Invenção Noturna

Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

As ideias tardias me acodem na insônia

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

À minha mãe.
Para

inteligentíssima

Daniela,

a

paraplégica

garotinha
que

televisão

foi

à

exigir

dignidade.
Para V., R., Y., R. e M.,
nessa estrita ordem.
Para meu Gato.

2

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Nota do Autor
Todos os escritos, aqui, foram realizados do ano de
1998

até

anteriores
lamentável)

2012,
à

com

entrada
acordo

poucas
em

vigor

ortográfico

permanecem com a grafia original.

3

exceções.
do
da

Os

mais
língua

trabalhos
recente

(e

portuguesa

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Inquérito
Que mal fiz a você?
- Demonstrou ser seu amor
com intenso fervor
mais do que um bem-querer.
Como você agiu?
- Turvei teu coração,
junto a flores de abril
enviei-lhe solidão.
O que você falou?
- Nesses dias que vão
moral é exceção,
fui apenas o que eu sou.

4

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Passagens
Afogo-me em pesadelos,
não tenho cor, sexo ou idade.
Em espanto e desespero
acordo numa rua escura:
a arte deixa de ser arte
e transforma-se em loucura.

5

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Gatinho
Durmo por todo o dia
durante este verão,
pensando em alegria,
sentindo solidão.
Os animais fugiram
(não suportam o sol).
A única alegria
é a de um girassol.
O teto está rangendo,
mas nunca é um gato,
é só um gato falso:
é o sol de dezembro
pipocando o telhado.

6

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A visita da Bruxa
Fora uma bruxa irlandesa
Numa sexta-feira treze
Que atravessou com destreza
De minha casa as paredes.
Ordenei-lhe que fosse embora
Que voltasse para Irlanda
Ela disse que era hora
De dar adeus à esperança
E mergulhara meus sonhos
Na eternidade das trevas
E meu olhar sempre tristonho
Escureceu como a terra.
Dei adeus a meus tesouros
Joguei a esperança no poço
Vi meu corpo, dei-lhe socos
Não era espelho:
estava morto.

7

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Chat
Puí os lábios
E as pontas dos dedos
Nas teclas do teclado
Escrevendo
Tantos
“quero
tc
com vc
tb”

8

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A lua incandesce o céu
deixando tudo claro,
nós vagamos ao léu
qual loucos desnorteados.
Não sei se admiro o céu
ou o teu semblante claro,
esse olhar de lua ao léu
com ares desnorteados.
Voltaremos ao céu.
Tornando-se o dia claro,
nos acharão ao léu,
loucos e desnorteados.

9

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A brisa sopra
Vinda do mar
Vem de distante
Dum hemisfério
Para soprar
Em meus ouvidos
Algum mistério
Vindo do mar
Trazendo o nome
Duma condessa
Que vive triste
Em um castelo
Não mais espero
E vou atrás, firme
Desta condessa
Sabendo que
Nela verei
Minha Vanessa

10

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Riacho das Almas
(Brejo pernambucano)
Um cantador me contou...
Em um tempo de torrencial,
o tempo tremeu de cima
a baixo - disse o capiau
- e o agreste virou piscina.
A água levou ramagem,
pedra, gado e cemitério.
Quando baixou, ficou vargem
de lama, resto e mistério.
Quem era Riacho das Éguas
tremeu à força divina,
virou-se em Riacho das Almas
para ser cantado em rima.
...um cantador me contou.

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Ah!, querida, o verso está
comedido. Cinco anos de vida
postos no trabalho de um ano
em um haicai.
Tudo está pronto. O lirismo
juvenil foi contido e domado
- é mais difícil que domar
um verso bárbaro.
Olhe o arrebol! A noite
durará mil longos anos. Vamos
dormir e sairemos da cama
mortos, mortos de tanto
prazer.

12

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A masmorra era terrível,
com gritos e gemidos de defuntos.
Pelo jardim corriam mulas-sem-cabeça.
Três noites seguidas beijei a boca da bruxa
e ela selou meu destino com uma aliança de prata.

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Poema Onírico
À noite eles vêm, sorrateiros, para escrever suas memórias e novas experiências.
No cheiro de bolor, os cogumelos nascem incrustados em prateleiras.
E eu, inefavelmente atônito, contemplando a biblioteca dos mortos.

