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A MENTE NOVA DO REI

Copyright © by Rodolfo Lobato

rodolfolobato8@gmail.com

2009

As abelhas constroem colméias tão perfeitas que poderiam envergonhar a mais de um mestre de obras. Mas o pior mestre de obras é superior à melhor abelha porque, antes de executar a construção, ele a projeta em seu cérebro.

Karl Marx

De todos os obstáculos à compreensão da Evolução, as discussões em torno da mente ainda parecem um dos mais fecundos. Assim, como os religiosos se atrapalham com a Evolução, também acontece quando tentam a neurociência:

E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme

e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro da Filosofia que procurava.

por aí que era uma substância cuja essência ou

natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. De sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e, mesmo, que é mais fácil de conhecer do que ele,e, ainda que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.(DESCARTES,1641, 1973, p.54-55)

] [

]compreendi [

Para os antigos gregos, o termo psique ou alma significava algo como o que normalmente entendemos como mente. Aristóteles em Da Alma 1 . A alma tinha “funções nutritivas, perceptivas e intelectuais e pelo movimento”(Aristóteles, 1986, p413b) e a função intelectiva é a que comumente atribuímos a mente. Mas a visão de alma em Aristóteles faz parte de uma visão maior, uma visão teleológica 2 que se baseia em suas 4 causas. E que foi, especialmente, adotada por São Tomás de Aquino e no século XVII rejeitada por Descartes, Locke, Leibniz e Spinoza 3 . Mas vejamos esses últimos:

sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é

inteiramente distinta do corpo e, mesmo, que é mais fácil de conhecer do que ele,e, ainda que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.(DESCARTES,1641, 1973, p.54-55)

]De [

Mas a mente é isso que Descartes afirma? Antes de avançarmos vamos tratar de alguma coisa que já se apresenta em Descartes de forma implícita e que será exposta mais exaustivamente a frente: essência. Essência, segundo uma definição restrita, seria o que constitui a natureza íntima das coisas, seu modo de ser especial; ser; existência; substância; idéia principal; caráter distintivo. 4 Uma discussão ontológica. Porém, mesmo sendo uma discussão metafísica ela não está livre de ser submetida a formalização da lógica e aos avanços da ciência. Existe uma essência? Qual a essência do unicórnio? A essência tanto pode ser algo material, imaterial, real ou imaginário. Por enquanto, entendamos que Descartes tem uma visão tão essencialista, quanto a de seus críticos. Não vamos ficar aqui discutindo definições. A usaremos para expor se há argumentos que sustentem a afirmação de que a mente é distinta do corpo.

Há uma doutrina sobre a natureza e o lugar das mentes de tal modo prevalecente entre os teóricos e até entre leigos que merece ser

A doutrina oficial, que procede

designada como teoria oficial.[

]

1 Da alma: livros I, II, III [Tradução e notas: Maria Cecília Gomes dos Reis]; São Paulo: Editora 34, 2006 2 Doutrina que trata das causas finais; conjunto das especulações que se aplicam à noção de finalidade.

3 Para uma maior discussão ver: mente: conceitos chave em filosofia.Porto Alegre: Artmed,2007 4 (do lat.essentia)dicionário brasileiro globo.São Paulo: Globo,1999

sobretudo de descartes, é mais ou menos como descrita a seguir.

Com a duvidosa exceção dos idiotas e das crianças de colo, todo ser humano possui um corpo e uma mente. Alguns prefeririam afirmar que todo ser humano é tanto um corpo como uma mente. Seu corpo e sua mente normalmente estão atrelados um ao outro, mas depois da morte do corpo a mente pode continuar a existir e funcionar. Os corpos humanos existem no espaço e estão sujeitos a leis mecânicas

que governam todos os outros corpos no espaço.[

as mentes

não existem no espaço, nem suas operações estão sujeitas a leis mecânicas[ ] Eis o esboço da teoria oficial. Com freqüência me referirei a ela, com

intuito pejorativo, como “o dogma do fantasma na máquina.(RYLE, 1949, p.13-17 apud PINKER, 2004, p.28)

