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Sociedade

:: Brasil: da via colonial à mundialização

Esta sessão tem como objetivo veicular textos que trazem a baila questões pertinentes ao processo histórico brasileiro, a especificidade de sua formação e inserção no mercado globalizado. Isto é, pretende expor questões que retomem o entendimento da realidade brasileira sem perder de vista o percurso pelo qual o Brasil transitou de uma economia agrário-exportadora para uma economia industrializada, todavia, sem romper com os traços de subordinação que marcou toda a sua história.

A expressão “da via colonial à mundialização” deve-se a J. Chasin que, ao investigar a particularidade do processo de constituição do capitalismo no Brasil, com o objetivo de conhecer a realidade brasileira “propõe, na segunda metade da década de 70, em sua tese doutoral O Integralismo de Plínio Salgado, a determinação da via colonial. Ou seja, ao lado dos casos clássicos [1] (França e Inglaterra) ou da chamada via prussiana (Alemanha e Itália), Chasin procurou reconhecer uma nova via de objetivação do capitalismo, isto é, de países que transitam para o capitalismo só muito tardiamente em virtude de sua condição colonial. Em termos breves: a Via Colonial reconhece a emergência de países que transitam para o capitalismo de forma ‘hiper-tardia’, ou seja, no momento histórico onde as formações clássicas (França e Inglaterra) já estavam plenamente desenvolvidas e as formações prussianas (Alemanha e Itália) lutavam por se estabelecer. De modo que países como o Brasil só se puseram na cadeia capitalista de modo retardatário, o que gerou, necessariamente, mazelas e limites de toda ordem” (CHASIN, Milney. “Contracapa”. In CHASIN, J. A Miséria Brasileira - 1964 – 1994: do Golpe Militar à crise social. São Paulo, Estudos e Edições Ad Hominem, 2000).

>> E o caso brasileiro. J. Chasin.

>> Séculos XVIII e XIX: Revolução na economia e na política. Maria Amália Andery.

>> Crise e Poder. J. Chasin.

E O CASO BRASILEIRO [2]

J. Chasin

Efetivamente, como diz com muito sabor J. H. Rodrigues, “O Processo histórico brasileiro é sempre não contemporâneo” [3] .

Dito, no outro espírito da problemática das formas particulares de objetivação do capitalismo que nos informa, e das quais estivemos falando há pouco: “No Brasil, bem como na generalidade dos países coloniais ou dependentes, a evolução do capitalismo não foi antecedida por uma época de ilusões humanistas e de tentativas – mesmo utópicas – de realizar na prática o “cidadão” e a comunidade democrática. Os movimentos neste sentido, ocorridos no século passado e no início deste século, foram sempre agitações superficiais, sem nenhum caráter verdadeiramente nacional e popular. Aqui, a burguesia se ligou às antigas classes dominantes, operou no interior da economia retrógrada e fragmentada. Quando as transformações políticas se tornavam necessárias, elas eram feitas ‘pelo alto’, através de conciliações e concessões mútuas, sem que o povo participasse das decisões e impusesse organicamente a sua vontade coletiva. Em suma, o capitalismo brasileiro, ao invés de promover uma transformação social revolucionária _ o que implicaria, pelo menos momentaneamente, a criação de um ‘grande mundo’ democrático – contribuiu, em muitos casos, para acentuar o isolamento e a solidão, a restrição dos homens ao pequeno mundo de uma mesquinha vida privada” [4] .

Posto que o Brasil, tal como a Itália e a Alemanha [5] , jamais conheceu a revolução democrática burguesa, a questão é saber em que estágio de desenvolvimento ele se achava por volta das décadas dos anos vinte e trinta, quando aquele outros dois países, de constituição capitalista tardia, já se encontravam, na seqüência de uma rápida industrialização, na condição de elos débeis da cadeia imperialista. Indagado de forma sintética: a esse tempo em que ponto estava a objetivação do “verdadeiro capitalismo” no Brasil?

Já fizemos algumas indicações a respeito, quando tratamos da via prussiana, e buscamos atingir, com a ajuda desta, o particular próprio aos casos a que pertence o brasileiro, sugerindo, então, para ele, o designativo de via colonial.

