Copyright © 2014 by Gleice Couto

Produção Editorial
GC Serviços Editoriais
Projeto Gráfico e Diagramação
GC Serviços Editoriais
Capa
Victor Almeida
Ilustrador
André Ciderfao
Revisão
GC Serviços Editoriais e Fabiana Potter
Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
1ª Edição: Outubro/2014

Couto, Gleice.

Picta Mundi / Gleice Couto
ISBN 978-85-918055-0-1
1. Ficção, Literatura Brasileira, Fantasia, Juvenil.
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida sem a devida
autorização do detentor do direito autoral.

Para mamãe.

E Deus viu tudo o que havia feito,
e tudo havia ficado muito bom.
Gênesis 1:31

E disse Deus a Moisés:
Eu Sou o que Sou.
Êxodo 3:14a

PICTA MUNDI

PREFÁCIO

Para mim, é uma grande alegria ter a oportunidade de escrever o prefácio de Picta Mundi. Acredito na Gleice Couto, sua
escrita é muito boa e ela tem todo o potencial para encantar os
leitores. Este seu livro de estreia acerta em todos os sentidos. A
história encanta e intriga, a narrativa é fluída e o universo criado
pela autora surpreende. Por várias vezes desejei ter a possibilidade de entrar em um daqueles quadros mágicos, de conhecer
as regiões inóspitas onde Letícia e Felipe se aventuravam.
O mundo dentro de quadros dá possibilidades infinitas e
Gleice sabe aproveitar muito bem este grande trunfo. Ao longo da trama, conhecemos um pouco mais da história do Brasil:
Petrópolis do início do século XX, a Mata Atlântica e os índios
tupinambás do século XVI, um campo de batalhas da Guerra
dos Farrapos. Aprendemos e nos divertimos ao mesmo tempo.
O humor tem seu destaque. Diálogos rápidos e ácidos que
me fizeram gargalhar várias vezes. A interação nervosa entre
os dois protagonistas, sempre prontos para alfinetar qualquer
deslize do outro, é mais um ponto alto da trama. E as matérias
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GLEICE COUTO

inesperadas aprendidas no colégio Dipel também são um show
a parte. Com tal grade curricular, essa é sem dúvidas uma escola
para alunos gênios!
A descoberta do amor também está presente na trama. No
entanto, ela é feita de maneira cuidadosa e não sobrepuja a história principal. O relacionamento é bem amarrado e evolui com
naturalidade.
Acima de tudo, esta é uma história sobre a coragem de uma
filha em resgatar seu pai perdido e, no processo, aprender mais
sobre si e sobre aqueles que estão ao seu redor. Cada personagem tem sua importância e jornada própria. Letícia e sua busca
pelo ente mais querido, Felipe e seu aprendizado em não pensar
só apenas nas suas próprias glórias.
Picta Mundi é um ótimo livro, que evidencia o talento de
Gleice e me faz esperar ansiosa por seus próximos trabalhos.
Que eles não demorem a vir. E se uma nova história nesse mundo de quadros mágicos surgir também, só terei o que comemorar!
Então, leitor, não perca tempo e toque na tinta seca, desvende as várias camadas desta história repleta de aventura. Picta
Mundi tem muitos quadros e segredos esperando por você.
Boa leitura!

Roberta Spindler
Outubro, 2014

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PICTA MUNDI

PRÓLOGO

Setembro, 1970 / Novembro, 1841

S

omente amor à criação

podia explicar o esforço
sobre-humano que Nilton fez nos últimos meses. A
punhalada, ainda que imaginária, doía em suas costas enquanto ele caminhava pelo acampamento. O gosto amargo da decepção pairava na boca e a raiva pulsava tanto em suas
veias que fazia a cabeça latejar. A razão lhe escaparia em breve.
Se tivesse a oportunidade de pôr minhas mãos nele...
Parou e respirou fundo. O aroma de carne podre e suor de
guerra trouxeram-lhe o foco novamente.
Ele voltou a andar em meio ao acampamento, dirigindo-se
para a barraca onde encontraria Donato. Quando entrou, o cheiro em seu interior desagradava tanto quanto o resto do lugar.
Ele procurou pelo capitão, mas não o encontrou. Bastante espaçoso, alguns instrumentos de guerra como espadas, escudos
e lanças decoravam o lugar junto com uma grande mesa com
cadeiras em volta e, nas laterais, duas divisórias de tecido que
dividiam o espaço em três. Mesmo com todos aqueles itens, a
impressão era de que, sem Donato ali, a barraca parecia vazia
como a sua esperança.
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GLEICE COUTO

