Você está na página 1de 291

www.autoresespiritasclassicos.

com

Nogueira de Faria

O Trabalho dos Mortos


(Livro do João)

1921

O Ceticismo é a moléstia moral do século.


F. MYERS

Mas se o ceticismo vela entre nós, a necessidade de crer atrai-nos.


FLAMMARION

A ciência moderna analisou o mundo exterior; suas penetrações no


universo objetivo são profundas: isso
será sua honra e sua glória; mas nada sabe ainda do universo invisível e
do mundo interior. É esse império ilimitado que lhe resta conquistar. A
humanidade cansada de dogmas e das especulações sem
provas,mergulhou-se no materialismo ou na indiferença. Não há
salvação para o pensamento senão em uma doutrina baseada sobre a
experiência e o testemunho dos fatos.
LÉON DENIS
Fotografia de Raquel Figner
“A Ressurgida” cujo Espírito se materializou com admirável perfeição em 4 de
Maio de 1921.

Conteúdo resumido

Este é um repositório de provas concretas da sobrevivência da


alma, que expõe documentos divulgados na imprensa, ou
registrados em atas, referentes aos fenômenos mediúnicos
observados pelo Sr. Eurípedes Prado, obtidos graças à mediunidade
de sua esposa, Sra. Ana Prado. Reunindo preciosa documentação e
cerca de 50 ilustrações, o autor imprimiu aos seus relatos a
seriedade e o vigor científicos, tecendo-os, entretanto, numa
linguagem descritiva e acessível a todos.
A obra apresenta admiráveis sessões de materialização de
Espíritos recém-desencanados, registrados pela fotografia e pela
moldagem de membros em cera. Contém, ainda, depoimentos de
pessoas reconfortadas pelo reencontro com seus entes queridos, já
habitantes do plano espiritual.
Este trabalho tem como objetivo oferecer elementos de estudos
à Ciência, além de levar conforto aos que sofrem e esperança aos
que não crêem na imortalidade.

Sumário
Dedicatórias
Aos Espíritos de João e Anita
Aos Esposos Prado
Ao Maestro Ettore Bosio

PRIMEIRA PARTE
Aos que sofrem e aos que não crêem

Como e porquê
CAPÍTULO I

Os que figuram neste livro

- Os experimentadores
- Eurípedes Prado
- Maestro Ettore Bosio
- Os assistentes
- Doutor Porto de Oliveira
- Doutor Ferreira Lemos
- Doutor Jose Teixeira da Mata Bacelar
- Doutor Renato Chaves
- Doutor Virgilio de Mendonça
- João Alfredo de Mendonça
- Estáquio De Azevedo
- Os Espíritos. “O João”
- Magnífico Retrato de João
- Anita
- Um marujo
- Outros Espíritos
CAPÍTULO II
- As Primeiras manifestações
- Dos fenômenos
CAPÍTULO III
CAPÍTULO IV
- Sessão de 6 de Dezembro de 1919
CAPÍTULO V
- Sessão de 14 de Dezembro de 1919 - Um contratempo prejudica os
trabalhos
CAPÍTULO VI
CAPÍTULO VII
CAPÍTULO VIII
- A Segunda Ata
CAPÍTULO IX
- Sessão Realizada em 24 de Abril de 1920
CAPÍTULO X
- Sessão Realizada em 30 de Abril de 1920
CAPÍTULO XI
- Primeiras Experiências Fotográficas
- Fotografia a Magnésio
- Primeira Experiência
- Segunda Experiência
- Fenômenos Espíritas
- O Espiritismo em Belém
CAPÍTULO XII
- Ata da sessão espírita realizada na residência do Senhor Eurípedes
Prado, em 14 de junho de 1920

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO XIII
- O Clero em Cena - O Padre Florêncio Dubois
CAPÍTULO XIV
CAPÍTULO XV
- Ainda a Ofensiva do Senhor Florêncio Dubois
CAPÍTULO XVI
- A Recusa do Senhor Eurípedes e a nossa opinião
CAPÍTULO XVII
CAPÍTULO XVIII
CAPÍTULO XIX
CAPÍTULO XX
CAPÍTULO XXI
- Experiência culminante - O excesso de controle. - Aparato
desnecessário
CAPÍTULO XXII
- As Materializações do João
- Uma Palestra com o Doutor Porto de Oliveira
CAPÍTULO XXIII
CAPÍTULO XXIV
- Datiloscopia e Espiritismo
CAPÍTULO XXV
CAPÍTULO XXVI
- Chave de ouro - Sem ambages - Uma profissão de fé - mais um
papalvo - Salvo Seja
TRABALHOS EM PARAFINA
OUTROS FENÔMENOS
Escrita Direta
Comunicação
A paciência
Intervenção cirúrgica feita pelos espíritos

TERCEIRA PARTE

FOTOGRAFIAS
- A prova fotográfica
- Fotografia luminosa
- Fotografias esquisitas
- Fotografias obtidas de dia
- Início da fotografia espírita em pleno dia

QUARTA PARTE

- Cartas do Doutor Melo César e Jose J. Teixeira Marques


- As Materializações de Raquel
- Aos Corações Amantíssimos de Frederico Figner e D. Ester Figner
- As Materializações de Raquel - Um Depoimento Valioso
- Primeira sessão a 1 de maio de 1921
- Segunda sessão a 2 de maio de 1921
- Terceira sessão a 4 de maio de 1921
- Quarta sessão a 6 de maio de 1921
- Os sensacionais fenômenos espíritas
Nota final

Aos Espíritos de João e Anita

Os verdadeiros autores desta recolta, que é um


testemunho humilde mais sincero da vida de Além-túmulo –
verdade generosa e consoladora – mil vezes bendita, que
encerra o maio, mais belo e mais tocante apelo da
Misericórdia Divina aos amargurados e ingratos habitantes
da Terra.

Aos Esposos Prado

Pelo muito que sofremos e sofrem no desempenho da


tarefa elevada e santa de que foram investidos junto aos
homens por altos desígnios de Deus.
Caros amigos Maestro Ettore Bosio

A sua pessoa, especialmente á sua dedicação infatigável


e sem termo, deve a nossa causa à publicação deste volume.
Ele enfeixa documentos que melhor assim ficam do que
esparsos pelos jornais - É o depoimento espontâneo daquilo
que vimos juntos e juntos observaram. Os incrédulos
sorrirão, cheios de piedade. Os espíritos fortes zombarão.
Haverá até quem duvide da nossa sinceridade, na nossa
honra! Não importa. Não seriamos dignos de nós mesmos,
das graças imerecidas recebidas do Céu, se o respeito
humano nos impusesse silencio.
A uns e outros, do íntimo de minha alma, desejo o
conforto, o estimulo, a fé e a esperança que sentimos
ouvindo a palavra do Além e vendo seus abençoados
mensageiros

PRIMEIRA PARTE

Aos que sofrem e aos que não crêem

Como e Porquê

Os extraordinários fenômenos espíritas observados pelo


Senhor Eurípedes Prado, estimável cavalheiro e conceituado
comerciante em Belém do Pará, obtidos graças aos variados
dotes mediunímicos de sua esposa, despertaram-nos o desejo
de enfeixar, em volume, diversos documentos que lhes são
referentes - noticias da imprensa; atas, etc., para que não
ficasse inteiramente perdido o subsídio que tais experiências
poderiam trazer para essa formosa e simpática ciência que,
sob o nome de Psiquismo experimental e mais
modestamente chamada Espiritismo, aclara o horizonte dos
conhecimentos humanos, desconcertando as construções
orgulhosas da ciência oficial, confundindo as doutrinas
negativistas, alentando espíritos em que se fizera à noite do
cepticismo mais frio e prometendo uma nova era de
renascença religiosa, amparada pelo veredicto dos homens
mais cultos do mundo.
Não queremos nem devemos afastar da complexa
finalidade da fenomenologia espírita o lado filosófico-
religioso, como alguns entendem. Nisso estamos com Léon
Denis, mestre diletíssimo, a quem nossa alma deve as horas
mais agradáveis desta existência. Di-lo com franqueza e
superioridade o grande escritor: A primeira vista pode
parecer estranho ouvir dizer que a idéia de Deus representa
papel importante no estudo experimental, na observação dos
fatos espíritas. Notemos, primeiramente, que há tendência,
por parte de certos grupos, para dar ao Espiritismo caráter
sobremaneira experimental, para se entregar exclusivamente
ao estudo dos fenômenos, desprezando o que tem aspecto
filosófico; tendência a rejeitar tudo o que pode recordar, por
pouco que seja, as doutrinas do passado, para se limitar ao
terreno científico. Nesses meios, procura-se afastar a crença
e a afirmação de Deus como supérfluas, ou, pelo menos,
como sendo de demonstração impossível. Pensa-se, assim,
atrair os homens de ciência, os positivistas, os livre-
pensadores, todos aqueles que nutrem uma espécie de
aversão pelo sentimento religioso, por tudo que tem certa
aparência mística ou doutrinal. Por outro lado, desejar-se-ia
fazer do Espiritismo um ensino filosófico e moral, baseado
sobre fatos, ensino suscetível de substituir as velhas
doutrinas, os sistemas caducos e satisfazer ao grande número
de almas que buscarei antes de tudo consolações às suas
dores, uma filosofia simples, popular, que lhes dê repouso
nas tristezas da vida. De um lado como de outro há legiões a
satisfazer; muito mais até de um que de outro, porque a
multidão daqueles que lutam e sofrem excede de muito a dos
homens de estudo. A sustentar estas duas teses, vemos de
uma e de outra parte criaturas sinceras e convencidas a cujas
qualidades nos congratulamos em render homenagem. Por
quem optar? Em que sentido convirá orientar o Espiritismo
para assegurar a sua evolução? O resultado de nossas
pesquisas e de nossas observações nos leva a reconhecer que
a grandeza do Espiritismo, a influência que ele adquire sobre
as massas provêm, sobretudo, de sua doutrina; os fatos são
os fundamentos sobre que o edifício doutrinário se apóia.
Certamente que os alicerces representam papel essencial
em todo edifício; mas não é nas construções subterrâneas do
intelecto que o pensamento e a consciência podem achar
abrigo. A nossos olhos, a missão real do Espiritismo não é
somente esclarecer as inteligências por um conhecimento
mais próprio e mais completo das leis físicas do mundo; ela
consiste sobretudo em desenvolver a vida moral nos homens,
a vida moral que o Materialismo e o Espiritualismo têm
amesquinhado muito. Levantar os caracteres e fortificar as
consciências, tal é o papel capital do Espiritismo. Sob esse
ponto de vista, ele pode ser um remédio eficaz aos males que
assediam a sociedade contemporânea, remédio a esse
acréscimo inaudito de egoísmo e de paixões, que nos
arrastam. Julgamos dever exprimir, aqui, nossa inteira
convicção; não é fazendo do Espiritismo somente uma
ciência positiva, experimental; é iluminando o que nele há de
elevado, o que atrai o pensamento acima dos horizontes
estreitos, isto é, a idéia de Deus, o uso da prece, que se
facilitará a sua missão; ao contrário, concorrer-se-ia para o
tornar estéril, sem ação sobre o progresso das massas.
Decerto que ninguém mais do que nós admiramos as
conquistas da Ciência; sempre tivemos prazer em render
justiça aos esforços corajosos dos sábios que fazem recuar
cada dia os limites do desconhecido Mas a Ciência não é
tudo. Sem dúvida, ela tem contribuído para esclarecer a
Humanidade; entretanto, tem-se mostrado sempre impotente
para torná-la mais feliz e melhor. A grandeza do espírito
humano não consiste somente no conhecimento: ela está
também no ideal elevado. Não é a Ciência, mas o
sentimento, a fé, o entusiasmo que fizeram Joana d'Arc e
todas as grandes epopéias da História. Os enviados do Alto,
os grandes predestinados, os videntes, os profetas, não
escolheram como móvel a Ciência; escolheram a crença; eles
tocaram os corações. Todos vieram, a fim de impelir as
nações para Deus. “O Grande Enigma”, págs. 87- 89.
A transcrição de tais palavras do autor do “Depois da
Morte” defende a nossa maneira de encarar a Doutrina e
explica o porquê do método escolhido e desenvolvido neste
trabalho, especialmente no segundo volume, se Deus para
conceder vida para escrevê-lo.
Queremos que a nossa exposição siga linha paralela: ao
lado da observação científica, as considerações inspiradas
nos princípios gerais da Doutrina. Nos princípios gerais, sim,
por isso que sinceramente abominamos o Espiritismo de
feição sectária e partidária. O Espiritismo não é uma seita
nem uma religião.
Nada mais ingrato, nada mais incabível e injustificável,
do que esse ataque das várias crenças à filosofia espírita. E
má paga ao serviço providencial que esta lhes presta. De
alma aberta confessamos que ainda não conseguimos
compreender esse ódio implacável que as religiões votam
sem tréguas ao Espiritismo. Nos tempos que atravessamos,
de experimentalismo feroz, os fatos espíritas, usando, como
usam, do próprio método positivo preconizado pela ciência
oficial contemporânea, servem de prova irrefutável, à
imortalidade da alma, e, por conseqüência, à existência de
Deus. São questões essas, já uma vez o dissemos, que não se
podem desunir, A verdade está com o saudoso Farias Brito,
quando ensina: “o problema de Deus e o problema da alma
não são propriamente duas questões distintas, mas apenas
duas faces de uma só e mesma questão”.
Porque, pois, esse ódio inflexível, ódio de morte, tão
forte e cego, que leva os seus sacerdotes, ainda os mais
ilustrados, ainda os mais distintos, até a injúrias pungentes
contra aqueles que acreditam naquilo que a Igreja proclama
como verdades universais: a existência de Deus e a
imortalidade da alma?
Porque agredir tão sistematicamente uma doutrina cujos
princípios morais e cujos fatos têm provocado inúmeras
regenerações?
Porque não ser avisado como o velho Gamaliel: “se esta
obra vem dos homens, ela se desvanecerá; porém, se vem de
Deus, não podereis desfazê-la”.

*
Ainda menos podemos compreender essa intolerância
para com as outras religiões quando ela parte dos espíritas.
Nada mais reprovável do que isso, nada mais contrário ao
espírito liberal da doutrina kardecista. O Espiritismo de seita
estaria fatalmente condenado à morte. Sempre o repeliram os
seus maiores e mais ilustres mestres, desde Allan Kardec.
Léon Denis, sobretudo, é de uma insistência eloqüente
contra o espírito de seita. “Em realidade, no seu principio e
no seu fim, escreve o grande filósofo lionês, todas as crenças
são irmãs e convergem para um centro único. Como a
límpida fonte e o regato palrador vão finalmente juntar-se no
vasto mar, assim também Bramanismo, Budismo,
Cristianismo, Judaísmo e seus derivados, em suas formas
mais nobres e mais puras, poderiam unir-se em vasta síntese
e as suas preces, juntas às harmonias dos mundos,
converterem-se num hino universal de adoração e de amor.
lnspirando-me nesse sentimento de ecletismo espiritualista,
muitas vezes me sucedeu associar-me às orações de meus
irmãos das diferentes religiões. Assim, sem me apegar às
fórmulas em uso em semelhantes meios, pude orar com
fervor, tanto nas majestosas catedrais góticas, como nos
templos protestantes, nas sinagogas e até nas mesquitas.” (O
Mundo Invisível e a Guerra, página 76.)
Já o meu Espírito recebera idêntica lição de tolerância
religiosa nas páginas benditas do Depois da Morte: “O
verdadeiro iniciado sabia unir-se a todos e orar com todo..
Honrava Brama na índia, Osíris em Mênfis, Júpiter na
Olímpia, como perfeitas imagens da Potência Suprema,
diretora das almas e dos mundos. E assim que a verdadeira
religião se eleva acima de todas as crenças, e a nenhuma
maldiz.”
Gonzalez Soriano assim define o Espiritismo: “Não é
uma filosofia nem uma seita religiosa: é a filosofia da
Ciência, da Religião e da Moral, a síntese essencial dos
conhecimentos humanos, aplicada à investigação da
Verdade, a ciência das ciências.” E mais adiante: São seus
fundadores todos os homens de todas as épocas e de todas as
crenças que alcançaram o conhecimento de alguma verdade
incontestável, demonstrada pela Razão e nela Ciência. São
seus apóstolos os homens que hajam ensinado, ensinem ou
venham a ensinar a Verdade.
A nós, gire, antes de conhecer o Espiritismo, não nos
seduziam os estudos religiosos, exatamente pela eterna
guerra acesa entre as religiões, pela gana mútua, dos seus
sectários, tão contrária às lições daquele que dissera aos seus
discípulos a história encantadora, singela e tocante do Bom
Samaritano; a nós, que éramos indiferente a tais assuntos,
nos atraiu o lema kardecista: trabalho, solidariedade e
tolerância. E porque nos tivéssemos sentido sempre à
vontade, dentro dos princípios sem fronteiras do verdadeiro
ideal espírita, ficamos e cada vez mais sentimos a nossa fé
robustecida e confortada.
Não é de hoje, aliás, que nos empenhamos em dar
combate a certa tendência sectarista que às vezes se nota
entre os adeptos da Nova Revelação. Passado aquele natural
entusiasmo de neófito, quando o estudo e a reflexão
disciplinaram o deslumbramento e a alegria que nos causou a
Fé, mais de uma vez nos lançamos contra o Espiritismo
sectarista. De alma feita, em palestra pública, na União
Espírita Paraense, dissemos: Em nosso entender, errôneo,
talvez, mas desapaixonado e sincero, na guerra do clero
contra nós não vemos o nosso pior inimigo. Este anda mais
próximo: está em nosso próprio seio. Não nos referimos já
àquele mal, que não é pequeno, da ausência de experiência,
preparo intelectual e preparo moral de muitos de nós que nos
lançamos imprudentemente às sessões chamadas práticas.
Há, em nosso juízo, coisa mais grave. Devemos dizê-lo
francamente: às vezes nos assalta o receio de ver tão belo e
generosa Doutrina transformada em partido religioso, em
seita intolerante quanto às outras; vê-la transformada em
sistema de rígidos princípios, dentro de cujos limites,
inflexivelmente demarcados, permaneçam os seus adeptos e,
ao alto das fronteiras, em caracteres gigantescos: “Fora do
Espiritismo não há salvação.” Vale não esquecer a lição de
Claude Bernard: “Um dos maiores obstáculos na marcha
geral e livre dos conhecimentos humanos, é a tendência para
individualizá-los em sistemas. A sistematização é um
verdadeiro enquistamento científico - e toda parte enquistada
deixa de participar da vida desse organismo.”
Eram essas as palavras nossas em 1915. Não temos até
hoje motivo para modificá-las. Mais firmes até nos
encontramos em tais propósitos, porque cada vez mais
convictos estamos de que em toda religião o erro, este
apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos
Céus.
O Espiritismo, insiste o autor do “O Problema do Ser e
do Destino”, não dogmatiza; não é uma seita nem uma
ortodoxia. Não faz imposições de ordem alguma; propõe, e o
que propõe, apóia-o em provas; não exclui nenhuma crença,
mas eleva-se acima de todas elas numa fórmula mais vasta,
numa expressão mais elevada e extensa da verdade.
Resumindo: o fim capital do Espiritismo é todo moral e
científico: de um lado, reacender a fé no coração dos que a
perderam e dá-la aos que nunca a tenham possuído.
Fortalecer os caracteres, alevantá-los à altura de tarefas cada
vez mais úteis ao meio em que vivem, cada vez mais belas e
dignificamos. Criar almas sadias, fortes e nobres,
amparando-as nas lutas ásperas da adversidade e do
infortúnio, dando-lhes a fortaleza de ânimo que as doutrinas
negativistas fizeram esmorecer e destruíram.
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua
transformação moral e pelos esforços que faz para domar as
más inclinações, diz o evangelho kardecista. E assim é.
De outro lado, demonstrar que Ciência e Religião não
são forças opostas, mas irmãs e eternas. A Religião, adverte
Edouard Schuré, corresponde às necessidades do coração e
daí lhe vem a sua eterna magia; a Ciência às do espírito, e
isso lhe dá uma força invencível.
A renascença espiritualista, que desponta em todos os
recantos do Globo, mais veemente ainda após a Grande
Guerra, far-se-á pela mão da Ciência.
Quase todos os dias o neo-espiritualismo faz uma
conquista nas fileiras científicas. Testemunhos insuspeitos
surgem espontaneamente. A pouco e pouco as prevenções se
desfazem e intelectualidades como esse famoso Conan
Doyle, que é médico, não se desdenham de dar público
depoimento do que observaram e da transformação de suas
idéias e crenças. E bem uma verdade consoladora esta: “dia
virá em que todos os pequenos sistemas, acanhados e
envelhecidos, fundir-se-ão numa vasta. síntese, abrangendo
todos os reinos da idéia. Ciências, filosofias, religiões,
divididas hoje, reunir-se-ão na luz e será então a vida, o
esplendor do Espírito, o reinado do Conhecimento.”
Assim seja.

Mas, afinal, porque publicamos este livro? Já o dissemos


obedecemos a um duplo intuito: a) o de oferecer à Ciência
elementos de estudo; b) o de levar o conforto, a esperança e
a fé a muitas almas doloridas que a perderam. A propaganda
pelo fato é irrespondível.
Há dois meios, diz Léon Denis, para se adquirir a ciência
de além-túmulo: de um lado o estudo experimental, de outro
a intuição e o raciocínio, de que só as inteligências
exercitadas sabem e se podem utilizar. A experimentação é
preferida pela grande maioria dos nossos contemporâneos e
está mais de acordo com os hábitos do mundo ocidental, bem
pouco iniciado ainda no conhecimento dos secretos e
profundos cabedais da alma.
Os fenômenos físicos bem verificados têm para os
nossos sábios uma importância inigualável. Em muitos
homens a dúvida não pode cessar nem o pensamento
libertar-se do seu estado de torpor, senão a poder dos fatos.
Eis porque o publicamos e o dedicamos também aos que
sofrem e aos que não crêem. Uns e outros encontrarão nas
páginas deste livro abundante manancial, de consolação,
aqueles; de estudo e observação, estes. Praza a Deus que ele
consiga apaziguar o sofrimento de uma única alma e
despertar num só ânimo os encantamentos redentores da Fé.
Capítulo I

OS QUE FIGURAM NESTE LIVRO

Dividiremos em três secções este capítulo: 1) os


experimentadores; 2) alguns dos assistentes; 3) os Espíritos.

1) Os experimentadores - Toda a vez que os


intransigentes negadores do fenômeno espírita se encontram
face a face com provas tamanhas que a mais simples dúvida
importaria num atentado à verdade e ao bom senso; toda a
vez que se dá isso, batem em retirada, exclamando: é tudo
fraude! Não lhes suspende a pena nem lhes magoa a
consciência a lembrança e até a íntima convicção da
honorabilidade das pessoas envolvidas em tais estudos e
experiências. Sabem perfeitamente bem que estas jamais
viriam em particular ou de público vender ganga por ouro.
Contudo, o preconceito em alguns, o sectarismo em outros, a
leviandade e o orgulho na maior parte, como que lhes
produzem uma insânia moral tão forte, que espanta e lhes
fornece essa estranha coragem de acusar de fraudulento a
quem nem sequer conhecem.
Ora, assim sendo, naturalíssimo é que, antes que o mais,
deseje o leitor saber dos experimentadores e demais pessoas
que tomaram parte na investigação dos admiráveis
fenômenos relatados neste livro, quais as aptidões, cultura e
caráter dessas pessoas.

EURÍPEDES PRADO
A essa justa curiosidade responderemos: o Senhor
Eurípedes Prado é comerciante em Belém, abastado e
conceituadíssimo, pelas suas qualidades de espírito e de
coração, acatado e estimado no seio da sociedade belemense.
Quem ele é diremos por suas próprias palavras, quando
teve necessidade de vir à imprensa, em discussão amistosa
com o ilustre Doutor Porto de Oliveira, que atribuía e creio
que ainda hoje atribui os fenômenos a motivos hipnóticos.
Foram, então, dizeres do Senhor Eurípedes Prado:
“Os fenômenos observados em minha casa, no recesso
de meu lar; cercado de minha esposa e filhos, foram
franqueados, ao princípio, a um pequeno círculo de amigos.
Mais tarde esses amigos, naturalmente entusiasmados
pela novidade, começaram a pleitear o ingresso de outros, às
minhas experiências.
Relutei em aceder; porém, os pedidos foram tantos que
fui cedendo, até consentir na divulgação pela imprensa desta
cidade.
Poderão acusar-me de não esconder esses fenômenos?
Penso que só o criminoso se esconde, e na minha casa
nada se dava de clandestino.
Fiz com esses fatos, que parecem ser inéditos no Brasil,
o mesmo que fazem todos aqueles a quem se depara uma
coisa desconhecida na localidade em que vivem.
Bem sei que qualquer fato novo, destoante do
costumeiro, desperta comentários e crítica. Eu, porém, me
julgava a cavaleiro de qualquer suspeita, pois não tinha
interesse em propagar esses fatos. Nada usufruo
pecuniàriamente; os impressos às minhas experiências,
apesar de solicitados com empenho, não eram nem são
pagos. Nunca fiz convites, ninguém pode dizer que eu tenha
desejado esta ou aquela pessoa. Nada pretendo das pessoas
de destaque que assistiram às manifestações dos fenômenos.
Desafio que alguém diga o contrário.
Aos médicos e advogados que freqüentaram as nossas
sessões não solicitei seus serviços profissionais.
Os altos funcionários do Estado, membros do Superior
Tribunal de Justiça, lentes e deputados, advogados; juízes,
oficiais de Marinha, representantes do alto comércio e
grandes números de pessoas pertencentes a diversas
profissões, todos foram a minha casa, com prévia solicitação,
direta ou indiretamente, por intermédio de amigos comuns.
Essas pessoas podem vir declarar se as convidei e se
posteriormente lhes pedi alguns favor.
Qual o móvel, portanto, desse crime?
A mola do mundo, dizem, é o dinheiro; e esse fator não
passou pelas minhas mãos. As pessoas gradas que foram a
minha casa, não receberam, da minha parte, a menor
manifestação de engrossamento. Nada pretendo da política
nem da administração do Estado, nem das corporações, cujos
membros, em caráter particular, estiveram em minha casa.
Nada pretendo, nada quero, nem mesmo provar alguma
coisa a alguém. Não faço questão que Fulano acredite ou que
Sicrano deixe de acreditar.
Tenho minha vida econômica independente.
Comerciante, sócio de uma firma que dispõe de avultado
capital, que goza de incontestável crédito e que não tem
dívidas vencidas, nem encrencas no Acre, não preciso,
absolutamente, ele agradar este ou aquele para viver.
Havendo justiça, dispenso os favores.
Se o interesse não preside à suposta farsa, onde estaria,
pergunto de novo, n móvel ou a causa do crime?
Um desequilíbrio mental poderia justificar esse
disparate? Uma epidemia alucinatória poderia atingir a todos
os membros de minha família? Será possível que eu, que
posso gerir a minha casa comercial, que os meus filhos
maiores, que se formam este ano em Farmácia; que meu
cunhado, que é quintanista de Direito, estejamos alucinados?
Nesse caso, como admitir a inépcia de tanta gente que
tem freqüentado nossa casa, de tantas pessoas ilustradas se
deixando enganar por alguns doentes? (Gravura 1.)

Gravura 01
Da esquerda para a direita: 1) Srta. Antonina Prado (médium
psicográfica; 2) Eurípedes Prado; 3) Senhora (a médium); 4) Srta Alice
Prado; 5 Eratóstenes Prado.
Essas palavras encerram o desabafo justo, necessário,
indeclinável de um homem digno que se vê, de súbito,
acoimado de farsante, ele, que sempre fora o primeiro a
solicitar o exame rigoroso do fenômeno! Mas, não diremos
quem é ele, somente por suas palavras: os próprios
investigadores declaram a honestidade, o critério, o conceito
do chefe da família Prado, sempre solícito em atender as
exigências de controle que aqueles alvitravam. No intuito de
evitar ociosas repetições, porque encontraremos essas
referências adiante, citadas em ocasião mais oportuna,
deixaremos de transcrevê-las aqui.
Para que dizer mais? E convém reparar: quem acusou o
Senhor Prado como capaz de atos de fraude? Um sacerdote,
que, não obstante ilustrado e talentoso, será sempre, por
dever da profissão que abraçou, um implacável inimigo de
todos os princípios religiosos que não batam palmas à Igreja
de Roma.
Opondo-se às afirmativas gratuitas desse adversário
suspeito, é, entretanto, mercê de Deus, imenso o rol de
pessoas cuja austera idoneidade moral ninguém ousaria
contestar - e decerto menos falível do que a infalibilidade do
Papa - dogma que recebeu a sua primeira condenação do
verbo de Strossmayer, inspirado pelo Céu, no próprio
Concilio em que, por mal da Igreja, o decretaram.

MAESTRO ETTORE BOSIO


Gravura 2

Em poucas palavras: grande e modesto artista, forte e


excelente caráter. Grande e modesto artista, dissemos.
Ser-nos-á fácil prová-lo. Correm mundo os elogios
calorosos que mereceu de gênios musicais, como Martucci,
Carlos Gomes, Viana da Mota e outros.
Compositor exímio, seu temperamento e sua timidez o
afastaram das glórias autorais, que lhe estavam reservadas, a
julgar pelo início de sua carreira de artista, pelo êxito de seus
trabalhos de moço. Uma das suas mais apreciadas óperas,
quando ainda jovem, “O Duque de Vizeur”, libreto de
Pacheco Neto, conquistou aplausos dos mestres, a simpatia
dos críticos, a consagração das platéias.
Falem por nós testemunhos insuspeitos:
Em 22 de Junho de 1895, Carlos Gomes, o imortal
maestro nacional, escrevia ao empresário F. Brito, do Rio,
recomendando-lhe “O Duque de Vizeu”
“Amigo F. Brito.
O sentido destas linhas é especialmente para lhe
apresentar e recomendar muito vivamente o meu jovem
colega compositor E. Bosio, musicista de primeira ordem.
Ele é autor de uma ópera de assunto português muito
interessante: “O Duque de Vizeu”. Pelos trechos que eu ouvi
desse importante trabalho ao piano, reconheci em seu
egrégio autor as qualidades de operista distinto e conhecedor
do melodrama. moderno.
Carlos Gomes.”
E em 30 de Setembro de 1896 o grande pianista
português, José Viana da Mota, deste modo se referia ao
mesmo trabalho:
“Caro senhor e amigo Maestro Ettore Bosio.
Percorri com grande ingresse a sua ópera “O Duque de
Vizeu”, talvez a primeira ópera séria escrita em português.
Lisonjeia-me o seu pedido e exponho-lhe francamente a
minha opinião. Acho o seu trabalho sério. Revela um grande
sentimento dramático, a melodia é fácil, fluente e expressiva,
a.s situações com os caracteres estão bem definidos e
coloridos, o interesse mantém-se sempre pela distribuição
artística dos contrastes. A maneira como emprega alguns
motivos durante toda a peça é perfeitamente inspirada na
forma moderna da ópera. As vozes estão tratadas de maneira
a dar excelente ocasião aos cantores para brilharem
facilmente, a orquestra é discreta, transparente e bem
colorida.
Por isso creio que o seu “O Duque de Vizeu” produzirá
grande impressão a qualquer público que o ouça como já
aconteceu nesta cidade e desejo-lhe que o seu talento
continue a ser admirado igualmente em todos os lugares
onde se fizer ouvir.
Agradeço-lhe o prazer que me proporcionou e saudo-o
como seu amigo:
José Viana da Mota.”
Sobre essa ópera o crítico de arte da “A Província do
Pará,” o falecido literato Antônio Marques de Carvalho,
disse:
“O Duque de Vizeu” soube conquistar saliente lugar
entre as modernas composições; pelo menos se colocou igual
à “Cavalaria Rusticana”, de Pietro Mascagni e muitíssimo
acima de “Bug-Jargal”, do nosso co-provinciano Malcher.
Com efeito a música cheia e vigorosa de “O Duque de
Vizeu” não pode ter paridade com os efeitos fáceis, com os
“ritornelos” assimilados de outros maestros, que em não
pequena porção se encontram nas composições de que acima
falamos, apesar de serem ambas de merecimento conhecido.
São estas as composições do maestro Ettore Bosio, algumas
delas ainda inéditas
Operas melodramáticas - “I Vesperi”, em 2 atos; “La
Coppa d'Oro”, em 1 ato; “Ideale”, em 1 ato; “Seméle”, em 1
ato, o seu mais belo trabalho; “O Duque de Vizeu”, em 3
atos e “Alessandra”, em 3 atos e em preparação.
Trabalhos sinfônicos (para orquestra) – “Scherzo
Danza”; Prelúdio in Fá “Omaggio a Carlos Gomes”;
“Marcha Elegíaca Umberto I”; “A Taboca do Ceguinho”;
“Cena Pitoresca Brasileira”; “Nazareida”, poema sinfônico
em 3 partes: Círio, No Arraial e Idílio e Dança; “Andante
melancólico”.
Peças diversas - Um pequeno álbum com cinco peças
para piano; “Largo piangente” , para quinteto; “Vogando”,
barcarola para pequena orquestra; “A Pequenina”, texto em
português, para canto e orquestra; “Esser vorrei”; “Flor
da Morte” e “Addio”, romanzas para piano e canto; “Marcha
triunfal Augusto Montenegro”; “Estalidos”, galope para
orquestra e diversas marchas para bandas; “Olímpia”, valsa;
“Olímpia”, marcha solene, para orquestra; “Serenata
campestre”; “All' antica”, gavota; “Ricordo húngaro” e
“Samba do Costa.”, para sexteto e diversas outras.
Como crítico musical deixou renome na cidade mais
culta do Brasil: São Paulo. Vem de feição notar que, já há
esse tempo, embora muito moço, Ettore Bosio, nas suas
discussões de imprensa, jamais desceu a verrina, silenciando,
como devia silenciar, dignamente, aos excessos de
linguagem dos seus adversários.
Quando, há anos, em Pernambuco, informa-nos um dos
seus críticos, “numa polêmica renhida, com o cronista do
“Diário Popular”, Gonçalves Silva, polêmica em que Bosio
levou sempre a melhor, conquistou as simpatias pela sua
linguagem cortês e elevada, em contraste com o estilo
agressivo do seu competidor”. Nos artigos que o padre
Florêncio Dubois escreveu contra os fenômenos observados
pelo Senhor Eurípedes Prado, Bosio era impiedosamente
maltratado. Foi a sua maior vítima. Bosio, entretanto,
perfeitamente compenetrado do espírito da Doutrina, não deu
resposta alguma. O tempo, dizia a quem o interpelava sobre
o seu silêncio, responderá por mim. Mais tarde o Senhor
Dubois verá quem tem razão. Foi quem agiu mais de acordo
com os princípios que professava. E nada lhe quebrantou a
energia. Continuou a trabalhar como dantes.
Ao lado do artista; o homem de bem. Ninguém conhece
de Ettore Bosio senão atos louváveis. E se isso não bastasse,
embora seja o bastante, o ilustre artista está a salvo de
qualquer suspeita de conduta inspirada em interesses
subalternos e inconfessáveis, porque, graças ao seu labor
infatigável, conseguiu relativa abastança.
Ateu há bem pouco tempo, Ettore Bosio, assim que se
persuadiu, após as mais exigentes experiências, da vida de
além-túmulo, não teve a covardia moral de ocultar suas
novas convicções, não obstante os preconceitos intolerantes
da época. Bem ao contrário, sempre a disse e di-la sempre
em toda parte. Assim abre o seu belo livro “O que eu vi”
“Ateu, eu estava perfeitamente convencido de que a alma
era apenas a resultante do perfeito funcionamento cerebral
humano, cujo desaparecimento coincidiria com a extinção
vital do corpo.
A leitura da metafísica religioso, em lugar de me afastar
do ateísmo, veio consolidá-lo mais ainda, surpreendendo-me
bastante que sábios e teólogos edificassem a Grande Casa de
Deus sobre alicerces tão carecentes de fundamentos
científicos.
Procurei na Bíblia a prova da imortalidade da alma, mas
o efeito foi completamente negativo. As incongruências e
bizarras extravagâncias, para não dizer outra coisa, do Velho
Testamento, distanciaram-me ainda mais do caminho da
verdade.
Nas horas de hesitação, quando o espírito vacilava entre
pensamentos antagônicos, dizia eu comigo:
- Será, concebível a existência de Deus, se tudo o que
nós vemos é matéria? E se tudo é matéria, como é que
existem leis evidentemente inteligentes e variáveis de acordo
com a evolução desta? E se verdade é o infinito do Tempo,
do Espaço e da Matéria, porque não admitir também o da
nossa existência?
Tudo isto me passava com a rapidez do relâmpago, pela
imaginação, e para tudo isto eu procurava nestes momentos
de abandono espiritual uma solução racional, lógica e
aceitável.
Deram-me para, ler alguns livros espíritas, mas aí
também estava Deus, como eixo do seu grande mecanismo
religioso, e, até então, Deus, para mim, era palavra sem
significação.
Certos pontos, apenas, chamaram-me a atenção, nesta
leitura: os das manifestações dos Espíritos por meio dos
médiuns. Este para, mim suposto liame com ms habitantes
do Espaço, do mundo invisível, despertou-me, como era
natural, o desejo de conhecê-lo “de visu”. De fato, na noite
de 23 de Fevereiro de 1920, assisti, depois de reiterados
pedidos meus, na casa do Senhor Eurípedes Prado, ao
fenômeno espírita chamado materialização, sendo médium a
sua própria esposa.
A respeitabilidade da família, a sinceridade do ato, o
ambiente de honestidade e de absoluto desinteresse, tudo.
isso me convenceu de que o fenômeno era real, e, como tal,
assombroso! Vi-me então em presença, pela primeira vez, de
Espíritos materializados, demonstrando estes inteligência e
vontade próprias, independentemente do pensar dos
assistentes. Não havia mais dúvidas, eram eles os habitantes
do Além.
Procurei assistiu a novas manifestações dos Espíritos
para ratificar a minha opinião sobre o que tinha visto; o êxito
foi completo.
A alma era imortal, e, por conseguinte - Deus, Espírito
Perfeitíssimo, existia!
Eis como eu me tornei espírita.”

2) Os assistentes - Ser-nos-á impossível fazer uma


enumeração aproximada das pessoas que têm assistido aos
fenômenos mediúnicos produzidos pela Senhora Prado. Isso
teria, pelo menos, o mérito do número. Mas, na
impossibilidade de uma referência completa, mencionaremos
aquelas que mais de perto se interessam por eles. O que há
de mais elevado e culto na Capital do Pará foi atraído às
sessões do Senhor Eurípedes Prado. De memória, porque
apenas meias dúzias de atas foram lavradas, citaremos
algumas dessas pessoas, convindo observar que não
assistimos a todas as sessões:
- Drs. Lauro Sodré e João Coelho, ex-governadores do
Pará.
- Desembargadores Santos Estanislau Pessoa de
Vasconcelos, Anselmo Santiago, Napoleão Simões de
Oliveira, membros do Tribunal Superior de Justiça do
Estado.
- Doutor Inácio Xavier de Carvalho, Magistrado federal e
conhecido poeta e jornalista.
- Doutor Pio de Andrade Ramos, magistrado estadual.
- Doutor José Teixeira da Mata Bacelar, médico.
- Doutor Mata Bacelar Filho, médico.
- Doutor Antônio Porto de Oliveira, médico.
- Doutor Diógenes Ferreira de Lemos, médico.
- Doutor Jaime Aben-Athar, médico.
- Doutor Renato Chaves, médico.
- Doutor Juliano Pinheiro Sozinho, médico.
- Doutor Virgílio de Mendonça, médico.
- Doutor Ciríaco Gurjão, médico.
- Doutor Gurjão Sobrinho, médico.
- Doutor Auzier Bentes, médico.
- Doutor Pereira de Barros, médico.
- Doutor Pontes de Carvalho, médico.
- Doutor Gastou Vieira, médico legista.
- Doutor Amazonas de Figueiredo, advogado, lente na
Faculdade de Direito e diretor do Ginásio Pais de Carvalho.
- Doutor Morisson de Faria, advogado, lente substituto
na Faculdade de Direito.
- Doutor Severino Silva, advogado e conhecido homem
de letras.
- Coronel Apolinário Moreira, diretor da Fazenda
Pública.
- João Alfredo de Mendonça, jornalista.
- Eustáquio de Azevedo, jornalista e poeta, autor de
vários livros de valor, em prosa e verso.
- Doutor Antenor Cavalcante, advogado e jornalista.
- Doutor Gentil Norberto, engenheiro, chefe da Comissão
de Colonização do Oiapoque.
- Arquimimo Lima, agrimensor, chefe da 5º Secção da
Intendência Municipal.
- José Girard, pintor, artista de mérito e lente na Escola
Normal.
- Doutor Mastins Pinheiro, advogado e senador estadual.
- Doutor Justo Chermont, senador federal.
- Kouma Hourigoutchy, diplomata japonês.
- Angione Costa, jornalista e homem de letras.
- Doutor Pena e Costa, jornalista e promotor público.
- Coronel Simplício Costa, comerciante.
- Abel Costa, dentista.
- Pedro Batista, farmacêutico.
- Manoel Coimbra, diretor da Escola de Farmácia e lente
na Escola Normal.
- Manoel Barbosa Rodrigues, comerciante.
- João da Rocha Fernandes, comerciante.
- Antônio Albuquerque, comerciante.
- Manoel Tavares, comerciante, etc.
Destes, nós nos ocupamos particularmente, entre os
médicos, dos Drs. Porto de Oliveira, Ferreira de Lemos,
Renato Chaves, Virgílio de Mendonça e Mata Bacelar; entre
os jornalistas e homens de letras, dos Srs. João Alfredo de
Mendonça, Eustáquio de Azevedo, pelo papel mais ou
menos saliente que tomaram nas experiências.
Esta citação pessoal de nomes tem por intuito dizer aos
que nos lêem que não foram ignorantes nem imbecis aqueles
que freqüentaram as sessões Prado. Observaram e
verificaram o fenômeno. Não modificaram, por isso, suas
idéias. Atribuíram-no, em grande maioria, a outras causas,
menos à fraude. O Senhor Doutor Lauro Sodré, por exemplo,
cuja fidelidade aos princípios positivistas o País inteiro
conhece, depois de ter assistido a uma sessão, declarou:
“Não creio que haja aí uma intervenção de almas. São, a
meu ver, forças ainda desconhecidas. Mas o que repilo, pelos
meus sentimentos de justiça, é a idéia da fraude.”
Assim falam as almas nobres.
O Doutor João Coelho disse, sem receio do ridículo e de
anátemas, ter tido a impressão de reconhecer os traços
fisionômicos do Espírito, cuja mão apertou, fisionomia em
nada semelhante a qualquer dos presentes... Quem seria,
pois?

Não se recusaram esses homens a proclamar a veracidade


do fato. Porque a nossa questão é, no presente caso, uma
única: essa veracidade. Nada mais do que isso. Dêem a
explicação que entenderem e quiserem dar. Desde que se
iniciou a fase moderna das manifestações de além-túmulo,
com a “dança das mesas”, que os negativistas estabelecem
mil hipóteses para explicar os fenômenos espíritas - desde a
teoria do maravilhoso “músculo rangedor”, do Doutor
Schiff, teoria que Jobert de Lamballe desenvolveu, até as
hipóteses hipnóticas de hoje.
Cada vez mais vitoriosa, não obstante, a verdadeira causa
progride, avança, conquista adeptos, invade o mundo...
Vejamos, entretanto, qual a opinião do Senhor Doutor
Porto de Oliveira..

DOUTOR PORTO DE OLIVEIRA

Especialista em moléstias nervosas, foi um dos que mais


se interessaram pela explicação dos fenômenos. Fê-lo, aliás,
sempre lealmente, sem segundas intenções, sem atitudes
reservadas. Negou a causa sempre; nunca admitiu a fraude
consciente. Cremos que indica a hipnose como a origem do
fenômeno. E' o que se depreende de uma entrevista
concedida à “Folha do Norte”, publicada na edição de 22 de
Agosto de 1920.
Disse S.S.ª: “Na minha opinião trata-se de um transe
hipnótico a que é sujeita, possivelmente, a médium, por
alguém presente às sessões.” Infelizmente o ilustre alienista
não indicou esse alguém. Achou, decerto, que não deveria
fazê-lo. Foi um mal.

DOUTOR FERREIRA LEMOS

Oculista de fama em Belém, S.S.ª assistiu a umas quatro


ou cinco sessões. Em todas elas observou sempre friamente
o fenômeno, aparentando quase indiferença, dispensando,
por vezes, lugar na primeira fila dos assistentes. Mas,
notava-se, sob aquela aparência de quase pouco caso,
preocupação insistente de “penetrar o mistério”.
A alguém que lhe pediu, de uma feita, que examinasse a
grade, respondeu delicadamente: “Não. Tenho olhos de
lince.” Quase sempre, terminados os trabalhos, quando havia
experiência em parafina, S.S.ª, como por distração,
entretinha-se a fazer luvas de cera, reproduzindo o processo
do Espírito pondo a mão nua no balde de parafina derretida,
retirando-a para o de água fria, até que, obtida a luva, tentava
retirar a mão sem inutilizar-lhe o punho, o que não
conseguiu nunca. Será ocioso lembrar que, quando o ilustre
médico efetuava essas experiências, já a parafina estava
resfriada, acusando temperatura facilmente suportável.
Ainda hoje, estamos persuadidos de que S.S.ª não se
arriscaria a tentá-las no início das sessões, quando a parafina
fervia, à nossa vista, no balde sobre o fogo, inteiramente
liquefeita por uns cem graus de calor...
Outra circunstância apreciável: ao contrário da maioria
dos assistentes, S.S.ª quase nada examinava no começo das
sessões. S.S.ª demorava-se mais nesse exame quando findos
os trabalhos. Então, o jovem cientista examinava
detidamente a grade que durante a sessão permanecia
fechada a cadeado e lacrada. Casualmente, talvez, passeava o
olhar pelas paredes, pelo soalho, como quem procurasse
molas e alçapões. Mas, estamos certos, S.S.ª não atribuiu
nunca à fraude a produção dos fenômenos. Se assim fosse,
não teria assinado as atas que voluntariamente assinou.
Um dia, entretanto, propôs-se a mandar fazer, ele
mesmo, uma jaula inteiriça, toda de ferro, para ser utilizada
nas experiências. Houve quem pensasse, por isso, que S. S.ª
desconfiava da grade. Não bastavam o lacre, os timbres
especiais, as moedas colocadas sobre o lacre. Impunha-se a
grade. Conseguiu substituí-la pela “jaula”, na expressão
exata e feliz do Doutor Porto de Oliveira. (1)
(1) – Vide pág.144.
Enfim, o Doutor Ferreira de Lemos parecia aplicar aos
fenômenos espíritas a máxima de Floriano: confiar
desconfiando sempre...
Não foi em nosso entender - e que S.S.ª nos perdoe, se
pensamos mal, pois que nenhuma intenção temos de ofendê-
lo - não foi apenas o desejo de resolver o caso sob o ponto de
vista médico, se é que S.S.ª pensava tratar-se de um caso
médico, que inspirou a idéia da jaula. Outro intuito, talvez,
lhe determinasse a conduta: surpreender a fraude... Daí essa
idéia luminosa da jaula...
Não seria bem isso?
O certo é que até hoje não sabemos a sua opinião sobre o
caso. Apenas, quando entrevistado pelo “Estado do Pará”, o
jovem médico sentenciou: “Seja como for, a materialização é
um fato anormal.”

DOUTOR JOSE TEIXEIRA DA MATA BACELAR

Médico homeopata. Um dos caracteres mais austeros e


mais nobres de que temos tido notícia e conhecido. Tradição
de honra e bondade, o ilustre apóstolo da Ciência, mas da
verdadeira Ciência que se rende à evidência dos fatos, sem
preconceitos de infalibilidade nem mal entendidos orgulhos,
materialista convicto que era, não fugiu à profissão de fé
espírita, após a rigorosa observação dos fenômenos.
E essa mesma profissão de fé, que adiante publicamos, é
um testemunho eloqüente do seu elevado caráter.

DOUTOR RENATO CHAVES

O médico legista e clínico em Belém, diretor do Gabinete


de Identificação, junto à Polícia Civil. Um dia, falamos sobre
o assunto, que há esse tempo, em virtude da acalorada
discussão pela imprensa, era o assunto predileto de todas as
palestras. S.S.ª lembrou, então, como espada de Alexandre
para cortar o nó górdio das dúvidas e das polêmicas, as
fichas datiloscópicas. Aceitamos com entusiasmo o alvitre.
Dias depois o Doutor Chaves o tornava público pela “Folha
do Norte”.
Desde a primeira troca de idéia sobre o assunto,
entretanto, externamos sem reservas a nossa opinião, que até
hoje mantemos. Dissemos, então, ao Doutor Renato: “O
nosso entusiasmo por essa experiência nasce de que ela virá
fazer perfeita distinção entre os fenômenos anímicos e
espíritas. Não se admire, meu caro, se, alguma vez, a ficha
obtida for idêntica à da médium. E' possível o
desdobramento desta - e por conseguinte serão perfeitamente
iguais a ficha do fantasma da médium e a da médium. Mas,
ao lado destas, o meu amigo conseguira outras, totalmente
diferentes; isto é, as fichas dos Espíritos.” (2)
(2) Vide pág. 150.
O Doutor Renato Chaves, como o seu colega, Doutor
Porto de Oliveira, atribui o fenômeno a causas hipnóticas.
“O fato poderá, talvez, encontrar solução nos problemas
menos complexos e mais naturais do Hipnotismo” - disse o
diretor do Gabinete de Identificação do Pará, quando ouvido
pelos jornais.

DOUTOR VIRGILIO DE MENDONÇA

Clínico em Belém e senador do Estado. Nome político


conhecido em todo o País. Tem estudos de hipnotismo, à
observação do qual se dedicou desde os bancos acadêmicos.
Sua tese de doutoramento versou sobre tais manifestações,
sendo um dos rubricadores da chapa da fotografia, cuja
publicação causou tanto alarme entre os católicos. Ignoramos
se S. S.ª tem opinião feita e definitiva sobre a origem dos
mesmos. Parece-nos, entretanto, que após alguns exames,
minuciosos e serenos, ele os aceitou como manifestações
espíritas.
Efetuou inúmeros controles, sem contudo magoar os
sentimentos de honra da Família Prado, nem exceder-se
inconvenientemente em suas dúvidas e conseqüentes
medidas de exame e precauções. Por isso mesmo e pela
franqueza com que confessa as dificuldades da ciência
oficial para explicar o caso, o Espírito o chamava “o escudo
da médium”, quer dizer, a testemunha ocular e insuspeita de
tudo quanto se passava.

Dos demais médicos, muitos dos quais presenciaram


uma única experiência, não sabemos o que pensam. E' certo
que, ao menos aqueles a quem ouvimos, embora atribuindo o
fato a causas de feição materialista, a casos médicos,
repeliram nobremente a idéia. da fraude. E um gesto que os
honra.
São, por exemplo, palavras do Doutor Aben-Athar, tido
como um sábio entre seus pares: “Quais sejam as causas, não
sei. Os fatos aí estão por mim constatados. Toda idéia de
fraude é inconcebível.”
Apenas um, o Doutor Ciríaco Gurjão, afirmou, ao que
nos consta, tratar-se de fraude, sob o fundamento de que ele
apertara a mão de um ser humano, de uma pessoa
perfeitamente viva e não de um Espírito: S. S.ª esperava
encontrar a mão fria de um cadáver ou nada encontrar e...
estenderam-lhe a mão robusta, cheia de vida de... Espírito
materializado? Não acreditou, decretando a fraude. E'
anedótico, franqueza: a perfeição do fenômeno desperta a
incredulidade... Mas, seria mesmo a mão de uma pessoa
viva? (3) - De quem? Se o fenômeno consiste nisso mesmo.
Passemos adiante.
(3) Vide considerações de pág. 135 e seguintes.
O Doutor Gurjão Sobrinho, ao que ouvimos, participa da
opinião de seu ilustrado tio.