14

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Cachinhos Dourados
Cachinhos Dourados,
sempre muito esperta,
parou na floresta
pelos desatados
laços dos sapatos.
Cachinhos Dourados,
bastante apressada,
olhava avexada
pra todos os lados
temendo os assaltos.
Cachinhos Dourados,
sem perder mais tempo,
correu para dentro
do abraço apertado
de seu namorado.

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O grilo
Maldito som da insônia.
Algodão aos ouvidos é inútil.
Esmago dois em uma noite
(Quem terá dito que os grilos
São os poetas mortos?)
- sem nenhum remorso.

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O frete
À frente,
a dona da bunda
grande:
rebolando.
Atrás, um garoto
carregando um carrinho
com as compras
da dona
que
rebola.

17

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Terra cheia
Dois seios púberes pulsando
em minhas mãos.
Pequenas ruivas mulatas pardas
da janela de meu quarto, abraçados,
olhamos a terra cheia:
outro céu.

18

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Esqueci a paisagem do campo,
Seus lírios e relva.
O peso da noite
Caia sobre nós e eu não notei,
Fiquei atônito, olhando meu encanto
Refletindo-se em teus olhos.

19

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Eu não estou morto
ainda vivo em teu coração
e com a força de tua memória
arrancas-me do inferno para que possamos
passear no parque

20

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O Menino de Água
levantou da Lagoa
espalhando garoa
pela Serra Encantada
Próximo da Colina
tremendo seus joelhos
encolheu-se a Menina
tomada pelo medo
Mas o Menino de Água
olhando-a assustada
retornou à Lagoa
arrastando a garoa

21

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Poema-anúncio para afins
Casal realmente
de

boa

casado,

aparência

e

portador
de

nível

universitário, procura outros casais
para amizade e, havendo afinidade,
algo mais. Indispensável o uso de
preservativos. Ambos possuem idade
mediana.
Chapeuzinho & O Lobo

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Estou parado, absorto, sentindo
a poesia correr pelo corpo, pela alma,
rasgando a carne, esfacelando-a
em confetes multicoloridos pela alameda
da folha em que se escreve o poema.
Poesia está em tudo, num dia de sol
ou sombria numa paisagem de inverno.

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Provérbio escrito num pára-choque de caminhão
No silêncio da noite a população aumenta.

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Medo:
Esponja úmida
entalada na garganta.

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Poeminha politicamente incorreto
Eu era puta, suja, ladra e viciada.
Um dia, encontrei Jesus e lhe disse:
"Passa a carteira, mané!", ao que ele respondeu:
"Deixa pelo menos eu retirar os documentos.".
Eu poderia estar matando ou roubando,
mas estou aqui, orando.

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Domingo no ônibus
Ela sentou-se à minha frente.
O vento atirava-me
O cheiro de seus cabelos
E isto tornou a viagem mais agradável,
Muito mais agradável.

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Feira-livre
fruta do conde:
pinha
banana:
fruta do povo

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

A chuva inundava tudo
A chuva inundava tudo
Inundava as ruas
As casas dos desconhecidos
Inundava até a casa de Marla
E eu não podia fazer nada
A chuva despencava o ódio
Despencava o ódio sobre várias cabeças
A chuva inundava o país
Inundava até a casa de Marla
E eu não podia fazer nada
Enquanto a chuva me caia pensava
Estava com o pensamento em Marla
A chuva inundava tudo
A chuva despencava de minhas glândulas
A chuva era minhas lágrimas e suor
A chuva era sangue
A chuva inundava até a casa de Marla
E eu não podia fazer nada
Mas Marla poderia

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Garoto
O menino bicha levanta-se
cedo para ir ao colégio levar pau na prova.
A professora pergunta na chamada:
- Aluno bicha!?
Ele responde: “Presente!”.
Na hora do almoço, em casa, o pai pede
ao filho bicha que lhe passe a salada.
À noite o menino gay vai dormir sem escovar os dentes.