]Mas

A mente é uma coisa qualquer e o que queremos é determinar que coisa é essa. Se olharmos os outros animais podemos chegar a conclusão, se formos Cartesianos, de que os outros animais não tem mente, mas logo podemos duvidar, e criticar Descartes, dizendo que um animal sente dor se o chutamos, e que possui algo que podemos chamar de mente, não como a nossa, mas mesmo assim , um tipo de mente. A mente de um besouro não será como a de um elefante ou de uma bactéria. Ao incluir outras categorias de animais a estranheza aumenta ao tratar da mente. As discussões em torno da mente comumente tendem a misturar noções de consciência, Eu, autoconsciência, essência, em um caldeirão discursivo que nos leva a autores. O que é um corpo? Em uma definição geral, algo que ocupa espaço. A eletricidade é um corpo?A gravidade? Onde elas habitam? As discussões sobre o Universo apontam que ele é constituído, onde estamos, de três dimensões mais o tempo. Nesta parte do Universo, o espaço e o tempo estão em uma relação tal que a realidade se dá através deles, eles não estão dissociados, ou então, um vem depois do outro. Ambos são simultâneos. Agora, pense sobre o seu coração, ele é constituído de tal forma, que sua fisiologia funciona de tal modo, possibilitando a sustentação parcial de determinada coisa(você) por um tempo. Seu coração além de perder ou produzir energia e por isso a necessidade de alimento, ele produz som, ritmo, movimento; seu pâncreas produz insulina que quebra a glicose produzindo energia. É o seu pâncreas que produz energia? É seu coração que produz o

som; ou o movimento da circulação que atua em todo sistema circulatório? Se pudermos observar o corpo por dentro, vamos encontrar o que o coração produz: circulação espalhada por todo o corpo. A energia gerada pela quebra da glicose é uma parte do pâncreas que continua a existir após morrermos?E a circulação, irá habitar outro corpo? E a mente? Gottfried Leibniz usou uma imagem para tratar do problema mente-corpo:

Ademais, deve-se confessar que a Percepção e aquilo que dela depende é inexplicável por razões mecânicas, isto é, por figuras e movimentos. Imaginando-se que há uma máquina cuja estrutura a faça pensar, sentir e perceber, poder-se-á, guardadas as mesmas proporções, concebê-la ampliada de sorte que se possa nela entrar como em um moinho. Admitido isso, lá não encontraremos, se a visitarmos por dentro, senão peças impulsionando-se umas às outras, e nada que explique uma percepção.(LEIBNIZ, 1714, 2009, p.02)

O que impede de tratarmos a mente como produto do cérebro? A mente se reduz ao cérebro? Não. Da mesma forma que a energia metabólica do pâncreas não é toda conseqüência dele. Ou então, a circulação, como quando uma descarga elétrica em uma tomada pode alterar a circulação, seu som, movimento, ritmo, etc.; ou, a pessoa pode se assustar e desencadear um processo parecido. A mente é produto do cérebro, mas, não totalmente. Um coração artificial pode ser construído e posto no corpo de um enfartado e aquilo que o orgânico fazia ele faz também, mas também, não totalmente e, não da mesma forma, assim como não poderíamos usar o coração de qualquer pessoa para o enfartado; neste caso, um artificial seria o melhor. A organização material de algo pode funcionar de formas diferentes com conseqüências semelhantes. Um avião, um pássaro e uma folha de papel podem voar, mas os três voam de formas diferentes. Se o objetivo for levar X de A para B, através de Z, X pode ir através de W de A para B, se tomar outro caminho ou tiver tempo. Z ou W podem desempenhar o mesmo papel, para objetivos semelhantes se tiverem tempo, mesmo que X tome caminhos diferentes. Mas, se você quiser que o percurso feito por X, seja Z, é melhor encontrar algo bem parecido com Z; talvez Z1, Z+1 ou então, Z-1. Lembre-se, você quer chegar até

