Amanda Caracciolo

Bloom Mais Feliz

_As Mãos de Júlia_
Como ganhei um diário, escrevi várias coisas
sobre várias coisas, conheci Bloom
e tornei-o mais feliz.

Quando ganhei um diário, escrevi sobre coisas que me agradam e também
sobre pessoas: meus amigos, que não são coisas e são bem mais queridos que
objetos. O diário ficou tão bom que resolvi mostrar a vocês e por isso fiz este livro,
o qual não posso me esquecer de dedicar a meus pais, avôs e bisavôs, bem como ao
meu gatinho, o Cheshire – do qual falarei para vocês, inclusive sobre a origem de
seu nome estranho – e, é claro, a Bloom, um grande amigo que enfeitou minhas
histórias com poemas bonitos.
Júlia

___I___

Oi, meu nome é Júlia, mas as pessoas me chamam de “Ju”. Ontem quebrei o
vaso de cristal de mamãe, então ela disse que minhas mãos só serviam para quebrar.
Não gostei quando ela disse isso e lhe falei meus sentimentos, dizendo: “Mamãe, não
gostei do que você disse”. Ela me deu um beijo na testa e passou as mãos compridas nos
meus cabelos, pois sabe que gosto quando fazem isso. Depois de muito tempo, ela veio
a mim e falou:
- Júlia, toma o presente que eu te comprei.
Era um diário bonito e elegante, com flores e animais na capa. Gostei bastante,
mas não entendi por que ela me dava aquele presente após eu lhe quebrar o vaso
predileto. Aí ela falou:
- Mostre que suas mãos não servem apenas para quebrar.
Foi quando compreendi: ela queria que eu escrevesse coisas naquele diário.
“Mamãe, o que escreverei?”, perguntei. E ela respondeu:
- Escreva coisas.
Seguirei seu conselho (quem sabe até ganhe mais presentes). A partir de agora,
escreverei sobre todas as coisas que me cercam, ou melhor: sobre quase todas as coisas.

MEU GATO

Meu gato não faz “miau”, mesmo assim gosto dele. Todas as manhãs, enquanto
como antes de ir à escola, ele bebe sua tigela de leite e fica se esfregando em minhas
pernas. Ele gosta de roçar nas pessoas, por isso é um gato. Mamãe diz que ele é um gato
danado; eu acho que ele é pintado, pois é cheio de pintas e também pinta o sete, ou seja:
ele bagunça muito; às vezes, mastiga os cadarços dos sapatos de papai. Papai não fala
nada porque foi ele quem me deu o gatinho - presente de aniversário. Bom, até aqui já
escrevi que meu gato é danado e pintado, porém, faltou dizer o nome dele. Meu gato
não tem nome. Quando quero chamá-lo, digo “bichano” ou “miau” e ele vem, bem
devagarzinho, abanando o rabo. Só tem uma coisa que eu ainda não entendi - quando
chega visita em casa e pergunta “qual o nome desse gatinho?”, papai responde: “É a
mascote da casa”. Será que o nome dele é “Mascote”?

MINHA MELHOR AMIGA

Minha melhor amiga é minha vizinha. Ela é um ano mais velha que eu e
estudamos na mesma escola, só que em salas diferentes. As pessoas dizem que somos
feito unha e carne, ou seja: não desgrudamos uma da outra; onde uma está, a outra está
também. Não gosto dessa comparação, por isso digo às pessoas: “Pessoas, não gosto
dessa comparação”. Agora, dizem que somos como irmãs, pois nos amamos e nos
protegemos. Quando lhe perguntam quem sou, ela diz: “Esta é minha melhor amiga”.
Quando me perguntam quem ela é, respondo: “Minha melhor amiga”. Sou sua amiga e
ela é minha amiga. Parece meio difícil de entender, mas sou dela tanto quanto ela é
minha. Isso não é bacana? As pessoas dizem que sim, e lhes digo: “Sim, nós duas somos
bacanas”.

