mas eu sei, padre. Eu vejo em teus olhos.
 Eu não sei o que dizer.
 Eu sei - disse ela - vou lhe dizer uma coisa que me passou agora pelo
pensamento, padre.
Então, falou um lindo poema vindo do seu coração puro. O Sol se deitava
atrás da montanha, como uma pintura em aquarela, fazendo das nuvens
mesclas em tom azul e rosa. A natureza conspirava. Das árvores caiam as mais
belas folhas. E as flores pareciam despertarem do campo para ouvirem a mais
doce voz e as mais belas palavras:
"Oh luar, lua de prata
Traga aquele, por favor
Na compasso de uma sonata
Para dançar comigo o eterno embalo do amor
Se choro não é de tristeza não
Nem é saudade, é simplesmente prazer
O Altíssimo me estendeu Suas mãos
E deu a mim a alegria de viver
Noite cai, estrelas brilham
Espero o alvorecer de um novo dia
O céu, em meus olhos cintilam
A luz que de você irradia
Não me canso de a ti esperar
Que, até ao mar as montanhas se movam
Pode o mundo todo se findar
Esgotar todos os versos que trovam
Volta, meu amor divinal
Para os braços desta humilde mortal
Que um dia lhe fez Deus
De extremo encanto, magia e beleza"
Ficamos uns segundos em silêncio. E pelos olhos é que se lê os
pensamentos. Sábia cigana. Atirada, bem direta e incontestavelmente atraente.
Linda! Isso me enfeitiçou. Fiquei num estado que de embriagues, onde os

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O amor sob a luz do oriente

sentidos já estavam agindo por impulso carnal. Num gesto automático, peguei
suas mãos, juntei meu rosto junto ao dela e toquei seus doces lábios. Um filme
passou em minha mente. Parece que todos os meus anos no mosteiro, e como
padre, passaram pela minha cabeça, sendo varridos por um enorme furacão
colossal. A sensação era a de que eu tinha perdido toda a minha espiritualidade
e que Deus iria me punir imediatamente. Mas recobrei meus sentidos, e senti
seu corpo. Suas mãos, seu rosto, sua respiração! Percebi que nossos corações
batiam num mesmo ritmo, numa harmonia sinfônica. Éramos uma alma em dois
corpos distintos. Suas mãos largou as minhas e me abraçou de tal forma que
parecia que uma entidade muito superior, um arcanjo, algo assim, tivesse vindo
me acolher. Eu nunca senti tamanho carinho por parte de alguém. Me veio à
mente as cartas. Realmente, enterrei todo o meu passado e ainda com fé na
minha religião - sem perdê-la, entreguei meu coração ao amor da minha vida.
Vivemos felizes por cada minuto passado na Terra. Ninguém soube do nosso
amor, do nosso relacionamento. Eu ainda queria viver a vida como padre,
levando a fé às pessoas, casando-as, benzendo-as, rezando missas, exorcizando
maus espíritos, conforme um direito conquistado junto a Ordem, uma
autoridade religiosa, habilitado para dirigir minha religião, no caso a Santa
Igreja Católica. Sei que isso não é conduta de um sacerdote, ter para com uma
mulher relações matrimoniais, mas eu já não pertencia a nenhum clero. E o que
eu fazia era apenas do meu coração, nada mais para a igreja.
O tempo passou. A vida seguiu. Felizes estávamos. Eu, praticamente um
cigano, vivendo um vida livre, perfeita, agregado aos seus costumes. Alguns
desconfiavam, que eu e Esmeralda, estivéssemos tendo um relacionamento
amoroso. Não assumimos, mas acho que se estivéssemos nos declarado, o povo
da aldeia iria aceitar sem problemas. São pessoas muito abertas, que dão razão
a tudo em que está relacionado o amor. Mas infelizmente, em outras províncias,
alguns aldeões não tinham esta filosofia de vida. Eram muito ligados a religião
Islã. São muito conservadores, assim como a igreja católica, eu sei bem disso.
Mas para mim, já naquelas condições, qualquer dogma, qualquer imposição me
remetia aos tempos da inquisição e eu já estava farto daquilo tudo e estava
seguindo outra filosofia, de vida e religiosa. Mas o povo muçulmano ainda
permanecia - e permanece nos dias de hoje - muito fiel aos seus preceitos. Mais
isso não era tão preocupante assim, o pior - para o povo daquelas províncias estava por vir. Esmeralda, além de minha mulher, e além, também, de não
podermos declarar isso, estava grávida. Íamos ter um filho. Não paramos de
percorrer a cada canto daquela capital. Sempre com sorriso nos olhos,
caridosos, prestando auxilio religioso e até social. Ela, se prestou, por livre e
espontânea vontade, a caminhar comigo, aprendendo as coisas da vida,
ajudando as pessoas em quaisquer situação. E eu também aprendia muito com
ela. O seu maior prazer eram as cartas. As pessoas adoravam quando suas
sortes eram lidas pela cigana.