JOÃO ALFREDO DE MENDONÇA

E' da atual geração intelectual do Norte uma das figuras


mais simpáticas. Sereno, metódico, observador, de rara
capacidade de trabalhe. É, sobretudo, um jornalista, na
acepção integral do termo. O editorial austero e doutrinário;
a gazetilha, o suelto, a crônica, a notícia, todas as secções do
jornal não lhe guardam segredos. Modesto, modestíssimo, o
secretário da “Folha” tem um traço bem eloqüente de
caráter: detesta exibições. Além disso, raros tão francos e
leais.
Em sua casa, em conseqüência de fatos que a seguir se
narram, realizaram-se algumas sessões. Sua esposa, mãe,
irmãs e sobrinhas examinaram o vestuário e a “toilette” da
médium, quando a mesma ia trabalhar, da primeira à última
peça, sendo que - e é necessário que se frise - o vestido que a
médium usava nas sessões era remetido à família Mendonça,
muitas horas antes do início destas, com tempo bastante para
ser também examinado.
Como se verá adiante, do aposento em que se vestia, na
presença daquelas senhoras, a médium, até à grade, era
sempre acompanhada e também estava sob a vista de todos.
O Senhor João Alfredo de Mendonça seria incapaz de
consentir que sua esposa, por exemplo, se prestasse a
auxiliar “truques”, nem a distinta senhora a isso se prestaria.
Uma última informação: o Senhor João Alfredo de
Mendonça não é nem nunca foi espírita.

ESTÁQUIO DE AZEVEDO

Quem é que no mundo das letras, onde quer que se fale a


língua portuguesa, desconhece o nome de Jaques Rola?
Dos seus méritos como escritor e poeta o País inteiro dá
testemunho, através do aplauso com que a crítica recebe os
seus livros. Nenhum gênero literário lhe é estranho. Poeta e
prosador, excelente “conteur” e romancista. A crônica, o
verso, o teatro, devem-lhe numerosos e sempre louvados
trabalhos.
Do seu caráter justo, bom, direito, dirão aqueles que com
ele convivem. Não tem falhas. E fazemos questão de
salientar o feitio moral de todos esses homens para que o
leitor saiba que não se trata de criaturas levianas.
Eustáquio, que tem um patrimônio intelecto-moral tão
belo, não desdenhou vir a público dizer-se “papalvo”. (4)
(4) Vide pág. 162.

3) Os Espíritos. “O João” - Chamou-se em sua última


encarnação Felismino de Carvalho Rebelo, desencarnado há
uns vinte anos. Era tio da médium e possuía o caráter jovial
que de quando em quando trai em suas manifestações. E'
aliás um princípio comprovado da Doutrina Espírita: a
morte, simples retorno à vida normal, que é a do Espírito,
não melhora, só por só, o desenvolvimento intelectual e
moral do morto. O que se dá, tão somente, é que, estando
livre da influência, do jugo da matéria, a alma percebe
melhor, e melhor compreende os diversos problemas da vida,
da evolução eterna e progressiva dos seres, no seio da
Criação.
Várias são as passagens em que aparece o caráter jovial
desse Espírito. Ao lado dessa jovialidade, há a obstinação.
Voluntariosa até quase à teimosia, não deixou nunca de
enfrentar as dificuldades que o fenômeno, por este ou por
aquele motivo, apresentava. Quase sempre essas dificuldades
lhe vinham da hostilidade mental da maioria dos assistentes.
Não há que ser muito entendido em Espiritismo ou, se
quiserem, em Psiquismo, para saber a imensa influência que
sobre os fenômenos exerce essa força, poderosa por
excelência, que é o pensamento.
Absolutamente descrentes uns, persuadidos de mero caso
psicopatico outros, de atenção fixa sobre a médium, todos
esses perturbam os trabalhos, consciente ou
inconscientemente, quase inutilizando as experiências.
Sabemos que a materialização do fantasma é obtida pelo
poder de vontade dos Espíritos, bem assim as vestes que o
envolvem:
Para. os invisíveis o perispírito está como estaria para
nós o nosso próprio corpo, que vestimos como bem nos
apraz. Imaginemos que, no ato de compor o nosso trajo,
alguém venha impedir-nos de fazê-lo, tirando-nos esta ou
aquela peça, interrompendo-nos, enfim. Para consegui-lo,
teríamos muito maior dificuldade do que se o fizéssemos
sem aqueles obstáculos. E' o que se dá, temos razões para
acreditá-lo, salvo diferenças oriundas da própria natureza dos
casos, com os fenômenos de materialização. O Espírito, no
ato de agregar os fluidos que, para isso, consegue ir
“extraindo” da médium, recebe, como verdadeiras forças
dissociativas, as vibrações mentais dos assistentes tanto mais
eficazmente destruidoras do seu trabalho, quanto mais
cientemente manejadas. A isso atribuímos o fato, aliás
repetido, de João, especialmente nas suas primeiras
experiências, recomendar aos assistentes que palestrassem, o
que, às vezes, ele mesmo fazia, por intermédio de um outro
Espírito incorporado na Senhora Prado, no estado de transe.
Um exemplo de influência mental sobre os trabalhos: Na
sessão realizada a 15 de Dezembro de 1919, quando João se
esforçava por fazer moldes em parafina, o Espírito que
falava pela médium adormecida disse: “Um de vós pensa em
relação aos outros. Como são tolos! Tudo isto é o produto de
forças ainda desconhecidas que agem.”
E depois de uma pausa:
“E um incrédulo. E a corrente desses pensamentos
dificulta ainda mais a tarefa do João... (5)
(5) Vide pág. 60.
Quanto à palestra, deu-se isto: na sessão de 30 de
Setembro de 1919, em dado momento, como se notasse uma
certa impaciência dos assistentes, pelo fenômeno, que
demorava, o Espírito, que pela médium adormecida
conversava com o Doutor Virgílio de Mendonça, pediu que a
entretivessem. Esta solicitação levou aquele médico a
perguntar porque João preferia a conversa à concentração,
usada em casos tais.
- “Porque aquela distrai a vossa impaciência. Enquanto
conversais, João trabalha. Conversai.” (6)
(6) Vide pág. 54.
Mas, mesmo assim, sempre o fenômeno se realizou,
embora fracamente.
Nunca registramos “um verdadeiro desastre”. (7)
Certamente que não raras vezes as sessões deixavam a
desejar; mas, embora imperfeitamente, sempre se fazia
alguma coisa, devido principalmente à tenacidade
impressionante de João.
(7) Vide pág. 144.
Batizaram-no assim pelo fato de ter dado a sua primeira
manifestação na noite de 24 de Junho. Quando lhe souberam
o verdadeiro nome, conservaram aquele, mesmo porque
assim já se tornara de todos conhecido. (Gravuras 3 e 4.)

Gravura 3
Fotografia de João, quando vivo
Gravura 4
A Fotografia do seu Espírito

Contando-nos como obteve esta fotografia, escreveu


maestro Bosio no seu admirável livrinho “O que eu vi”:

“MAGNÍFICO RETRATO DE JOÃO

Um transe excelente

No dia 5 tínhamos combinado, eu e minha esposa e


conosco as filhas da médium, ir tomar passes na casa do
Senhor Bastos. Na volta, entramos todos em nossa casa para
conversar um pouco. Uma lembrança insistente sugeria-me
telefonar à Senhora Prado, mesmo sem ter assunto a tratar, o
que fiz, respondendo-me em voz agitada, ela mesma. Pedia-
me que mandasse incontinenti as filhas, visto sentir-se muito
mal.
A ocasião não podia ser mais própria para o caso. Fomos
depressa, encontrando a Senhora Prado agitadíssima e
chorando convulsivamente. Não perdi tempo; cortei o cordão
que prendia a tampa do chassis, abri-a e me coloquei no meu
lugar. As filhas acompanharam-na até à sala, sentando-a na
cadeira indicada pelo João.
O sinal não se fez esperar; dei a exposição necessária,
obtendo um resultado esplêndido como se pode verificar pela
fotografia abaixo. O motivo da comoção da médium foi ter
visto o próprio filho Eratóstenes no quarto de dormir,
achando-se este atualmente no Rio de Janeiro.
Durante o transe continuava ela soluçando fortemente. A
figura nitidíssima é do Espírito “João”, que em vida tinha o
nome de Felismino de Carvalho Rebelo.
Ao lado direito coloco o seu retrato quando encarnado, e
junto, à esquerda, o mesmo em Espírito. E notável a clareza
e nitidez da fotografia, a “pose” solene, o manto duplo,
estendendo o braço esquerdo que mal se vê segurando uma
parte da sua vestimenta espiritual. Na parte superior da
cabeça observa-se um arco fluídico e atrás uns panos
também fluídicos, envolvendo-a. Apenas uma pequena
diferença entre os dois retratos: é que o espiritual tem os
bigodes um pouco mais visíveis.”
Anita - Pouco tempo depois das materializações de João,
uma noite, inesperadamente surgiu do gabinete mediúnico
uma moça. Quem seria? Deu o nome de Anita, dizendo ter
sido florista em sua última encarnação. Dedicou-se
especialmente aos trabalhos de parafina, confeccionando
flores de admirável perfeição.
Dentro em pouco era familiar nossa e não raras deixou
cair entre as nossas a sua mãozinha mimosa e branda.
(Gravura 5)

Gravura 5
A Fotografia do Espírito de Anita
Narrando como obteve a sua fotografia, o nosso amigo
Bosio assim se expressa:

A FOTOGRAFIA DE ANITA

No dia 11, às 13 horas, um toque de telefone avisou-me


que era precisa a minha presença na casa da Senhora Prado.
Pensando que se tratasse de mais uma chapa, não perdi
tempo, fui. Chegando, soube que não se cogitava disto. O
João, tendo puxado o álbum, queria falar-nos.
Espírito (dirigindo-se a mim) - Dá-me esta chapa, pois
desejo fazer uma experiência. Conheço o organismo da
médium. Ela está abalada com o telegrama (8). Não tirem o
sofá dali, apenas as cadeiras. Quero ver se podemos
desmaterializar a madeira. (E dirigindo-se a Srta. Alice). Vá
tocar a minha música.
(8) - A Senhora Prado tinha recebido de Pernambuco, pela manhã, um
telegrama de seu esposo.
(O que o João chama a “minha música” é uma valsa
sentimental bastante inspirada e conhecida em Belém. Nas
sessões de materialização “João” pediu sempre a execução
ao piano, pela filha da médium, fosse para sensibilizá-la
ainda mais e facilitar assim o transe.)
Não perdi tempo. Retirei as cadeiras, abri o chassis e me
pus ao lado da máquina, atendendo o sinal convencionado
para abrir a objetiva. A médium sentou-se na cadeira ao lado
direito dela e a sua filha foi ao piano para a execução da
valsa pedida, pelo Espírito. Demorou bem uns 3 ou 4
minutos, para o sinal ser dado. Abri imediatamente a
objetiva, contei quatro tempos não longos, e a chapa ficou
impressionada.
A figura é de Anita, Espírito familiar que apareceu em
quase todas as sessões de materialização. Sabe-se que é ela,
porque o “João” o disse logo depois de impressionada a
chapa, por meio da faculdade auditiva da médium.
O Espírito colocou-se muito próximo à máquina, de
maneira que a parte inferior da figura ficou fora do quadro,
aparecendo por conseguinte de tamanho maior do que o
habitual das figuras fotografadas e bastante “flou”, usando a
terminologia fotográfica. Ajoelhada e vestida de branco, em
atitude de quem reza, deixa ver na cabeça uma espécie de
coroa ou diadema que seja, pouco nítido. O resto é bem
visível, tendo da boca para o peito um fluido branco como
que escondendo uma parte da fisionomia. Os traços do rosto
indicam formosura não comum.
Ao lado da imagem vê-se uma planta fluídica envolvida
em diversos fluidos esbranquiçados.
A figura é transparente e em certos pontos, como nas
mãos, distingue-se perfeitamente a armação do sofá que lhe
está atrás.

Um marujo - Após o aparecimento de Anita, surgiu um


Espírito vestido à maruja e que, desde logo, conquistou a
simpatia dos assistentes pela sua jovialidade. (Gravura 6.)
Gravura 6
A Fotografia do Espírito do Marujo

O maestro Bosio no-lo descreve assim: “No dia seguinte


(15 de Fevereiro), às 9 horas, novo chamado urgente pelo
telefone e novo trabalho fotográfico. Desta vez não houve
inconveniente algum. Impressionei duas chapas, tendo sido
apenas de 20 segundos o intervalo de uma para outra. Na
primeira se vê um menino vestido de colegial, de calças,
blusa e boné brancos, com o braço esquerdo sobre o peito e
com a mão na direção do queixo e o outro estendido ao
longo do corpo. Atrás dele é reproduzida a mesma imagem
em ponto maior. Abaixo do mesmo notam-se alguns pés de
diversas dimensões e o fundo do quadro é cheio de fluidos.
Supõe-se ser o fotografado o Espírito que foi alcunhado por
“marinheiro”, quando apareceu pela primeira vez na noite de
24 de Junho de 1920, em uma sessão realizada com a
presença de mais de 70 pessoas, na residência do Senhor
Eurípedes Prado, esposo da médium.”

Outros Espíritos - Ainda outros Espíritos se


manifestaram, mas na segunda fase dos fenômenos. Por isso
deixamos para lugar oportuno, já as fotografias, já a notícia
de como apareceram, para o que ainda nos serviremos das
descrições do nosso amigo Ettore Bosio.

Capítulo II

AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES

Dos fenômenos - Nós as descreveremos pelas próprias


palavras do Senhor Eurípedes Prado, extraídas de ligeiras
notas que S. S.ª consentiu em nos ceder de uma feita que, em
sua residência, conversávamos sobre esses insólitos
fenômenos de mediunismo.
Falava-nos ele da grande aversão sempre manifestada
por sua esposa, ao começo, em produzi-los, e acrescentou:
“Tenho até algumas notas sobre o caso.” E foi buscá-las,
lendo-as. Pedimos-lhes e, valha a verdade, que não foi pouco
o trabalho para consegui-las, já porque, alegava ele, tinham
sido grafadas “currente calamo”, já porque não desejava vê-
las publicadas. Deu-no-las, entretanto, constrangido pela
nossa impassível, quase inconveniente insistência.
O fato de terem sido escritas assim “currente calamo”,
até mesmo, a lápis, como o foram, dá-lhes ainda maior valor,
a nosso ver, porque indica apenas o propósito de registrá-las
para uso íntimo. E a verdade em toda a sua singeleza e por
isso mesmo mais impressionante.
Publicando-as hoje, concordamos em que é um abuso de
confiança que praticamos. Devemos também confessar que
não o fizemos sem hesitação. Mas seria justo guardar
conosco, ficar no conhecimento de meia dúzia, fatos que
poderão contribuir para a serena indagação de fenômenos tão
intimamente. ligados com o destino dos homens, com as
causas supremas da origem e da finalidade da nossa espécie?
Estamos sinceramente persuadido que não andamos mal.
Desgostaremos, talvez, um amigo, mas, insistimos, sabe
Deus a quantas almas este livro, estas notas não irão levar o
conforto e a esperança? Isso, pelo lado moral. Pelo lado
científico, tornamos a indagar: não iremos oferecer aos
doutos, aos que se ocupam com o magno estudo da
personalidade humana, novos dados para as suas abençoadas
pesquisas? Editando estas notas, colecionando as diversas
notícias da produção desses espantosos fenômenos, não
serviremos à causa da Verdade?
Não seria, além de tudo, insuportável covardia moral, a
nossa, abominável ingratidão, ter tudo isso ao alcance de
uma hora de trabalho e guardá-las e deixá-las morrer assim,
aquelas na gaveta do Senhor Prado e estas esparsas pelos
jornais?
Não! Não nos sentimos mal desatendendo ao pedido
deste amigo, como já desatendemos a Ettore Bosio (9).
(9) Eurípedes Prado e Ettore Bosio, mais aquele do que este, sempre foram
contrários à publicação feita por um de nós de qualquer folheto ou livro sobre os
fenômenos a que assistíramos a observáramos juntos.
Quando pela primeira vez a imprensa de Belém anunciou que um de nós trataria
do assunto, em volume titulado O Trabalho dos Mortos, o Senhor Eurípedes
discordou. Para não desgostá-lo, silenciamos. Tempos depois, Ettore Bosio trouxe-nos
uns apontamentos de observações pessoais suas, em relação a fotografias diurnas.
Aconselhamos-lhe a publicação em volume. A principio aceitou e preparou-as como
para imprimi-las, dando-lhes a feição de livro. Dias depois nos apareceu. Resolvera
não as publicar mais. Era um caso de observação inteiramente pessoal. Não tinha o
valor do controle. Receava sobretudo desagradar Eurípedes. Compreendemos. Era
este quem, ainda sob a impressão da mágoa que lhe causara a acusado de fraude, se
opunha ã publicação. Francamente: achamos inteiramente infundada e improcedente
a maneira de pensar daquele nosso amigo. E resolvemos, pela primeira vez,
desatendê-los. Solicitamos de Bosio reler os seus apontamentos.
E sem mesmo os reler, entregamo-los a Frederico Fígner, o abnegado Fred.
Fígner, que, no momento, se achava em Belém, aonde viera especialmente para
assistir aos fenômenos de materialização, pedindo-lhe que se encarregasse de, em
nosso nome, tratar da edição dos mesmos pela Federação Espírita Brasileira, no Rio
de Janeiro.
O livro do maestro Ettore Bosio narra apenas uma das fases de mediunidade da
Senhora Prado. Renasceu-nos ai o propósito de publicar em volume os documentos,
aliás já do domínio público, referentes aos conhecidos fenômenos. O livro não é,
portanto, escrito por nós. Consiste em mera coleta, nada mais. E' a narrativa simples,
fidelíssima, do que se passou. Porque não publicá-la?
É, para dizer tudo, um meio que encontramos para
creditar alguma coisa em nosso favor na grande, na imensa
dívida de gratidão que contraímos com o Espiritismo.
Eis as palavras do Senhor Eurípedes Prado, sem
alteração de uma vírgula:
Ainda na adolescência me preocupava com o problema
do nosso ser após a morte. Educado na religião católica, a
minha razão não se satisfazia com os seus ensinamentos. Eu
não podia conceber um Deus exclusivista, vingativo e
criador de entes destinados ao sofrimento eterno: ao inferno.
Os meus raciocínios me convenciam da existência de um ser
superior, erija essência o Catolicismo, no meu entender,
desvirtuava.
Casualmente chega às minhas mãos um livro de Kardec
“O Céu e o Inferno”. Li-o com sofreguidão e as idéias ali
expendidas foram por mim aceitas como uma revelação.
Adquiri outras obras sobre esse magno assunto e a teoria
espírita transformou-se na melhor hipótese para a solução do
problema religioso. Despreocupei-me, entretanto, de querer
desvendar o mistério da morte e tracei o meu itinerário
moral.
Mais tarde, casado e com filhos, notei que minhas idéias
tinham abalado a crença católica de minha esposa e que
meus dois filhos, já na adolescência, se inclinavam
assustadoramente para o materialismo. Procurei freqüentar
sessões espíritas e, veladamente, tentei levar às mesmas
minha mulher e filhos. Não consegui que a primeira me
acompanhasse, e os segundos, que às vezes o faziam, não
manifestavam o interesse esperado.
Minha esposa tinha alguma consideração pelo
Espiritismo, em homenagem ao nosso afeto; cheguei, porém,
à conclusão de que. nem ela nem os filhos partilhavam de
minhas idéias.
Conhecendo teoricamente os assombrosos fenômenos
chamados espíritas e tendo lido que o das mesas girantes era
bastante comum, tive a lembrança de fazer experiências.
Falei a alguns confrades. Estes, entretanto, satisfeitos com a
fé e com os fenômenos de incorporação, psicografia, etc.,
obtidos nos Grupos, julgavam desnecessário o das mesas
girantes. Declaravam-se contentes com a clareza meridiana
da Doutrina.
Não me conformei e iniciei, em família, as experiências
exigidas pelo meu temperamento. Reunia à noite, com
incertos intervalos de dias, dois dos meus trás filhos mais
velhos, ao redor de uma pequena mesa apropriada, na
expectativa de obter algum resultado. Minha esposa, sempre
convidada por mim, recusava tomar parte nessas
experiências, alegando ora incredulidade, ora o fato de o
filho menor querer dormir, etc.
E os dias se passavam sem que eu algo obtivesse. De
uma feita, um domingo, à tarde, fiz novo convite à minha
mulher que, apanhada assim de súbito por este, não
encontrou pretexto para se recusar. Estávamos à janela da
sala de visitas. Perto, uma mesinha de centro e sobre esta um
álbum de fotografias. Tiramo-lo e sentamo-nos colocando as
mãos sobre a mesa.
Passados alguns instantes fomos surpreendidos com um
estalido produzido na madeira da mesa. Minha esposa, cuja
incredulidade disfarçava para me ser agradável, recebeu um
grande susto com o fato inesperado e levantou-se muito
nervosa, indo para a janela. Insisti pela continuação das
experiências. Recusou-se terminantemente. À noite, voltei a
pedir-lhe, sendo afinal meus rogos ouvidos. Colocadas que
foram as mãos sobre a mesa - a pequena mesa de centro da
sala - o estalido não se fez esperar. Minha mulher, não
obstante o constrangimento do medo que sentia, acedeu aos
meus pedidos, deixando de retirar-se como pretendia fazê-lo,
repetindo a cena da manhã.
Eu, penalizado embora pela situação angustiosa que a
perturbava, persisti, vislumbrando já o fruto de minhas
perseverantes tentativas. Alguns momentos mais e um dos
pés da mesa levantou-se. Estupefação, pavor, crise de nervos
de minha esposa, foram às conseqüências imediatas.
Assustei-me, por minha vez, diante destas e comecei a sentir
o peso de uma responsabilidade tremenda, pois, se minha
mulher viesse a Sofrer qualquer abalo que lhe alterasse a
saúde, seria eu o único responsável, por minha teimosia.
A crise, felizmente passou, sem maus resultados, o que
me animou a continuar no dia seguinte as experiências tão
bruscamente interrompidas. Minha esposa, mais animada,
inda hesitante, porém, concordou em prosseguir, já com a
presença de nossos filhos mais velhos. O fenômeno, então,
evidenciou-se de modo pleno: a mesa levantou uma das
pernas, oscilou, dando algumas pancadas. Minha esposa
resistiu à crise e, assim, vencido este obstáculo,
prosseguimos em nossas experiências, até que a mesa, por
pancadas convencionadas, deu o nome de um nosso
conhecido, transmitindo-nos um pedido feito pela entidade
que se dizia manifestada.
Passados 6 ou 8 dias fomos surpreendidos por um
fenômeno insólito e inesperado: encontramos atirado ao
chão, no meio da sala, o álbum de fotografias ao qual já
aludimos e que permanece sempre sobre a mesa-centro.
Ficamos em dúvida: teria sido o meu filho menor, aliás
muito travesso, ou um fenômeno? Interrogado, o menino
negou.
Despreocupamo-nos desse fato e continuamos a trabalhar
com a pequena mesa, obtendo manifestações sem
importância. Uma noite, porém, o Espírito nosso conhecido
disse-nos inesperadamente: “Eu vi quem lançou o álbum ao
chão. Foi um “irmão” que passou por aqui.” (A palavra
“irmão” refere-se a outro Espírito.) Essa revelação foi para
mim de um efeito extraordinário: o fato de ser lançado ao
solo um objeto, por uma força desconhecida, era, para mim,
a probabilidade do êxito de nossas experiências!
Desta vez em diante nós nos dedicamos todas as noites a
esses trabalhos, com alternativas de êxito e fracasso,
recebendo manifestações sem importância por um lado,
porque as comunicações eram destituídas de valor
intelectual, mas, de outro lado, os efeitos físicos produzidos
na mesa aumentavam de intensidade, havendo ocasiões em
que eram suspensas do solo, outras em que se movia sem
contacto.
Prosseguiam, assim, os fenômenos, até que, em 24 de
Junho de 1918, por ocasião de uma experiência, violentos
abalos agitaram a mesa.
Minha esposa, que já se ia habituando às manifestações,
foi, de novo, possuída de pavor. A força que atuava sobre a
mesa, em vez de suspender a perna desse móvel e dar as
pancadas habituais, começou a imprimir-lhe rotações
violentas.
A custo conseguimos obter um ditado inteligível e
viemos a, saber por ele que o Espírito que se manifestava tão
insolitamente era o mesmo que tinha sacudido ao solo o
álbum de fotografias. Nada mais logramos alcançar nas
experiências dessa noite (24 de Junho de 1918). O certo é,
porém, que desde então o álbum não teve mais “sossego”
sobre a mesa referida, e, tantas vezes o atiraram ao solo, que
se inutilizou.
Essa entidade a quem demos o nome de “João”, em
homenagem à data de 24 de Junho, continuou a manifestar-
se. Ao começo sem ordem, sem método, até que se nos
afeiçoou e principiamos a trabalhar de acordo, com
designação de dia, hora, etc.
Era meia batalha vencida.
Além dos fenômenos da mesa, obtivemos remoções do
álbum de cima desta para as cadeiras, de lenços de sobre a
mesa para o solo e vice-versa.
Uma noite recebemos pela tiptologia o seguinte ditado:
“A médium deve concentrar-se, pois vou fazer uma
surpresa. Não tenham receio. A médium dormirá - mas
bastará tocar-lhe a fronte com um pano molhado que
despertará logo.”
Feita a obscuridade, a médium adormeceu e sem demora
uma pancada nos anunciava a realização da surpresa. Dando-
se luz, encontramos uma flor sobre a pequena mesa que
servia para receber as manifestações, uma flor transportada
do jardim.
Essa espécie de fenômenos, chamados de transporte,
repetiu-se freqüentemente, em crescente intensidade,
chegando a realizar-se, em uma sessão, o aparecimento, na
sala inteira e cuidadosamente fechada, de mais de vinte
flores.
Foi esse o começo dos fenômenos. Seguiram-se depois
as materializações em obscuridade plena, apenas
perceptíveis pelo tato, enquanto se ouvia a médium ressonar
ao lado, junto à fila dos assistentes; gradualmente, da
obscuridade plena, passou-se a uma luz muito tênue e de
materializações de membros esparsos - um braço, mãos, etc.
- ao aparecimento de vultos perfeitos e até ao
reconhecimento dós mesmos por parte de parentes.”

Capítulo III
Como vimos e tivemos ocasião de observar, a Senhora
Prado prestava-se a contra-gosto a realizarão dos fenômenos,
e o fazia somente para atender aos pedidos de seu esposo, a
quem vota a mais profunda estima.
Chegara, enfim, a nossa vez de assistir a uma das sessões
(28 de Setembro de 1919).
Além da família Prado, seis pessoas apenas: o Senador
Virgílio Mendonça, Doutor Giovanni Costa, Srs. Manoel
Barbosa Rodrigues, Manoel Batista, proprietário da
Farmácia Beirão, professora Elisabet Hammond e nós.
Ao começo, breve sessão na varanda, para a produção de
ligeiros fenômenos de contacto das mãos do Espírito, os
quais, em verdade, ficaram a perder de vista ante os demais.
Foram colocados, no aposento destinado às sessões, dois
baldes de zinco, um com parafina a ferver - e que estivera
sobre um fogareiro de álcool à nossa vista - e outro cheio
dágua, sendo ambos examinados pelos assistentes. Em
seguida mandou o Espírito encerrá-los em uma grade
(espécie de gaiola), recomendando que a pregassem bem ao
soalho, o que foi feito também à nossa vista.
Tudo assim preparado, apagou-se a luz e, dentro de cinco
minutos, via-se o primeiro núcleo branco de formação
fluídica destacar-se do fundo negro, pois a parede caiada fora
forrada de um pano preto. Em breve distinguia-se
perfeitamente o fantasma que se debruçava sobre a grade.
Interrogado, então, algumas vezes pelo senador Virgílio
de Mendonça, o Espírito disse que um outro habitante do
Invisível lhe responderia às perguntas, enquanto que ele se
empenhava na produção do fenômeno previamente
anunciado - a feitura de um molde de mão humana em
parafina -, e solicitou aos assistentes que se entretivessem
em palestra. Esta solicitação levou o senador Virgílio de
Mendonça a perguntar porque João preferia a palestra à
concentração usada em casos tais.
- Porque aquela distrai a vossa impaciência. Enquanto
conversais, João trabalha em paz. Conversai. - Respondeu.
De quando em quando ouvia-se, já o cuido da asa do
balde sacudida de um lado para outro, já o da água remexida
pelas mãos de alguém. Isto chamou a atenção daquele
senador que, levantando-se da cadeira em que se achava,
distante da gaiola. um metro, se tanto, tentou aproximar-se
mais ainda, de modo a observar melhor o que se passava.
Então, a voz clara do Espírito, pela médium adormecida,
lhe observou:
- Porque tentas perturbar o trabalho de João? Senta-te.
Não viste a grade ser pregada? Findos os trabalhos, peço-te
que tu mesmo a arranques.
E assim, enquanto João, auxiliado por outro fantasma,
trabalhava na confecção do molde em parafina, entre os
assistentes e esse outro invisível se travou animada,
freqüente conversa.
Seguramente hora e meia depois, o Espírito auxiliar
anunciou que João ia terminar a primeira parte dos trabalhos.
Uma campainha ficara próximo dos baldes, mas fora da
grade. Sentiu-se que esta era como que forçada. O Senhor
Eurípedes indagou a razão desse fato e a explicação não se
fez esperar.
- E' que colocaste a campainha longe da grade, distante
da médium, cuja emissão fluídica quase não atinge. João luta
com dificuldades para penetrá-la de fluidos bastantes, a fim
de fazê-la vibrar. Mas esperem. Ele é teimoso. Conseguirá.
Cinco minutos mais e o som vibrante da campainha
retiniu diversas vezes, alegremente, como anunciando a
vitória absoluta dos esforços do Espírito.
- João está satisfeito - disse o seu companheiro do Além -
eis porque a campainha soou tantas vezes. Cobri o rosto da
médium e abri as luzes.
Fêz-se isto e razão de sobra tinham o Espírito de João
para manifestar a sua imensa alegria: dentro da gaiola
pregada ao solo, os dois baldes; o de parafina vazio e, no
outro, um molde de mão humana com os dedos curvados e
um formoso ramalhete de rosas angélicas!!!
Simplesmente espantoso!

Capítulo IV

SESSÃO DE 6 DE DEZEMBRO DE 1919

Jornal da Tarde, de 9 de Dezembro de 1919

Sem preâmbulos nem comentários, exporemos os fatos,


fidelìssimamente, tal como se deram e o presentearam os
Srs. Doutor Amazonas de Figueiredo, diretor do Ginásio;
Assunção Santiago, administrador interino dos Correios, e
respectivas esposas; Doutor Virgílio de Mendonça, senador
estadual; Manoel Barbosa Rodrigues, comerciante; professor
Sílvio Nascimento, Pedro Batista, da Farmácia Beirão, um
cunhado e duas senhoritas, filhas do Senhor Prado, e nós.
Às 8 horas da noite, começou a sessão, tendo ficado a
médium no meio do círculo formado pelos assistentes.
Feita a obscuridade, o Espírito determinou fossem buscar
as flores deixadas na varanda e que as distribuíssem pelos
assistentes. Estes repararam na espécie de flores que lhes
coube. Apagaram-se as luzes. Logo, como que uma brisa
bem acentuada acariciou o rosto de todos. Era o sinal de que
os fenômenos começavam. Com efeito, daí a segundos
sentimos a mão de alguém - mão fina mas evidentemente
masculina - tocar nas nossas como que tateantes e quase
simultaneamente anunciaram igual contacto os Srs.
Eurípedes Prado, Doutor Amazonas de Figueiredo, minha
esposa, professora Elisabet e, finalmente, a assistência
inteira, com exceção da Senhora Amazonas de Figueiredo,
Assunção Santiago. e professor Sílvio Nascimento.
A seguir produziu o Espírito, que se dá pelo nome de
João, uma série interessantíssima de fenômenos, entre os
quais, num resumo, destacaremos os seguintes: troca de
flores entre os assistentes, sentindo-se bem distintamente as
mãos que retiravam e devolviam as flores, sendo de notar
que os ramos dos Srs. Amazonas de Figueiredo, Santiago e o
nosso, foram entregues às nossas respectivas esposas e vice-
versa, sem equívoco algum. A retirada de um lenço do bolso
do Senhor Doutor Amazonas de Figueiredo e sua imediata
restituição, num trançado de forma semelhante a uma pêra;
os lenços do Senhor Manoel Barbosa Rodrigues foram
transformados em pequenas e interessantes estatuetas, de
difícil formato. A troca de anéis: a aliança de minha esposa
foi-me entregue e em troca levaram-lhe a que me pertence. O
próprio Espírito no-las tirou e enfiou nos dedos. O anel do
Senhor Doutor Virgílio foi-nos trazido. Ã professora
Elisabet o Espírito retirou do colo a gravata e a bolsa, tendo
dado esta ao senador Virgílio de Mendonça e aquela ao
Senhor Barbosa Rodrigues, que teve também a sua aliança
oferecida a um dos assistentes. Ao Doutor Amazonas o
Espírito tentou arrancar a gravata e como o laço desta
estivesse bastante apertado, limitou-se a tirá-la de sob o
colete. Minha esposa ainda ficou por instantes sem um dos
sapatos, que nos trouxeram. João também retirou-lhe o leque
e pôs-se a vibrá-lo demoradamente, no ar, percorrendo o
circulo inteiro, ora elevando-o bastante alto, ora
aproximando-o do rosto dos presentes.

Todos esses fenômenos, porém, foram entremeados de


detalhes interessantes: - A esposa do Senhor Doutor
Amazonas mostrava-se algo receosa da aproximação do
Espírito. Este como que pressentia isso, de sorte que,
delicadamente, se não dirigia àquela distinta senhora. Seu
esposo, entretanto, observou o fato, e, como a Senhora
Amazonas tivesse dito que se não assustaria, ficou logo sem
o seu leque, que o Espírito, à maneira do que fizera antes,
vibrou demoradamente no ar, restituindo-o depois.
Mas, ao retirá-lo das mãos da Senhora Amazonas, fê-lo
tão delicadamente, que esta quase não sentiu contacto algum.
Desfeito assim o seu receio, João, então, acariciou-lhe as
mãos, retirando-lhe as flores e oferecendo-as ao seu digno
esposo.
A Senhora Santiago, meio assustada ao começo, também
teve entre as suas a mão veludosa de João, que lhe
demonstrou simpatia e afeto.
Ainda outros fatos e a nosso ver mais interessantes,
como prova indiscutível da Inteligência que ali agia
livremente. Assim, quando a Senhora Amazonas, utilizando-
se do seu próprio leque, produziu uma leve ondulação de ar,
o que alguém atribuiu ao Espírito, este, pela mesa,
imediatamente disse: E' o leque de nossa irmã Sinhá. Se
alguém produzia qualquer ruído, ele indicava quem era,
desfazendo assim possíveis equívocos. O Doutor Virgílio,
por exemplo, fez vibrar um pequeno elástico que lhe fora
entregue pelo Espírito e que retirara das mãos do Doutor
Amazonas. O nosso companheiro atribuiu esse fato ao
Invisível, e logo, pela mesa, veio à resposta: “Não fui eu mas
o irmão Virgílio.”
Pedimos a João que nos tirasse as lunetas e as levasse
àquele senador. O Espírito respondeu: “O Doutor Virgílio
não enxerga pelas lunetas da polícia...” - aludindo às nossas
funções. Entretanto, daí a momentos as lunetas eram
retiradas e, depois de serem mostradas a vários assistentes,
foram entregues àquele facultativo.
Ao no-lo restituir, João puxou-nos levemente a orelha
esquerda. De tudo o que se passou, porém, o mais
interessante foi: ao assentar-se o senador Virgílio, o Senhor
Eurípedes Prado colocara sob a cadeira dele, no chão, uma
campainha.
Aproveitando a escuridão, S. Ex. retirou-a, guardando-a.
João que, naturalmente, lhe surpreendeu o gesto, mandou
acender a luz e procurá-la. O Doutor Amazonas,
desconfiando que o Doutor Virgílio a tivesse num dos
bolsos, indagou, ao que S. Ex., sorrindo, respondeu: “Peçam
informações ao João.” Este reclamava que apagassem a luz
e, atendido, pela mesa, declarou que fora S. Ex. mesmo
quem guardara a campainha. Depois, como lhe pedissem.
para retirá-la de onde estava, atendeu-nos, vibrando-a
longamente no ar, dando-lhe corda, alteando-a e baixando-a
com rapidez, e, finalmente, pousando-a sobre a mesa, onde
continuou, então, a utilizá-la, em vez da mesa, para
conversar com os assistentes. Depois, sempre pela
campainha, pergunta: Querem ver-me? - e como os
assistentes dissessem que sim, seguiram-se os trabalhos de
materialização.
Estes foram idênticos aos que já temos assistido: viu-se
distintamente o Espírito atravessar por vezes o aposento,
ajoelhar-se, caminhar ao lado da médium, de sorte que se
distinguissem bem, inconfundivelmente, os dois vultos, etc.
Como sempre, rogou música, e desta vez pediu a uma das
filhas do Senhor Eurípedes, habituada já aos fenômenos e,
portanto, sem receio algum, para atravessar consigo o
aposento, ó que fez olhando como quem valsava. Ficando
novamente sozinho, entoou uma débil, suave, mas distinta
canção.

Todos esses fenômenos foram claramente produzidos e


com uma abundância. tal de detalhes imprevistos que seria
absurdo, injustificável e grosseira má fé admitir a
possibilidade de fraude.
Tendo o Senador Virgílio perguntado quando poderia ter
informações de um fenômeno pelo qual se interessa, João,
que nesse instante transportava as flores das mãos do Senhor
Sílvio Nascimento, respondeu-lhe
- Mais tarde. Agora estou ocupado.
Eis aí a narração fria, deficientíssima até, sem
pormenores, sem um exagero, do que se passou. Podem
confirmá-la os que lá estiveram conosco. Todos fizeram
as perguntas, os pedidos, às experiências que bem
entenderam e quiseram, sendo atendidos.

Capítulo V

SESSÃO DE 14 DE DEZEMBRO DE 1919

Um contratempo prejudica os trabalhos

Jornal da Tarde, de 1 de Dezembro de 1919

O Espírito de João prossegue sereno e impàvidamente


em seus trabalhos. Zombem os incrédulos e se irritem
injustificadamente os homens de má fé, o Espírito de João
continua na tarefa providencial que o Céu lhe deu, de abalar,
pelo fato, o ânimo daqueles cuja orientação positiva levou ao
ateísmo, ou inspira a indiferença para com tais problemas.
O sofrimento moral que de possível ataques advenha
para a médium, será largamente compensado pela satisfação
do dever cumprido.
Sábado último, novas experiências. Lentamente,
pacientemente, o Espírito se prepara para trabalhos de
importância, que só oportunamente será reconhecida.
Percebe-se um plano que se executa, que se desdobra aos
poucos, sob a orientação de uma inteligência clara, que sabe
o que quer e age como quer, conciliando elementos para um
desejado fim.
Aqui e ali um embaraço, um pequeno contratempo, mas
avante sempre. Anuncia o Espírito que a sua missão durará
ainda um ano, ao cabo do qual, estamos certos, produzirá
fenômenos que muito se aproximarão dos observados por
William Crookes e outros sábios de igual valor.
E senão vejamos: sábado último foi experimentada uma
pequena grade de metal, pregada ao solo, dentro da qual
foram colocados os baldes de parafina a ferver, ò de água
fria e uma campainha. Feita a obscuridade, começou o
Espírito a trabalhar, ouvindo-se distintamente o ruído da
água, como quem lava alguma coisa. Demorava, porém, o
fenômeno. Súbito outro Espírito falou pela médium
adormecida:
- Houve um incidente..João luta com dificuldades.
Conversai menos e auxiliai-o, orando.
Pouco depois, o próprio Espírito de João dizia:
- A parafina foi mal preparada. Por mais que faça não lhe
posso dar a consistência desejada.
Era sua intenção, declarou, oferecer uma bem feita mão
de cera ao Doutor Arquimimo Lima, que assistia à sessão.
Mas não estava contente.
- A mão sairá horrível - afirmou.
- Mas oferece-me flores; ficarei satisfeito.
- Essas já estão feitas - respondeu.
Soou demoradamente a campainha. Aberta a luz,
verificou-se, dentro do balde de água fria, a metade de uma
mão, em parafina, mas defeituosa, como o Espírito
anunciara, e duas flores, também de cera, estas, porém, bem
acabadas, perfeitas mesmo.
O Espírito convidou, então, os presentes para uma
próxima reunião, em que fará novas experiências, aliás de
muita importância, porque, além do mais, tentará isolar
completamente a médium, dentro de uma grade, operando e
fazendo-se ver do lado de fora, a alguma distância.

Esta sessão foi também entremeada de detalhes


interessantes. Cantaremos um apenas. Quando João ainda se
esforçava por fazer o molde em parafina, o Espírito que
falava, pela médium adormecida, disse:
- Um de vós pensa em relação aos outros: Como são
tolos! Tudo isto é o produto de forças ainda desconhecidas,
que agem...
E depois de uma pausa:
- E' um incrédulo. E a corrente desses pensamentos
dificultam ainda mais a tarefa de João...
Indagou, então, o Doutor Virgílio:
- Serei eu?
- Não. O meu irmão é o escudo da médium - respondeu o
Espírito.
Quis o Espírito dizer com isto que o testemunho
voluntário, franco, valioso do Senhor Doutor Virgílio de
Mendonça, que nenhum interesse possui em dizer isto por
aquilo, e que vem acompanhando os fenômenos com
interesse de homem de ciência, detém, a distância, aqueles
que em tudo encontram motivo de zombaria e pouco caso.
Havia necessidade de um homem assim, culto, e cujo critério
pairasse acima de quaisquer suspeitas, para, só por só, só
pelo seu nome, valer mais do que as alusões ferinas e
grosseiras de todos os levianos e intolerantes deste mundo.
Tomamos a nós, espontaneamente, a tarefa de ir dizendo
aos nossos leitores os sensacionais fenômenos produzidos
pelo Espírito de João, cuja missão é altamente humana:
derramar em torno de si, robustecida pelo fato, a crença em
Deus e na imortalidade da alma.
A própria dificuldade com que João lutou nessa sessão, a
imperfeição dos moldes em parafina, que produziu, tudo isso
é mais uma prova da veracidade indiscutível dos fenômenos.

Capítulo VI

O “Jornal da Tarde”, de 24 de Dezembro de 1919, que se


publicava nesta Capital (Belém do Pará), noticiou o seguinte:

“Acentuam-se cada vez mais, em nitidez e precisão, os


fenômenos espíritas, em cujas experiências, norteadas todas
pelos habitantes de Além-túmulo, se empenha o Senhor
Eurípedes grado.
Note-se bem que não se trata senão de experiências, cujo
resultado, é certo, se revela verdadeiramente animador. Mas
é preciso, ao lado da constância inteligente, cuidadoso estudo
do fenômeno e sereno critério para observá-lo.
Mesma entre nós se podem aplicar as palavras de Alfred
Erny, na sua excelente monografia “O Psiquismo
Experimental”: “São tão numerosos os fatos e tão sérios os
testemunhos, que cedo ou tarde a Ciência terá que se ocupar
deles. A nossa educação, as nossas idéias, os nossos
preconceitos, tudo nos afasta desses fenômenos que parecem
inverossímeis porque são pouco conhecidos.”
Entretanto, desde que nos achamos em face de tais fatos,
o nosso respeito pelo mundo, a nossa veneração pela rotina,
o nosso apego ao preconceito, não nos devem levar a uma
negação sistemática. Lembremo-nos de que as maiores
mentalidades da Terra se têm ocupado dos fatos espíritas e,
não raro, levadas pelo intuito de surpreendê-los em fraudes e
embustes, se renderam à evidência, fazendo sinceras
declarações de fé. E' que, como se diz nas “Memórias do
Padre Germano”, “os fatos entram no domínio das ciências
exatas, sua evidência inegável convence até aqueles que são
sistematicamente incrédulos”.
Convém, porém, ponderar que os fenômenos espíritas,
como todos os demais fenômenos, estão sujeitos a leis
especiais e que eles só gradualmente se desenvolvem-.
infringi-las é perturbá-los, impedir que se realizem, podem,
pelo menos, prejudicá-los bastante. As experiências de
William Crookes, que são as mais célebres do mundo,
começaram pela obscuridade mais intensa e terminaram
realizando-se em plena luz. Nada aí há de surpreendente.
Gesto imprudente, será, por exemplo, o do espectador
que, violando aquelas leis, queira, a título de prova, tocar o
corpo do Espírito.
Que lance mão de outras cautelas, de outros recursos
para que não seja ludibriado, mas não se utilize de um meio
que pode afetar gravemente a saúde do médium. Todos os
que têm um conhecimento rudimentar da matéria, e aliás isso
é facilmente compreensível, sabem que toda materialização
importa numa correspondente desmaterialização de qualquer
parte do corpo do médium, além dos fluidos exauridos dos
assistentes.
De sorte que apertar, premir o corpo que se materializa é
causar sofrimentos ao médium e até mesmo deformá-lo,
porque o seu perispírito, na parte desmaterializada, cujos
fluidos se encontram em relação com o Espírito que se
materializa, sofrerá, naturalmente, dolorosa impressão.
Observar como o Senhor Doutor Virgílio Mendonça o
vem fazendo: com excelente prudência e reserva, utilizando-
se de vários recursos de prova, inteligentemente feitos, sem,
porém, contrariar uma sequer das recomendações do
Espírito.
Médico, particularmente apaixonado pelos estudos
hipnóticos, sobre os quais versou a sua bela tese, S. Ex. vem
acompanhando tais fenômenos com a imparcialidade, o
sangue frio, a discrição do homem de Ciência. E ainda bem
que assim é, porque, sendo quem é, o Doutor Virgílio
Mendonça, ninguém terá o direito de, por muito que seja
homem de má fé, pôr em dúvida a sinceridade de S. Ex., que
interesse algum tem em semelhantes casos, a não ser o da
Ciência.
E àqueles que desejem tocar a forma materializada,
lembramos a palavra do Cristo quando se fez visível a Maria
Madalena - Não me toques. Era que há esse tempo à
condição especial do fenômeno não permitia oferecer-se às
rudes provas da curiosa incredulidade de seus próprios
discípulos, como veio a suceder tempos depois, quando
mandou que São Tomé lhe tocasse as feridas. O Espírito de
Katie King que iniciou a sua materialização em plena
obscuridade e sem ser tocada pelos assistentes, terminou
conversando com eles, sendo pesada e até dando a examinar
as suas pulsações e o ritmo do seu próprio coração! Assim se
dará com o Espírito de João. A pouco e pouco, suas
experiências se acentuarão, o desenvolvimento da médium
irá sendo maior, até que venha a surgir-nos em plena luz,
para confusão daqueles que tão teimosamente querem negar
a existência de fenômenos e fatos já constatados pela
Ciência.
Feito esse intróito que julgamos necessário, passemos à
narração fiel, fidelíssima dos fatos.
Às 8 horas, presentes várias senhoras e cavalheiros, entre
os quais os Drs. Arquimimo Lima, Pena e Costa,
Virgílio:Mendonça, Barbosa Rodrigues, Pedro Batista e
Nogueira de Faria, tiveram começo os trabalhos, cuja
primeira parte constou de fenômenos já conhecidos dos
nossos leitores. O Espírito efetuou o transporte, da varanda
para o aposento em que se faziam as experiências, de duas
flores, entregando-as, uma. ao Senhor Doutor Arquimimo
Lima, outra, ao professor Sílvio Nascimento. Depois, com as
mãos perfeitamente materializadas, apertou a mão de vários
assistentes, tendo retirado e restituído os lenços do Doutor
Pena e Costa e senhora.
Ansiávamos pela experiência da materialização à meia
luz, e tínhamos razão nessa ansiedade, pela estréia da grade
dentro da qual devia ficar a médium. Desde logo afirmamos
o êxito absoluto da experiência.
Forrado de pano preto, como poderia ser de qualquer
outra cor escura, um dos ângulos do aposento, a médium foi
adormecida e, depois de ficar em “transe”, colocada dentro
da grade. Isolada da, assistência, foi passado outro pano de
uma parede a outra, improvisando-se assim um gabinete
semelhante aos descritos por William Crookes em suas
experiências com o Espírito de Katie King. Feito isso, o
Espírito convidou vários assistentes a examinarem a
médium, no gabinete que à vista de todos fora improvisado.
Aquela dormia profundamente, sentada em uma cadeira,
dentro da grade, sendo esta quase da altura de um homem.
Ficou o aposento à meia luz de uma lâmpada verde,
suficientemente claro, portanto. Dentro de um quarto de
hora, talvez, viu-se pequeno núcleo fluídico luminoso que
oscilava no reposteiro, na abertura central. Dentro em pouco
esse núcleo tomou a forma esguia de um braço, acenando-
nos levemente e desapareceu. Passados alguns segundos
mais, vimos, surpresos, comovidos uns, inteiramente serenos
outros, aparecer à esquerda o Espírito nítido e perfeitamente
materializado, enquanto que se apresentava à abertura central
uma faixa branca, da largura talvez de meio palmo - fronteira
à grade em que permanecia encerrada a médium - como que
velando por esta.
Uma, duas, três, quatro vezes e mais o Espírito se fez ver
assim, nítido, perfeito, ora aparecendo na abertura da
esquerda, ora na abertura central.
Simplesmente estupendo! Tinha gestos, já abrindo os
braços, apontando para cima, como quem indica o céu, já
tendo atitudes amigas para os assistentes.
Ajoelhou-se várias vezes, mas, subitamente, provocou
uma cena verdadeiramente tocante: ajoelhou-se, convidou
num gesto os assistentes para que o fizessem também,
elevando as mãos postas em ação de graças! Alguns dos
assistentes, especialmente as senhoras, tiveram lágrimas de
comoção.
Ficou assim por alguns segundos, levantando-se depois,
em um gesto de agradecimento, voltando ao gabinete
improvisado. Pensamos estar finda a sessão. De repente
vimos que ele elevava acima da linha daquele gabinete, rumo
do teto, todo o busto! Logo depois, fez-se ver ainda uma vez
e desapareceu dizendo adeus.”

“Eis aí os fatos subitamente narrados.


Aqueles que têm acompanhado a notícia destas
experiências devem ter notado que os fenômenos aumentam
gradualmente de intensidade e precisão. Abrigamos a
esperança de, se não houver uma causa qualquer que venha
perturbá-los, seguirem a mesma marcha das experiências de
William Crookes, e terminarem pela aparição do Espírito em
plena luz, que, certo, deixar-se-á fotografar. Esperemos.
E' preciso notar que essas experiências fatigam
extraordinariamente a médium e a exaurem quase, pois que,
como notam os cientistas neo-espiritualistas, em cada
experiência se esgota sua força vital, fornecida para a
formação fluídica materializada, criada com o corpo psíquico
da médium e elementos materiais tomados aos assistentes.
Os incrédulos de todos os gêneros, diz Alfred Erny,
podem sorrir ou encolher os ombros; isso não impedirá que
os fatos existam. Nada mais brutal do que um fato, observa
Broussais.
No dia 24 de Junho, comemorando o aniversário do
início das experiências de João, o Senhor Eurípedes Prado
resolveu efetuar uma sessão. Perante numerosa assistência,
avaliada em 80 pessoas, verificaram-se vários fenômenos
com absoluta nitidez. (Gravura 7.)
Gravura 7
Aspectos da assistência á sessão comemorativa da primeira
manifestação de João, realizada na residência do Senhor Eurípedes. Uma
flor trabalhada em parafina, durante a sessão pelo Espírito de Anita.

Precisamente às 9 horas e quinze minutos, após terem


sido tiradas, pelo maestro Bosio, duas chapas fotográficas
dos assistentes, preparado convenientemente o gabinete da
médium e colocada esta na respectiva grade, anteriormente
descrita, a qual foi fechada, apareceu o Espírito de Anita,
que confeccionou uma bela flor de parafina, cuja fotografia
publicamos, mostrando-a em seguida aos circunstantes.
Depois, retirando-se este Espírito, veio um outro que,
pela feição do traje, parecia ser um marinheiro.
Caso notável: dias antes, o Espírito diretor dos trabalhos
houvera pedido que tocassem uma canção militar, não se
efetivando o desejo do visitante de além-túmulo a conselho
de um cavalheiro. Tal fato, assim, vem justificar, pela veste à
maruja, o motivo da solicitação. Este habitante do Espaço
arredou uma mesa, tirou de sobre a mesma dois baldes
destinados aos trabalhos de parafina e colocou uma cesta de
flores na maçaneta de uma das portas.
O terceiro Espírito a manifestar-se foi o de João, que
distribuiu pelos assistentes muitas flores, percorrendo o local
da reunião, próximo às pessoas. Todos os fantasmas, ao se
retirarem do recinto, despediram-se dos presentes, acenando
com os lenços.
Entre os assistentes contavam-se os Srs. Desembargador
Santos Estanislau, Drs. Nogueira de Faria, Melo César, Pena
e Costa, Abel da Costa, Oséas Antunes, Bacelar Júnior, Pio
Ramos e Manços Vilaça, Coronel Assunção Santiago, J. J.
Teixeira Marques, Manoel Barbosa Rodrigues, Antônio
Luculo de Souza e Silva, Carlos Barros de Sousa,
Farmacêuticos Pedro Batista e Manoel Coimbra, Professor
Sílvio Nascimento, Anélio Costa, Joaquim Fernandes
Antunes, Maestro Ettore Bosio, José Cruz e muitos outros,
além de várias senhoras e senhoritas.”
(Da Folha do Norte, de 26-6-1920.)