B. O percurso de A até B, pode ser qualquer coisa: viver até determinado ponto; fazer um cálculo com calculadora ou papel; ir até a padaria andando, correndo, de bicicleta, de carro, de avião; decidir se casar semana que vem ou daqui a três anos; demonstrar amor dizendo Eu te amo, através de um gesto, um sorriso. Se você quer chegar de A até B, são inúmeros os modos e formas de chegar, e a eficácia de chegar está relacionada para os objetivos especificados e com o material de Z. Se você quer ir até a padaria, tanto faz se vai caminhando, ou de avião, mas se quer ir porque o pãozinho vai sair em minutos é melhor se apressar. Se você quer demonstrar amor, um sorriso, um gesto, podem ter o mesmo efeito, mas se você quiser ter certeza de que a pessoa não tenha dúvidas, é melhor olhar dentro dos olhos e dizer: Eu te amo. Os besouros podem chegar até a padaria? Sim. De modos e formas diferentes. Para comprar pão?Não. Da mesma forma que podemos fazer um cupinzeiro, mas não podemos morar em um; podemos manipular a estrutura molecular para fabricar vinho, mas um cabernet ninguém faz como uma uva. Mas e as máquinas? O que Leibniz teria dito se tivesse vivido o suficiente para conhecer os computadores? Enquanto tratamos dos animais parece ser mais fácil de compreender e rejeitar os argumentos de Descartes. A inteligência artificial parece mais difícil de convencer algumas pessoas. Mas o que nos impede de concluir que os computadores tem mente? Por que Descartes afirma que só os seres humanos tem uma mente enquanto os animais e máquinas, não? Por que ele coloca estranhamente máquinas na discussão? O que leva Descartes a concluir que o quê faz os animais não terem mentes é o mesmo que o leva a concluir que as máquinas também não? Não há fantasma habitando os animais e máquinas em Descartes. Ele deve considerar não só os animais, mas as máquinas também como desprovidas de mentes. Mas para rejeitar o direito de mente às máquinas devemos adotar uma noção essencialista como a de Descartes, e voltaríamos ao início. Uma máquina como o computador Deep Blue que ganhou o enxadrista Kasparov, tem uma mente para ganhar de um humano que nenhum outro humano tem e, nenhuma outra máquina até agora. Mas o computador somente faz o que é dito para fazer, foi construído por uma pessoa. Seguindo este argumento; devemos atribuir a vitória sobre o maior enxadrista humano a um técnico em engenharia computacional? Mas, e quanto

as calculadoras domésticas? Lembre-se, se queremos o resultado de 2+2,

tanto faz se é com papel ou lápis, uma calculadora ou pensando. Desde que o resultado seja 4. Se você quer se exercitar talvez seja melhor fazer o cálculo de cabeça, mas se quiser rapidez, tente a calculadora. Algumas vezes as calculadoras falham, um número fica meio apagado, ou ela faz operações erradas, e ai dizemos que ela está com defeito, mas não, totalmente; ela ainda pode fazer uma radiciação como ninguém. Com nossas mentes o mesmo acontece, esquecemos algumas coisas, mas não todas, e mesmo àqueles que atribuímos como desmemoriados possuem uma memória de alguma coisa, eles apenas se tornam incomunicáveis; não conseguimos nos comunicar com eles, fazem coisas sem sentido. Lembre-se da sua calculadora que começou a misturar os números, não faz mais operações, no entanto, o display continua aceso, apenas um curto ou o término da bateria cessa as funções do display. Dizemos então que a máquina ficou maluca quando faz coisas sem sentido, e

pifou quando não dá nenhum sinal de

Mas as máquinas não tem emoções! Assim como você não tem as emoções de um lagarto ou de uma mosca. Atribuímos semelhança com criaturas mais próximas de nós em características. Por exemplo, você está observando o pôr- do-sol com a pessoa amada; a temperatura do ar, os pássaros, a luz, a pessoa ao seu lado; você pode dizer, naquele momento, que é feliz e nunca sentiu aquilo como, naquele momento. Passa um tempo. Você retornou com a mesma

pessoa, ao mesmo local, na mesma hora, na mesma data. Os pássaros estão lá, as pessoas. Mas alguma coisa aconteceu. Aquela emoção não é mais a mesma. Talvez vocês tenham discutido dias atrás; você esteja preocupado com algo, parece que vai chover amanhã; a pessoas ao seu lado estão visivelmente eufóricas. Mas, aquela emoção não é a mesma. Agora, imagine que o tempo passou. Você brigou com a pessoa, encontrou outra e a levou a um parque para passear com o bebê dela, de pedalinho, no lago. O pedalinho. Aquela tarde. Os patos. O campo do parque. Você nunca foi tão feliz quanto naquele momento. A emoção é um estado presente no mundo, ele não é apartado da razão. Um erro grosseiro e histórico. Sentimos onde estamos e