Na introdução de 1933 a Serafim Ponte Grande, a mordacidade de Oswald de Andrade entreabre para um breve e incisivo retrato do grau de desenvolvimento da indústria brasileira atingido à época: “O movimento modernista, culminando no sarampão antropofágico, parecia indicar um fenômeno avançado. São Paulo possuía um poderoso parque-industrial. Quem sabe se a alta do café não ia colocar a literatura nova-rica da semi-colônia ao lado dos custosos surrealismos imperialistas? Eis porém que o grande parque industrial de São Paulo era um parque de transformação. Com matéria-prima importada. Às vezes originário do próprio solo nosso. Macunaíma” [6] .

Quem será, nesta rapsódia, “o herói sem nenhum caráter”?

Diante das palavras de Oswald, para acentuar diferenças, e não para desqualificar ou minimizar as dores do penalizado processo da industrialização brasileira, não resistimos à tentação de dizer que, se a história se repete – uma vez como drama, outra como comédia – a industrialização hiperdardia da via colonial é a penosa comédia.

Sem mais ironias ou cifrados retóricos, diga-se, de uma vez, usa que por mais distintas que se mostrem as interpretações sobre pontos inúmeros, por mais diferentes que sejam as ilações teóricas e práticas que extraiam, os autores, no

entanto, convergem, quando se trata de indicar, no geral, o significado essencial do processo histórico nacional das primeiras décadas do século para usar uma indicação de Celso Furtado, dir-se-ia que no curso desses anos o quadro brasileiro faz transparecer a necessidade de uma alternativa para a ordem agro- exportadora, que envolve em longo andamento de notórias vicissitudes, conduzida pela extensa crise do café [7] . Em outras palavras: “Observando nossa evolução desde princípios do século atual, verifica-se que é então que se situa a última

culminância daquele sistema. Saía-se de uma fase de expansão ininterrupta e o futuro ainda parecia brilhante. Entretanto, verificou-se um estacionamento, e logo em seguida o declínio que depois de 1930 se torna precipitado. Isto evidencia que

a base oferecida pelo nosso antigo sistema, voltado precipuamente para o exterior

se torna progressivamente mais estreita e incapaz por isso de sustentar a vida do país” [8] . E “fica evidente, enunciados todos os teoremas, que tanto o auge quanto

a inviabilidade da economia agro-exportadora brasileira típica da República Velha

e suas seqüelas que marcaram todo o bloqueio do avanço do capitalismo no país, não podem ser explicados sem um acurado exame das relações internacionais que a emolduraram. A intermediação comercial e financeira externa, que tanto se

não é um caso nessa trama de relações: ela é a relação. Seu

epicentro é a Inglaterra, na fase típica de exportações de capitais; seu nome é

imperialismo” [9] .

enfatizou (

)

SÉCULOS XVIII E XIX: REVOLUÇÃO NA ECONOMIA E NA POLÍTICA [10]

Maria Amália Andery

Duas grandes revoluções marcaram os séculos XVIII e XIX: uma delas, fundamentalmente econômica, a chamada revolução industrial, ocorrida inicialmente na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII, e mais tardiamente na Alemanha, na segunda metade do século XIX; a outra, fundamentalmente

política, a chamada Revolução Francesa, ocorrida na segunda metade do século

XVIII.

A Revolução industrial significou um conjunto de transformações em diferentes aspectos da atividade econômica (indústria, agricultura, transportes, bancos etc.), que levou a uma afirmação do capitalismo como modo de produção dominante, com suas duas classes básicas: a burguesia, detentora dos meios de produção e concentrando grande quantidade de dinheiro; e o proletariado, que, desprovido dos meios de produção, vende a sua força de trabalho para subsistir. Significou, sobretudo, uma revolução no processo de trabalho, por meio da “( ) criação de um ‘sistema fabril’ mecanizado que por sua vez produz em quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente decrescente a ponto de não mais depender da demanda existente, mas de criar o seu próprio mercado

)” (

(Hobsbawm,1981, p.49).

