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| AVALIACAO Da Exceléncia & Regulacéo das Aprendizegens Entre Duas Légicas Philippe Perrenoud Professeur a U'Université de Genéve Tusce PATRICIA CHITIONI RAMOS: nsitre merits eee erica desta edi: a eee ne ste Phere PVR ton Race or Raga ess ate SN ee sa me Pscopedagoga # Artes ta, 1. Ebseas = Avlagb,L Tho sha cou x70 ee | ee Eee EEE AD CCataiogacdo ns publacso: Mérica Baejo Canto — Cb 10/3 | Ee ‘sen as72075449 PORTO ALEGRE / 1999 144 PHILIPPE PERRENOUD dor e uma certa consciéneia pesada com a idéia de interromper uma construcdo frégil, que estd sendo feta. Basaria dirigir o mesmo olhar para as aprendizagens da crianca ‘are manejar a comunicagio em aula com mals prudéncis. Deve-se contas é claro, com a desconfinga, o medo de ser enganado por sluncs bastante espertos para fever 0 a inspi- Notemos ainda que, em ‘odos slo constantemente perurbados,sabre- tudo durante as fases de trabalho |, por falas que no thes so drigidas, mas des CapituloSs NAO MEXA NA MINHA AVALIACAO! i UMA ABORDAGEM SISTEMICA DA MUDANGA* 146 PHILIPPE PERRENOUD Percebe-se, desde logo, por que ir em diregdo & avaliagdo formative € mudar @ ‘escolares sio demasiade- conta, No entanto, para centro de um octégono, identifcendo, portanto, oito dimensées inter-relacionadas (ver figura 2). Por que colocaraavaliago no centro? Sirplesmente porque ela representa, aqui, 0 ponto de partida, Quem quisesse inietlmente mudar os programas ou of ensino os colocaria no centr, mas encontara,grosso modo, as mesmas rela cas. Nao nos deixemos, entdo, fixer na representacéo gréfice, cla oferece auto para a meméria, A AVALIACAO NO CENTRO DE UM OCTOGONO, ‘Reromernos esses oito pélos um a um, mostrando a cada vez as interdependéncias ‘com as prétices de avaliaglo. Partiremos das relagées entre as familias ¢ & escola para contomar 0 octégono no sentido dos ponteiros de um religo. AVALIACAO, 147 RELACOES ENTRE AS FAMILIAS E A ESCOLA ‘Quando se pede a ciancas de cinco anos que “brinquem deescole, eles colocam as ‘mesas em files e apresentam a figura de um professor severo, que repreende as criances € as ameaga com més notas. Quando um aluno eonte seu di, nfo diz nada de muito preciso sobre os conteidos, mas os pais sabem, quese sempre, se seu filho fz prova ou recebeu os resultados de uma prova anterior, Na imagem que os pais tém da escola, as ligbes e as rovas so valores seguros: cada um pode compreender como funciona uma determinada aula, porque passou em urna de dez a quinze anos de sua propria vida, faet um balango das perdas e dos ganhos apés um exerfcio contd. O sistema de nota G20 seus sxcedneos qualitativossf0, portanto,procedimentositeligives para a maiorta dos pais; fazem parte de um clich8, de uma representagdo comum da escola e do trabalho sob controle, Os programas e 0s métedos da escola de hoje confundem os pais que néo entendem nada de mtemética de conjuntos ou dos conteidos renovados do ensino da lingua materna, das linguas estrangeiras, da histérie, da geografia ou das ciéncias, Em compensario, quando se fala do sistema de avai quarorze anos. -Excetoalgumascirculares¢ episSdicasreunides de pais, « avatia constante entre a excola ¢ a fami. Os pais devem regularmente assinar 05 trabalhos escrtos sobretudo os boletins, tomando conhecimento desse moo do nivel e da pro- sressio de seu flho, de suas dificuldades, A aveliagdo os trangiliza sobre. rit de seu filho ot 0 habitua, pelo contrério, 4 idéia de um fracaso pos to provavel. Preocupadas com a “careira” de seus flhos, as farflias de c im o bor uso das informagdes dadas pele escola sobre seu trabalho, suas aquisiges, Eas sabem contstarcerastabelas ou certas coregées, fazer professor para melhor compreender as razGes