Vida.

como sentimos nunca é idêntico porque nunca estamos sentido da mesma forma 5 . O uso muitas vezes da expressão software para explicar a mente tem o mesmo efeito de usar a expressão mente para explicar um software. Mas as palavras são meios para a comunicação. O que software e mente tem em comum é o que fazem e não o que são em essência. O que é uma essência? Qual a essência do chão? Qual a essência do ar? São todas as coisas, que eles não são. Há um truque da mente aqui. Procuramos regularidades e elas acontecem em um tal tempo e espaço; mas se você abrir um ventilador não encontrará a alma do ventilador. Mas nós atribuímos um núcleo a nós mesmos e esse núcleo apenas existe pois não é todas as outras coisas ao infinito. Apenas por não termos tempo de enumerar todas as outras coisas que não são aquilo que categorizamos é que permite que nos comuniquemos. A parede não tem essência, senão a de não ser uma placa de trânsito, o chão, a hipotenusa, a minha lembrança de um dia estar comendo um pedaço de chocolate no aniversário do meu avô, o frio do vento ou essa frase que você leu. As discussões essencialistas cabem mais na literatura que é o que muitos pseudocientistas aproveitam para encher as prateleiras de antropologia e auto-ajuda. A inteligência que a IA(inteligência artificial) traz é logo lembrada como uma característica exclusiva humana. Livros como The bell curve 6 (A curva do sino) e Inteligência Emocional, fizeram muito sucesso nos anos 80. Inteligência Emocional, talvez, seja o livro de ciências sociais que mais tenha vendido nos anos 90. The bell curve trazia um fator geral para a inteligência e de forma implícita de que os negros seriam menos inteligentes e, a IE trazia uma mensagem cheia de esperança, para que o individuo desse atenção aos seus sentimentos e emoções. Hoje, há o popular Inteligências múltiplas, que tenta postular a superioridade da mente humana. Mas, vejamos se é isso mesmo o que a IM promulga:

5 Para uma discussão filosófica ver Jean-Paul Sartre, Esboço para uma teoria das emoções, L&PM Pocket, 2008; e para uma elucidação cientifica ver António Damásio, O erro de Descartes, 11 ed.,Europa-América, 1995. 6 Sem tradução em português.

[

]tenho

em meus arquivos o esboço de um livro de 1976 chamado

Kinds of Minds, no qual eu planejava descrever os vários tipos de

mentes que a natureza nos dá-como eles se desenvolvem nas crianças e como se decompõem sob várias formas de lesões

cerebrais[

]

(GARDNER, 2001, p.45)

Mas, somente em 1983, após 4 anos de pesquisa o autor passou:

]à [

sabia intuitivamente que queria descrever as faculdades humanas, mas precisava de um método para determiná-las bem como de uma

maneira para escrever sobre elas.

]refleti [

descobertas. Pensei em usar o venerável termo acadêmico faculdades humanas, termos usados pelos psicólogos como habilidades, capacidades; ou termos leigos como dons ou talentos.

No entanto, percebi que cada uma dessas palavras abrigava uma cilada. Finalmente optei pela audácia de me apropriar de uma palavra da psicologia e ampliar-lhe o significado- esta palavra , obviamente era inteligência. Comecei definindo uma inteligência como “a habilidade para resolver problemas ou criar produtos valorizados em um ou mais cenários culturais”.