Capítulo VII

Jornal da Tarde, 4 de Maio de 1920

E do mesmo órgão, em seu número de 4 de Maio de


1920, a seguinte notícia:
“Não nos enganávamos quando, há tempos noticiando
uma das mais interessantes sessões realizadas em casa do
nosso estimável amigo Eurípedes Prado, opinávamos que,
em breve, assistíamos a fenômenos extraordinários,
inspirando o mais justo dos assombros. Por ora, nos
limitamos a narrar, sem comentários, os fatos desenrolados
na sessão a que estiveram presentes conceituados homens de
ciência, observadores insuspeitos, animados do mais puro
desinteresse - excetuando-se aquele, elevado e nobre,
decorrente do caráter científico de que se podem revestir tais
fenômenos.
Às 8 horas da noite, em 10 de Abril do corrente ano,
preparado o gabinete onde operam os Espíritos, isto é, uma
armação de madeira, toda forrada de lona preta, inclusive o
teto, ou parte superior; foi nele colocada uma grade, dentro
da qual fica a médium isolada.
Na colocação das lonas do gabinete, foi o Senhor
Eurípedes Prado auxiliado pelo Doutor Nogueira de Faria,
sendo tal serviço feito á vista de todos. Dentro desse
gabinete, que foi examinado pelos Srs. Drs. Jaime Aben
Athar e Pinheiro Sozinho, foi colocada uma grade, alta
bastante para conter uma pessoa sentada. Ao examiná-la, o
Senhor Doutor Pinheiro Sozinho declarou que já a conhecia,
pois que, indo certa vez a uma marcenaria encomendar um
trabalho qualquer, a encontrara em confecção. Revistada,
ainda assim, a grade, foi à mesma introduzida no gabinete e,
dentro dela, numa cadeira, asséntou-se a médium. A pequena
porta foi trancada a cadeado, as chaves entregues àqueles
dois médicos, que, a pedido do Senhor Eurípedes, ainda a
amarraram e lacraram.
Estavam presentes: Drs. Virgílio Mendonça, diretor da
Higiene Escolar e senador do Estado; Jaime Aben Athar,
diretor do Instituto Pasteur; Pinheiro Sozinho, lente da
Escola de Agronomia; João Alfredo de Mendonça, jornalista,
secretário da “Folha do Norte”, e esposa; Doutor Amazonas
de Figueiredo, diretor do Ginásio Pais de Carvalho e lente da
Faculdade de Direito, Manoel Barbosa Rodrigues,
comerciante e acadêmico de Medicina, Pedro Bastos,
corretor, e esposa, Doutor Nogueira de Faria, 1º prefeito da
Capital, e algumas pessoas da família Eurípedes Prado.
Assentados em frente ao gabinete, os espectadores
ficaram, afastados deste dois metros, se tanto. Apagou-se a
luz, ficando, porém, o aposento, que nenhum outro móvel
possuía, meio iluminado pela claridade vinda da saleta,
através dos vidros dos portais - claridade bastante para que
os espectadores se distinguissem e reconhecessem. Estes
foram colocados de modo a ver o que se:a passar no
gabinete, cujas cortinas da frente estavam suspensas. Bem no
centro do gabinete, a, grade fechada e lacrada, dentro da qual
se achava a médium.
Em breve, no interior da grade e na altura da cabeça da
médium, se fez uma espécie de pequena névoa, nívea e
levemente luminosa. Em seguida, ao lado começou a
formação de um vulto, senda o primeiro a distinguir o
fenômeno, o Senhor João Alfredo de Mendonça, que chamou
pata o fato a atenção do Doutor Nogueira de Faria, sentado
junto a si. Ficou por alguns instantes, entretanto, apenas uma
espécie de larga faixa branca, em toda a altura da grade. Fora
desta começou a aparecer um outro vulto, sendo ainda a vista
penetrante do Senhor João Alfredo de Mendonça, a primeira
a distingui-la. Nesse instante o Espírito, por meio de baques
na grade, pediu música. A esse tempo, este último vulto
elevou-se em toda a altura do gabinete, tomando nitidamente
forma humana, uma jovem, tipo caboclo, blusa e cinto de
cor, saia, meia e sapatos brancos, sendo que seus passos não
faziam ruído. Por várias vezes andou em frente ao gabinete.
Aproximou-se das extremidades do círculo dos assistentes,
apertando a mão do Senhor Eurípedes Prado e Senhora
Pedro Bastos. De quando em quando, espalhava os longos
cabelos sobre os ombros.
Era de estatura regular, quase alta para uma senhora, de
compleição mais forte que a médium.
Meia hora, talvez, demorou à nossa vista, ora andando,
ora apoiando-se à entrada da armação, colocando outra mão
à cintura. Convém notar: enquanto a jovem habitante do
Além se mostrava perfeitamente materializada, dentro da
grade permanecia junto da médium o vulto branco e, à altura
da cabeça deste, o floco níveo a que aludimos. Antes de
desaparecer, o Espírito ajoelhou-se, orando e erguendo as
mãos para o alto, como quem aponta o céu.
Desaparecida que foi a moça, começaram os assistentes a
distinguir nova materialização. Daí a instantes saía do
gabinete, sempre aberto à vista observadora daqueles, o
Espírito de João. Vestia calças e paletó, um pano branco
envolvendo o cabelo e amarrado sob o queixo, pés vestidos
de uma espécie de meias brancas. Depois de ir e vir ao longo
do intervalo entre o gabinete e os assistentes, apertou as
mãos dos Srs. Manoel Barbosa Rodrigues, Nogueira de
Faria, Eurípedes Prado, tocando ligeiramente nas do Senhor
Amazonas de Figueiredo. Pedindo-lhe a Doutor Jaime Aben
Athar que apertasse as suas, respondeu com um gesto que
não.
Nesse momento, este facultativo observou: “Ele está de
calças.” O Espírito, como que para confirmar o que o Doutor
Jaime Aben Athar observara, apanhou uma cadeira que se
achava próxima à Senhora Pedro Bastos, colocou o pé direito
sobre a mesma, e, pousando o cotovelo sobre o joelho e o
queixo sobre a mão assim apoiada, disse em voz algo
abafada algumas palavras ouvidas por todos, mas nem por
todos percebidas.
Também se dirigiu à esposa do Senhor João Alfredo de
Mendonça, sendo que, da frase endereçada a essa senhora,
seu esposo e o Senhor Nogueira de Faria distinguiram bem a
palavra “marido”. Pedindo-lhe o Doutor Virgílio Mendonça
que fizesse voltar o Espírito da moça, João respondeu-lhe
com uma frase que a alguns assistentes pareceu ser: “Tenho
(ou tenha) pena da médium.” Note-se bem: as palavras eram.
ouvidas por todos, embora nem por todos claramente
compreendidas. Além disso, João apanhou a pequena mas
pesada mesa, por meio da qual antes do trabalho se
comunica com os assistentes e, por vezes, levantou-a no ar,
passando-a da uma para outra mão rapidamente, como quem
faz exercício de ginástica.
A certa altura do fenômeno, arriou, por suas próprias
mãos, as cortinas da frente, mandando fazer maior claridade
nas lâmpadas da saleta. Foi, então, ainda melhor visto e
observado.
Antes de terminar os trabalhos, João suspendeu
novamente as cortinas da frente, imprensando-as nas
próprias grades do compartimento lacrado em que estava a
médium. Disse, então, adeus, sacudindo repetidas vezes uma
espécie de lenço, seguindo-se o despertar da médium, pelo
próprio Espírito materializado. Feita a luz no aposento, os
olhares dos Drs. Jaime Aben Athar e Pinheiro Sozinho
procuraram os cadeados lacrados. Estavam inteiramente
intactos. Perguntado sobre a impressão que lhe deixara o
fenômeno, o Doutor Jaime Aben Athar disse:
- Quais sejam as causas, não sei. Os fenômenos aí estão
por mim mesmo constatados e observados.
Desta sessão lavrou-se uma ata, a primeira desde o início
do fenômeno. Eurípedes Prado, escrupuloso e tímido, não se
atrevia a fazê-las.
- Pode parecer - explicava-nos - uma coação que exerço
sobre os que aqui vêm. E' possível que tomem a assinatura
como uma retribuição.
O Senhor Pedro Bastos e outros, demonstrando a
improcedência dos temores de Eurípedes, insistiram por essa
necessidade. Afinal, lavrada a ata, assinaram-na
espontaneamente todos os assistentes. Foram eles: João
Alfredo de Mendonça, jornalista; Doutor Jaime Aben Athar,
médico; Doutor Pais de Carvalho; Doutor Virgílio
Mendonça, médico; Doutor Pinheiro Sozinho, médico;
Manoel Barbosa Rodrigues, comerciante; Pedro Bastos,
corretor, e Nogueira de Faria.”

Capítulo VIII

A SEGUNDA ATA

Cada vez mais interessantes, as experiências


continuavam atraindo a casa da família Prado numerosas
pessoas. Por isso, somente de tempo a tempo cabia-nos a
felicidade de vê-los, e somente temos descrito e narrado
aquilo que vimos.
Eis a ata da sessão efetuada a 17 de Abril de 1920:
“Às 8 horas estavam presentes ao todo uns trinta
assistentes, inclusive pessoas da família Prado. Não
tínhamos tido ainda reunião com tão numerosa assistência, o
que julgávamos arriscado para o êxito dos trabalhos
anunciados pelo Espírito materializações, trabalhos em
parafina, etc. Como se verá, o nosso receio era infundado.
Preparado o gabinete, à vista e com o exame de vários dos
assistentes, dentro dele foi colocada à grade onde fica a
médium, inteiramente isolada, sendo essa grade, como das
demais vezes, fechada a cadeado e lacrada. Junto ao gabinete
uma pequena mesa e, sobre esta, o seguinte uma caixinha de
madeira, de palmo e meio de altura, com gesso; um balde
com parafina e outro com água fria; um jarro, uma faca e
algumas flores.
Apagada a luz, ficou o aposento fraca mas
suficientemente iluminado pelo reflexo das lâmpadas
elétricas da saleta. Feita assim a meia escuridade, necessária
à produção do fenômeno, começou em pouco, dentro da
grade, a formação fluídica. Uma pequena nuvem branca
oscilava, aumentando e diminuindo, até que se constituiu
larga faixa branca, permanecendo dentro da grade até ao fim
dos trabalhos. Alguns minutos mais e se distinguiu a
formação de outro vulto que a pouco e pouco tomou as
formas distintas e perfeitas de uma jovem. Era Anita, que
assim se diz chamar o Espírito feminino que vem
trabalhando com João. Como que depois de uma leve
hesitação, deixou o “gabinete”, dirigindo-se ao Senhor
Eurípedes Prado, a quem tomou a mão direita, levando-a aos
lábios.
Encaminhou-se para uma das pessoas assistentes,
saudando-a afetuosamente. Todos a viram: trajava de branco,
saia e blusa, tendo os cabelos longos e lisos, apertados por
uma fita, também daquela cor. Estava perfeita. Depois de
passar e repassar ao comprido da fila de assistentes, dirigiu-
se à banca onde se encontravam os utensílios mencionados
antes e começou a trabalhar em parafina. Via-se que
mergulhava a mão direita no balde de parafina a ferver, e
logo depois no outro, de água fria, para arrefecê-la e dar-lhe
consistência.
De quando em quando, mostrava o punho, tendo a mão
já envolta em camadas daquela matéria. Antes de retirar o
molde, estendeu o braço coberto de cera até o punho, feito o
que, deixando cair o molde no balde de água fria, o levou
depois para o Senhor Eurípedes Prado. Esse molde tem o
feitio de uma delicada mão, pequenina e gorda. Fabricou
ainda flores de cera, deixando-as dentro de um dos baldes.
Em seguida percorreu por duas vezes o aposento, no
intervalo, aliás, pouco espaçoso, entre a assistência e o
gabinete, depois do que se ajoelhou entoando, como em ação
de graças, um cântico religioso. Este cântico comoveu até às
lágrimas algumas senhoras. Levantou-se mal dizia as últimas
palavras e, penetrando no gabinete, desapareceu.
Convém notar o seguinte: de momento a momento, e
principalmente quando trabalhava na parafina, Anita se
dirigia a outro Espírito que permanecia dentro da grade, ao
lado da médium, como que para consultá-lo.
Desfeito o vulto de Anita, rapidamente até, surgiu-nos,
passados alguns instantes, o Espírito de João. Trajava túnica
branca, apertada à cintura, e capuz branco.
Mais familiarizado com a assistência, saúda-a com
desembaraço. Tomou das flores naturais, atirando-as para os
assistentes. Sacudiu ainda algumas gotas de água fria para os
mais íntimos, começando a trabalhar. Primeiro, vergou-se
sobre a mesa, como quem examina tudo; arregaçou as
mangas, arriou o balde com parafina já esfriada e pesando
seguramente uns quatro quilos, deixando cair uma pequena
tábua, com grande ruído. Tomou da faca e bateu-a
fortemente sobre a mesa.
Alguém, que estava mais distante, disse: “é a faca” - e
logo ele, encaminhando-se para o lado esquerdo do círculo,
de onde viera à observação, bateu de novo fortemente em
uma outra mesa, destinada a manifestações tiptológicas, isso,
talvez, com o intuito de confirmar aquela observação, e
voltou a trabalhar.
Em sessão intima, João prometeu ao Senhor Eurípedes
Prado tentar produzir um molde de gesso, embora
manifestasse, desde logo, dúvidas sobre o êxito da
experiência. Ia, agora, fazer a tentativa. Arriou o outro balde,
deixando apenas sobre a banca a pequena caixa de madeira
com o gesso e o jarro com água fria.
Depois de algum trabalho, durante o qual se utilizou do
jarro, encaminhou-se para o Senhor Eurípedes Prado,
levando-lhe um pedaço de gesso, umedecido e informe. A
experiência não dera resultado. Nem pelo malogro da
tentativa, João abandonou o desembaraço e graça com que
caracterizou essa reunião.
Ofereceu a duas das senhoras presentes as flores em
parafina, trabalhadas por Anita, e bateu palmas. Estava,
assim, finda a primeira parte dos trabalhos.
Seguïu-se, então, entre o Espírito e os assistentes que se
encontravam na primeira fila a troca de algumas frases,
perfeitamente distintas. Prometeu deixar-se fotografar,
tomando as posições em que o faria. Ao anunciar isto,
levantou os braços e exclamou puff! para indicar a explosão
do magnésio. Alguém, então, se ofereceu para lhe trazer
aquele explosivo, ao que ele retorquiu nitidamente:.
- “Não quero, eu tenho magnésio.” (10)
(10) - Como se sabe, pouco tempo depois, as experiências fotográficas, à luz do
magnésio, deram excelente resultado, acompanhadas do mais rigoroso controle.
Nesse instante a médium tossiu insistentemente. Logo,
solícito, o Espírito deixou a assistência, correndo para o
gabinete. Daí a instantes voltava, exclamando de modo
distinto:
- “Não há novidade!”
Várias outras palavras e frases foram pronunciadas por
João, sendo que, com uma senhora da família Eurípedes,
entreteve verdadeiro diálogo, aliás; ouvido pelos que
estavam próximos da referida senhora. Apertou a mão a
diversas pessoas e, depois de se ajoelhar e orar, retirou-se
para o gabinete, a fim de despertar a médium, o que fez,
como de costume. Já quase a extinguir-se, o Espírito acenou,
dizendo adeus.
O que sobretudo impressionou a assistência foi à
solicitude que demonstrou pela saúde da médium - fato que,
aliás, se observa sempre. De quando em quando, abandonava
o trabalho, indo a.o gabinete, em cujo interior, dentro da
grade fechada e lacrada, aquela permanecia.
Antes de encerrar os trabalhos, João tirou o capuz,
vendo-se-lhe a cabeça com os cabelos rentes”
Belém, 17 de Abril de 1920.”
Entre outras pessoas, assinaram esta ata os Srs. Fileto
Bezerra, Ernesto B. de Castro, Alberto Viana. Manoel
Barbosa Rodrigues, João Gil Júnior, Eliezer Leon, Manoel
Pereira, Pedro Batista, Doutor Abel Costa, Nogueira de
Faria, etc.
Capítulo IX

SESSÃO REALIZADA EM 24 DE ABRIL DE 1920

Observamos o seguinte:
Oito horas da noite, no mesmo prédio à rua Padre
Prudêncio n. 184. O “gabinete” e a grade, em cujo interior a
médium já se colocara, foram preparados à vista de todos.
Fechou e lacrou a grade o Senhor Eustáquio de Azevedo,
conhecido homem de letras, autor de vários livros, tendo ao
lado o Doutor Ferreira de Lemos, conceituado oculista
paraense.
Ambos, desde o começo dos preparativos do gabinete e
da grade, prestavam grande atenção. Diante daquele foram
colocados, no soalho, dois baldes, um de parafina derretida,
outro de água fria.
Apagada a luz e habituada a vista à meia escuridade em
que fica o aposento, iluminado apenas pela luz das lâmpadas
da sala e da saleta, coada através dos vidros das “bandeiras”,
começou a sessão com a presença dos Srs. Drs. Ferreira de
Lemos e Pontes de Carvalho, médicos; Doutor Carlos
Nascimento, lente do Ginásio Pais de Carvalho; Eustáquio
de Azevedo, inspirado escritor paraense; Manoel Pereira,
comerciante; João Rocha Fernandes, comerciante; várias
senhoras, e diversas pessoas da família Eurípedes Prado.
Indagado pela pequena mesa, destinada às manifestações
tiptológicas, se tudo estava bem, o Espírito respondeu
afirmativamente, pedindo colocassem uma tesoura junto ao
balde de parafina. Feito isso, dentro em breve, embora um
pouco mais demoradamente, começou a formação fluídica, a
princípio, como sempre, no interior da grade, depois, ao lado
desta, lentamente se formou um vulto branco, que tomou o
aspecto e feições de uma jovem. Era “Anita”, com os seus
longos cabelos soltos, vestido branco, meias brancas, sem
sapatos. Dirigiu-se ao Senhor Eurípedes, que estava atrás das
filas dos assistentes, apontando-lhe uma cadeira, a da
extremidade esquerda, gesta que foi atendido por aquele
senhor.
Em seguida, depois de se deixar ver pelos assistentes
todos, dirigiu-se para os baldes, como que se ajoelhando para
poder trabalhar melhor. Viu-se que procurava no soalho
alguma coisa. Levantou-se e disse para o Senhor Eurípedes,
de modo a ser ouvida pelos que estavam próximo deste, a
palavra tesoura. “Está junto ao balde” - respondeu-lhe o
Senhor Eurípedes. Mas procurando a tesoura solicitada,
sobre a mesa, e encontrou-a, entregando-a, então, ao Espírito
que veio recebê-la, volvendo à confecção dos trabalhos em
parafina.
Feita a primeira flor, dirigiu-se para o interior do
gabinete, depois do que se voltou para os assistentes da
extremidade esquerda, na qual se encontravam entre outros
os Srs. Eustáquio de Azevedo, Doutor Carlos Nascimento e
Nogueira de Faria, perguntando em voz fina e débil: quem é
Correia? Isto por três vezes, de modo claro. Como que
recebera, quando fora ao interior do gabinete, uma indicação
para entregar a flor a. um dos assistentes de nome Correia.
Tratava-se de um assíduo freqüentador das sessões que
estivera ausente durante dois meses.
Anita fez ainda uma flor, oferecendo-a a uma senhora
que pela primeira vez vinha aos trabalhos. Ouvia-se o ruído
da tesoura, quando por ela utilizada. Sentou-se, estendendo
um dos pés, de modo a ser distintamente visto, sendo que os
assistentes que se encontravam à esquerda distinguiam
melhor os fenômenos. Depois, ajoelhou-se em atitude de
quem ora e, recolhendo-se ao gabinete, desapareceu à vista
de todos.
Daí a momentos apareceu-nos “João”. Vestia calças,
colete e paletó. Porque não distinguisse bem o colete, o
Doutor Carlos Nascimento pediu ao Espírito que lho
mostrasse. “João”, abrindo o paletó, deixou ver
perfeitamente o colete, de certa cor cinzenta; isto é, viram-no
perfeitamente os Srs. Nogueira de Faria, Carlos Nascimento
e Eurípedes Prado.
Havia como que um certo retraimento por parte de
“João”, de ordinário expansivo. Apertou a mão apenas aos
Srs. Eurípedes Prado e João Correia. Levantou a mesa por
diversas vezes. Chamou uma das filhas do Senhor Eurípedes
e, tomando-lhe a mão direita, fê-la pousar o cotovelo sobre a
mesa das comunicações, como quem se empenha em uma
luta de braço. Arregaçou a calça do lado direito, deixando
ver uma espécie de roupa branca, como quem trouxesse
ceroulas. Durante alguns instantes esteve sentado numa
cadeira junto ao “gabinete". Deu ainda algumas voltas, pelo
aposento, recolhendo-se àquele para acordar a médium.
Antes de terminar os trabalhos, ajoelhou-se como quem reza.
Depois despertou a médium, ouvindo-se bem o ruído de suas
mãos na face desta; ao desaparecer de vez, disse adeus com
uma espécie de lenço, muito alvo.
Os trabalhos terminaram às 10 horas e 10 minutos da
noite.

Capítulo X

SESSÃO REALIZADA EM 30 DE ABRIL DE 1920

Registei o seguinte:
Presentes os Srs. Drs. Porto de Oliveira, Jaime Aben-
Athar, Virgílio Mendonça, médicos; Apolinário Moreira,
então deputado estadual; Ettore Bosio, maestro; Eusébio
Cardoso, conhecido solicitador; Eustáquio de Azevedo,
poeta e jornalista; João Fernandes, comerciante; Manoel
Pereira, comerciante; várias senhoras, além de diversas
pessoas da família Eurípedes Prado; o “gabinete” foi armado
à vista dos assistentes pelo Senhor Manoel Pereira e
examinado pelos Srs. Drs. Jaime Aben-Athar e Porto de
Oliveira, ambos médicos, sendo que este último assistia pela
primeira vez às sessões, e por isso mesmo se mostrava
interessado em conhecer os antecedentes dos fenômenos.
Vinda que foi a médium, antes de entrar para a grade, o
Senhor Eurípedes Prado interrogou o Espírito, por meio da
mesa destinada a manifestações tiptológicas, se, tudo estava
bem, sendo-lhe pedido para colocar uma pequena banca em
frente ao gabinete e sobre esta os baldes de parafina, água
fria, etc. Em seguida a médium se colocou dentro da grade, a
qual foi cuidadosamente lacrada pelo Senhor Doutor Porto
de Oliveira. Apagou-se a luz, ficando, como das outras
vezes, o aposento meio iluminado pela claridade das
lâmpadas da saleta. Minutos depois o Espírito recomendava
que as cortinas da frente e do lado esquerdo, que estavam
suspensas, deviam ser dispostas de modo a serem baixadas
sem dificuldade, se fosse preciso. Há várias sessões vinha
aparecendo em primeiro o Espírito de “Anita”, vestindo
sempre de branco e a cuja formação fluídica - ou melhor, a
cuja materialização - os espectadores assistiam
perfeitamente. Desta vez o fenômeno como que demorava.
Dentro da grade distinguia-se apenas a gola branca do
vestido da médium, mais acentuada por um lenço também
branco passado em laço ao pescoço. Esta gola e o lenço
facilitavam o reconhecimento dos núcleos fluídicos, porque,
enquanto estes oscilam de cima para baixo, da direita para a
esquerda, diminuindo e aumentando, aqueles permanecem
fixos, divisados perfeitamente. Desta vez o núcleo fluídico
branco demorava a constituir-se, pelo menos mais do que
das outras vezes. Apenas como que leves pedaços de gazes
brancas, esgarçados, orara vistos. Num dado momento,
ouvia-se o ruído das cortinas de frente, que eram arriadas,
isto é, uma apenas, a da direita.
Súbito, aparece-nos “João”: trajando de preto, a cabeça
envolta em um capuz. Trazia nos braços um vulto branco, na
posição de quem acalenta uma criança. Ajoelha-se, como de
costume. Todos vêem o pequenino vulto branco, sem
contudo distinguir-lhe nitidamente as formas. Seria uma
boneca? Seria uma criança?
Ao começo ninguém atina com o intuito do Espírito
trazendo consigo, nos braços, o pequenino visito. Entretanto,
ele se aproxima dos baldes de parafina e começa a trabalhar.
Distingue-se bem ele passar o “braço” da “criança” de um
para outro balde, isto e, da parafina quente, para o balde de
água fria em frente do maestro Ettore Bosio, próximo
também do Senhor Doutor Virgílio Mendonça. Mostra-lhes a
pequenina mão de cera, deixando-a cair no balde de água
fria. Dá ainda alguns passos. recolhendo-se ao “gabinete”,
onde faz desaparecer o vultozinho branco. Verificou-se, pois,
o intuito: fabricar um molde de cera, de pequeno tamanho.
Que melhor prova?
Ao voltar, anuncia ao Senhor Eurípedes Prado a vinda de
um Espírito mais elevado do que ele, “João”. Percebe-se-lhe
bem a voz, mas apenas os que lhe estão próximos distinguem
as palavras. Ajoelha-se, em seguida, e, após ligeira oração,
recolhe-se ao “gabinete” e desaparece.
As cortinas do lado esquerdo são arriadas e; sem larga
demora, aparece, desse lado, trajando túnica branca, um
Espírito mais alto do que “João” e mais alto que a médium.
Ergue a mão direita para o teto, como quem indica o céu, e
ajoelha-se em atitude de prece. Mostra-se a todos os
presentes, abrindo os braços em cruz. Demora pouco,
retirando-se, mas não sem se ajoelhar como fizera ao
aparecer.
Há instantes de demora. Espera-se ainda a produção de
outros fenômenos; mas “João” dá o sinal de findos os
trabalhos. Feita a luz, os Drs. Porto de Oliveira e Jaime
Aben-Athar examinaram os lacres. Estavam perfeitos.

Como das outras vezes, e desta mesmo, antes de aparecer


materializado, o Espírito pediu música.
E' ele quem, através de pancadas na madeira ou no arame
da grade, dirige os trabalhos, fazendo observações e
recomendações. Antes de começá-los comunica-se com a
assistência por uma pequenina mesa (manifestações
tiptológicas). Nesta sessão, como não tivessem amarrado o
cadeado, este, sacudido por qualquer movimento da médium,
produzia ruídos semelhantes aos das pancadas das
comunicações. Assim, durante a sessão, por duas vezes, o
Senhor Eurípedes, equivocando-se, na persuasão de que as
pancadas do cadeado eram dadas pelo Espírito,
comunicando-se, interrogou-o. Da segunda vez, disse o
Espírito pela médium adormecida: “E bom amarrarem o
cadeado para evitar estas confusões.”
Os trabalhos foram encerrados a 1 e meia hora da noite.
Os lacres e os nós, examinados pelos assistentes, estavam
perfeitos.
Como, a possibilidade de truque?

Algum tempo depois, a 28 de Julho de 1920, o Doutor


Porto de Oliveira publicou na “Folha do Norte” um artigo
sobre esses fatos, intitulado: “O que vimos; o que
pensamos”. Desse artigo transcrevemos a primeira parte, em
que sé confirma o que acima fica descrito. As insignificantes
diferenças entre as duas narrativas se explicam naturalmente,
pelo intervalo de tempo decorrido.
“O ruído que se vinha fazendo em torno de pretensos
fenômenos espíritas, realizados na residência do Senhor
Eurípedes Prado, aguçou-nos, como a muita gente, a
curiosidade, determinando-nos a pedir, por intermédio de
algumas pessoas amigas, a nosso acesso a uma das sessões.
Após demorada espera de quinze a vinte dias, recebemos um
convite que nos foi notificado pelo prezado colega J. Aben-
Athar.
Residia ainda o Senhor Prado à rua Padre Prudêncio e ali
comparecendo, vai já para dois meses, fomos gentilmente
acolhida pelo dono da casa, pródigo em gentilezas. Antes de
iniciados os trabalhos, discretamente fizemos um rápido
exame do local, nada encontrando que nos prendesse a
atenção. A hora precisa, evocado pelo processo da mesa
redonda o Espírito, foi o mesmo consultado sobre se poderia
realizar a sessão, o que foi respondido afirmativamente.
Dispostas as coisas, foi à médium encerrada numa
gaiola, constituída por grades e cuja porta foi por nós
amarrada e lacrada, a instância de várias pessoas, apesar de
nos termos recusado a fazê-lo. Foi feita a obscuridade, aliás,
obscuridade de cinema; sentaram-se todos em semicírculo,
de frente para a gaiola, colocada num canto da alcova,
justamente na intercessão de duas paredes.
Poucos minutos e nuvens esbranquiçadas se
desprenderam em torno da médium, se condensaram,
tomaram forma. Ouvia-se, então, o ressonar da médium,
vestida de “etamine” verde-escura, com gola branca e
sapatos também brancos, que nos serviam de pontos de
reparo no interior da gaiola. A forma atravessou a grade,
encaminhou-se para o meio da assistência, saudou-a,
ajoelhou-se e orou, no que foi acompanhada por alguns
crentes. Logo após, levantou-se, dirigiu-se para uma mesa,
sobre a qual, adrede colocados, estavam dois baldes com
parafina e água fria; viu-se então que trazia ao colo uma
forma, como de uma criança. Várias vezes mergulhou-lhe o
bracinho no balde de parafina fundida; em seguida pegou do
outro balde, pô-lo no chão e, sentando-se, diversas vezes
mergulhou o braço da criança. Ergueu-se, dirigiu algumas
palavras, voltada para o Senhor Eurípedes, dizendo retirar-se
e que um Espírito superior em breve a substituiria. Fêz-se a
luz; uma mãozinha de criança, modelada em cera, foram
encontrada sobrenadando no balde. Até esta altura fizemos
sentir ao nosso vizinho, precisamente o Doutor Aben-Athar,
estarmos convencidos de ser a médium que nos estava
ludibriando de qualquer forma. Não atinávamos, nem nós,
nem ele, de que modo.
Nova espera; nova formação; jactos vaporosos,
semelhantes aos produzidos pelo escoamento de vapor de
uma caldeira; evoluções várias e aparições de novo
fantasma. Este, porém, nada tinha., absolutamente nada, da
médium, vinha vestido de um leve roupão branco; cabelos
soltos, esbelto, alto, com formas perfeitas de mulher,
destacando nitidamente o rosado da pele do branco do
roupão. Suspendemos o nosso juízo e disto não nos pejamos.
O fantasma avançou, saudou, ajoelhou-se e orou, reclinou-se
depois sobre um dos ângulos da gaiola, circunvagou
demoradamente o olhar pela assistência; despédiu-se,
dirigiu-se à médium, despertou-a. Foi novamente feita a luz;
a médium retirou-se, amparada, para um dos aposentos
interiores da casa. Haviam-se passado duas horas.
Despedimo-nos e saímos.
Nada assinamos, nada nos fora pedido. Sequer o nosso
orado de pensar fomos abrigados a externar. Estava satisfeita
a nossa curiosidade. Não mais lá voltamos.”
Isso, o que foi visto pelo Doutor Porto de Oliveira; o que
S. S.ª pensa, o leitor encontrará a página 92, na qual está
reproduzido o resto do artigo.
Capítulo XI

PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS FOTOGRÁFICAS

Como era natural e justo, tais fenômenos produziram


celeuma, atraindo fortemente a atenção pública, provocando
ardentes curiosidades, bem intencionadas umas, mal
intencionadas outras. O Senhor Eurípedes Prado, não
obstante profundo conhecimento do assunto, receava,
entretanto, franquear suas experiências a todos os que o
procuravam. Sabia do perigo existente para a saúde e a
própria vida de sua esposa, e, por isso, evitava desusada
concorrência, máxime quando ele não tinha a intenção de
propaganda, como várias vezes o declarou e mais tarde
confirmou pela imprensa.
Parecia-lhe, entretanto, que esses fatos eram dignos de
estudo e observação. Por mais esquisito que isto possa
parecer, devemos confessar que durante muito tempo
chegamos até a acreditar que Eurípedes não possuía nem
procurava possuir crença alguma. A sua maior preocupação
era não parecer um místico. Contudo, não se atrevia a negar
que aqueles fenômenos eram de origem além-tumular.
Não raras vezes confessava-se triste pelas deficiências e
lacunas encontradas nos mesmos. Tendo bastante leitura tas
ciências psíquicas, ele mesmo era exigente. Foi por esse
tempo que, após dois meses de “idas e vindas” ao Senhor
Eurípedes, o maestro Bosio conseguiu assistir às sessões.
Amador fotográfico, o maestro Bosio logo pensou na
possibilidade de obter umas fotografias espíritas à luz do
magnésio.
De como se fizeram às primeiras experiências de
fotografia, dá-nos informações o próprio maestro Ettore
Bosio nas linhas seguintes:

“Prezado amigo Doutor Nogueira de Faria.

Cumprimentos.

Em resposta à sua carta solicitando-me informações


sobre os trabalhos fotográficos obtidos por mim em diversas
manifestações espíritas na casa do Senhor Eurípedes Prado,
tenho o prazer de remeter-lhe a seguinte notícia:

FOTOGRAFIA A MAGNÉSIO

Após ter assistido por três vezes, na residência do Senhor


Eurípedes Prado, a sessões de fenômenos de materialização,
em Março de 1920, lembrei-lhe a possibilidade de fotografar
os Espíritos, quando materializados. A minha proposta foi de
súbito rejeitada, alegando o Senhor Prado que já tinha feito
com o Senhor Pedro Batista experiência idêntica, que dera
resultado completamente negativo. Ponderei que este fato
não era motivo para desistir do propósito, comprometendo-
me a fazer prévios ensaios em minha residência para estudar
o assunto e fixar a dosagem de magnésio precisa e
parcamente necessária, a fim de evitar excesso de luz,
prejudicial à médium e à impressionabilidade justa da chapa.
Felizmente minha lembrança foi aceita.
No meu gabinete de estudo fiz aquelas experiências,
transformando-o em “atelier” fotográfico. Depois de um
mês, fixei exatamente a quantidade do magnésio em 25
centigramas e, não satisfeito ainda com essas experiências,
quis fazer outros ensaios na própria sala da materialização
em casa do Senhor Prado, tanto, mais que a cubagem desta
não era igual à do meu gabinete.

PRIMEIRA EXPERIÊNCIA

Gravura 8 Gravura 8-A


Gravura 8-B

Um dia do mês de Abril de 1920, às 16 horas, foquei a


máquina em um ponto determinado da varanda da residência
do Senhor Prado, onde um de nós devia posar, fazendo “o
papel do Espírito”. Coloquei a estante para o magnésio
debaixo do balão, suspenso e seguro no teto, destinado a
receber a fumaça, evitando assim molestar os assistentes e
empanar o ambiente. Tudo pronto, perguntei ao Senhor
Prado quem iria posar. “Minha filha Antonina” - respondeu,
solícito. Esta, por sua vez, recordou ser mais conveniente a
própria médium, para sentir a impressão da luz do magnésio.
Aceito este ultimo alvitre, aliás mais razoável, a Senhora
Prado (a médium) colocou-se no lugar indicado.
Foram tiradas seguidamente três chapas, apenas com o
tempo para a mudança do chassis e da nova dose do
explosivo.
Quando tirávamos a terceira chapa, a Senhora Prado,
cambaleando, espavorida e trêmula, foi, auxiliada. por seu
esposo, sentar-se em uma das cadeiras mais próximas. Disse,
então, ter sentido, pouco antes da explosão, pousar
suavemente, sobre seu ombro esquerdo, uma espécie de mão,
impressão esta que lhe era completamente desconhecida,
sendo a primeira vez que, em vigília, experimentava o
contacto de um ser invisível.
A dosagem de pólvora para as três chapas foi a seguinte
25, 20 e 15 centigramas, sendo que a última foi insuficiente,
produzindo fraca impressão, como se pode verificar pela
fotografia junto. (Gravura 8-B.)
Grande surpresa nossa e júbilo imenso! Todas as chapas
continham manifestações do fenômeno espírita, observando-
se ao lado esquerdo da figura, na terceira, uma pequena mão,
minúscula mesmo, sobre o peito, perto do ombro.
Encorajados pelo primeiro sucesso, dois dias depois, à
noite, fizemos outros estudos, sendo estes coroados do
melhor êxito. Daí em diante, fizemos a prova oficial,
conforme está descrita.
Escusado será falar-lhe da nossa alegria, quase infantil,
desses primeiros sucessos; longe estávamos de pensar nos
dissabores que em breve nos aguardavam.

*
Reparando-se as três primeiras fotografias: a, b, c, nota-
se que a Senhora Prado apresenta, na primeira, uma espécie
de luva na mão direita; na segunda, uma espécie de bolsa de
veludo preto, na mão esquerda; e finalmente, na terceira, a
mão, pequenina e aberta, a que se refere o maestro Bosio.
Um quase-nada que valeu tudo para os experimentadores
que, aliás, nessa sessão nada esperavam obter.
Na segunda série, vê-se que o fenômeno progride.
Primeiramente, a cadeira, que estava inteiramente despida,
aparece oculta a ponta esquerda do espelho coberto por um
pano: na segunda, há uma larga faixa sobreposta ao vestido
da médium e caindo ao lado; na terceira, essa mesma faixa,
mais nítida, porque a médium está de pé; e finalmente, na
quarta, surgindo do pano preto, preso à parede, uma formosa
cabeça de criança ou de boneca, se o quiserem, e uma
espécie de toalha branca envolvendo parte da cadeira.
(Gravuras 9 e 9-A.)
Certamente que nenhum valor probatório têm estas
experiências, feitas, como foram, na mais absoluta
intimidade. Serviram apenas para fortalecer os
experimentadores, que tinham a convicção segura do
fenômeno indubitável passado só entre eles e pessoas da
família.

SEGUNDA EXPERIÊNCIA
Gravura 9

Gravura 9-A

Apesar de obtidas assim, sem controle porque em


absoluta intimidade, não havia outro motivo para ocultar a
narração de tais fatos e em breve, embora sem notícia na
imprensa, eles eram do domínio público.
Então alguém lembrou a “prova oficial” a que alude o
Maestro Bosio. Consultado, o Espírito garantiu a
possibilidade da mesma, solicitando apenas o máximo rigor
de controle. Parecia que previa a celeuma que essa fotografia
iria levantar. Ficou, então, assentada a sessão para o dia 15
de Maio de 1920.
Para ter uma idéia do rigor dessa sessão, basta ler o
testemunho insuspeitíssimo dos dois grandes diários
matutinos de Belém, acompanhando a publicação dos
clichês.
Da “Folha do Norte”, de 20 de Maio de 1920:

FENÔMENOS ESPÍRITAS

Um habitante do Além fotografado nesta Capital

A fotografia, que reproduzimos a seguir, revela um


interessantíssimo fenômeno espírita, manifestado na noite de
17 do corrente, na residência do Senhor Eurípedes Prado,
guarda-livros da firma Albuquerque & Cia., desta praça, e
cavalheiro muito conceituado nesta Capital.
Como há sido noticiado pelos nossos confrades do
“Jornal da Tarde”, na residência do Senhor Prado têm
ocorrido vários desses fenômenos, a que têm assistido
pessoas de alto conceito em nosso meio social, entre as quais
diversos médicos, magistrados, jornalistas, advogados, etc.
Atraído por essas manifestações, o maestro Ettore Bosio,
que é um excelente amador fotográfico, deliberou apanhar
um clichê do Espírito manifestado, tendo para isso realizado
mais de uma experiência.
Estudando o processo que poderia garantir melhor êxito
aos trabalhos do maestro Bosio, este, para dar um caráter de
absoluta autenticidade à prova que ia realizar, convidou os
Srs. senador Virgílio de Mendonça, Doutor Antônio
Chermont, diretor do “Estado do Pará”, e João Alfredo de
Mendonça, secretário da “Folha”, a controlarem com as suas
assinaturas as chapas fotográficas que iam servir à
interessante experiência.
De fato, na tarde de 17 do corrente, reunidos aqueles
cavalheiros no “Centro Fotográfico”, de propriedade do
professor José Girard, à rua 13 de Maio, onde foram
adquiridas as chapas, aí autenticaram as mesmas com as suas
assinaturas, em presença dos fotógrafos José Girard e
Armando Mendonça.
Assinadas as chapas e carregado o “chassis”, foi este
lacrado e só entregue, à noite, ao maestro Bosio, na
residência do Senhor Eurípedes Prado, onde, às 8 horas,
além de outras pessoas, estiavam presentes os Srs. senador
Virgílio Mendonça, Doutor Nogueira de Faria, 1º prefeito,
deputado Apolinário Moreira, Doutor Feliciano Mendonça,
farmacêutico Pedro Batista, corretor Pedro Bastos e esposa,
João Alfredo de Mendonça, etc.
Feitos os preparativos, o maestro Ettore Bosio, à luz do
magnésio, pois o trabalho necessitava ser feito em plena
escuridão, apanhou uma chapa fotográfica, a qual, depois de
revelada, denunciou a presença de um ser estranho à
assistência.
Convém frisar que a chapa foi revelada poucos
momentos depois da explosão do magnésio, tendo sido o
maestro Bosio auxiliado nesse trabalho por um fotógrafo do
“atelier” Girard.
Impressa a fotografia, com geral surpresa para todos e
indizível comoção do Senhor Eurípedes Prado, declarou este
que o vulto fotografado reproduzia as feições do Senhor
Joaquim Prado, pai daquele cavalheiro, há anos falecido
(Gravura 10).

Gravura 10

Na fotografia que reproduzimos e que é cópia fiel do


clichê do maestro Bosio, vê-se colado à parede branca e
junto à senhora do Senhor Eurípedes, a qual é a médium,
uma figura humana, envolvida numa túnica preta, divisando-
se-lhe apenas o rosto.
O fato, que encerra uma prova positiva da comunicação
dos habitantes do Além, impressionou profundamente
quantos a ele assistiram, os quais não regatearam as suas
felicitações ao maestro Bosio, pelo esplêndido êxito da sua
interessante experiência, que pela primeira vez se realiza em
Belém.”
Do “Estado do Pará”, de 20 de Maio de 1920:

O ESPIRITISMO EM BELÉM

Uma fotografia transcendental

Os fenômenos ditos espíritas há uns cinqüenta e tantos


anos que entraram de se produzir simultaneamente, pode-se
dizer, em todos os pontos do Globo.
Daí os seus prosélitos os tomarem como uma terceira
revelação.
Nos Estados Unidos, chamaram a atenção de homens de
reconhecida idoneidade moral e responsabilidade científica,
como, entre outros, o célebre juiz Edmonds.
Surgiram na Europa e na América nomes de
responsabilidade como William Crookes, Alexandre
Aksakof, Lombroso e tantos outros não menos ilustres, que
se entregaram ao estudo desses fenômenos, obedecendo a
rigoroso método de experimentação científica.
São célebres as sessões da Senhora Esperance, nas quais,
entre numerosos Espíritos, materializava-se o de Iolanda,
que operava também a materialização de vegetais, às vistas
surpresas de alguns dos mais conceituados cientistas da culta
Europa, entre os quais figura o grande Alexandre Aksakof,
que a isso se reporta no seu monumental trabalho -
“Animismo e Espiritismo”, vasta polêmica em que,
sustentando a tese dos espíritas, refuta, com minúcia extrema
e grande poder de lógica, as teorias do notável sábio alemão
Hartmann, sobre o assunto.
Aksakof estuda teoricamente o Espiritismo, durante 15
anos, e, praticamente, durante 20, para produzir, após, a obra
a que nos referimos.
Não sã menos célebres as sessões procedidas, durante
três anos consecutivos, pelo grande cientista inglês Sir
William Crookes, que, com o auxílio da médium Florence
Cook, estudou os fenômenos de materialização do Espírito
de Kate King, uma senhorita indiana que, materializada,
conseguiu conviver com a família do ilustre sábio britânico
pelo espaço de várias semanas, materializando-se e
desmaterializando-se consecutivamente.
De tal forma interessaram tais fenômenos os centros
científicos, que hoje, pode-se dizer: a literatura sobre o
Espiritismo, na sua maioria firmada por nomes de grande
fama mundial, é uma das mais vastas, e são inúmeras as
sociedades e centros de estudos científicos que se entregam à
acurada observação dos fatos.
Na França, na Inglaterra, na Alemanha, Áustria, Itália,
Rússia e América do Norte fundaram-se também as
chamadas sociedades de estudos psíquicos, compostas dos
nomes mais notáveis nos domínios da ciência experimental,
para o estudo desses fatos.
Nesta Capital, o conhecido comerciante Eurípedes Prado
iniciou estudos dessa natureza, na casa de sua residência,
acompanhado de pessoas idôneas.
Uma vez conseguida; as primeiras manifestações
positivas, S.S.ª convidou várias personalidades em destaque,
nesta cidade, para assistirem aos seus trabalhos e as quais
são unânimes em confirmar a realidade dos fatos observados.
Nessas sessões, segundo sabemos, já foram observados
fenômenos de nítida materialização, com emissão de voz,
transporte, entre outros menos importantes, o que demonstra
o alto grau de transcendentalidade a que já chegaram àqueles
fenômenos.
A fotografia que damos à estampa é uma nítida chapa,
em que aparecem, à luz do magnésio, a médium em transe e
um fantasma de homem, que nos informam ser a reprodução
fiel do falecido progenitor do Senhor Eurípedes Prado.”

Capítulo XII

Por esse tempo visitava Belém o Senhor Kouma


Horigoutchy, ilustre ministro japonês acreditado junto ao
Governo do Brasil, em viagem de estudo ao Norte do País.
Filho da gloriosa pátria de Togo (11), onde a crença na
vida de além-túmulo, na pluralidade das existências, dá uma
energia admirável ao povo e às qualidades morais que o
tornam “primus inter pares” no concerto das nações
civilizadas - o Senhor Kouma Horigoutchy desejou
naturalmente assistir a uma das sessões da Senhora Prado.
(11) - O Senhor Ludovic Naudeau, num artigo publicado no Journal, de Paris,
conta-nos uma tocante cerimônia a que assistiu, no cemitério de Aogama, em Tóquio,
após a batalha de Tsushima, na qual falou o Almirante Togo em nome da Nação.
Dirigindo-se aos heróis daquele extraordinário feito das armas, pediu que suas almas
"protegessem a Marinha japonesa, freqüentassem os navios e reencarnassem nas
novas equipagens".
Não tivemos ocasião de falar a S. Ex. e pedir-lhe suas
impressões sobre os fenômenos a que assistiu. Entretanto,
baseamos a transcrever a ata dessa memorável sessão, ata
que traz a assinatura de S. Ex. e do outros homens ilustres;
dignos de acatamento por todos os títulos.
Eis a ata:
“ATA DA SESSÃO ESPÍRITA REALIZADA NA
RESIDÊNCIA DO SENHOR EURÍPEDES PRADO, EM 14
DE JUNHO DE 1920.
As 8 1/2 horas da noite de 14 de Junho de 1920, no
prédio n. 43, em que reside o Senhor Eurípedes Prado, à rua
dos Tamoios, presentes os Srs. Kouma Horigoutchy,
ministro japonês, junto ao Governo do Brasil e ora em
excursão ao norte do País; Doutor Justo Chermont, senador
federal, e esposa; Doutor Virgílio Mendonça, senador
estadual; Doutor Amazonas de Figueiredo, lente catedrático
da Faculdade de Direito do Estado e diretor do Ginásio Pais
de Carvalho; desembargador Napoleão de Oliveira, Chefe de
Polícia; desembargador Santiago, membro do Tribunal do
Estado; maestro Ettore Bosio, Capitão Pedro Borges,
ajudante de ordens do Governador do Estado; Apolinário
Moreira, deputado estadual; Doutor Pena e Costa, 3°
Promotor Público; Teixeira Marques, funcionário da
Intendência Municipal; Manoel Pereira, comerciante;
corretor Pedro Bastos, e esposa; Doutor Nogueira de Faria,
1ª Prefeito da Capital; Senhor Eurípedes Prado e pessoas de
sua família, começaram os trabalhos. No ângulo esquerdo da
varanda, foi instalado uma espécie de gabinete, forrado de
lona preta, e armado à vista dos assistentes. As cortinas do
lado direito da armação e da frente ficaram suspensas.
Dentro desta armação, a que daremos o nome de gabinete
mediúnico, foi colocada uma grade, que os assistentes
previamente examinaram, passando-lhe em volta uma tira de
nastro, lacrando-a. Depois de receber a médium, foi essa
grade fechada a cadeado e lacrada pelo Capitão de Corveta
Joaquim Teodoro do Sacramento, em presença dos Srs.
Kouma Horigoutchy, Justo Chermont, Martins Pinheiro,
Lúcio Amaral, Capitão Pedro Borges e Napoleão de
Oliveira, que pela primeira vez observavam o fenômeno. Em
frente ao gabinete puseram uma pequena mesa e sobre esta
dois baldes: um de água fria e outro de parafina derretida,
com a temperatura bastante elevada.
Apagada a luz, a varanda ficou fracamente iluminada por
uma lâmpada elétrica, que, no terraço ao lado, derramava luz
bastante para o interior daquela, através dos vidros dos
portais. Atrás da fila dos assistentes, em direção ao gabinete
mediúnico, funcionava um ventilador. Antes de começar os
trabalhos, o Senhor Eurípedes Prado recebeu uma mensagem
tiptológica, em que o Espírito dizia estar tudo bem e
comunicava ao Doutor Virgílio Mendonça que, em dado
momento, poderia aproximar-se da grade.
Com efeito, passados alguns minutos, ouviu-se o
médium falar debilmente, dizendo ao Senhor Eurípedes que
pedisse ao Doutor Virgílio para se aproximar. Este, indo,
solicitou ao Espírito para convidar alguém que tivesse ido
àqueles trabalhos pela primeira vez. Atendendo, convidou o
Senhor Kouma. Ambos, então, viram, ao lado da médium, o
Espírito materializado, dentro da grade.
Cerca de vinte minutos depois, saiu do gabinete o
Espírito de “João”: trajava de preto, calças e paletó. capuz
branco, descalço.
Apertou fortemente a mão do Doutor Virgílio Mendonça
e, de leve, a do Senhor Ministro japonês.
Ia e vinha, abria os braços, mostrando-se distintamente a
todos. Depois empenhou-se no trabalho de parafina, tendo
mostrado a mão revestida de cera, tocando-a os Srs. Drs.
Martins Pinheiro, Justo Chermont e Virgílio Mendonça.
Pronto que foi o molde, “João” o entregou a um dos
assistentes que o passou ao Senhor Kouma. Aproximou-se
ainda, por diversas vezes, do círculo, tendo feito outro molde
e oferecido ao mesmo Senhor Kouma. Alguns dos
assistentes, entre os quais o Doutor Amazonas de
Figueiredo, Pedro Bastos e senhora, Nogueira de Faria,
Virgílio Mendonça, pediram-lhe que trouxesse “Anita”, um
Espírito feminino que por diversas vezes já se materializara.
“João” recolheu-se ao gabinete e, dentro em pouco, via-se
aparecer uma moça, parecendo ter 14 a 16 anos, vestida toda
de branco, saia e blusa, longos cabelos soltos.
Ajoelhou-se, orando, levantando-se, ia e vinha,
desembaraçadamente, sendo vista por todos muito
nitidamente. Assim esteve durante um quarto de hora, talvez.
Tomou o leque das mãos da Senhora Pedro Bastos, indo com
ele abanar o rosto do Senhor Kouma, que parecia merecer as
honras da noite. Ao ser restituído àquela senhora, o leque
ficara ligeiramente humedecido no punho. Estava tão bem
materializada que, na claridade enfraquecida do aposento,
quase se distinguiam suas feições. Deu ainda algumas voltas
e recolheu-se ao gabinete, desaparecendo.
Parecia estar finda a sessão; entretanto, reaparece “João”,
desta vez vestindo túnica branca. Ajoelha-se e ora. Chegou
por umas duas vezes ainda próximo à fila de assistentes e
depois voltou para o gabinete. Alguns minutos mais e ouvia-
se perfeitamente que ele despertava a médium. Antes de
encerrar os trabalhos, ainda acenou adeus à assistência, com
uma espécie de lenço.
Acordada a médium e feita a luz, foi à grade examinada
pelos assistentes. O lacre e cadeado, tudo estava inteiramente
intacto. Retirada a médium, o Senhor Ministro japonês
colocou-se dentro da grade, examinando o cadeado,
resistência dos varões, etc.
Belém do Pará, 14 de Junho de 1920.
(Assinaram)
H. Horigoutchy
Virgilio Mendonça
Justo Chermont
João José Teixeira Marques
Amazonas de Figueiredo
Pedro Rodrigues Bastos
Pedro Paulo Pena e Costa
Napoleão de Oliveira
Apolinário Moreira
Ettore Bosio
Pedro Borges. "
Por lamentável esquecimento de quem confeccionou esta
ata, deixaram de ser incluídos os nomes dos Srs. Doutor
Antônio Martins Pinheiro, então intendente de Belém, e
Doutor Lúcio do Amaral, oficial de gabinete de S. Exa., e do
Senhor Capitão de Corveta J. Teodoro do Sacramento.

