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Pro dia nascer feliz 1 Análise do documentário

Resumo: Este trabalho apresenta uma análise do documentário dirigi- do por João Jardim “Pro dia nascer Feliz”, 2007, onde aborda o sistema educacional brasileiro, descrevendo

realidades escolares de diferentes con- textos sociais, econômicos e culturais

a partir de diversos olhares sobre as

realidades que constituem a estrutura educacional, seja do ponto de vista da instituição, do aluno, do professor e da família. Propõe, ainda, demonstrar

o abismo existente entre as escolas

públicas e privadas e a relação do adolescente com a escola focando a desigualdade social e a banalização da violência. Palavras-chave: Escola; Educa- ção; Exclusão; Desigualdade Social; Violência; Aprendizagem; Relações Humanas.

Pro day happy birth Analysis of the documentary

Romi Leffa Cardoso 2 Luciana Josélia Corrêa Cheruti 3 Márcia Kleemann de Ponte 4

Abstract: This paper presents an analysis of the documentary directed by John Garden “Pro day happy birth”, 2007, where he discusses the Brazilian educational system, describing school realities of different social contexts, economic and cultural, as from divers looks on the realities that constitute the educational structure from the point of view of the institution, the student, the teacher and the family. He also proposes to demonstrate the existent abyss among the public and private schools and the relation of the adolescent with the school focusing the social inequality and the trivialization of the violence. Keywords: School; Education; Exclusion; Inequality; Violence; Learning; Human Relations.

1 Filme de João Jardim, lançado em 2006, gênero: documentário, duração: 1h28min, música Dado Villa-Lobos, fotografia:

Gustavo Hadba. Trabalho de conclusão do Seminário temático: Diversidade cultural na educação básica, ministrado

pelo prof. Dr. Gilberto Ferreira da Silva no curso de Mestrado em Educação do Unilasalle em 2011-2.

2 Diretora Pedagógica da Secretaria de Educação do Município de Canoas/RS. Foi Secretária de Educação no município de Gravataí de 2002 a 2006. Graduada em Pedagogia pela FAFIMC - Viamão, Mestranda em educação do UNILASALLE.

E-mail: romileffa@gmail.com
3

Especialização em Psicopedagogia Institucional pela Universidade Castelo Branco. E-mail: lucianacheruti@terra.com.br
4

Professora do Primeiro ano do Ensino Fundamental do Colégio Santa Catarina - N.H., Graduada em Pedagogia pela Unisinos,

Graduada em Pedagogia pela UNISINOS. Pós em Psicopedagogia Institucional Universidade Cidade de São Paulo. Professora dos anos Iniciais no Colégio La Salle Esteio. E-mail: profkleemann@bol.com.br

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Introdução

Inúmeras pesquisas são realizadas no intuito de apresentar novas reflexões

quanto à função social da escola, a aprendizagem, a formação humana, o papel do professor e da família frente aos novos desafios do milênio. Inegavelmente, muitas abordagens jogam luz sobre os problemas brasileiros, forçando um debate acerca dos temas. Em um país com pouca leitura e milhares de analfabetos funcionais ou iletrados, cujas políticas públicas educacionais ainda não demonstram o avanço na qualidade da educação, faz-se necessário repactuar os acordos internacionais em defesa do direito à educação e, sobretudo o direito de aprender de todos e de cada um.

Há algum tempo, já se percebe o esgotamento no modelo de educação vigente,

é nesse vazio de ideais que acompanha uma crise de paradigma, sendo iminente um rompimento com o modelo fragilizado da educação onde as exigências dos desafios contemporâneos delineiam novas matizes.

É necessário enfrentar os indicadores não com soluções paliativas e com-

pensatórias, tampouco responsabilizar e culpar este ou aquele sujeito que recheia

através de um silêncio criminoso o fracasso escolar impedindo as crianças e

adolescentes negros, pobres e diferentes do direito de aprender. As cenas do documentário sucessivamente demarcam esse quadro comum entre as escolas da periferia, cujas narrativas de alunos e demais agentes naturalizam as expressões de descaso e menos valia do sistema escolarizado. Para Moll (2000), há muito estamos imersos, atores das cenas pedagógicas que se desenvolvem no dia a dia de nossas escolas, em discussões acerca de problemas congênitos de que padece a instituição escolar.