30

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Balada do desempregado
Tive mulher, tive carro,
frequentava vários clubes,
atualmente ando descalço
e da mulher levei um chute.
Da comida que comia
só me restara lembranças.
Ah, Deus, como eu queria
como antes encher a pança.
Quem sabe por esses anos
eu volte a ter minha vez.
Me mandam tomar no ânus
por não saber inglês.
Aprenderei outro idioma
e conhecerei informática.
Mas o que é isso, pombas?
É isso que me faz um nada?
(Escrito no ano de 1999.)

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Samba de Ana
Ana,
volta pra casa e diz que me ama.
Quero ver o café na mesa,
uma boca,
um sorriso
e pela janela a tristeza se esvaindo.
Volta pra casa e diz uma coisa bem simples,
Ana,
volta pra casa e diz que me ama.

32

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

A DE ASSÉDIO
A SUBSCRITO
A SUBALTERNO
A SUBALTERNA
E O ASSÉDIO

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Madrigal com corvos
De Trigal com Corvos de Van Gogh

Poderias ter sido minha esposa.
Sentaríamos à frente da TV e assistiríamos às ternuras de Jorge
e de Sandra, nossos filhos.
Porém, encontras-te morta no largo, e o teu sangue lava a calçada da
sordidez que ocorrera ontem à noite.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Campo
Sítio chuva silêncio suor silentes almas
O chocalho das
Palmeiras
Anuncia
A Orquestra Melancólica.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Por aqui caminhávamos.
O solo desgastara-se.
E nós também desgastáramo-nos.
E já não somos o nós de outrora
Que gostava de simplicidade.
O mato ralo da campina
Ficou impossibilitado
De registrar teus passos em marcas,
Apenas em Transcendência.

36

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Cartão de natal
Elisa, espere-me.
Breve, breve chegarei aí.
Acredite que ainda a amo, pois, além do amor não conhecer tempo
pretérito, vive eternamente na memória.
Abandonei o laboratório em bancarrota da Poesia e acho que me dei bem.
Não me deixe, querida.
Voltarei, escreverei um livro de auto-ajuda
e artigos esotéricos para algumas revistas.
Ganharei muito dinheiro e nos casaremos.

37

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A Boneca de Neve
é uma bailarina
que em sua eterna sina
dança, ama e se derrete.
No inverno está de volta
a Boneca de Neve,
repete-se a historia:
dança, ama e se derrete.
Novamente mal vive
e o coração se aquece!,
está cheia de paixão...
dança, ama e se derrete.
Bate rubro na neve,
pulsando, um coração
que pelo inverno volta
repetindo a historia
da Boneca de Neve:
amar e derreter.
É uma espécie estranha
- vive para morrer.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

E-mail
Oi, Vanessa!
Sei que no fundo
não escrevi
para
vc
: amor,
e
sim
para
jovem
paixão.
Peço
então
apenas
perdão.

39

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Rixa
O zona-matense riu
do agrestense
porque o
agreste
não tinha
restaurante japonês.

40

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Mata
mata afora
matafora
mata a fauna
mata a flora
mata fauna
mata flora
mata afora

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Poema melodramático
Um coração deverasmente enorme,
Capaz de sentir todos os sentime ntos
E pensamentos da cidade,
Afora pensamentos de Felicidade.
Então que Vanessa
Chega e vamos dormir.
Em paz dormimos, e a brisa silencia-se
Mais, mais e mais....

42

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Comentário na mercearia
A filha
De Zé Pedro
Era tão bonita
Ma’ tão bonita
Que até o fantasma
De finado Ciço
Se encantou
Por ela

43

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

o estandarte esplende
e inda pende em arte.
disparate entende
o que esplende à parte.
nosso canto espanta
a dor: lança. espanto
tem o santo: criança
cheia de dança e pranto.
anjo breu sem deus,
que deus meu, não breu
como teu olho ateu,
dê-me meu anjo deus.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Negra
Pelo corpo detalhado
A chuva
Cai
Dando voltas
curvas:
Invólucro de cristal,
Poço rico de betume.

