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Texto: PECHENY, Mario. “Identidades Discretas”. In. RIOS, L.

F; ALMEIDA, V;
PARKER, R; PIMENTA, C; TERTO JR, V. (orgs.) Homossexualidade: produção
cultural, cidadania e saúde. Rio de Janeiro: ABIA, 2004. (16-33).

Neste texto, o autor apresenta cinco hipóteses para o estudo de como se estrutura a
homossexualidade entre homossexuais, cujas identidades podem ser classificadas
como “discretas”. São elas:

• A homossexualidade constitui um segredo fundador da identidade e das relações


pessoais dos indivíduos homossexuais;

• Devido a esse segredo, os laços de sociabilidade se estruturam em três mundos defi-


nidos de acordo com o conhecimento do mesmo: o daqueles que nada sabem, o
daqueles que sabem, e o dos pares do mundo homossexual;

• As fronteiras entre os mundos são permeáveis e flexíveis;

• Os laços pessoais estabelecidos entre homossexuais têm importantes conseqüências


para o desenvolvimento social do indivíduo;

• O desenvolvimento de um movimento sócio-político gay e o surgimento da Aids co-


meçaram a romper as barreiras entre os mundos.

Um indivíduo “identitário” é alguém que considera que ter desejo e/ou relações sexu-
ais e/ou amorosas com alguém do mesmo sexo define, em maior ou menos medida,
sua própria identidade. Tal reconhecimento dá-se perante si mesmo, e pode ou não
ser assumido publicamente, em diferentes níveis.

Essa identificação nem sempre é adotada autonomamente; pelo contrário, é muitas


vezes atribuída de modo heterônomo.

Quando falamos de homossexuais, referimo-nos exclusivamente a pessoas que sen-


tem desejo por outras de seu mesmo sexo, sem tentar adotar a aparência física do
sexo oposto. (pp. 16-7)

A não-evidência permite aos indivíduos controlar a informação de sua sexualidade


em função de distintos interlocutores, espaços e momentos.
Em nossa sociedade, a homossexualidade é uma dimensão da personalidade que
constitui um motivo de estigmatização, discriminação e exclusão. Isso se dá porque,
normalmente, a pessoa que terá uma vida homossexual se desenvolve em um ambi-
ente heterossexual.

A não-comunidade de destino com seu núcleo primeiro de socialização cria um pro-


blema particular a esses indivíduos.

Nossa hipótese é a de que a homossexualidade constitui um segredo fundador da


identidade e das relações pessoais dos indivíduos homossexuais.

Numa sociedade que discrimina a homossexualidade, os indivíduos homossexuais


podem ser classificados como indivíduos “estigmatizáveis”, ou seja, pessoas cujo es-
tigma não é evidente aos olhos dos demais, mas que pode vir a sê-lo.

Apesar de certa evolução, a homossexualidade na Argentina continua a ser uma prá-


tica altamente estigmatizada. Por essa razão os indivíduos homossexuais se reservam
o direito de decidir se, quando e a quem comunicar sua identidade sexual.

Tais indivíduos têm em comum uma contingência histórica: a de terem nascido em


sociedades homofóbicas, que os obrigam a permanecer escondidos no “armário” em
relação a sua vida sexual e amorosa.

O território argentino, a homossexualidade não é mais crime desde a extinção do


Santo Ofício, em 1813. Tudo o que se pede aos homossexuais é sua discrição.

A sociedade parece tolerar melhor a homossexualidade discreta, privada, do que


aquela publicamente manifestada. É como se os não-homossexuais houvessem fir-
mado um pacto de tolerância com os homossexuais, em troca de sua discrição e invi-
sibilidade.

Este sistema de interação hipócrita, porém, só pode funcionar na medida em que as


pessoas estejam dispostas a praticá-lo, enquanto uns e outros respeitam os limites
entre público e privado. (pp. 18-22)

As relações pessoais de homossexuais se estruturam em três mundos entrecruzados,


definidos pelo conhecimento da orientação sexual: o dos que não sabem nada, o dos
que sabem, e o mundo homossexual. Estes mundos não apenas se cruzam, como
também atravessam os distintos níveis que vão desde o privado-íntimo até o mais
público-político. (pp. 22-3)

A discriminação pode ser exercida direta ou indiretamente. É direta quando uma


norma ou atitude apontam diretamente a alguma categoria de atos ou pessoas, ou
quando distinguem arbitrariamente entre categorias. A discriminação é indireta
quando uma norma ou atitude é de aparência universal, mas seus efeitos discrimi-
natórios são sofridos exclusivamente por uma categoria determinada de atos ou pes-
soas.

A discriminação pode ser real ou sentida. É real quando efetivamente executada, e é


sentida quando o indivíduo, antecipando-se ao rechaço, se autodiscrimina. Em maté-
ria de homossexualidade, interessa-nos a discriminação indireta e aquela sentida ou
antecipada.

Na maioria dos casos, os indivíduos sabem e sentem que a homossexualidade é moti-


vo de vergonha, de chacota, de exclusão muito antes de saberem-se atraídos por pes-
soas de seu mesmo sexo.