À época da Revolução Francesa, que se iniciou em 1789, o país era

governado por uma monarquia absolutista, a mais poderosa e autocrática da

Europa, tendo como monarca Luís XVI. (

basicamente agrária e feudal, sendo que cerca se 80% da sua população era

camponesa. (

de forma que pelo primeiro e segundo estados eram compostos, respectivamente,

pela nobreza e pelo clero (aproximadamente 3% da população). (

estado era formado pelos camponeses e pelas outras camadas sociais que trabalhavam, pagavam impostos e, em geral, não usufruíam de privilégios: a burguesia e os sans culottes. A burguesia era a camada melhor situada dentre as do terceiro estado, pois suas atividades mercantis e industriais traziam-lhe riqueza. Os sans culottes eram constituídos pelo proletariado urbano, que, além de artesãos e assalariados, contava também com desempregados, marginais etc. Estes estavam constantemente em situação de pauperização e era freqüente revoltarem-se contra ela (ANDERY, Maria Amália. “Séculos XVIII e XIX:

Revolução na Economia e na Política”In: Para compreender a ciência. São Paulo:

EDUC, 2000, pp. 257, 258, 269 e 270).

)

Nessa época, a França era

)

A divisão da sociedade francesa em ordens ou estados dava-se

)

O terceiro

CRISE E PODER. [11]

J. Chasin

A que vem e a que serve este pequeno livro?

Crise e Poder é a ilustração feliz de um novo modo de pensar e agarrar o real brasileiro; constelação determinativa a partir da qual é possível propor, com o devido rigor, a ação política que convém ao quadro apreendido, tendo por objetivo a sua transformação.

Crise e Poder, tanto quanto a chave teórica que o gera e sustenta são expressão do desenvolvimento do marxismo no Brasil. Do marxismo entendido e assumido como ciência, ao qual repugna, simultaneamente, a dogmática que aniquila e os ecletismos que estiolam: ambos contrafações de Marx e da Revolução.

As vicissitudes do pensamento marxista em nosso país, ao longo de seus sessenta anos de existência, têm combinado o esforço ingente de alguns pesquisadores, que involuntariamente se vêem compelidos ao trabalho intelectual isolado, e à nulidade da produção teórica das agremiações políticas, que pretensamente reclamam para si a herança do ideário dos clássicos.

Pense-se no desenho dos casos já longínquos, não por isso menos eloqüentes, independentemente dos méritos de seus trabalhos, de Otávio Brandão e Astrogildo Pereira. Reflita-se, especialmente, no exemplo maior de Caio Prado Jr., grandeza máxima desta história, que aqui aludo com penadas mais do que apressadas, autor que não só produziu, até o presente, a obra marxista mais significativa (independentemente de contrastes e desigualdades que aqui não importam), como o fez à revelia do grêmio político ao qual sempre emprestou seu

prestígio, e sobre o qual, para vergonha e desgraça deste, jamais alcançou influência.

Abstraídas as individualidades, o itinerário do marxismo no país está marcado por algumas inflexões básicas.

Aos esforços dos primeiros tempos – década de 20, época de iniciação e formação, que não pôde florescer, albaroada que foi, ainda em seus verdes anos, já pelo tropel inicial da cavalgada internacional do estalinismo, sucede a grave patologia dos “modelos”.

Durante decênios e dominando o pré-64, tudo se passa como se todo o capitalismo repetisse as forma e a dinâmica de um único talhe: é o “modelo” inspirado na particularidade clássica, a que pertencem Inglaterra e França, tomada e desfigurada em universalidade abstrata. Daí a catação desesperada de um feudalismo, contra o qual estaria antagonicamente nossa burguesia nacional. De nada valeu, à época, o alerta categórico que provinha de Caio Prado Jr. desde 1933, e de outras vozes inconformadas.