45

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

O desamor a Eduardo
A turba vira escombros.
Sem o peso da vida
despencando sobre os ombros
a criança solta pipa
de bermuda e sandálias.
Eduardo ama Eulália.
A ave foge do ar,
esquiva-se folgado
ou em seu fado: voar.
Não há peixe na água.
Eulália corre a estrada.
Eduardo sente a perda,
o desprezo, mais nada.
“Sei que não posso tê-la!”
Ferrão de maribondo.
A turba vira escombros.
Sem o peso da vida
despencando sobre os ombros
a criança solta pipa
de bermuda e sandálias.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Poema cristão
Perdoa-me, Senhor Jesus Cristo,
pela vida vivida em vão,
por minha pobreza de espírito
e pelo meu frio coração:
de espinhos.
Mas, com a ausência de respostas,
voltei-me para falsas doutrinas
e segui sentindo nas costas
o açoite dessa minha sina:
de espinhos.
Mediante Tua ajuda, Senhor,
descobri as respostas na fé
e hoje erijo este louvor
em Teu Nome, que me põe em pé
nos espinhos.

47

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Tributação
Hoje vi uma menina que carrega o sol na ponta do nariz.
Se fadas existissem e sorrissem, ela sorriria como uma fada.
Com bochechas coradas, me manda beijos do colo do pai.
Claro que retribuo em cântaros a demonstração de afeto.
Beijos, querida, beijos para você.
Uma demonstração de existir merece retribuição nobre: estima e arte.

48

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Azul
Olhos verdes
verde-mar
mar azul
eterno
azul

49

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Empreitada
A um sobressalto de Deus,
Todos os anjos, assustados,
Puseram-se a elaborar
A arquitetura do espaço.
Estava pronto o trabalho:
As medidas das galáxias,
Texturas de nebulosas,
Tudo: peso, área e massa.
Com o despacho divino,
Iniciou-se a empreitada.
Os anjos, ébrios, porém,
Esqueceram-se de estradas.
Os anéis de saturno,
Por economia dos anjos,
Foram erguidos com gazes
E pareciam pântanos.
Ficara o sol acima
Da temperatura certa
E prejudicara o clima
Da graciosa Terra.
Deus, cansado, estorvou-se
E dera a todos os anjos
Instruções para deixar
As obras como estavam:
“Já serve para os humanos!”.

50

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Riachão
Tacaram vinagre
Nas feridas de Engraça
E ela saiu gritando
E gemendo de dor para lavar
A cara no riachão.

51

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Samba de Hélio
Hélio eletricista elevou-se no enleio
Da profissão
Subiu muros, andaimes
Sua vida e comoção
Mil átomos de dor, luta e energia
Vararam-no no coração
Os jornais do dia seguinte trouxeram a manchete:
P AI DE FAMÍLIA
POR AMOR À PROFISSÃO
MORRE ENGASGADO COM A PRÓPRIA LÍNGUA

52

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Produto
Enquanto os pomos
pecos da
criação caem no
outono,
o padeiro amassa
a pura e
verdadeira massa
que alimenta.

53

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Unidade
O amor acabou.
Mas amor não acaba.
Acaba sim, pergunte aos apaixonados.
Os apaixonados são neurastênicos.
E o amor é o quê?
Não sei. Mas conheci um suicida apaixonado.
Sei: tomou veneno de rato!?
Rato rima com apaixonado.
Morreu?
Não.
Uma coisa tão bela não deveria terminar assim.
Terminar é terminar.
Seria uma unidade mista.

54

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

O prefeito de minha cidade
O prefeito chegou e disse:
- Isto aqui é meu. Limpem o chão e ponham meu nome nas estrelas. Quero
o café com chantili e o licor Amarula sobre o frigobar. As secretárias bonitas,
quero-as aqui. Digam aos seus maridos que esperem o serão dormindo.
Mandem abrir contas na padaria e na boutique, pois minha mulher gosta
de roupas finas e é primeira dama.
Quero que o sol nasça ao meio-dia e se ponha após uma hora de brilho,
pois sou preguiçoso e durmo melhor no escuro. Desinfetem canetas e telefones:
sou hipocondríaco. Quero o busto de Iemanjá sobre a mesinha de café. Não se
esqueçam do chantili! Acendam velas para a Rainha do Mar. Glorifiquem mi nha
figuram três vezes ao dia e vamos administrar esta espelunca.

55

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Ciganos
Para Amanda e Luana, duas ciganas à toa no deserto.