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O amor sob a luz do oriente

Novas estações, e fisiologicamente, o tempo não perdoa-nos, nem quando
nos leva ao falecimento, tanto quanto, também nos dá a vida. A barriga de
Esmeralda já estava bem avantajada. Já se passavam muitos meses e era
inegável. O tempo nos traz alegrias e também tristeza. Para ele não importa a
felicidade, a arruinação. Ele simplesmente passa. Para uns lentamente, para
outros rápido até demais. Lembra-me o querido filósofo Heráclito de Éfeso,
onde ele diz que tudo flui, tudo se move. Na Grécia, em minhas raras visitas, tive
uma conversa a respeito com meu amigo, o padre Dionysios Konstantinatos.
dizia ele:
 Tudo o que, aparentemente, está imóvel - amigo padre - na verdade
está em completo movimento.
 Não consigo entender. Oras, se algo está ali, imóvel, como pode estar
em movimento? Tudo bem que sabemos que a Terra se move, os astros
também, mas não é a esse movimento a que te referes, não é?
 Não mesmo, amigo, não. Digo, que tudo flui. Mesmo esta pedra, veja pegou a pedra e a pôs em minhas mãos - ela está, aparentemente, parada em
tuas mãos. Mas na verdade, ela está se deteriorando. Pois na natureza tudo é
assim. Inclusive nós, amigo. Exceto o próprio movimento, a própria força em si.
 Entendo. Isso não é dado a nós, nossos olhos físicos e percepções,
constatar a esse fenômeno. Pois a pedra, que está fluindo aqui em minhas
mãos, está intacta!
 Mas algo nela, se move. Assim como todo o céu.
 Tudo isso, segundo Heráclito, acontece devido aos seus opostos. O
movimento se dá, por exemplo, entre calor e frio. Pois tudo o que está frio, se
aquece, e vice-versa. E daí ocorre o movimento, o fluir.
 Perfeitamente, amigo.
 É o que queremos mostrar a igreja, em questões de céu e inferno. Não
existe puramente, ou independentemente, um ou outro. Estes dois estados de
consciência existem sim um pela ausência de outro. Até a doença faz da saúde
algo agradável e bom; ou seja, se não houvesse a doença, não haveria por que
valorizar-se a saúde, por exemplo - completou Dionysios.
 Também concordo. Queria, eu, ter voz para poder abrir os ouvidos do
clero no que diz respeito ao inferno. Mas...
E foi esse tempo, esse movimento e esse inferno - em que algumas
pessoas carregavam em suas mentes - que confinaram minha história junto a
Esmeralda, na Turquia. A barriga dela cresceu mais. Todos apontavam para mim,
como o culpado daquilo tudo e eu o era, com certeza. Mas iria ser tudo lindo e
bem-vindo, se eu não fosse um padre. A aldeia, como vos havia dito, os ciganos,
aceitaram nossa ideia, em vivermos juntos, criar nosso filho independente de
batina, religião, etc. Mas eles nos deram um ultimato, foi como um balde de
água fervendo: "Vocês irão sair da aldeia para criar vosso filho. Podem

