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LITERATURA PARA PAS/UnB

2004 - 3ª etapa

Análise das quatro obras indicadas para o Subprograma 2004

Maria de Fátima Gonçalves Lima Éris Antônio Oliveira Sebastião Augusto Rabelo

LITERATURA PARA PAS/UnB

2004 - 3ª etapa

Análise das quatro obras indicadas para o Subprograma 2004

Goiânia-GO Kelps / Leart - 2006

Copyright©2006 by Maria de Fátima Gonçalves Lima et al.

Diagramação e

Revisão: Sandra Rosa Fotos: Nelson Santos Elaboração de exercícios e gabarito: Regina Pierre

Capa: Weslley Rodrigues

CIP. Brasil. Catalogação-na-Fonte BIBLIOTECA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO

L6991

Literatura para PAS/UnB 2004 - 3ª etapa: Análise das quatro obras indicadas para o subprograma 2004 - 3ª etapa / Maria de Fátima

 

Gonçalves Lima

[et al.]. - Goiânia: Kelps/Leart, 2006.

100 p.

ISBN: 85-7692-123-5

1. Obras literárias - análise. 2. Crítica literária. I. Lima, Maria de Fátima Gonçalves. II. Título

2006 - 74

CDU: 821.134.3(81).09

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IMPRESSO NO BRASIL Printed in Brazil

2006

APRESENTAÇÃO

Literatura é arte e “grande literatura é simplesmente linguagem

carregada de significado até o máximo grau possível”, instrui Ezra Pound. (POUND E. A.B.C. da literatura, 2002 p.32). A arte da palavra transfigura um mundo, traduz uma imagem, portanto, é sugestão. Nesse sentido, a obra literária nomeia a existência das coisas por meio de metáforas que pluralizam a significação do silêncio, porque dizem o indizível e possuem uma sintaxe invisível. Esta sintaxe manifesta uma plurissignificação e conduz o texto artístico para outras margens da linguagem, numa realização silenciosa da metáfora. É o silêncio do sentido.

A arte tem natureza simbólica. Tal natureza e sua peculiar

“estranheza” são denominadas muitas vezes de “transparência”. “Essa

transparência é o que nos é obscurecido se nosso interesse é distraído pelos significados dos objetos imitados; neste caso, a obra de arte assume um significado literal e evoca sentimentos, que obscurecem o conteúdo emocional da forma”. (Langer, Sunanne K. Sentimento e Forma. 1980. p. 57). Isto porque as formas no sentido mais amplo estão numa dimensão intelectual a fim de serem percebidas. O sentimento está expresso na arte, mas ela não é feita de arranjos de elementos sensoriais, uma vez que o seu sentimento ou emoção apresenta “o caráter qualitativo de conteúdo “imaginal”, é “um espelho e uma transparência” ( cf. Idem. 1980, 60) de um símbolo.

O leitor necessita contemplar a arte literária com os olhos de

quem ama e, com perspicácia, deve ler as entrelinhas das inúmeras sugestões. O objetivo desse trabalho é conduzir o LEITOR/ VESTIBULANDO no percurso imprescindível da leitura e compreensão das obras indicadas para o PAS/UNB. As análises,

elaboradas por críticos literários, orientam a leitura dos textos, indicam os aspectos estilísticos e temáticos, as informações técnicas sobre as obras, norteiam nas possíveis leituras e interpretações e apontam o conjunto imaginal e plurissignificativo de cada texto. Dessa forma, o trabalho dos ensaístas e críticos assinalam teorias e demonstram possíveis interpretações das obras literárias, pois, como já foi assegurado, a arte não se esgota em fórmulas e receitas de interpretações. Por esse motivo, a leitura da obra literária é um prazer intransferível. Sentir a arte da palavra é uma experiência que se eterniza na lembrança e no desejo do reencontro.