Eles não eram bem-vindos. Chegaram num dia ensolarado sem derramar
uma gota de suor; levantaram dois galpões, inúmeras tendas e uma estrutura
piramidal na propriedade. As mulheres ganhavam dinheiro com serviços de
quiromancia prestados às donas ociosas de nossa comunidade, e os homens, em
sua maioria, com agricultura e comércio.
Minha família tratou de recolher porcos e galinhas que viviam livremente
no terreiro. Vovó bolou um truque - à noite, para escondermos algo valioso,
deveríamos engoli-lo; assim, antes de dormir, ela prendia, por um barbante, o
colar de ouro aos dentes e o engolia, mantendo-o na segurança do esôfago.
Os nômades não davam importância a olhares e comentários.

Um pintor cigano comprometia-se a comprar tinta e outros materiais
necessários ao seu oficio na mercearia de outro cigano. Este, por sua vez, sempre
que precisasse dos serviços de um pintor, o chamaria. Através de um conselho,
criavam e fiscalizavam regras.

Das esquisitices que víamos, o que mais chamou atenção foi a criação de
morcegos em uma mangueira. À noite, os mórbidos mamíferos saiam da farta
copa da árvore e sobrevoavam nossas casas. Nessa mesma época, o gado
começou a morrer.

56

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves
Na ânsia de escondermos pertences e vigiar os costumes dos estrangeiros,
entramos em bancarrota e vendemos as propriedades para eles, os únicos que
possuíam dinheiro para comprá-las.

57

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Dona Cândida
Dona Cândida brilhava. Mas um dia se cansou do brilho e da ingenuidade
e disse aos rapazes que estavam em sua casa: “Vão embora daqui e não voltem
mais, vão todos para suas casas”. Mandou as filhas vestirem saias. “Pronto, agora
tá todo mundo bem, com a graça divina”.
No dia seguinte, Dona Cândida surpreendeu de novo: serviu almoço sem
sobremesa, dizendo “Agora só vamos comer o básico”. Após três dias, na casa,
comiam-se apenas grãos, frutas e verduras. “Vamos cortar álcool e refrigerantes,
agora só beberemos água mineral e suco de frutas!”.
“Mamãe tá doida, coitada!”, disse a filha mais nova.
Dona Cândida nunca mais foi a mesma. Pôs uma placa de “aluga-se” em
sua casa e foi viver no mato, numa casinha de barro, onde também emplacou:
“AQUI NÃO MORA NINGUÉM”. As filhas, ela deixou na cidade, todas com a graça
divina.

58

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

João, o artesão
No primeiro dia, João catou os materiais. No segundo, fez lanternagem
nos metais amassados e lixou os tomados pela ferrugem. Cansado, o artesão
matou a sede no rio e sua imagem moveu-se sobre as águas, deixando-o em déjà
vu. No terceiro dia, João derreteu peças plásticas e as resfriou na fôrma,
moldando uma grande peça. No quarto dia, o artesão criou uma corda imensa
com sisal de redes e tapetes. No quinto dia, o artesão uniu metais à barra plástica
com auxílio da corda. No sexto dia, João se cansou e dormiu.

59

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Salomé
Havia mágoa por Herodias, mãe da encantadora Salomé, por saber que
João Batista reprovava sua união com Herodes, irmão de Felipe, se u ex-marido.
Sófocles, dramaturgo grego em ascensão, tomando conhecimento do caso, com
tino jornalístico se pôs a investigar os fatos. De suas observações e pesquisas
advieram diálogos que se seguem.

HERODIAS
Herodes, se me amas, atira fora a cabeça do que chamam de profeta, do
João Batista.

HERODES
Acaso lhe atendesse esse pedido, perderia meu posto. O Batista é amado
por muitos do povo.

HERODIAS
Então me deixa te pedir algo: peço-te que Salomé, fruto de meu ventre,
dance para teus convivas.
Herodes aceita o pedido e o palco de dança se arma. Começa novo ato.

HERODES
(Maravilhado, para Salomé.) Nunca ninguém dançou tão bem para mim.
Mereces um prêmio, o que desejares.
Salomé vai à sua mãe pedir conselho.

60

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

SALOMÉ
O que pedirei, Herodias?