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O amor sob a luz do oriente

peregrinar mundo afora, pois aqui não terão mais lugar. Não queremos
problemas". Esta palavra me incomodou um pouco. Por que uma criança iria
trazer "problemas" aos ciganos? Seria a criança mesmo, o tal problema?
Conversei com Esmeralda, e pelo que ela conhece de seus irmãos ciganos, a
criança, ou mais um para se criar não era a dificuldade. E sim eu, um padre ter
feito isso com uma mulher. E que ia passar meio dia e outras comunidades iriam
saber do fato. A partir daí o ministério iria ficar no ar. O que iria nos acontecer?
E a mim, um padre, com uma mulher e com filho? Eu saberia mais tarde.
Os povos vizinhos, turcos, completamente maioria muçulmanos xiitas,
consideravam - e perdura até hoje - ainda três práticas como essenciais à
religião islâmica: além da jihad, que também é importante para os sunitas, há o
Amr-Bil-Ma'rūf, "exortar o bem", que convoca todos os muçulmanos a viver
uma vida virtuosa e encorajar os outros a fazer o mesmo; e o Nahi-Anil-Munkar,
"proibir o mal", que orienta os muçulmanos a se abster do vício e das más
ações, e também encorajar os outros a fazer o mesmo. E neste caso acho que
me incluíram como um novo mal que assolava as redondezas. Um sacerdote,
que fez um filho numa nativa local, só pode ser o mal. Esmeralda, soube,
confirmando o que eu já intuíra, que a aldeia vizinha estava para me condenar.
A cigana fez de tudo para que eu fugisse e também que eu a levasse, enfim,
tentou de tudo para que eu não fosse capturado. Ela ia ficar na aldeia, iriam
cuidar da criança, dela, ela iria ter de tudo do bom e do melhor e se ela viesse
comigo, iriam capturar a ela também e a criança. O que iria ser deles pelo
mundo afora? Mas pelo menos ela e a criança ficando na aldeia, já é deixou em
paz. Nesse ponto os ciganos foram diretos e sinceros. Me tranquilizei. E me
despedi de Esmeralda. Mas eu não ia fugir a lugar nenhum. Já basta! Não nasci
pra fugir. Tive de enganar a minha mulher. Dizer que eu ia fugir e que iria voltar
depois de longos anos. Que eu iria procurá-la e que eu queria ver meu filho.
Não fiz isso. Mas fui a aldeia, ter uma conversa com seu líder e saber do povo, o
que eles queriam comigo, e o que iriam fazer comigo.
Me resguardei um tempo num campo deserto, na encosta de uma
montanha. Tentei reviver em pensamentos todos os dias de minha vida. Mas
não conseguia. Eu pensava somente em Esmeralda e em nosso filho. Eu queria
meditar ao menos um minuto sobre o que fiz na época da inquisição, no
império espanhol, para tentar me redimir, para conseguir, de Deus, sua
misericórdia. Mas a cigana surgia nos momentos mais penosos em minha
consciência e transformava-os em graça. Ela era a minha Deusa, a minha
misericórdia. Com ela eu transcendia a vida material! Deixei-a de uma maneira
que eu não consegui me perdoar. Creio que ela também não conseguirá. Mas
foi melhor para nós dois, por que se querem fazer justiça, que o façam. Assim
vivi grande parte da minha vida, e agora, lembrando Heráclito, novamente, o
mundo se move, da voltas e estou por ironia do destino nas mãos do povo. Não
tive mais contato com Esmeralda e depois de três meses excluído, me