SEGUNDA PARTE

Capítulo XIII
O CLERO EM CENA

O PADRE FLORÊNCIO DUBOIS

Como era natural, naturalíssimo até, o alarme que a


publicação dos resultados das experiências de tais fatos
produziu na sociedade paraense, conquistando adeptos em
todas as classes sociais, ainda a mais culta, desgostou o
clero. Urgia o combate sem tréguas nem contemplações:
todos os meios serviriam, justificados pelos fins.
Encarregou-se da empreitada o reverendo Florêncio Dubois,
que o jornalismo indígena já proclamara polemista
invencível, pelo vigor do ataque e elegância tersa da
linguagem. Francês de origem, houve quem o revestisse das
insígnias ilustres de êmulo de Vieira no manejo luzido e
correto do nosso idioma.
O padre Florêncio Dubois, que fora à guerra, que
arriscara a vida pela sua bela e querida França, voltara
forrado pelo prestígio impressionante e amedrontador de um
homem que estivera no “front”, espatifara alemães e não
tivera nem ao menos ferimentos de “natureza leve”... Todo o
seu artigo tinha rumores e feição de bombardas. E em seus
ardores e torneios de polemista, de quando em quando traía
os ardores desumanos do guerreiro e os modos soltos dos
acampamentos: “em polêmica - disparava S.S.ª - não admito
o olho por olho, dente por dente. O meu lema é: dois olhos
por um olho, dois dentes por um dente. E quem não gostar
da minha tática, poderá ir consolar-se com o perispírito da
sua bisavó.” Em vez do púlpito de Vieira há nisto alguma
coisa do “front”: Apontar armas! Fogo! Vá para o diabo que
o carregue! E' inigualável. E jamais alguém o excedeu nessa
tática admirável, toda sua, de patente registrada
constantemente na imprensa diária. Combatia, pois, a seu
jeito. Toda vez que o terreno lhe era falso e a causa ingrata,
abria o fogo de chalaças pungentes.
Ao adversário, oferecia-lhe o dilema inelutável: revidar
na mesma tática, ou deixar o campo. De qualquer forma
estaria perdido: se revidasse, o padre Florêncio Dubois,
“melindrado”, não voltaria mais à imprensa; se detestasse
aquela tática, S. S.ª reverendíssima, após um ou dois artigos
mais, entoaria o seu canto de vitória...
Pois foi um adversário assim, por todos os títulos temido
e respeitado, que se incumbiu de investir e destroçar a
verdade dos fenômenos espíritas.
Logo no primeiro disparo, viu-se que S. S.ª não vinha de
brincadeira. Tomou para assunto a fotografia obtida um mês
antes. Trinta dias carregando a arma, aprovisionando-se para
a peleja, que seria breve e terrível.
Foi engenhoso e simples o vigor do primeiro ataque:
reduziu todos os experimentadores a pó desprezível de
fraudulentos e os assistentes a cinzas levianas de papalvos.
Explicou o caso a seu modo, que os fins justificavam os
meios. Primeiro S. S.ª falou (12) dos sorrisos de ironia que
lhe despertara a fotografia, da alegria silenciosa, interior,
porém, tão intensa que, para não ficar com um nó na
garganta, desabafou numa risadinha quase que imperceptível
sem o menor estrépito, mas que, durante alguns instantes,
obrigou S. S.ª a abanar a cabeça, às pequeninas sacudidelas
perpendiculares, à moda dos velhinhos a quem a idade
imprime um perpétuo movimento afirmativo. Só depois de
assim estrategicamente preparar o espírito público, desferiu
os três argumentos capitais, digo, os três golpes mortais,
fulminantes.
(12) - Artigo incerto na Folha do Norte, de 20 de Junho de 1920.
Repare-se a força e a destreza davídica da pancada: Vejo
no quadro umas palavras que decerto foram acrescentadas:
“Clichê Fulano”, “Clichê Beltrano”. Tais letras vieram
escritas ou buriladas na chapa a lápis ou a buril, depois do
banho que revelou e fixou o negativo. Pois bem: assim como
é fácil juntar nomes numa chapa, da mesma é muito
possível, antes de ser colocada no “chassis”, raspar, à
claridade da lâmpada vermelha, a camada impressionável,
em forma de fantasma. Reparem bem, exorta S. S.ª (e nós
também repetimos: reparem bem), como o vulto se esconde
cautelosamente atrás da médium que lhe vela a metade do
corpo, como se realmente a senhora fora fotografada, numa
lâmina que já trazia a forma do pretenso defunto.
E conclui, sem cerimônia alguma: “temos aqui uma
patente dissimulação ou habilidade cênica, como quer que a
queiram chamar.” S. S.ª esquecera que o “chassis” ficara em
poder de João Alfredo de Mendonça e que este só o
entregara no momento da sessão, sem que houvesse tempo
para a raspagem da chapa, ao clarão de lâmpadas vermelhas..
ou amarelas.
“Dizem os kardecistas - arremete ainda S. S.ª - que o
perispírito é uma nuvem, um vapor etéreo, uma névoa que
flutua e, entretanto, no quadro que estudamos, o
desencarnado finca pesadamente o pé no chão, enquanto que
sua mão Esquerda se equilibra no encosto da cadeira. Tem-se
a impressão de alguém que se está encostando, para não cair,
e não de um personagem aéreo, a pairar no espaço.”
O ilustre reverendo esqueceu que, admitindo mesmo que
a aparição assim se apoiasse, tratava-se de um Espírito
materializado e não de um perispírito apenas.
Ainda: o Senhor Duboìs, no seu artigo, troçou a seu
modo, da. touca, da “toilette” do Espírito, mas, o que não
fez, foi chamar a atenção dos seus leitores para a estreiteza
que há na parte inferior do tronco do fantasma. Com efeito,
entre o peito e a cintura, o vulto toma forma delgada
impossível a um organismo humano...
Enfim, auxiliado por um gratuito inimigo do Espiritismo,
S. S.ª desfecha o golpe de misericórdia na fotografia:
Traslado aqui urna derradeira crítica - diz o reverendo. – Não
é minha: o seu a seu dono. Afigura-se-me decisiva, como
testemunha da fraude, no nosso caso: A senhora e a mobília
projetam uma sombra, ao passo que o espectro, ainda que
opaco, ficou inteiramente rodeado de luz. Os leitores
constatam como as cadeiras e a médium vão acompanhadas
pela sombra, quando a visagem aparece à laia de boneco
chinês e digam, a puridade, se o defunto e se a sombra foram
retratados no mesmo instante (o grifo é nosso). Enxergamos,
repetidos no espaço, à distância matemática, os contornos da
vidente e da mobília, e nada vemos a ladear o perispírito tão
grosseiramente debuxado na chapa; o mesmo relâmpago de
magnésio não iluminou decerto a senhora e o tal
desencarnado porque, sendo fotografados ao mesmo tempo,
tanto rodear-se-ia de penumbras a visagem como a espírita.
“Houve duas imagens ajeitadas a uma terceira vez diante
do aparelho, que deram uma cena única para impressionar os
papalvos.
“Não sei porque, ao afirmar o ponto final, canta-me na
memória e pinga-me da pena um dito de Alexandre Dumas
Filho: Fico humilhado de ver que o gênio humano tem
limites e que não os tem a tolice humana.”
Foi nestes termos que o polemista católico iniciou o
combate aos fenômenos de materialização.
Não faremos favor algum reconhecendo irretorquíveis os
argumentos assim lançados, com energia e calor, pelo
simples fato de que eles trazem o cunho das coisas
peremptórias, dos fatos consumados. Desabam sobre nós
como sentenças passadas em julgado, inapeláveis
A critica, por decisiva, é a própria testemunha da fraude;
a sombra deixada pela médium e pela mobília não fora
retratada. num único instante com o fantasma; o mesmo
relâmpago de magnésio não iluminou, “decerto” (quanta
certeza!), a senhora e o “tal desencarnado”, etc. Atente-se no
tom autoritário de tais afirmativas. “Magistier dixit”
Não se verificou que, estando junto, encostado à parede,
por detrás da médium, o vulto não poderia deixar sombra
alguma... Cole-se o reverendo Florêncio Dubois a uma
parede e mande tirar a sua fotografia. Afirmo que, ainda que
S. S.ª os tivesse, nem dos seus respeitáveis pecados a menor
fímbria de sombra sairia ou, se saísse, seria tão estreita
quanto aquela que acompanha todo o vulto do fantasma...
Mas, paciência!
Todos os argumentos do valoroso soldado católico, que
bem merecia as dragonas, isto é, o anel de arcebispo pelos
serviços já prestados à Igreja, se totalizam nesta afirmativa:
fraude!
Ora, assim sendo, que alguém responda por nós, alguém
bastante insuspeito porque menos interessado na questão que
o ex-vencedor de alemães.
Capítulo XIV

Essa resposta, de um dos papalvos, não se fez esperar, e


nela não sabemos o que admirar mais: se a nobreza da sua
espontaneidade, se a força dos seus argumentos. Ei-la:

O nosso ilustre reverendo amigo padre Dubois não tem


por hábito palestrar seriamente sobre coisas sérias. Ele
próprio proclamou esta verdade, não há muito, quando
aproveitou uma das suas apreciadas crônicas domingueiras
para gizar uma formidável “reclame” em benefício das obras
da Basílica de N. S. de Nazaret, a qual, querendo n povo...
cair com os cobres, pode ficar concluída, mediante modestas
espórtulas que integrem os centenares de contos de que o
vigário precisa para o remate da construção.
Não costumando, pois, o reverendo falar seriamente de
coisas sérias, nada há a estranhar na sua estirada crônica de
ontem, neste jornal, a propósito dos interessantes fenômenos
espíritas ocorridos na residência do Senhor Eurípedes Prado,
um cavalheiro digno de todo o apreço pela sua integral
idoneidade moral.
Tais fenômenos, embora não possamos explicá-los, pela
ausência absoluta de estudos e conhecimentos especiais
sobre o assunto, consideramo-los uma coisa séria e só
seriamente podemos deles tratar, razão por que sentimos não
poder acompanhar o padre no terreno chalaceiro por onde
enveredou.
Preliminarmente - diga-se sem rebuços - devemos
confessar que não nos move nenhum sentimento seitista.
Não somos adepto nem praticante do Espiritismo, que, como
religião, nos merece a mesma indiferença que votamos às
missas, confissões e outros atos do ministério do reverendo
Dubois.
Despido desses preconceitos religiosos, podemos dar o
nosso depoimento perfeitamente idôneo e insuspeito.
Postas de lado as faceciosas objurgatórias do padre,
queremos apenas ratificar com o nosso testemunho os termos
da noticia que a “Folha, com a sua responsabilidade
redacional, inseriu em edição de 20 de Maio pretérito,
estampando nessa ocasião o “clichê” ontem reproduzido para
ilustrar o artigo do padre Dubois.
São tópicos dessa notícia:
“Atraído por essas manifestações, o maestro. Ettore
Bosio, que é um excelente amador fotográfico, deliberou
apanhar um “clichê” do Espírito manifestado, tendo para isso
realizado mais uma experiência.
“Estudado o processo que poderia garantir melhor êxito
aos trabalhos do maestro Bosio, este, para dar um caráter de
absoluta autenticidade à prova que ia realizar, convidou os
Srs. senador Virgílio Mendonça, Doutor Alberto Chermont,
diretor do “Estado do Pará”, e João Alfredo de Mendonça,
secretário da “Folha”, a controlarem com as suas assinaturas
as chapas fotográficas que iam servir à interessante
experiência.
“De fato, na tarde de 17 do corrente, reunidos aqueles
cavalheiros no “Centro Fotográfico”, de propriedade do
professor José Girard, à rua 13 de Maio, onde foram
adquiridas as chapas, aí autenticaram as mesmas com as suas
assinaturas, em presença dos fotógrafos José. Girard e
Armando Mendonça.
“Assinadas as chapas e carregado o “chassis”, foi este
lacrado e só entregue, à noite, ao maestro Bosio, na
residência do Senhor Eurípedes Prado, onde às 8 horas, além
de outras pessoas, estavam presentes os Srs. senador Virgílio
Mendonça, Doutor Nogueira de Faria, 1° prefeito, deputado
Apolinário Moreira, Doutor Feliciano Mendonça,
farmacêutico Pedro Batista, corretor Pedro Bastos e esposa,
João Alfredo de Mendonça, etc.
“Feitos os preparativos, o maestro Ettore Bosio, à luz do
magnésio, pois o trabalho necessitava ser feito em plena
escuridão, apanhou uma chapa fotográfica, a qual, depois de
revelada, denunciou a presença de um ser estranho à
assistência.
“Convém frisar que a chapa foi revelada poucos
momentos depois da explosão do magnésio, tendo sido o
maestro Bosio auxiliado nesse trabalho por um fotógrafo do
“atelier” Girard.
“Impressa a fotografia, com geral surpresa para todos e
indizível. comoção do Senhor Eurípedes Prado, declarou este
que o vulto fotografado reproduzia as feições do Senhor
Joaquim Prado, pai daquele cavalheiro, há anos falecido.”
Tudo quanto se contém no trecho transcrito é a expressão
insofismável da verdade, como pode ser atestado pelas
pessoas citadas na referida. notícia e pelo nosso prezado e
veraz companheiro de trabalho Eustáquio de Azevedo,
também presente à sessão e cujo nome fora omitido na
notícia por involuntária e quase imperdoável traição da nossa
memória.
De fato, escolhidas as chapas no “atelier” fotográfico do
professor José Girard, em sua presença e de sua distinta
esposa, separadas essas chapas de um grupo de oito ou dez
caixas, foram elas autenticadas com as assinaturas dos Srs.
senador Virgílio Mendonça, comandante Antônio Chermont,
diretor do “Estado”, e o despretensioso autor destes rabiscos.
Constituiu essa autenticidade em escrevermos os nossos
nomes, com tinta especial, numa tira de papel, a qual foi
decalcada sobre duas chapas, na câmara escura; pelo
fotógrafo Armando Mendonça, do “Estado”, e por outro
profissional do “atelier” Girard. Com esse decalque foi
obtida a transposição das assinaturas para as chapas, as quais
na mesma ocasião, foram introduzidas num “chassis”.
Prevendo as objeções dos ortodoxos incrédulos, como o
padre Dubois, o autor da experiência que se ia praticar, o
maestro Bosio, fez questão de que fosse lacrado o “chassis”,
no que foi satisfeito.
Em presença de todos, lacrou-se o estojo, que foi
embrulhado num papel e este novamente lacrado. Em
seguida, o maestro Bosio confiou o embrulho a quem estas
linhas escreve, pedindo-lhe que só o devolvesse a noite, na
ocasião da experiência.
Aceitamos a incumbência e trouxemos o “chassis” para
esta redação, onde todos os nossos companheiros de trabalho
viram o invólucro lacrado.
À noite, às 8 horas, levamo-lo conosco à residência do
Senhor Eurípedes Prado e aí o entregamos ao maestro Bosio,
verificando os presentes estar intacto o “chassis”.
Fêz-se a seguir a fotografia, à luz do magnésio, e,
revelada a chapa, em nossa presença, foi obtido o resultado
de todos conhecidos.
Como e quando, pois, seria possível raspar, à claridade
da lâmpada vermelha, a camada impressionável, em forma
de fantasma?
Falamos ontem, ao fotógrafo e ao gravador da “Folha”, e
ambos afirmaram, com a sua responsabilidade profissional,
serem inteiramente infundadas as razões com que o padre
Duboïs pretende fortalecer a sua crítica fotográfica.
Ademais, que interesse teria o Senhor Maestro Bosio,
que todos reconhecemos um homem probo, em praticar
semelhantes intrujices
E o Senhor Eurípedes Prado e sua distintíssima esposa,
senhora de raras virtudes, que interesse terão em reunir, no
recesso abençoado do seu lar, um grupo de “papalvos”
recolhidos da melhor sociedade de Belém, “papalvos” que
exercem funções de alta responsabilidade e que se
notabilizam, à exceção do signatário, pela sua cultura em
várias províncias do saber humano?
Que agradeçam ao padre Dubois o epíteto de papalvos os
ilustres clínicos, que muito honram a classe médica do Pará,
Drs. Jaime Aben-Athar, Virgílio Mendonça, Porto de
Oliveira, Feliciano de Mendonça, Pontes de Carvalho e
outros, bem como os não menos ilustres magistrados e
advogados, desembargadores Santos Estanislau, Anselmo
Santiago e Napoleão de Oliveira, Drs. Xavier de Carvalho,
Amazonas de Figueiredo e Nogueira de Faria, engenheiro
Gentil Norberto e senador Justo Chermont, estes dois
últimos que acompanharam ó ministro japonês no Brasil,
Senhor Kouma Hourigoutchy, na sua visita à residência do
Senhor Eurípedes.
Afinal, não cabe a nós a defesa do assunto sobre que o
padre Dubois fez disparar o terrível canhoneio do “
trommelfeuer” da sua ironia aparentemente demolidora, mas
inofensiva.
Há gente mais autorizada do que nós para realizar essa
obra de reparação.
O nosso objetivo é apenas manter em toda a plenitude as
afirmativas que fizemos aos nossos leitores sobre o que
vimos, não com olhos de espírita, mas com olhos de repórter
medianamente arguto.
Foi com esses olhos que pesquisamos a possibilidade de
um truque nesses fenômenos, que não descobrimos pela
simples razão da sua inexistência.
O fenômeno existe: o que não podemos nem sabemos é
explicar a sua causa.
E se o nosso ilustre e reverendo amigo padre Dubois
persistir na dúvida, há um meio prático e fácil de confundir a
nossa afirmativa; e aceitar o convite que lhe dirigimos e que
agora reiteramos, para assistir a uma das sessões na
residência do Senhor Eurípedes. Estamos certos de que este
cavalheiro não oporá contrariedade ao nosso convite.
Vamos, pois, até lá, à rua dos Tamoios n. 43,
acompanhados de um ou mais fotógrafos, da confiança do
padre Dubois.
Arranje a licença do Senhor Governador do Arcebispado
e toca a ver se há retrato de sombra ou sombra de retrato.
Aceite o repto, pois temos certeza de que o nosso
reverendo amigo Dubois será arrolado na lista dos
“papalvos”, em cujo número incluiu o seu devotado amigo e
admirador.
João Alfredo de Mendonça.”
O nosso amigo poderia ter findado assim, revidando a
citação, feita pelo padre Dubois, da frase de Alexandre
Dumas Filho, com esta do celebre historiador Eugênio
Bonnemère: “Como todo o mundo, eu também me ri do
Espiritismo. Mas, o que eu pensava ser o riso de Voltaire não
era mais que o riso do idiota, muito mais comum do que o
primeiro.”

Vem de feição transcrever aqui a carta pelo Senhor José


Girard endereçada ao maestro Bosio - a maior vítima do
padre polemista e guerreiro - e relativa à fotografia que S.
Revma., por dever de ofício, classificou de produto de uma
fraude. Essa carta do distinto artista foi provocada por uma
outra de Bosio, assim escrita:
“Prezado amigo Senhor José Girard
Cumprimentos afetuosos
Rogo-vos a fineza de vos permitirdes responder-me em
seguimento desta:
a) se tenho recorrido ao vosso “atelier” para revelação de
fotografias espíritas;
b) se o “chassis”, contendo as chapas assim
impressionadas, foram carregadas no vosso próprio “atelier”;
c) se o vosso empregado encarregado do banho revelador
notou nas chapas referidas indício de fraude, por mais leve
que fosse;
d) se esse empregado teve ocasião de revelar alguma
chapa na residência do Senhor Eurípedes Prado, e se esse ato
foi cercado de todas as garantias;
e) e, finalmente, qual a impressão que vos causaram as
chapas das referidas fotografias espíritas.
Antecipo-vos os meus mais sinceros agradecimentos.
Belém, 10-5-1921.
Ettore Bosio.”
Eis a resposta:
“Belém, 11 de Maio de 1921.
Prezado amigo Senhor Maestro Bosio.
Saudações afetuosas
Em resposta à sua estimada carta, pedindo-me alguns
esclarecimentos a respeito dos trabalhos fotográficos de
fenômenos espíritas, posso, com toda a sinceridade, declarar
o seguinte:
a) Sim;
b) Sim; sendo estas mesmas chapas, aliás vendidas por
mim, retiradas do estoque existente, ficando o resto das
caixas sempre em meu poder;
c) Nunca; absolutamente nenhum;
d) Sim; o meu empregado foi incumbido de revelar uma
chapa na casa do Senhor Prado, imediatamente depois de
tirada na sessão espírita; a chapa que serviu para esta sessão
foi tirada de uma caixa de 1 dúzia escolhida a esmo, entre
um lote de caixas no meu armazém, em presença dos Drs.
Virgílio Mendonça, João Alfredo de Mendonça, Antônio
Chermont e o gravador Armando Mendonça (13). Aberta a
caixa no quarto escuro, em presença da comissão
encarregada disso, foram duas as chapas colocadas no
chassis e rubricadas; o chassis foi lacrado e sobre o lacre
impresso o monograma de um dos membros da comissão. O
chassis assim lacrado foi entregue a um dos membros da
comilão, que, por sua vez, o entregou, na hora de tirar a
chapa, ao operador maestro Bosio. Depois de tirada a
fotografia e revelada pelo mesmo empregado em presença
dos assistentes, ela foi depositada.. às 10 horas e meia da
noite no meu laboratório, onde se concluiu a lavagem e
secagem;
(13) - Como assim possa parecer ao leitor, convém declarar que entre o Doutor
Virgílio Mendonça, João Alfredo de Mendonça e Armando Mendonça nenhum laço
de parentesco existe e que nenhum é espírita.
e) Fiquei muito surpreendido com os curiosos resultados
obtidos nestas chapas, os quais nunca tinha presenciado em
chapa alguma.
Eis aqui, amigo Maestro, o que posso esclarecer, ficando
sempre ao seu dispor.
O amigo e criado obrig.
José Girard.”

As palavras de João Alfredo de Mendonça, o reverendo


respondeu:
“Eu tudo explico pela fraude, ainda pela fraude, sempre
pela fraude.” E acrescentou: “Se os espíritas fazem do seu
credo reclames e preconícios, assiste-me o direito de fazer
contra-reclame e anti-preconícios. Cabem seus milagres que
me encarrego de acolhê-los com a risada do bom senso
popular. E se não, quiserem os kardecistas sofrer repulsas em
público e pela imprensa, não venham impor aos leitores dos
jornais a narração das suas proezas.”
Vejamos por partes o que acima ficou escrito.
Ninguém contesta nem jamais contestou ao padre Dubois
o direito de crítica às doutrinas contrárias à Igreja. O direito
que S. S.ª não possui, que a lei brasileira não lhe dá, é o de
ofender aqueles que as professam ou que não rezam pela
mesma cartilha que os sacerdotes católicos.
No caso em apreço, S. S.ª caluniou os que, não tendo
praticado fraude alguma, são por S. S.ª apontados como
fraudulentos. Mais: S. S.ª ofendeu aqueles que, tendo
afirmado a veracidade de certos fenômenos, porque os
verificaram, foram arrolados por S. S.ª entre mentirosos e
papalvos.
Esse direito é que S. S.ª não tem, nem decerto lho
aconselha, estamos convictos, a sua consciência de homem
culto.
Além disso, há na última frase transcrita uma inverdade
nós, os espíritas, não impomos nem impusemos nunca aos
leitores- dos jornais a narração das nossas proezas. Antes
que tudo, não as praticamos. Se as manifestações de além-
túmulo são proezas, não nos pertencem, mas aos próprios
mortos.
Praticou-as o próprio Cristo, desde quase a hora da sua
“ressurreição”, já aparecendo a Maria de Magdala e dizendo-
lhe: “não me toques”, já a caminho de Emaús e ainda quando
feriu de morte a incredulidade de Tomé...
Dessas proezas anda cheia a história dos Santos - e é bem
rara a pessoa que não tenha a contar a aparição de um
parente, de um amigo, de um ser querido, enfim, que a morte
levou.
Mas, vamos admitir que nós, os espíritas, as
praticássemos. Noticiá-las importa em impor a sua leitura?
Se alguém as lê é porque isso lhe apraz. Não leia. Tanto vale.
A verdadeira propaganda espírita, aquela que fica, que
desperta a fé inextinguível, quase sempre começa pelo fato e
tem quase sempre a sua incude na cura de um sofrimento
físico ou moral. Depois é que vem a leitura, o estudo, a
meditação. Isso em regra geral, que há exceções e muitas.
Conheço inúmeras pessoas que se convenceram das verdades
espíritas tão somente pelo raciocínio, pelo estudo comparado
das outras religiões.
*

A questão, entretanto, avultou, dividindo-se o campo


limitado pelos pontos de vista de cada um dos que a
discutiam de um lado o reverendo Florêncio Dubois e seus
correligionários afirmando caluniosamente a fraude; de outro
lado, aqueles que, repelindo a “hipótese espírita”, entre os
quais muitos médicos de valor, também repeliam a idéia da
fraude, atribuindo de preferência os fenômenos a casos de
psicopatia (14); e, finalmente, os espíritas assegurando a
veracidade dos fenômenos, a sua origem além-tumular, sem
negar, entretanto, o que seria extravagante e tolo, a
possibilidade, em certos casos, do desdobramento do
médium.
(14) - Escreve o Senhor Doutor Porto de Oliveira na Folha do Norte de 2 de
Agosto:
“Admitir ao Senhor Prado o propósito de ludibriar o público e, sobretudo, os
seus amigos, explorando as fragilidades cerebrais de sua esposa, ciente como deve ser
dos riscos a que a exporia, é um fato que repugna acreditar. Seria aberrar de todos o
preconceito moral. Atribuir a Exma esposa do Senhor Prado conivência em tais
manejos, igualmente o nosso Espírito repele: conceber que a mesma Exma. senhora
ludibrie o próprio marido, e indiretamente aos demais, não há intuitos confessáveis
que o justifiquem”.
Influência estranhas poderão exercer, sobre a médium ou sobre o próprio
marido, tão grande ação ao ponto de levá-la, ou a ambos, à prática de tais fatos?
Estaremos em presença de um caso de psicose a dois, ainda não estudada por Seghele?
A própria médium, em hipnose, não poderá desdobrar ou pluralizar a
personalidade de forma a motivar a aparição de vários fantasmas? São hipóteses
aceitáveis. E, provavelmente, uma delas explicará o caso interessante.
Grande histérica, psicopata de qualquer categoria, a médium. será talvez capaz
de inconscientemente praticar tais proezas.
Todos os experimentadores têm trabalhado com médiuns estranhos ã família,
onde a possibilidade de serem ludibriados. No caso, porém, do Senhor Prado, não se
pode admitir que a própria esposa o faça: seria indigno de comentário. Em qualquer
caso a psicopatia seria aceitável e nisto concordam todos os mestres.
Somos dos que admitem a realidade de alguns fenômenos psíquicos, posta ã
margem, naturalmente, a hipótese espírita, como a mais fraca, hipótese meramente
provisória.
No caso concreto, cremos que a médium consegue por um truque inconsciente
abandonar a grade e produzir os fenômenos a que todos assistem.
Grade especial, inteiriça e toda de ferro, sabemos estar sendo executada numa
conhecida serralheria: será uma prova valiosa e é mister que não a recusemos."

Capítulo XV

AINDA A OFENSIVA DO SENHOR FLORÊNCIO


DUBOIS

Entretanto, fiel ao seu método, oscilando entre a


“pedrinha de sal grosso” (15) e as acusações injuriosas,
porque imputavam aos esposos Prado e ao Maestro Bosio
fatos ofensivos da reputação, do decoro e da honra dos
mesmos, o padre Florêncio Dubois mantinha a mesma
atitude agressiva do primeiro momento. Fora raptado para
assistir ao fenômeno; aceitou, mas, em vez de aguardar a
prova, o que seria coerente e justo, enquanto “esperava” o
dia, não poupou agravos à família Eurípedes Prado.
(15) Chalaceiro sou eu. Na insipidez das minhas frases deito uma pedrinha de sal
grosso. Se não tenho boa mão, a culpa é do meu gênio mal abastecido de dotes. Cada
saco dá a farinha que tem, e cada árvore a fruta que lhe é própria. (Da Folha do
Norte, de 23 de Junho de 1920.)
Afinal, publicou as condições em que aceitaria o repto
que lhe lançara João Alfredo de Mendonça. Ei-las:

“AS MINHAS CONDIÇÕES

1° - Efetuar-se-a a sessão em outro local que não a casa


do Senhor Eurípedes Prado: por exemplo, numa casa de
família, onde não haja bastidores, gabinetes, alçapões,
postigos, etc...
2º - A sala ficará sem mobília, quadros, espelhos,
cortinas, sofás: apenas cadeiras.
3º - Duas ou três senhoras revistarão cuidadosamente a
médium, de modo a que esta não oculte, debaixo do
vestuário, flores, mãos artificiais, tubos de matérias
fosforescentes, tecidos finos, cabeças de espectro...
4º - Ficará a médium num círculo formado pela
assistência, de modo a ter liberdade de movimentos.
5º - Com exceção do marido, nenhuma pessoa de sua
família acompanhará a médium.
6º - O marido sentar-se-á no meio da assistência, como
espectador.
7º - Os convidados serão metade dos amigos do Senhor
Eurípedes Prado, metade dos meus amigos.
8º - Interrogaremos o Espírito que porventura aparecer.
9°- Toca-lo-emos de leve, a fim de constatar se é deste
ou do outro mundo.
10º - Levaremos fotógrafos nossos, como o Senhor
Eurípedes levará os seus. As chapas deverão estar nos
embrulhos, como vêm estes das casas comerciais.
11º - Examinaremos o local, antes e depois da sessão.
12º - Pediremos à médium que evoque defuntos nossos
conhecidos.
13º - Dispensaremos a execução de trechos musicais.
14° - Igualmente recusaremos que a médium se feche na
sua gaiola.
15º - Finalmente, pediremos mais de uma sessão.
Respondam, sim ou não, ao pé da letra, os cavalheiros do
Espiritismo, que irei, com muito prazer, contemplar o que
nunca vi, nem verei: um defunto a falar, ou a andar.
Padre Dubois.”
(Da Folha, de 28 de Junho de 1921)
Respondeu o Senhor Eurípedes Prado, nestes termos:
“Ilmos. Srs. João Alfredo de Mendonça e Doutor
Nogueira de Faria.
Li as condições sob as quais o padre Dubois se dignará
assistir a uma ou mais das sessões em que se produzem os
fenômenos a cuja observação me dedico.
Não disponho das modalidades do fenômeno para
submetê-lo a certas e determinadas condições.
Replicando proponho, por minha vez, as condições cujo
critério submeto à apreciação da intelectualidade paraense.
O fenômeno será provocado dentro das modalidades
habitais, pois não disponho de poder para modificá-lo.
Nada de amigos, nem meus, nem do padre.
Sentar-nos-emos, eu e o padre, na fila de cadeiras
destinadas à assistência, ficando ao nosso lado oito, dez ou
doze (o número não importa) membros da Sociedade
Médico-Cirúrgica do Pará, excluindo os que professarem
idéias católicas ou espíritas. Eu e o padre aceitamos,
previamente, o laudo dessa comissão.
Entenda-se que não discuto a causa do fenômeno; desejo
apenas que fique verificado se há ou não fraude.
O padre parece temer o contacto dos médicos, mas eu,
que não considero os fatos espíritas uma religião, e que sou,
mesmo, contrário à sistematização religiosa, estou
convencido de que aos Srs, médicos ninguém pode negar a
presunção de representarem uma das classes mais cultas do
meio científico. Não argumentemos com exceções; nada de
sofismas.
Quem se coloca sob o gládio de homens de ciência, não
se esconde.
Repito: nada de amigos, quer meus, quer do padre.
Venham juízes esclarecidos e imparciais.
Com apreço, firmo-me
De VV. SS.ª Am.° At.° Obr.°
Eurípedes Prado.”

(Da Folha do Norte, de 27 de Junho de 1920.)

Mas, o Senhor Dubois, em vez de, como seria justo,


aguardar a resposta do Senhor Prado, no mesmo dia em que
este publicava as linhas supra, isto é, a 27 de Junho, ocupava
duas colunas do mesmo jornal, a “Folha do Norte”, e, entre
outras coisas, afirmava:
a) que o retrato era legítima trapaça;
b) que “perscrutando as falsidades que tressuavam na
chapa famosa, enxergava dezenas de indícios de
trampolinagem, pouco importando lhe fosse dado descobrir
onde, como e quando se dera a tramóia”;
c) que as fotografias de Eurípedes Prado, com os seus
embustes, exalavam “pitiú de velhacaria”
d) que fora a Senhora Prado quem, “com a virtuosidade
adquirida em constantes exercícios, tirara do regaço panos
pretos e os aplicara no lugar conveniente”, etc.
Quer dizer: para o Senhor Dubois, Eurípedes Prado era
trapaceiro, falsário, trampolineiro, embusteiro, velhaco e sua
própria esposa uma “virtuose” em todos esses atos indignos.
Diga-se em sã consciência: Como lutar com um
adversário assim?
Não satisfeito ainda com essas injúrias, o Senhor Dubois,
no dia 29, respondendo ao Senhor Prado, publicou o
seguinte:
“Senhor Eurípedes Prado.
O repto foi atirado a mim, não aos médicos. Ao
desafiado, portanto, e não aos médicos, pertence à escolha
das armas. digo, das condições.
Pode o senhor convidar quantos médicos lhe aprouver,
que a isto não vejo dificuldade, nem vantagem. Por segredo
profissional, por discreção de cavalheiros, por desgosto de
entrarem numa polêmica, para não melindrarem clientes, os
médicos ficarão na dúvida científica, não darão laudo
nenhum, abanarão a cabeça, e tudo ficará como dantes no
quartel de Abrantes.
Alguns médicos já deram prova de que são demais
impressionáveis. Em tais sessões menos serve a Ciência do
que o sangue frio. O júri, em vez de médicos, devia ser de
prestidigitadores, habituados a todas as habilidades.
“Não disponho, diz o senhor, das modalidades do
fenômeno para submetê-lo a certas e determinadas
condições. Minhas condições não afetam as modalidades do
fenômeno”.
Se há fatos mediúnicos, não os impedirá a mudança de
casa... a falta de mobília... a revista da médium... o circulo
dos assistentes... o afastamento dos parentes da médium... a
presença dos meus amigos... a vinda de um fotógrafo... o
exame do local... a supressão da gaiola... as perguntas à
médium.
Em vez de discutir uma por uma estas condições, o
senhor achou melhor repeli-las em bloco, apelando para
médicos, quando a prestímanos é que devíamos recorrer.
Sem ofender à culta classe médica, repito aqui a
observação de um moço distinto. Cada vez que por aqui
aparece um prestidigitador, o seu primeiro cuidado é
convidar a Faculdade, para que constate como no palco se
degola uma mulher. E os esculápios riem-se do truque, sem
atinarem com a explicação.
Sentar-me na sessão como simples espectador, dirigindo
olhares melosos ao fantasma e à boneca, é coisa que não me
convém. Presenciei admiráveis ilusionismos e nunca me foi
dada à chave dos artifícios do artista. A cada pergunta este
respondia: “E fácil, porém é preciso saber!” Desejo muito ir
as mediunizações, mas não quero que me impossibilitem a
pesquisa. Ficar, numa cadeira, de mãos juntas, de joelhos
apertados, com ares abeatados, quietinho como um colegial,
serviria aos planos do Senhor Eurípedes, não à minha
vontade de tudo desmascarar.
Desde alguns dias, os espíritas se sangravam na veia da
saúde. Diziam que eu não devia impor condições que
estorvassem a médium. Preparavam-se uma porta de saída.
Nunca acreditei que me deixassem entrar, porque o exame da
fotografia provou de sobejo que na sua casa, senhor, reina a
fraude, e uma fraude deslavada. Não há um fotógrafo que
desconheça o embuste, sobretudo quando, em vez da
reprodução dos jornais, vai diretamente examinado, com a
lente, o retrato.
As condições minhas são as que impõem as comissões de
sábios, na Europa. Achando-as duras, o senhor podia propor
uma base de discussão. Prontificava-me, a fim de provar
minha boa vontade, a renunciar a certas cláusulas. Aceitei as
trevas, porque disto fazem muita questão os ocultistas, e para
isso têm seus motivos.
“Atualmente - diz William Mariatt - as materializações
são menos comuns que dantes... devido à invenção das
pequenas lâmpadas elétricas de bolso, que são dirigidas às
formas espíritas por “descrentes” presentes. Esta é a razão
“por que os médiuns fazem questão que os assistentes sejam
“crentes” convictos: desse modo eles não se arriscam a ser
“presos em flagrante delito de embuste.
Não reclamei o direito de agarrar o fantasma, porque
dizem os kardecistas que seria a morte da médium, e nisto
têm cerradas de razões. Não exigi de ficar ao lado da
evocadora, porque os espíritas sustentam que seria obstar aos
fenômenos, e nisto ainda têm milhares de razões.
Mostrei-me, enfim, bom rapaz.
De nada valeu. Não posso levar fotógrafo, nem amigos.
Proibidos são os médicos católicos, por demais incultos. A
sessão terá lugar na morada do Senhor Eurípedes, porque de
outro prédio não gostam as sombras, e vejo sempre toneladas
de razões para esta sábia determinação.
“Eu e o padre aceitamos, de antemão, o laudo desta
comissão.”
Perdão! Abaixo o “magister dixit”. Acredito na verdade,
e nada mais! Não temo aos médicos. Não lhes reconheço aí
competência, porque o fato de ficarem sentados não lhes
permite averiguar dos fatos.
Ou o Senhor Eurípedes dá-me a mais ampla liberdade de
ação, para pegar a médium com a boca na botija, ou lá não
vou. Se quiser, faça suas propostas.
Senão, temos conversado.
E os espíritas ficam publicamente convencidos de fuga,
de fuga imoral, de fuga vergonhosa.
Tenho dito.
Padre Dubois.”
(Da Folha do Norte, 29 de Junho de 1920.)
E a seguir, no dia 30 de Junho e 1 de Julho, respondendo
a um artigo nosso, o padre Dubois prodigalizou jocosidades
de mau gosto e novas injúrias ao Senhor Eurípedes Prado.
Percebia-se o intuito de provocar um gesto que o livrasse da
aceitação do repto.
Certamente que outro espírito mais afeito à luta e aos
botes da maldade humana, se dominaria, subjugando os
ímpetos da indignação ou desprezando tais insultos. Isso,
porém, era prova superior às forças de Eurípedes, que, após
dura crise moral entre o desejo veemente de uma desforra a
que nenhum homem de bem negaria o seu aplauso e a
violação dos princípios que professava, preferiu o caminho
traçado nestas linhas:
Escreve-nos o Senhor Eurípedes Prado:
“Não respondo ao padre: a linguagem em que ele se
expressa dispensa-me perfeitamente desse encargo. No
entanto, sou forçado a chamar a atenção dos que têm
acompanhado esse assunto para o seguinte:
Autorizei o convite ao padre para assistir a uma sessão
das que se realizavam em minha casa, porém, não podia me
comprometer a comparecer a uma sessão idealizada por ele,
sujeitando-me a certas e determinadas condições.
Hoje venho declarar, aos que não conhecem as
modalidades do fenômeno, que este é realizável dentro da
maioria das condições questionadas, porém a má fé do padre,
exemplificada pelos bárbaros insultos com que,
propositadamente, procurou incompatibilizar-se comigo,
obrigou-me a evitar-lhe o contacto.
Conforto não me tem faltado de pessoas sensatas e uru
certo número de homens cultos e independentes, acima de
toda a suspeição, vai-se congregar para realizar uma série de
experiências, que comprovarão a verdade.
Esperem pelos fatos.
Eurípedes Prado.”
Estava resolvida a contenda. A tática do Senhor
Florêncio Dubois dera-lhe a vitória, que era, no caso, não ir
às sessões. Triunfante deixou cair sem perda de tempo, sobre
o terreno da luta, a espada, no seu entender,

ÚLTIMA PÁ DE CAL

O Senhor Eurípedes Prado foge de galho em galho, de


subterfúgio em subterfúgio, de escapatória em escapatória.
Primeiro, recusou em bloco minhas condições: agora
acha algumas aceitáveis.
Primeiro queria-me ao seu lado, rodeado de um certo
número de médicos. Agora, nem pintado me admite.
Porquê?... Insultei-o?
Olhe, Senhor Eurípedes, V. S. perde uma bela ocasião de
ficar calado. Não mande à imprensa as desculpas que outrem
redige, e a quem dá o senhor o seu nome.
Insultei? Porventura, atingi sua probidade comercial, sua
honra conjugal, a fama dos seus filhos, as virtudes de sua
esposa? Não, meu amigo! Respeito o seu lar, a sua casa,
tanto que, devendo desmascarar as fraudes, não o quis fazer
na sua residência, onde me agrilhoariam as leis da
hospitalidade.
Combato, isto sim, e sem piedade, as mistificações de
que foi teatro o seu domicílio, consciente ou inconsciente o
dono. Grosseiro e de má fé me diz o senhor, ou quem lhe
rabiscou a carta. O público, que está rindo à socapa, já
decidiu a contenda.
Começarei, breve, uma série de artigos sobre o
Espiritismo. Pode o senhor se consolar com os confortos que
lhe traz a gente sensata e culta, independente e acima de toda
suspeição. Chore na cama que é lugar quente. Espero as suas
futuras experiências. As atas guiarão minha crítica.
Por enquanto, não mais me ocuparei do senhor, o que
seria contra a caridade.
Quanto ao João, que ficou enterradinho, desejo que, até o
dia em que o fizerem ressuscitar, a terra lhe seja leve... com
o Pão de Açúcar em cima...
A espera de suas próximas experiências, sou do senhor
um amigo desconfiado
Padre Dubois.”
(Folha, 3-7-1920.)
Diz o padre Florêncio Dubois que não insultou Eurípedes
e lhe respeitou o lar!
Regressem os que percorrem estas páginas ao que antes
ficou transcrito e assinado por aquele sacerdote - e julguem.
Será, porventura, respeitar um lar reproduzir em público
uma, duas, centenas de vezes a afirmação de que nele se
praticam mistificações e tramóias?
Será respeitar a honra de um homem chamar-lhe
trampolineiro, do autor de atos que tressuam “a pitiú de
velhacaria”?
Será respeitar uma senhora acusá-la de “virtuosidade”
em atos de fraude?
E as outras injúrias atiradas a essa digna família seria
respeitar-lhe a honra e o lar?
Palavra de honra! a gente fica sem saber o que pensar e o
que responder...

Capítulo XVI

A RECUSA DO SENHOR EURÍPEDES E A NOSSA


OPINIÃO

Em todos os apontamentos, notícias, artigos, aqui


reunidos e também em nossos comentários, temos procurado
obedecer ao mais firme espírito de imparcialidade. Não
importa que sejamos crentes. A crença não nos perturba nem
diminui os nossos sentimentos de justiça. Poderemos errar -
mas mesmo errando somos sincero. Ninguém tem o direito
de nós negar essa atitude de franqueza e justiça.
Por isso mesmo devemos deixar aqui de modo claro,
inequívoco, que fomos dos que discordaram da maneira de
pensar do nosso prezado amigo Eurípedes Prado, quando S.
S.ª, ferido em sua dignidade, trancou ao padre as portas do
seu lar ultrajado por este sacerdote e por ele ostensivamente
indicado ao público como ninho de fraudes.
Bem sabemos como insolitamente este sacerdote se
excedeu em sua maneira de apreciar o fenômeno. Dessa
linguagem injuriosa há, nas transcrições feitas neste livro,
provas abundantes. Nem queremos dar medida à dignidade
alheia, modificar alheios temperamentos. Deus nos livre
disso!
Mas, parece-nos que teríamos forças para dominar os
sentimentos de revolta despertados pelas injúrias do
contraditor e recebê-lo na sessão ou sessões do repto.
Colocaríamos acima da nossa dignidade pessoal a
dignidade da causa em geral, máxime quando nela
houvéssemos interessado a de terceiros e aliás estava no
proveito daquela própria' demonstrar a improcedência das
acusações do Senhor Dubois.
Tal foi nosso modo de encarar o caso. Chegamos mesmo
a solicitar ao Senhor Eurípedes que consentisse em aceder à
prova. Mas o nosso amigo permaneceu irredutível. Sujeitou-
se a novas experiências em casa estranha, mas não em
presença do seu antagonista. Não podia consentir em estar
lado a lado com aquele que tão fundamente ofendera o seu
lar e injuriara sua esposa.
Acreditamos nosso dever deixar consignada aqui essa
divergência que, aliás, não alterou as nossas relações de
amizade fraternal e mutuamente respeitosa.

Pensamos ser bem oportuna a transcrição do resto do


artigo: “O que vimos; o que pensamos”, do Senhor Doutor
Porto de Oliveira, ao qual já aludimos na página 70.
“Na obscuridade da nossa existência, fato algum de
relevo, no sentido de tais manifestações, teve lugar;
posteriormente à sessão nada mais vimos.
Reputamo-nos um equilibrado; a nossa vida privada e
pública deve falar por nós. A nossa probidade profissional,
orgulhamo-nos, pode ser submetida a qualquer prova. Somos
temperante; gozamos saúde relativa; somos de emotividade
pouco fácil. Tudo isso vale por se dizer que nos achamos em
condições de tomar parte calma e friamente em tais práticas.
Dadas as condições do meio, não aceitamos a hipótese de
um “truque” consciente. Cumpre que no-lo demonstrem.
A hipótese de um “truque” inconsciente da médium,
como se pode dar com as grandes histéricas, é, porém,
possível e aceitável. Carece surpreendê-lo, todavia.
Uma alucinação? Mas a alucinação é uma percepção sem
objeto e a objetivação ali era palpável. Sugestão hipnótica
coletiva é difícil de crê-lo. A nossa pouca leitura do assunto,
sobretudo a impressão que nos deixou o livro de W.
Crookes, impôs-nos a convicção da possibilidade de tais
fenômenos, explicáveis algum dia. Vale alguma coisa a
autoridade moral e científica daquele sábio eminente; em sua
companhia, e de outros muitos, não nos pejaremos de ter
sido ludibriado. Mais, muito mais do que vimos na
residência do Senhor Prado, narra Crookes no seu livro
famoso. Por isso o nosso juízo ficou em suspenso e nos
deixamos incluir no número dos papalvos.
Como profissional médico, pouco ciente e sem ambições
maiores, nunca pretendemos ser impecável, e, até onde a
nossa argúcia não logra atingir, julgamos sempre possível
atingir a dos outros. Daí o termos aplaudido o gesto do padre
Dubois, se bem que trilhemos caminhos diferentes.
O padre nega em absoluto sem ter visto; nós vimos,
admitimos a possibilidade, mas pedimos um exame mais
detido, eis a diferença.
Lutador, cronista elegante, polemista de respeito, o padre
Dubois saiu a campo de lança em riste: o seu ânimo belicoso
e a jovialidade gaulesa apuraram-se no campo da batalha. O
sacerdócio impôs-lhe uma tarefa que o temperamento
combativo de antemão prelibara.
Convidado a nosso pedido, não podíamos impor
condições; sentimentos de delicadeza a mais rudimentar
impediram-nos de atentar contra a mais comezinha das
recomendações. Demais, a simples curiosidade nos levara à
residência do Senhor Prado.

A questão, porém, tomou vulto, fechou-se. O padre


Dubois atacou, foi reptado; aceitou o repto e impôs
condições. Podia fazê-las; fê-las de modo perfeitamente
cabível. Todas as suas condições são perfeitamente
aceitáveis dentro das próprias doutrinas espíritas.
Analisemo-las uma a uma. Quanto à primeira - mudança
de cenário - justíssima. Para os espíritas, dizem os
especialistas, o Espírito não tem noção de espaço ou tempo.
Relativamente à segunda - ausência de mobília, razoável,
e tanto mais quanto nas experiências do Senhor Eurípedes,
além da gaiola, das cadeiras e dos assistentes e do ventilador,
apenas existia no ângulo aposto da sala um guarda-vestidos.
Tudo pode ser suprimido e o padre satisfeito.
A terceira se refere ao revistamento da médium, em que
nada enxergamos de vexatório, pois seriam senhoras que tal
fariam.
A quarta pede para fechar-se o círculo dos assistentes.
A quinta e a sexta referem-se propriamente ao Senhor
Prado e parece fácil de satisfazer, o Senhor Eurípedes nunca
deixou de fazer parte da assistência e de sentar-se entre ela.
A sétima estipula quantos convidados de ambas as
partes; é questão de pouca monta.
A oitava - interrogatório do Espírito. Perfeitamente, o
Espírito se comunica e responde ou não, às vezes.
A nona, aceitável, porque é notório que o João toca e tem
sido tocado por diversas pessoas.
A décima diz respeito às fotografias; ainda aceitável,
pois se real o fato, todas as placas serão sensibilizadas.
A duodécima trata da evocação de Espíritos de
conhecidos do padre; aceitável ainda, porque o insucesso não
infirmaria a experiência, porque se diz que nem sempre os
Espíritos determinados atendem às evocações.
Décima-terceira - dispensa de trechos musicais, não só
aceitável, como louvável.
Décima-quarta - dispensa da grade - Crookes também a
dispensava.
Décima-quinta e última, mais de uma sessão -
desnecessário de se comentar.
São, portanto, vêem todos, absolutamente cabíveis,
aceitáveis, as exigências do Senhor padre Dubois; foi ele até
muito razoável nas suas pretensões. Muito mais
esperávamos; surpreendeu-nos até.
Se de fato tais fenômenos se dão, se a sugestão deles é
parte integrante, pensamos que o padre, dada a preocupação
intensa de não ver as manifestações, acabaria vendo mais do
que todos os outros. Caber-lhe-ia, então, e de justiça, o título
de papalvo-mór.
As evasivas do Senhor Prado não são de bom quilate; a
opinião pública não as pode aceitar, e a opinião pública é
muito exigente e sobretudo severa nos seus conceitos. Tendo
em jogo a sua respeitabilidade, deve o Senhor Prado sujeitar-
se às provas, e nisto deve ajudá-lo sua Exma. esposa,
senhora de virtudes excelsas, mas de nervosismo acentuado.
Ignoramos qual irá ser a resolução da diretoria da
Sociedade Médico-Cirúrgica do Pará. Pouco aparelhada para
tais estudos, certamente não irá levianamente emprestar o
seu nome para acobertar tais fenômenos, sem que eles sejam
absolutamente comprovados.
De nossa parte, se a honra nos coubesse de representá-la,
não a aceitaríamos, senão também impondo condições, e
essas condições seriam diferentes das do padre Dubois. A
maior seria a de termos à mão uma pêra ligada a uma
lâmpada e podermos fechar o circuito no momento da
aparição. E' intuitivo que por mais fregoliano que seja o
indivíduo, não terá a rapidez da luz. Não se argumente com o
sofrimento da médium, por isso que já tem ela se submetido
à luz do magnésio, muito mais intensa e ofuscante; acresce
que a lâmpada ficaria acesa o tempo justamente
indispensável para a verificação.
As leis que regem o fenômeno espírita são ainda em sua
maior parte desconhecidas. E' um novo campo de ação para a
ciência bem intencionada, justa e prudente. Não são poucos
os fatos que nos atestam como tem ela sido rudemente
castigada em seus preconceitos e em seu orgulho.
Não sabemos se seria possível a praticabilidade do
circuito elétrico proposto pelo Doutor Porto de Oliveira.
Essa, sim, é que seria uma condição que não aceitaríamos
sem antes ter profunda certeza de que ela não viria a ser
prejudicial ou fatal à médium.
Quem é que nos garante que a irradiação de uma
lâmpada elétrica não é mais perigosa, agressiva e dissolvente
do que a luz do magnésio, não obstante esta ser produzida
pela explosão?