___II___

Em uma semana, já escrevi quase metade do diário. Mostrei-o a mamãe e ela
ficou bastante feliz, pois, desde que o ganhei, ainda não quebrei nada. Mamãe falou que
minhas mãos agora só servem para construir porque, quando alguém escreve, ela está
construindo, da mesma maneira que um pedreiro ou um escultor. Papai diz que os
pedreiros são escultores populares, pois estão mais perto do povo. Ah, os pedreiros
também são muito úteis. Alguém já imaginou como seria a vida sem casas?
Antigamente, as pessoas viviam dentro de cavernas e casinhas de barro, pau e palha. O
arquiteto faz o desenho da casa e o pedreiro a constrói. Meu pai é arquiteto e desenha
muitas casas. Também vou ser arquiteta e me casar com um pedreiro, teremos filhos e
construiremos casas. É bom querer ser alguma coisa. Meu gato também é arquiteto - ele
arquiteta travessuras.

Acabei de mostrar meu diário à professora de redação e ela adorou. A
professora achou a ideia tão boa que mandou os pais de meus colegas comprarem
diários para eles; assim, eles escreveriam suas coisas. A ideia funcionou na escola.
Nunca mais apareceram carteiras quebradas ou riscadas. Parece até que estamos mais
comportados. Isso é muito bom, pois ganhamos mais presentes de nossos pais e boas
notas dos professores.
Se mantivermos nossas mãos ocupadas, não faremos besteiras com elas. Um
homem na televisão disse que a mão da criança é a mão do mundo. Achei isso bonito, e
meus colegas também acharam.

AS COISAS QUE EU MAIS GOSTO

Gosto de muitas coisas. Algumas grandes, outras pequenas. Na verdade, a
coisa que mais gosto é um anel que ganhei de vovó e dizem ser de ouro. Falam também
que o ouro é muito valioso, pois existe pouco dele no mundo, por isso mamãe não me
deixa usá-lo com frequência. Também gosto muito, muito, muito de música. A música
faz bem para o corpo e a mente - isso foi dito por um homem na televisão. Mas não a
ouço por causa disso, ouço porque gosto. Não sei por que gosto das coisas, só sei que
gosto. Adoro assistir a desenhos animados. Quem não gosta do Pernalonga e do PicaPau? Todos gostam, até meus pais. Mas bom mesmo é quando se juntam duas coisas
das quais gosto: música e desenho. Assisto a todos os episódios onde minhas
personagens favoritas cantam. Não posso deixar de falar de poesia, porque gosto de
poesia. Minha predileta é essa:
“Batatinha quando nasce
Se esparrama pelo chão,
Menininha enquanto dorme
Põe a mão no coração”.
Simples, não é? Mas elegante. Eu gosto de tanta coisa que não há espaço no
diário para colocá-las.

Papai disse que amanhã poderei usar o anel de ouro para ir a uma festa de
aniversário, estou felicíssima.

MINHA BONECA

Tenho uma boneca de pano e porcelana que trato como se fosse minha filha.
Cabeça, mãos e pés são de porcelana, por isso tenho cuidado para não se quebrar. O
restante do corpo é feito de pano e espuma, tudo coberto por cetim colorido. A boneca é
uma espanhola dançarina, roupas vermelhinhas como os morangos comprados por papai
no Natal. À noite, em meus sonhos, ela ganha vida e dança para mim. É muito bonito
vê-la rodopiando e fazendo som com as castanholas. Castanholas são instrumentos
musicais formados por duas peças de madeira presas aos dedos que, quando se chocam,
produzem um som gostoso de ser ouvido. Às vezes, mamãe me chama de espanholinha
castanhola. Gosto de apelidos carinhosos. Uma vez, no baile da escola, me fantasiei de
espanhola e dancei como a boneca me ensinou. Todos gostaram e sorriram. Tiraram
fotografias de mim e estou pensando em colar uma no diário.

