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Eduardo Moura Tronconi
Matizes Fractais ………………………........…………….. Índice:

Preâmbulo em 2016 ... 2
Introdução ... 3

Matizes Fractais

Haikai Introdutório ... 6
Fractais I – Instantes de um dia de
Outubro ... 7

Breve Livro de Haikais

Fractais II – Módulos ... 22
Fractais III – Haikais de Nuvens ... 28
Fractais IIII – Haikus Apócriphos … 35
Fractais IIIII – 俳句 avulsos … 40
Fractais IIIIII - Algo Doce ... 48
Fractais IIIIIII - Últimas Cores ... 50

Uberlândia/MG - 2016
=A Textura desse Abismo chamado Consciência=
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-Preâmbulo em 2016
Depois de um ano volto a esse pequeno livro de Haikais,
uma jóia preciosa da poesia para mim.
Com o intuito de enxugar a imagética total desta obra e lhe
dar um sentido gráfico de acordo com o ideário sintético e
leve deste tipo de poesia, revisitei-o e assim o refiz.
Mantendo a mesma capa, porém alterando a disposição
interior dos haikais, e acrescentando mais dois capítulos, os
últimos, espero assim poder legar aos apreciadores uma nova
visão das pepitas e seixos aqui depositados no arco-íris fractal
breve destes poemas.
e.m.t
Janeiro de 2016

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-Introdução

Podemos inferir que em sua forma ideográfica o haikai
original, em japonês, condensa uma beleza imagética que o
haikai ocidental nunca terá, por isso o minimalismo o mais
rígido o possível é o único ponto de ligação entre os dois tipos
de poemas, o ideogramático e o, digamos, em língua cursiva.

Matizes Fractais é um pequeno livro de haikais composto por
mim até o mês de Outubro do ano de 2014 (exceção para os
Fractais IIIIII - Algo Doce, compostos em Janeiro de 2016 e
Fractais IIIIIII - Últimas Cores, compostos em meado de 2015).

Mas esse minimalismo exige então por sua vez um processo
de introspecção ao inverso do haikai japonês. Se aquele é a
expressão da imagem que se quer passar em ideogramas que
tem sua forma delineada pela própria natureza, o nosso haikai
é a evocação de uma imagem que o poeta, ou o haijin
ocidental, quer fazer aparecer na mente de quem o lê.

O arrombo de compor a maioria desses frásticos poemas
surgiu de repente, e era como se eu os colhesse de um canto
da minha mente onde eles estavam depositados, só
esperando serem externalizados.
A oportunidade era, pois, grande, para que eu
incrementasse-os com uma parte imagética onde usaria além
de „recursos enphlexyons’, também com fotografias, gravuras
e demais recursos gráficos que cabem dentro do estilo e são
até requeridos, como uma espécie de renga digitalmente
produzida por mim.

Poderíamos então dizer que assim como há um processo
imagético que se deve abarcar na composição de um haikai
“original”, o leitor ocidental deve aprender a ler o haikai em
sua língua vernal compondo no pensamento a imagem total,
mas sucinta, do que se lê.

No mais, entendo que escrever um Haikai é como prescindir
voluntariamente de uma ou mais funções do pensamento,
algo que seja mais amplo e então cristalizar em um conjunto
mínimo, até truncado, de expressão poética.

Aquele é a imagem, e sua leitura é o deleite dos olhos na
luz. Esse é o deleite, e sua leitura é a composição da luz que
se quer olhar. Aquele é a imagem fixa, cuja a fruição deve vir
à mente na relação com a forma, esse é a fruição gramatical
fixa cuja a imagem deve ser formada na mente.

Sendo uma expressão poética de um tipo de pensar alheio
ao meu, uma forma de pensar e então de se expressar,
digamos, japonesa, o haikai escrito por um ocidental é uma
total adaptação, perdendo seu caráter pictórico tão comum
à escrita japonesa e aos ideogramas.