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O amor sob a luz do oriente

encaminhei a província dita por ela, qual queria me condenar. Agora, pela
filosofia Islã, eu sou o herege. Fui em frente, sem medo e afim de resolver essa
situação. Agora eu tinha de usar todo meu conhecimento, toda a articulação
que aprendi como inquisidor, filósofo em minha - quanta ironia - defesa. Eu não
tinha temor nenhum, pois Esmeralda estava, em meu coração, viva, pulsando,
levando pelas artérias e veias, paz, amor e serenidade. Ainda mais, que ela
levava nosso filho em seu ventre.
Chegando na aldeia, fui logo reconhecido. Não teve conversa. Fui
capturado e levado ao líder religioso. Não estou julgando a linda religião Islã, é
uma religião com muito fundamento, e é uma das quais tem mais adeptos no
mundo. Eu sei que também não devo julgá-lo, pois a igreja católica fez coisas
muito piores, mas um religioso, não deve ter essa conduta. Não deve julgar a
ninguém. Eu o fazia, mas tinha esse consentimento. E mudei, tanto é, depois de
algum tempo. Fui levado a morte, no mesmo dia em que fui capturado. Além de
Esmeralda, fui acusado, injustamente, claro, de ter aliciado outras mulheres e
engravidado alguma delas. Esmeralda era prova viva de que eu não era capaz
de fazer isso. Deus o sabe. Minha consciência também. Se não fui eu quem
engravidou tais moças, quem pode ter sido? Enfim, este líder, este guru da
aldeia turca, um dia irá entender que ele, ao me executar, não ia acabar com o
adultério em época nenhuma. E que eu não iria servir de exemplo nenhum.
Muitos moradores, eu via em seus olhos, e eu me alegrei, sentiam, estimavam
minha perda. Sequer pensaram em alterar a minha pena, por temerem ao guru
deles, mas por dentro, nos olhos, no íntimo de cada um eu via uma condição
humana de amor.
Eu fui leve, em paz e tranquilo. Desencarnei do corpo do Padre. E fui fazendo a
passagem com um lindo poema que Esmeralda fez para mim, certa vez:
"Eu e você neste mundo a sós
Encantada estou, por tua sedução
Ouço admirado tua doce voz
acalentar o meu pobre coração
O denso brilho dos olhos teus
Igualam-se a estrela da alvorada
És a mais perfeita obra de Deus
O padre que me deixou apaixonada"
Fiquei por longos anos sozinho, penando por um mundo que minha
mente criava, no plano espiritual, algo paralelo não distante da Terra. Ou
melhor, tão próximo a Terra, a superfície que eu sentia ainda sua energia, sua
gravidade. Até que me bateu um desespero, algo que me levou a uma
depressão muito grande, que eu não conseguia nem mais me manter ereto. A

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O amor sob a luz do oriente

sensação era de que meu corpo ainda carregava um peso enorme. Já aquela
altura, a confusão mental me fez acreditar que eu ainda não havia deixado o
corpo físico. Que eu não havia morrido. Ai o terror bateu a minha porta. Fui
levado, não me recordo como, a um lugar muito sujo, muito fétido e com
pessoas nada amigáveis, nada amistosas. E por lá fiquei. O tempo, já não fazia
mais parte da minha vida e daquelas pessoas também. Me rastejei, vomitei até a
minha alma pra fora, e o tempo não passava e nada mudava. Um tratamento de
esgoto de uma cidade como Sevilla, era um belo e perfumado jardim
comparado ao que me restara. Eu ali andava, deitava, vivia - ou vegetava?. Hoje,
já sei quanto tempo se passou, e sei tudo o que sofri ali, pagando pelas minhas
imperfeições e pelos meus erros. Foram dezenas de décadas ali, revivendo a
cada inquisição que fiz perante a irmãos. A cada um que condenei, tive de
pagar. Mas não foi na justiça de Deus. Foi na justiça deles próprios. A justiça de
Deus é esta, qual me aceitou, qual é misericordiosa, caridosa, é amor de forma
inexpressível. Este amor requer que eu revive a cada momento com pessoas
quais eu tive o desprazer de causá-las por asco à minha pessoa, como
inquisidor. Voltei algumas vezes, novamente, aqui na Terra, vivendo algumas
vidas discretas, errando e aprendendo, buscando minha evolução. A vida qual
mais me marcou e qual foi um novo ponto inicial em meu espírito, foi esta
como Padre, em Andaluzia, na Espanha e onde tive um fim na Turquia. Mas já
estou no plano astral novamente, e hoje lhes conto esta história através de um
querido e estimado amigo, que agora se encontra num corpo físico, sua alma
tem ciência da espiritualidade e me atende, para estas escrituras, mesmo sem
saber quem sou e qual temos um laço espiritual seja na Terra encarnados, ou
aqui no mundo dos espíritos.
Quero lhes dizer sobre Esmeralda, esta que foi a mulher da minha vida.
Que tive de deixá-la, e também meu filho, que não o vi nascer. Mas o conheci,
conforme merecimento, aqui no plano astral. Tive ciência de tudo o que passou
a cigana, meses depois que faleci. Pois bem... Esmeralda sofreu muito com
minha ausência. Ficou deprimida, ficou muito doente. Morreu no parto de nosso
filho. Ele ficou com uma família cigana, que amava muito a Esmeralda. Criou-o
com muito amor. No plano astral até a chegada dela, eu vivi em uma nova
evolução. Em nova vida de aprendizados. Sempre ansiando reencontrá-la. Mas
era impossível. Nesse universo afora estava perdida a minha linda cigana. Eu já
estava levando a crer que nunca mais iria reencontrá-la depois de nossa vida na
Terra. Mas, como Deus é muito justo, após muitos anos, por questões de
afinidade e de puro amor um pelo outro, tive merecimento - e ela também - de
reencontrá-la. Tive de resgatá-la num lugar muito ruim, de muito lamento e
sofrimento. Pois em Terra, encarnada como Esmeralda, ela sofreu com minha
perda e ficou muito mal. Sua mente ficou muito perturbada, e ela levou consigo
nos confins do inferno que sua mente criou. Após muitas tentativas de levar luz
a ela, e fazer com que ela se desligue do mundo em que acabara de deixar, aos