A proposta do documentário de João Jardim, quando constrói um roteiro

a partir das experiências reais de escolas brasileiras, traz à cena pública alguns

elementos que remetem a uma reflexão sobre a multiplicidade de fatores que são inerentes à vida na e da escola e os elementos objetivos e subjetivos que definem

os rumos de milhares de crianças e adolescentes.

A educação como instituição pode ser interpretada como um “templo” de

realização do indivíduo em sua fase de formação humana, corroborando a tese de Durkheim de que a educação reproduz a sociedade em que vivemos.

Longe de a educação ter por objeto único e principal o indivíduo e seus interes- ses, ela é antes de tudo o meio pelo qual a sociedade renova perpetuamente as condições de sua própria existência. A sociedade só pode viver se dentre seus membros existe uma suficiente homogeneidade, fixando desde cedo na alma da criança as semelhanças essenciais que a vida coletiva supõe (DURKHEIM, 1993, p.57).

O documentário “Pro Dia Nascer Feliz” trata da relação do adolescente

com a escola, relatando o cotidiano de diferentes regiões do País: periferia de Pernambuco, de extrema pobreza, outra em situação precária no Rio de Janeiro,

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uma em São Paulo, expressando a barbárie, uma em estado regular também e uma escola privada com um grupo da elite de estudantes brasileiros, também em São Paulo. Nesse contexto, estão presentes as similaridades quanto ao desprezo pelo adolescente. De um lado, os jovens pressionados pelos pais na busca de resultados eficientes, traduzindo seus desejos e anseios e, por outro, o abandono físico e afetivo dos pais em relação aos filhos. Ambos os casos de anulação da identidade. Há uma angústia comum entre esses diferentes jovens separados por um abismo social. Nas cenas e depoimentos, são revelados os frangalhos de escolas e fran- galhos de valores, pulsando nas comunidades desintegradas pela omissão social.

Desenvolvimento

Esse documentário aborda as múltiplas perspectivas de um Brasil diverso na forma de entender, ser e coexistir do jovem, em suas vontades, seus sonhos, seus desejos, suas expressões culturais a partir das premissas sociais. Por outro lado, esse documentário desvela uma nova roupagem de produ- ção cinematográfica rompendo com os estereótipos dos filmes românticos cuja imagem dos atores-professores é apresentada sempre como a de um herói cuja condição de trabalho e as adversidades ficam renegadas à função afetiva, de fonte de humanização e libertação de seus alunos “selvagens”, despertadores de pai- xões, o pulso firme que conduz seus alunos aos novos itinerários sociais como Sociedade dos Poetas Mortos (EUA 1989), Escritores da Liberdade (EUA 2007), Ao Mestre com Carinho (EUA 1967) e Mentes Perigosas (EUA 1995). A partir de entrevistas com jovens e adolescentes, professores e diretores de escolas públicas e de uma escola privada, Jardim leva o expectador a traçar um comparativo ao mesmo tempo em que, de certa forma, “empurra-o” para uma

análise crítica reflexiva sobre os diferentes papéis que escolas e educadores passam

a assumir frente a cultura da “desistência”, da falta de sonho, da desmotivação

que “contamina” os demais atores do processo. Tal situação fica clara quando um dos alunos entrevistados fala: “a professora de química nunca aparece, só manda substituto, na hora da avaliação todos os alunos tiram a mesma nota, até mesmo

os desistentes, pois ela não conhece ninguém, assim dá nota igual para todos”.