Capítulo XVII

Estaria finda a memorável luta?


Um profundo sentimento de tristeza nos invadira.
Secundado pelo Maestro Bosio que, com admirável
paciência, tinha notícias de como era maltratado e
ridicularizado pelo padre
Dubois, procuramos evitar esse desenlace que, no
entender de algumas pessoas, era preconcebidamente
encaminhado pelo nosso valoroso mas ferino e injusto
adversário.
Mesmo depois dos artigos em que Eurípedes era
chamado velhaco e trampolineiro, ainda tentamos, em
companhia do nosso amigo Manoel Barbosa Rodrigues,
obter dele a promessa da mais absoluta impassibilidade
diante da conduta do Senhor Dubois, a fim de conseguir a
presença deste nos fenômenos, tão intimamente convencidos
estávamos de que S. S.ª se renderia à evidência dos fatos, a
exemplo dos seus colegas de Lerida, mal grado outros
externarem a profunda persuasão de que, se o fenômeno se
reproduzisse, ou Dubois cometeria qualquer imprudência
perturbadora do mesmo, ou arranjaria outro pretexto para
explicá-lo, que não o Espiritismo.
Também o Doutor Porto de Oliveira tentou obter do
Senhor Prado a prova anunciada com a presença do padre
Dubois, mas o nosso digno amigo se mostrou irredutível,
ferido no que há de mais santo: a sua honra.
Tudo estaria perdido? Seria possível que a verdade
ficasse, assim, empanada e abatida?
Convém notar que há esse tempo a Senhora Prado estava
já exausta, quase enferma. Não somente os contínuos
trabalhos de materialização como sobretudo em
conseqüência da crise moral de se ver subitamente acusada,
em público, de trampolineira; - o estado moral de Eurípedes,
prostrado, de cama, pelo sofrimento de não poder, já em
virtude dos princípios que professava, já em virtude do
pedido insistente de amigos, repelir como desejava, como era
veemente desejo seu, a maneira insólita, agressiva, injuriosa,
com que fora tratado pelo antagonista; tudo isso abalara
profundamente a Senhora Prado sobre quem chegara a hora
de sofrer as torturas da inquisição moral a que estiveram,
estão e estarão ainda por muito tempo sujeitos todos os
grandes médiuns.
Mas, mesmo assim, Eurípedes resolveu dar uma prova
pública de que, sendo-lhe impossível vencer a repugnância
de receber o Senhor Dubois em sua casa, não era um velhaco
como a S. S.ª aprouve chamá-lo. E procurou efetuar sessões
em casas estranhas, inteiramente insuspeitas.
Foi escolhida a do Senhor João Alfredo de Mendonça,
cujo caráter ele pensava estar acima de toda dúvida,
especialmente para o Senhor Dubois. Esperava-o aí, como
adiante se verá, mais um golpe rude e cruel, que, de
inesperado, quase o desanima para sempre.
Entretanto, logo na primeira experiência, foram
consideradas quase todas as condições do Senhor Dubois:
mudança de casa, sala sem mobília, revista da médium,
toques no Espírito, exame detido do local, antes e depois da
sessão, dispensa de trechos musicais, ausência de parentes da
médium, dispensa de grade numa das sessões, etc.
Isto, como dissemos, nas sessões de materialização e
trabalhos em parafina. Nas sessões de fotografia, seriam
levados pelo Senhor João Alfredo ou, como ele, por pessoas
insuspeitas, os fotógrafos estranhos.
Quanto ao interrogatório dos Espíritos conhecidos dos
experimentadores, estranhos à família Prado, era intenção
nossa, findas essas experiências, e por se tratar de fenômeno
puramente independente, de outra classe, conseguir sessões
de incorporação, com outros médiuns, certos de que nas
mesmas Deus permitiria a evidência da verdade, não
obstante a possibilidade natural das mistificações, as quais,
para os espíritas imparciais, ainda constituem prova de fato.
Devemos dizer que a médium mandava com bastante
antecedência, para ser examinado, o vestido que devia usar
na ocasião das sessões. Ia sem o menor embrulho, nem
mesmo a sua bolsa portátil. Ao entrar em casa do Senhor
João Alfredo, ficava entregue às senhoras, com quem
palestrava até à hora de mudar a roupa. Só depois de
revistada por uma comissão daquelas, e sem mais contacto
com pessoa alguma, era introduzida na grade e esta amarrada
em cruz por um nastro, imediatamente lacrado, sendo que
alguns dos assistentes ainda tomavam precauções
particulares.
A família Prado, diante de todo este rigor, estava
perfeitamente convencida de que ninguém ousaria pensar em
fraude...
Teria razão?
Capítulo XVIII

A “Folha do Norte”, de 15 de Julho de 1920, assim


noticiou e começo dessas experiências:

“Como está inteirado o público, em virtude da


publicação de uma fotografia espírita neste jornal, o nosso
colaborador padre Dubois escreveu diversos artigos
acusando de fraudulenta tanto aquela fotografia como outros
trabalhos do mesmo gênero, obtidos pelo Senhor Eurípedes
Prado, conceituado comerciante em nossa praça”.
Saíram a campo, defendendo a autenticidade de tais
fenômenos, o nosso companheiro João Alfredo de
Mendonça, que assistira a algumas sessões, inclusive a em
que foi conseguida a fotografia questionada, e o Doutor
Nogueira de Faria.
Ambos, em seus artigos, convidaram aquele nosso
colaborador a assistir aos trabalhos mediúnicos que tão
profundamente vêm impressionando a opinião pública.
Tendo aceito o repto, o rev. padre Dubois, entretanto,
continuou a discutir o assunto como lhe pareceu mais
acertado, usando de linguagem que o Senhor Eurípedes
Prado considerou ofensiva, pelo que se recusou a aceitar em
sua residência a assistência daquele sacerdote. Mas, o Senhor
Eurípedes, em defesa da veracidade dos seus trabalhos e por
solicitação do maestro Bosio, resolveu realizar uma série de
sessões, na residência de cavalheiros cuja idoneidade moral
pairasse acima de qualquer suspeita e na presença de
pessoas, cujos nomes e conceitos merecem o mais alto
acatamento da opinião pública.
Ficou, assim, assentado que em tais sessões fossem
observados fenômenos distintos: 1º sessão - trabalhos em
parafina; 2º sessão - materialização; 3° sessão - fotografia.
Para julgar destes trabalhos, da sua veracidade e nitidez,
mediante condições razoáveis e que não valessem por
impossibilidade à realização dos mesmos, foi escolhida uma
comissão permanente, e constituída de elementos os mais
respeitáveis e insuspeitos. Com efeito, essa comissão ficou
composta dos Srs. José Teixeira da Mata Bacelar, Bacelar
Filho, Ferreira de Lemos, Pontes de Carvalho e Pinheiro
Sozinho, médicos; desembargador Anselmo Santiago,
Doutor Morisson de Faria, advogado em Marabá; Doutor
Severino Silva, diretor da Biblioteca, e outros.
Do resultado dessa primeira experiência, terão notícia os
nossos leitores pela ata agora publicada e da qual, entretanto,
não constam detalhes interessantes, isso devido ao adiantado
da hora em que terminaram os trabalhos, imediatamente aos
quais foi a mesma lavrada.
Assim, a ata omitiu que, apesar de não ter conseguido a
modelagem desejada, em conseqüência da má dosagem da
parafina, o Espírito deixou patente o esforço que empregada
para obtê-la, nos quatro moldes imperfeitos, que foram
encontrados no balde respectivo, nos quais, mau grado isso,
se distinguia bem a fatura de dedos, unhas, etc.
Tal insucesso, aliás, só redunda em benefício da
veracidade do fenômeno.
Um desses moldes foi guardado pelo nosso prezado e
velho amigo Doutor Mata Bacelar.
Também foi omitida a circunstância de ter o Senhor
Doutor Ferreira de Lemos verificado a normalidade do pulso
da médium. Senhora Eurípedes Prado, antes do início dos
trabalhos, encontrando-o fatigado e enfraquecido, ao fim dos
mesmos.
Uma das casas escolhidas para essas experiências foi a
do nosso colega João Alfredo de Mendonça, cuja
imparcialidade no caso ficou patente do seu próprio artigo
em defesa do critério e isenção com que a “Folha” vem
noticiando tais fenômenos, não faltando à verdade nem se
deixando ingenuamente enganar.
A comissão prosseguirá em seus trabalhos com o mesmo
rigor de controle, solicitando para isso várias sessões,
devendo, ao considerá-las bastantes para a formação do seu
juízo, publicar um relatório, dando franco testemunho
daquilo que viu e observou.
Sabemos ser propósito inabalável do Senhor Eurípedes
Prado não vir a público antes de findar as experiências
anteontem iniciadas, quaisquer que sejam as objeções que
lhe sejam feitas pela imprensa.
Publicamos a seguir a ata dos trabalhos anteontem
realizados, a qual foi redigida e lavrada pelo Doutor
Severino Silva:
“Aos treze dias do mês de Julho do ano mil novecentos e
vinte, às nove horas da noite, encontrando-se na casa de
residência do Senhor João Alfredo de Mendonça, à praça
Saldanha Marinho n° vinte e três, os senhores
desembargadores Anselmo Santiago, doutores José Teixeira
da Mata Bacelar, Ferreira de Lemos, Juliano Pinheiro Lira
Sòzinho, Mata Bacelar Filho, Pontes de Carvalho, Morisson
de Faria, Pio Ramos, Severino Silva e Nogueira de Faria,
Angyone Costa, Andrade de Queiroz, coronel Orvácio
Marreca, Manoel Barbosa Rodrigues, Manoel Tavares,
maestro Ettore Bosio, Eurípedes Prado e João Alfredo de
Mendonça, senhoras Cristina de Mendonça, Teivelinda
Guapindaia Mendonça, Idália Mendonça e Maria do Carmo
Faria, mlles. Lili Mendonça, Mary Teixeira e Maria Cristina
Teixeira, numa sala contígua à de visitas, para a verificação
dos fenômenos espíritas já conhecidos nesta Capital,
procedeu-se à armação do gabinete mediúnico, ato em que
tomaram parte vários dos cavalheiros presentes. Foi no dito
gabinete introduzida a grade para acomodação da médium,
Senhora Eurípedes Prado, feito o que retirou-se a lâmpada de
luz elétrica, que ilumina a sala, para começo da realização do
fenômeno. Antes disso, encerrada a médium na grade, foi
esta amarrada em três lugares diversos e após, sobre os
pontos amarrados, aplicado lacre, sendo no ponto de
intersecção da porta da grade com o ângulo da mesma
colocada sobre o lacre uma moeda de níquel, de cem réis
(16). A seguir, os presentes examinaram as portas,
devidamente trancadas e lacradas, do referido departamento.
Ao lado do gabinete mediúnico foi colocada, a pedido do
Doutor Mata Bacelar, outra grade, dentro da qual foram
postos dois baldes, um com água quente, em elevada
temperatura, outro com água fria, achando-se no primeiro a
parafina para a modelagem de mãos humanas. Antes do
inicio de tais experiências, foi a Senhora Eurípedes
conduzida pela Senhora Cristina Mendonça, senhoritas Lili
Mendonça, mãe, irmã e sobrinha, respectivamente, do
Senhor João Alfredo de Mendonça, e uma empregada da
casa, Teodora Tavares da Paz, a um dos aposentos do
interior do prédio, onde foi por estas pessoas examinada sua
“toilette”, procedendo à mudança do vestido que trazia por
um azul-marinho, com gola branca, tudo isso para afastar
qualquer móvel ou suspeita de fraude, concluindo as pessoas
que assistiam à mudança de “toilette” da médium nada trazer
esta consigo que pudeste suscitar desconfiança.
(16) - Atualmente, dez centavos.
Encerrada a Senhora Prado no gabinete, todos os
presentes dispostos de maneira a impossibilitar o trânsito por
qualquer das portas do aposento, começaram por ouvir um
ansiar, a princípio suave, depois acentuado, profundo, com
longos suspiros, despedidos pela médium. Cerca de um
quarto de hora transcorrido, notou-se o aparecimento, tênue e
ondulante, de uma fosforescência em torno da médium, que
ora se avolumava, ora se reduzia e extinguia. Finalmente, o
núcleo cimo fosforescente foi-se adensando até constituir
uma forma humana bem distinta, à exceção do rosto, vendo-
se todo o vulto coberto de uma túnica branca. A princípio,
desceu as cortinas do gabinete, levantando-as em seguida,
atos esses flagrantemente pressentidos pelo ruído do pano
agitado e os gestos dos braços do fantasma. Feito isso,
arredou a grade em que estava encerrada a médium,
aproximando-a da menor que continha os baldes referidos.
Quer ao aparecer, quer ao desaparecer, o fantasma ajoelhou-
se, após o que acenou para os presentes, num gesto de
despedida. Seguiu-se o trabalho de modelagem, ouvindo-se,
de quando em quando, o ruído da água dos baldes e da asa
dos mesmos, como que agitados inteligentemente. A certa
altura, perceberam-se sinais tiptológicos, ao que o Senhor
Prado, atendendo, conseguiu a palavra “porque”, ditada letra
a letra, e, como esse processo se tornasse demorado; o
mesmo cavalheiro pediu que a comunicação fosse feita pelo
órgão da médium. Ouviu-se então esta dizer: - “Porque
param, de quando em quando, o ventilador?” Decorridas
duas horas, novos sinais tiptológicos foram ouvidos,
percebendo-se a sílaba “im”. Ainda outra vez, o Senhor
Prado solicitou a comunicação por incorporação. Atendido, a
médium respondeu tornar-se impossível à fatura da mão de
parafina pelo excesso de carnaúba que esta continha.
Perguntado ao Espírito pelo Senhor Prado se não era
possível nova materialização, foi-lhe respondido, por
intermédio da “médium” , negativamente, à vista do grande
esgotamento da mesma. A seguir, o fantasma surgiu aos
presentes, acenando-lhes um adeus com um lenço, ato este
bem verificado por todos. Após, ouviram-se palmadas
repetidas, no gabinete, denunciando-nos o despertamento da
médium pelo Espírito, notando-se a respiração ansiada,
como dolorosa, da mesma. Despertada esta, e antes de se
fazer luz, chamou-se à atenção da mesma, convidando-a a
proteger-se do choque brusco da luz, que se ia fazer no
recinto. A médium abrigou o rosto com um lenço, cobrindo-
o rigorosamente, tapando os olhos, sendo, ato contínuo,
conduzida por seu esposo, Senhor Eurípedes Prado, para a
saleta contígua à sala em que se verificou a reunião, sendo
examinados os selos, que se achavam intactos, bem como
inalterável a moeda aposta a um deles. Do que para constar,
foi lavrada a presente ata assinada por todos os que
assistiram às manifestações acima descritas.
Declaramos, sob penhor de nossa honra, que foi
impossível, pela rigorosa fiscalização realizada, qualquer ato
fraudulento, ou passível da mínima suspeita de
autenticidade.
Anselmo Santiago, Doutor José Teixeira Mata Bacelar,
Doutor Pontes de Carvalho, Severino Silva, Manoel Tavares,
Orvácio Marreca, Angyone Costa, Andrade Queiroz, João de
Morisson Faria, Pio de Andrade Ramos, Doutor Mata
Bacelar Júnior, Pinheiro L. Sòzinho, Manoel Barbosa
Rodrigues, Maria do Carmo Faria, Nogueira de Faria,
Ferreira de Lemos, João Alfredo de Mendonça, Lili
Mendonça, Mary Teixeira, Idália Teixeira, Cristina
Mendonça, Teivelinda de Mendonça.
15 de Julho de 1920.

Capítulo XIX

Na segunda sessão os fenômenos surgiram mais nítidos e


menos demorados. A “Folha do Norte” os noticiou nestes
termos:

“Publicamos a seguir a ata de mais uma sessão em que


foram observados os impressionantes fenômenos espíritas de
que nos temos ocupado largamente e que tanto interesse têm
despertado nesta Capital”.
ATA da sessão experimental dos fenômenos de
modelagem em cera e materialização, efetuada na residência
do Senhor João Alfredo de Mendonça, em 17 de Julho de
1920.
Aos dezessete de Julho de mil novecentos e vinte, nesta
cidade de Belém do Pará, em a casa de residência do Senhor
João Alfredo de Mendonça, à Praça Saldanha Marinho, 23,
pelas oito e meia horas da noite, presentes às senhoras e
senhorinhas, Amélia de Castro Maia Soeiro, Idália Teixeira,
Cristina Mendonça, Lili Mendonça, Teivelinda Mendonça,
Mary Teixeira e Maria Teixeira, e os cavalheiros
desembargador Anselmo Santiago, doutores J. da Mata
Bacelar, Bacelar Filho, Pontes de Carvalho e Ferreira de
Lemos, doutores Severino Silva, Antenor Cavalcante, Pio
Ramos, Nogueira de Faria e Morisson Faria, os primeiros
médicos clínicos nesta cidade e os últimos formados em
Direito, coronel Orvácio Marreca, Srs. Manoel Barbosa
Rodrigues, João da Rocha Fernandes, Alberto de Andrade
Queiroz, Angyone Costa, Manoel. Tavares, João Alfredo de
Mendonça, Eustáquio Azevedo, Manoel Coelho de Souza,
maestro Ettore Bosio e Euclides Góes, deu-se início às
experimentações. Fundida a parafina à vista de todos e
depois de examinada a médium, Senhora Eurípedes Prado,
pelas senhoras presentes, armou-se o gabinete mediúnico ao
fundo da sala de jantar, num ângulo da mesma sala.
Organizaram esse gabinete, em plena luz, os senhores
Manoel Coelho de Souza e o Doutor Pio Ramos, ficando as
duas faces desse gabinete, que encostavam às paredes do
aposento, forradas com um pano preto, e as duas outras com
as cortinas levantadas. Ao centro desse gabinete colocou-se a
grade pai: a médium e, ao lado, sobre uma pequena banca,
dois baldes de zinco, um com a parafina em fusão e o outro
com água fria. Dispuseram-se os assistentes em duas filas de
cadeira: colocadas em ângulo reto, interceptando as portas
que davam para o espaço onde se iam realizar as
experiências e a passagem de quem quer que para esse
espaço tentasse dirigir-se, e, depois de consultado o Espírito,
que se esperava havia de manifestar-se, por intermédio da
mesinha, onde se sentaram a Senhora Prado e seu marido,
sobre quaisquer modificações a fazer, encerrou-se a médium
na grade, sendo esta fechada por diferentes laços de nastro,
que foram lacrados ao centro e em todas as suas pontas e em
um deles aplicado um níquel. Os laços e os lacres foram
aplicados pelo desembargador Santiago e pelos Srs. Manoel
Coelho de Souza, Doutor Antenor Cavalcante e Euclides
Goes, os três últimos assistindo pela primeira vez a
experiência da natureza das que se iam realizar. Feito o
escuro, ouviram-se, pouco depois, pancadas no interior do
gabinete e, consultado o ser que assim se manifestava sobre
o que significavam aqueles sinais, disse ele, também por
sinais tiptológicos, que o balde de parafina estava muito
distante da grade e, depois de várias posições, foi a mesa que
continha estes baldes, da parafina e da água, colocada em
frente ao gabinete mediúnico e à grade da médium. Cumpre
assinalar que na primeira sessão experimental, efetuada a 13
do corrente, a parafina fora colocada sob uma grade, lacrada
na presença dos assistentes, mas estes hoje propuseram
dispensar-se a grade, no desejo de apreciarem o fenômeno
nas suas diferentes modalidades de produção. Feito de novo
o escuro, aguardou-se a produção das manifestações. Após
algum tempo viram todos os assistentes formar-se um núcleo
branco, como uma nebulosa, ao pé da médium, núcleo que
aumentava às vezes e outras diminuía. Ora percebia-se uns
pés brancos, ora um braço que procurava desprender-se da
grade em que estava a médium. Por fim um vulto desprende-
se, sai pela face lateral do gabinete, envolto em um roupão
branco e mostra-se com sua estatura elevada, muito mais
corpulento do que ela. E a figura de um homem alto e forte
que se mostra, dando alguns passos, mostrando claramente
todos os seus contornos. E' o Espírito familiar à Senhora
Eurípedes - o João - conhecido por todos os que já têm
assistido a essas manifestações. Dirige-se à mesa em que
estão os baldes, arrasta-a fazendo forte ruído e facilmente,
apesar de ter ela sido removida por duas pessoas por causa
dos baldes que sobre ela pesavam. Esse Espírito abaixa as
cortinas do gabinete, que estavam suspensas, c: depois de
alguns instantes recolhe-se ao mesmo gabinete. Momentos
após, quando uma veste branca percebida, nos fazia supor
que o mesmo Espírito voltava a mostrar-se, aparece uma
figura completamente diferente. E' um Espírito de criança,
absolutamente inconfundível com a médium. Aparenta uns
14 anos e tem longos cabelos negros, soltos, cabelos que ela
às vezes puxa por sobre os ombros para frente do corpo.
Veste de branco, um vestido apertado à cintura por uma
fazenda que se destaca da do restante da veste, talvez pela
diferença de tecido. E' Anita, dizem os assistentes que já a
conhecem. Dá ela alguns passos em frente ao gabinete e ao
lado deste e depois se dirige à mesa em que estão os baldes,
colocando-se entre esta e o gabinete. Aí demora algum
tempo e os assistentes vêem os seus movimentos sobre o
balde de parafina, como quem está a fazer algum trabalho.
Passados alguns minutos dirige-se para a assistência com o
braço estendido como a pedir ou oferecer alguma coisa,
vendo-se depois que tem ela na mão um objeto e que o
deposita na mão do Senhor João Alfredo de Mendonça. Era
uma flor em parafina, uma curiosa e esquisita flor, uma
como variedade de cataleia. Volta Anita ao balde e daí
regressa com uma outra flor que procura depositar na mão de
D. Cristina Mendonça, mãe do dono da casa. Como essa
senhora não estendesse a mão convenientemente, Anita
deixa cair ao chão a flor que depois se verificou ser um
cacho de três pequenas flores, artisticamente feitas. Em todos
os movimentos de Anita notava-se a graça natural de uma
menina e ao mesmo tempo um perto receio. Retira-se Anita
para o gabinete e daí a pouco reaparece o João, o qual se
dirige para a mesa, torna a empurrá-la, afastando-a da grade
ainda mais e colocando-a em posição um tanto oblíqua ao
gabinete. Começa então a modelagem em parafina. Vê-se
perfeitamente o Espírito meter a mão em um e outro balde e
levantá-la repetidas vezes, mostrando-a à assistência e
colocando-a na corrente de ar do ventilador. Em uma
ocasião, ouve-se ele dizer - está flácido - e, depois, vê-se
transportar um balde para o ângulo do gabinete e tornar a
trazê-lo momentos depois para a mesa, ouvindo-se
claramente o ruído característico do zinco batendo sobre a
madeira, ao ser arriado. O vulto dirige-se, em seguida, aos
circunstantes, com a mão enluvada em cera e toca na mão da
quase todos, deixando sentia-se a parafina mole e ainda
quente. Os assistentes ficam com parafina aderida, aos dedos
e o Doutor J. da Mata Bacelar sente o calor da mão que lhe é
dada, algum tanto intensamente. Recolhe-se o Espírito ao
gabinete e, em um dado momento, ouvindo-se um soluço
mais forte da médium, ele aparece à frente da cortina e diz -
não há novidade. - Regressando, apresenta uma mão de
parafina e oferece-a ao Senhor João Alfredo de Mendonça.
Preparada outra mão, percebendo-se os movimentos do
Espírito e ouvindo-se o ruído da água agitada, apresenta-a
ele aos assistentes e, como diversos braços se estendessem
para recebê-la, ouve-se o Espírito pronunciar o nome -
Bosio. O maestro aproxima-se e, recebendo a mão, agradece
efusivamente. Ouvem-se algumas palavras que se não
entendem e depois as palavras - Põe na “Brasileira”. A
assistência acha graça e o Espírito corre para o gabinete e,
soerguendo em parte a cortina, bate palmas sonoras,
perceptíveis. A assistência fica atônita, mas o Espírito repete
as palmas como que convidando os circunstantes a
acompanhá-lo. Estrondam as palmas da assistência e o
Espírito esconde-se no gabinete e depois se mostra dentro da
grade agitando um lenço em despedida. A médium desperta
e, dando-se-lhe um lenço para vendar os olhos, faz-se à luz.
Examina-se a grade os selos estão intactos, os nós do mesmo
modo por que foram feitos, a moeda de níquel, que fora
aposta a um dos lacres, continua presa e há certa dificuldade
em tirá-la para desfazer o laço e abrir a grade. A médium
recolhe-se, cambaleante, amparada por seu marido, e a
assistência comenta os fenômenos, acordando em lavrar-se a
presente ata que, depois de lida e verificada estar conforme
com o que foi observado, vai assinada por todos os
presentes. Estes asseguram, por sua honra, serem verdadeiros
todos os fatos aqui narrados, e não haver possibilidade de
truque ou fraude de qualquer espécie. A médium não podia
sair da. grade; seu marido esteve, durante todo o tempo do
trabalho, sentado na primeira fila de espectadores, visível a
todos pela pua veste branca salientando-se no escuro da sala;
o maestro Bosio esteve fora do círculo de cadeiras dos
assistentes, apreciando de pé os fenômenos; nenhuma pessoa
penetrou, nem podia penetrar sem ser notada, no círculo
limitado pelas cadeiras dos assistentes. Convém assinalar
que, concluídos os trabalhos, os Drs. Pontes de Carvalho e J.
da Mata Bacelar examinaram o pulso da médium e tomaram
sua temperatura, verificando ter ela cem pulsações por
minuto, enquanto que acusava apenas trinta e seis graus e
dois décimos de calor. Sendo a maioria dos espectadores
contrária às idéias espiritualistas, fica entendida que a
palavra - Espírito - aqui empregada, não importa em
renúncia dessa maioria às suas opiniões, e foi empregada em
falta de outra que mais imparcialmente designasse o que se
viu. Eu, João de Morisson Faria, escrevi a presente, que
assino com os demais, e que vai por mim rubricada em todas
as suas folhas.
Amália de Castro Maia Soeiro, Cristina de Mendonça,
Idália Teixeira, Teivelinda G. de Mendonça, Mary Teixeira,
Maria Cristina Teixeira, Anselmo Santiago, Doutor José
Teixeira da Mata Bacelar, Doutor Mata Bacelar Júnior,
Doutor Pontes de Carvalho, Diógenes de Lemos, Severino
Silva, Antenor Cavalcante, Pio de Andrade Ramos, Nogueira
de Faria, Orvácio D. C. Marreca, Manoel Barbosa
Rodrigues, João da Rocha Fernandes, Alberto de Andrade
Queiroz, Angione Costa, João Alfredo de Mendonça,
Eustáquio de Azevedo. Manoel Coelho de Souza, Ettore
Bosio, Euclides Goes, Manoel José Tavares.

Capítulo XX

Prosseguiam assim os trabalhos em paz, sem que pessoa


alguma se lembrasse de atribuí-los à fraude, tamanho era o
rigor de controle e tão digna a família em cuja casa eles se
realizavam.
Nós, o Maestro Bosio e quem estas linhas escreve, mais
de perto interessados no caso, tínhamos esperanças de que as
experiências continuariam por maior número de vezes, até
que fosse possível aos Espíritos, à mercê do
desenvolvimento da médium e confiança na assistência, dar
aos fenômenos tal intensidade, tão nítida e perfeita que a
todos convencesse da veracidade indiscutível da
imortalidade da alma, da sua individualidade consciente e da
sua manifestação “post-mortem”.
Deus, porém, não quis, como se verá. Leiamos,
entretanto, antes de tudo, a ata da sessão realizada em 24 de
Julho, na residência da família Mendonça
“Aos vinte e quatro dias do mês de Julho de mil
novecentos e vinte, cerca de oito horas da noite, na
residência do Senhor João Alfredo de Mendonça, à praça
Saldanha Marinho n. 23, acham-se presentes os Srs.
Desembargadores Napoleão Simões de Oliveira, Anselmo
Santiago, Drs. Ciríaco Gurjão, Gurjão Sobrinho, Ausier
Bentes, Bacelar Filho, clínicos nesta capital; Drs. Severino
Silva, Nilo Pena, Nogueira de Faria e Cândido Marinho,
bacharéis em Direito; Srs. Eustáquio de Azevedo, Apolinário
Moreira, Genélio Borralho, Manoel Tavares, João Alfredo de
Mendonça, Manoel Néri Pereira, Álvaro Menezes e
Eurípedes Prado; Sras. Maria do Carmo de Faria, Maria José
de Araújo, Ausier Bentes, Clara Valente, Cristina Mendonça,
Teivelinda Mendonça, Idália Teixeira, Bacelar Menezes;
Senhoritas Lili Mendonça, Mary e Maria Cristina Teixeira e
Teodora Soares, seleta assistência reunida especialmente
para assistir à sessão de fenômenos espíritas, traduzidos pelo
aparecimento de “João” e trabalhos de materialização.
As 9 horas deu-se começo à armação do gabinete
mediúnico, cuja aparência é a de um cubo de dois metros
aproximadamente, sendo as faces constituídas por ligeira
armação de madeira, que sustenta cortinas de pano preto e
especialmente destinado a favorecer a visibilidade na
formação e conseqüente aparecimento do Espírito; - o
presente ato foi observado por várias pessoas presentes e
minuciosamente acompanhado pelos Drs. Ausier Bentes,
Nilo Pena, Ciríaco Gurjão e Gurjão Sobrinho.
Iniciaram-se os trabalhos com a consulta feita pelo
Senhor Eurípedes Prado, ao Espírito de “João”, sobre se este
realizaria seus atos de materialização naquela noite –
obtendo resposta afirmativa. Imediatamente depois foi
transportada para perto do gabinete uma espécie de grade,
construída de madeiras e barrilhas de ferro, em sentido
horizontal, com uma única abertura, que serve de porta, e
que, depois de exame meticuloso de várias pessoas curiosas,
foi conduzido para o interior do gabinete. Terminados esses
preparativos, foi a médium convidada a entrar para o interior
da grade onde se achava uma cadeira para a mesma sentar-
se.
Há a notar que a médium mudou as vestes, na presença
das senhoras Ausier Bentes, Álvaro Menezes, João Alfredo
de Mendonça, senhoritas Mary Teixeira e Teodora Soares.
A seguir foi a médium introduzida para o interior do
gabinete mediúnico e após ter sido encerrada na grade, que
lá se achava, foi à mesma grade fortemente amarrada em
cruz, em sentido perpendicular, por nastro branco, cujas
extremidades foram depois cuidadosamente lacradas pelos
Drs. Ausier Bentes e Nilo Pena; a única abertura, que servia
de porta, foi meticulosamente amarrada em dois pontos,
tendo sido igualmente lacrada e, sobre todos os lacrados,
foram apostas moedas correntes do país. Em seguida
procedeu-se à lacragem das portas e janelas, feita pelo
Senhor João Alfredo de Mendonça, com assistência dos Drs.
Gurjão Sobrinho e Severino Silva, após o que foram
transportados para perto do gabinete mediúnico dois baldes
de zinco, contendo um, parafina liquefeita em alta
temperatura, e o outro água fria, ambos colocados sabre um
pequeno estrado de madeira, de pequena altura; na presente
sessão foi o pequeno estrado colocado em substituição a uma
mesinha, até então usada para tal fim, mas que tinha o
inconveniente de interceptar a visão completa dos vultos
materializados. Concluídos esses pequenos atos
preparatórios, foram as luzes do compartimento apagadas,
ficando o mesmo debaixo de uma penumbra bem acentuada,
devido a uma forte lâmpada a nitrogênio, colocada na sala
vizinha, que irradiava sua luz pelas bandeiras das portas.
Releva notar que as pessoas presentes, e que já assistiram a
sessões anteriores, foram unânimes em reconhecer que
trabalho nenhum de materialização houvera sido feito com
penumbra tão clara.
Decorrida cerca de meia hora, começaram os assistentes
a notar que no gabinete mediúnico e como que partindo do
ponto em que se achava a médium, se formavam nuvens
esbranquiçadas, que ora se alongavam, ora se adelgaçavam,
fazendo compreender achar-se em franco início o fenômeno
de materialização. O núcleo, como fosforescente, mantinha-
se em torno da médium e, cada vez mais, se revestia da
forma humana, até que, decorridos mais ou menos vinte
minutos, viram todos, distintamente, o vulto branco de uma
mocinha de cabelos soltos e que, após ter baixado uma das
cortinas do gabinete, aproximou-se do Doutor Nogueira de
Faria estendendo-lhe a mão, com em sinal de cumprimento;
em seguida dirigiu-se para o lugar em que se achavam os
baldes, dando a entender que iniciara a confecção de objetos
em parafina; após uns quinze minutos, ergueu-se, lançando
no balde de água fria um objeto que, ao finalizar a sessão,
verificou-se ser uma flor, tipo cataleia.
Terminado este trabalho, volveu o vulto para junto da
médium, desaparecendo e dando lugar à nova aparição, de
outro vulto, desta vez de conformação masculina, como
trajando calças curtas e blusa, gênio vivo e irrequieto, ora
dirigindo-se para um, ora para outro lado; num momento,
dirigindo-se para o lugar onde se achavam os baldes, pegou-
os, transportando-os para junto da parede, tudo
acompanhado do ruído especial produzido pela alça do balde
ao cair sobre si mesmo. Volvendo novamente para o lugar
onde se achavam os baldes, com o pé direito empurrou o
pequeno estrado, a uma distância seguramente de um metro.
Após estas demonstrações, volveu ao gabinete mediúnico,
onde baixou as cortinas, desaparecendo.
Passada a segunda materialização, cerca de vinte minutos
depois, envolto em ampla túnica branca, apareceu o Espírito
de “João”, que ao abrir o gabinete suspendeu as cortinas do
mesmo, de modo a distinguir-se perfeitamente o interior do
gabinete, dando a compreender que a médium se encontrava
no ponto em que a colocaram, no início dos trabalhos.
Havendo indagações entre os assistentes, se a médium se
achava de fato no interior da grade, o Espírito de “João”
aproximou-se da mesma e fez ouvir distintamente o ruído de
palmas, aplicadas presumivelmente no rosto da médium,
desfazendo, portanto, a dúvida suscitada; várias vezes “João”
repetiu essa demonstração. Deixando o gabinete, dirigiu-se à
extremidade da. fila, onde se encontravam o Doutor
Nogueira de Faria, Desembargador Anselmo Santiago e
Senhor Eustáquio de Azevedo, estendendo-lhes a mão, em
cumprimento, sendo por todos esses senhores correspondido.
Imediatamente volveu à outra extremidade oposta da fila das
cadeiras, onde se achavam os Drs Ausier Bentes, Ciríaco
Gurjão, Gurjão Sobrinho, Nilo Pena e Senhora Alfredo de
Mendonça, os quais, compreendendo a aproximação de
“João”, estenderam as mãos, tendo sido quase todas tocadas
levemente por ele, de um modo palpável e de nítida
impressão material, sendo digna de registo a distinção
acentuada da coloração da manga da túnica para a epiderme
da mão do Espírito.
Durante os cumprimentos de “João”, ouviram-se fortes
gemidos, como dolorosos, partindo do gabinete mediúnico, o
que obrigou “João” a voltar bruscamente para junto da
médium, tendo então, ao chegar ali, arriado com violência as
cortinas do gabinete, dando a compreender certa irritação,
talvez proveniente de alguma irregularidade ocorrida.
A seguir fizeram-se ouvir fortes sinais tiptológicos,
partidos do gabinete mediúnico, determinando a retirada
imediata da médium, que se achava em estado ofegante,
despedindo de espaço a espaço soluços angustiosos,
denunciando flagrante estado de sofrimento. Cumpriram-se
as determinações de “João” e, tendo o Senhor Prado a
cautela de proteger a médium da forte luz que se ia fazer,
acendeu-se a luz elétrica do compartimento e, com grande
espanto, tudo no gabinete da médium se encontrava no
perfeito estado em que se iniciaram os trabalhos da sessão,
desde a grade até os lacrados, que foram meticulosamente
examinados pelos Drs. Ausier Bentes, Ciríaco Gurjão,
Gurjão Sobrinho, Nilo Pena e mais pessoas curiosas.
Após esse exame rigoroso, foram os nastros deslacrados
e cortados, tendo sido a médium retirada da grade,
desacordada, estampando-se em sua fisionomia acentuada
expressão de mal-estar.
No balde de água fria foi encontrado belo tipo de flor
feita em parafina, que, após ter sido admirada pelos
presentes, foi ofertada ao Senhor Desembargador Anselmo
Santiago, que a conduziu à sua residência.
E eu, Nilo Pena, tendo sido escolhido e convidado para
lavrar a presente ata, o fiz de próprio punho e em testemunho
de verdade, assino-a com os demais presentes.
Belém, 24 de Julho de 1920. - (aa.) Nilo Pena, Napoleão
de Oliveira, Anselmo Santiago, Álvaro Menezes, Apolinário
Moreira, Mata Bacelar Júnior, Eustáquio de Azevedo,
Genélio Borralho, Manoel Pereira, João Alfredo de
Mendonça e Cândido Marinho.”

Como se vê, confrontando os nomes das pessoas


mencionadas nas atas anteriores com os constantes desta
última, entre os novos assistentes se encontravam o Doutor
Ciríaco Gurjão, clínico de renome em Belém e deputado
estadual; Ausier Bentes, médico estimadíssimo, já pela sua
competência profissional, já. pelas suas qualidades de caráter
e de coração e o Doutor Gurjão Sobrinho, também clínico
em Belém, formado há poucos anos.
Lê-se na ata - e, ela está assinada por pessoas de bem -
que os Srs. Ciríaco Gurjão e Gurjão Sobrinho, Ausier Bentes
e Nilo Pena assistiram e acompanharam minuciosamente a
armação do gabinete, o ato de ser a grade, contendo a
médium, “fortemente amarrada em cruz” por nastro branco
cujas extremidades foram depois “cuidadosamente lacradas”
pelos Drs. Ausier Bentes e Nilo Pena, sendo que a “única
abertura”, que servia de porta, fora “meticulosamente
lacrada” e sobre todos os lacrados foram apostas moedas
correntes do país. Em seguida se procedeu à lacragem das
portas e janelas, feita pelo Senhor João Alfredo de
Mendonça, “com a assistência dos Drs. Gurjão Sobrinho e
Severino Silva, após o que etc.”
Terminada a sessão, “com grande espanto tudo no
gabinete da médium se encontrava no perfeito estado em que
se iniciaram os trabalhos, desde a grade até os lacrados que
foram meticulosamente examinados pelos Drs. Ausier
Bentes, Ciríaco Gurjão Sobrinho, Nilo Pena e mais
curiosos”.
Note-se ainda que “trabalho nenhum de materialização
houvera sido feito com penumbra tão clara, como os que
tinham assistido às sessões anteriores foram unânimes em
declarar...”
Pois bem: feita a ata e já assinada aliás por alguns dos
assistentes, ao ser apresentada ao Doutor Ciríaco Gurjão,
S.S.ª negou-se a subscrevê-la, alegando, ao que nos consta,
que ficara convencido de que a mão que apertara houvera
sido de um ser humano e não de um Espírito.
Valha-nos Deus! Se o fenômeno era de materialização,
se consistia nisso mesmo, em o Espírito se apresentar como
um ser humano!
Quem seria esse homem ou mulher que estaria a
representar ali uma farsa? As portas não haviam sido
lacradas, a grade não havia sido amarrada e lacrada? O
semicírculo da assistência, porventura, não era tão fechado,
tornando absolutamente impossível a entrada de qualquer
pessoa para o resto do aposento em que se realizava a prova?
E se isso fosse possível, quem seria a pessoa capaz de se
prestar a semelhante risco, admitindo mesmo que nós, os
espíritas, fossemos capazes de ato tão infame? Mas,
admitindo mesmo que tivéssemos pagado alguém para a
fraude odiosa e vil, a família Mendonça poderia ignorá-la?
A casa não estava inteiramente trancada? O próprio
portão da rua não ficara fechado durante a sessão? Por onde
sairia tal intrujão, findos os trabalhos, sem que pessoa
alguma o visse, sem o consentimento, a cumplicidade da
família Mendonça? Quem teria a insensatez, a coragem
inaudita de pensá-lo?
A não ser assim, um de nós, da assistência? O Doutor
Gurjão seria capaz de, em caso idêntico, se prestar a
semelhante papel? Certamente que não. Pois, como S. S.ª,
nenhum de nós, os espíritas que ali estávamos, sê-lo-íamos
também.
A médium?
Mas os lacres não estavam intactos?
Quem seria afinal esse “ser humano”, eliminada a
hipótese da materialização?
Alçapões, saídas falsas? Na casa de João Alfredo de
Mendonça? Francamente, é o cúmulo!
Se S. S.ª ainda atribuísse, como alguns de seus ilustres
colegas, como, por exemplo; o Doutor Porto de Oliveira, se
tratar de um caso de hipnose, vá: S. S.° é médico e o
preconceito científico, como todos os preconceitos,
obstinado. Mas atribuir à fraude fenômenos tão
rigorosamente observados - desde a mudança de traje da
médium na casa da família respeitável em que os mesmos se
realizavam, é, repetimos, o cúmulo!
Que dizer diante disso? Fazer o que fez o Senhor
Eurípedes Prado: suspender as experiências, certo de que,
por maiores, mais exigentes, mais severas que fossem,
haveria e haverá sempre alguém bastante sábio ou bastante
leviano para afirmar a existência da fraude!
Desta vez, suspendendo os trabalhos, S. S.ª teve todo o
nosso aplauso. Quando do repto Dubois, o Senhor Eurípedes
Prado, justamente ferido, se recusou a permitir numa sessão
a presença daquele sacerdote, isso nos desgostou e nunca lhe
escondemos esse desgosto e o nosso desacordo.
No caso do Doutor Gurjão, porém, estivemos desde logo
com a sua maneira de pensar. Quando não bastassem as
considerações já formuladas, poderíamos ainda perguntar: e
quem seria capaz de mergulhar as mãos na parafina, que, à
nossa vista, saíra do fogo, aquecida até à fervura? E o
Espírito não fabricou flores, não obstante a péssima dosagem
daquela substância?

Uma última consideração em testemunho da verdade


lavrou a ata o Doutor Nilo Pena. Quem é o Doutor Nilo
Pena? Será alguém capaz de pregar carapetões? Será algum
pobretão desonesto capaz de, por dinheiro, dizer gato por
lebre? Felizmente não. Todos em Belém o conhecem. A
sociedade belemense o estima. E' fazendeiro. E' rico. E'
digno. Será um doente, um tipo sugestionável? Não. Bem ao
contrário. E' sadio, equilibrado, forte, e até um dos mais
apaixonados cultores do esporte.
E as demais pessoas que assinaram a célebre ata?
Seriam todos uns pagos ou uns imbecis? Não haveria
alguém, entre tantos, que visse a fraude? Onde, enfim, a
prova desta? No contacto da mão materializada do Espírito?
Mas se nisso, repetimos, está o fenômeno! Então, que diria
Crookes, tomando as pulsações de Katie King, ouvindo-lhe o
pulsar do coração, carregando-a nos braços, com ela
conversando familiarmente e declarando-a, enfim, um ser tão
material quanto a médium?
Que diriam Aksakof e tantos outros com as suas
admiráveis experiências?
E compreendeu-se bem que isto de ser Crookes e
Aksakof não é para todo mundo!...

Capítulo XXI

EXPERIÊNCIA CULMINANTE

O excesso de controle. - Aparato desnecessário

Ainda quando as experiências eram realizadas em casa


do nosso amigo João Alfredo de Mendonça, ficava mais ou
menos assentado, na melhor harmonia
a) experiências com uma jaula mandada preparar pelo
Doutor Ferreira de Lemos;
b) experiências datiloscópicas, presididas pelo Doutor
Renato Chaves.
Quando o Senhor Eurípedes teve notícias da opinião do
Senhor Doutor Gurjão, caiu em absoluto estado de
desânimo.
- E' inútil a luta - dizia-nos. - Sempre haverá quem
argumente com a fraude.
A idéia de que alguém o julgava capaz de uma fraude o
magoava muito. Era a sua conversa predileta. Chegamos
mesmo a ficar apreensivos, quanto à saúde do Senhor Prado
que, abalado por essa idéia, passava noites sucessivas sem
poder conciliar o sono, recorrendo, por vezes, ao cloral.
Esposa dedicada, a Senhora Prado acompanhava o
esposo nessas vigílias cruéis, exaurindo-se por sua vez,
caminhando a largos passos para um esgotamento nervoso,
que lhe poderia ser fatal.
O público, a gente alheia à questão, mal imaginava o
sofrimento moral daquelas duas criaturas, extremamente
sensíveis, apontadas a uma cidade inteira como capazes de
atos de trampolinice, de abuso da boa fé de pessoas dignas e
respeitáveis. Ainda assim, a Senhora Prado, sempre nos
pareceu mais forte que o esposo. Nesses dias, porém, estava
profundamente abalada e tal era a sua fraqueza que, já na
última sessão, por causa que não chegamos a averiguar bem,
“João” fora obrigado a suspender subitamente a sessão,
mandando socorrê-la (17).
(17) Vide pág. 133.
Outro, mais sereno, tomaria um período de tempo maior
para repouso de sua esposa e seu próprio repouso, pois que,
após noites de insônias exaustivas, o Senhor Prado saía e
passava o dia tratando de negócios comerciais, que exigem
cuidados especiais, considerando a crise econômica da praça.
Ele não quis assim; resolveu “acabar” com aquilo e outro
erro, a meu ver, assentou efetuar de umas sós vezes ambas as
provas da jaula Ferreira de Lemos e das experiências
datiloscópicas.
E' preciso dizer que, enquanto todos esses transes se
passavam, o reverendo Dubois não abandonara o sistema de
fazer ironias e injúrias ao casal Prado, tortura moral
aumentada pelos reclamos para uma revista de costumes que
seria levada em Nazaret, intitulada - “O João”.
A esse tempo, também, surgira pela imprensa o Doutor
Porto de Oliveira, e o Senhor Prado fora obrigado a
responder-lhe, sendo que essa troca de artigos não
descambara nem de leve da linha simpática da cortesia e do
cavalheirismo.
Puseram a jaula Ferreira de Lemos em exposição. Os
jornais publicaram-lhe a fotografia - e enquanto isto se fazia
a Senhora Prado estava quase de cama!
Contudo, nós, os que defendíamos já a verdade dos
fenômenos espíritas, já a honra da família Prado, tínhamos a
mais absoluta confiança em ambas as provas. Quem vira o
que víramos, repetidas vezes, já na intimidade, sem controle
nem desconfiança, já nas sessões, poderia lá ter a menor
duvida?!
Simpatizávamos muito mais com a experiência
datiloscópica, notando ainda que a prova “da jaula” era
antipática à médium. A nosso ver aquela prova daria,
sobretudo, a distinção do fenômeno anímico do fenômeno
espírita. Várias vezes o disséramos ao nosso ilustre amigo
Doutor Renato Chaves. Tínhamos absoluta certeza de obter,
em mais de uma sessão, é claro, duas espécies de fichas:
umas reproduzindo as impressões digitais da médium; outras
as impressões dos Espíritos. No primeiro caso tratar-se-ia do
desdobramento da médium, do fantasma de um vivo, fato
este abundantemente verificado já!
Tamanha era a nossa convicção que, de uma feita,
chegamos a dizer a João Alfredo de Mendonça: Temos
esperança de que em breve a “Folha” publicará as
impressões digitais da Senhora Prado, do seu duplo e do
Espírito do “João”.
*

Mal a Senhora Prado se considerava em condições de


trabalhar, o Senhor Prado mandou-nos chamar, pedindo que
combinássemos com o Doutor Renato Chaves as
experiências datiloscópicas, enquanto S. S.ª em pessoa ou
outro confrade se encarregaria de idêntica incumbência junto
ao Doutor Ferreira de Lemos.
Ficou assentada a sessão para o dia 20 de Agosto, tendo
aqueles facultativos a. liberdade de escolher a assistência.
Tivemos a honra de ser aceito pelo Doutor Renato e conosco
o maestro Bosio - com este combinamos ficar, muito
propositadamente, fora e atrás do círculo de assistentes.
Chegara a inolvidável noite.
Do aparato da sessão, se encarregara de dizer o “Estado
do Pará”.
“Às 7 horas da noite davam entrada na residência do
Senhor Prado o Doutor Renato Chaves, acompanhado do
pessoal da repartição de identificação: Srs. Moisés
Bensimon, Artênio Beckman, Carlos Lacerda e Antônio
Brasil, conduzindo todo o material preciso.
Em seguida chegava o Doutor Ferreira de Lemos,
acompanhado do condutor da grade.
A Senhora Prado demonstrava estar presa de grande
emoção nervosa.
Antes de ser iniciada a sessão, o Doutor Renato Chaves
pediu aos seus colegas Ausier Bentes e Porta de Oliveira e
ao Senhor Prado que autenticassem com suas rubricas as
papeletas em que iam implantadas as impressões digitais de
todos os presentes e a do “Espírito”.
Tiradas as impressões de todos os presentes, pelo mesmo
Doutor Renato foi nomeada outra comissão para assistir ao
lacramento das portas.
Esta comissão se compôs dos Drs. Sinval Coutinho,
Ausier Bentes e Senhor Moisés Bensimon, sendo este último
o lacrador. Foi colocado em seguida, num canto da sala, um
biombo de fazenda preta e dentro deste a grade.
A tudo isso assistia a Senhora Prado, contendo a custo as
lágrimas.
O Doutor Virgílio Mendonça chamou particularmente o
Senhor Eurípides, Prado, aconselhando o adiamento da
sessão. A seu ver, a Senhora Prado não poderia trabalhar. O
choque daquele aparato, tanta gente desconhecida, sentir-se
objeto de desconfiança que sabia nunca ter merecido, a sua
antipatia pela prova da jaula - o que mais chocava os seus
sentimentos elevados - tudo isso reagia contra a pobre
senhora, comovendo-a, provocando-lhe uma grande e grave
desordem nervosa.
O Senhor Eurípedes obstinou-se: “queria liquidar
aquilo”. Não se recusou a nenhuma exigência.
Di-lo o próprio Doutor Ferreira de Lemos, testemunha
insuspeitíssima. Quando ouvido pelo “Estado do Pará”,
declarou poder afirmar que tanto o Senhor Eurípedes Prado
como sua esposa não demonstraram vacilação alguma
perante a grade e os preparativos de identificação, notando,
aliás, que o Senhor Prado teve sempre a maior boa vontade
em auxiliá-lo, tendo solicitado a prova.”
Continuamos a transcrever a notícia do “Estado do Pará”
“Ia começar a memorável sessão. A Senhora Prado e seu
marido sentaram-se a. uma mesinha afastada e aí se
conservaram um em frente do outro, durante uns três
minutos, mais ou menos. Em seguida ela se levantou
soluçando e, demonstrando excitação nervosa, aproximou-se
da porta da grade.
Antes de entrar, entre soluços proferiu a seguinte frase: -
Esta é a terceira e última grade em que entro! (18)
(18) Quis dar-se uma segunda intenção a esta frase, acrescentando-se que, ao ser
tirada da grade, tendo um lenço atado ao pescoço, Madame Prado dava a impressão
de ter cometido um ato de loucura. Nunca houve tal e, felizmente, um dos assistentes,
o Doutor Porto de Oliveira, pela imprensa, opôs logo, sempre leal, formal desmentido
ao boato leviano. Em relação à grade, a frase tem a seguinte explicação: embora
sempre procurasse ocultar seus sentimentos, a Senhora Prado sentira-se melindrada
com a idéia. Uma grade de ferro! - exclamava. Não sou fera nem criminosa.
Submeter-me-ei a prova, mas uma única vez!! Quanto ao lenço ao pescoço - um lenço
branco - há o seguinte: nas sessões, a Senhora Prado vestia sempre de escuro, pana
melhor se distinguir o começo da formação do fantasma, e, como este ondulasse para
a direita e para a esquerda, ora subindo, ora descendo, combinou-se desde as
primeiras experiências que a médium tivesse aquele lenço branco ao pescoço que,
permanente e imóvel, permitiria distinguir-se a médium dos núcleos fluídicos que se
formavam. Eis a verdade.
E entrou.
Aproximou-se, então, o Doutor Porto de Oliveira e
trancou os cadeados de campainha, em número de dois.
Apagaram-se as luzes a uma ordem do Senhor Prado.
Penumbra. Expectativa. Dez minutos de espera. Ouvem-se
soluços da médium. Dentro da grade começa a formar-se
uma pequena mancha branca, que se vai desenvolvendo a
pouco a pouco, aumentando e diminuindo. Próximo da
grade, sobre uma mesa, estendiam-se as papeletas com uma
placa com tinta de impressão, pronta para as marcas digitais
do “João”. O vulto, que não tinha forma definida, parecia
querer deslocar-se para o lado da mesa, porém os seus
esforços como que eram inúteis, pois não alcançava
destacar-se do local, onde se encontrava a médium (19).
(19) Não é para admirar que assim sucedesse. Concorre com a do transe
incompleto, ou quase nenhum, a solicitude sempre manifestada do Espírito de "João"
pela médium. Ao menor gemido desta, ao menor ruído, soluço ou qualquer outro
incidente que indicasse o mal-estar, ele corria logo ao gabinete e não foram duas nem
três as vezes que mandou suspender imediatamente a sessão. Imagine-se agora a
preocupação desse Espírito vendo o estado de angústia da médium, que não lhe
permitiria a realização de prova tão importante! (Vide pág. 133.)
Demoravam seguramente uns 20 minutos essas tentativas
do vulto. A assistência comentava em voz baixa. De quando
em quando se escutava um soluço da Senhora Prado. Com
relativa rapidez a forma branca foi desaparecendo e logo se
ouviu o bater nervoso da Senhora Prado, chamando alguém.
O Senhor Prado perguntou, pressuroso, se era preciso menos
luz.
Respondeu a Senhora Prado:
- Quero sair!
Apressadamente o Senhor Prado mandou que seu filho,
que se achava fora, fizesse luz.
E a luz se fez.
O Doutor Porto de Oliveira, que tinha a chave, abriu a
grade, que agora se achava rodeada de todos os presentes, e
daí foi retirada a médium, que havia perdido os sentidos e
trazia um lenço apertado à garganta, dando a todos a
impressão de que havia cometido um ato de loucura. Vários
médicos presentes conduziram-na para os altos da casa.
A placa e as papeletas conservavam-se na mesa, intactas.
Por essa descrição minuciosa da sessão de ontem,
evidencia-se que não tiveram resultado favorável às
experiências lembradas pelos Drs. Renato Chaves e Ferreira
de Lemos.
Que venham os motivos desse resultado negativo. (20)
(20) Nada mais natural do que pedi-los. O valente órgão paraense os encontrará,
no Cap. XXIII deste livro e nas próprias palavras do Doutor Porto de Oliveira e
Ferreira Lemos. (Vide nota de pág. 144.)
Durante a sessão nós nos achávamos por trás da fila dos
assistentes. Continuávamos a ter a mais absoluta confiança
no fenômeno, ainda mesmo diante da excitação nervosa da
médium, da sua indisposição psíquica.
Não nos ocorrera a hipótese de a médium não cair em
transe. Por isso foi grande o nosso júbilo quando vimos o
começo da formação fluídica e para ela chamamos a atenção
do Doutor Renato Chaves.
E' certo que “O Imparcial”, órgão vespertino, noticiou ter
ouvido o Doutor Renato Chaves e que este lhe declarará
nada ter visto. Houve, decerto, engano daquele órgão da
imprensa paraense. O Doutor Renato certamente disse não
ter obtido resultado algum quanto à identificação. Isso é
exato. Nem poderia obtê-lo porque a experiência foi
incompleta. Mas, que S. S.ª viu o fantasma em formação ou,
se quiserem, a formação do duplo da médium, podemos
garantir que viu. Nós lho mostramos. Nem admitiremos que
S. S.ª tivesse feito aquela declaração, nem admitirá todo
aquele que o conhecer. E S. S.ª um homem direito.