de eventuaisdifculdedes e intervir junto & cranga e sobretudo utilizar as notas ou as apreciagSes qualitativas para modular a presséo que exercem sobre os deverese, mals gralmente, 0 sono, as saidas, ‘tempo livre, as attudes de seu filo, Pode-se discutir a pertinéncia de um sistema de comunicagto tdo pobre, que limita 0s pais a agirem em fungéo de algumas indicagSes numérias que quase nfo do uma Ho precisa do que o aluno verdaderamente domina, Assim, esse sistema apre- senta varies virudes maiores, mesmo que repousem em parte sabre fcgbes: — parece eqiitativo, uma ver que todos sao submetidos as mesmas proves, eval- adas segundo as mesmas tabelas e no mesmo ritmo, em virtude das mesmas exigéncias; = parece racional e preciso, uma vee que os desempenhos so numerados até 0 €écimo do ponto ou mais; 148 PHILIPPE PERRENOUD —_ é bestante simples para inforrar os pais sem que estes conhegam em detalne Programas e exigéneias, um pouco como nos inquietamos com a febre de uma Ccrianga sem saber exatamente o que significa, em termos Fisiolbgicos; — convence todos os pais que aderem, espontaneamente ou néo, a uma competi- ‘fo onipresente no mundo econdmico e em uma parte do mundo do trabalho; parece-Ihes just, saudvel¢ educativo que o bom trabalho sejerecompensado ¢0 mau trabalho sancionado por notas ou uma classficagdo medfocres, Madar o sistema de avaliagdo leva necessariamente a privar uma boa parte dos pals «de seus pontos de referéncia habituais, criando 40 mesmo tempo incereeras e angustias. E uum obstéculo importante & inovagdo pedagégica: se as criancas brincam & porque nfo ‘wabalham e se preparam mal para préxima prova; se trabalham em grupo, ndo se pode- +4 avaliarindividualmente seus méritos; se engajam-se em pesquisas, na preparagio de um esperdculo, na escrita de um romance ou na montagem de uma 0 pais ‘quase ndo vem como essasatividades coletivas e pouco codificadas pederiam derivar em ‘uma noca individual no boletim. Tudo o que se afaste de uma preparacio pare a avaliacdo escolar cléssca (prova oral ou escrita) parece um poueo exbtico, anedético, nfo série, no final das cones, estranko a0 trabalho escolar tal como 2 avaliagdo wad fixou no imagindrio pedagégico dos adultos: exercicios, problemas, ditados, redacbes, ind eras tarefas que se prestam a uma avaliago cssea Esse obsticuo nfo ¢ intranspont ‘2 mudanga das préticas de avaliagdo, em um sentido mais fomativo, qualtativo e iterativo (Weiss, 19925, 1993) passa necestari- ‘mente por uma expicagéo paciente, por uma mudanga das representagSes, por uma reconstrugio do conratotcito entre a familia e a escola, Se existem relages de confan- 2, explicagbes podem ser dadas, os pais compreendem que uma avaliaclo sem notas, ‘ais formativa, ¢ em definitiv do interesse de seus flhos. Seo didlogo entre a escola ea famfia rompido (Montandon e Perrenoud, 1994), hd rates para temer que uma mu- sdanga do sistema de avaliagéo focalze os temores ¢ as oposigSes dos pais. A mudanga pode ser bloqueada por essa tnica razdo. ORGANIZACAO DAS TURMAS E POSSIBILIDADES DE INDIVIDUALIZACAO ‘Uma avaliagio somente é formativa se desemboca em uma forma ou outra de regu lacfo da acéo pedagdgica ou das aprendizagens, No caso mais elementar, ter-se-4 ‘menos, uma modificagio do ritmo, do nivel global ou do método de ensino para o.conjun- to de uma turma. O professor que constata que uma nogio nfo foi entendida, que suas intrugdesniosio compreendidas ou que os mézodos de trabalho e as attudes que exige esto ausentey, retomardo problema em sua base, renunciard acetos objeives de desen- volvimento para retrabalhar 0s fondaments, modificard seu planejamento didatico, et. AVALIAGAO, 149 ane 19 Uma avaliagéo formative, no sentido mais emplo do termo, néo