Maria de Fátima Gonçalves Lima

SUMÁRIO

A NARRATIVA REVOLUCIONÁRIA DE A PAIXÃO SEGUNDO GH

De Clarice Lispector por Éris Antônio Oliveira

09

A

BAGACEIRA: O ROMANCE DE SOLEDADE

De José Américo de Almeida por Éris Antônio Oliveira

27

QUINTANA DE BOLSO De Mário Quintana por Maria de Fátima Gonçalves Lima

43

O REI DA VELA De Oswald de Andrade por Sebastião Augusto Rabelo

69

A NARRATIVA REVOLUCIONÁRIA DE A PAIXÃO SEGUNDO GH

INTRODUÇÃO

DE CLARICE LISPECTOR

Prof. Dr. Éris Antônio Oliveira

Poucos escritores foram tão ousados no uso da linguagem, na estruturação do assunto e na manipulação dos fatores narracionais do texto como Clarice Lispector. Essa autora juntamente com Guimarães Rosa e Osman Lins são os que melhor compreenderam a revolução ocorrida no campo da narrativa, no século XX, no Brasil. Esses escritores sondaram os aspectos relacionados à aventura humana em sua essencial profundidade, buscaram sentido para a nossa experiência

existencial, para a conscientização da personagem sobre si mesma, para os mitos

e significados subliminares que permeiam, continuamente, a história da

civilização. A Paixão segundo GH é uma obra publicada em 1964 e que superou totalmente as formulações artísticas de vanguarda propostas por Oswald e Mário de Andrade, na primeira metade do século XX. Os elementos constitutivos de sua narrativa estão ali configurados de maneira inteiramente revolucionária. Faz-se com um número mínimo de personagens, a mais significativa é GH,

delineada por meio de uma densidade humana invulgar. A espacialidade também

é mínima, o enredo se desenvolve no interior de um apartamento. A

temporalidade é igualmente exígua, desenvolve-se em um número reduzido de horas, necessário apenas para que a protagonista experimente o impacto com a face estranha da vida, metaforizada pela presença de uma barata. As reflexões de GH chegam ao leitor por meio de um elaborado monólogo. A organização sintagmática da narrativa é dinâmica e renovada, como, por exemplo, a história macro-estrutural, que trata da absorção da barata por

ÉRIS ANTÔNIO OLIVEIRA

GH, isto é, a protagonista come a barata, querendo isto significar que ela absorveu, em seu interior, a face estranha e repugnante da vida. Esta é uma história denominada pelos críticos de epistêmica: que lida com operadores como conhecimento versus ignorância e convicção versus hesitação. No início da narrativa, a protagonista se apresenta como alguém que quer superar sua ignorância, e, ao longo da obra, ela amadurece e chega à convicção de que é preciso experimentar a vida em sua plenitude, assimilando tanto suas facetas belas, quanto as horrorosas. Esse é, portanto, um romance revolucionário, pela configuração dada a seus constituintes como personagens, estrutura da narrativa, espacialidade, temporalidade e linguagem renovadora e profunda, que lida com questões fundamentais da experiência, como a busca de sentido para a vida e o desvendamento do possível significado que dela aflora em tons belos ou macabros.

1. DA ALIENAÇÃO À CONSCIÊNCIA

GH é uma personagem desconcertante. Seu conflito instaura-se entre a beleza e a feiúra, entre a realização e a irrealização, em síntese, entre o ser e o não ser. O assunto do romance reflete, de certo modo, as dificuldade que o ser humano tem de assimilar os múltiplos e conflitantes aspectos que integram a existência, especialmente seu lado sórdido e horrendo, e de descobrir-se nesse turbilhão e de, aí, dar forma à intimidade de seu ser. Essa personagem é excessivamente modelada, suas obsessões, sonhos e angústias são longamente tratados, mas o leitor só tem contato com sua projeção interior, não se fala de sua exterioridade. O modelo realista foi, aqui, totalmente superado, não se fala da cor de seus cabelos, de seus olhos, de sua pele. Nem nome ela tem, é denominada de GH. A protagonista experimenta um novo modo de ser caracterizado pelo medo e pela possibilidade, que se liga de alguma maneira ao acaso e à probabilidade:

Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em ralação: a ser? O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade (LISPECTOR, 1990, p. 17).

Trata-se de uma personagem tipicamente modernista, que experimenta os limites da fragmentação, da perplexidade e da indecisão. Fatores muito presentes na vida consciente do homem contemporâneo, cuja linguagem flutua entre a comunicação e a mudez:

