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Colepio: Linguagem/Critica ' OSWALD DUCROT Diresdo: Charlotte Galves Eni Pulcinelli Orlandi Eni Pulcinelli Orlandi (presidente) Marilda Cavalcanti Paulo Otoni O DIZER E O DITO Revisdo Técnica da Tradugto: Eduardo Guimaraes FICHA CATALOGRAFICA Dados de Catslogagio na Publicaso (CIP) Internacional (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Consetho Editorial: Charlotte Galves Ducrot, Oswald. ‘0 dizer e 0 dito / Oswald Ducrot ; revisio técnica da tradusio Eduardo Guimaries, — Campinas, SP : Pontes, 1987. (Linguagem/critica) Bibliografis ISBN 85-7113-002-7 L. Lingusgem — Filosofia 2. Linglistica 3. Semintica 1. Titulo. I. Série. epp4o1 “410 87-1898 412 Indices para catélogo sistemitico: 4, Linguagem : Filosofia 401 1 2. Linguistica 410 3. Semintica : Lingtistica 412 1987 Capitulo VIII ESBOGO DE UMA TEORIA POLIFONICA DA ENUNCIACAO I. 0 objetivo deste capitulo & contestar e, se possfvel, substituir — um postulado que me parece um pressuposto (geralmente implici-| to) de tudo 0 que se denomina atualmente “lingtifstica moderna”, termo que recobre ao mesmo tempo o comparativismo, o estrutura- lismo © a gramética gerativa. Este pressuposto é 0 da uricidade do sujeito falante, Parece-me, com efeito, que as pesquisas sobre a lin-[/ ‘guagem, hé pelo menos dois séculos, consideram como ébyio — sem sequer cogitar em formular a idéia, de tal modo ela se mostra evi- dente — que cada enunciado possui um, € somente um eutor, Uma crenga andloga durante muito tempo reinow na teoria lite- réria, e nfo foi questionada explicitamente sendo a partir de uns cin- giienta anos, notadamente depois que Bakhtine elaborou 0 conceito de polifonia, Para Bakhtine, hd toda uma categoria de texios, € nota- | damente de textos literérios, para os quais € necessério reconhecer // que vétias vozcs falam simultaneamente, sem que. uma dentre_elas. || seja preponderante e julgue as outras: trata-se.do que ele chama, em oposigio & literatura clissica ou dogmética,.a-literatura_popular, ou. ainda carnavalesca, e que as vezes cle qualifica de mascara dendo por isso que 0 autor assume uma série de méscaras diferentes. Mas esta teoria de Bakhtine, segundo meu conhecimento, sempre foi ) aplicada a textos, ou seja, a seqiiéncias de enunciados, jamais aos enunciados de que estes textos so constitufdot nfo chegou a colocar em dtivida o postulado ‘lado isolado faz ouvir uma tinica voz. _-_E justamente a este postulado que ew gostar Para mostrar até que ponto ele esté ancorado na tradigao lingufstica, 161 ( chamarei a atencdo rapidamente para uma pesquisa americana, que, no préprio momento em que esté para abandoné-lo, reestabelece-o in extrimis, como se se tratasse de um dogma intocdvel. Tratase do estudo de Ann Banfield (1979), sobre o estilo indireto livre. Rom- pendo com a descrico habitual de estilo indireto livre como uma das, formas do discurso relatado, Ann Banfield vé nele a expressio de um ponto de vista, que pode nfo ser o da pessoa que é efetivamente, ‘empiricamente, autor do enunciado, e ela emprega o termo “sujeito de consciéncia” para designar a fonte deste ponto de vista. Mas, alcan- ‘sando este ponto, quer dizer, o momento em que uma pluralidade de sujeitos poderia ser introduzida no enunciado, Banfield formula dois princfpios que descartam a ameaca. Ela coloca inicialmente que, para tum dado enunciado, s6 pode haver um sujeito de consciéncia, colo- cando de imediato no dominio do anormal os exemplos que fariam aparecer uma pluralidade de pontos de vista justapostos ou imbrica- dos. E em seguida, para tratar os casos em que 0 sujeito de conscién- cia nfo 6 0 autor empfrico do enunciado, diz que ndo hé locutor nestes enunciados. Certamente nfo censurarei Banfield — muito a0 contrétio — por distinguir 0 locutor, ou seja, 0 set