VIAGEM À PRAIA

Viajei várias vezes à praia com meus pais. Gosto de ver as ondas virem e
retornarem, fazendo aquilo que alguns chamam de “ressaca”. Certa vez, quando eu era
bem pequenininha, queimei o pé em uma caravela-portuguesa, um bichinho transparente
e cheio de ar que, trazido pelas ondas, vem parar na areia. Arde muito, mas mamãe
trouxe pomada e passou na queimadura. Ainda fiquei um tempo com a mancha
vermelha, todavia a dor sumiu. É muito ruim sentir dor. A dor não deveria existir. Por
isso é bom tomar cuidado e não fazer estripulias. A praia aonde vou se chama Praia dos
Anjos, pois o vento faz um barulhinho tão bom que parece uma música vinda do céu.

Prefiro nadar no final da tarde, após as quatro horas, pois a água é morna e o
sol não prejudica a pele. Antes de voltar para casa, gosto de comer peixe grelhado.
Prefiro peixe porque nos deixa mais inteligentes.

MEU PÉ DE FEIJÃO

Sei pouca coisa sobre feijão. Sei que, em inglês, feijão se escreve “bean”. Há
vários tipos de feijão, tanto na feira quanto no supermercado vemos isso: feijão preto,
mulatinho, carioca, rajado, feijão branco e tantos outros. Sei também que existe um
escritor chamado Antônio Torres que escreveu uma história muito bonita chamada Por
Um Pé de Feijão. Na escola, a professora de ciências nos mandou plantar um pé de
feijão com algodão molhado. É simples: ponha um caroço de feijão - ou, como diz a
professora, uma semente de feijão - sobre o algodão molhado dentro de um pote. Pode
ser pote de qualquer coisa, desde que limpo. Em pouquíssimo tempo, o feijão cresce;
ou, como diz a professora, o feijão germina. Tenho meu pé de feijão, ele fica perto da
janela.

O ELEFANTE DE PEDRA

Na mesinha da sala de minha casa, há um elefante de pedra do qual mamãe
gosta muito. Um dia, esbarrei nele e quase o quebrei. Ele é maior que minha boneca de
pano e porcelana. À noite, em meus sonhos, ele visita a boneca e os dois vão à África
juntos (onde há muitos elefantes!). Acho perigoso minha boneca viajar de elefante à
África, então lhe disse: “Elefante, acho bastante perigoso você ir à África com a
espanholinha”. O elefante de pedra compreendeu e agora só a leva até a sorveteria em
frente de casa. Isso é bom, pois estripulias são perigosas. Meus pais sempre falam isso.

SENHORA ORQUÍDEA

Orquídeas são plantas ornamentais que dizem dar uma senhora flor. Diz-se
“ornamental” porque servem para decorar as casas e os consultórios médicos, ou seja:
orquídeas servem para ornamentar. A orquídea vive presa às outras plantas. Ela é tão
atraente e elegante que várias plantas querem ajudá-la. Já brotou uma flor de orquídea
aqui em casa. É realmente linda. Papai disse que, se existem fadas, essas flores são suas
casas.

MINHAS BRINCADEIRAS

De todas brincadeiras que conheço, minhas favoritas são: Pula-Sela, onde
alguém fica agachado, quase de cócoras, e o outro pula por cima; Queimada, onde dois
grupos ficam divididos por uma linha e tentam se acertar com uma bola; e BarraBandeira, onde a gente tenta pegar um pedaço de madeira - a barra - para por a bandeira
de nosso rei. Só que essa barra fica protegida pelos inimigos; aí, quando conseguimos
pegá-la, dizemos: “Seu Rei mandou dizer...”. Também gosto de Pega-Pega e EscondeEsconde, que às vezes chamamos por outros nomes.

MEU MELHOR AMIGO

Nesta página do diário, resolvi escrever sobre outra grande amizade: meu
colega de escola chamado Bloom.

