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Público • Sábado 26 Dezembro 2009 • 25

Quando uma cultura maleável e relativista choca com outra firme nas suas doutrinas, por regra é a primeira que cede

Não ser cristão no Natal, os minaretes e a placa de Auschwitz

S
JACEK BEDNARCZYK/AFP
ajda Khan é uma britânica de fé muçul- em causa a natureza das nossas sociedades. Exemplo
mana. Escrevia esta semana no Times On- disso foi a aprovação, a 18 de Dezembro, pela Assem-
line: “Quando era criança, nunca percebi bleia Geral das Nações Unidas, de uma resolução
realmente o que era o Natal, apenas sabia que, na linha já assumida do direito à “não difamação
que se celebrava o nascimento de Jesus.” das religiões”, estabelece princípios que podem, com
Só muito mais tarde aprendeu que Jesus também facilidade, ser interpretados como limites à liberdade
era um dos Messias citados no Corão – citado, mais de criticar o extremismo religioso.
José

S
exactamente, 25 vezes. Foi nessa altura que também
Manuel percebeu que o cristianismo e o islamismo “parti- abemos que não é necessário ser extremista
Fernandes lham as mesmas raízes teológicas”. para incorrer no preconceito. E como do
Extremo Mesmo assim Sajda Khan não festeja o Natal. Nun- preconceito é muito fácil saltar para a ex-
ca festejou, recordando até que, quando estagiou clusão, e da exclusão para a perseguição.
ocidental num hospital, se oferecia para trabalhar nestes dias Timothy Garton Ash chamou precisamente
para os seus colegas poderem tirar folga. Ora esta a atenção para este encadeamento no seu texto de
opção – insignificante, diríamos – diz muito. Porque quinta-feira no The Guardian. A propósito do roubo
Sajda podia fazer como tantos outros nas socieda- da infame placa que marcava a entrada do campo de
des descristianizadas do Ocidente: adoptar o Natal extermínio de Auschwitz, lembrava que ainda por
como uma festa familiar e, sem lhe associar qual- estes dias ouvira nas televisões alemãs noticiar que
quer prática religiosa, juntar-se aos seus, melhorar o nazi John Demjanjuk que está a ser julgado actu-
a ceia e trocar presentes. Só que, apesar de o seu ara no “campo de extermínio polaco de Sobibor”.
texto ser todo ele sobre os pontos de convergência Polaco? É verdade que esse campo foi construído
entre o islamismo e o cristianismo, e de até criticar no território da Polónia, mas como é possível que,
a pouca atenção que a imprensa dá, por estes dias, à hoje por hoje, os principais canais de televisão ger-
mensagem de “nobreza, generosidade, compaixão mânicos se lhe refiram não como um campo nazi,
e justiça” de Jesus, Sajda é muçulmana. Ponto. mas como um campo “polaco”?
Ao ler o seu testemunho é possível perceber me- Porque, explicava Garton Ash, o preconceito so-
lhor um problema com que a Europa vive e não quer brevive: a Polónia continua a ser associada a cato-
entender: o da integração das suas comunidades licismo e a anti-semitismo, quase a Holocausto. No
muçulmanas. Comunidades que, ao contrário do que entanto, na Polónia houve de tudo, como em qual-
asnaticamente se escreveu aquando do “não” suíço quer comunidade humana há de tudo. O historiador
à construção de minaretes, não podem ser compa- recorda o caso de Jedwabne, uma aldeia onde os
radas com as comunidades judaicas que durante Como escreveu anteontem entra em choque com uma cultu- polacos se anteciparam aos nazis e massacraram
séculos sem conta constituíram a principal minoria ra cheia de confiança, ancorada e todos os judeus. Mas não longe de Jedwabne, noutras
religiosa da Europa. Não por estes comemorarem o historiador Timothy fortalecida por doutrinas comuns, aldeias, outros polacos ou seguiram com indiferen-
o Natal – os judeus têm outra festa em Dezembro, o Garton Ash: “Somos fracos facilmente se modifica para a aco- ça o destino dos judeus, ou arriscaram a vida para
Hanukkah, onde recordam a vitória dos Macabeus modar.” Mas deixando cicatrizes. protegê-los. E ninguém sabe explicar por que é que
e a reconquista do Templo de Jerusalém – mas por e somos fortes; carregamos Os “laicos”, sentindo-se herdeiros uma comunidade se tornou genocida e, a poucos
os judeus, apesar de todas as perseguições, serem de uma cultura iluminada, despre- quilómetros, outra se comportou heroicamente.
parte da cultura europeia e, talvez com excepção
o peso da culpa e temos zam o islão religioso a que estão a Como ninguém sabe, no limite, o que é e não
do mundo rural iídiche da Polónia e da Ucrânia, se direito a pedir clemência; ceder espaço. Os que se mantêm é capaz de fazer. Timothy Garton Ash recomenda
terem integrado por completo no tecido social. fiéis às suas identidades religiosas uma peça em cena em Londres, Our Class, onde,