A frustração de 64, no entanto, decretou a falência do “modelo clássico” como parâmetro para a análise da objetivação capitalista no Brasil. Por vias distintas, independentes e em atenção a objetos diversos, alguns passaram a perspectivar o enfoque pela via prussiana. Passava-se a levar em conta que o capitalismo se pusera e repusera, na Alemanha, de modo totalmente diverso daquele que caracterizara o processo de “tipo europeu” (inglês e francês), como o designou Marx em seu esplêndido ensaio A burguesia e a contra-revolução, composto por uma série publicada em dezembro de 1848, na Nova Gazeta Renana.

Vale assinalar que o caminho se abrira, não através da pesquisa histórica ou da análise econômica, mas especialmente através de alguns que lidavam com

a filosofia e não estavam desatentos à política. Precisamente, foram os textos de Lukács que remeteram à via prussiana. Via prussiana em Lukács, que segue à formulação adotada por Lênin, remetendo à “miséria alemã” – expressão com que Marx, desde a juventude, endereçava à problemática do desenvolvimento tardio, refreado e não revolucionário do verdadeiro capitalismo na Alemanha.

Mas, se para a análise brasileira mudava o referencial do talhe clássico para o talhe prussiano, não se alterava, contudo, em todos que se comprometiam neste empenho, o mais importante aí compreendido: a concepção e a sustentação metodológica de base. Conseqüentemente, em vários casos, a passagem de um enfoque para outro não foi além da mera substituição do “modelo clássico” pelo modelo prussiano”. Com efeito, para estes não houve a superação metodológica da noção de modelo, recurso completamente estranho, em plano decisivo, para a instrumentação e a elaboração científicas de linha marxiana. Simplesmente transitaram de um modelo para outro, continuando a ignorar a chave mestra da lógica da particularidade para a concreção dialética exigida por Marx. Prosseguiram operando com generalidades abstratas, às quais subsumem dados empíricos.

Os que estagnaram e encalharam, no “modelo da via prussiana”, ficaram impedidos de avançar na compreensão do caso brasileiro. Assim reproduzem em grande medida, apenas de forma mais sofisticada e menos estúpida, as análises dominantes do período anterior. Redunda daí uma proposta política, na qual é bisada (e não poderia ocorrer nada diverso) a lógica perversa da emasculação sofrida. Política que é coroada por um troncho dilema de ocos diamantes liberais, tudo para que não fique pura e simplesmente colada e totalmente indiferenciada em relação à plataforma política que marca o pré-64. Aliás, sob este aspecto, ampliam os cultores do “modelo da via prussiana” as debilidades que comprometiam as palavras e os atos do passado.

Na exata medida em que meramente caminharam de modelo a modelo, na medida que, ao limite, só encontraram um novo modo de sustentar e cometer erros velhos, assim também sua nova programática reproduz o erro fundamental da programática antiga: o desconhecimento e a desconsideração da centralidade operária para a questão democrática. É o que os condiciona, diante do caso brasileiro e diante da inescamoteável questão da chaga enorme do estalinismo, a pirutear para trás, em direção às formas institucionais do liberalismo político, em vez de armar o salto para frente, no sentido da democracia social e humana, que só pode se explicitar pelo prisma da efetuação das massas trabalhadoras, nucleadas e perspectivadas pelo proletariado, pois, como Marx já elucidava com precisão em 1845:

“O ponto de vista do materialismo antigo é a sociedade civil, o do materialismo moderno, a sociedade humana ou a humanidade social” (X Tese Sobre Feuerbach).

Se assim, infelizmente, foi com alguns, não foi, felizmente, com todos. De sorte que, em contrapartida ao fetiche do “modelo da via prussiana”, para alguns outros o itinerário pôde ser mais fértil. Para estes, a autêntica e valiosa tematização da particularidade da via prussiana, em contraste com a particularidade, igualmente riquíssima de sentido e valor teóricos, da revolução burguesa de “tipo europeu” (ou particularidade clássica), induziu à compreensão mais ampla e mais rigorosa, de caráter ontológico, de que há modos diversos de ser e ir sendo capitalismo; de que este, em sua universalidade e universalização, se põe e repõe sob formas particulares (seja como categoria da realidade, seja como categoria da consciência), que exigem perfeita determinação, sem a qual não se abre acesso à verdadeira concreção pelo conhecimento dos casos singulares, razão maior – prática e teórica – do empenho científico. O estudo das duas particularidades (vias) apontadas – clássica ou européia e prussiana – funcionou como mediação para o aprofundamento da questão metodológica da lógica da particularidade, o que possibilitou, através de posterior e cuidadoso processo de determinação ontometodológica, que é própria à natureza da dialética de Marx, o reconhecimento de mais uma forma particular de

objetivação do capitalismo, que propus, anos atrás, fosse denominada de via colonial.