Quando conheci Bloom, ele era muito triste, possuía cabeça grande e dois
olhos esbugalhados. Pouca coisa mudou: Bloom continua com a cabeça tão grande
quanto a lua e ainda tem dois olhos, embora não esteja mais triste.
A cabeça de Bloom é tão grande que, na escola, certa vez, o professor
conseguiu fazer um círculo perfeito na lousa, sem compasso, apenas seguindo os
contornos de sua cabeça. Blomm gostou e se sentiu útil como meu diário. Mas ele é útil
mesmo sem ajudar professores, pois é criativo e escreve muitas historias sobre sua
criatividade. Assim, por exemplo, escreveu uma bonita poesia sobre a matemática, pois
é bastante aplicado em álgebra e geometria. Um dia, ficou horas me explicando que a
geometria é o ramo da matemática que mede objetos, e isso o ajudou a medir o volume
de sua cabeça.

A MATEMÁTICA DE BLOOM
Um problema matemático
para que Bloom resolvesse
esperava-o no quadro,
resposta bem simples: 4.

Chegou a hora da tabuada,
depois de Lucas, sua vez,
sabia a de sete, oito e nove.
- O que caíra? - A de 6.

Agora vamos à álgebra!
Bloom mostrava-se nervoso,
estava em uma emboscada
decifrando a raiz quadrada.

Tornar Bloom mais feliz foi tarefa fácil: o incentivei a fazer o que mais gosta.
- Bloom, o que você gosta de fazer? – perguntei. Ele Respondeu: “Gosto de ir à
lua e de escrever poesia”.
Então eu disse:
- Ora, como ir à lua toma bastante tempo, você deveria escrever poesias para se
entreter; porque, quando fazemos o que gostamos, também nos divertimos.
Bloom respondeu:
- Isso mesmo. A partir de hoje, viajarei menos para o espaço e vou me dedicar
à poesia.
Bloom tinha muitas histórias sobre viagens que fez ao espaço, como quando
conheceu o Imperador de Saturno – um planeta cercado de anéis de fumaça que cheira a
doce. Não sei bem se possui este cheiro, mas acredito em Bloom e ele me falou isso.
Acredita-se que, em Saturno, há plantação de cacau; e, onde há cacau, há chocolate.
Ótimo lugar onde morar.

Foi assim que Bloom se tornou um grande poeta, que, na língua clássica e
elegante, chama-se bardo. Embora às vezes fale de boca cheia enquanto almoço, sou
elegante, por isso corrijo as pessoas que chamam Bloom de poeta, dizendo “Bloom não
é poeta, é bardo”.

Penso ter valido a pena dedicar tantas páginas do diário a Bloom, pois ele é
amigo para qualquer hora e seus poemas enfeitam minhas páginas. Além de escritor
bem sucedido, meu colega se tornou matemático de reconhecimento internacional, pois
ficou conhecido em países fora do nosso. Dizem que o melhor poema escrito por ele se
chama “Cachinhos Dourados”; e foi dedicado a mim, embora eu não tenha cachinhos
dourados.

CACHINHOS DOURADOS

Cachinhos Dourados,
sempre muito esperta,
parou na floresta
pelos desatados
laços dos sapatos.

Cachinhos Dourados,
bastante apressada,
olhava avexada
pra todos os lados
temendo os assaltos.

Cachinhos Dourados,
sem perder mais tempo,
correu para dentro
do abraço apertado
de seu namorado.

Há alguns dias, Bloom falou:
- Estou bastante feliz e não quero ser triste novamente, pois dá dor de cabeça e
fico zonzo.
Respondi:
- Então continue fazendo isto: sendo feliz.

___IV___

Terminei o diário. Mostrei-o a papai e ele disse que minhas mãos são de
veludo, por onde correm rios. Achei bonita essa frase e vou pô-la no próximo diário.
Claro que haverá um próximo, pois mamãe ficou tão contente por eu não ter quebrado
mais nada que me dará outro. Que bom! Sabia que eu ganharia mais presentes.
Não faltam novidades para por no novo diário. Meu gato fez “miau” e eu
descobri que mascote é um animal ou um objeto que serve para dar sorte. Pensei em
colocar nome no meu gato, as hipóteses eram: Garfield, Bola-de-Neve, Sherekan ou
Cheshire. Pus “Cheshire” porque é o nome do gato que aparece nas aventuras de Alice
no País das Maravilhas, uma boa história para se ler (quem a escreveu foi um professor
de matemática, mas a história é realmente muito boa). Desde que comecei a ler meu
diário para Cheshire, ele deixou de mastigar os cadarços dos sapatos de papai. Outra
novidade que não posso esquecer é que, além de feijão, também estou plantando milho
no quintal de casa, e já deu uma espiga grande e apetitosa que nós comemos no jantar.
Minha melhor amiga fez aniversário e está um ano mais velha. Também fiz aniversário
e estou um ano mais velha, mas ainda sou um ano mais jovem que ela. Há coisas que
nunca mudam (um homem disse isso na televisão). Eu mesma, por exemplo, sempre
serei um ano mais nova que minha melhor amiga. No entanto, há coisas que mudam,
como minhas mãos, por exemplo, que deixaram de quebrar.