Neste sentido, a simplicidade em ambas as formas de
expressão, o haikai com kanjis e o escrito em línguas
ocidentais, é imprescindível. A inspiração na composição do
haikai deve ser leve, de inspiração cotidiana, até banal,
poderíamos dizer Zen.
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E as maiores estranhezas poderiam surgir ao tentarmos
compor haikais com temas sobre política, economia,
máquinas, física quântica, astronomia, espiritualidade, etc.
Mas inacreditavelmente, quando a mente está leve para
transformar qualquer inspiração em um „momento haikai‟, aí
então não há limites para essa concentração.

Curiosamente encontramos paralelo no ocidente do
poematizar do haikai em Heráclito, o filósofo do “eteno fluir
das coisas”. Não sei se percebo isso assim por ter chegado até
nós de Heráclito apenas fragmentos de seus ensinamentos ou
se ele era realmente um sábio lacônico, ou se por outro lado
pressinto nele grande aproximação com os sábios Taoistas
chineses ou os Zen Budhistas chineses (Chan) e principalmente
japoneses, do qual o haikai é manifestação colateral do
pensamento e visão de mundo.

A estranheza se dá, pois é sugerido um abandono em uma
simplicidade mental radical que o haikai usa como
ferramenta, e aí, nos deparando com o haikai com o tema
mais dissonante da simplicidade, nós percebemos enfim que
é o mundo que quer nos enganar sobre a seriedade de certos
assuntos, que para a mente calma e limpa, tudo na existência
se torna leve e é tão pequeno como qualquer coisa dentro
do universo que pode caber em 17 sílabas de um haikai,
mostrando aí a premissa fractal básica do haikai como
expressão máxima do centro aglutinador dentro da
materialidade, que é a imaginação humana.

Na essência de tudo isso está o radicalismo semântico e
ontológico de onde surge a forma mais urgente de ligação
entre os entes e a totalidade do Ser, anquibasiando o Nada.
Como forma linguística de expressão, o haikai seria então
um

de
ligação
paradoxal,
mínimo/máximo,
ordenado/caótico, masculino/feminino, tudo/nada… de um
momento cotidiano/eterno.
Talvez seja isso que buscavam quando começaram a
escrever os primeiros haikais dentro do ambiente Zen, o
máximo possível de abandono verbal que se usaria para se
referir à realidade, centrando-se no agora em um
alinhamento com a simplicidade da vida dentro do tempo,
passando pelas estações do ano, a única coisa que liga
ainda o ser humano à natureza, fio condutor final e comum
do homem dentro do tempo natural.

Aí se sintoniza, se resgata, o conceito original do Hai-Kai, que
do japonês pode-se traduzir como “brincadeira harmônica”,
algo leve, mas que denota perfeição, simetria.
O haikai é então um diamante, um cristal, uma fotografia, é
um fio de pensamento que se registra, um fractal gris ou
colorido que se desenrola de um ponto até o infinito do
tempo e do espaço, desenrolando suas implicações
colaterais não mais no papel onde está inscrito, mas no
abismo sem fundo da consciência que a tudo abarca.

Assim, o ato de escrever o haikai para mim é prescindir
voluntariamente das funções superiores do pensamento, mais
precisamente daquela qualidade sempre presente de
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reverberações do pensamento, que talvez seja uma fuga do
momento, e condensá-lo em um simples digito, que ao final,
paradoxalmente, abrange tudo também.
Acredito, e esse foi meu esforço nesse Matizes Fractais, que
o Ocidente deva incorporar a Arte do Haikai para finalmente
conseguir uma concepção artística plena, substancial e
fundamentalmente bela no sentido gráfico e gramatical, um
experimentalismo máximo que no fim há de renovar a própria
poesia, adaptada assim ao Séc. XXI e seu mundo digital, assim
como o está fazendo conscientemente, apreciando o Haikai,
tanto quanto inconscientemente na forma de comunicação
da internet e dos celulares.
Teríamos então uma poesia originalmente mundial graças a
uma apropriação de diversas técnicas artísticas todas
provenientes da mente humana e da tecnologia.
Talvez assim, observando a fractal exuberância de matizes
cromáticas do haikai, possamos até desacelerar o tempo que
hoje escoa depressa em nossa civilização, e possamos prestar
atenção no simples instante que se desvencilha diante de nós.
e.m.t.