]duas [

Agora conceituo inteligência como um potencial biopsicológico para processar informações que pode ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura. [ ] Venho refletindo sobre o que aconteceria se eu tivesse escrito um livro intitulado Sete dons humanos ou As sete faculdades da mente humana. Acho que esse livro não chamaria muita atenção. A idéia de que os rótulos podem ter grande influência no mundo acadêmico faz refletir, mas creio que minha decisão de escrever sobre as “inteligências humanas” foi decisiva. Em vez de produzir uma teoria(e um livro) que simplesmente catalogasse coisas em que as pessoas podiam se destacar, eu estava propondo uma expansão do termo inteligência de modo a abranger muitas capacidades que eram consideradas fora de seu escopo.(GARDNER, 2001, 45-47)

postulação da teoria explorada no esboço de kinds of Minds. Eu

sobre a melhor maneira de escrever sobre minhas

décadas depois, apresento uma definição mais refinada.

Repare que as duas definições, a antiga e a recente, o que ele está tratando são determinados fenômenos não particulares, que por conveniência ele chama de inteligência. Quem estaria usando a Inteligência múltipla de modo diferente do que ela é? Novamente com a voz o autor que aponta ele mesmo o mito:

Mito 7

Só há uma abordagem pedagógica “aprovada” com base na teoria das IM Verdade 7

receita

pedagógica.(GARDNER, 2001, p.112)

Minha

teoria

não

é

de

modo

algum

uma

A IM foi adotada com alvoroço por disciplinas como pedagogia, onde pedagogos imaginam ver aquilo que desejam: uma receita pedagógica. O fantasma na máquina pode vir acompanhado, ou não, de outro argumento, o do bom selvagem:

Muitos autores precipitaram-se a concluir que o homem é naturalmente cruel e requer um sistema de polícia regular para regenerar-se, porém nada pode ser mais manso do que ele em seu estado primitivo, quando posto pela natureza a igual distância da estupidez dos brutos e do pernicioso bom senso do homem civilizado. ] Quanto mais refletirmos sobre esse estado, mais convencidos ficaremos de que era o menos sujeito de todos a revoluções, o melhor para o homem, e que nada poderia ter arrancado disso o homem a não ser algum fatal acidente, o qual, pelo bem público, nunca deveria ter acontecido. O exemplo dos selvagens, que em sua maioria foram encontrados nessa condição, parece confirmar que a humanidade foi formada para manter-se sempre nela, que essa condição é a verdadeira juventude do mundo, e que todos os progressos ulteriores foram muitos passos aparentemente em direção à perfeição dos indivíduos, mas de fato no caminho da decrepitude da espécie.(ROUSSEAU,1755, 1994, p.61-62 apud Pinker, 2004, p.25)

[

A alternativa seria a natureza rubra e de garras de Hobbes:

Está assim evidente que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum que os mantenha em temor reverencial. Encontram-se naquela condição denominada guerra; e essa guerra é de cada homem contra cada homem. [ ] Em tal condição não há lugar para a laboriosidade, pois o fruto dela é incerto, e consequentemente não há cultivo da terra, navegação, uso de artigos que podem ser importados por mar, não há edificações cômodas, instrumentos para mover e remover coisas que requeiram muita força, não há conhecimento da face da Terra, contagem do tempo, artes, letras, sociedade; e, o que é pior de tudo, (há) contínuo medo e perigo de morte violenta; e a vida do homem (é) solitária, pobre, grosseira, animalesca e breve.(HOBBES, 1651,1957, p.185- 186, apud Pinker, 2004, p.26)

O medo por trás de o bom selvagem não ser verdade é de que se ele não for bom em essência, será mau em essência. O leitor mesmo pode perceber que o erro está em essência que se agarra no argumento como um vírus de computador. Vamos então passar um antivírus e ver o que ele pega. As discussões sobre ética apontam as discussões sobre o bem e o mal. Mas, os objetos dotados de características boas ou más irá variar de cultura para cultura; uma cultura pode ter a morte de uma criança como algo mal e outra como algo benéfico como um ritual de sacrifício, esse dado é exaustivamente conhecido dos antropólogos. O problema não está na questão do que é bom ou ruim, está até onde entendemos cultura. Se, cultura é algo que distingue a cultura ianomâmi da cultura ocidental, está perfeito, mas os nativos não fazem parte da cultura dos antropólogos relativistas e quando descobrem algo que não é de tal forma adotam em alguma medida o novo conhecimento daquela outra cultura. Cultura é um conceito aplicável a todos os homo sapiens? Se a resposta é não, a morte de uma criança enterrada viva para aplacar a ira dos deuses deve ser celebrado como mais uma jóia na coroa do relativismo. Se, cultura é um conceito aplicável a todos os homo sapiens, os intelectuais pós- modernos e relativistas teriam problemas para encher as revistas eletrônicas, com seus artigos reluzentes.