Também podemos perceber na fala de uma professora que diz: “eu ficava sempre até o final da aula, mas agora vou embora, vejo todos indo embora e também vou. Na sexta-feira, que é dia de pós-graduação, ninguém aparece.” Isso denota a situação de menos valia se transferindo entre os sujeitos do processo de ensino e de aprendizagem, em cadeia. Trata-se de um método de representação em que não há nenhum comprometimento onde, geralmente, o professor finge que ensina e depois nada exige, os alunos fingem que aprendem

e nada falam (Werneck, 1990). Cenas e entrevistas refletem com bastante tranquilidade essa situação, mesmo nos casos em que os alunos possuem naturalmente talento para aprendizagem ou esta acontece mesmo com a ausência da escola. Tal evidência é trazida pelo

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produtor no caso da Valéria, menina de 16 anos, estudante de escola pública de Pernambuco, um exemplo marcante da exceção. Sua história é capaz de fascinar todo o público, pois – sob um olhar poético e esperançoso diante da vida – a menina mostra uma forma vigorosa de remar contra a maré das condições de sua escola. Ônibus que se quebra, professores que faltam, professores que não percebem sua sensibilidade e até duvidam de seus escritos. Durante as duas semanas de filmagem a menina foi à escola somente três vezes, pois o ônibus que a conduz para a mesma estava quebrado. Apesar de vi-

venciar uma realidade dura e sofrida, encontra ainda motivação para fazer poesia, pois revela grande sensibilidade e intimidade com as palavras, transpondo cada obstáculo que a vida tem colocado em seu caminho. Ela então fala “eu deveria ter uma péssima impressão da vida, senão fosse a paixão que tenho pela arte de

Meu acalanto é a melodia do vento sobre a minha janela, a minha certeza

é a de que sempre que olhar pro céu terei as estrelas, protagonizando um belo

espetáculo e que, ao anoitecer, terei um singelo luar e no despontar de um novo

E no palco da vida terei uma plateia exclusiva para

me aplaudir em meio às contradições impostas pelo destino”. Ao visualizar esse cenário, que é um recorte do que acontece com tantas outras “Valérias”, é possível observar a diversidade de condições de acesso à educação do nosso País e das fragilidades do sistema educacional brasileiro, quando o documentário expõe as personalidades dos jovens de 13 a 17 anos, seus sonhos, expectativas com relação ao futuro salientando as desigualdades sociais cujas histórias são marcadas por uma realidade de pobreza e violência aliada a má distribuição de recursos públicos e de valorização da escola e dos profissio- nais da educação. Ainda no início do documentário, é visível o embate entre o discurso do aluno e o discurso do professor num processo de culpabilização ora de um lado, ora de outro. As indagações permeiam as cenas reflexíveis sobre o papel social da escola e a formação dos sujeitos aprendizes e suas condições de

dia terei novas esperanças

viver

acesso, permanência e sucesso escolar. O inciso I do artigo 3º da Lei 9394/96 da LDB expõe a igualdade de condições e permanência na escola 5 como um dos princípios do ensino. Contudo, a realidade apresentada nas entrevistas dos atores, alunos, professores e gestores das escolas de certa forma, anda na contramão da legislação brasileira, onde as dificuldades de acesso fazem com que os estudantes se desloquem a cidades vizinhas para a continuidade dos estudos contando com

a sorte de um transporte de quando em vez. Mais emocionante ainda é quando Valéria afirma que ninguém na escola acreditava que era mesmo ela quem compunha tais poemas, ou seja, mesmo que um sujeito do longínquo sertão nordestino, numa paisagem desoladora, onde a miséria e a pobreza estão institucionalizadas, é negado qualquer saber ou talento

5 BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF,

1996.

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acumulado. Da criminalidade à violência gratuita, as respostas à educação gritam de modo a desnudar o seu fracasso. Em sequencia do documentário, o foco passa por uma realidade de uma escola pública do rio de Janeiro, em Duque de Caxias, onde os meninos afirmam, na entrevista, roubar por ódio ou pela ausência de outra atividade. Um dos meninos

se torna alvo de polêmica entre as reuniões de conselho de classe de professores por ter uma característica marcante, é ao mesmo tempo inteligente e cativante, mas entregue à criminalidade. Desperta o carinho ao mesmo tempo a fúria do corpo docente, indicando que não há estrutura deste grupo em “driblar” com tais situações que são rotineiras na região e que, ao mesmo tempo, cria um sentimento de antagonismo no ambiente escolar.