funciona sem regu: lagéo individualizada das eprencizagens. A mudanca das préticas de avaliagdo ¢ entio acompanhada por uma transformacéo do ensino, da gesto da aula, do euidado com os aluns em dificuldade, Entre momentos de apoio — interno ou externo — e verdadeiras pedagogies diferenciadas, hé todo o tipo de organizacBes i ambiciosas. Nio é necsséro, para no sentido da av « baixo a organizacio do trabalho, Em contrapart 20 menos parcialmente, com uma pedagogia frontal, por que ‘go das préicas de avaliagdo em um sentido mais formativo? Por vetes, efetivos sobcecarregados impedem qualquer mudanga, Os verdadeiros bstéculos provém, antes, da rigides no hordro escolar, no programa, nas regres, os valores e nas representagbes dos agentes. Mais que o nimero de aprendizes, ‘mas da organizagdo que obrigam a ofrecer constantemente a mesma cosa a quando for indi, Desse modo, enquanto um professor for obrigado a adm srande némero de proves a todos of alunos, de forma sincrénica e padronizada, mais tempo passard honrando ess parte do contratoe lhe restaré ainda menos para praticar a avaliago formatva, Se dele se espera que conttolefreqlentemente o conjunto do grupo i este igualmente disponivel a todos os alunos, quaisquer que sejem suas dficuldades, isso serd necessariamente em detrimento da diferenciacéo (Meiriu, 1990; Perrenoud, 1996», 1997e). Uma avaliagio formative coloce & dsposigdo do professor informacbes mais prec 5, mais qualtaivas, sobre os processos de aprendlzagem, as atitudes e as aquisigSes dos alunos. Caso ele nada poss fazer, porque gastar energie crarinutiimente rustras6es? Import, portanto, que toda mudanga da avaliagéo, em um sentido mais formativo, au- mente 0s graus de do professor e, portato, livre-o da parte menos prioitria de suas obrigagées Conftontase ssrucuras, NEo apenas com o sistema de selegdo e de orientagdo, com arede de possbildades e de opgBes, mas com a organtzacio das tunis: ‘0s espagos, os hordrios, os modos de agrupamento dos renclagdo do ensino, incriminamse geralmente os ef {mporténcia, mas pensar apenas em termos de mimeres ‘outros parametros. ‘Assim, no ensino secundirio, acumulamse ourasdeficidncias mafores: fragmenta sao extrema do tempo escolar, tanto para os professores quanto do apoio a estruturas especial i integrado no conterto de um hor utado; divisto do trabalho entre expecialistas plnas,cujs funcionamentose nivel do aluno ninguém percebeglobal- rabalho em equipe pedagégica devido a atrbuicdo des horas e 20 150 PHILIPPE PERRENOUD speito, de numerosos trunfos, que tornam 20 menos posivel uma diferenc ja cdo ensino, Para irem diregdo a uma individu alizagio dos prcurss de formagao (Perrenous, 19932, 1996t), deve-e contudo mudar a corganizaglo das turmas, mesto no primdrio, e romper a estrturagdo do curso em graus (Perrenoud, 19974 ¢ 1997). DIDATICA E METODOS DE ENSINO quais caminhos; preci tem via de aquisig, adguirido esse esquema geral,resta campos de conhecimento. E al, damo-nos conta de que a identificecio dos erros e dos funcionamentes do aluno ¢ @ natureza das adaptagSes dependem da estrutura e do con- tetido dos conhecimentos e das competénci adquitides. Desse modo, tratando-se da aquisigdo da lingua materna, por exemy 1a ou redagfo de textos, torma-se cada (0s profssores se percebem como seus préprios metodélogos ou trabalham com formado- res centrados em uma disciplina e que se preocupam muito pouco com a avaliagdo. AVALIACAQ, 7 151 Mencionemos ainda um freio essencial: os meios de ensino néo sio, em sua maioria, concebidos por uma pedagogia diferenciada resultante de uma avaliagao formativa (Bélai, 1998). Para ir nesse sentido, devese entdo aceltar um grande investimento na criagdo ou na adaptagéo de instrumentes didéticos. CONTRATO