Talvez fosse melhor esperar do lado de fora, à vista.
Ele saiu da tenda e olhou ao redor. Conhecia bem o lugar.
O terreno de barro batido, duro e áspero sob os pés, o som de
explosões ocas ao fundo, o calor claustrofóbico do ar... Cada detalhe fora milimetricamente pensado ao ser criado. Sua grande
obra, sem dúvida nenhuma. A criação mais crua e viva, apesar
de a destruição estar presente em níveis angustiantes. Em seu
íntimo, sempre achou dispensável o vermelho rubro para expressar o sangue. A morte não precisava ser representada em
uma cor apenas. O segredo localizava-se nos olhos. No brilho
diferente, na expressão desfocada, nas rugas que se formavam
de forma suave no canto da boca, como se abrisse um sorriso
satisfeito.
Muitos não entendiam. Consideravam perturbador.
Fracos! Eles não sabem de nada.
Ele podia demonstrar a morte de modo tão perfeito apenas
porque compreendia a vida. Aliás, ele criava vida. Eu Sou, de
certo modo.
— Mestre, o que faz aqui? — uma voz o interrompeu.
Ele o conhecia bem. Viu um homem alto, com traços imponentes, semblante sério e de escárnio. Destemido, acima de
tudo.
Donato.
Nilton se aproximou e os pulmões foram invadidos pelo
cheiro nauseante de sangue que vinha das vestes do capitão.
Sentia-se responsável por aquilo. Pelo homem. Pelo ambiente ao
seu redor. Pelo mundo que existia além desse. Não podia deixar
que tudo virasse pó.
— Preciso da sua ajuda, capitão — disse firme, apesar do
cansaço.
— O que quiser, Mestre.
Donato abriu passagem, em um gesto que pedia que Nilton
entrasse na tenda.
— Há algo terrível prestes a acontecer.
Donato franziu as sobrancelhas.
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PICTA MUNDI

— Onde está o Mestre Gre...
— Não diga esse maldito nome! — Nilton repreendeu. Pegou Donato pelo braço e o levou para o final da barraca. — Se
dissermos o nome dele, ele... É culpa dele!
— Não compreendo, Mestre. Culpa de quem?
— Escute, Capitão, não temos muito tempo! Confia em
mim?
— Claro. — Seu tom sugeriu um pouco de ofensa. — Minha
existência é sua.
— Vida! Você tem vida.
Donato não argumentou contra. Nilton precisava ouvir esse
silêncio para ter a certeza de que o que pedisse seria prontamente atendido.
— O que acha que possui, Capitão-general Donato?
O homem deixou os ombros caírem um pouco. Pareceu menor com a pergunta.
— Tenho vontade própria, e... Pode parecer sandice, mas há
sentimentos dentro de mim.
— Não é sandice! Eu te dei esses sentimentos! — Nilton
colocou as mãos sobre os ombros dele. — Me diga, o que sente?
Donato hesitou.
— Não sei se é oportuno dizer, Mestre.
— Pois digo que é. Vamos, fale! — insistiu.
— Há tanta... — Pensou por instantes e então as palavras
saíram sem pudor algum. — Frustração, raiva, intolerância, que
não sei de onde vêm. Sempre estou irritado, pensando em meus
inimigos, querendo destruí-los. Não sei o que me fizeram, mas
sei que foi desprezível e tenho que revidar, tenho que defender
minhas terras, meu povo, tenho que...
— Se vingar?
Em silêncio, Donato desembainhou a espada e observou-a.
Ela reluzia, evidenciando seu rosto refletido na lâmina.
— Sim — respondeu, por fim.
Nilton, com as pálpebras pesadas e esgotado, olhou para o
guerreiro. Há dias que não dormia direito. A qualquer momen15