Não cabe, na hora e lugar de prefaciar Crise e Poder – que faço no curtir gostos de um enorme sentimento de dever e satisfação – me pôr a pormenorizar as determinações da via colonial, mesmo porque o conjunto de artigos deste

volume trabalha a questão, ao longo de suas páginas, com ampla relevância para

o aspecto fundamental do processo de construção democrática dentro da

singularidade do caso brasileiro, país que teve e vem tendo concretamente explicitado seu capitalismo, precisamente, pela forma desta particularidade.

Compete apenas dizer, em conexão com o fundo deste livro de Ricardo Antunes, que a via colonial se distingue radicalmente, por essência – seja pelo método, seja pelos resultados de suas determinações, seja também, grife-se, pelas suas implicações políticas –, do “modelo da via prussiana”; que à concepção de via colonial é estranho qualquer tipo de modelo, expediente que recusa como

“ideal” científico “possível”, pois entende-se pensada do ângulo visual da ciência

de Marx, que almeja a integralidade do objeto real.

Compete dizer ainda, sempre muito sumariamente, como quem antecipa ao leitor uma riqueza do texto sobre o qual irá se debruçar, que, considerada a universalidade e a universalização do capitalismo, as formas reais de sua particularização revelam agudas distinções de ser, de gênese e de desenvolvimento, que envolvem as formações sociais em sua completa totalidade, regendo aquilo que são, o que podem vir a ser e o caminho que as supera. Distinções agudas, por exemplo, e darei apenas um, que fazem com que, no caso da revolução de “tipo europeu”, a categoria social da burguesia, condutora real do processo, realize tanto as tarefas econômicas, como as tarefas políticas da sua cabal reconversão do mundo; ao passo que, diferentemente, a burguesia prussiana, ainda que de modo tardio, refreado e conciliador, só efetiva suas tarefas econômicas, sem jamais dar conta de suas tarefas políticas; enquanto que,

distintamente das duas anteriores, a burguesia autocrática de extração pela via colonial não realiza nem as tarefas econômicas, nem as tarefas políticas próprias de sua classe.

Resulta daí – a análise feita da perspectiva da via colonial sempre o acentuou –, e a história e os acontecimentos o têm comprovado à saciedade, que qualquer edificação democrática no Brasil, por mais elementar que seja, está na dependência direta da atividade das massas trabalhadoras e da profundidade com que influenciam ou detenham a hegemonia de todo o processo. Ou seja, é inviável, no Brasil, uma república puramente liberal-democrática: toda história de nossa burguesia já demonstrou que ela não é o ser social imprescindível para tel efetivação; qualquer forma de democracia no país, por mais incipiente que seja, já conterá elementos não-burgueses, vale dizer, sociais e humanos que só a presença e a força perspectivamente dos trabalhadores pode lhe conferir. Fora daí, do ponto de vista da via colonial, tudo o mais é pobre ilusão ou banal politicismo.

Dirão, talvez, que em alguns pontos há coincidência de teses com formulações elaboradas sem o concurso da via colonial. Lembro que a concepção da via colonial pertence (quer queira ou não, independentemente da vontade de seus adeptos ou de seus eventuais detratores) à história do marxismo no Brasil, e não é para ser pensada fora desta. A teoria da via colonial não recusa antecipações havidas, onde quer que se tenham dado, alimenta-se de conquistas intelectuais anteriores, que entenda válidas e pertinentes, resgatando-as para sua própria angulação, que tem a pretensão não pretensiosa de ser a visão mais global, precisa e fértil, exatamente porque pode olhar sobre os ombros de décadas de esforços. Enquanto tal, como qualquer posição teórica ou prática, espera, como disse Lukács, especialmente num mundo de imensa dispersão ideológica, que a história venha a lhe dar razão. E só a história real dos homens, que pensam e lutam, pode lhe negar isso, sem nenhum a priori.