HERODIAS
Pede a cabeça de João, o batista, numa bandeja.

SALOMÉ
(A Herodes.) Desejo a cabeça de João Batista numa bandeja.

Herodes acena aos soldados.
Após alguns instantes de expectativa, soldados trazem a cabeça de João
Batista em uma bandeja e a entregam a Salomé, que toca em seus lábios.

61

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Soneto sobre vida breve e amor eterno
Vivíamos como sacos de ossos.
Eu dizia: “Amanhã é expectativa;
nunca fiz, ou faço, tudo o que posso
e aguardo a morte com a minha vida”.
Não sabia como lhe dizer tudo
o que queria lhe dizer. Sem medo
de você, de morrer ou do escuro
passei a dizer, além de tudo, tudo.
Viver mil anos sem marcas na face
será pouco. Mas, se nada acabasse,
acabaria, qual tudo, por destino.
Mesmo após tudo acabar, e acabar-se
com tudo e até o tempo - tão mínimo
- o amor jamais conhecerá domínio.

62

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Haiku
Procuro dormir.
Inquieto, observo o teto:
recordo de ti.

63

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Para Y.D., mais justificativas
Nado porque voar é impossível
Corro porque parado é sofrível
Gozo porque deus é invisível
Acalmo-me pois o amanhã é imprevisível
Não durmo pois o sonho é inatingível
Espanto-me porque viver é incrível
Amo porque a paixão é fungível
Toco porque o físico é tangível
Tento porque tudo é corrigível
Insisto pois a experiência é factível
Recolho-me pois não sou indestrutível
Contenho-me pois sou movido a combustível
Contenho-me porque não sou imbatível
Cogito pois nem tudo é preferível
Ostento pois importa o indefectível
Apago pois nem tudo é imprimível
Calo porque nem tudo é exprimível

64

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Molly Ringwald
Quero a vida simples,
dos fins de tarde baunilha pela janela da sala,
com vinhetas televisivas ao fundo,
confundindo-se com o som do rádio.
As noites eternas e misteriosas.
O cheiro úmido da manhã,
novamente. Novamente.
Os domingos desperdiçados.
E todos os dias ao lado de minha garota de rosa choque.

65

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Lembranças de morrer
Ainda pensei nos coitados dos funcionários que limpariam toda a sujeira
de meu sangue e miolos no piso, deck e banheira. Depois, não me preocupei
porcaria alguma. Eles que se virassem. Nunca gostei desses mal educados que
atendem em hotéis e motéis. Nem de garçons. Nem de arrumadeiras. Nunca
gostei de meus vizinhos e colegas de trabalho; na verdade, de ninguém.

E o dono do motel que desse suas cambalhotas com a polícia e má
repercussão de meu suicídio. Sempre me cobraram uma fortuna naquele
pulgueiro. Desta vez eu daria prejuízo e um belo calote.

Jamais poderia estourar a cabeça em minha casa, sempre limpa, perto de
meus gatos e cachorro. Nem de minha mulher. A contribuição dela, para minha
morte, foi mínima. E sei que, mais à frente, ela morrerá mais sozinha do que eu
(assim espero!).

Em algum lugar distante, escondido, também não poderia me matar. Muito
menos dentro do carro, sempre bem cuidado. Sabia que sentiria um grande
momento de paz e conforto nos últimos momentos, e precisava aproveitar ao
máximo, como fiz. No escritório, nem pensar; com pessoas conhecidas, depois,
comentando como fiquei asqueroso com um baita rombo na cabeça?

Entrei na água. Relaxei. Tomei apenas três doses de vodca. Achei que
deveria deixar um pouco no copo, para a eternidade. A água estava no ponto

66

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves
certo: nem fria nem quente. Morna. Fechei os olhos e relaxei tanto. Nunca me
senti tão bem em toda a minha vida. Quase adormeci, antes de esticar a mão para
o lado, pegar o velho cano enferrujado e disparar contra a cabeça.

Bem na cabeça.

Emporcalhou tudo.