Este diário acabou; quando o próximo estiver pronto, mostrarei a vocês.

_Aventuras no Espaço Sideral_
Como viajamos ao espaço sideral, desafiamos
um estranho Rei e retornamos para casa
sãos e salvos.

A brincadeira favorita de Júlia era ficar deitada, de papo pro ar, olhando o céu.
À noite, jurava ver discos voadores. Certa vez, disse ver um marciano do lado de fora da
espaçonave, consertando algo no para-brisa. Bloom, o melhor amigo de Júlia, não
acreditou nessa história, dizendo:

- Espaçonave não possui para-brisa. Possivelmente, o alienígena retirava um
pássaro do jato propulsor.

Bloom possuía bastante conhecimento acerca de extraterrestres, contando
histórias sobre viagens que fez ao espaço, onde, inclusive, conheceu o Imperador de
Saturno – um planeta cercado de anéis de fumaça cheirando a doce. “Não sei bem se
possui este cheiro, mas acredito em Bloom e ele me falou isso”, pensou Júlia. Acreditase que, em Saturno, há plantação de cacau; e, onde há cacau, há chocolate. Ótimo lugar
onde morar.

*** *** ***
*** ***

Mesmo sem chegar a um consenso acerca do que fazia o alienígena fora da
espaçonave, Júlia propôs: “Por que não vamos à Lua?”. Era uma boa ideia. Assim,
deitaram-se ambos de mãos dadas, e caíram em sono profundo.

*** *** ***
*** ***

Bloom, ao abrir os olhos, viu que não conseguiram pousar na Lua, mas, sim,
em Marte. Não sabiam como retornar de Marte, pois não levaram o mapa consigo. Júlia
ficou com medo. Bloom, como bom amigo que sempre foi, a acalmou. Bastaria
encontrar um marciano e pedir carona para casa. Mas, em Marte, havia marcianos?

Todo mundo sabe que, em um Universo tão vasto, há outras formas de vida.
Basta procurar.

*** *** ***
*** ***

Começaram as dúvidas: os pais de nossos aventureiros ficariam preocupados?
Acreditaram que sim, e com razão. Crianças não podem viajar sozinhas, principalmente
fora do planeta Terra.

*** *** ***
*** ***

O Universo era fantástico, tomado por estrelas liberando energia, sendo o Sol a
maior delas. Havia os misteriosos buracos negros, sugando tudo para dentro de sua
escuridão. Havia, ainda, nove planetas de nosso sistema. Marte é o quarto deste sistema
solar do qual fazemos parte; ou seja – a partir do Sol, Marte está na quarta posição.

Como pode algo ser tão grande quanto o Universo? O Universo teria fim? Na
vida, é certo que tudo tem fim. Mas, no Universo, não. Toda a parte do Universo que
não possui nada, a parte vazia, é chamada de espaço sideral. E ver o espaço sideral,
estando em Marte, era fantástico.

*** *** ***
*** ***
Júlia, inteligentíssima, lembrou-se do livro “O Pequeno Príncipe”, escrito por
um francês que, nas horas vagas, pilotava aviões de guerra. Ela pensou: “Os franceses
usam muito perfume porque tomam pouco banho?”. Mas Bloom, perspicaz, lembrou
também que o Pequeno Príncipe ficou perdido fora de seu planeta, e teve que encontrar
uma cobra para poder voltar. A cobra picou o principezinho do asteroide B-612 e, desta
forma, fez o seu espírito voar pelo universo.