GLEICE COUTO

to, poderia entrar em colapso.
Num instante de fraqueza, pensou se o esforço não seria
em vão. Já lutava há tanto tempo contra seus próprios demônios
internos e agora teria que guerrear contra seu melhor amigo. Estava cansado disso. Ponderou sobre como seria sua vida se não
existisse Picta Mundi, mas não suportou a visão de uma vida
comum por muito tempo. Era como se uma força dentro dele o
fizesse continuar. Não podia desistir, pois significaria o fim de
anos de estudo e dedicação; e, principalmente, a morte de seus
filhos e filhas. Mas mesmo sabendo que deveria utilizar-se de
todas as armas disponíveis, Nilton sentia-se um pouco inseguro. Conseguiria levar o plano adiante? E se não saísse conforme
esperava? Tinha muito a perder, mas sabia que o momento chegara. O Capitão-general Donato nunca recusaria ajudá-lo. Não,
jamais! Ele lhe deu a vida. Tinha uma dívida eterna com ele.
A hora de cobrar pelo que deu ao homem havia chegado.
— Capitão, você me é leal? — perguntou Nilton.
— Sempre, Mestre.
— E o que faria se eu dissesse que o inimigo é outro? Uma
pessoa que quer destruir seu povo, sua terra... você?
— Eu o aniquilaria! — Donato empunhou a espada, instintivamente. Seus olhos tornaram-se frios, duros como a lâmina
afiada de sua espada.
— Não, você não conseguiria sozinho... — Ele sorriu de leve
para o homem. — Mas juntos, nós podemos. E é isso que vou lhe
explicar agora...

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PICTA MUNDI

CAPÍTULO 1

Dias atuais

L

etícia tamborilava a ponta dos dedos no braço

da cadeira, impaciente. Esperava há um tempo considerável na antessala da Diretoria. Não era a primeira
vez que comparecia àquele local, nem a segunda ou terceira. Na
verdade, após a sétima, parou de contar.
Não podia reclamar. Conseguia se divertir nesses momentos. Gostava do antes, quando arquitetava o plano minuciosamente. Amava o durante, quando as pessoas, sem desconfiar,
participavam dele por espontânea vontade. Mas se deleitava
mesmo com o depois, quando entrava nessa sala armada com
argumentos tão irrefutáveis que fariam qualquer ateu olhar
para Deus com simpatia.
Agora, porém, o tédio lhe acompanhava, talvez porque havia virado rotina. Precisava mudar de tática, ser mais ousada.
Pensaria nisso mais tarde. Suspirou e afundou na cadeira até
quase cair. Fechou os olhos meditando em qualquer imagem
melhor que aquele lugar.
Uma praia paradisíaca apareceu em sua mente. Legal.
Uma casa confortável na montanha veio em seguida. Me17

GLEICE COUTO

lhorou.
A sala sendo destruída por assustadoras e gigantescas labaredas de fogo, não deixando nada para trás. Perfeito.
Letícia sorriu. Escutou passos de alguém se aproximando,
mas não se abalou. Mantinha-se ocupada demais com a imagem
das chamas devastando a sala.
— Só quero ver se vai ficar sorrindo quando falar com a
diretora.
Letícia sequer mexeu as pálpebras ao escutar a voz arrastada de Daniel, um garoto de duas séries anteriores à dela. Tinha
certeza de que era ele, assim como previa que seus olhos irritantemente azuis a observavam. Tentou se lembrar se em algum
momento eles haviam conversado. Não lhe veio nada à mente,
além de diálogos soltos com outros garotos e garotas da sua turma — por sinal, amigos do irmão dele, Felipe.
Conhecia a fama de Daniel de se meter em algumas brigas,
mas nunca muito sérias. Não chegava aos pés do que ela fazia.
Atitude de nerdzinho, que precisava de atenção. Não era de se
espantar que ele estivesse ali.
O que a deixou curiosa foi ele ter falado com ela.
— Não que seja da minha conta, mas acho que hoje não vai
se dar bem — ele completou. — Embora tenha que admitir que
foi bastante criativo o que fez.
Uma faísca pinicou em Letícia. Ela abriu os olhos e viu que
ele sentava-se no banco à frente do dela.
— E?
— E o quê?
— E o que você tem a ver com isso? — Os lábios de Letícia
formaram uma fina linha.
— Como disse, nada. — Ele deu de ombros.
Letícia sorriu satisfeita e voltou a cerrar as pálpebras. Queria se concentrar na imagem da sala pegando fogo. Conseguia
visualizar as labaredas nítidas em sua mente — algumas em
vermelho intenso misturado com amarelo e outras em um tom
alaranjado ameno. Estas últimas lembravam a cor de seu cabelo
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PICTA MUNDI