Já a realidade trazida pela escola pública de Itaquaquecetuba, interior de São

Paulo, não diferente das demais, os problemas começam pelas faltas numerosas dos professores e pelo forte desinteresse dos alunos. Nesse quadro, atenta-se para personagens que merecem certo destaque. A menina Keila, por exemplo, narrando seus momentos de desânimo, assume seu desejo pela morte. Já outro menino manifesta, num discurso consciente, a vontade de ser padre e de estudar filosofia. Há ainda a professora – desses alunos – que promove, com dedicação, o projeto do fanzine e dá conta de uma atividade prazerosa e produtiva para todos. São momentos em que os alunos ganham voz e podem discutir, por conta de uma

relação de cumplicidade, sobre assuntos que lhe afligem. Para Freire, é na palavra que o homem se faz. Ao dizer a sua palavra o homem assume conscientemente sua essencial condição humana. Foi nessa perspectiva que no espaço promovido pela professora, mesmo desgastante, pois contrapõe o padrão metodológico, se

é que existia, de ensinar e aprender, os alunos se comunicavam e se produziam

em sua totalidade, humanizando-se mutuamente. O diálogo fenomeniza e histo- riciza a essencial intersubjetividade humana. Foram aqueles momentos em que os

adolescentes empoderados de seus saberes, participavam comunicando-se com o

outro, buscando também reencontrarem-se como sujeitos. No entanto, a mesma professora – apesar da pouca idade – sofre um grande desgaste em sala de aula e, por isso, se ausenta da escola e justifica suas faltas apresentado um discurso enriquecido de queixas e lamentos.

A realidade abordada por Jardim, trazendo ao cenário uma escola de elite

católica de São Paulo, mesmo com uma estrutura física absolutamente oposta às demais, esteticamente agradável, retrata uma disciplina rígida. O que se “esperaria”

de tal realidade é que seria apresentado um quadro de uma educação ideal, onde

o processo de escolarização da escola privada poderia sustentar o modelo de es-

cola que atendesse às necessidades. Contudo, nos depoimentos de adolescentes, evidenciou-se a sua condição de oprimido, onde, de alguma forma, assemelha-se com os demais, pois acaba sendo vítima de toda uma cultura desumanizadora. Tal situação gera grandes dificuldades em arquitetar as bases de um conjunto de valores éticos capazes de sustentar a personalidade para o convívio adulto.

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As entrevistas, por hora assustadoras, denunciam casos de depressão, de crises existenciais e até a violência escolar “velada” nesse ambiente escolar. A angústia expressada nas falas das alunas surpreende a quem assiste ao documentário, pri- meiro porque se espera a manifestação de rebeldia o que é normal no período e nessa condição social e econômica, segundo porque o expectador se colocando na

posição do ator e passa a refletir sobre o papel da família teoricamente constituída justamente para superar tais sentimentos comuns em grupos sociais vulneráveis

à violência e ao crime. Impressionante foi o conselho de classe dessa escola específica em que não foram gravadas as imagens, retratando ainda mais um sistema absolutamente

falho, em que o aluno é um cliente e a instituição serve aos interesses daquela população que paga pelo serviço. O propósito factual desse documentário não é somente relatar as fortes dife- renças existentes entre as escolas e os sistemas de ensino do país, mas demonstrar que o sistema educacional brasileiro é grave quando os problemas trazidos à cena são de origem do próprio sistema. Não há dúvida que devem ser considerados os fatores que envolvem a fase do público entrevistado nesse documentário, onde as mudanças físicas, psíquicas