designado no enunciado como seu autor (através, por exemplo, de marcas da pri- meira pessoa), € 0 produtor empirico, ser que nfo deve ser levado ‘em conta por uma descrigao lingifstica preocupada somente com indi- ccagdes seménticas contidas no enunciado, O que censurarei em Ban- field € a motivagio que a leva a esta distinglo, a saber, o cuidado fem manter a qualquer prego a unicidade do sujeito falante, jé que este mesmo cuidado — depois de té-la levado a fazer abstragio do produtor empirico (posigao que & também a minha) — vai levé- decisées que gostaria de evitar. Quando o sentido de um enunciado comporta a indicago incontestvel de um locutor (atestada pela pre- senga de pronomes de primeira pessoa) mas que, no entanto, 0 enun- ciado exprime um ponto dé vista que nfo pode ser identificado a0 do locutor — por exemplo, quando alguém tendo sido chamado de imbecil, responde “Ah, eu_souum imbecil, muito bem, voce _vai ver...” — Banfield é obrigada a excluir estas “retomadas” do cam- "po do estilo indireto livre considerando-as um dos modos do discurso relatado (desctevendo 0 “eu sou um imbecil” do discurso precedente ‘como um “voce diz que eu sou imbecil”). Gragas a tais exclusdes, ela pode formular um prinefpio segundo o qual, quando hé um locutor, ‘este 6 necessariamente também o su nfo tem outra justificative, a meu ver, sendo salver uma unicidade 162 to de conscincia, prinefpio que | el admitida a priori como um dado de bom senso: “nfo se pode, em uum enunciado que se apresenta como préprio, exprimir um ponto de vista que néo seja 0 préprio”. Os estudos de Banfield sobre o estilo indireto livre forafa recen- temente discutidos em detalhe por Authier. (1978) e’Plénat (1975). Estes dois estudos colocam em diivida os dois principios“tim enun- ciado — um sujeito de consciéncia” e “se hé um locutor, ele , idén- tico a0 sujeito de consciéncia”. Minka propria teoria da polifonia, que deve muito aos dois autores. que acabo de citar, visa a construit um quadro geral onde se poderia introduzir sua critica a Banfield, quadro que constitui ele mesmo, digo-o desde jé, uma extensio_(ba tante livre) & lingifstica dos trabalhos de Bakhtine sobre.a-literatura_} 11, Gostaria, inicialmente, de definir_a_disciplina — chamo-a tpragmética semantica”, ou. “pragmética lingiifstica”— no interior da tica a ago humana em geral, 0 termo pragmética da linguagem pode servir para designar, neste conjunto de investigagdes, as que dizem respeito & ago humana realizada pela linguagem, indicando suas con- digdes € seu alcance. O problema fundamental, nesta ordem de estu- dos, € saber porque € possivel servir-se de palavras para exercer uma influéncia, porque certas palavras, em certas circunstincias, sfo dote- das de eficécia. & 0 problema do centuriio do Evangelho, que se es- panta por poder dizer a seu criado “venha!”, € 0 ctiado vem. F tam- bém a questo tratada por Bourdieu (1982), questo que esté, na ver- dade, no dominio da sociologia, e sobre 0 qual 0 lingitsta, enquanto lingiiista, tem pouca coisa a dizer — exceto se ele cré em um poder intrinseco do verbo. Mas, uma vez colocado de ado este problema, resta um outro, que me parece, este sim, propriamente lingiifstico, e que faz parte justamente do que chamo “pragmética lingifstica”. N&o se trata mai do que se faz quando se fala, mas do que se considera que a fal segundo © proprio enunciado, faz. Utilizando um enunciado interro- gativo, pretende-se obriger, pela propria fala, a pessoa # quem se dirige a adotar um comportamento particular, o de responder, e, do mesmo modo, pretende-se incité-lo a agit de uma certa maneira, se se recorre a um imperativo, etc. O ponto importante, a meu ver, € ‘que esta incitagdo para agi ou esta obrigagao de responder sto dadas como efeitos da enunciagao. © que generalizarei dizendo que todo 163