DIDATICO, RELACAO PEDAGOGICA E OFICIO DE ALUNO. I em direggo a uma aveliagdo mis formativa ¢ transformar consideravelmente as jogo dentro da sala de aula, Em uma avaliac3o tradicional, o interesse do aluno if, mascara suas flhas e acentuar seus pontos forts, O ofcio de aluno consiste da. Em unr sistema escolar comum, o ano tem, sinceramente, excelentes rardes para ‘querer, antes de tudo, receber notes scents, Para isso, deve enganar,fingi ter compre- ‘endido e dominar por todos os meis, inclusive a preparagio de iltima hora e « trapaga, a sedugdo € 2 mentira por pena. Toda avaliagd formativa baseiase na aposta bastante otimista de que o aluno quer >, sto &, que esté pronto para revelar suas divides, suas compreensio da tarefe. Um médico pode esperar que seu pacierte no Ihe complique a terefae ihe fomega todas as iformagées necessérias para fazer um diagnéstico correto, em detrimento do pudor, da vergonha, da autostima, do Em contrapartda, o paciente tem dirito ¢ ume relasio privilegiade, protegi- lo médico, que ele pode romper a qualquer tempo e que controa, visto que é ia escola, uma avaliacto formativa demanda uma cooperagao igualmente gran- certs informagées consignadas em um bolti, um registro, rlatérios que leréo outros, professores, os psicélogos, o diretor da escola ot o inspetor. & dar informacbes cruciais a0 professor, des quas este se servré para fazer evoluir uma relagio na qual o aluno néo pode colocar fim unileteralmente. Quanto mais perto do ensino secundéro, mas 2 avai ado formative acha-se em ruptura com as estratégas habitual dos alunos e exige um tipo de revolugio cultural, baseada em uma eonfangareiproeae uma cultura comum que tomam a transparéncia possive. que tenta fazer aevaliaclo formative tem o poder de decidir, pratca- sua energia para ilu. E trumento de controle do diresfo & avaliagdo form ‘enunciar &selepdo, o mecanismo permanente da rela- AVALIACAO 153 152 PHILIPPE PERRENOUO rrumerosos. Lembremos avaliagdo dos professores programa, Par confltual, feito em todo lugar razbes, Paradoxalmente, uma avaliaglo formativa controle sobre a) ACORDO, CONTROLE, POLITICA INSTITUCIONAL io se far avaliagdo formativa s ‘ido modificando bastante profundamente apenas se pode avancar nesse sen- sas daquilo que os estratégigs anteriores. Do mesmo modo, dirgi-se para um ensino mais cxigehdbitos de trabalho diferentes, mais tempo passado em equipe vvidualmente, o professor funcionando como pessoa-recurso. £ necessério, portanto, uma toleréncia considerdvel & diversdade liagio formativa nesse sentido, correr-seia muito o risco de comprometer em dk seu desenvolvimento, Talvez fsse mais razodvel estabelecer como principio que a aluém que inerém em caso de necessdade, como uma manumo ere opofesere mpido. Parece contudo que as Esses funcionamentos no podetiam ocore devem beneficiar-se de uma oerta continu durante um ciclo de estudos nto onde se toleraia por muito eo professores que apenas dessem notas muito baxas outros, muito alas, professres 154 PHILIPPE PERRENOUD aqueles que nio o assimiaram sufcientemente eles sero relegados para outras clases, ‘brigados & reprovacao ou ainda autorizados a dar continuidade a sua progressfo no cajadada’: é indispensdvel, para lutar contra ofracasto escolar, deter-se no essencial, no cere dos programas, renurciando a todos os tipos de nogdes e de saberes que néo so indispenséves, ao menos no pata todos os alunos. Os movimentos de moderrizagéo dos programas vo nesse sentido (Perete Perrenoud, 1990). No subestimemos @ amplitude da tarefa, rodua nas prticas didétcas, um acéscimo de com toleravel caso se baseie em um trabalho prévio de 1990, pp. 181-162) +H uma segunda rato para que a avaliaglo formativa induza a uma transformagio