e sociais são evidenciadas além, é claro, de ser esse o período em que o indivíduo

forma sua identidade a partir de seus valores e crenças, de suas expectativas e seus sonhos. Na contramão do papel do Estado, Jardim evidencia a descrença na educação, uma vez que o papel da escola se torna absolutamente expulsador de sonhos, de oportunidades onde a permissividade ante à criminalidade e à violência tanto física como afetiva, perpetuando a cultura da desumanização dos sujeitos. Para o Leonardo Boff (2005) a cultura da violência desumaniza a todos e é fruto de forças articuladas estruturalmente. Ele apresenta três eixos que fundamen- tam a origem e perpetuação da violência: Caos presente no processo cosmogênito desde a criação do mundo, quase sempre sob a ótica não generativa; segundo, a influência de uma cultura patriarcal, com a dominação do homem sobre a mulher assentada sobre mecanismos de violência e, por último, a cultura patriarcal usou da repressão, do terror e da guerra como forma de resolução de conflitos. Sob o ponto de vista de Edgard Morin que nos desafia a ler o mundo sob

a forma de helograma, ou seja, buscando na parte o todo e no todo a parte, os problemas vividos pela escola são reflexos dos problemas da contemporaneidade. Assim, qualquer tentativa de mudar a escola passará pela sua resignificação:

O ser humano é ao mesmo tempo singular e múltiplo. Dissemos que todo ser humano, tal como ponto de um helograma, traz em si o cosmo. Devemos ver

também que todo ser, mesmo aquele fechado na mais banal das vidas, constitui ele próprio um cosmo. Traz em si multiplicidades interiores, personalidades

virtuais, uma infinidade de personalidades quiméricas galáxias de sonhos e fantasmas (MORIN, 1993: 57).

Cada qual tem em si

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A instituição de ensino é, portanto, constituída e constituidora do modo moderno de vida, resultado dos processos de industrialização e urbanização que mudaram a face do mundo ocidental pós século XVIII. A crise da educação é a crise da escola, que é, de certa forma, a própria crise da modernidade e vice-versa. Qualquer perspectiva de modificação real da escola, ensina-nos MOLL (2000), passa pela sua resignificação como instituição social. Passa pela superação da assincronia de tempos, tão bem descrita pelos pedagogos espanhóis quando dizem que a escola é uma instituição do século XIX, com professores formados no século XX e preparando alunos para o século XXI.

Sem negar a tradição fundadora de qualquer instituição social, é preciso que nos questionemos profundamente acerca do sentido da escola para novas gerações de nossa sociedade, assim como nos questionemos acerca de outros cânones instituidores das formas de ser e de estar no nosso tempo, como família e as instituições democráticas (MOLL, 2001).

Ainda, nos aponta Guará (2006), é necessário repensar os tempos e espaços em que acontece a educação e a formação integral do sujeito, uma vez que implica numa reestruturação dos sistemas legal e jurídico. Necessariamente, devem ser consistentes e exequíveis, numa questão conceitual, na medida do surgimento do novo paradigma emergente cujo papel da escola seja efetivamente a contribuição para a formação integral do sujeito, respondendo às suas exigências e necessidades ante aos novos padrões sociais, políticos, econômicos e culturais da sociedade:

Na perspectiva de compreensão do homem como ser multidimensional, a edu-

cação deve responder a uma multiplicidade de exigências do próprio indivíduo

A educação, como constituinte do processo de

humanização, que se expressa por meio de mediações, assume papel central na organização da convivência do humano em suas relações e interações, matéria- prima da constituição da vida pessoal e social (GUARÁ, 2006, p. 16).

e do contexto em que vive. [

]