Mas, quando o fantasma bondoso incorpora na máquina? Na educação, na sociedade, na família. Pois o humano é uma tabula rasa, é o que afirmam. Steven Pinker aponta a idéia de tabula rasa como o argumento onde o fantasma bondoso encarna, e cita Locke para ilustrar:

Suponhamos, pois, que a mente seja, como dizemos, um papel em branco, totalmente desprovido de caracteres, sem idéias quaisquer que sejam. Como ela vem a ser preenchida?De onde provém a vasta provisão que a diligente e ilimitada imaginação do homem nela pintou com uma variedade quase infinita? De onde lhe vêm todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, em uma palavra: da experiência.(LOCKE,1690,1947, p.26, apud Pinker, 2004,

p.23)

Pinker lembra que a natureza humana, ou melhor, a negação da natureza humana, sustentada pela tabula rasa, o bom selvagem e o fantasma na máquina é o que estão por trás da negação da natureza humana e o que fomentou horrores como os sintetizados pela frase de Mao: “Uma folha de papel

em branco não tem borrões, por isso as mais novas e belas palavras podem ser escritas nela. (MAO apud PINKER, 2004). Para ajudar a compor está página Mao

exterminou 65 milhões de pessoa. Mas, queremos evidências. Se, somos tabulas rasas, a ser preenchidas pelos pais e pela sociedade, seria tão difícil moldar os indivíduos para que sejam bons e justos? Para que evitem a violência e a discriminação, o ciúme e o ódio? Se, somos bons selvagens, por que a guerra, o sexismo e a escravidão existem mesmo em povos que não tiveram contato com o mundo civilizado i ? E, se temos uma alma imaterial com poder de decisão, nem sempre fazemos as melhores escolhas e prejudicamos a nós mesmos e aos outros? A resposta para todas estas perguntas é porque estão todas completamente erradas. São fruto da desinformação, do trabalho intelectual preguiçoso, do raciocínio comodista, do cinismo, da malícia e da arrogância de intelectuais. O leigo é menos responsável hoje em dia por este tipo de perpetuação de equívocos, falácias e malícias do que o intelectual contemporâneo.

Todo o constructo intelectual sobre a natureza está assentado em uma visão platônico-aristotélico 7 onde a essência das coisas vem do passado original e conforme o tempo passa, mais distante estamos; mudança é degeneração, pois,quanto mais distante do original, então a ação deve ser para uma causa tal qual, um propósito. Mas o caso não é criticar uma idéia por ela estar, a muito tempo ou não, sendo perpetuada, e sim, se as idéias correspondem aos fatos. Não fosse a falta de evidências daqueles argumentos, o que mais fazem é contribuir levantando muralhas contra a avalanche de evidências. O quê, melhor um curso superior de graduação, em um cenário educacional onde as Universidades tornam-se cabides para centenas de pessoas em busca de um certificado que contribua em fortalecer as estatísticas quantitativas de pessoas com nível superior pode fazer, em tal cenário acadêmico de desinformação, é seguir o pastor como ovelhas e não discutir teorias ultrapassadas. Nenhum daqueles argumentos estariam presentes hoje em dia se a compreensão da Teoria da Evolução fosse maior. A perpetuação dos argumentos equivocados se dá na mesma medida em que se agarram a argumentos como instrumentos de fé. Alguns, entre os fatos e as idéias ficam com as idéias. Pinker sintetiza o cenário atual acadêmico e teórico sobre a mente e o comportamento:

As três leis da genética comportamental podem ser as descobertas mais importantes na história da psicologia. Mas muitos psicólogos não se dedicaram seriamente a elas, e a maioria dos intelectuais não as compreende, apesar de terem sido explicadas em matérias de capa de revistas informativas. Isso não acontece porque as leis são confusas; cada uma pode ser expressa em uma frase, e sem parafernália matemática. Acontece porque as leis aniquilam a tabula rasa, e a tabula rasa está tão arraigada que muitos intelectuais não conseguem entender uma alternativa, muito menos argumentar sobre ela ser certa ou errada. Eis as três leis:

7 Para uma discussão mais extensa ver Karl Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, Vol I e II, Itatiaia, 1974.