Surgiu, então, outro problema: em Marte não havia cobras, e os lagartos
existentes possuíam dentes de javali e caldas de peixe. Lagartos como aqueles não eram
lagartos, nem serviam para nada além de amedrontar crianças marcianas.

*** *** ***
*** ***

Bloom já ouviu uma canção sobre táxi lunar, e pensou em telefonar para um.
Mas, como o nome dizia, táxi lunar somente atendia na Lua.

Júlia perguntou:

- São quantos quilômetros entre a Lua e Marte?

Bloom respondeu que, no universo, mediam-se distâncias em anos-luz. Anoluz é a distância que a luz – muito veloz, diga-se de passagem – leva para percorrer o
espaço. Certamente, o táxi cobraria um preço altíssimo.

*** *** ***
*** ***

Da mesma maneira que, no planeta Terra, cada país mantém uma
representação sua em outro país, assim também deveria ser entre planetas. Existiriam,
então, as embaixadas interplanetárias. Em Marte, havia Embaixadores do planeta Terra
para socorrer terráqueos em apuros?

Mas Júlia tinha uma dúvida:

- Bloom, o que é terráqueo?

- Terráqueo é habitante do planeta Terra, nosso planeta. Todos nós somos
terráqueos.

Pena não haver embaixada terráquea em Marte, mas somente representações
doutros planetas, como Saturno e Plutão.

*** *** ***
*** ***

Quando tudo parecia estar perdido, Bloom e Júlia foram encontrados por um
soldado do Exército de Marte. Ambos foram rendidos e levados à presença de Vossa
Majestade: o Rei de Marte.

O Rei de Marte deixava escorrer espuma venenosa pela boca, possuía pele
verde e olhos que lançavam fogo. Mas era bem distinto e vestia terno com gravata
borboleta, baforando charuto. Júlia ficou horrorizada quando o viu fumando, mas depois
compreendeu que combinava com sua roupa e acalmou-se. Certamente, o Rei era um
bobo que se preocupava com moda; não com a saúde.

*** *** ***
*** ***

O Rei, educadamente, perguntou:

- Como andam as coisas na Terra?

- Ah, muito bem, respondeu Bloom. Controlamos a inflação e a coleta de lixo é
seletiva. Separamos o lixo para reciclagem. Substituímos o uso de madeira por outro
material, limpo e produzido por nós mesmos; assim, não destruímos árvores. Os
veículos não utilizam mais combustíveis fósseis, como gasolina ou diesel. Tudo nos
trinques.

Júlia sabia que Bloom mentia, mas permaneceu calada. Afinal, a inflação ainda
aumentava preços de doces e de refrigerantes. E os carros poluíam o ar cada vez mais.

Repentinamente, numa mudança drástica de humor, o Rei verde gritou aos seus
soldados:

- CORTEM-LHES AS CABEÇAS! - E, logo após gritar alto dessa maneira,
completou, educadamente: “Desculpem-me, tenho ataques de poder desde que assumi a
presidência do trono marciano”.

Júlia disse:

- Se você não pedisse desculpas, acharia que era um terráqueo; pois, na Terra,
quem ocupa cargos aparentemente importantes infernizam nossas vidas sem desculparse.

Bloom perguntou:

- Majestade, você já leu o livro As Aventuras de Alice no País das
Maravilhas”?

O Rei respondeu:

- Sim. Desde então, contraí esse hábito de mandar decapitar as pessoas, como
se eu fosse a Rainha de Copas da história de Alice.

Enfim, tudo ficou esclarecido. O monarca sofria de devaneios próprios de
qualquer cargo importante, mas Bloom lhe disse:

- Majestade, você não é eterno.