Há, pelo menos, uma nítida evidência no decorrer das entrevistas e da participação dos adolescentes no documentário, a de que a educação não lhes apresenta a oportunidade a que se propõe, promovendo o tal “fracasso” edu- cacional. Constata-se, então, a complexidade do fracasso escolar, na medida em

que envolve as dimensões políticas, históricas, socioeconômicas, ideológicas e institucionais, bem como dimensões pedagógicas em estreita articulação com o poder aquisitivo do seu corpo discente, juntamente às famílias a que pertencem. Uma estudante do Colégio Santa Cruz, localizado no Bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo, reconhece a dessemelhança entre sua instituição e as de periferia Ela expressa: “Na essência somos iguais, mas estamos submetidos a mundos ”

diferentes, que na realidade é um mesmo mundo

Nessa perspectiva, é possível

mapear o fracasso e o sucesso escolar onde exista ou não situação econômica favorável, esquecendo-se, nesse percurso, a real importância do papel da escola nos processos de desenvolvimento e aprendizagem dos estudantes.

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Mesmo que o fracasso seja a marca das más escolas públicas, justificado pelo desinteresse e indisciplina dos alunos, transforma em culpados as verdadeiras vítimas. As cenas do longa-metragem traduzem os problemas estruturais da educação pública centrados em gestão, qualificação e financiamento. A estrutura física ainda carece de fortes investimentos, pois ainda é notório as cores utilizadas nas pinturas de prédios escolares, predominantemente nos tons areia e marrom, causando as piores imagens do espaço em que a estética é imprescindível para o desenvolvimento humano. Da mesma forma, fica evidente a má formação dos professores e gestores, carentes de qualificação mínima. Enfim, uma escola com- placente com a formação de um exército de trabalhadores precarizados. Depoimentos fortes mostram uma jovem narrando como assassinou a facadas uma colega no colégio, e outros rapazes contam suas desventuras no mundo do crime, agredindo e assaltando. Mas o horror maior não está somente nos depoi- mentos daqueles que ficaram inseridos em locais onde a degradação social instalou uma cultura de morte e desvalorização da pessoa humana, ele está presente nas expressões dos entrevistados, num cenário de absoluta desolação e desesperança. Percebe-se a ausência, no longa, da abordagem sobre a participação da família junto às instituições, expandindo a crítica às diferentes lentes sobre a educação. Num ciclo vicioso, um adolescente carente de uma educação familiar é capaz de levar graves problemas para o ambiente escolar, assim como um sistema de educação com valores decadentes gera futuros problemas nas relações familiares. Essa ausência dos pais não é diagnosticada apenas nas regiões menos favorecidas economicamente, mas também nas áreas nobres de grandes cidades, por motivos distintos somados às angústias acumuladas desses adolescentes. A percepção final é a violência traduzida nas entrevistas dos adolescentes do Rio de Janeiro tendenciosos à criminalidade; a menina de São Paulo que narra com orgulho um assassinato cometido por ela; o desrespeito dos alunos, de todas as es- colas apresentadas, com o professor; o desrespeito dos professores com os alunos. Tais cenas não podem se constituir em imagens corriqueiras, fatalmente maculadas no sistema educacional público e privado brasileiro que acostumam e amansam – contraditoriamente – os olhos de quem as nota. O professor, neste país, ainda acredita que possui apenas duas opções: aceitar a reação dos alunos ou fugir – através de inúmeras faltas – se a instituição lhe permitir. Os alunos “vivem a pressa de saber quem são”. Jardim, ao apresentar o documentário “Pro dia nascer feliz” além da aborda- gem dos sistemas públicos e privados, traz uma importante contribuição quando explora com competência as diferenças regionais e de classe, as semelhanças, os extremos e as exceções, propondo uma reflexão acerca da afirmação dessas diferenças que ainda demarcam as relações sociais corroboradas pelas práticas pedagógicas promotoras das desigualdades no sistema educacional. Há que se compreender que a tarefa vital de um educador seja a permanente interpretação, reinterpretação e reflexão da sociedade, exatamente por atender a interesses de grupos dominantes, onde grande parcela não tem seus direitos efe-