ruivo. Combino com esse cenário. Aproveitou e colocou Daniel no
delírio. Ele sufocava com a fumaça e pedia ajuda, enquanto ela
contemplava a cena, impassível.
Letícia não se importava se aquilo parecia doentio. O que
a incomodava mais era sentir que Daniel a observava a alguns
metros de distância.
Ela respirou fundo, se endireitando na cadeira.
— Qual o seu problema, Daniel?
— Muitos. Quer saber mesmo?
— Só os relacionados comigo.
— Nesse caso, nenhum. — Ele sorriu de leve.
Letícia revirou os olhos.
— Então-pare-de-me-olhar — falou devagar, para ver se ele
conseguia entender o que ela queria.
— Só tentava acreditar que você... — Daniel não completou.
Letícia esperou que ele continuasse, em vão. Decidiu reparar melhor nele. O cabelo negro e encaracolado, um pouco
acima da altura dos ombros, estava bagunçado — dentro do
normal para os padrões de Daniel, que parecia ter um ninho na
cabeça. Em seu rosto havia alguns machucados, mas nenhum
deles aparentava ser muito recente, apenas hematomas naquela cor esverdeada de quando estão para desaparecer. Nenhum
sangue escorria do nariz e empapava o uniforme. Este, aliás, parecia impecável, sem rasgo, nem mesmo um furinho.
— Veio aqui para ver se vou ser expulsa, é? Mexi com alguma namoradinha sua? — Esperou pela reação dele, que não
passou de um franzir de sobrancelhas. — Não sei quem é, mas
se quer saber, ela deve ter merecido — continuou falando em
um tom irritadiço. — É tão idiota quanto você e seus amigos.
— Agora entendi porque falam que você é sociopata...
— Não sou sociopata! — Letícia se ofendeu.
— ...além de paranoica e egocêntrica. — Daniel mal dava
chances para ela falar. — Não vim aqui para defender ninguém,
nem ver você amarrar a corda no próprio pescoço. Pouco me
importa com o que faz da sua vida — seus punhos fechados
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GLEICE COUTO

demonstravam o quanto se irritou —, desde que não influencie
na minha ou na da minha família!
Letícia pensou estar em outra dimensão. Eles não falavam
sobre a mesma coisa, falavam?
— Ok, não devo ser a primeira pessoa a te dizer — ela levantou as mãos como se defendesse —, mas acho que você tem
problemas. Sérios. Quer passar na minha frente? Não me importo em esperar.
Daniel olhou para Letícia por longos minutos, e ela percebeu a expressão dele se suavizando aos poucos. O monstro parecia estar sendo domado. Garoto doido! Igual a todos os alunos nessa
escola. Nenhuma novidade.
— Eu preciso falar com você — disse ele, com a voz mais
controlada.
Letícia quase engasgou com a própria saliva.
— É uma piada, certo? Alguma brincadeira idiota ou...
— Não disse? Paranoica!
Letícia achou melhor tentar outra abordagem.
— Certo — bufou, irritada. — Não estou a fim de conversa.
— Pode ser, mas tenho algo para te contar — disse ele, sério. — E é importante.
— É por isso que está aqui?
Ele fez que sim com a cabeça. Letícia examinou o rosto do
garoto enquanto investigava impressões em sua mente do que
acabara de escutar. Não chegou à conclusão alguma, só a de que
não desejava mais falar com Daniel — o que tentava fazer desde o início. Ainda mais porque, desde o incidente com o irmão
dele, todos sabiam que ele agia meio desequilibrado. Não que
ela se achasse tão normal assim, porém conseguia se manter em
um nível sadio, como por exemplo, imaginar-se colocando fogo
na escola, mas sem nunca ter feito nada de efetivo para que isso
acontecesse. Por enquanto.
— Lamento, mas você tinha razão, sou sociopata — informou, tranquila.
Daniel abriu a boca para falar quando a secretária da direto20

PICTA MUNDI

ra, Srta. Ana, surgiu de uma porta e comunicou:
— Ei, garota-problema, a Sra. Roseli pediu para entrar.
Ignorando o comentário de Ana e sem olhar para Daniel,
Letícia se levantou e se dirigiu à sala da diretora, pronta para
pôr seu plano em ação.
Ao menos, o debate com Daniel servira para aquecê-la.

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