Ademais, a história traçada no início deste prólogo é apenas parte da história inteira. Ficou de fora toda a produção marxista dita acadêmica, haja vista que constitui uma história específica e em boa medida comprometida. Mas seria erro e injustiça brutais não lembrar, com grande ênfase, três contribuições de primeiríssima grandeza, independentemente de convergências ou de dissonâncias:

a da admirável erudição marxóloga de J. Arthur Giannotti, o empenho intelectual revolucionário, insubmisso e sem contraste, de Florestan Fernandes, a fina análise econômica de ressonâncias ontológicas de Francisco de Oliveira.

Em suma, Crise e Poder, em sua aparente simplicidade – e efetivo encaminhamento a complexos de grande importância –, pertence, pois, aos esforços que visam o desenvolvimento da concepção de via colonial, e da análise que ela faculta de uma série de países de formação capitalista estruturalmente identificáveis, constituintes do leque de singularizações da particularidade em tela.

Empenho este que conta com a dedicação, frutífera ou não, de meus próprios textos, dos de Ricardo Antunes e das energias de outros mais, facilmente identificáveis, especialmente entre as páginas da Nova Escrita/Ensaio. Para todos eles remeto a atenção e peço a crítica do leitor deste valioso livro de Ricardo Antunes. A crítica imprescindível que possa nos levar, a todos, a uma melhor e mais rápida compreensão do pensamento marxiana, da realidade brasileira e à transformação desta.

Notas:

[1] As expressões Caso Clássico e Caso Prussiano foram denominado por Lênin para distinguir o modo pelo qual o capitalismo havia sido constituído na Inglaterra e França do modo como ele se desenvolveu na Alemanha e Itália. As expressões Via Clássica e Via Prussiana foram extraídas das obras de Marx, que freqüentemente se referia à miséria alemã, ao anacronismo do desenvolvimento econômico e social na Alemanha ao tracejar suas diferenças em relação ao processo de desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra e França.

[2] Fragmento retirado de CHASIN, J. O Integralismo de Plínio Salgado – Forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. São Paulo, Livraria Editora Ciências Humanas LTDA, 1978, p. 638.

[3] José Honorário Rodrigues, Conciliação e Reforma no Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965, p. 70.

[4] Carlos Nelson Coutinho, Literatura e Humanismo, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967, p. 142”.

l’Italie et l’Allemagne n’ayant pas connu de révolution bourgeoise, L’idéologie libérale est

fragile et faiblemente enracinée.” MAX GALLO, L’ideologie fascite, in Lês Idéologies dans lê Monde Actuel, DDB, Paris, 1971, p. 145.

[5]

[6] ANDRADE, O. Obras Completas, Vol. 2, pp. 132-33.

[7] FURTADO, Celso. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1961, Cap. 6.

[8] PRADO JÚNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense, p. 296.

[9] OLIVERIA, Francisco de. “A Emergência do Modo de Produção de Mercadoria: Uma interpretação Teórica da Economia da república Velha no Brasil”. In: O Brasil Republicano 1. São Paulo, Difel, 1975, p. 412.

[10] Fragmento de texto extraído de ANDERY, Maria Amália. “Séculos XVIII e XIX: Revolução na Economia e na Política”. In: Para compreender a ciência. São Paulo: EDUC, 2000, pp. 257, 258, 269 e 270. Objetivo: explicitar alguns elementos pertinentes ao processo de constituição do capitalismo na França e Inglaterra por volta dos séculos XVIII e XIX.

[11] CHASIN, J. “Prefácio” in ANTUNES, R. Crise e Poder, Ed. Cortez e Autores Associados (Coleção polêmicas de nosso tempo; 11). São Paulo, 1984.