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tivamente garantidos. Com toda complexidade e diversidade de nossa sociedade contemporânea, é necessário tornar a pedagogia mais política atuando na luta pela superação das injustiças, sem medo do discurso que defende a suposta neu- tralidade da escola, pois, quem se posiciona dessa maneira, engaja-se no projeto da não mudança. Por outro lado, ao problematizar o conhecimento, o professor torna-se, junto com seus alunos, mais crítico e, portanto, agente da mudança. Paulo Freire (2001) insistia que o primeiro livro a ser lido era o da realidade. “Ler o mundo” e “ler a palavra” implicava “reescrever o mundo”. Em outras palavras, transformá-lo. Quando o aluno toma consciência de que sua pobreza não resulta do destino, que forças perfeitamente conhecidas construíram a situação que vive, torna-se apto para fazer opções. Terá condições de escolher o caminho mais apropriado, para tornar-se sujeito da história e não objeto. É fundamental que o professor recupere a capacidade de espanto e indignação, levando para a sala de aula imagens que despertem paixão e emoção. O professor não pode ser movido somente pela inteligência, mas também pela emoção, como um intelectual transformador. Em suas trajetórias educativas, Freire sempre en- fatizava o papel fundamental do professor afirmando:

O outro saber de que não posso duvidar um momento sequer na minha prá-

tica educativa-crítica é o de que, como experiência especificamente humana,

a educação é uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do

conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmas-

caramento. Dialética e contraditória, não poderia ser a educação só uma ou só

a outra dessas coisas. Nem apenas reprodutora nem apenas desmascaradora

da ideologia dominante (FREIRE, 2001. p. 110).

Conclusão

O documentário cumpre com rigor a análise da realidade educacional bra- sileira e contextualiza nas dimensões públicas e privadas e ainda assume maior potencialidade se for visto não como um discurso pronto e acabado, mas como um alicerce para outras indagações, novas buscas, novos saberes. Ao mostrar um quadro discrepante entre a escola de elite e as escolas públicas, talvez, a partir dele, se possa pensar que a educação só funciona se for oportunizada para fomentar os sonhos ou a confirmação de superioridade social. A escola de elite parece fun- cionar melhor porque é um ponto de uma rede de proteção que funciona bem e “garante” ao aluno um futuro promissor. A escola pública só vai bem se permitir sonhar. Enquanto sinônimo de condenação social, os alunos, perspicazes, não se interessam por ela. Pressupõe-se que exista uma “sabotagem” educacional presente nas escolas destinadas aos populares. Na escola Santa Cruz, de São Paulo, onde a mensalidade beira os R$ 1.600 reais, são observadas as mesmas características com espaços de pichações, agressões, mal-estar com a escola, alunos sonolentos, desinteressados, repetentes.

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Num mesmo espaço público a escola se apresenta exatamente de acordo com os interesses de seus gestores e docentes e outra como pensam e são os alunos, característica de toda organização: o poder de fato é sempre uma média entre o que pretendem os administradores e o que permitem e desejam os administrados. No final do filme, Jardim faz uma breve retomada e conta um pouco sobre a

trajetória dos atores destacados no documentário após alguns anos de trajetória:

a aluna da escola pública abandona a poesia e os escritos, terminando como do-

bradora de roupas, enquanto a aluna do Santa Cruz figura como ingressante em engenharia na USP. Em sua entrevista nas gravações do documentário, a aluna tentar aludir uma preocupação com os pobres ao mesmo tempo em que não pode se mobilizar em prol de uma melhoria social porque isso implicaria abandonar sua rotina que inclui natação, yoga entre outras atividades que complementam sua exaustiva agenda. Relata que tem sorte por ter nascido numa família de clas-

se alta e precisa cuidar de seus interesses. Pressupõe que seu bem-estar não está umbilicalmente ligado à miserabilidade de tantos outros. O menino repetente e indisciplinado de Duque de Caxias, RJ, faz carreira no exército. A poetiza, lírica e sonhadora menina de Pernambuco faz curso normal para tornar-se professora; a de São Paulo, fugida da escola por ameaças de agres- são, embala um filho em seus braços acalentando o sonho em ser professora. Um grave problema do filme é seu esforço em não culpabilizar os dirigen- tes pelas condições da escola pública. Embora mostre alguns números, como