Capítulo XXII

A notícia do “Estado” foi confirmada pelo Doutor


Ferreira de Lemos, como se vê desta publicação, nesse
mesmo brilhante órgão.

AS MATERIALIZAÇÕES DO JOÃO
O Doutor Renato Chaves prefere não tratar do assunto. -
O Doutor Porto de Oliveira falará em outro jornal. - O que
diz o Doutor Ferreira Lemos.

Causou forte impressão ao público a notícia ontem


estampada no “Estado” sobre a sessão espírita realizada às 9
horas da noite anterior, na residência do Senhor Eurípedes
Prado, à travessa de S. Mateus, 144, a fim de serem feitas
experiências, que seriam deveras emocionantes se
resultassem completas, autênticas, em paralelo com as
normas e precauções exigidas pelos Drs. Ferreira Lemos e
Renato Chaves.
Entretanto, empenhados em tornar conhecidas dos nossos
leitores as opiniões de alguns dos cavalheiros presentes à
sessão, especialmente as dos dois clínicos acima citados,
mandamos solicitar de ambos a permissão de divulgar as
suas impressões.
Motivos alheios aos nossos desejos impediram-nos de
publicá-las.
O Doutor Renato Chaves, um tanto indisposto, resolvera
não tratar do assunto.
Mas, o Doutor Porto de Oliveira, procurado pelo
emissário do “Estado”, declarou, já haver escrito sobre as
impressões que recebeu durante a sessão, transmitindo-as a
outro jornal.
À noite, o Doutor Ferreira Lemos recebeu gentilmente
em sua residência o nosso representante.
Disse-lhe S. S.ª não ter o intuito de externar uma opinião
pessoal. Não.
O “Estado” - prosseguiu ele - publicou notícia minuciosa
que era a expressão da verdade do que aí se passara.
Considerava um caso melindroso esse em que se teria de,
talvez, cometer uma imprudência, expondo a comentários
desairosos o nome de uma senhora.
Pode afirmar que tanto o Senhor Eurípedes Prado como
sua esposa não demonstraram a menor surpresa ou vacilação
perante a grade e os preparativos de identificação do Doutor
Renato; notou, aliás, que o Senhor Prado teve sempre a
maior boa vontade em auxiliá-lo em tudo, sendo ele quem
lhe escreveu um cartão, pedindo uma entrevista. Realizada
esta entrevista, o Senhor Prado manifestou-se de pleno
acordo com S.Sª, lembrando a conveniência de ser feita uma
grade bastante segura.
Nada pode referir quanto à autenticidade dos fenômenos,
porque, se não realizaram as experiências projetadas, foram
nulas as pesquisas. E' inoportuno cuidar do assunto com
propriedade sem incorrer num grave erro, por isso julga
acertado aguardar ocasião propícia às observações que se
pretende efetuar e à conseqüência crítica insofismável, então,
à luz dos fatos.
A verdade, porém, é que o caso de materialização é
anormal.
Averiguou-se que a Senhora Prado era presa de grande
comoção nervosa, como já disse o “Estado”, estava
visivelmente enferma. Daí o resultado incompleto das
experiências, o que se não pode absolutamente classificar de
fracasso.
A Senhora Prado, ora em tratamento de saúde, repousará
por algumas semanas, talvez; e, uma vez restabelecida,
voltará à sessão em que se fará a prova definitiva das
materializações do João. Esperaremos, pois, disse S. S.ª.
A grade, cujo “clichê” o “Estado” reproduz, está bem
guardada em sua residência; - o Doutor Ferreira de Lemos,
dando alguns passos, mostrou-a ao nosso representante - não
há receio de que seja exposta a alteração, a um qualquer
desarranjo.
De resto - concluiu S. S.ª - é um caso melindroso esse em
que figura uma família que por sua afabilidade e evidentes
relações na sociedade belemense merece todo o acatamento e
respeito.”
O Doutor Porto de Oliveira referiu o caso da seguinte
maneira:

UMA PALESTRA COM O DOUTOR PORTO DE


OLIVEIRA

A propósito da sessão experimental de materialização


espírita, anteontem realizada na residência do Senhor
Eurípedes Prado, à travessa de S. Mateus n. 144, a que
assistiram vários médicos e pessoas de destaque em nossa
sociedade, procuramos ouvir a opinião do Doutor Porto de
Oliveira, um dos assistentes, a respeito dos sucessos
ocorridos na referida sessão.
O distinto clínico, informado do nosso objetivo,
prontificou-se em nos atender, entretendo a palestra que, a
seguir, vamos sumariar.
O Doutor Porto de Oliveira declarou-nos ter
comparecido à sessão algo constrangido, em atenção
somente ao convite dos seus colegas, Drs. Renato Chaves e
Ferreira de Lemos, promotores da mesma. A polêmica que
manteve na imprensa, não há muito, com o Senhor Eurípedes
Prado, muito embora não tivesse desbordado os limites da
cortesia que se devem os homens educados, não existindo,
por isso, ressentimentos pessoais entre ambos, constrangeu
de certo modo o Doutor Porto de Oliveira a comparecer à
residência daquele cavalheiro, como membro de uma
comissão que, para a verificação da realidade dos fenômenos
ditos espíritas, exigia condições um tanto vexatórias para a
família Prado.
Vencendo, porém, esses legítimos escrúpulos, o Doutor
Porto compareceu à sessão, merecendo um acolhimento
gentil e atencioso por parte do Senhor Eurípedes e sua
família, acolhimento esse que fez dissipar quaisquer dúvidas
que pudesse nutrir sobre a conveniência ou não da sua
presença ali.
- Não há negar que a experiência deu lugar a um
verdadeiro desastre (21) - disse-nos o Doutor Porto de
Oliveira -, mas esse fato deve ser atribuído não só ao
rigorismo das provas, que, uma vez satisfeitas, não mais
dariam ensejo a controvérsias, como também a
circunstâncias ocasionais que contribuíram para indispor a
Senhora Prado a praticabilidade das experiências, conforme
apregoam os adeptos das idéias espíritas.
(21) Se o Doutor Porto de Oliveira emprega, como supomos, a expressão "um
verdadeiro desastre" no sentido de não ter o Espírito saído da grade nem ter
produzido as impressões datiloscópicas, bem. Mas se quer dizer a ausência absoluta
do fenômeno, então, não. Que houve um começo francamente visível de
materialização, é inegável.
Nem outro poderia ser o intuito de S. S.ª, senão aquele, pois que se alguém andou
em tais experiências de animo sinceramente inspirado pelo amor da verdade e do
estudo, o Doutor Porto de Oliveira foi um desses.
Como se vê, S. S.ª fala em "verdadeiro desastre". Não houve tal e isso mesmo se
deduz das próprias palavras do ilustre alienista. Como haver desastre, se a médium
não caiu em transe? Que melhor defesa do resultado da sessão do que as palavras de
S.S.ª? Se ao Doutor Porto de Oliveira, espectador. tão profunda emoção causou todo
aquele aparato, imagine-se a pobre senhora, que era a vítima de tanto e tão
injustificado rigor?
Inserimos a seguir, sem modificação alguma, o trecho do artigo que tínhamos
feito para publicar após as entrevistas dos ilustres Drs. Porto de Oliveira e Ferreira de
Lemos.
Tendo sabido de nossa, intenção, o Senhor Eurípedes Prado mandou solicitar-
nos que nada fizéssemos em tal assunto. Resolvera dar fim as suas experiências,
iniciadas com tão serena boa vontade de servir a Ciência e a Verdade.
Receava pela saúde de sua esposa, fortemente combalida. Mais tarde, talvez,
reencetasse os seus trabalhos, mas, então, para um diminuto número de amigos, que o
acreditassem incapaz de fraude. Acedemos, mas a contragosto. Embora frágil, era a
defesa da causa e do próprio Eurípedes.
Não fui promotor dessas provas experimentais. Se fosse
experimentador e não mero observador, como fui, daria
preferência a um processo menos aparatoso e menos
constrangedor. Não exigiria a grade de ferro, a que melhor
chamaríamos jaula, com os seus cadeados de alarme, nem a
“mise-en-scene” que precedeu a entrada das pessoas na sala
e da médium na citada gaiola.
Atendendo à solicitação do meu ilustre colega Doutor
Ferreira de Lemos, fechei um dos cadeados; mas não posso
ocultar a comoção que experimentei diante daquela cena
dolorosa, vendo uma senhora, por todos os títulos
respeitáveis, sujeita aos olhares investigadores de numerosas
pessoas, em sua maioria estranhas ao seu convívio.
Desde o início dos trabalhos, a Senhora Prado
denunciava a sua excitação nervosa, que aumentou depois de
ter sido encerrada na jaula de ferro, quando entrou a soluçar
e a chorar convulsivamente.
Um ponto a retificar nas notícias divulgadas é o que se
refere a uma suposta tentativa de suicídio da médium. Tal
não se deu, posso afirmar, e se alguém teve a impressão da
prática de um ato de loucura, essa suposição foi gerada pela
natural confusão que se estabeleceu, não dando margem a
uma observação mais calma e atenta.
A Senhora Prado trazia um lenço apertado no pescoço,
mas não apertado à garganta, como se disse. Quando a
socorreram, pude verificar que aquela senhora como que
procurava desafogar-se, afrouxando a gola do vestido para
melhor poder respirar.
Na minha opinião trata-se de um transe hipnótico a que é
sujeita possivelmente a médium, por alguém, presente às
sessões. Seja como for, penso que a experiência de ontem,
embora fracassada, deve prosseguir para completa
elucidação dos fatos.
A prova que se fez não é nem deve ser definitiva. Há
absoluta e indeclinável necessidade de outras.

Capítulo XXIII

Dizíamos, então: Ainda é muito cedo para que os


adversários intransigentes e teimosos do Espiritismo cantem
vitória. O insucesso, aliás, parcial, de uma experiência, não
autoriza hinos de triunfo.
Há tempos, em Nova Iorque, o professor Mapes
constituiu um círculo de doze pessoas, homens de talento e
cépticos, que previamente assentaram reunir-se vinte vezes
seguidas com um médium.
Nas dezoito primeiras noites os fenômenos apresentaram
um caráter tão indeciso e trivial, conta-nos Russel Wallace,
que muitos dentre os assistentes deploravam a perda de um
tempo precioso; no corso das últimas sessões, porém,
produziram-se fatos de tal modo notáveis que o estudo foi
prosseguido pelo mesmo círculo durante quatro anos. Todos
os seus membros se tornaram convencidos adeptos.
Dale Owen narra que o banqueiro Livermore, tentando
com a médium Kate Fox fazer materializações do Espírito de
sua esposa Estela, só na 24.° sessão (vigésima quarta,
senhores!) conseguiu alguma coisa de aproveitável. Mais
tarde, pôde conversar com esse Espírito e obter ditados
diretos.

Todo espírito medianamente culto não ignora as


vicissitudes das idéias novas. Estas avançam e vencem com
o sacrifício dos que têm a coragem moral para expendê-las.
A rotina, comodista e preguiçosa, tendo por si a força
poderosa da inércia; o preconceito, orgulhoso e pedantesco;
a maledicência perversa, atrevida e covarde; a frivolidade
serigaita; a má fé perfidiosa e impudente, se pactuam e se
dão as mãos fincando barreiras - e só de ripanço abandonam
o terreno, pelo assédio constante dos fatos.
Ciência e Religião, quantos mártires têm tido?
Compreende-se, por isso, o suspiro de alívio dos rotineiros; a
gana jubilosa dos de má fé; o sorriso glacial e desdenhoso
dos orgulhosos áulicos do preconceito; o alvoroço fanfarrão
dos maledicentes, quando as idéias novas registram um
insucesso, sofrem uma contrariedade, a mais explicável e
natural, embora. As idéias, entretanto, são heróicas.
Marcham instintivamente, irresistivelmente, arrastadas pela
ordem natural das coisas, acionadas pela fatalidade
progressista da evolução. E caminham. Vencem. Riem por
último.
*

O exame sereno e imparcial do resultado da sessão,


realizada na noite de 20, redundará em favor da existência e
da veracidade dos fenômenos observados pelo Senhor
Eurípedes Prado.
“In primo loco”, deve-se considerar o estado moral e
psíquico da médium na hora da experiência - estado esse o
mais desfavorável possível, emocionado e nervoso em
extremo. E nada mais razoável de que assim tivesse sido.
Inventaríamos o que a Senhora Prado vem sofrendo há dois
meses acusada publicamente de comediante, sujeitando-se a
provas rudes, como essa de efetuar sessões fora de casa,
exame de vestes, embora em presença de senhoras
respeitáveis e distintas; sentindo-se alvo de ironias
pugentïssimas e da irreverência dos frívolos, que, numa
inconsciência assombrosa, se aproveitam das coisas mais
sérias e graves, para servirem o interesse próprio...
Imagine-se tudo isso e mais: após dois meses de
sofrimento moral intenso, o achar-se diante de um auditório
estranho e numeroso, que a sujeita a provas não menos
dolorosas. Só um espírito forte, mas muito forte, poderia
resistir, no primeiro instante, máxime, quando de antemão
sabia que a disposição mental desse auditório era contrária à
realização do fenômeno, e que, voluntária ou
involuntariamente, iria dificultá-la ainda mais!
A Senhora Prado não pôde, infelizmente, dominar a crise
que a atormentava. Nada mais natural, nada mais justo, nada
mais digno de respeito do que essa emoção. Só os
inconscientes e os maus podem pensar de outra forma. Nessa
exaltação psíquica, nesse estado de espírito, a médium não
caiu em transe. De quando em quando um soluço mais
profundo nos indicava que ela não adormecera por completo.
Pois bem: mesmo assim, a formação fluídica se fez; ninguém
poderá negá-lo. O “Estado do Pará” o disse, o Doutor
Ferreira de Lemos o afirmou, como afirmaram todos os de
boa fé que lá estiveram. Ondulava de alto a baixo, para a
esquerda e para a direita, aumentando e diminuindo,
condensando-se e adelgaçando-se, vendo-se bem que o
Espírito se esforçava pela realização completa da prova! (22)
(22) Vide a notícia do Estudo do Pará, já citada.
O organismo da médium, porém, profundamente
abalado, em transe incompleto, não auxiliava os esforços do
Espírito. Digam o que entenderem e quiserem; o insucesso
parcial de uma primeira experiência, confiada à verificação
da Ciência, ai representada por ilustres clínicos, veio dar-nos
a prova da veracidade dos fenômenos. Não fora o
constrangimento moral da médium, não fora a sua súbita
indisposição física, e os fenômenos se teriam realizado. E se
disso não estivessem profundamente convencidos - como
nós o estávamos - os esposos Prado teriam evitado a prova,
que nunca temeram.
Decerto que diversas circunstâncias concorreram para o
resultado, negativo em parte, dessa experiência, algumas das
quais de todos percebida. Outras só nós, os crentes,
poderemos aceitar e explicar.
Somos dos que pensam que a Senhora Prado deve
repousar. Seu esgotamento nervoso é evidente e prosseguir
assim nas experiências é quase um crime. Mais tarde,
quando inteiramente restabelecida, então, e só então, deve
voltar à sua tarefa elevada e sagrada, a serviço da Ciência e
da Religião.
O contratempo de anteontem não deve desanimar os
esposos Prado. Bem maior será a satisfação de amanhã,
quando tiverem a dita de provar que estão com a verdade e
que não andaram mal nem levianamente aqueles que, sob
palavra de honra, afirmaram a autenticidade dos fenômenos.
A Senhora Prado conhece, felizmente, o martirológio de
todos os grandes médiuns. “O médium, escreve Leon Denis,
é muitas vezes uma vítima e quase sempre uma mulher. A
Idade Média a havia considerado, assim, como feiticeira - e
queimava-a. Hoje, menos bárbaros, se contentam com o
deprimi-la, chamando-lhe charlatã ou histérica.”
E o ilustre filósofo lionês nos recorda a violentíssima
perseguição sofrida por Margarida e Catarina Fox; as cenas
de selvajaria de que foram vítimas, as tempestades de
ameaças e injúrias que sofreram; a dor da Senhora Hauffe, a
célebre vidente de Prevost, tratada com o máximo rigor no
próprio lar paterno; as torturas morais de Madame
Esperança; as acusações violentas contra Howe, Slade,
Eglington, Paladino, Ana Roche...e tantas!
A recordação da coragem moral desses heróis e dessas
heroínas do Neo-Espiritualismo deve confortá-la e fortalecê-
la - pois que o seu carrinho está traçado pelo nobre exempla
do sublime devotamento dessas criaturas providenciais.
Então a própria ciência médica, que está longe de ser
infalível, virá reconsiderar o seu diagnóstico de hoje,
proclamando a vitória da verdade, que será a vitória de Deus.

Capítulo XXIV
DATILOSCOPIA E ESPIRITISMO

No mesmo dia em que a “Folha” inseria a opinião elo


Doutor Porto de Oliveira, o Doutor Renato Chaves publicava
o seguinte artigo:
“Eis-me de novo a tratar da datiloscopia nos fenômenos
espíritas. A sessão realizada na casa do Senhor Eurípedes
Prado, revestida da mais rigorosa fiscalização e isenta de
quaisquer possibilidades de fraude, não foi, infelizmente, de
molde a dar ensejo à retirada das impressões digitais do
“fantasma”, cognominado - João, apesar de destinada a essa
função, conforme aviso que tive.
O insucesso da experiência pode ser. explicado de vários
modos e é hoje do domínio público.
Lançando mão, entretanto, da individual datiloscópica do
“Espírito”, que me foi gentilmente oferecida pelo Doutor
Nogueira de Faria e obtida na última sessão preparatória das
diversas que precederam à aceitação do meu oferecimento de
investigações, publicado há dias, e cotejando-a com a da
médium, anteontem retirada, cheguei à conclusão de que a
ficha deixada pelo “fantasma” , naquela ocasião, é
inteiramente idêntica à da médium, isto é, que ambas são,
não há que duvidar, procedentes das mesmas mãos.
E esta identidade é absoluta em todos os desenhos das
linhas papilares, nas figuras geométricas, nos números, nas
cicatrizes e, enfim, em todos os pontos de reparo.
Como havia prometido, publico aqui duas fotogravuras
uma de trechos da ficha da Exma. Senhora Prado, por ela
assinada e com todos os requisitos de autenticidade, sendo
retirada, debaixo de todo o rigor técnico, por um dos
funcionários do Gabinete de Identificação: e a outra da
reunião de algo mas das melhores impressões das mãos do
“fantasma”. (Gravuras 11 e 12.)

Gravura 11
Gravura 12

As impressões, facilmente visíveis e idênticas do


“Espírito” e da médium, vão nos clichês assinadas com a
mesma letra, em baixo de cada uma delas.
Alguma diferença que possa haver, ao primeiro golpe de
vista, entre elas, referindo-se exclusivamente ao tamanho,
pode-se compreender assim: a ficha da Senhora Prado foi
retirada em uma goteira de Vucetich, apanhando, portanto,
toda a extensão das extremidades digitais, ao passo que a do
“fantasma” foi conseguida, com inexperiência, sobre um
plano liso, colhendo, por conseguinte, só a porção média dos
dedos, aliás, a mais importante, pois lá é que se encontram
os sinais característicos que dão margem ao diagnóstico
diferencial, para classificação e para o exame detido.
Sei que os senhores espíritas, aqueles que com a maior
boa fé estão convencidos das teorias místicas do
transcendentalismo, encontram ou dão explicação para o fato
dessa perfeita identidade de ambas, não lhes causando ela
nenhuma surpresa; quanto a mim, porém, constatando-a,
como acima se vê, suponho, sem ter, contudo, a idéia de
convencer a ninguém, que, afastada a possibilidade
inverossímil de fraude consciente e premeditada, na médium,
o fato poderá, talvez, encontrar solução nos problemas
menos complexos e mais naturais do hipnotismo.
E fica assim terminada a minha missão.
Doutor Renato Chaves.”
Não nos surpreendeu o resultado a que chegou o Senhor
Doutor Renato Chaves.
Fomos dos que, repetimos, abraçamos com entusiasmo a
idéia das impressões datiloscópicas, lembrada pelo nosso
ilustre amigo, Doutor Renato Chaves. Elas viriam,
sobretudo, de modo indiscutível e inequívoco, provar a
existência do fenômeno anímico ou do fenômeno espírita.
Seria o meio, senão de distingui-lo, ao menos de provar que
são distintos, porque um não elimina o outro. Por diversas e
freqüentes vezes trocamos idéias sobre o assunto com o
operoso diretor do nosso Gabinete de Identificação, dando-
lhe conta com a maior franqueza e lealdade das experiências
íntimas que o Senhor Eurípedes Prado se dispusera a
realizar, o que é um testemunho de boa fé e confiança.
Além daquela que lhe entregamos, outras fichas
possuímos correspondentes à primeira e segunda
experiências íntimas, sendo que em todas essas tiramos as
impressões da médium. Não nos surpreendeu, portanto, o
resultado a que chegou o ilustre Doutor Renato Chaves,
mediante a ficha que lhe cedêramos. Apelamos para o
próprio testemunho de S. S.ª Felizmente, entretanto, aquelas
impressões não são as da prova oficial, não foram obtidas
com a assistência e a verificação daquele nosso ilustre amigo
(23). Esperamos que isto se dê um dia, para completa
elucidação do interessantíssimo caso - e talvez, então, se
verifique aquilo que lhe anunciamos impressões digitais
semelhantes às da médium, comprovando um fenômeno
anímico, impressões digitais diferentes das da médium e da
assistência, afirmando o fenômeno espírita.
(23) Há mais ainda: em nossas experiências íntimas, todos nós: os esposos Prado,
seus três filhos maiores, sempre tirávamos as nossas fichas. Não teria eu, por engano,
apanhado a ficha da médium e levado ao Doutor Renato Chaves, pensando ser a do
fantasma? Não é um fato tão possível e tão natural? Não quero, contudo, invocá-lo. A
coincidência ou semelhança encontrada pelo meu amigo não me surpreende. Ao
contrário: eu esperava pelos motivos expostos e é a isto a que alude o Doutor Renato
quando escreve: "Sei que os senhores espíritas encontram ou dão explicação para o
fato dessa perfeita identidade de fichas, não lhes Causando a mínima surpresa."
(Leia-se o artigo publicado na “Folha” pelo nosso
confrade Apolinário Moreira.) Era intenção nossa, passada
que fosse a experiência da grade Doutor Ferreira de Lemos,
solicitar dos esposos Prado a fineza de, sem exigências
humilhantes, consentirem em efetuar outras experiências
datiloscópicas dirigidas pelo Doutor Renato Chaves, a quem
há muitos dias transmitimos a esperança de obter impressões
digitais da própria alma do médium (desdobramento da
personalidade), e de outros Espíritos, entre os quais “João” e
“Anita”.
Seria esse um estudo bem digno do ilustre diretor do
nosso Gabinete de Identificação e de seus distintos colegas,
especialistas na matéria.
Só então teríamos ensejo de encontrar um ponto de
partida para a verificação da hipótese mais razoável para a
explicação de tais fenômenos.

*
Que nenhuma surpresa causa a identidade de fichas entre
a médium e o Espírito, disse-o o nosso amigo Apolinário
Moreira, deputado estadual e espírita convicto, no mesmo
dia e pelo mesmo jornal em que o Doutor Renato publicou o
resultado de suas experiências. Os artigos estão lado a lado,
na mesma página. Depois de ler o trabalho daquele médico,
lê-se no do Senhor Apolinário o seguinte, reproduzindo,
aliás, a idéia externada por nós:
“Pensamos que, nas sessões da Senhora Prado, tomando-
se a impressão digital dos Espíritos que lá se manifestam,
será fácil estabelecer se estamos diante do duplo da médium,
ou se realmente se trata com habitantes do outro mundo. “
E de toda a conveniência incluir aqui esse artigo.

Capítulo XXV

Não nos furtamos ao dever de transcrever o artigo a que


no capítulo anterior aludimos, do nosso prezado amigo
Apolinário Moreira, atual diretor da Fazenda Pública do
Estado. Ei-lo:

FANTASMAS DA TERRA E DO ALÉM

Um dos escolhos com que topam os investigadores dos


fenômenos psíquicos, ou espíritas, é a distinção, que lhes
cumpre fazer, dos fatos devidos unicamente ao próprio
Espírito do “sujet”, ou “médium”, e dos que se podem, com
segurança, atribuir a seres humanos outrora viventes na
Terra, ou mesmo extraterrestres.
Falta em geral esse critério, na maioria das reuniões que
se organizam sem método e sem estudo prévio da natureza
do fenômeno.
Entretanto ninguém, de boa fé, quererá contestar as
vantagens que advêm ao experimentador imparcial, de
aproveitar os largos subsídios e esclarecimentos fornecidos
por anteriores observações. Sempre fomos infenso aos
círculos espíritas onde há uma tendência mística para aceitar
cegamente, sem exame, quanta coisa dizem os médiuns, ou,
por eles, os desencarnados, termo com que Allan Kardec
designa as almas dos mortos.
Nesses grêmios, é que se encontram os “adeptos
fanáticos, de aspecto inspirado, de rostos magros e pálidos;
animados por duas pupilas febris”, que o Doutor Gibier acha
que têm “o mesmo aspecto dos primeiros cristãos, que iam
espontaneamente entregar-se para pasto das feras nos circos
romanos” (24).
(24) Gibier - Espiritismo ou Faquirismo.
Em tais meios, se estala uma tábua do soalho, um rato
corre no forro, fulano abusa do aperitivo, ou beltrano redobra
de neurastenia - tudo é obra dos Espíritos brincalhões e
obsessores. Atendem piamente quanta tolice lhes vem dos
graciosos, que do Além se divertem em lhes impingir
xaroposas e massudas dissertações, assinando-as com os
nomes de Jesus, Platão, São Fulano e São Sicrano, Buda,
Mafoma, Moisés, etc., conforme a idéia religiosa
predominante no Centro. Essas mistificações abundam,
porque as suas vítimas não estudar, não procuram conhecer a
árvore pelo fruto, recusam os conselhos de confrades
experientes, mantendo-se num verdadeiro círculo vicioso. Já
se fazem, entre esses crentes, batizados e casamentos
“espíritas”, engendrando-se uma organização de culto, mais
ou menos imitada do Catolicismo, como este, dizem com
alguma razão, moldou a sua pela do Budismo.
Felizmente, não são poucas as sociedades públicas e os
grupos íntimos que pesquisam a sério, e cuidadosamente, o
Espiritismo e demais fenômenos que com ele se relacionam
estreitamente.
O mundo invisível é quase a imagem perfeita do nosso.
Entre os seus habitantes existem as diferenças intelecto-
morais que notamos na Terra.
Entre eles, devemos também escolher as nossas relações;
selecionando as que convêm aos nossos sentimentos ou têm
afinidades com o nosso grau de cultura e de moralidade.

Dissemos que cumpre distinguir entre os casos de


animismo, isto é, “todos os fenômenos mediúnicos que
podem ser explicados por uma ação que o homem vivo
exerce além dos limites do corpo” (25); e os fenômenos que
“oferecem bases sérias para a admissão da hipótese de uma
comunicação com os mortos (26). Os médiuns produzem
fenômenos de animismo, quando age o seu próprio Espírito,
e, de Espiritismo, quando apenas servem de órgão, mais ou
menos maleável e inconsciente, a seres desencarnados. Em
regra geral, a prova de identidade da alma, ou do ser que se
apresenta, é dada pelo fundo intelectual revelado, e,
sobretudo, pelo cunho individual. Se, numa sessão espírita,
as entidades invisíveis que voluntariamente comparecem,
sustentam opiniões de encontro à vontade, às convicções e
ao caráter do médium; se demonstram uma superioridade
intelectual incontestável sobre este; falando, por exemplo,
línguas que o “sujet” desconhece; comunicando fatos que
este e os assistentes ignoram (o que arreda a hipótese de uma
sugestão individual ou coletiva); é claro que os mais
incrédulos terão de procurar uma explicação, implicando a
existência e ação de um agente, fora do médium e do meio.
(25) - Aksakof - Animismo e Espiritismo.
(26) - Idem.
Numa sessão de materialização, porém, como verificar se
o fantasma pertence a um morto, ou ao próprio médium?
Não só pelo conteúdo intelectual do fenômeno, como,
também, pelos moldes das mãos, pés ou rosto da aparição,
obtidos em parafina e gesso, e, modernamente, pelas
impressões digitais, fáceis de conseguir.
Posta de lado qualquer possibilidade de fraude, encerrado
o médium numa gaiola bem fechada, ou amarrado à cadeira,
nem por isso o fenômeno merecerá menor interesse, se a
impressão digital, ou as moldagens, feitas à suficiente
distância da prisão do médium, coincidirem com a impressão
e os membros deste. Nesse caso, ficará, pelo menos, provado
que o desdobramento do corpo humano é um fato
indiscutível, que nos faz entrever a imortalidade. São raros
ainda os bons médiuns, e é por isso que Davis alega ser “a
proporção das manifestações espiríticas, muita medíocre,
mesmo presentemente” (27). E, nos casos de materialização,
o Doutor Encausse (Papus), sem negar a possibilidade da
teoria espírita, acha que ela se realiza muito raramente, não
sendo fácil a produção do fenômeno, porque exige da parte
do médium “une énorme dépense de fluide très lourd,
physique pour ainsi dire” (28).
(27) A. J. Davis - Fountain.
(28) Papus - Estudo, na revista L'Initiation.
Quando uma entidade estranha ao médium se manifesta e
materializa, o “sujet” fornece-lhe seu próprio fluido, que o
Espírito aplica “sur sa forme invisible comme le sculpteur
applique de la terre glaise sor une carcasse de fils de fer”
(29). Muitas vezes, porém, as aparições demonstram
irrefutavelmente a sua independência.
(29) Idem.
Numa experiência feita na Inglaterra por Adsheão, fui
empregada uma gaiola, fechada com parafuso, onde ficou a
médium, a Srta. Wood. Mostravam-se dois fantasmas,
homem e mulher. Deixaram ambos o molde do pé esquerdo
na parafina. Esses dois pés esquerdos, de conformação e
dimensões diferentes, também diferiam do pé esquerdo da
médium (30).
(30) Aksakof - Obra cit.
Pensamos que, nas sessões da Senhora Prado, tomando-
se a impressão digital desses Espíritos que lá se manifestam,
será fácil estabelecer se estamos diante do “duplo” da
médium, duplo que pode alterar possivelmente a
personalidade própria, reproduzindo qualquer tipo por ela
vivido em existência anterior, mas não mudar a sua ficha
datiloscópica; ou, se, realmente, se trata com habitantes do
outro mundo. O mesmo, com as moldagens. E ótimo seria
que o Espírito precisasse a sua identidade, revelando-se
intelectualmente, e orientando-nos quanto à sua última
passagem no planeta. Não podemos entender-nos agora
sobre a repercussão fatalmente sofrida pelo médium, de
qualquer choque ou ação, praticada no fantasma. Esse ponto,
os perigos que cercam o “sujet” e todos aqueles que
inconscientemente, ou propositadamente, desdobram o seu
duplo viajando no Astral, abordaremos, talvez, mais adiante.
Os que sabem... não levarão a mal que se dêem alguns
úteis esclarecimentos aos neófitos do mistério... Em um
artigo, não nos é possível amontoar centenas de fatos que
corroboram nossas afirmações. O eminente Charles Richet
escreveu, no prefácio da tradução francesa dos Phantasms of
the Living, crismado, na versão, com o título de Les
Hallucinations Télépatiques: “Existem verdades novas, que,
por mais estranhas que pareçam à rotina, serão um dia
cientificamente demonstradas. Esses fenômenos são difíceis
de admitir, porque tememos tudo que é novo, porque não
queremos ser tirados da indolência e por uma revolução
científica que perturbaria as idéias banais e os dados oficiais.
Dentro de quatro séculos, em 2200, os nossos bisnetos
pasmarão de nossa ignorância e ainda mais da nossa
presunção em negar sem exame o que não compreendemos.
Esta é a primeira vez que se ousa estudar cientificamente o
que acontece depois da morte. Quem, pois, ousará dizer, sem
ter lido este livro, que isso é uma loucura?”
E o Senhor Méric (31) avançou: Que nous savons peu de
chose! Connaissons nous la matière, la force, 1'esprit, le
corps humain?
Connaissons-nous les conversions innombrables que
peuvent subir les atomes du corps humain?
Connaissons-nous les lois de 1'association et de la
desintégration de ces atomes qui vibrent dans I'ether, ou dans
1'homme ou dans les espaces stellaires? Qui donc aurait le
droit de nous dire, c'est impossible! quand on a devant soi
I'inconnu de la matière et la puissance de Dieu?”
(31) Meric - L'Imagination et ses Prodiges.
APOLLINARIO MOREIRA. "

Capítulo XXVI

CHAVE DE OURO

Findou-se de tal modo a primeira parte dessas


experiências. Do que acaba de ser exposto com a maior
lealdade, o leitor concluirá com quem está a absoluta
verdade. Mas não resistimos, “data venia”, ao desejo de
encerrar a primeira parte desta racolta sem iluminá-la com as
duas profissões de fé assinadas, uma pelo ilustre Doutor José
Teixeira da Mata Bacelar e outra pelo conhecido poeta
Eustáquio de Azevedo, o decano da família literária do Pará,
cujo nome é acatado em todo o nosso País e fora dele; que
por uma profissão de fé vale essa página de ouro que adiante
se lê:

SEM AMBAGES

UMA PROFISSÃO DE FÉ

On l'a dit avec juste raison: c'est à


la Science à s'accommoder aux faits,
non aux faits s'accommoder a
la Science.

E. BOIRAC
Em um artigo que publiquei na “Folha do Norte”, em
Outubro, eu disse quais foram as minhas impressões diante
do que vi em três sessões espíritas, na casa da honrada
família Prado.
Já então, o meu espírito, fundamente abalado em suas
priscas convicções filosóficas, sentia-se atraído para as
investigações no campo dessa ciência cheia de novidades,
que não podem ser indiferentes ao homem que tem sede de
saber. E hoje, depois de alguma leitura, de novas
observações e de séria meditação, venho dizer, com essa
franqueza e coragem que me são peculiares, que o
Espiritismo conta mais um crente sincero, disposto a levar
avante as suas observações e cogitações, quer no campo da
observação dos fatos, como ainda no terreno filosófico e
religioso.
Dando mesmo de barato, como querem muitos, que o
Espiritismo é um conjunto de hipóteses, eu direi, como
Boirac: “A Ciência tem o direito de exigir que toda hipótese
forneça suas provas; mas não tem o direito de interdizer a
nenhuma hipótese o acesso do seu tribunal.”
Conheci a mentira e dela me afastei, começo a lobrigar a
verdade e dela me aproximo.
Estou escrevendo ainda sob a impressão do que vi e
observei na noite de 28 do mês passado, em minha própria
casa, à vila de Santa Isabel; e foram tão extraordinários e
decisivos os fatos que ali se passaram nessa noite
memorável, que eu desafiaria ao maior sabichão,
empanturrado de ciência infusa, a que os contestasse
vantajosamente.
Vamos expor sucintamente os fatos observados e a
público sensato que julgue.
Nessa noite de 28, a família Prado dignou-se de dar, a
meu pedido, uma sessão na dita minha casa, onde se
achavam cerca de dez pessoas entre as de minha família e
mais duas por mim convidadas. Os trabalhos se dividiram
em duas partes, sendo a primeira em minha sala de jantar e a
segunda na sala de visitas.
1° Parte - Sentados em torno da mesa de jantar sobre a.
qual estava um candeeiro aceso, o Senhor Prado me pediu
papel e lápis, que eu mesmo depositei sob a mesa. Depois de
ligeira palestra, a Senhora Prado, que se achava ao lado de
minha senhora, disse-me que o “João” estava escrevendo
uma carta a mim dirigida e que se esforçava para fazê-lo
com letra bem legível. Um instante depois ouvimos vibrar
uma campainha, que fora posta também em baixo da mesa.
Era o sinal de estar concluída a carta, que apanhei e li, e era
assim concebida:
“A paz de Jesus seja, entre vós.
Espero que o irmão Bacelar observe bem o fenômeno e
defenda o meu pobre inocente.
Seu irmão dedicado:
João
A Senhora Prado disse-nos que o “João” pedia mais
papel e lápis. Coloquei novamente o bloco e o lápis sob a
mesa e dois minutos depois a mesma senhora me deu o
seguinte recado, mandado pelo “ João.”:
“Peço para o Doutor Bacelar ler só para si o que acabo de
escrever, e, se não compreender bem, faça-o ler pelo irmão
Eurípedes.”
Retirei o bloco de debaixo da mesa; procurei ler o que
nele estava escrito e, não o conseguindo, passei ao Senhor
Eurípedes, que, depois de alguma dificuldade, pôde ler e
dizia assim:
“Perdoa. Na materialização retira esta criança. Do irmão
- João.”
O João pedia não consentisse que uma menina que se
achava presente assistisse aos trabalhos de materialização,
que iam começar, no que foi atendido.
2º Parte - Passando à sala de visitas, onde eu tinha
improvisado uma câmara escura, sentamo-nos em meio
circulo próximo a ela; e a médium, depois de pequeno
trabalho preparatório, sentou-se em uma cadeira, que
coloquei dentro dessa câmara. Vinte minutos após, surgiu
ante nós um fantasma. Era o “João”, que, ajoelhando-se,
elevou as mãos aos CÉUS, como e fizesse urna prece;
ergueu-se em seguida e foi ao encontro? do maestro Bosio,
que lhe ofereceu um ramo de flores naturais que ele se
apressou em distribuir entre as pessoas presentes, dando-me
uma rosa e um aperto de mão. Depois o fantasma voltou para
o interior da câmara escura, de onde regressou em seguida.
Pedia música.
Nesse instante ouvimos a médium dizer que “João” O
maestro Bosio sentou-se ao piano, da melhor vontade, e; ao
som de melodioso acordes improvisados pelo distinto
pianista, nós, cheios de pasmo e assombro, ouvimos a voz
fraca mas sonora do “João” cantando em completa harmonia
com os sons que se evolavam do piano!!!.
Em seguida o “João.” pegou em uma mesa, que se
achava à nossa frente, elevou-a no ar à altura da cabeça, ao
tempo em que a médium nos cientificava, de dentro ela
câmara, onde se achava ele assim procedia no intuito de nos
mostrar que dispunha de bastante força! Mas não ficou só
nisto as surpresas que nos esperavam nessa noite
inesquecível: “João” penetrou na câmara, no mesmo
instante que surgia à nossa frente à figura, vaporosa de
“Anita”, vestida de branco e de cabelos soltos. O “João”
pediu que retirassem a mesa de nosso meio e ordenou que
ela passeasse, e ao som do piano vimos e ouvimos o que eu
nunca supus um ente fantástico que acabava de surgir entre
nós, a dançar e a cantar com voz afinada, e doce como uma,
melodia do empireo!....
Que mais precisava eu para despir essa túnica de Nesso
que me estava preste a envenenar a alma.?!
Vibrando de emoção, Senti que as minhas crenças, de
tantos anos, se desfaziam em pó, e, sem deixar de ser um
livre pensador, transpus os limites traçados pelo monismo e
dirigi o meu Espírito para o Transcendental, sem me
preocupar com o sambenito, que é o castigo reservado a todo
aquele que renega o credo dessa igreja onde pontifica
Buckner.
Não importa. Sei que busco um ideal mais nobre.
Dr. Matta Bacellar

(Folha do Norte, 14 de Dezembro.)

MAIS UM PAPALVO...
Salvo seja

em risco iminente de incorrer nas penas horríveis do


direito canônico, com a excomunhão à frente (credo!), e nas
malhas intrincadas do espírito dicaz e galhofeiro de meu
simpático e erudito amigalhão, padre Florêncio Dubois; eu,
que, não há muito por estas colunas, em sucessivos artigos
de polêmica, ridicularizei o Espiritismo, não acreditando nos
seus fenômenos, nem à mão de Deus Padre, pelo que lia e
ouvia contar; eu, que tercei armas contra essa doutrina com
Arquimimo Lima, Elmira Lima, Nogueira de Faria e outros,
porque tinha sempre em memória a mentirosa frase latina:
spiritus qui vadit non radit; venho agora, mea culpa, mea
culpa, mea máxima culpa, penitenciando-me de tudo quanto
disse e escrevi contra os fenômenos espíritas, muito embora
mais tarde tenha de morrer queimado, como Galileu quando
positivara o movimento da Terra, afirmai, com a minha
palavra de honra, e, se fosse católico, apostólico, romano,
juraria com a destra sobre os Santos Evangelhos, pela minha
honra e pela minha fé, que esses fenômenos existem e são
uma verdade incontestável, porque eu os vi, ouvi e toquei.
Apurando o que em torno de mim se dizia ultimamente, e
a imprensa, com. insistência, publicava, eu, incrédulo
sempre, como S. Tomé, e prelibando o gozo (confesso agora)
de desmascarar publicamente os que, até então, julgava uns
“fiteiros”, fui assistir, após a devida permissão, a uma das
sessões realizadas na residência da família Eurípedes Prado,
que ainda não tinha a honra de conhecer, e lá entrei uma
noite, de espírito prevenido e rebelde a insinuações, como
inimigo disfarçado, como um espião de guerra em campo
contrário...
Eu era, repito, positivamente infenso a tudo aquilo; mas,
o que, então, aí presenciei, ouvi e observei, convenceu-me;
fora ali com o fixo intuito de acabar de vez com os reclamos
públicos sobre a assunto, que já me faziam mal aos nervos...
mas, “fui buscar lã e saí tosquiado”: “caí da corda”, como
diria o padre Dubois na sua variada e interessante dialética
popular, e não tive outro remédio senão meter “a minha viola
no saco”.
Não há diatribe, critiquice e pilhéria que valham,
convençam-se disso: caem pela base, por irresistentes, diante
da positividade dos fatos, da verdade dos fenômenos, visto
por um número já avultado de pessoas criteriosas,
respeitáveis, e por isso mesmo insuspeitas, que não dariam a
sua afirmação solene se, de leve ao menos, duvidassem do
que seus olhos viram; que não se deixariam ludibriar, tão
imbecilmente, pelos; truques de prestidigitadores,
imagináveis...
Não. Os fenômenos existem; a dinâmica que os
impulsiona, o poder a que obedecem, as causas que os
produzem é que são mistérios ainda; mas, um dia virá, breve,
talvez, em que a Ciência, que com o tempo tudo desvenda e
esclarece, nos explicará isso.
Eu sou um convertido hoje, lamentando, de coração,
como papalvo que também fico sendo - o alto descortino e a
sapiência maravilhosa dos “iluminados” sectários “à
outrance”...
Jacques Rolla.

Concordamos que a bela coragem moral do velho médico


e do nosso querido poeta não se fez para toda a gente - mas
quantos e quantos não sentiram, ao ler essas palavras de
nobreza e de fé, a consciência da própria inferioridade, o
remorso da covardia de não proclamarem, assim, aos quatro
ventos, a convicção que lhes vai na alma...

TRABALHOS EM PARAFINA
Gravura 13
Rogamos a atenção dos que nós lêem, especialmente para mãos: a 1ª,
da esquerda para a direita, apresenta os dedos fechados; a 2ª, que é uma
perfeição admirável, tem a cintura do punho bem acentuada; a 3ª, como
que segura alguma coisa entre o polegar e o indicador. Com efeito, este
modelo último, que foi obtido em uma das sessões de abril, tinha entre os
dedos uma flor. Vê-se que seria, em qualquer um dos casos, impossível
retirar a mão sem quebrar a parafina, se essa mão fosse de um ser
humano.

Gravura 14
Um dos mais perfeitos trabalhos de Anita a florista de além-túmulo.

Gravura 15
Formosíssimas flores oferecidas pelo Espírito de Anita a Senhora
Ettore Bosio

Gravura 16
Uma das formosas cataleias feitas por Anita na sessão comemorativa
do aparecimento de João, perante a numerosa assistência que se vê na
gravura 7.

Gravura 17
Outra lindíssima cataleia feita por Anita na sessão de 24 de junho de
1920.
Gravura 18
Luvas e flores obtidas em uma das sessões realizadas em casa do Sr.
João Alfredo de Mendonça e expostas, a pedido do Espírito, num dos
estabelecimentos da Rua Conselheiro João Alfredo, uma das mais
concorridas de Belém.

Gravura 19
Depois de exposto durante dias ao público, este modelo, que, como os
demais, era oco, recebeu gesso a fim de reproduzir a conformação
interior. Essa operação foi feita no mesmo estabelecimento “A
Brasileira”, sendo operador o Dr. Nilo Pena e outras pessoas que ali se
achavam casualmente.

Gravura 20
E um dos mais perfeitos modelos obtidos. Distingue-se perfeitamente
bem toda a trama da epiderme. Cremos que foi esse trabalho em
parafina, que impressionando vivamente o Dr. Nilo Pena, o levou a
assistir sessões da Senhora Prado, das quais, segundo nós afirmou,
guarda a mais funda impressão.
Gravura 21
De quando em quando, sempre apontada pelos inimigos do
Espiritismo, surgiu a idéia da fraude como a única capaz para explicar os
fenômenos. Tendo o “João” fabricado em parafina o modelo de um pé,
em sessão a que assistiram, entre outras pessoas os Srs. Gentil Norberto,
chefe da Comissão de Saneamento do Olapoc; Doutor Pontes de
Carvalho, medico; Amazonas de Figueredo lente da Faculdade de Direito;
Desembargador Anselmo Santiago e outros, o maestro Bosio e o Sr.
Eurípedes Prado resolveram oferecer a importância de 5:000$000
(atualmente, cinco mil cruzeiros), a quem fizesse um outro modelo em
condições idênticas ás em que o Espírito fizera aquela. Escusado será
dizer que pessoa alguma apareceu. O molde supra e a reprodução em
gesso.
Gravura 22
Modelo em gesso.

Gravura 23 Gravura 24

Experiência feita pelo maestro Bosio. S.S.ª pôs um anel de ouro,


amarrando ao qual um pedacinho de papel por ele rubricado, entre os
baldes empregados nos trabalho de parafina e já anteriormente descritos.
A Experiência foi coroada de pleno êxito. A luva obtida apresentava no
dedo anular a jóia em questão, conservando perfeitamente o papel. Posto
o gesso e desfeita a luva de parafina, o novo modelo conservou-a tal qual
aparece na fotografia. Pretendia-se repetir esta experiência, foi feita em
31 de Janeiro de 1921, em presença do Exmo. Sr. Dr. Lauro Sodré.
Entretanto tendo S. Ex. embarcado a 3 de Fevereiro pela manhã, não foi
possível fazê-la por absoluta carência de tempo do benemérito ex-
governador do Pará.

Gravura 25
Modelo fabricado pelo Espírito de “João”, na noite de 31 de Março
de 1921, e ao lado o positivo em gesso.
Gravura 26
Seria possível retirar a mão que produziu semelhante modelo,
inteiriço como todos os demais, estando assim inteiramente fechada, sem
quebra-li? Repare ainda o leitor na estreitura do punho em relação ao
corpo da mão.

OUTROS FENÔMENOS

a) Escrita direta.
b) Uma intervenção cirúrgica.