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O amor sob a luz do oriente

poucos fomos trazendo-a em sua sã consciência. Nos reconhecemos e foi o
momento muito mais emocionante, mais feliz, mais maravilhoso de toda a
minha vida. Seja espiritual, seja como humano, encarnado. A felicidade foi tão
grande, que, diz os amigos espirituais mais elevados que estavam presentes,
que emanamos uma luz muito forte que ficamos imperceptíveis. Que formamos
um corpo fluídico só. Passado alguns anos, ela se recuperou por completo e
rumamos para nossa nova morada, numa faixa entre a exosfera e a atmosfera
terrestre. Com nossas consciências mais leves, e mais felizes, pudemos escolher
nossos destinos. Ela voltou a ser a cigana Esmeralda, só que no plano espiritual.
Com a mesma aparência, inteligência, graça, beleza, astúcia, não mudou nada
da cigana apaixonante que eu conheci e vivi. Inclusive toda a sabedoria que
trocamos durante a vida. Ela fora resgatada pela égide de Arcanjo São Gabriel,
qual são os incontáveis, números e bondosos espíritos que trabalham em seu
nome, ora com roupagem fluídica de guias espirituais em mesas Kardecistas, a
Mesa Branca, ora na Umbanda, como os Caboclos, índios flecheiros, caçadores caçadores de magos negros e hordas espirituais atrasadas. Estes a trabalharam,
com o consentimento dela, para que ela viesse a ser uma guia espiritual, de
irmãos que estão a caminho na Terra, visando sua elevação - isso para ambos.
Ela se apresenta, ora em Igrejas Católicas - protegendo espiritualmente padres,
madres, diáconos, freiras - ora junto aos médiuns, nos terreiros, na falange dos
ciganos, como Cigana Esmeralda. E carrega consigo um terço do rosário, marca
que ela adquiriu com sua convivência comigo e por ter aprendido muito sobre
o catolicismo, fazer a caridade de porta em porta e ter voz firme emanando
excelentes fluídos na mentalização de preces, orações e exortações de maus
espíritos. Além, é claro, de ler a sorte dos consulentes com suas mágicas cartas
ciganas. Mas muitos conhecem-na também como a Cigana do Terço do Rosário.
Assim seguimos nossas vidas, nos dois lados. Eu ainda reencarno muito
neste mudo pesado, confuso, conturbado que é a Terra, em diversos países,
desde o ano 1.500. E também vivo bons anos no mundo espiritual, conforme
meu adiantamento, conforme meu amor para com o próximo, conforme e
vontade de Deus. Em algumas situações, vivendo encarnado no plano terrestre,
pude sentir a presença de Esmeralda, seu perfume, sua energia. E ela sempre
me diz, quando nos encontramos na morada espiritual, que me visita. Mas só
tenho a ciência disso agora, como espírito, porque tenho acesso as memórias
de vidas pretéritas, pois infelizmente, quando reencarno, passo a não ter mais
ciência do que fui um dia e de que há uma mulher, em forma de espírito, que
me acompanha, que me ama, que me guia por estas estradas e caminhos da
vida.
Salve o povo cigano. Salve a Cigana Esmeralda, Salve o Rosário de Maria.
Ave Maria!

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O amor sob a luz do oriente

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