A BAGACEIRA: O ROMANCE DE SOLEDADE

DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA

INTRODUÇÃO

Prof. Dr. Éris Antônio Oliveira

As personagens, em razão de sua relevância e de sua inserção sociocultural no enredo, integram as categorias fundamentais da narrativa. Por isso, o domínio compositivo de suas modulações ilustra o espaço social e as motivações sentimentais e ideológicas que elas nele contraem. São as personagens que caracterizam e especificam o fluxo das ações constitutivas de uma obra, conferindo-lhe ‘personalidade’ e verossimilhança, assim é Soledade, nesta narrativa. A Bagaceira é um romance muito representativo da literatura nacional. Foi editado, pela primeira vez, em 1928, mas seu estilo está na fronteira entre o pré-modernismo e o modernismo. Naquela década, a literatura brasileira estava experimentando sua mais radical transformação. José Américo de Almeida não demonstra, na organização de seu texto, nenhum apreço pelos ismos que dominavam o panorama artístico naquele período. Esse autor leva a efeito uma arte que se origina de uma vitalidade própria, na qual a universalidade não está presente como norma ou máxima, mas que agrega no palco da criação ‘o ânimo e o sentimento’, como diria Hegel (2001, p. 35). Ele realiza uma arte que encanta e sensibiliza a imaginação do leitor, mais do que a escandaliza. Nessa perspectiva, ele confere à natureza, ao homem e à sociedade uma metaforização tonalizada por uma especial beleza. Mais importante do que situar essa obra em algum estilo é verificar sua fina elaboração narracional, a propriedade da construção das personagens, o adequado e irrepetível uso da linguagem, bem como a apropriada configuração da espacialidade.

ÉRIS ANTÔNIO OLIVEIRA

O flagelo da seca facultou ao autor a oportunidade de nos propiciar um quadro, ao mesmo tempo, desolador e vívido. “Era uma queimada no horizonte, como se a grande brasa se tivesse desfeito na labareda fugaz” (ALMEIDA, 2005, p. 36). Nesse momento, pintava-se uma cena crepuscular única, em que se esplendia uma “gema de ovo estoirada” (idem, p. 75). Essa linguagem apreende as coisas em suas configurações singulares, permitindo-nos uma visão profunda delas, seus traços peculiares e exacerbados, que se manifestam em múltiplas figurações. Aqui, a consciência profunda da realidade nacional nos é apresentada por um acentuado lirismo, de tal forma que a incisiva penetração nos relevantes problemas nacionais nos chegue por meio de uma poética rigorosamente elaborada, detentora de meios expressivos assinalados por um profundo bom gosto.

Em A Bagaceira, os costumes primitivos apresentam certos contornos psicanalíticos. Dagoberto perdeu a esposa, entretanto, ele e Lúcio viam em Soledade a imagem atual da morta:

– Não, meu filho, ela não pode ser tua esposa porque

a memória de tua mãe, mas foi tua mãe que amei nela

(ALMEIDA, p. 2005, p.115).

Eu profanei

Enquanto eles virem a morta não se esquecem da viva. É a mesma

coisa

(idem, 2005, p. 116).

1. ENTRELAÇAMENTO DE PERSPECTIVAS

O enredo dessa obra desenvolve-se a partir de alguns episódios fundamentais. Houve o êxodo da seca de 1898, nessas ocasiões, mesmo “vaqueiros másculos, como titãs alquebrados, em petição de miséria, baralhavam-se num anônimo aniquilamento” (Almeida, 2005, p. 8). Certo dia, uma leva de retirantes bate à porta do senhor de engenho, Dagoberto Marçau, pedindo-lhe pousada, primeiro ele negou; depois condescendeu. Fazia parte desse grupo, Soledade, personagem principal. Mulher bonita e de personalidade marcante, em torno da qual se dão os fatos mais importantes do enredo. Ela era cobiçada por Dagoberto Marçau, com quem conviveu amasiadamente; por Lúcio e por Pirunga. Por sua causa, Pirunga assassinou o feitor e induziu o senhor de engenho à morte. Por ela, Lúcio perdeu um pouco do encanto pela vida, no período da adolescência. Como vimos, Soledade – a protagonista – é mulher de personalidade marcante e de rara beleza. Seu modo descontraído, seus banhos no açude ou na cachoeira desnorteavam os homens. Até a água fervia ao contato com ‘seu corpo

QUINTANA DE BOLSO

DE MÁRIO QUINTANA

Por Profª Drª. Maria de Fátima Gonçalves Lima

INTRODUÇÃO

O objetivo do presente trabalho é guiar o estudante na leitura e compreensão da obra do poeta gaúcho Mário Quintana. Para isso procuramos seguir algumas análises de especialistas e críticos que estudaram a obra deste artista. E, embora Jung professe que aquilo que um poeta diz acerca de sua obra, nem sempre e nem muito menos, é o que melhor se possa dizer sobre ela (JUNG, (1940), p. 342), recorremos também a alguns conceitos ministrados pelo poeta em estudo. Partimos do lirismo moderno de Quintana, percorremos suas imagens poéticas, sua metalinguagem, sua poesia e a essência dela, a função de sua poesia, sua vida, enfim, procuramos fazer um retrato didático de sua obra. As edições da obra de Mário Quintana, consultadas e citadas estão relacionadas a seguir, mas apenas Mário Quintana de Bolso possui a sigla MQB:

1. MÁRIO QUINTANA DE BOLSO – L ÚPM , 1997, (MQB)

2. MÁRIO QUINTANA - POESIA COMPLETA - Edit. Aguillar, 2005

1. O LIRISMO DE MÁRIO QUINTANA

Mário Quintana é um poeta que se recusa a ser enquadrado em qualquer escola literária e orgulha-se de não ter “freqüentado” nenhuma (Cf. PEIXOTO, S. A. (1994) p. 31). Sua obra não segue nenhum modismo específico, mas percorre os caminhos da mais pura poesia lírica moderna. A poesia de Quintana tem correspondências com o Pré-Simbolismo de Baudelaire (1821 - 1867), primeiro poeta moderno a sistematizar o poema como

MARIA DE FÁTIMA GONÇALVES LIMA

relações entre sons, ritmos e imagens. Esse francês foi o primeiro a reconhecer a nova cidade e o homem nas multidões quando escreveu sobre “O pintor da vida moderna”, texto que incorpora a seus conceitos estéticos os dados dos novos tempos das metrópoles, abandonando o interesse pelo belo absoluto. “Há na vida trivial, na metamorfose jornalística das coisas exteriores, o movimento rápido que ordena ao artista uma igual velocidade de execução” (Friedrich H. 1978, p. 15). Baudelaire preconiza o impressionismo e afirma que a modernidade está também na possibilidade de transformar em poético tudo aquilo de artificial, grotesco e feio que a grande cidade pode oferecer ao artista: o caminho para uma ‘estética do feio’. Este poeta, ao lado de Edgar Allan Poe (1809 - 1949), o criador de O Corvo, defendem que a poesia associa-se à inteligência crítica. Os herdeiros de Baudelaire e Poe são os poetas mágicos - inspirados e os lógicos-construtores do Simbolismo: Verlaine, Rimbaud e Mallarmé, para ficar

apenas com os franceses. Destes três, Stéphane Mallarmé (1842 - 1898) foi o ponto máximo dessa caminhada contra uma sociedade que tudo automatiza. Por isso o poeta precisa buscar suas armas dentro da própria linguagem da poesia ((Friedrich H. 1978, p. 95), mesmo sabendo que nada é definitivo. Mário Quintana trilhou nos caminhos poéticos de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, Verhaeren, Rollinart e Antônio Nobre. Deste último, a influência foi notória e explícita quando escreveu alguns sonetos em homenagem ao poeta português. Entre eles, o soneto XI “Para Antônio Nobre”: “Contigo fiz, ainda em

desde cedo/ Aprendi a sofrer devagarinho,/

menininho,/ Todo o meu Curso d”Alma

A guardar meu amor como um segredo

E

(QUINTANA, M. (2005), p. 95)

1.1. O SUJEITO LÍRICO MODERNO

Ao contrário do poeta que ainda acredita na poesia como expressão do “eu”, o poeta moderno sabe perfeitamente que qualquer recorte do mundo será apenas linguagem e não lhe é possível mais do que isto: o poeta moderno se vê projetado no mundo exterior sabendo que desse mundo só poderá fazer apenas uma tradução parcial. Na poesia moderna, o sujeito explicitado como “eu” não se refere a uma

pessoa particular. A poesia não alimenta nenhuma ilusão de ser um armazém de emoções reais. Existe uma distinção entre o poeta do texto e o poeta real, isto é, entre aquele que fala no poema e o homem comum que escreve o poema. Aquele que fala no poema é o eu poético, que é a presença do poeta no texto enquanto sentimento que se revela. A poesia de Mário Quintana segue os preceitos modernistas. Nem sempre

o “eu” poético coincide com o profissional da palavra que produz o texto; é

INTRODUÇAO

O REI DA VELA

OSWALD DE ANDRADE

Prof. Dr. Sebastião Augusto Rabelo.