A) ESCRITA DIRETA
Não era só, entretanto. Novas conquistas da tenacidade
do meu amigo o aguardavam.
Urgido pela necessidade de matricular o filho mais velho
num dos estabelecimentos de ensino, no Rio de Janeiro, e
também em benefício de sua saúde, o Senhor Eurípedes
Prado embarcou nos primeiros dias de Janeiro para o sul da
República.
Amigo íntimo de Bosio, que sempre lhe dera as mais
estreitas provas de estima, conhecendo bem os laços que
prendiam as duas famílias, e conhecendo também a
dedicação de Bosio pelos fenômenos, consentiu que
continuasse suas experiências, mediante condições
a) As sessões teriam lugar somente entre as duas
famílias: Bosio e Eurípedes, em absoluta reserva;
b) que tais experiências não se estendessem a
materialização, quer dizer, apenas a fenômenos de
transporte, tiptologia, escrita direta, etc.
O primeiro fenômeno obtido foi de escrita direta. O feliz
experimentador assim o descreve:
“Na noite de quarta-feira, 13, na minha residência, sita a
travessa São Mateus, 100-A, às 21 horas, ali nos achávamos
eu, a Senhora Prado (médium), suas filhas, e minha esposa,
prontos para receber a prometida comunicação.
A mesa, coberta por um pano, sentáramos eu e minha
mulher aos lados e, à cabeceira, a médium; e, como
assistentes, sentaram-se nas cadeiras de balanço que se
achavam próximas as filhas da médium. Apagaram-se as
luzes, exceto a do 3° quarto da puxada, a fim de iluminar o
corredor de modo tênue e, assim, indiretamente, todo o
ambiente onde se efetuava a experiência.
Em seguida, minha esposa colocou debaixo da mesa um
caderno de papel almaço e sobre este um lápis, tendo
somente rubricado a primeira página, por supor que o
fenômeno só aí se daria.
O papel foi posto debaixo da mesa, por ser a escuridão aí
mais intensa, facilitando desta forma a escrita por mão de um
Espírito.
Concentramo-nos, cada qual orando mentalmente.
Pouco depois, “João” disse à médium, pelo sentido
auditivo:
- “Está pronto o primeiro ditado. Há outro irmão que se
quer comunicar.”
Poucos minutos depois, continuou: - “Este sim, que
escreve bem, com pontos e vírgulas.” (32)
(32) O Espírito alude à circunstância de as manifestações escritas, em sua
generalidade, serem transmitidas vertiginosamente, sem que os desencarnados se
preocupem com a pontuação.
Acabada a escrita pelo novo manifestante, “João” deu
sinal de pronto, por pancadas repetidas.
Eu - Pode-se acender a luz?
Espírito - Sim.
Feito isto, encontramos uma comunicação dirigida à
minha esposa, assinada por “Guilherme”, Espírito de pessoa
que foi por nós conhecida na Itália, e cuja identidade ficou
provada. Deixamos de transcrevê-la pelo seu caráter
inteiramente íntimo.
Na viagem que fizemos, em 1912, para visitar os nossos
parentes naquele país, minha mulher conheceu uma única
pessoa com o nome de “Guilherme”: meu irmão mais velho,
desencarnado há 6 anos. O assunto da comunicação acima
referida liga-se a um fato acontecido naquela época, por nós
completamente esquecido e ora recordado pelo Espírito.
Mais uma outra escrita de duas páginas completas,
grafadas em caligrafia corrente, seguindo as linhas do papel
e que transcrevo na íntegra. (Gravura 27.)

Gravura 27
Fac-Símile de uma manifestação por Escrita Direta

COMUNICAÇÃO

“A paz seja entre vós.


A dor é uma bênção que Deus envia aos seus escolhidos.
Não vos aflijais quando sofrerdes, pois se vos designou a dor
nesse mundo para obterdes a glória do Céu.
Sede pacientes, pois a paciência é também uma forma da
caridade ensinada por Cristo, enviado de Deus. A caridade
que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil das
caridades; porém a mais penosa e, por conseqüência, a mais
meritória, é a que consiste em perdoar àqueles que Deus
colocou entre o vosso caminho para serem instrumentos do
vosso sofrimento e vos porem em prova a paciência.
Eu vos abençôo. Dou este conselho porque vejo a união
entre vós; continuem a ser unidos. E' o que desejo.”
Esta comunicação é cópia (33), com poucas
modificações, de outra dada por “Um Espírito amigo”, no
Havre, em 1862, e publicada no “O Evangelho segundo o
Espiritismo”, de Allan Kardec, sob o título “A Paciência”,
comunicação esta que transcrevemos para que o leitor
melhor possa compará-las. (Pág. 159):
(33) Este fato faz lembrar fenômeno idêntico observado por Stainton Moses, e
por ele narrado no seu precioso livro Ensinos Espiritualistas.

A PACIÊNCIA

A dor é uma bênção que Deus envia aos seus escolhidos.


Não vos aflijais quando sofrerdes; mas, ao contrário,
bendizei o Senhor Todo Poderoso, que vos designou a dor
nesse mundo para obterdes a glória do Céu.
Sede pacientes, pois a paciência é também uma forma de
caridade ensinada por Cristo, enviado de Deus. A caridade
que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil das
raridades; a mais penosa e, por conseqüência, a mais
meritória, é a que consiste em perdoar àqueles que Deus
colocou em vosso caminho para serem instrumentos dos
vossos sofrimentos e vos porem em prova a paciência.
A vida é difícil, bem o sei: compõe-se de mil futilidades,
quais alfinetadas que acabam por ferir; mas é mister
comparar os deveres que nos são impostos às consolações e
compensações, que nos vêm do outro lado, para então
vermos que as bênçãos são mais numerosas que as dores. O
fardo, quando se olha para cima, parece mais leve que
quando se curva cabeça para o chão.
Coragem, amigos, o Cristo é o vosso modelo; nenhum de
vós sofreu como ele, que, aliás, não tinha motivo para isso,
ao passo que vós tendes de expiar o passado e fortificar-vos
para o futuro. Sede, portanto, pacientes e cristãos; esta
palavra encerra tudo.
Havre, 1862.
Um Espírito Amigo.

Tendo causado bastante pesar a Luísa a mensagem do


Espírito “Guilherme”, a médium, sensibilizada por este fato,
pediu ao “João” que, pelo mesmo meio, se dirigisse àquela,
confortando-a. Acedendo ao pedido, depois de apagadas as
lâmpadas, este escreveu, com o papel sobre a mesa, algumas
frases consoladoras que deixo também de transcrever, pelas
razões expostas linhas atrás.
Em seguida, “João” bateu com a sua mão materializada
sobre a minha e foi, após, acariciar a fonte de Luísa, com o
fim de acalmá-la de sua aflição.
Melhor do que nós dirá a respeito deste interessantíssimo
fenômeno o nosso amigo Maestro Bosio. Transcrevemos do
seu excelente e sincero livrinho “O que eu vi” a notícia
detalhada do caso.

B) INTERVENÇÃO CIRÚRGICA FEITA PELOS


ESPÍRITOS
E' do “Jornal do Comércio”, de Manaus, de 22 de Maio
último (1921), a notícia que abaixo transcrevemos com o
título e subtítulo supra.
Como verificarão os nossos leitores, o “João” arribou
para Parintins, não se sabendo se a “Anita” o acompanhou.
Segue-se a notícia publicada pelo nosso confrade
amazonense:
“Os mistérios do Ocultismo vão exercendo a sua
influência no seio dos moradores de Parintins.
E' o que se depreende de uma longa missiva que nos foi
enviada daquela cidade, por pessoa fidedigna, relatando os
acontecimentos fenomenais que, à guisa de curiosidade,
passamos a noticiar.
No dia dezessete deste mês, o Senhor Eurípedes Prado
realizou em sua casa uma sessão espírita, com o fim de
demonstrar às pessoas em evidência na sociedade
parintinense que é um fato a revelação dos Espíritos e a
proficiência destes na cura de certas moléstias que afetam a
vida da Humanidade.
O caso, como é natural, despertou a curiosidade pública,
comparecendo à residência do Senhor Prado muitas pessoas
de destaque, inclusive o Doutor Alexandre de Carvalho Leal,
que manifestou o desejo de ser medicado pelos Espíritos,
alegando que vinha sofrendo de um incômodo na garganta.
A sessão teve lugar na sala principal do edifício, às 20
horas, vendo-se ali, ao centro, uma pequena mesa com
flores, gastas de algodão, pires, tímpanos e outros petrechos.
Em torno desse móvel, dispostas em forma de semicírculo,
corriam duas filas de cadeiras ocupadas pelos assistentes e,
num dos cantos do recinto, erguia-se uma cortina de linho
escuro e transparente, tendo por trás uma cadeira de embalo,
na qual tomara assento à “médium”, D. Nicota Prado, que
também ia ser operada de um abscesso na boca.
Foi sob a impressão desse aspecto estranho e esquisito,
que se deu o início ao processo do Ocultismo. Apagadas as
luzes da sala e conservadas apenas as dos quartos contíguos,
os assistentes lobrigaram, desde logo, a visão de uma nuvem
diáfana que se formava junto à cadeira da médium. O
fenômeno durou apenas quinze minutos, tempo em que,
através da sombra, se materializou a figura do primeiro
Espírito, mas, de modo tão perceptível, que os presentes o
viam dar “passes” na médium.
Evaporada a nuvem, o espectro levantou a cortina e
assomou em pleno recinto, aos olhos dos circunstantes,
tendo as mãos levantadas para o céu, como que a pedir
graças a Deus.
A perplexão foi geral, não se ouvindo, nesse ínterim, o
menor sussurro. Em meio desse silêncio, de olhos cerrados
como uma pessoa em estado de letargia, a médium fez um
gesto com a mão para o Doutor Leal, que, ato contínuo,
tomou assento numa cadeira isolada, a três passos da mesa.
Nesse momento o Espírito, que se dizia de um médico, tirou
uma pasta do Doutor Leal e o medicou por espaço de alguns
minutos, dando repetidas fricções no pescoço.
Em seguida entregou o algodão à esposa do medicado e
encaminhou-se lentamente para o canto da sala. Aí descerrou
a cortina e fez ressaltar aos olhos da assistência o vulto da
médium, que permanecia ainda na cadeira, em completo
estado de imobilidade.
Há esse tempo, ocorria outra cena impressionante. Nova
silhueta diáfana se projetou no canto, fazendo surgir à visão
de outro Espírito materializado, que se dizia chamar João.
A assistência ficou estupefata. Mas a sua admiração foi
tanto maior, quando viu os dois Espíritos arrastarem
lentamente a cadeira da médium até o centro do recinto.
Nessa ocasião, uma voz estranha e isolada murmurou na
sala. Era a médium que pedia ao Doutor Leal entregasse um
lenço ao Espírito do médico.
A visão aproximou-se do Doutor Leal, tomou o lenço e
voltou ao lugar onde estava o outro Espírito velando a
doente. Ai, no decurso de quarenta e cinco minutos, praticou
a operação, ouvindo-se nesse intervalo um como rumor de
pinças a tocar nos dentes da operada. De vez em quando, D.
Nicota Prado soltava gemidos abafados, mas sempre imóvel
e hirta como uma pessoa atacada de catalepsia.
Terminado o ato operatório, a médium moveu-se e,
atuada pelo Espírito do médico, deu uma breve explicação
sobre o caso cirúrgico.
Seguidamente, o Espírito de João lançou mãos das flores
que repousavam sobre a mesa e atirou-as aos assistentes,
demonstrando o desejo de ouvir um pouco de música.
Os Srs. Tudo Menezes e Clóvis Prado tocaram uma
valsa, que foi acompanhada a coro vocal, por todos os
assistentes.
Findo esse ato, João pegou num tímpano e o fez soar em
torno de sua cabeça, em repetidos gestos de exultação.
Depois tirou da cabeça o seu capuz branco e, acompanhado
do Espírito do médico, em acenos de cortesia, desapareceu
misteriosamente do recinto. Assim terminou a sessão.
Diz ainda à missiva que, em virtude da intervenção
médico-cirúrgica do Espírito, o Doutor Alexandre Leal e D.
Nicota Prado melhoraram sensivelmente.
Entre as pessoas que assistiram à sessão, contam-se o
Coronel Tomás Antônio Meireles, chefe político em
Parintins; Major Raimundo Gonçalves Nina e uma filha;
Capitão João Meireles, Delegado de Polícia; Clóvis Prado e
família, Jonas Pais Barreto, Tude Henriques de Menezes, D.
Maria José Carvalho Leal e Srta. Lourença Amália Leal.
O Senhor Eurípedes Prado é comerciante na praça de
Belém do Pará e acha-se a passeio em Parintins,
acompanhado de sua família.

TERCEIRA PARTE

FOTOGRAFIAS

A PROVA FOTOGRÁFICA

Como que respondendo à campanha sem tréguas em que


muitos ainda se empenham, os Espíritos a pouco e pouco
encaminham os fatos para uma demonstração irrefutável da
verdade de que são portadores, emissários da Misericórdia
Divina. Nenhuma prova mais certa, mais segura do que
aquela chie nos oferece a fotografia, mal grado o maldoso
engenho de uns e o cepticismo doentio e crônico de outros
tentarem ainda a acusação cediça e gasta da fraude!
Mas nos parece que ao maestro Bosio cabe a glória da
descoberta da fotografia espírita diurna sem intervenção
alguma do magnésio (34). São comuns as chapas obtidas à
luz do magnésio - e, mesmo, devemos dizer que fatos
conhecemos em que, indo pessoas tirar o retrato, ao serem
reveladas as chapas estas acusavam vultos e fantasmas ao
lado daquelas.
(34) Ler o livro de Madame Esperança, No País das Sombras, últimos capítulos.
Seja como for, entretanto, de experiências assim feitas de
modo certo e determinado “oficial”, não tínhamos notícias,
como notícias não tínhamos de o próprio Espírito descobrir a
objetiva, assim, ele mesmo servir de fotógrafo de outros
seres do Além!
Possa esta nova estimular outros experimentadores a
quem, para melhor orientação, recomendamos a leitura do
livro do nosso amigo Ettore Bosio, “O que eu vi”, no qual
ele descreve, minuciosamente, as instruções que recebia dos
Espíritos sobre essas insólitas experiências.
Ele próprio nos contará esses fatos, com a sua linguagem
sempre clara e sincera.

FOTOGRAFIA LUMINOSA

Desde a época do 2° aniversário da aparição do “João


materializado, diz-nos o maestro Bosio, que ele prometera,
pela tiptologia, uma fotografia luminosa. Ainda a família
Prado residia na rua dos Tamoios, quando foi feita a primeira
tentativa, de efeito negativo.
Colocada a máquina no corredor da casa, focada em um
dos pontos indicados pelo Espírito e deixada a objetiva
aberta toda a noite, apenas se conseguiu na chapa algumas
manchas fluídicas de um branco-neve.
Perguntado ao “João” a razão do insucesso, disse-nos,
por meio da mesinha mediúnica, que pretendera fazer posar
um Espírito de velha, mas que não o lograra, visto esta não
somente não querer fotografar-se, mas também não ficar
diante da objetiva o tempo necessário para impressionar a
chapa.
No mês de Julho, não recordo o dia, a família Prado e a
minha foram convidados para passar o dia com a do Senhor
João da Rocha Fernandes, dedicado amigo nosso, voltando
de lá, perto da meia-noite.
Já no dia anterior a este o “João” nos prometera outra
tentativa na nova residência do Senhor Prado, travessa São
Mateus, 142. Recebidas as instruções precisas, cumprimo-las
escrupulosamente.
A máquina, àquela hora mesma, foi focada para o centro
da pequena sala do 1° andar, ao lado de outro aposento, com
porta de comunicação, ficando esta aberta, e no qual a
Senhora Prado e seu esposo dormiam. Abri o chassis e tapei
cuidadosamente a objetiva, perguntando ao “João” se ele
podia tirá-la, o tempo preciso para fazer a exposição, e
recolocá-la. Respondeu-nos afirmativamente.
Fechou-se a porta que dava para o corredor, retirando-me
em seguida. De manhã cedo, às 6 horas e meia, fui saber do
resultado. A máquina estava aí com a objetiva tapada da
mesma forma como a tinha deixado.
Teria o “João” aberto a máquina e impressionado a
chapa? Como sabê-lo? Perguntamos-lhe então, pela
tiptologia, e ele nos respondeu o seguinte: - Quero saber
vossa opinião sobre o meu primeiro trabalho fotográfico!
Seria possível? Mau grado as coisas espantosas a que já
assistíramos, ansiávamos pela prova desta experiência.
Corri a revelar a chapa no atelier Girard.
Não poderei descrever a minha emoção ao descobrir,
ainda no banho revelador, que a chapa fora impressionada!
E' a mais bela fotografia que obtivemos! (Gravura 28.)

Gravura 28

Eis o histórico breve e sincero da primeira e única


fotografia que conseguimos, neste gênero.
Circunstâncias diversas concorreram para que até hoje
não se repetisse mais essa experiência, entre elas a
disposição de cômodos da nova moradia do Senhor Prado,
muito clara para este fim.

FOTOGRAFIAS ESQUISITAS

Mais da que aos incrédulos, a nós mesmos, os espíritas,


familiarizados com os fenômenos que vimos relatando,
alguns se apresentam revestidos de aspectos tais, que nos
intrigam, deixando-nos inteiramente perplexos e
desnorteados.
Assim o caso das três fotografias que se seguem, todas
esquisitas, prestando-se admiravelmente à maledicência e à
crítica parcial, ávida de ensejos para o ataque injusto.
Na primeira fotografia aparece fora da grade, onde está a
“médium”, uma perfeita cabeça de boneca sobreposta a
roupagens brancas, a cujas pontas, do lado direito, está como
que amarrado no mastro que, lacrado, fechava a grade. De
onde veio essa cabeça de boneca? Um transporte? Não é
inteiramente inadmissível a idéia. Perguntado, o Espírito
disse, apenas: imagem do Manoel Barbosa Rodrigues - um
dos mais assíduos freqüentadores das sessões de
materialização, que não fora, aliás, nessa noite. “Ele se
lembrará”, acrescentou o Espírito. (Gravura 29.)
Gravura 29

Interrogado por nós, Barbosa Rodrigues, por mais


esforços que fizesse, não conseguiu reconhecer a cabeça,
fato que até hoje o intriga.
Vê-se também, nessa fotografia, como que saindo das
mãos ou da boca da médium, uma faixa branca que,
atravessando da grade maior para a outra menor, onde se
achavam os baldes, cai sobre estes. Dentro desta última
frade, muito pregada, se encontravam os baldes em que o
Espírito mergulhava a mão para fazer moldes em parafina.
Nota-se, numa das extremidades da faixa branca fluídica,
como que um molde de mão.
*

Esquisita ainda é a fotografia n. 30. Vê-se entre a


Senhora Leopoldina Fernandes e a Srta. Antonina, que é
médium psicografa, um vulto com o rosto coberto. Em
inúmeras fotografias publicadas em obras congêneres temos
observado casos idênticos. Consulte-se, por exemplo, os
recentes trabalhos de Madame Lacombe e de Madame
Bisson.

Gravura 30

Não sabemos a que atribuir esse fato de os Espíritos


ocultarem a fisionomia – a não ser que, nem sempre
permitindo o ambiente à materialização tão perfeita que
faculte a recomposição dos traços fisionômicos em seus
mínimos detalhes, eles prefiram apresentá-los vendados.
Repare-se, por exemplo, nestas fotografias obtidas por
Madame Lacombe (Gravuras 30-A e 31).

Gravura 30 A
Gravura 31

E' desnorteante. Há, decerto, casos em que o Espírito


parece completa, nitidamente materializado. Nas
experiências da Senhora Prado, registamos três casos
célebres: o aparecimento de Hilda, filha do Doutor Melo
César; Sita, do Senhor Teixeira Marques, e Raquel, de
Frederico Fígner, reconhecidas todas por seus pais.
Esta última aparição foi a mais perfeita de todas. Leia-se
a comovente narrativa dessa sessão, feita pelos pais de
Raquel, no último capítulo deste livro.

*
Muito mais esquisita é ainda a terceira fotografia. Vê-se
um fantasma de pés e mãos de adulto como que segurando
uma criança, cuja cabeça encantadora e de uma beleza
celestial surge à altura em que devia estar a daquele.
(Gravura. 32.)

Gravura 32
Gravura 33
Primeira experiência, após a memorável sessão de 20 de Agosto de 1920.
Vê-se colocada sobre o braço do Senhor Manoel Tavares, sentado em
primeiro lugar, á esquerda, uma pequena mão branca, envolta em panos.

Gravura 34
Segunda experiência . No assoalho, tocando os pés do Senhor Manoel
Tavares está a mão aparecida na experiência anterior. O Senhor acusou a
pressão dos dedos do Espírito apertando o pé.
Mas porque essas fotografias apresentam essas
anomalias, essas singularidades, devemos ocultá-las? Não!
São tão verdadeiras quanto as demais. Ao contrário,
devemos mostrá-las ao público, submetê-las à apreciação de
todos, dizendo-lhes os nossos próprios embaraços, as nossas
próprias perplexidades.
Ainda merece uma referência à fotografia do Espírito de
e João”, reproduzida na gravura n. 41. Está envolto numa
espécie de lençol visivelmente amarrotado e calçando
sapatos de lona branca. Seria ainda um caso de transporte e
cuja recomposição de tais peças de uso fosse tão somente de
sorte a impressionar a chapa e não a retina do
experimentador? Eram 9 horas da manhã.
Além da médium, nada era visto diante da objetiva.
Revelada a chapa, acusou a roupagem e os sapatos. Não é
desnorteador?

FOTOGRAFIAS OBTIDAS DE DIA

As experiências do Maestro Ettore Bosio, obtendo


fotografias espíritas em pleno dia, vêm, pensamos, facilitar a
solução ao problema de além-túmulo.
Rolam por terra, definitivamente, as acusações dos
inimigos do Espiritismo, que em tudo deparam fraudes e
mais fraudes.
A fiscalização das chapas é facílima: logo após a
impressão elas podem ser reveladas, à vista dos
experimentadores.
E' possível que nem sempre os resultados sejam
satisfatórios, pelo menos na fase inicial das experiências,
devendo, entretanto, os experimentadores desde já ter uma
preocupação capital: operar somente quando o transe for
completo. E indispensável.
Solicitamos a atenção dos que nos têm lido para
observarem detidamente essas fotografias. São quase todas
transparentes, sendo que, além do fantasma focado, parece
que, em diversas, há semblantes que, embora quase
apagados, são perfeitamente distinguíveis.
Sem mais comentários, leiamos a palavra do Maestro
Bosio, chie nos vai dizer como obteve essas admiráveis
fotografias.

INÍCIO DA FOTOGRAFIA ESPÍRITA EM PLENO


DIA

Narra-me assim o Maestro Bosio a descoberta da


fotografia diurna dos Espíritos, sem auxílio do magnésio:
“O meu amigo Prado se achava ausente; tinha ido a Santa
Isabel, localidade distante 2 horas da capital.
Falando-me a Senhora Prado sobre a sua extrema
sensibilidade mediúnica, dizia-me que, quando longe de
seres queridos, como sua mãe, filhos, esposo, etc., sentia
profunda tristeza e uma impressão estranha, uma espécie de
abandono e enfraquecimento geral, provocando isto um
estado que não sabia bem definir. Nestas ocasiões,
acrescentou, vejo o meu próprio duplo.
- Eureca! disse eu, temos fotografia em pleno dia!
- Como?
- Permita-me, senhora, que eu coloque, focada, a
máquina na direção da cadeira em que se acha presentemente
sentada, a qual será conservada sempre no mesmo lugar
conjuntamente com o aparelho fotográfico. Qualquer
momento em que a senhora se sentir cair em transe, procure
sentar-se nela e confie em Deus. Nada lhe sucederá de maior.
Ficou assim combinado. Instruí a Srta. Antonina (filha da
médium), pedindo-lhe que, dado o momento preciso, abrisse
a tampa da objetiva, contando 5 tempos regulares.
O momento não se fez esperar, impressionando uma
chapa, a qual, revelada incontinenti, acusou fotografada
fluidicamente a médium, de tamanho muito maior do que o
natural, ficando apenas na cadeira poucos fluidos e vendo-se,
sempre nesta, a forma tenuíssima da parte inferior do corpo
da Senhora Prado! Maravilhoso! Assombroso mesmo!
(Gravura 35)
Gravura 35

A Srta. Antonina, única testemunha de vista, ficou


“intriguée” com o sucedido, tanto mais porque se recordava
perfeitamente de ter visto sempre sua genitora sentada na
cadeira, conservando-se aí antes, durante e depois, até acabar
o transe.
Surpreendida e desconfiada, acostumada, pelos
fenômenos de materialização, produzidos anteriormente, às
contínuas e cruéis calúnias dos “sabichões”, procurava
convencer-se da veracidade do fato, não achando explicação
nenhuma plausível. “Se estivesse presente meu pai, dizia ela
com muita graça, eu estaria tranqüila; teria, pelo menos, mais
um testemunho do que se passou.” Rimos bastante e
brincamos muito com o seu estado de dúvidas e de agitação.
Renovamos a experiência poucos dias depois. Estavam
presentes nessa ocasião o Doutor João Corrêa (irmão da
médium) e também as Srtas. Alice e Antonina (suas filhas),
além do seu amigo Bosio, na qualidade de fotógrafo-amador.
Eis o magnífico resultado: (Gravura 36.)

Gravura 36

Estes dois especímenes fotográficas, pelo seu assombro,


fizeram tomar ao Senhor Prado, quando de volta de Santa
Isabel, uma dolorosíssima resolução: suspender essas
experiências alegando ele que, pela surpresa do transe da
médium, não podia haver outras testemunhas que não fossem
os membros da sua família e o fotógrafo, quando porventura
se achasse presente.
Deus sabe o que faz, meu bom amigo Nogueira!
O Senhor Prado resolveu outra viagem e desta vez por
maior tempo, indo com seu filho Erato até ao Rio. Permitiu-
me, por extrema gentileza, e dados os laços de recíproca
estima entre nossas famílias, que observasse todos os
fenômenos espíritas produzidos por efeito da mediunidade
de sua esposa, menos o da materialização.
Foi quando pude obter a bela série de chapas que se
acham o “O Trabalho dos Mortos” (gravuras 37 a 44.)

Gravura 37
Terceira fotografia obtida de dia ás 8 ½ horas da amanhã de 16 de
Janeiro de 1921. Os fluidos brancos formam uma figura diáfana à
esquerda da médium, cujo corpo desmaterializado em grande parte é
quase todo transparente. Vê-se através dele o encosto e a armação da
cadeira, a palhinha do assento sendo apenas opacos o braço direito e uma
pequena parte da mão.

Gravura 38
Fotografia tirada no dia 18 de Janeiro de 1921, às 10 horas da
amanhã. O maestro Bosio considera o resultado incompleto e incerto por
não ficar provado, positivamente se as manchas brancas que apareceram
na vidraça da porta ao fundo foram eleitos de algum fenômeno ou por
outra qualquer causa. Mas perguntamos que causa seria essa? Elas lá não
estavam e entretanto, impressionaram a chapa. De onde vieram?
Gravura 39
Experiência. Fotografia obtida às 9 horas da amanhã de 19 de
Janeiro. Fantasma diáfano, de estatura muito maior que a médium. Veja-
se como que se derramando do corpo da médium, a onda fluídica
formadora do fantasma.
Gravura 40
Fenômeno luminoso refletindo no soalho. Fotografia diurna. Com
uma boa lente, parece-nos que distinguimos vários semblantes, embora
indistintamente. Atente bem o leitor para o alto da claridade da parede e
a direita da mesma claridade.
Gravura 41
Fotografia obtida no dia 30 de Janeiro, às 9 horas da amanhã.
Reconhece-se francamente a fisionomia do Espírito de “João”
confrontando-se, já com o seu próprio retrato reproduzido na gravura 3,
já com a do fantasma.
Gravura 42
Fotografia de um grupo de Espíritos obtida no dia 10 de Fevereiro de
1921, as 8 ½ da manhã. Além dos fantasmas perfeitamente visíveis, no
primeiro plano, o leitor atento, com o auxilio de um alente, distinguirão,
no alto, vários semblantes também perfeitamente visíveis.
Gravura 43
Fotografia obtida no dia 23 de março, às 9 horas da manhã. Para
conseguir fotografar esse espírito foi uma luta insana que o maestro Bosio
relata minuciosamente no seu livros tantas vezes já citado. O Espírito de
“João” disse-o perseguidor de um dos nossos mais estimados confrades.
Gravura 44
Fotografia obtida às 3 horas da tarde do dia 25 de Março de 1921,
pelo maestro Bosio. Vê-se distintamente o corpo do fantasma todo
transparente. Dava nas sessões o nome de Evangelista. Além do seu vulto,
há sombras luminosas em diversos postos da chapa.

QUARTA PARTE

Cartas do Dr. Melo César e Jose J. Teixeira Marques

Quis Deus, em sua alta sabedoria, que à crítica mordaz,


implacável e ferina destes; à dúvida justa e bem intencionada
daqueles; à indagação louvável e estudiosa de outros, se
opusesse à palavra insuspeita e o testemunho comovido de
criaturas que tiveram a dita inefável e rara de rever seres
adorados, graças ao fenômeno de materialização.
Assim aconteceu com os Srs. Doutor Melo César e José
J. Teixeira Marques, o primeiro conceituado advogado no
foro de Belém, e o segundo conhecido guarda-livros e
quartanista de Medicina.
No livro “O que eu vi”, de Ettore Bosio, estão insertas as
cartas em que ambos confirmam a materialização de suas
filhas Hilda e Sita, respectivamente, e que adiante
transcrevemos.
Assim aconteceu com o nosso dedicado confrade
Frederico Fígner, do Rio, vindo especialmente a Belém para
assistir às sessões da Senhora Prado.
Será a chave de ouro desta recolta a descrição comovida
e comovedora feita pela digna esposa daquele nosso amigo,
dessa memorável sessão em que, durante 40 minutos, ambos
reviam a sua adorada Raquel, mais formosa ainda, envolta
no clarão etéreo dos Espíritos bons e felizes! (35)
(35) Página 263.
Depois reproduziremos a entrevista concedida pelo nosso
venturoso confrade ao “Estado do Pará”, na qual também nos
fala, de alma aberta, da intensa e sagrada comoção que lhe
despertou esse estranho encontro com a sua filha morta! (36)
Sem os obstáculos de ambiente e as desconfianças
prejudiciais que as sessões de fiscalização criam, a
materialização de Raquel foi completa.
(36) Página. 279.
Tratava-se de uma ressurgida, tão nítidos e perfeitos
estavam-lhe os traços fisionômicos, em seus mínimos
detalhes.
As sessões íntimas têm grande valor. Não só o próprio
médium se sente mais à vontade, como os Espíritos
procedem livremente, sem o receio de qualquer imprudência
por parte dos assistentes, que venha atingir e prejudicar a
saúde daquele.
Tivemos a ventura de tomar parte em algumas dessas
sessões íntimas. Narrá-las em todo o seu esplendor, seria até
aumentar a incredulidade dos que rejeitam o fenômeno, tão
espantosos são os fatos que elas oferecem.
Bendita seja a Misericórdia Divina!
Eis descrita pelo maestro Ettore Bosio a sessão em que
se realizaram as materializações dos Espíritos de Hilda e
Sita, às quais aludimos neste livro:
Na presença dos Drs. Pereira de Barros, médico
conceituado e diretor da Casa de Saúde do mesmo nome;
Mata Bacelar, médico homeopata de grande nomeada;
Pinheiro Sozinho, diretor da Escola de Agricultura, e esposa;
Melo César, advogado, esposa e filha; Francisco Viana,
cirurgião dentista, esposa, filha e cunhada; Abel da Costa,
cirurgião dentista; Bacelar Júnior, médico, e os Srs. Teixeira
Marques, chefe de secção da Intendência de Belém e diretor
da Escola Prática de Comércio, e sua esposa; Álvaro
Menezes, farmacêutico homeopata; Pedro Bastos, corretor,
esposa e filha; João da Rocha Fernandes, capitalista, senhora
e filha; Manoel Tavares, guarda-livros da Casa Antônio
Albuquerque & Cia., esposa e filha; Eurípedes Prado e
filhas; Maria Figueiredo Costa, esposa do Coronel Simplício
Costa; Barbosa Rodrigues, comerciante, esposa e filha, e do
Senhor Doutor Gaston Vieira, médico legista e esposa, e de
outros cavalheiros, efetuou-se na noite de 22, às 21 horas,
uma sessão de materialização, sendo médium a Senhora
Prado, em minha residência, sita à travessa São Mateus n.
100-A, em sala expressamente preparada para este fim, tendo
uma única porta de entrada, o chão cimentado e
completamente descoberto, sem tapete que pudesse fazer
supor alçapões, etc., as paredes completamente nuas,
despidas de qualquer ornamentação, pintadas de cor cinzenta
escura, o teto idem, parecendo a sala com uma grande caixa
de 10 metros em quadro, contando apenas três filas de
cadeiras, uma grade e uma câmara obscura móvel.
Nesta sala muitas sessões de materializações se
realizaram, limitando-me a descrever apenas esta, visto
como muitas das demais se encontram amplamente narradas,
ou melhor, ilustradas, no “O Trabalho dos Mortos” (Livro do
João), do meu bom amigo e confrade Doutor Nogueira de
Faria.
Depois de colocada a médium dentro de uma grade
quadrada, de forma cúbica, com varões de ferro, de tamanho
apenas suficiente para contê-la sentada em uma cadeira
comum, não havendo na dita grade porta alguma, mas sim
uma única abertura da sua parte inferior para a entrada da
médium, suspensa na ocasião à altura da mesma; para isto se
poder operar, foi fixada em uma tábua, sobre a qual a
médium se achava já sentada, por meio de quatro porcas,
engatadas em espigões de ferro, fixos na mesma.
Este trabalho foi feito por algumas das pessoas presentes.
Examinada cuidadosamente a câmara obscura, que se
encontrava no meio da sala para este fim, formada de
armação de dois quadros laterais da largura
aproximadamente de dois metros, seguros apenas com
travessas de 6 centímetros, formando assim uma caixa com
teto, fundo e frente abertos, tendo, tanto dos lados como na
frente, pendurados, uns levíssimos cortinados soltos, de pano
preto, no seu total comprimento, foi esta empurrada, visto ter
roldanas, até à parede do fundo, onde se achava a grade já
descrita, cobrindo esta e fixando-a na parede por meio de
espigões.
Apagaram-se as luzes gradualmente, ficando a sala com
claridade suficiente para serem vistas a parede do fundo, em
toda a sua extensão, a câmara obscura no centro, e nesta a
grade com a médium dentro, já em estado de transe
completo.
Depois de uma espera não muito longa, apareceu, saindo
do cortinado da frente, o fantasma de uma moça, trajando
túnica branca, amarrando-lhe uma larga faixa da mesma cor,
dos pés até o queixo, como se fosse amortalhada à maneira
judaica. Cabelos escuros, soltos e caídos sobre os ombros, no
peito. Procurou em primeiro lugar a Srta. Nair Melo,
médium de efeitos físicos, que se achava perto da câmara
obscura, com auxílio fluídico, atenuando assim em parte o
abatimento da médium de materialização, durante o trabalho,
auxílio aliás, para mim, desnecessário, visto como nunca foi
preciso nas sessões anteriores. Foi a pedido do Espírito
“João” que assim se proceder. Depois de abraçá-la e de lhe
apertar a mão, pediu que dissesse em voz alta ser ela a filha
do Senhor Teixeira Marques, indo em seguida na sua
direção; bem próximo, pronunciando a seguinte frase: “Meu
querido pai!” E estendeu-lhe a mão. Com fadiga e a passos
curtos, por se achar amarrada. voltou para perto da câmara,
ajoelhando-se em atitude de quem reza, e retirando-se em
seguida (37).
(37) Percebe-se claramente a intenção do Espírito, apresentando-se assim: dar-se
a reconhecer, pois, tendo sido casada com cavalheiro hebraico, ao morrer fora
sepultada de acordo com os costumes desses irmãos.
Pequeno intervalo. Outra figura se mostra, abrindo o leve
cortinado e é o vulto de Hilda, falecida em 1918, na época
calamitosa da gripe. Filha do Doutor Melo César, que
também se achava presente, com a sua esposa e filha Nair.
Veste túnica branca atada na cintura. Os seus cabelos
castanhos estão soltos, caídos na frente, com fitas pretas
amarradas nas extremidades.
Deu a mão à Srta. Nair e foi diretamente a seu pai, de
traços abertos, parecendo que ia abraçá-lo. Comovido, o
Doutor César levanta-se para corresponder à expansão
afetuosa de sua idolatrada Hilda, mas esta recua, talvez
receando prejudicar a médium, dizendo neste momento:
“Meu bom pai!”
Retirando-se, voltou-se para sua irmã Nair, com a qual
brincou, pegando-lhe suavemente os cabelos, acariciando-a
nas faces, dando-lhe umas leves palmadas na mão, etc.
Ouvindo Hilda sua querida mãe trocar, disse à irmã: “Dize
aos nossos pais que não chorem, eu sou muito feliz!”
Ajoelhou-se, orou e retirou-se.
Mais um Espírito materializado apareceu nesta
memorável sessão – o de Maria Alva, que, conforme já se
disse anteriormente, foi minha filha na última existência.
Vestida de branco, também com larga faixa preta a tiracolo,
tinha os cabelos pretos divididos em duas tranças visíveis,
uma na frente e outra atrás, caídas nas costas. Cumprimentou
a Srta. Nair oferecendo-lhe uma flor, percorreu a sala, na sua
extensão, e, dirigindo-se para minha esposa Luísa, para lhe
dar um galho de alecrim, ajoelhou-se à sua frente, orando.
No ato da entrega, disse: “Tome, plante para mim.” Apertou-
lhe a mão, beijando-a. Veio também para a fila do nosso
lado, oferecendo-nos flores.
Em quarto lugar vimos o Espírito de “João”, o querido
dos assistentes, conhecido desde as primeiras manifestações
espíritas da casa Prado. Estava triste. Ajoelhou-se e rezou
muito. Aproximou-se dos assistentes, oferecendo também
flores, e apertando-lhes as mãos, em sinal de despedida, pois
a médium ia temporariamente para Parintins, com a família.
Retirou-se, voltando pouco depois para nos saudar, agitando
por muito tempo um lenço branco. Procurou o Senhor
Eurípedes Prado, e, entregando-lhe umas flores secas, disse
- Devolva-as ao irmão Simplício.
Mais um outro vulto: o marinheirinho. Calças brancas,
curtas até aos joelhos, meias também brancas, blusa de cor,
lenço no pescoço, cinto apertado à blusa, e neste, pendurado,
um pequeno sabre. Na cabeça um boné que tirou pouco
depois do seu aparecimento. Gordo, baixo, com movimentos
esbeltos. Começou a brincar com a Srta. Nair, segurando-lhe
ambas as mãos, e movimentando-se ritmicamente, como
quem deseja dançar. Sempre com ar brincalhão, caminhando
apressadamente, procurou diversas pessoas, apertando-lhes
efusivamente e com força as suas mãos, a ponto de fazer
exclamar ao Doutor Mata Bacelar: - “Tem força, o rapaz!”
Voltou a brincar novamente com aquela senhorita, e
desapareceu.
Eis-nos finalmente chegados ao último fantasma que se
materializou! O “Evangelista”, assim por nós conhecido.
Grande túnica de um branco fosforescente, largas mangas,
barba preta crespa, poucos cabelos, em atitude austera,
solene, com o olhar dirigido ao céu, levantados os braços
para o indicar. Firme, em pé, perto da câmara, olhando-nos
depois com ar de bondade e amor. Admiravelmente belo
pelo vigor da sua figura, pela luz que do seu corpo se
expandia, pela elevação e solenidade do seu porte! Passou ao
lado oposto da câmara, sempre conservando o tom de
superioridade evangélica, e assim ficou muito tempo.
Sentíamo-nos todos deslumbrados pela graça que Deus nos
tinha concedido naquele momento. Enfim, retirou-se, não
sem se ajoelhar e orar.
Depois da espera necessária para a desmaterialização,
acordando o mesmo Espírito “João” a médium, por meio de
leves palmadas dadas nas suas faces, foi suavemente
aumentada à luz da sala, verificando-se, então, que tudo se
achava igualmente disposto como no começo da sessão, isto
é, a grade dentro da câmara obscura, com a médium aí
sentada e na mesma posição, sendo preciso, para retirá-la,
desparafusar as porcas, e quatro pessoas levantarem a grade
à altura da sua cabeça, para esta se poder retirar. Verificou-se
neste momento que a Senhora Prado se achava muito
incomodada, com forte dor de cabeça e tonturas, bastante
fatigada e muito enfraquecida, com o pulso um pouco
agitado.
Ettore Bosio.”
A propósito dos fenômenos assim narrados, o maestro
Bosio dirigiu aos seus amigos Doutor Melo César e Teixeira
Marques a seguinte carta, obtendo as respostas que se lhe
seguem
Pará, 8 de Maio de 1921.
Ilmo. Senhor Doutor.
Cumprimentos.
Consinta-me em sua bondade que lhe solicite a fineza de
me responder em seguimento desta:
a) se o senhor assistiu a algumas das sessões de
materialização realizadas em minha residência, graças à
mediunidade da Senhora Prado;
b) se, entre os Espíritos que se materializaram,
reconheceu algum;
c) qual a impressão que lhe ficou da veracidade desses
trabalhos.
Seu grato amigo
Ettore Bosio.
Resposta do Doutor Melo César:
“Ilmo. Senhor Ettore Bosio.
Em resposta à sua carta, cumpre-me dizer o seguinte:
Assisti a duas sessões de materializações de Espíritos,
realizadas em sua residência, à travessa S. Mateus, 100-A,
nesta Capital. A primeira sessão foi a 9 e a segunda a 22 de
Março deste ano.
A médium das materializações - Senhora Prado -, em
estado de completa letargia, achava-se sentada em uma
cadeira, dentro de uma gaiola de ferro, no fundo do salão. As
sessões começavam às 9 horas da noite.
O primeiro Espírito que apareceu materializado foi o de
minha filha Hilda, falecida nesta Capital a 28 de Setembro
de 1918.
Além de reconhecida perfeitamente por mim e por minha
família, que assistiu às sessões, foi reconhecida por muitos
outros assistentes, que a conheceram em vida. Depois de sua
permanência entre nós por alguns minutos, desapareceu
Hilda e apareceu materializado o Espírito de Maria Alva, a
qual, segundo declarou, fora filha do meu distinto amigo, a
quem dirijo estas linhas. Também demorou alguns minutos
entre nós, Maria Alva, cuja forma desapareceu rapidamente.
Apareceram ainda materializados os seguintes Espíritos:
o de um marinheiro, rapaz de seus 17 a 18 anos de idade; o
de uma filha do Senhor Teixeira Marques, o de um
desconhecido e o do João, já bastante conhecido de todos os
que assistiram às sessões anteriores realizadas na residência
do Senhor Eurípedes Prado. Os fenômenos das
materializações, por mim observados com a máxima
atenção, foram igualmente observados por cerca de 50
pessoas que assistiram às sessões, entre as quais se contavam
médicos, comerciantes, funcionários públicos, cirurgiões-
dentistas, advogados e muitos outros de destaque em nosso
meio social.
A impressão que me ficou no espírito é a de que todos
esses entes desencarnados continuam a viver perto de nós,
comunicando-se conosco, quando assim é permitido, e que a
sua morte aparente não foi mais do que a sua libertação da
matéria grosseira que os trazia preso durante a vida terrena.
Por mais rigoroso ou descrente que seja o observador de tais
fenômenos, de modo algum poderá justificar a hipótese da
fraude.
Éramos umas 50 pessoas, como ficou dito, os assistentes
das duas sessões, e posso declarar que as nossas afirmações
de que os fenômenos por nós observados - são reais, são
verdadeiros - têm muito mais valor do que as negações de
todos aqueles que ainda não assistiram a materializações de
Espíritos.
E' lógico que as afirmações de poucas pessoas que viram,
que observaram, que estudaram um fenômeno qualquer,
sejam muito mais valiosas do que as negações de cem mil
que não viram, que não observaram, nem estudaram esse
fenômeno, como mui judiciosamente notou Alfred Erny no
seu “Estudo dos Fenômenos Psíquicos” (38).
(38) Psiquismo Experimental.
Autorizo-o a fazer da minha resposta o uso que lhe
convier.
Do Am.° Cr.°
Manoel C. de Mello César
Resposta do Senhor Teixeira Marques:
“Belém do Pará, 13 de Maio de 1921.
Meu caro Senhor Maestro Bosio.
Saudações.
Em resposta à sua carta de 8 deste mês, tenho a dizer-lhe
que assisti, em sua residência, a uma sessão espírita de
materialização, não me recordando, agora, a data. Essa
sessão me deixou a mais grata recordação, pelo fato de, entre
os cinco Espíritos que durante duas horas estiveram conosco,
contar-se o de minha filha Sita, falecida em Dezembro de
1917.
Minha filha, casada com o Senhor Simão Roffé, foi
sepultada conforme o ritual hebraico e, talvez, para oferecer
prova de identidade, assim apareceu, não deixando perceber,
portanto, senão parte do rosto, isto é, tendo encoberta a
região mentoniana.
Seu talhe, seus cabelos, suas mãos que ela teve entre as
minhas, sua voz quando disse - meu querido papá - me
deixaram a certeza de estar em presença desse ente querido.
Quem assistiu, como eu, às manifestações de João, desde
o seu início, em casa da família Prado, primeiramente
fenômenos ocultos e gradativamente a olho nu, em
companhia de pessoas de respeitabilidade social, nunca
poderá duvidar deles e atribuí-los à fraude.
Eu sou dos que desde o começo desses trabalhos
investigam e fiscalizam tudo, já na residência da família
Prado, já na do Senhor Coronel Simplício Costa, e, seja aqui,
ali ou acolá, o fenômeno é patente, só negado pelos que
falam sem ver ou que os vendo são os piores cegos por não
quererem enxergar.
Houve sessões, Senhor Maestro Bosio, em que João fez
tudo, absolutamente tudo quanto lhe solicitei que fizesse.
Somente em documento muito longo eu lhe poderia
contar tudo quanto tenho assistido por efeito da mediunidade
da Senhora Prado, mas sua carta se refere à sessão a que
assisti em sua casa, e, o que disse, é o que com sinceridade
se me oferece dizer.
Fico ao seu dispor e pedindo a Deus pelo bem-estar da
distinta família Prado, cuja missão bendita vai sendo
cumprida, sob os golpes dos maus, mas amparada pelas
nossas fervorosas preces a Mãe Santíssima.
Pode fazer desta o uso que quiser.
Do amigo,
Teixeira Marques.

AS MATERIALIZAÇÕES

DE

RAQUEL FIGNER

Aos Corações Amantíssimos


De
Frederico Figner e D. Ester Figner

Com as homenagens da minha profunda e respeitos


estima

AS MATERIALIZAÇÕES DE RAQUEL

UM DEPOIMENTO VALIOSO

No dia 28 de Abril de 1921, chegou a Belém o Senhor


Eurípedes Prado, com sua senhora (a médium) D. Ana
Prado. Por nos obsequiar e por amor à Doutrina, fizeram o
sacrifício de deixar seus filhinhos em Parintins e de
empreender, num vapor incômodo, uma desagradável
viagem.
Na noite de 30 de Abril de 1921, achando-nos a
conversar em casa, do maestro Bosio, onde o Senhor Prado e
sua senhora se haviam hospedado, essa última que, sentada
numa cadeira de balanço, tomava parte na conversação, em
dado momento deixou de falar, notando-se que adormecera.
Supusemos fosse de fadiga, por haver dormido mal as noites
anteriores, acompanhando o marido que, doente, quase não
dormia.
Ao cabo, porém,de algum tempo, começou, sem
despertar, a mover os dedos da mão esquerda que descansava
sobre o braço da cadeira. Ficamos atentos. Daí a pouco,
dirigindo-se a mim, disse
- Não gosto de ver mamãe de preto. Não assaltei a
médium. Sentia-me bem, perto de mamãe, e, como a
médium se desprendesse, aproveitei para falar.
Passado algum tempo, a médium estremeceu e, tapando
os olhos com o lenço, se encaminhou maquinalmente para o
quarto, assistida por duas amigas que, lá chegando, a
deitaram na cama.
Uma vez deitada, tornou a falar, dizendo:
- Mamãe, não gosto de te ver de preto. O luto não está
na roupa, está no teu coração, na dor que está no teu coração.
Perguntando-se-lhe se era Raquel quem falava, nada
respondeu. Penso, entretanto, que foi ela, ou um dos meus
filhinhos desencarnados antes dela.
O maestro Bosio perguntou então qual o irmão que
estava presente. Logo, falando pela médium, o Espírito
respondeu:
- Não tenham receio; ela está sobe minha guarda.
O maestro Bosio inquiriu se era João. A resposta, dada
imediatamente, foi:
- Sim, sou eu. Nossa irmã foi a Parintins ver os filhinhos.
Continuando a falar, João disse mais:
- Vamos todos trabalhar para que amanhã o irmão
Eurípedes esteja de pé e eu possa conduzir o meu trabalho.
Respondeu o maestro Bosio:
- Sim, vamos trabalhar: orar.
Ao que João respondeu:
- Vocês, não; nós daqui.
Durante todo esse tempo o Espírito da médium esteve em
Parintins, visitando os filhos que lá deixara, conforme nos
declarara João. Disse este, por fim:
- Saiam todos, pois que ela deve despertar cercada
apenas das pessoas que para aqui a trouxeram.
Em seguida, disse que no dia imediato teríamos sessão,
porquanto ele precisava provar ao Espírito perturbador que
não conseguiria impedir o fenômeno.
Todo esse tempo, o Senhor Eurípedes se conservou
deitado, no quarto ao lado, em palestra com alguns amigos.
Despertando, a médium narrou o que vira durante o
desprendimento do seu Espírito. Disse que, desprendido este,
vira o seu corpo sentado na cadeira. Todos os que se
achavam de frente para a porta da rua observaram que, em
certo momento, essa porta se abrira e fechara por si só,
Frederico imediatamente correra à porta e, tendo-a aberto,
verificara que nas proximidades da casa não se encontrava
pessoa alguma.