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Haikai Inicial

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Fractais I

7

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Manhã

Saio do quarto

Acordo nu (&) cru

a gata me escapa

teso (&) quente, deitado

felina (a) saltar.

horizonte sou.

8

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Manhã

Tomar um café
ou um chá de cidreira
depois, o rapé.
Roço o jardim
enxadadas a limpar
poemas virão.

9

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Manhã

Pássaro vento
em duplo sentido vai
vento a passar.

Semente de flor
enterrada na terra
brota sua alma.

10

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais do Meio-Dia

Fogo & água
na cozinha a cozer
fome de comer.
Gostos que gosto
coentro, alho & sal
arroz a cheirar.

11

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais do Meio-Dia

Pão de mel quente
da abelha o ferrão
como um beijo.
Some na manhã
logo na tarde tarda
toda noite vêm.

12

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais do Meio-Dia

Ayahuasca
chá de expansão beber
só me conhecer.
(O) dia cabe no dia
(a) noite cabe na noite
Tudo me cabe.

13

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Tarde

Sem aforismo
aflora o momento
quando poemo.

Cada seixo tráz
a memória do rio
caminho d’água.

14

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Tarde

As folhas secas
rolam & acumulam
fim de inverno.
Manha de gato
exige respeito
sedução (de) fera.

15

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Tarde

Às seis da tarde
imóvel silêncio
acalma tudo.

16

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Noite

Lembranças de Ana
olhar esverdeado
um sorriso leve.

17

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Noite

A noite clara
fala de luar azul
às sombras alvas.

Nuvens no luar
dão conta do meu sertão
olho & visão.

18

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Noite

Estrela D’Alva
no momento dos Budas
Queima na sala
quatro da manhã.
incenso de arruda
limpando o ar.

19

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Noite

Nuvens do dia
despem o anil do céu
nu vens à noite.
Lembranças de Ana
indizível saudade
(da) menina rara.

20

Instantes de Um Dia de Outubro
Haikais da Noite

21

Fractais II

22

Módulos

23

Módulos

24

Módulos

25

Módulos

26

Módulos

27

Fractais III

28

Haikais de Nuvens

29

Haikais de Nuvens

30

Haikais de Nuvens

31

Haikais de Nuvens

32

Haikais de Nuvens

33

Haikais de Nuvens

34

Fractais IIII

35

Haiküs Apócriphos

36

Haiküs Apocriphos

37

Haiküs Apocriphos

38

Haiküs Apocriphos

39

Fractais IIIII

40

Haikais Avulsos

41

Haikais Avulsos

42

Haikais Avulsos

43

Haikais Avulsos

44

Haikais Avulsos

45

Haikais Avulsos

46

Haikais Avulsos

47

Fractais IIIIII

48

Algo Doce

A língua nua
despida de acidez
veste algodão.

Algodão doce...
açucara a (o) tez (ão)
das nossas línguas...

Tão doce nudez
faz lembrar beijos calmos
que solvem amor.
49

Fractais IIIIIII

50

Últimas Cores

Nomeando-te
eu falo do teu sabor
sua cor & sua dor.

51

Últimas Cores

Teu sabor em mim
são sonhos improváveis
uma dor, uma cor.

52

Últimas Cores

Rara clareza
que ofusca meus olhos
Anacrônica.

53

Últimas Cores

Gosto de azul
som de felicidade
toque de brisa.

54

Últimas Cores

A tua cor é luz
clara saudade de ti
branda presença.

55

Matizes Fractais
Breve livro de haikais
de
Eduardo Moura Tronconi
(2014)

- blog:
‘A Textura desse Abismo chamado Consciência’
www.texturadoabismo.blogspot.com.br
-contato:
emtronconi@hotmail.com

Brasil - Minas Gerais - Uberlândia
Verão de 2016

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“Viva como uma árvore que caminha!”

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