*** *** ***
*** ***
“Se Reis comessem sapos, escaparíamos”, pensou Júlia. Mas teve uma
surpresa quando o Rei pediu o almoço e, no prato, era servido sapo. Sapo especial:
tempero suave, sal e pimenta, ligeiramente frigido em azeite de oliva puríssimo com um
pequeno cálice de vinho tinto. Júlia sorriu muito pela falta de bom senso, pois as carnes
brancas devem ser acompanhadas com vinho branco. Mal sabia ela que os sapos
marcianos possuíam carne vermelha.

Sobre o sapo frito, botões naturais de alcaparras e cogumelos brancos.
Acompanhava somente arroz com brócolis, pois todo mundo gosta de brócolis, mesmo
que ainda não saiba.

O Rei os convidou para o almoço. Ambos aceitaram, mas Júlia, teimosa, só
comeu o acompanhamento, pondo o sapo - prato principal - de lado. Bloom, para não
perder a oportunidade que lhe era oferecida – a de provar coisas novas – devorou todo o
seu sapo, e pediu mais.

Como Bloom e Júlia eram crianças, tomaram sangria - uma mistura de vinho e
água, com açúcar. Afinal: criança não deve ingerir álcool; e o vinho, embora doce, é
cheio dele.

Foi aí que Bloom explicou a Júlia:

- Quando a uva estraga, produz álcool. Chama-se fermentação.

Júlia teve, então, uma ideia. Ofereceu bastante suco de uva estragada ao
elegante Rei e, após ele passar mal, tentou convencê-lo a enviá-los de volta a casa. E de
graça!

Entretanto, o Rei de Marte era um esperto negociante. Mesmo tonto pelo
álcool da uva, cobrou-lhes as passagens. E eles não possuíam dinheiro.

*** *** ***
*** ***

Bloom e Júlia lembraram que, em filmes e livros antigos, os personagens
gostam de resolver os problemas jogando xadrez, um jogo muito antigo que,
possivelmente, foi inventado por algum indiano, país de gente muito habilidosa em
cálculos e preparação de temperos.

O Rei solicitou o tabuleiro e as pedras: peões, cavalos, bispos, torres, reis e
rainhas. A melhor saída é a curta com peão. Cautela nunca é demais. Bloom, com
habilidades matemáticas, sendo ótimo estrategista, anunciou xeque-mate em menos de
cinco jogadas. O Rei de Marte, perdedor, bufou, e pediu uma melhor de três – ou seja:
jogariam mais duas vezes, e quem fosse vencedor em dois jogos, seria o vencedor
definitivo. Bloom não aceitou:

- Isso é roubo, gritou Bloom.

Júlia também não se conformou, e, ao invés de chamar-lhe de rei, chamou-lhe
de príncipe.

O Rei, então, voltou atrás em sua ideia, e disse:

- Se querem voltar, não precisam de minha ajuda. Vocês estão cansados,
durmam. Depois, abram os olhos e sonharão que retornaram ao planeta Terra, assim
como sonham, agora, estarem aqui.

Era uma proposta meio estranha; porém, interessante. O importante, afinal, era
voltar ao planeta Terra sem por o espírito para voar, diferentemente do que fez o
Pequeno Príncipe, no livro do qual já falaram.

*** *** ***
*** ***

Despertando, Bloom e Júlia encontravam-se no planeta Terra. Foi uma viagem
longa, cansativa, mas acordaram bem dispostos. Seus pais nem notaram a escapulida,
achando que eles apenas dormiram durante toda a tarde.

Júlia perguntou:

- Bloom, nós sonhamos?

- Sim, Júlia, mas não sabemos se foi um sonho real.

*** *** ***
*** ***

No dia seguinte, próximo à cabeceira da cama de Bloom, havia um bilhete com
a seguinte mensagem: “Aguardo revanche no jogo de xadrez”.

Bloom recordou bastante a viagem, mas não em razão daquele bilhete. E disse
a si mesmo: “Como são saborosas as comidas nos sonhos?”.

Olá. Amanda Caracciolo é pseudônimo de Kleiton Gonçalves.
Esta obra encontra-se disponível em outras versões no blogue
http://poesias-ilustradas.blogspot.com.br.

E-mail para contato:

Abraço a todos e grato por baixar o livro.

kleiton.alves@bol.com.br.

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