PRIMEIRA SESSÃO A 1 DE MAIO DE 1921

No dia 1 de Maio estávamos todos ansiosos, mas


confiantes na promessa de João.
O Senhor Eurípedes passara regularmente a noite. Pela
manhã, no entanto, foi de novo um pouco atuado pelo
Espírito, que Frederico conseguiu afastar por meio dos
passes.
As 11 da manhã, ele se levantou da cama, sendo essa a
primeira vez que o fazia, desde que chegara. A partir desse
momento, cessou todo o mal-estar que vinha
experimentando. À noite, sentia-se completamente
restabelecido, conforme João prometera.
Tivemos uma sessão admirável. Falando ao ouvido da
médium, determinou João que só as pessoas íntimas fossem
admitidas, pois, dizia ele, era apenas uma sessão preliminar.
Impossível me é descrever as sensações que
experimentei. Nenhum pavor tive. Antes, senti-me possuída
de um respeito profundo diante do fenômeno a que assistia.
Sentia-me elevada, como que purificada. Parecia-me que o
Céu baixara à Terra.
A essa sessão de 1 de Maio estivemos presentes: o
Senhor Prado e senhora (a médium), o maestro Bosio e
senhora, o Senhor Manoel Tavares e senhora, Doutor Mata
Bacelar, Senhor Viana e senhora, Senhor Batista, Fred
Figner, eu e nossa filha Leontina.
Frederico e eu pedimos insistentemente à médium que
dispensasse as grades dentro das quais costumava ficar.
Estávamos certos da realidade do fenômeno e, portanto, não
podíamos consentir que ela se metesse naquela gaiola, que
tão mal a impressionava, assim como ao bom irmão João.
Ela, à vista da nossa insistência, se sentou numa cadeira de
balanço, dentro da câmara escura.
Abaixaram-se as luzes, não tanto, porém, que não
víssemos uns aos outros distintamente. A escuridão só era
quase completa na câmara onde estava a médium. Mas,
ainda assim, perfeitamente se via a gola branca do seu
vestido e o lenço com que ela tapava os olhos, evitando a
luz.
Enquanto esperávamos o Doutor Mata Bacelar, que foi o
ultimo a chegar, Frederico fez uma prece. Todos depois nos
sentamos e começamos a conversar, porém sempre atentos
para a câmara onde se encontrava a médium, de sorte que
todos a víamos na sua cadeira de balanço.
Decorridos uns cinco minutos, principiamos a ver
formar-se uma mancha de grande alvura e que mudava de
posição, mas conservando-se sempre à volta da médium.
Essa mancha foi aumentando e, à medida que crescia, mais
se agitava. Dir-se-ia que primeiro formava a roupagem com
que o Espírito se apresenta. Tendo chegado a um certo
tamanho, foi crescendo aos poucos. Em certos momentos,
desaparecia para logo reaparecer, até que se tornou a figura
perfeita de um homem. Passou para fora da cortina e flutuou
como uma nuvem para o lado esquerdo da câmara. Era João.
Uma vez completamente materializado, fechou a cortina,
para evitar que a claridade banhasse a médium, aproximou-
se lentamente de um banco onde havia um tímpano e com
este deu o sinal convencionado para se aumentar à luz, o que
foi feito. O Espírito João tornou-se nitidamente visível.
Caminhou com os braços estendidos para o Senhor
Eurípedes e lhe fez alguns passes. Ajoelhou-se, ergueu as
mãos ao céu e, levantando-se, foi à câmara ver a médium.
Em seguida se dirigiu para mim e se pôs de pé na minha
frente.
Falei-lhe. Expus-lhe toda a minha dor. Disse-lhe o
motivo da minha ida ao Pará. João ouviu-me atentamente.
Depois, estendeu os braços num gesto de me abençoar e os
levantou para o céu. Tudo isso fez defronte de mim e a uma
distância que, se estendêssemos horizontalmente os braços,
nossas mãos se tocariam.
Ao terminar a narrativa que fiz de todas as minhas
mágoas, ofereci-lhe as flores que lhe levara e apresentei a
carta de Dona. Elizabet. Ele recebeu tudo com a mão direita,
passando em seguida para a esquerda e, estendendo aquela,
passou-a suavemente sobre a que eu lhe estendera.
O contacto da sua mão me deu a impressão exata de uma
mão humana e senti que tinha a temperatura normal destas.
Ele tem uma bela compleição. E muito mais alto do que a
médium, que é de estatura muito baixa. Não nos foi, todavia,
possível apreciar bem o rosto. Via-se que havia rosto, mas
não se lhe distinguiam claramente os traços. Suas vestes são
de extrema alvura; assemelham-se às de um frade, com um
capuz, que traz sobre a cabeça.
De vez em quando, João vai à câmara, para ver se a
médium está bem, e volta, permanecendo sempre visível,
pois que, para fazer a sua observação, apenas introduz a
cabeça na câmara.
Depois do João, apareceu-nos um outro Espírito, dentro
da câmara, com a cortina entreaberta, de maneira que
observamos a sua formação e seus movimentos. Esse,
porém, não saiu da câmara e se transformou em seguida
numa moça, cujo rosto vi muito regularmente, assim como
os cabelos a lhe caírem sobre os ombros.
A seguir, apareceu, na abertura da câmara, um Espírito
completamente materializado, trazendo à cabeça uma
espécie de chapéu mole de linho e, passado por baixo do
queixo e amarrado por cima do chapéu, um pano escuro,
como usam algumas pessoas quando têm dor de dentes. A
vestimenta era igual à de João. Note-se que na abertura da
direita da câmara, por onde João entrara e saíra, víamos bem
nítida a sua túnica, como que a flutuar acima da câmara.
Quando o outro Espírito se apresentou na abertura da
esquerda, aí parou. Logo se ouviu a voz da médium, que
vinha de dentro da câmara e pedia que parassem o ventilador
para que o irmão pudesse caminhar. Parado o ventilador, o
Espírito, atravessando toda a sala, foi até junto do Senhor
Eurípedes, deu-lhe passes, levantou as mãos para o alto e
terminou por fazer um gesto como que abençoando aquele
senhor. Voltou para perto da abertura onde se achava a
roupagem de João, pegou-a e puxou-a um pouco para nos
mostrar que era real, que era matéria. Aí se demorou alguns
minutos, andando de um lado para nutro, deixando-se
observar e movendo os braços de maneira que
reconhecêssemos ser exatamente uma criatura humana. Suas
mãos, seus pés, todo o seu corpo, enfim, eram claramente
visíveis. Apenas do rosto não se lhe podiam distinguir bem
os traços.
Cumpre notar que os Espíritos que se materializaram
eram muito mais altos que a médium. Seus pés assentavam
completamente no chão, porquanto nos sapatos não traziam
saltos.
Em suma, foi uma verdadeira maravilha o que eu tive a
graça de ver.
Depois desse segundo espírito, voltou João, trazendo nos
braços alguma coisa que parecia uma criança recém-nascida.
Dissemos todos: E' uma criança, e ele com um aceno de
cabeça confirmou. Levou-a em seguida para dentro da
câmara. Reapareceu e ficou algum tempo a nos olhar.
Das flores que lhe tinham sido ofertadas, deu uma ao
Senhor Eurípedes, atirou uma ao Senhor Viana e distribuiu
as restantes com os outros assistentes.
Voltando à câmara, introduziu aí a cabeça, como que
para falar à médium, e, por intermédio desta, mandou que
fizéssemos uma prece para ser encerrada a sessão. Frederico
começou a fazer a prece em voz alta e João se ajoelhou,
tomando a atitude de quem ora. Antes que a prece
terminasse, entrou na câmara e saiu logo, trazendo na mão
um pano grande, muito alvo, semelhante a um lenço, com o
qual se pôs a acenar como quem se despede. E foi pouco a
pouco se desmaterializando às nossas vistas. Levantou a
cortina e vimos, como no princípio da sessão, a mesma
nuvem branca flutuando em torno da médium. Percebia-se
bem que João lhe dava passes. Ouvimos depois algumas
pancadas, como se alguém lhe estivesse dando tapinhas no
rosto. Explicou-nos o maestro. Bosio que era João a
despertar a médium, dando-lhe palmadinhas nas faces.
Já então distinguíamos de novo o lenço branco da
médium e a gola do seu vestido. Acompanhando os volteios
da mancha branca, percebíamos estar ali verdadeiramente
um ser inteligente, pelos esforças que fazia por despertar a
médium, a quem João dedica grande afeto.
Cheia de indizível comoção, em estado de profundo
reconhecimento a Deus pela sua misericórdia, via escoar-se
assim um dos instantes mais felizes da minha vida. Tinha a
impressão de que o Céu se unira a nós, míseras criaturas.
Espero, com toda a impaciência, o momento ditoso de
começar a próxima sessão.

SEGUNDA SESSÃO A 2 DE MAIO DE 1921

Pessoas presentes: o Senhor Prado e senhora (a médium),


maestro Bosio e senhora, Senhor Manoel Tavares e senhora,
Senhor Antônio Bastos, senhora e filha, Senhor João da
Rocha Fernandes e senhora, Doutor Mata Bacelar, Doutor
Remígio Fernandez, Doutor Pereira de Barros, Senhor
Barbosa e senhora, Doutor Nogueira de Faria e senhora,
Senhora Albuquerque e filho, Coronel Santiago e senhora,
Frederico Fígner, senhora e filhas. Entre essas pessoas,
algumas havia inteiramente incrédulas.
Depois de tudo bem examinado e de estar a médium
(aliás contra a nossa vontade) fechada dentro das grades,
apagaram-se as luzes. Daí a uns dez ou quinze minutos
começaram a aparecer às manchas brancas de que já falei
anteriormente. João, ainda não de todo materializado, pediu
o tímpano que haviam esquecido de colocar junto à câmara.
Passados alguns instantes, indicando com o tímpano as
letras do alfabeto, ele pergunta se não querem ir observar a
médium em transe, dentro da grade. Acendeu-se uma vela a
cuja chama servia de anteparo um chapéu, a fim de que a luz
não batesse em cheio na médium, e alguns senhores foram
até perto da câmara, verificando que esta se achava
adormecida e tudo intacto.
Segue-se um pequeno intervalo, após o qual começamos
a ver de novo as manchas brancas a se condensarem até
tomarem a forma de uma pessoa. Essa forma se apresentou,
primeiro, de tamanho reduzido. Em seguida, porém, tomou
as dimensões de um homem bem proporcionado. E' João, o
nosso bom amigo.
Saiu da câmara e caminhou por diante de todos os que
estavam na primeira fila de cadeiras: recebeu as flores que
alguns dos assistentes lhe ofereceram, inclusive eu,
Frederico e minhas filhinhas Lélia de sete anos, Helena e
Leontina; e, feito isso, começou a distribuí-las com alguns
dos presentes, jogando-as muitas vezes para o ar. Todos os
seus movimentos são absolutamente humanos. Não se pode
ter a menor dúvida de que seja um homem quem está em
nossa presença. De vez em quando vai à câmara escura para
observar a médium, mais sem nunca deixar de ser visível a
todos.
De uma das vezes fica dentro da câmara, enquanto que
pela outra porta sai um vulto, que dizem parecer o
marinheirinho. Este se demorou um instante fora da câmara e
tornou a entrar. Aparece de novo João. Afinal, eles se
materializam sucessivamente às nossas vistas.
Materializou-se um rapaz, que nenhum dos assistentes
conhecia. Perguntando-se-lhe se entre os presentes havia
algum parente seu, acenou com um lenço negativamente e
levantou a mão direita para o alto, como a indicar qualquer
coisa. Perguntaram-lhe se com isso queria significar que seus
parentes estavam no Espaço. Respondeu, por acenos, que
sim.
Surgiu em seguida, junto à cortina, uma moça, com todas
as aparências e gestos de minha filha, a tal ponto que
dissemos: E Rachel! Então, quando se ajoelhou, era
perfeitamente ela. Os gestos eram todos absolutamente os de
minha Rachel, e mesmo o corpo, a forma, o vestidinho acima
do tornozelo, de mangas curtas e um pouco decotado.
Apresentou-se-nos assim muito parecida, porém ficou
distante de nós, bem junto à câmara onde se achava a
médium.
Entrou depois na câmara e de novo saiu, trazendo sobre a
cabeça um capuz branco, que lhe encobria os cabelos e os
ombros. Caminhou em direção a mim, dizendo, com uma.
voz fraquinha e como que chorosa: “Mamãe, mamãe.” A
medida que de nós se aproximava, ia, por assim dizer,
diminuindo, tornando-se menos semelhante, de corpo, à
minha filha. Veio até bem perto de mim e aí parou. Não
tinha então as formas tão perfeitas. Reconheci-lhe, porém, a
fronte, as sobrancelhas; verifiquei, em suma, que era minha
filha.
E' possível que, por ser a primeira vez, não houvesse
podido materializar-se bem. Penso, todavia, que foi devido à
assistência, porquanto, voltando certa vez à câmara, fez a
médium dizer: “Afastem-se os que estão atrás de mamãe,
pois que há ali uma corrente contrária, que me impede de
aproximar-me.” Imediatamente todos se afastaram e ela pôde
com facilidade vir até muito perto de mim e falar. Ouvi e vi
perfeitamente que a voz partia da boca de minha filha, pois
me achava de joelhos diante dela, a contemplá-la e a ouvi-la.
Disse-me, em voz baixa, porém que todos ouviram:
“Para que essa roupa preta? Sou muito feliz, muito feliz.” E
moveu os braços para cima numa expressão de
contentamento. Frederico, Leontina e Helena choraram
muito. Eu experimentei grande emoção, mas não pude
chorar.
Depois de proferir aquelas palavras, pegou de minha mão
e beijou-a, coisa que não fazia aqui na Terra, por isso que eu
e Frederico não gostamos que os nossos filhos nos beijem as
mãos. Entretanto, isso foi uma prova. E' que durante toda a
sua enfermidade, ela, o meu anjo adorado, me beijava a mão
e me cobria de carícias. Vivíamos acariciando-nos, as duas,
como se estivéssemos a despedir-nos para uma grande
viagem.
Também o referir-se ela à roupa preta foi uma
misericórdia e uma prova, pois que eu dizia sempre que só
tiraria o preto se minha filha viesse em pessoa falar-me a
esse respeito. E, como tenho a certeza de que foi ela quem
me falou, fiz-lhe a vontade: desde aquele instante tirei o
vestido preta e nunca mais em minha vida, morra quem
morrer, o usarei. Sei hoje, com toda a segurança, que isso
desagrada aos nossos entes queridos que partem para o
Além.
Leontina lhe entregou uma rosa. Ela acariciou a mão da
irmã, passando-lhe por cima a rosa, e retirou-se para a
câmara escura, onde fez que a médium dissesse: “Vou levar
para o Espaço a rosa que me deste.” Enfim, uma maravilha, a
maior das misericórdias que uma criatura pode receber.
Materializaram-se em seguida os Espíritos de Maria
Alva e o de uma moça que parecia ser o que costuma
apresentar-se numa sessão que o maestro Bosio freqüenta e
que se mostra sempre com um diadema na cabeça, diadema
que ela trazia esta noite, mas que não estava muito visível.
Como não a reconhecessem, disse pela médium: “Olhem
para o emblema que trago na cabeça e me reconhecerão.”
Como o emblema não estivesse bem visível, conforme
notamos acima, ela entrou na câmara e, ao voltar, sem ter
demorado, trazia-o muito mais nítido, belamente iluminado.
Antes, como já disse, aparecera Maria Alva, muito
desembaraçada. E' uma moça gorda, de braços roliços e
cadeiras redondas. Veio com os cabelos soltos e com um
pano de cor escura a tiracolo, lembrando um vestuário grego.
Tendo sido, em outra encarnação, filha do maestro Bosio,
dirigiu-se a ele, pegou-lhe fortemente as mãos, beijou-as e
deixou que lhe beijasse as suas. Depois foi ter com a
Senhora Bosio e, brincando com ela, lhe deu, na palma da
mão, forte palmada, cujo estalido todos ouviram.
E' preciso dizer que, quando o Espírito está
materializado, João baixa a cortina da câmara e toca o
tímpano para que seja aumentada a luz, ficando assim os
Espíritos completamente visíveis. Em seguida, ele pede
música.
Maria Alva ofereceu-me uma angélica, e outras flores a
outros assistentes.
A moça do diadema, a quem chamaram Diana, esteve
bastante tempo entre nós, deixando-nos ver bem o seu
diadema iluminado, assim como toda a beleza de suas
formes e de seu rosto.
Desde, que essas boas irmãzinhas se retiraram, voltou
João e conosco ficou ainda algum tempo, mostrando-se e
brincando com os presentes. Chegou-se ao ouvido de uma
das senhoras e disse o nome dos assistentes que concorriam
para prejudicar o trabalho. Logo no início da sessão, ele
dissera pela médium “Está alguém na sala, que prejudica os
trabalhos.” Só no fim da sessão, entretanto, declinou o nome
desse alguém. Era., de fato, um incrédulo, mas que, apesar
disso, chorou, quando viu toda aquela magnificência.
Por fim, tomando de um lenço, que ele decerto
materializara como havia feito com a sua roupa, João acenou
por longo tempo em sinal de despedida. Vimos, como
sempre, a desmaterialização operar-se dentro da câmara, pois
que, quando isso se vai dar, ele suspende a cortina, para que
a médium fique visível.
Ouvia-se-lhe a voz chamando a médium para que
despertasse e ouvia-se igualmente o ruído das tapinhas que
lhe dá com o mesmo intuito. Ele se conserva em derredor da
médium até que esta desperte. Vimos às manchas brancas
que sempre vemos no começo e no fim das sessões. Dessa
vez a médium sofreu um certo abalo, porque alguém,
imprudentemente, aumentou a intensidade da luz.
E' assombroso tudo quanto tenho visto. Estou em
suspenso à espera de outras horas felizes, como as que passei
junto desses bons irmãos do Espaço, aos quais só Deus pode
recompensar o imenso lenitivo que trouxeram ao meu
coração dilacerado pela dor da, separação de minha amada
filha Rachel.

TERCEIRA SESSÃO A 4 DE MAIO DE 1921

Pessoas presentes: Senhor Eurípedes Prado e senhora (a


médium), maestro Bosio e senhora, Doutor Mata Bacelar,
senhor e senhora Manoel Tavares, Frederico Fígner, senhora
e filha Leontina.
Feito o círculo para a produção dos fenômenos de efeitos
físicos, apagaram-se as luzes. Frederico e eu colocamos
sobre as pernas seis lenços, dos quais quatro estavam
comigo. Começaram os fenômenos tocando o Espírito João
no Doutor Mata Bacelar e depois no maestro Bosio. Senti,
em seguida, que me tocavam no colo. Passados alguns
momentos, senti que me colocavam qualquer coisa no colo.
Nisto diz à médium que João mandava, que acendessem as
luzes, feito o que, verificou-se que eu tinha no colo um lenço
amarrado em forma de flor.
Apagadas de novo as luzes, João continuou a fazer o
mesmo trabalho com os lenços, mas amarrando cada um de
uma forma diversa. Fez isso com um dos de Frederico, sem
tocar no outro.
Da primeira vez que tirou os lenços do meu colo, levou
dois e restituiu um amarrado. Tirou depois os outros dois que
haviam ficado e logo nós restituiu amarrados também. Um
dos dois primeiros, porém, ele conservou consigo e só mo
deu no fim da sessão, trabalhado igualmente, como os
demais.
De repente, Leontina soltou um grito e disse que alguém
lhe havia tocado na perna. Quase ao mesmo tempo, senti e
disse alto que alguém colocava a mão sobre o meu ombro
esquerdo. Julgamos fosse João. Logo, entretanto, D. Nicota
(a médium) disse: “João está dizendo que não foi ele e sim a
irmã de Leontina que a tocou, assim como em D. Esther.”
Vindo a saber desse modo que minha filha se achava
presente, se bem que invisível, dirigi-me a ela.
Imediatamente Rachel se fez sentir atrás de mim, tocou-me o
rosto e passou a mão sobre a minha cabeça, acariciando-me.
Eu lhe dizia:
- Vem, minha filha, beija-me, abraça-me; vem junto de
mim, bem sabes que não tenho receio. Vem, minha adorada
Rachel, vem bem junto da tua mãezinha.
À medida que lhe falava, mais Rachelzinha se fazia
sentir. Beijou-me muito, fortemente, dando-me beijos
estalados que a assistência ouvia. Apertava meu rosto contra
seus lábios, tal como se aqui estivesse. Beijei-lhe as
mãozinhas, toquei-lhe as unhas, verificando que estavam
como as usava, pontudas e polidas. Quando ela assim me
abraçava, perguntei-lhe: “Minha filhinha, és feliz?” Ela me
enlaçou então de tal forma com seus braços que não mais
senti o espaldar da cadeira em que estava sentada. Sentia
unicamente o contacto muito vivo do seu corpinho, seu
calor, sua respiração, seu hálito. Era perfeitamente minha
filha a me dizer ao ouvido: “Sim.” Perguntei-lhe ainda:
“Estás contente com tua mãe? Vim de blusa branca.” Minha
Rachel pegou das duas abas da blusa e as sacudiu num gesto
de contentamento, demonstrando que bem estava vendo.
Avaliem os que lerem estas linhas sinceras a minha
alegria, a minha felicidade, o meu reconhecimento a Deus,
por me haver permitido, ainda uma vez, sentir, ouvir, tocar a
minha filha muito amada!! Ela me tomou de novo o rosto e,
puxando-o para o lado, como era seu costume, beijou-me
seguidamente muitas vezes, com grande amor.
Sempre a conversar com o meu anjo querido, disse-lhe:
“Minha filhinha, vai beijar, vai acariciar teu paizinho.” No
mesmo instante ela se fez sentir atrás do pai e se pôs a beijá-
lo e a acariciá-lo da mesma forma que fizera comigo. Por
fim, deu-lhe um beijo estalado no ouvido.
E' uma maravilha, que não se pode descrever. Ante tanto
poder, a criatura de carne desaparece.
Nessa altura dos trabalhos, disse João: “Terminem esta
sessão, pois que a médium está perdendo muitos fluidos, o
que pode vir a prejudicar a sessão de materialização.” Antes,
porém, que a sessão fosse encerrada, disse ele ainda: “Tirem
o tímpano que está no chão, entre Fígner e Leontina, e
coloquem-no entre os pés do Fígner. Leontina que tire os pés
do caminho, pois posso esbarrar nela.” Isto disse por brincar
com Leontina, que estava com medo.
Cumpridas as ordens de João, todos lhe sentimos a
presença. Tirou o tímpano que estava no chão, entre os pés
de Frederico, andou, fazendo-o ressoar no espaço, por cima
das nossas cabeças e tocando com ele em todos,
especialmente em mim. Tudo isso era feito, apertando João
sempre o botão do tímpano, de sorte que pelo som sabíamos
a todo o momento onde ele estava. As vezes o som vinha do
teto. Pedi-lhe repetidamente que colocasse o tímpano na
minha mão. Afinal, mandou que eu estendesse a mão e nela
depositou o tímpano. Ordenou que acendessem as luzes, o
que feito, todos viram que aquele objeto estava na minha
mão.
Terminada essa sessão, preparamo-nos para a de
materialização.
Acenderam-se as luzes, arrumaram-se as cadeiras diante
da câmara escura, a médium se sentou numa cadeira de
balanço dentro da câmara, sempre na mesma posição,
tapando os olhos com o lenço. Uma vez tudo disposto,
apagaram-se as luzes mais fortes, ficando a sala mergulhada
na semi-obscuridade em que ficam os cinemas quando a fita
está sendo passada.
Começaram a condensar-se os fluidos e daí a pouco
aparecia um vulto no qual, à medida que se formava, íamos
eu, meu marido e minha filha, reconhecendo a nossa querida
Rachel. E, de fato, o era. Rachel nos apareceu em toda a
perfeição de suas formas, tal qual fora, absolutamente
reconhecível. Ali estava viva e palpitante.
Antes que houvessem apagado as luzes, João mandou
que uma cadeira fosse colocada entre a assistência e a
câmara. Quando minha filha saiu, perfeitíssima, da câmara,
ajoelhou-se e levantou as mãozinhas para o céu. Ajoelhei-me
também e todos os que estávamos presentes a
acompanhámos na prece que dirigia ao Senhor. Depois,
levantou-se e foi sentar-se na cadeira vazia, tomando
exatamente a posição em que está numa fotografia, da qual
pouco antes eu falara, dizendo que nesse retrato se lhe viam
bem os braços e as mãos. (Gravura 45.)
FOTOGRAFIA DE RAQUEL FÍGNER
“A Ressurgida” cujo Espírito se materializou com admirável
perfeição em 4 de Maio de 1921.

Tomou com a maior exatidão a pose em que se vê na


aludida fotografia. Fez, portanto, uma coisa que só ela podia
fazer. Todos os da sua família, que ali nos achávamos,
exclamamos ao mesmo tempo: “Olhem a nossa Rachel
perfeitinha, igualzinha ao retrato.” E ela viva, perfeita,
deixava que a víssemos bem e a reconhecêssemos. Não havia
dúvida, nem podia haver, era a nossa Rachel.
Eu lhe falava e ela me prestava toda a atenção. Em
seguida, levantou-se, veio até junto de mim, colocou-se bem
à minha frente, recebeu das minhas mãos umas flores que
levara e que suas irmãzinhas Lélia e Helena lhe mandavam.
Disse-lhe Leontina: “O Senhor Amábile também mandou
lembranças e um abraço.” Ao que ela respondeu levantando
as mãozinhas para o céu, como que oferecendo a Deus.
Recebeu flores também das mãos de seu pai e de sua irmã
Leontina. Enfim, Rachel estava diante de mim tão perfeita e
tão viva que se não podia ter a mínima dúvida. Eram os
mesmos braços alvos, as mesmas lindas mãos que tinha aqui
na Terra. Em tudo, nas maneiras, nas formas, no rosto, era a
minha adorada filha.
Voltando ela à câmara escura, disse a médium: “Raquel
pede que sua mãe se sente na cadeira em que ela esteve.”
Sentei-me imediatamente nessa cadeira, porém de frente para
a câmara. Logo disse Rachel pela médium: “Mamãe deve
voltar às costas para a câmara e ficar muito quieta.” Assim
fiz e disse: “Pronto, minha filha. Estou impassível. Podes vir
sem receio.” Logo ouvi uns passos e senti minha filha a meu
lado, abraçando-me muito apertadamente e dando-me beijos
tão estalados que toda a assistência escutava. Encostava seu
rosto ao meu com extremo carinho. Depois de muito me
acariciar, de me dar todas as provas de amor e de que era
bem a minha Rachel, disse-me distintamente, com voz forte,
que todos ouviram: “Não quero que ande mais de preto,
ouviu? Quero que venha toda de branco, assim como eu
estou.” Respondi-lhe: “Sim, minha filha, far-te-ei à vontade,
farei tudo o que quiseres. Já o fazia quando estavas na Terra:
hoje, que não farei para te ser agradável? Sim, meu anjo, não
usarei mais roupa preta.”
De novo me beijou muito e, com os braços passados por
trás do meu pescoço, tirou, das flores que lhe havíamos
dado, uma rosa vermelha e a enfiou no decote da minha
blusa branca. Vi nitidamente suas mãozinhas, seus dedos.
Era positivamente sua aquela maneira de fazer as coisas,
eram indubitavelmente seus aqueles gestos. Estávamos todos
vendo a nossa Rachel exatamente como era.
Foi novamente à câmara escura, isto é, ficou de pé à
porta desta e voltada para dentro como se falasse com
alguém. Como eu continuasse na cadeira, a médium falou
assim: “Diga à mamãe que saia da cadeira. E' papai que deve
sentar-se agora.” Imediatamente me levantei e Fred sentou-
se na mesma posição em que eu estivera. Rachel chegou-se a
ele, abraçou-o, beijou-o, acariciou-o muito, do mesmo modo
que fizera comigo. Passou o braço esquerdo sobre o ombro
esquerdo do pai, de forma que se lhe via a mão caída sobre o
peito deste aquela mão lindíssima que eu tão bem conhecia e
que não podia deixar de reconhecer ali ser inteiramente a
mesma da minha Rachel. Estendeu o braço direito tomando
uma posição muito graciosa, formando com o seu querido
pai, presa da mais viva emoção, um grupo admirável. Não
cessávamos de soltar exclamações e de agradecer a Deus
tanta misericórdia. Dizíamos: “Filhinha adorada, Deus te
abençoe. Deus te pague.”
E' impossível descrever tudo, pois são inúmeras as
minúcias. Separando-se de seu pai, depois de muito o
acariciar, Rachel tomou de um galho de angélicas e, pelas
costas dele, o colocou na lapela de seu paletó. Fez isso com a
mais absoluta naturalidade, notando-se-lhe o esforço a que se
viu obrigada para passar o talo um pouco grosso da flor na
casa meio fechada. Nos gestos, que então fez, como em
todos os outros, era a Rachel que conhecíamos.
Reproduziu por duas vezes a posição da fotografia,
puxando, antes de se sentar, a cadeira, para pô-la como
desejava. Repetidas vezes veio até junto de nós, distribuiu
com os assistentes o ramo de flores que lhe havíamos
oferecido, ouvindo-se distintamente o ruído que faziam as
folhas quando ela separava as flores. Deu-me com muito
carinho um ramo de jasmins do Cabo. Quando assim, diante
de nós, virava-se de um lado para outro, a fim de que bem a
reconhecêssemos e nenhuma dúvida nos ficasse nos
espíritos. Frederico e Leontina choravam, soluçando
convulsamente. Ela, então, parando defronte de nós, disse,
com voz firme, que notoriamente partia de sua boca: “Não
chorem.” Todos caímos de joelhos diante da nossa querida
Rachel. Em dado momento, Leontina perguntou-lhe se seus
irmãozinhos Aluízio e Gabriel estavam presentes e ela
respondeu clara e distintamente: “Não.” Esteve algum tempo
a andar de um lado para outro, mostrando-se bem.
Como trouxesse os cabelos suspensos, eu disse: “Minha
Rachel, ainda não vi os teus cabelos. Mostra-nos a tua linda
cabeleira.” Ela foi à câmara e logo voltou, trazendo os
cabelos a lhe caírem soltos sobre os ombros, lindos quais
eram na Terra. Punha-se de frente e de costas para nós, a fim
de que bem a pudéssemos apreciar.
Depois, foi à câmara escura e de lá veio trazendo um
pano branco, com o qual se pôs a acenar em sinal da adeus.
Que emoção! Todos exclamavam “Adeus, Rachelzinha!
Adeus, meu amor! Deus te abençoe!” Enfim, de nossos
lábios saíam todas as exclamações de carinho que se podem
dirigir a uma criatura adorada e saudosa quanto o é a nossa
inesquecível Rachel!! Não há na vida coisa mais sublime. A
misericórdia de Deus é tão grande que não há palavras nem
sentimentos com que se lhe agradeça. De puro amor se nos
enche o coração.
Depois de Rachel, veio o nosso bom irmão João, que
ainda não aparecera naquela noite. Não apareceu, disse-o ele,
por ter querido deixar todos os fluidos para Rachel, a fim de
que ela pudesse materializar-se bem, como de fato
aconteceu.
A música, no andar de cima, tocava sempre, desde o
início da sessão, João aproximou-se de nós e disse que ia
fazer, materializado e em nossa presença, o que não fizera
anteriormente, isto é, trabalhar um dos lenços de Frederico,
aquele que na sessão anterior ficara sem ter sido atado. E
assim fez. Fê-lo da maneira mais linda que se possa
imaginar. Todos o víamos perfeitamente bem, em pé
defronte de Frederico, a trabalhar o lenço e cantando ao
mesmo tempo. Prestei muita atenção, para ver se aprendia a
atar o lenço daquele modo; porém, ele o fez tão depressa que
não me foi possível perceber. Concluído o trabalho e sempre
a cantar, entregou o lenço a Frederico, tal qual o faria um
homem.
Pela médium disse qualquer coisa sobre a música que
estavam tocando. Como não houvéssemos ouvido bem,
perguntou-se-lhe se queria que tocassem outra música. Ao
que ele respondeu com voz máscula: “Não.” Interessante é
que canta às vezes num perfeito falsete e doutras vezes em
tom grave.
Depois de estar João aí algum tempo conosco, vimos um
vulto pequeno que se encostava à cadeira colocada no meio
da sala e falava com voz muito fraquinha. Eu e as demais
pessoas presentes procuramos ouvir o que dizia e escutamos
distintamente: “Mamãe, mamãe.” Perguntei: “Será um de
meus filhinhos?” Respondeu-me: “Sim.” Vi perfeitamente
que era uma criança, que tinha cabelos louros e que
repousava um dos bracinhos sobre a barriga. Também os
nossos filhinhos não nos haviam esquecido. Não pude saber
ao certo se era Aluízio ou Gabriel. Suponho fosse Gabriel,
que era louro, ao passo que Aluízio tinha os cabelos
castanho-escuro.
Voltou João, que se despediu de nós. Quando estava
despertando a médium, fez que esta dissesse: “Causa-me
tristeza vera minha médium ir embora.” Ele queria que ela
ficasse em Belém.
Numa das sessões, disse João: “Ah! se vocês tivessem
isto lá no Rio!”

QUARTA SESSÃO A 6 DE MAIO DE 1921

Na noite de 5 para 6, D. Nicota, a médium, sonhou que


João lhe dizia que no dia seguinte, 6, haveria sessão de
materialização e que Rachel faria sua mão em parafina
líquida, à vista de todos; imergiria duas vezes a mão na
parafina e em seguida iria tocar em seus pais para lhes
mostrar e fazer sentir o calor da parafina.
Ao amanhecer, D. Nicota referiu ao Senhor Eurípedes,
seu marido, o que sonhara. Depois, dirigindo-se a João,
pediu-lhe que confirmasse o sonho. Imediatamente, um
álbum, pelo qual dá ele sinal da sua presença, se moveu
saindo da posição em que estava. Colocaram-no de novo no
lugar donde saíra e D. Nicota disse: “Move-o outra vez para
termos confirmação.” Logo o álbum se moveu à vista dos
presentes. Estava, portanto, confirmada a veracidade do
sonho.
A noite houve a sessão de que João falara à sua médium.
Foi, porém, muito íntima, pois João desejava que os
fenômenos se produzissem muito perfeitos e, na sua opinião,
a presença de incrédulos na assistência poderia prejudicá-los.
Marcou a sessão para as 8 horas da noite. Mas, como
algumas pessoas só poderiam chegar depois das 8 horas, o
Senhor Eurípedes procurou convencê-lo de que melhor seria
começar um pouco mais tarde. Ele respondeu: “Não; deve
ser às 8 horas em ponto. Depois verás justificada a minha
insistência por principiar a essa hora.” E tinha razão, pois
que a sessão só terminou quase à meia-noite.
Às 8 horas em ponto, portanto, foi ela aberta, estando
presentes o Senhor Eurípedes e senhora (a médium), Doutor
Mata Bacelar, senhor e senhora Manoel Tavares, maestro
Bosio e senhora, Fígner, senhora e filhas Leontina e Helena.
Satisfazendo aos desejos manifestados por minha filha na
sessão anterior, apresentei-me toda de branco.
Apagaram-se as luzes e instantes depois observamos que
a materialização começava. Logo que esta tomou forma,
reconhecemos a nossa adorada Rachel. Assim saiu da
câmara, o seu primeiro gesto foi, como sempre, o de se
ajoelhar e orar, no que a acompanhamos. Apenas viu que eu
me achava de branco, manifestou grande satisfação. Falava,
batia palmas e pulava de alegria, como costumava fazer na
Terra, quando experimentava um vivo contentamento. Dizia:
“Que bom! Estou muito contente! Mamãe está toda de
branco! Está tão bonitinha!!”
Dizer da minha felicidade, por poder uma vez mais ver
rainha filha, perfeita como era e dando mostras de alegria, tal
qual fazia aqui na Terra, é coisa impossível. A criatura
faltam palavras para definir o que sente nesses momentos de
suprema ventura. Prossigamos.
Depois dessa demonstração de alegria, a minha Rachel
começou o trabalho da moldagem da sua mãozinha em
parafina liquida e quente. Cumpre notai que João me
mandara dizer pela médium o seguinte: “Diga-lhe que,
quando a filha puser a mão na parafina, não deve exclamar -
coitadinha! - pois que Rachel não sente dor alguma.”
Conforme ele havia anunciado, Rachel começou o
trabalho imergindo duas vezes a mão na parafina e em água
fria. Em seguida, veio a mim e colocou a sua mãozinha
enluvada de parafina dentro da minha. Depois, retirando-a,
colocou a outra que estava com luva de parafina, a fim de eu
sentisse e notasse a diferença da temperatura. O mesmo fez
com o pai.
Ao colocar a sua na minha mão, ela estava bem defronte
de mim e muito perto, de sorte que, não só eu lhe sentia e via
a mão, como via perfeitamente o rosto. Era á minha Rachel,
tal qual eu a tivera na Terra. O rosto, o pescoço, o colo eram
os seus. Não havia para mim possibilidade de ter a menor
dúvida de que fosse a minha muito querida filha. Aproveitei
assim as duas sensações ao mesmo tempo: via e sentia a
minha filha. Só Deus me poderia dar tamanha felicidade,
treze meses após a desencarnação dela.
Depois de se mostrar bem a todos, Rachel voltou aos
baldes de parafina e água fria e quente, continuando o
trabalho durante umas duas horas. Víamos minuciosamente
esse trabalho, porquanto a luz era bastante forte e nos
permitia distinguir tudo. Metia a mão na parafina fervendo,
depois na água fria, examinava o molde e de quando em
quando ia à câmara consultar o João que se conservava
dentro desta e que, ao que suponho, lhe dava instruções.
Durou tanto tempo esse trabalho que a água e a parafina
esfriaram. Verificado isso, Rachel entrou na câmara e João,
pela médium, deu ordem para que novamente aquecessem a
água e a parafina. Como demorassem em apanhar as
vasilhas, disse ele pela médium: “Deixem, vou materializar-
me para entregar as vasilhas.” Em seguida saiu da câmara,
tomou a panela dágua e a colocou defronte dos assistentes.
Pegou depois do balde de parafina, que é bastante pesado e,
supendendo-o com o braço estendido e firme, o foi colocar
junto da panela. Provou assim a sua completa materialização,
exibindo a força da sua musculatura perfeitamente humana.
Enquanto aqueciam a água e a parafina, pôs-se ele a brincar
conosco.
Em dado momento, esbarrou na tampa da panela, que
ficara no chão. A Senhora Tavares disse: “O João não viu a
tampa, coitado!” Ele imediatamente se abaixou, apanhou a
tampa e a entregou àquela senhora, como que a lhe dizer:
Vejo muito bem.
Os Espíritos se materializam tão perfeitamente, ficam tão
humanizados que, como nos acontece a nós, esbarram nos
objetos que se acham em seu caminho. Não se tem a menor
impressão de um fantasma.
Doutra vez, ele esbarrou numa garrafa de aguarrás que
também estava no chão e fê-la cair. Ato contínuo, abaixou-
se, apanhou a garrafa e foi colocá-la num lugar afastado de
seu caminho. E' simplesmente assombroso! Não há palavras
que o descrevam.
Enquanto esperávamos as vasilhas, João pediu lápis e
papel. Frederico foi buscar o que ele pedia e entregou a
Senhora Tavares para que lhe passasse uma folha de papel e
dois lápis, um deles numa lapiseira de metal. João
experimentou no papel qual dos dois lhe convinha mais e
preferiu o da lapiseira. Disse então alguém: “Vamos ver que
surpresa João nos vai fazer.” Ao que ele respondeu pela
médium: “Não é agora. Só depois de concluído o trabalho da
parafina.”
A Senhora Tavares, pilheriando, disse: “Ganhei do João
um presente” - referindo-se à tampa da panela que ele lhe
dera pára segurar. João, a gracejar, respondeu pela médium:
“Isto não é sério.” Depois, ainda pela médium, pediu
trouxessem as vasilhas que estavam demorando muito. Daí a
pouco desceram as vasilhas e foram colocadas sobre os
bancos que lhes eram destinados. Ele, a conversar conosco
enquanto as arrumava, disse com seus próprios lábios:
“Agora virei cozinheiro.”
Em seguida, dentro na câmara e logo surgiu a nossa
querida Rachel, que ainda por muito tempo continuou o
trabalho que começara. Ouvia-se o mergulhar da sua
mãozinha na parafina e na água fria. De vez em quando
derramava água e parafina no chão. Isso acontecia sempre
que retirava bruscamente a mão de dentro da vasilha. De
espaço a espaço pegava uma ponta do vestido e passava no
molde, como que para secar ou alisar. Por mais de uma vez
no curso do trabalho, João, pela médium, pedia que
tivéssemos paciência, por isso que aqueles trabalhos são
demorados.
Era ela, sempre ela, que ali estava diante dos nossos
olhos. Já durava tanto a sua materialização, que tive a ilusão
de se achar minha filha aqui na Terra sem haver
desencarnado. Depois de muito trabalhar, a minha Rachel
deixou o molde centro do balde de água fria e entrou na
câmara.
Disse então, João, pela médium, que a nossa irmã Anita
viria fazer umas flores de parafina em a nossa presença. Veio
Anita, tirou a vasilha dágua quente, que estava em cima do
banco, colocou-a no chão, e, puxando o banco, sentou-se
junto à, vasilha e começou o seu rápido trabalho. Esteve uns
dez ou quinze minutos a fazer a flor. Uma. vez pronta,
imergiu-a no balde dágua onde estava o molde e João disse,
pela médium, que Anita havia feito a flor, para que a irmã
Rachel a entregasse juntamente com o molde.
Efetivamente, logo apareceu Rachel e tirou com muito
cuidado o molde e a flor de dentro dágua. Trouxe o primeiro
e o depositou em minha mão. Recebi-o com todo o respeito e
cheio da mais viva satisfação. Entregou a flor a Frederico.
Emocionadíssimos, agradecemos, pedindo-lhe nos desse
suas mãozinhas para beijar. Deu-me a mão, que beijei com
muito amor e carinho, Helena pediu que também lhe
deixasse beijar a mão e ela deixou. Frederico fez o mesmo
pedido. Ela lhe estendeu a mão, mas não consentiu que ele
beijasse, até que, em certo momento, rapidamente se
ajoelhou e, puxando fortemente a mão do pai, deu-lhe um
beijo estalado, que toda a assistência ouviu.
Leontina igualmente lhe pediu que a deixasse beijar-lhe a
mão, ao que ela não acedeu. Mas, voltando-se para mim,
como se tivesse a intenção de provar à irmã que não se
esquecia dela, disse-me pelos seus próprios lábios: “Mamãe,
leva minha irmã às festas e ao teatro, como fazias comigo.
Leontina, tão bonitinha!” Leontina, chorando, muito
comovida, agradecia.
Rachel conservava-se bem defronte de nós, mostrando-
nos completamente o semblante, de acordo com o que já nos
havia dito anteriormente numa sessão de tiptologia, antes de
partirmos para o Pará. A todas as pessoas presentes prostrou
nitidamente o seu rosto, seu colo, seus braços. Mostrou-se,
enfim, perfeitamente materializada, como se estivesse viva
na Terra.
Certa vez em que ela estava diante de mim, perguntei-lhe
“Minha filha, foi Aluízio ou Gabriel que aqui veio na última
sessão?” Ela me respondeu de seus próprios lábios: “Bilé”.
Prova magnífica foi essa da sua identidade, pois ali só ela e
nós conhecíamos o apelido do nosso Gabriel. Rachel disse
isso numa ocasião em que desfolhava rosas sobre as nossas
cabeças.
Tendo tirado o lenço que trazia no decote do vestido e
depois de se ter mostrado muito claramente, sob o máximo
de luz que os aparelhos preparados podiam dar, ela se retirou
para a câmara e, saindo de novo, ia, com aquele mesmo
lenço, começar os acenos de despedida, quando lhe pedi:
“Minha filha, espera um pouco. Temos aqui umas flores que
trouxemos para te dar.” (As flores não tinham sido entregues
antes, por haver João dito que só o fizéssemos depois do
trabalho de parafina.)
Rachel voltou-se pana o interior da câmara, como que a
pedir instruções, ou a transmitir o pedido, penso que a João.
Logo, porém, voltou, recebeu de nossas mãos os flores,
distribuiu-as conosco e com os demais assistentes. Conforme
costumava fazer aqui na terra, nos dias de aniversário meu e
do pai, desfolhou algumas rosas e espargiu sobre as nossas
cabeças e sobre as das irmãs, dando-nos uma impressão viva
da sua personalidade terrena. Foi uma cena emocionante.
Todos choravam!!! Depois, erguendo as mãos para o céu,
disse, de sua própria boca: “Graças a Deus. Sinto-me
contente por ter vencido a dor de mamãe. Vou subir muito
alto!!!” Tomou de novo o lenço e acenou com ele durante
muito tempo, a despedir-se.
Comovidíssimos, nós lhe dizíamos: “Adeus, adeus, filha
adorada. Deus te abençoe, Deus te pague.” Eu não me podia
conformar com a idéia de que a minha filha partisse de junto
de mim, pois que a sua presença não foi uma simples
materialização; foi uma perfeita ressurreição. Todos os que
hão assistido aos fenômenos, inclusive o Senhor Prado,
marido da médium, ficaram maravilhados, dizendo pouca
terem visto tanta perfeição. Os espíritas do Pará sentem-se
felizes por essa grande graça de Deus. Tornamo-nos todos
membros de uma só família.
Deus de bondade, Deus de misericórdia, perdoa os
momentos de desespero que tive e dá que eu possa praticar
atos dignos da grande esmola que do teu infinito amor
recebi.
Após a despedida de Rachel, veio João, como sempre
perfeitamente materializado, e, puxando um dos bancos em
que estiveram os baldes, pôs-se a escrever, dando-nos
portanto a surpresa que nos prometera para depois do
trabalho de parafina.
Quando começou a escrever, debruçado sobre o
banquinho, a. ponta do lápis quebrou. Então, ele se levantou
e pediu um outro lápis, dizendo que o primeiro se havia
quebrado. Frederico passou-lhe um outro, como o faria a
uma criatura da Terra, João o tomou e, virando o papel do
outro lado, escreveu à nossa vista o seguinte, que se acha
reproduzido na gravura 46.
Gravura 46

“Saudades vou assistir a fotografia no girar.”


Depois, acenando com o lenço em sinal de despedida,
entrou no gabinete e se desmaterializou, como o fizera das
outras vezes.
Esther Fígner.”
Gravura 47
Molde de parafina da mão de Raquel, flor, também de parafina feita
pelo Espírito de Anita e lenços atados pelo Espírito João.

OS SENSACIONAIS FENÔMENOS ESPÍRITAS

Duas horas e 40 minutos materializada! - Pais que


revêem a filha falecida - Muitos Espírito materializados na
mesma sessão - O que nos disse o Senhor Fred Fígner.

Em uma das vezes em que veio a público, bela imprensa,


o Senhor. Fred Fígner, chefe da Casa Édison, do Rio de
Janeiro, afirmou ter visto sua filha, falecida há muitos meses,
completamente materializada, por virtude da mediunidade da
Senhora Eurípedes Prado, nesta Capital.
Depois desta declaração, e, aliás, antes dela, começaram
a circular na cidade diversas narrativas dos sensacionais
acontecimentos. Resolvemo-nos, pois, obter do Senhor Fred
Fígner, hospedado no Grande Hotel, uma entrevista, na qual
pudéssemos informar aos nossos leitores, com absoluta
segurança, o que de verdade havia naquelas narrativas.
Dirigimo-nos assim, àquele hotel, onde fomos recebidos
cavalheirosamente pelo Senhor Fígner.
Formulado nosso desejo, S. S.ª falou:
- Deseja o senhor que lhe relate os fenômenos por mim
presenciados e produzidos com a privilegiada mediunidade
da Senhora Eurípedes Prado? Pois não, Senhor Redator, com
muito prazer. Vou dar-lhe alguns pormenores que
presenciamos, eu e minha família, em três sessões
riquíssimas de fenômenos.
Começarei por lhe dizer que aqui vim, não por
curiosidade minha, visto que sabia ser a materialização um
fato comprovado por Crookes, em primeiro lugar, em
Londres, desde o ano de 1871, quando começou, então, a
hoje célebre materialização de Katie King, servindo de
médium a Srta. Florence Cook, e, seguidamente,
experiências idênticas relatadas por tantas outras sumidades
científicas.
Vim com o fito único de minorar a tristeza e a dor que
acabrunhavam minha esposa, por haver desencarnado uma
filha nossa muito amada.
Aqui chegando, tive a desilusão de não encontrar a
família Prado. Recebido pelos meus confrades,
prontificaram-se eles a telegrafar ao Senhor Prado,
participando-lhe minha chegada com a família, e pediram, se
fosse possível, viesse até aqui. A despeito de adoentada sua
esposa, resolveu ele aceder ao apelo, aqui chegando no “Pais
de Carvalho”, no dia 28 de Abril, depois de uma penosa
viagem de 7 dias.
No dia 1° de Maio, fez-se uma sessão preliminar, a que
estiveram presentes, além da família Prado, a família Manoel
Tavares, a família Bosio e o Doutor Mata Bacelar.
Materializaram-se João e um Espírito denominado
Evangelista. Havia bastante luz e distinguiam-se os Espíritos
perfeitamente, como se fossem homens com vestes brancas
que andassem de um lado para outro. Demorou-se João
bastante tempo conosco, de forma que bem o pudemos ver e
sentir. Minha esposa, dirigindo-se a João, contou-lhe seu
sofrimento, o que atento ele ouvia. Recebeu de minha
senhora umas flores que ela levara, as quais João passou para
a mão esquerda. Em seguida estendeu João a mão direita à
minha senhora, fazendo ela o mesmo; João passou sua mão
sobre a dela, fazendo-lhe sentir que estava perfeitamente
materializado.
Por fim, João, sacudindo um lenço em sinal de
despedida, entrou na câmara, começou a desmaterializar-se
às nossas vistas, como o fizera quando se materializou. Daí a
pouco, ouvíamos umas pequenas pancadas que ele dava no
rosto da médium para a despertar.
Esta primeira sessão me deixou completamente frio,
visto que eu vira tão somente aquilo que esperava.
Tudo aquilo era coisa muito natural para mim, quanto a
sua realidade.
Minha esposa, porém, apesar de também conhecer, de
leitura, os fenômenos, ficou muito satisfeita, começando a
nutrir esperanças de ver nossa filha, moça de 21 anos,
desencarnada a 30 de Março de 1920.
A segunda sessão, realizada a 2 de Maio, foi, realmente,
muito mais importante.
Havia nessa ocasião pessoas que não conheciam os
fenômenos, bem como a Doutrina Espírita, entre elas o
Doutor Remígio Fernandez, o Senhor Barbosa e a Senhora
Pernambuco.
Materializaram-se muitos Espíritos de diversas estaturas,
entre eles a nossa cara filha Rachel.
Mas, devido talvez ao excessivo número de
materializações, que absorveram muitos fluidos, e entre os
Espíritos materializados um de nome Diana que, creio, se
apresentou com um brilhante diadema na cabeça, a
materialização da nossa Rachel não era tão perfeita como
esperávamos; no entanto, era bastante para ser reconhecida
por todos nós. Nessa sessão, ela perguntou, à sua mãe,
“porque aquele vestuário preto, visto que ela se sentia muito
feliz”.
No dia 4 de Maio fizemos outra sessão, e nesta a
materialização de nossa filha foi a mais perfeita possível.
Rachel apresentou-se com tanta perfeição, com tanta graça e
tão ela mesma, com os mesmos gestos e modos, que não
pudemos conter nossa emoção e todos, chorando, de joelhos,
rendemos graças a Deus, por tamanha esmola.
Era Rachel viva, pronta para ir a uma festa. A sua cabeça
erguida, os seus braços redondos, o seu sorriso habitual, as
suas bonitas mãos e até a posição destas, toda sua
exatamente como era na Terra. Falou à mãe, pedindo-lhe
exatamente que na próxima sessão viesse toda de branco
como desejava e aí estava materializada.
Rachel tocou todos nós com sua mão; sentimos todos o
seu calor natural e, à observação de minha esposa:
“Rachelzinha, tu tinhas os cabelos tão bonitos, mostra-nos os
teus cabelos”, ela entrou no gabinete e, voltando instantes
depois. virou-se duas vezes, mostrando-nos seus cabelos
compridos e ondulados. Aceitando as flores que lhe
oferecemos, fez sua mãe sentar-se em uma cadeira junto ao
gabinete e de costas para este. Abraçou-a e beijou-a muito
carinhosamente, depois lhe colocou uma rosa na blusa
branca, que minha esposa vestira para ser agradável à filha,
que na véspera não gostara de vê-la de preto. Na ocasião em
que lhe colocou a rosa, falou-lhe de seus próprios lábios,
dizendo-lhe: “Não quero que ande de preto, ouviu? Quero
que venha. toda de branco, assim como eu estou.”
Toda essa frase minha filha a pronunciou tão clara e
distintamente que todos, além de minha esposa, a ouvimos.
Depois, sentando-me eu na mesma cadeira por ordem
sua, acariciou-me como fizera à sua mãe, colocou uma
angélica na lapela de meu paletó, apoiando-se com todo o
peso de seu corpo sobre meus ombros. Por fim, sacudindo
um lenço em sinal de despedida, entrou no gabinete e
desapareceu.
Puxei o relógio, Rachel tinha estado aí 40 minutos.
Depois saiu o João e cantou, muito satisfeito com a
materialização de sua discípula.
A 6 de Maio fizemos a última sessão.
O resultado foi o mesmo da anterior, com acréscimo de
Rachel fazer diante de nós uma luva em parafina, de sua mão
esquerda, consultando muitas vezes João, que se achava no
gabinete, porém à nossa vista, durante todo o tempo em que
ela trabalhava com a parafina. Logo ao se materializar,
Rachel, saltando e batendo palmas, demonstrou sua
satisfação por ver sua mãe toda de branco; e ao despedir-se,
pediu-lhe que levasse sua irmã Leontina às festas e ao teatro,
como fazia com ela. Rachel esteve conosco, nessa ocasião,
durante duas horas.
Por fim, pedi a Rachel que me permitisse beijar-lhe a
mão. O mesmo pedido foi feito por minha esposa e mais
duas filhas aí presentes, além de umas 10 pessoas. Ela deu a
mão a beijar a sua mãe e à menor das suas irmãs; e,
aproximando-se de mim, num gesto rápido, todo seu, pegou
minha mão com bastante força e beijou-a. E, sacudindo um
lenço em sinal de despedida, entrou no gabinete. Não
sentimos sua partida, pois estamos certos de que não será
esta a última vez que a veremos. Rachel vive! disto estava
certo antes de aqui vir e continuo na mesma certeza.
Tenho entretanto de confessar que estas duas horas e 40
minutos foram para todos nós o tempo mais feliz de nossa
existência.
E permita-me que, por seu intermédio, uma vez mais
agradeça ao Senhor e à Senhora Prado o sacrifício que
fizeram de vir aqui, e ao maestro Bosio e senhora as
gentilezas de que nos cumularam, assim como a todos os
confrades e amigos o acolhimento que nos fizeram.
Agradeço também à “Folha do Norte” pela cessão de suas
colunas.
Que Deus lhes pague!

NOTA OFICIAL

Eis finda a nossa tarefa. De bom grado reuniríamos em


apêndice tudo quanto se escreveu na imprensa de Belém
sobre os fenômenos espíritas observados pelo Senhor
Eurípedes Prado, desde os artigos do reverendo padre
Florêncio Dubois às noticias mais simples. Isso, porém, daria
a este volume proporções que ele não comporta.
Parece-nos ter colhido o que houve de mais útil e mais
esclarecedor sobre o caso.
Resta-nos um conforto: sentimos bem que não nos
afastamos da linha de absoluta imparcialidade e justiça.
Isso nós basta.

FIM

Interesses relacionados