a quantidade de colégios sem banheiros no país (13,7 mil), sem água (1,9 mil),

alto índice de abandono até a 8ª série (41%), e o fato de metade dos alunos do fundamental não saberem escrever corretamente, a abordagem oculta culpados. Os dados sobre a política educacional, financiamento, currículo e outros pressupostos necessários à contextualização histórica estiveram ausentes na abor- dagem, uma vez que as informações permitem a origem de tamanha barbárie. Dessa forma, o filme alimenta o caos instaurado na educação uma vez que retrata os problemas educacionais sem apontar as responsabilidades dos sujeitos autores

e coadjuvantes da sua miséria educacional. Outro ponto é o fortalecimento do mito da boa escola particular. Embora foque uma escola em melhor estado ao lado de escolas públicas péssimas, ao compará-las somente com uma escola privada de elite o discurso sobre o produto oferecido de tal instituição. Não que essas instituições estejam blindadas do caos, mas em comparação com escolas públicas, fica evidente tamanha disparidade. Por outro lado, no seio de grandes redes públicas de educação, existem experiências bem sucedidas, escolas cujos indicadores superam as expectativas e colocam-se frente a muitas unidades privadas. Hoje, os indicadores expressos pelos sistemas de avaliação demonstram essa trajetória e constituem-se em cenários de experi- ências exitosas. Ao que pretende o diretor do documentário, mais que suscitar o debate, é

propor a reflexão e desacomodar os sujeitos, mas, sobretudo trazer à cena pública os sujeitos invisíveis tal como os relatos traduzidos na obra de Dimenstein (2006)

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quando retrata a vida de adolescentes num bairro de São Paulo, onde considera suas histórias de vida, histórias de humanos quase invisíveis. Fazendo uma ana- logia com o documentário Pro Dia Nascer Feliz, ambos expressam a condição de nossas crianças e adolescentes:

Além de agredirem ou se agredirem para, de algum jeito gritar “eu existo”, os quase invisíveis às vezes se materializam despertados por um detalhe – uma música, um professor, um quadro, um livro, uma dança, uma poesia, uma fotografia – estabelecendo uma relação de pertencimento com o mundo (DI- MENSTEIN, 2006. p. 09).

Os temas retratados no documentário, mesmo os pontos nevrálgicos, devem se constituir em postulados de estudos e pesquisas mais específicas apontando novos e possíveis itinerários para a educação brasileira, na medida em que o cenário político e econômico nacional apontam perspectiva de superação e de avanços significativos na área da educação. E quanto à escola, essa necessita se constituir em fronteira avançada de defesa dos direitos e forjar-se para se reconstituir e se redesenhar não somente no seu currículo, mas sobretudo se definir em sua es- trutura rígida e seletiva, democrática em seus processos de organização de seus tempos e espaços, superando a cultura seletiva que ainda legitima essa estrutura excludente. Experiências têm demonstrado que há iniciativas que transgridem a escola antipopular, e possibilitando uma outra escola possível, garantidora dos direitos ao desenvolvimento humano e à aprendizagem de todos e de cada um e contribuir para a felicidade das pessoas.

Referências

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DIMENSTEIN, Gilberto. O mistério das bolas de gude: Histórias de humanos quase invisíveis. São Paulo. Papirus. Campinas, 2006.

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MORIN, Edgard. Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez,

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Saberes locais e saberes globais. O olhar transdisciplinar. Rio de Janeiro:

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CARdoso, Romi Leffa; ChERuti, Luciana Josélia Corrêa; PontE, Marcia Kleemann de

WERNECK, Hamilton. Se Você Finge Que Ensina, Eu Finjo Que Aprendo. Porto Alegre. Vozes, 1992.

Data de submissão: 2012-10-19 Data do Aceite: 2012-10-22

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