A peça teatral O Rei da Vela, de Oswald de Andrade foi escrita em 1933,

publicada em l937, mas só foi encenada em 1967. Composta em três atos possui como cenários o escritório de usura de Abelardo e Abelardo (1º e 3º atos) e a ilha tropical na Baía de Guanabara (2º ato). O texto mostra a crise de 1929 através da despudorada aliança entre a aristocracia rural falida, representada por Heloísa de Lesbos, e os novos ricos do capitalismo industrial, representados por Abelardo, agiota e dono de uma fábrica de velas. O casamento de Abelardo e Heloísa é um negócio que interessa a ambos e, principalmente, a Mr. Jones, o americano. Oswald traça um retrato sarcástico e impiedoso das elites. Em O Rei da Vela, a crise social é focalizada a partir da classe que lucra com ela: a burguesia industrial. A aristocracia falida também está presente, mas de modo cínico e pragmático: buscando aliança com a burguesia, vendendo-se

a ela. Se O Rei da Vela, retratando o jogo de interesses que norteia o comportamento das antigas e novas elites, constitui-se a partir de um olhar permanentemente distanciado e impiedosamente crítico.

O texto transita o tempo todo nas esferas da sátira e da irreverência, o que

ameniza o impacto de algumas simplificações também existentes, principalmente na apresentação e encaminhamento de determinadas posições ideológicas, como

o capitalismo e o socialismo.

Os arranjos cênicos transcorrem principalmente na cidade; é ela o cenário da história. Um cenário onde convivem modernidade e atraso, padrões burgueses e valores derivados de uma sociedade patriarcal. A cidade é, enfim, o espaço dos contrastes e a arena onde se realizam os jogos do poder; a cidade é o

cenário da História. O representante do capitalismo industrial é dono de uma

SEBASTIÃO AUGUSTO RABELO

fábrica de velas, indústria incipiente, que atende às necessidades de uma sociedade com traços ainda feudais – “Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbrais da eternidade sem uma vela na mão?”, comenta Abelardo I. Em O Rei da Vela configuram-se dois futuros. Um futuro mais imediato,

que repete o presente numa eternidade cética e cínica – “Heloisa será sempre de Abelardo. É clássico!” –, e um futuro mais longínquo, mas nem tanto, em que a utopia revolucionária se concretizará, embora o seu anúncio ainda seja sutil:

Abelardo I, ao ser traído e roubado por Abelardo II, faz um balanço, sem arrependimentos, de sua vida e afirma – “Se todos fossem como o oportunista cínico que eu sou, a revolução social nunca se faria!”. Esta é uma maneira oblíqua e indireta de afirmar a revolução, e acreditar na sua chegada, mesmo não tendo nenhum interesse nela, como é o caso de Abelardo I. Tendo sido comunista militante Oswald não tem nenhum constrangimento em dar nomes aos bois e às revoluções. Perdigoto é um fascista contagioso, declarado, um assassino, em suma. E a revolução que virá trará o

comunismo: “Deixo vocês ao Americano

Que tal meu testamento?”, pergunta Abelardo I a seu sucessor. O fato de ser Abelardo I quem anuncia a revolução comunista, mesmo que seja em função de uma briga burguesa com Abelardo II, reforça a idéia de que é ele quem conduz

a análise crítica da realidade social, constituindo-se, de certa forma, como uma espécie de porta-voz às avessas do autor. Em O Rei da Vela, o circo se presentifica na própria construção do texto

e dos personagens. Abelardo II veste-se e comporta-se como domador. Além disso, a paródia, a caricatura e a linguagem da farsa, que predominam na peça, apontam para a jocosidade circense, sua alegria e perversidade.

E o Americano aos comunistas.

1. CONTEXTO HISTÓRICO

O Rei da Vela reflete as condições do Brasil na década de 30 e focaliza, em especial, São Paulo e o Rio de Janeiro. É apresentado um amplo panorama da sociedade figurando várias classes sociais, suas relações e crises. Praticamente todos os setores da República Velha são representados de forma direta ou indireta, como a decadente. No entanto, ainda com status destaca-se a oligarquia cafeeira da família de Heloísa, os imigrantes, o proletariado urbano e rural (os devedores na jaula), a burguesia ascendente (Abelardo I e II), os intelectuais (Pinote), o arquétipo do capitalista americano (Mr. Jones). A crise de 29, o declínio da monocultura do café, a Revolução de 30, a mudança do controle econômico para as mãos americanas são os motores históricos. Oswald, descendente de rica família e pouco parcimonioso com suas viagens à Europa, subitamente, com a crise de 29, fica falido economicamente.