67

Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

O truque da espada
Tenho ressalvas quando comentam o truque da espada.
Você pode se machucar.
E é um truque indefinido.
Pode ser qualquer coisa: uma garota pode enfiar um punhal em seu peito
ou um fisiculturista de dois metros de altura pode levá-lo a um banheiro escuro e
fedido numa boate GLBT (...).
Por isso, cuidado com o truque da espada.
Você sempre pode se ferir com o truque da espada.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Cursinho
Na aula de português
o professor dá o bizu:
cu não tem acento,
assento é para cu.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Metáforas para Elisa
Encontrei definições para Elisa
Comparações
Metáforas.
Elisa nada tinha a ver com répteis ou portas
Elisa é como café frio e cerveja quente.
Elisa fria fria fria
indiferente.
Sangue quente nas veias.
Elisa humana Elisa.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Anfiguri
VOCÊ
VOCÊ
VOCÊ
VOCÊ
VOCÊ QUER?
VOCÊ QUER?
VOCÊ VOCÊ VOCÊ VOCÊ
VOCÊ QUER?
VOCÊ QUER? VOCÊ QUER?
VOCÊ
VOCÊ
VOCÊ
VOCÊ
VOCÊ QUER?

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Anfiguri:
entre o Maralto
e o Celestrelado
perdi-me,
oh, Grana,
homemau,
mulherinfiel.
Mundantigo!
Mentreguei ao abismo.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Padre Anchieta
Anchieta entregou
seus versos
às ondas do mar.
Marinheiro,
desiludido,
mergulhou atrás
- não podia mais amar.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

O padre e o caipira
- Cristo carregou sua cruz.
- Padre, me too.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

O Nome da Rosa
O nome dela é Rosa,
senta-se à minha frente,
estou admirando-a agora,
parece que ela nem sente.
Somos amigos de escola.
Ela, sempre sorridente,
caminhando cantarola;
veio do céu: um presente!
Será que ela não entende
que no meu peito aflora
o sintoma de um doente
que seu nome desabrocha?
Será que ela não nota,
por sentar à minha frente,
minha cara descontente
por ser cravo e ela, rosa?

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Tabacaria n.º 01
Há horas
em que tudo o que a gente quer
é fumar um cigarro
e tomar um café.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Tabacaria n.º 02
Um cigarro longo, com filtro, dura até cinco minutos.
Aprendi a fumar com Luísa. Ela fumou três carteiras por dia até ficar
cega, mas nunca teve câncer.
Francisca disse que eu não sabia abrir uma carteira de cigarros. E sua
amiga, Val, que eu não o segurava direito. Mas, ainda hoje, gosto de retirar todo
o celofane que envolve o maço: e o selo fiscal.
(Às vezes, ainda seguro o cigarro entre o indicador e o polegar.)
Aprendi que não tenho paladar para saber se o fluido de isqueiro altera o
sabor do fumo, bem como o gás butano. (Quase) nunca ando com caixa de
fósforos.
É certo que, para charutos e cigarrilhas, a melhor opção é o maçarico.
Também é certo que o alcatrão depositado em teus pulmões poderá matá-lo de
câncer.
Nunca comprei um isqueiro de mesa e não sei de ninguém que o tenha.
Para mim, uma tabacaria sem café é uma péssima escolha e os cigarros
de fumo negro em palha de milho sempre perdurarão – todos querem ser caubóis.
Nenhuma das garotas do deserto conhecem Fernando Pessoa, nem sabem
que ele escreveu um poema chamado Tabacaria. Todas elas fumam com muito
prazer, até próximo do filtro, fazendo um biquinho lindo para soltar a fumaça. De
morrer.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Doppelgänger
Às minhas costas, meu doppelgänger (ou nêmesis?): invisível.
Meus gatos saltam no sentido oposto à parede vazia: assustados.
Ele me acompanha: é toda a minha culpa que toma corpo.

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Cai o pano
não consigo criar
uma quadra infantil
que rime rosa com corda
algodão com balão
ai, isso aperta
o coração

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Invenção Noturna – Kleiton Gonçalves Bezerra Alves

Minha existência digital:
 http://kleitongoncalves.blogspot.com.br
 http://poesias-ilustradas.blogspot.com.br

kleiton.alves@bol.com.br

Sejam bem vindos ao visitar os sítios e fiquem à vontade
para enviar algum e-mail elogioso ou desaforado.

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