No que se refere à família, a discriminação sentida aparece mais forte do que a dis-
criminação real. Uma vez superada a discriminação antecipada, ou revelada a identi-
dade homossexual, a atitude da família é geralmente, mas não sempre, de aceitação
ou de tolerância. Porém, na maioria dos casos, se a família sabe, a regra é não falar
disso.

Quanto aos amigos, existem três casos típicos: o dos homossexuais que participam de
um mundo amistoso formado exclusivamente por homossexuais e “mulheres-amigas-
de-gays”; o daqueles que levam uma vida dupla; e o caso minoritário daqueles que se
integram completamente em um mundo de amigos sem distinção de orientação sexu-
al.

Quanto a vizinhos ou colegas de trabalho, a regra é a tolerância.


O discurso politicamente correto dos meios de comunicação, de intelectuais e outras
vozes influentes não é uniforme, ainda que a homossexualidade seja objeto de um
discurso liberal e de aceitação já há alguns anos. A idéia considerada correta, aqui, é a
de “não-discriminação” em oposição à discriminação direta.

Quanto à construção de masculinidades, a negação da homossexualidade torna-se tão


ou mais importante do que a conquista de mulheres.

Ainda que as relações pessoais mudem radicalmente com o compartilhamento ou não


da informação sobre a homossexualidade de uma pessoa, deve-se salientar que exis-
tem diferentes matizes. Em um extremo, dentre os que sabem, encontram-se aqueles
que “sabem mas não falam disso”. No outro extremo, encontram-se aqueles que, a
partir de sua inclusão no mundo mais íntimo ou privado, reforçam os laços de confi-
ança e apoio.

A liberação sexual se traduz na criação de um espaço privado que se põe ao abrigo do


olhar heterossexual. Conseqüentemente, a vida homossexual se distingue por frontei-
ras específicas traçadas entre “vida privada” e “vida pública”, que inscrevem em todas
as relações sociais a diferença das preferências sexuais.

Em certas subculturas gays, a interação lingüística está fortemente pautada, inclusi-


ve, por um vocabulário próprio e uma gramática específica.

Os espaços físicos de sociabilidade homossexual estão, em princípio, ligados a en-


contros de sedução e sexuais, quer dizer, a lugares quase clandestinos. Isso dificulta o
desenvolvimento de um movimento sócio-político que, por definição, deve ser públi-
co. Apesar disso, foi justamente nesse tipo de espaços que se produziu a saída políti-
ca. (pp. 23-6)

O segredo enquanto forma de relação social está carregado de tensão e manifesta


uma tendência incoercível a revelar-se. Esse processo dá-se através da revelação, da
comunicação, e do “deixar escapar”.

A revelação implica em um alívio brusco de toda a tensão, que anula a separação e o


segredo.
A comunicação alivia a tensão, mas preserva o segredo. É feita a confidentes selecio-
nados, que passam a ser “depositários” da informação, distintos dos destinatários
excluídos da mesma. A comunicação tem, como efeito, a criação de um laço social
forte e ambivalente, alimentado por uma constante tensão entre um dentro e um fora.

O “deixar escapar” é o meio mais comum de regulação entre a tensão e a preservação


do segredo, e constitui sua “propriedade mais marcante e paradoxal”. O segredo pa-
rece ter de mostrar-e de alguma maneira aos seus destinatários, de modo a regular e
manter sua tensão.

A manutenção dos limites desse segredo requer um esforço compartilhado, entre o


sujeito e seus destinatários. (pp. 27-8)

Existe uma solidariedade entre homossexuais que os leva a privilegiar os laços sócio-
profissionais com seus pares. Tal solidariedade atravessa vertical e horizontalmente
as clivagens e diferenças sociais.

Os laços pessoais entre homossexuais são mais exogâmicos em termos de classe, de


geografia, de idade e de status sociocultural do que entre as demais pessoas. Assim,
não é estranho que indivíduos situados em pontos mais baixos da escala social pos-
sam ascender graças ao auxílio de outros indivíduos situados mais no alto. A própria
vivência das pessoas incentiva a mobilidade, seja ela social ou geográfica. (PP. 28-9)

O movimento de minorias sexuais redefine o sentimento de vergonha ou indiferença


em termos positivos, inclusive de “orgulho”.

A evolução histórica e social segue uma dialética conflitiva, suscetível de expressar-se


através de oposições entre direitos e entre sujeitos de direitos. Tais antagonismos
permitem tanto a reprodução quanto a transformação pública das relações sociais
privadas, de modo contingente.

A politização da sexualidade persegue o fim de garantir o respeito à vida íntima li-


vremente escolhida. A análise dessa relação entre público e privado nos autoriza a
situar as problemáticas sexuais no plano da cidadania.

A aceitação da homossexualidade supõe a legitimidade da dissociação entre sexo e


procriação. A própria noção de direitos sexuais implica no reconhecimento do valor
da sexualidade para a realização pessoal, independentemente de qualquer fim repro-
dutivo. A autonomia individual, determinada, em parte, pela livre disposição do cor-
po, é uma condição necessária para falar-se de uma verdadeira cidadania, com direi-
tos e responsabilidades. (pp. 29-30)