-Primeira lei: Todas as características de comportamento humano são hereditárias. -Segunda Lei: O efeito de ser criado na mesma família é menor que o efeito dos genes. -terceira lei: Uma porção substancial da variação em características complexas do comportamento humano não é explicada por efeitos de genes ou famílias.( PINKER, 2004, p.504)

A terceira lei parece ajudar a entender as outras duas. Imagine dois irmãos, gêmeos idênticos, criados em famílias diferentes. Seus comportamentos serão mais semelhantes do que gêmeos fraternos criados em famílias diferentes, e os gêmeos fraternos terão comportamento mais semelhante do que irmãos adotivos, e, irmãos adotivos terão comportamentos mais semelhantes do irmãos de espécies culturais diferentes. As três leis tratam do que somos em comparação com nossos semelhantes. As leis não dizem que educação e cultura não influenciam no comportamento, mas, que são menores do que os genes. Observe que a terceira lei aponta uma porção substancial da variação que não é explicada por efeitos ou famílias, a terceira lei não aponta de onde vem essa porção. Essa porção é aleatoriedade. Imagine novamente, os irmãos idênticos, sendo fertilizados, e seu respectivo desenvolvimento uterino, você pode visualizar que o desenvolvimento embrionário por mais que seja compartilhado em um ambiente próximo como o útero, uma célula nervosa pode virar a direita ao invés da esquerda; após nascer, um registrou uma memória no colo da mãe que outro não teve por estar dormindo e gerando imagens oníricas; um saiu na chuva e tropeçou, comeu algo estragado e tomou um remédio, sofreu uma desilusão amorosa, acreditou no papai Noel até mais tarde do que o outro por que as pessoas não contaram para ele; um leu William Faulkner, outro Gabriel Garcia Marques; um ficou viúvo, outro teve dez filhos e morreu depois da amante. Fim para os dois. Suas vidas em retrospecto podem ter sido, comparativamente, como de outras pessoas não gêmeas idênticas, como semelhantes, mas uma parte de seu comportamento ficou variável; de fora dos genes e das famílias. Diante de fatores aleatórios o que fazemos? Decidimos. E a qualidade do produto da decisão está em relação a quantidade e qualidade do que precede a decisão. A alternativa diante da aleatoriedade seria: menor quantidade e

menor qualidade. Não temos como reter individualmente uma quantidade ou qualidade segura para a decisão certa, por que cada decisão somente gera uma outra situação de incerteza ao infinito. O que podemos fazer é aceitar o resultado das escolhas. Como, nos comportamos diante do fenômeno da escolha. Como lembra Sartre, estamos condenados a liberdade Os sistemas de escolha são classificados quanto a sua dinâmica 8 , mas principalmente, quanto a velocidade. Temos aqui então o modelo de algo que para fins de comunicação chamaremos mente, que é aquilo que o cérebro faz; e o comportamento, que é o conjunto de fenômenos, motivados pela biologia mais do que pela cultura, mas, com uma porção de indeterminação(entendido aqui não o processo) mas, a verificabilidade da conclusão do comportamento. Dotados desse sistema vamos estudá-lo através de como esse sistema toma decisões. Não vamos tentar estudar a genética para a conclusão, mas o que o sistema de decisões faz diante de situações de incerteza. Um sistema heurístico de decisão pode ser um modelo analítico ou intuitivo. Usamos os dois constantemente, o analítico demanda tempo enquanto o intuitivo reage de forma instintiva. Qual sistema é preponderante em nossa sociedade atual? O analítico. E a explicação para isso, talvez esteja na maior difusão da informação do que na industrialização, se bem que a industrialização favorece a propagação da informação. Mas o que quero destacar é que em grandes concentrações, a informação circula e se estabiliza por maior tempo, veja no caso da antiga Alexandria, ou o advento da prensa, e a escrita que, talvez, esteja em um divisor de águas para a espécie humana. Não está sendo destacado aqui o produto deste fenômeno mais a forma como acontece. A internet é um exemplo, há muito lixo, mas muita informação de qualidade para decisões analíticas. Penso que um aumento do sistema analítico apenas iria diminuir o ritmo de difusão da informação, mas com uma predominância do sistema intuitivo. Mas o caso não é que um seja mais do que o outro e, sim, o que fazemos, com um e outro. Lembre que o produto de nossas decisões está relacionado a quantidade e qualidade da informação precedente. Assim diante