A
e por fim crescemos, receiam as consequências do que a partir da história de Jedwabne, se percorrem as
situação das minorias muçulmanas é dife- adoecemos e morremos” vêem como uma “invasão”. contradições da natureza humana. E lembra, a fi-
rente, por motivos que derivam quer das O potencial de conflito agrava-se nalizar “que não existem apenas alguns povos que
características das modernas sociedades por vivermos tempos em que a circulação da infor- são vilões e outros que são heróis: a verdade é que
europeias, quer da forma como muitos mação é global e, facilmente, um conjunto de car- o mesmo homem ou mulher pode comportar-se
muçulmanos as olham. E os problemas toons publicado num pequeno jornal dinamarquês terrivelmente num dado momento, magnificamente
começam por não querermos reconhecer sequer a provoca cenas de violência religiosa no outro lado no momento seguinte”. Ou seja – e que apropriada é
existência de problemas, como sublinhou Christo- do planeta. Ora a percepção desta porosidade das esta reflexão por estes dias: “Somos fracos e somos
pher Caldwel, autor de Reflections on the Revolution fronteiras, o receio de “ofender” o Outro e algum fortes; carregamos o peso da culpa e temos direito a
in Europe, em entrevista à Spiegel. A diferença entre complexo de culpa dos países mais ricos têm levado pedir clemência; e por fim crescemos, adoecemos
as sondagens e o resultado do referendo na Suíça a cedências inesperadas, algumas das quais põem e morremos.” Jornalista
provam que “há uma discussão oficial sobre o islão
e uma discussão subterrânea”. A discussão “oficial”
é a politicamente correcta; a “subterrânea” é a que Uma semana em http://twitter.com/jmf1957
preferimos desconhecer. Ora isto é preocupante.
O que é necessário compreender é que, nos seus a 25Dez09 Depósitos das famílias diminuíram em http://bit.ly/8JhAKw
diferentes modelos, uns mais inclusivos, outros mul- – Há 60 anos que, no Natal, o Wall Outubro pelo terceiro mês consecutivo a 20Dez09
ticulturalistas, nenhum país europeu está a conse- Street Journal publica este editorial, http://tinyurl.com/yeebbnx – Forma como terminou cimeira foi
guir integrar os muçulmanos no sentido de estes se escrito por Vermont Royster: In Hoc – Como se viu no debate de ontem, eloquente: ninguém chamou a UE na
sentirem europeus como, por exemplo, os muçul- Anno Domini http://bit.ly/8FAbRU Sócrates está mais arrogante e crispado hora de decidir. Belo arranque da nova
manos americanos se sentem, na sua esmagadora a 24Dez09 do que nunca. Mas preferirira não o era pós-Tratado de Lisboa
maioria, americanos. Mais: os europeus esperam – A rasquice habitual dos assessores mostrar. Já perdeu o autocontrolo – Europeus estiveram em Copenhaga?
que os imigrantes muçulmanos absorvam, gradual- corporativos chegou ao ponto de – Not everything is black or white: The RT @Publico: “Um acordo é melhor
mente, os valores europeus, ao mesmo tempo que a ameaçarem @ppmascarenhas para q ñ Real Rules of War – Sometimes the good que nada”, dizem europeus sobre
Europa se procura acomodar às suas necessidades. faça mal “àqueles para quem trabalha” guys do commit ‘war crimes’ http://bit. Copenhaga http://tinyurl.com/yj4wl5w
Só que é muito diferente permitir a construção de – António Barreto sobre a História de ly/8m9L1N Think about it a 19Dez09
mesquitas (com ou sem minaretes) e, como já acon- Portugal de Rui Ramos: foi o Estado, a 22Dez09 – A Cimeira de Copenhaga acabou em
teceu em Lille, um tribunal aceitar dissolver um isto é, o poder político, que criou a – Sócrates veio ontem passar a mão desastre. Vou colocar link meu texto de
casamento por a noiva não estar virgem. nação http://bit.ly/6j3G1y pelo pêlo aos rotweillers que largou há uma semana: “Algo está podre no
Caldwel defende no livro, e reafirma na entrevista – Segundo o Expresso, CGD vai financiar para criarem clima de guerrilha Reino da Dinamarca”
à Spiegel, que o mal-estar europeu não pode deixar metade dos 164 milhões de euros que política: Ricardo Rodrigues e SSPinto a 18Dez09
de estar relacionado com muitos sentirem que são os a Isabel dos Santos vai investir na Zon. a 21Dez09 – Quem está por trás de quem: fundos
muçulmanos quem começa a ditar certas regras: “A Portugal financia Angola? – From The Wall Street Journal: Ten de investimento do Banco Espírito
Europa vive hoje um ambiente cultural inseguro, ma- a 23Dez09 years after the handover, Macau is Santo apoiaram financiamento da
leável, relativista, um ambiente cultural que, quando – Péssimo sinal, mas previsível: richer but not necessarily better off. Ongoing http://bit.ly/7KIFP6