8 Sistemas de decisão aplicados a mente, conhecidos como sistemas heurísticos de decisão.

de um vulto vamos nos assustar, mas, rapidamente nossa mente corrige a

informação nos dizendo que era apenas uma roupa no varal, no entanto, se estivermos preocupados com uma onda de assaltos na região, tendemos a ligar para a polícia, se ouvirmos algo no quintal. O sistema intuitivo da conta do recado sem que nos preocupemos com ele. Mas o sistema analítico não. Diante de um tigre, não vamos ficar conjecturando a melhor forma de lidar com

a situação: ou fugimos ou lutamos 9 . Mas a vida a muito deixou de ser uma

constante intuitiva onde não nos preocupávamos em saber. Alguma coisa aconteceu para que pudéssemos analisar o analisar. O sistema analítico envia

uma mensagem do tipo: se você não estiver em uma situação de fugir ou lutar conte comigo. Mas quando temos que fugir ou lutar? Quando, sabemos que o

objeto de nossa situação de incerteza demanda lutar fugir ou analisar? Quando nos tornamos refém do sistema intuitivo como processo? Ninguém sabe. Apenas sabemos que é melhor saber do que não saber. Quais as instituições atuais que combatem o saber em prol da intuição como processo? A arte? A arte tem uma preocupação com que o processo responda

a outras intuições e não esconde de ninguém. O quero destacar são quais

instituições reivindicam a intuição como processo seguro para as conclusões. Bem, dentro da academia temos o relativismo, e fora, a religião. Em uma, a verdade é relativa, para o relativismo; e para a religião, a verdade é alcançada pela fé. O que ambas tem em comum é a não aceitação da crítica. Existem instituições que ligam até cultura e religião. O foco principal, são mais, aqueles que se locupletam das pessoas que pensam estar comprando um sistema analítico e levam um sistema intuitivo; sacolas e mais sacolas de roupa do rei 10 . Diante de um alfaiate, em suas diversas panóplias, um fundamentalistas

merece mais respeito, pois ele faz o que faz, acreditando do fundo do seu coração de que aquilo é o bem, é verdadeiro e belo.

9 O sistema cerebral pode ser esquematizado com o complexo reptiliano, o sistema límbico e o neocórtex. O sistema límbico estaria na interação instintiva com o reptiliano para situações que não demandam maiores considerações.

10 Ver Os alfaiates do rei em <http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/1869867>

i

PORCENTAGEM DE MORTES DE HOMENS CAUSADAS POR GUERRA Jivaro Ianomâmi(Shamatari) Mae Enga Dugum Dani Murngin
PORCENTAGEM DE MORTES DE HOMENS CAUSADAS POR GUERRA
Jivaro
Ianomâmi(Shamatari)
Mae Enga
Dugum Dani
Murngin
Ianomâmi(Namowei)
Huli
Gebusi
EUA e Europa, século XX
0
20
40
60
MORTES DE HOMENS(%)

(Kelley, 1996, gráfico adaptado por Hagen da fig. 6.2 da p. 90)

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Os pensadores. Tradução de Leonel Vallandro et al.São Paulo: Abril, 1973 DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano.

Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado. Portugal: Europa-América,

1994

DESCARTES, René. Os pensadores. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril, 1973 FERNADES, Francisco et al. Dicionário Brasileiro Globo. São Paulo:

Globo,1999

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